terça-feira, abril 20, 2021

Ser ou não ser jogador de xadrez

Max Pomeranc

Jogada Inocente é o retrato de um menino de 7 anos, génio do xadrez: admirável estreia na realização de Steven Zaillian, o filme está, discretamente, disponível em streaming — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 março).

Consultamos a ficha de Jogada Inocente (Netflix) e ficamos a saber que é a história de um “génio do xadrez” com 7 anos de idade, surgindo identificado como do género de “filmes para toda a família”. Estranhamente, tal generalização parece limitada pelo facto de ser “recomendado para maiores de 13 anos”…
Não seria necessário, muito menos obrigatório, qualquer enquadramento crítico para apresentar o filme, mas é pena que esta pérola da produção americana de 1993 surja, assim, tão desprotegida. E tanto mais quanto Searching for Bobby Fischer (título original) é mesmo uma raridade: nunca foi lançado nas salas portuguesas, embora exista no mercado numa edição em DVD.
Seria interessante, por exemplo, recordar que estamos perante a estreia na realização de Steven Zaillian, nome essencial na história do cinema americano das últimas décadas, desde logo porque, no mesmo ano de Jogada Inocente, assinou o argumento de A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, trabalho que viria a valer-lhe um Oscar. Zaillian é ainda o criador (em parceria com Richard Price) de The Night Of (2016), uma das mais fascinantes séries de televisão que se fizeram neste século. Sem esquecer que é também o argumentista de um dos objectos fulcrais na dinâmica de produção da Netflix: O Irlandês (2019), de Martin Scorsese.
Bobby Fischer (1943-2008), lendário jogador de xadrez, surge, não exactamente como personagem, antes como ponto de fuga utópico do pequeno Josh Waitzking (figura verídica, prodígio juvenil do xadrez nos EUA). Invulgarmente dotado para os caminhos cruzados do tabuleiro de xadrez, Josh vai viver uma odisseia capaz de colocar à prova o equilíbrio do seu espaço familiar e a consistência dos seus estudos. No limite, este é um filme sobre a convergência (ou a contradição) de dois vectores: o processo de crescimento e integração num determinado tecido social e a procura de uma perfeição do jogo que tende a confundir-se com um ideal artístico.
Sem nunca ceder a qualquer visão paternalista ou pitoresca da infância, Zaillian revela-se um subtil observador da natureza humana, além do mais contando com um excelente elenco que inclui Max Pomeranc (na altura com 8 anos, no papel de Josh), Ben Kingsley (o professor de xadrez), Joe Mantegna e Joan Allen (os pais). Pormenor nada secundário: a direcção fotográfica tem assinatura de Conrad L. Hall (1926-2003), mestre absoluto da luz e da cor, aqui nomeado para um Oscar.

segunda-feira, abril 19, 2021

London Grammar, Opus 3

Há quem veja neles a herança muito directa dos Massive Attack... Ou, pelo menos, da sua vertente mais romanesca, aí onde a envolvência sonora nasce da sofisticação electrónica. A sugestão, musicalmente incorrecta, parece mais justa do que nunca. Sobretudo porque os London Grammar se mantêm alheios a qualquer atitude mais ou menos copista.
Depois de If You Wait (2013) e Truth Is a Beautiful Thing (2017), o terceiro álbum de estúdio, Californian Soil, é uma proeza invulgar de uma atitude criativa de quem dispensa qualquer caução do "ambiente" musical do presente, muito menos a obediência a qualquer moda. E se Dan Rothman (guitarras) e Dot Major (piano, bateria, etc.) são, obviamente, músicos de especial talento, a voz de Hannah Reid persiste como elemento fulcral da identidade desta magnífica aventura musical — eis a canção-título.

domingo, abril 18, 2021

Diana
— a princesa do povo televisivo [4/4]

Kristen Stewart / Spencer

Ao ganhar um Globo de Ouro pelo seu papel na série The Crown, Emma Corrin entrou na galeria de actrizes cuja carreira ficará para sempre marcada pela interpretação da Princesa Diana: a dimensão mítica da personagem envolve um desafio artístico e simbólico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 março).

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Dir-se-ia que, no domínio audiovisual, a personagem de Diana tem sido, sobretudo, a princesa do povo televisivo. Como se a sua repetida “reencarnação” no pequeno ecrã definisse e sustentasse uma espécie de ritual mediático, compulsivo e redentor. Em 2007, as teorias da conspiração em torno da morte de Diana encontraram mesmo expressão em The Murder of Princess Diana, produção de uma televisão por cabo dos EUA.
Em cinema podemos registar um filme menor, ainda que empenhado em escapar aos clichés mais simplistas: lançado em 2013, intitula-se apenas Diana. Trata-se, neste caso, de evocar a relação amorosa de Diana com Hasnat Khan, cirurgião paquistanês a trabalhar em Londres. Num registo de sereno intimismo, o filme dirigido pelo alemão Olivier Hirschbiegel distingue-se, pelo menos, pela sobriedade dos protagonistas: Naomi Watts interpreta Diana, estando o papel de Khan entregue a Naveen Andrews (na altura muito popular graças à sua participação na série Lost).
Entretanto, é caso para dizer que a saga continua. Assim, Diana vai reaparecer na quinta temporada de The Crown. Mantendo a estratégia de diversificação dos intérpretes principais, o elenco será renovado, com a personagem de Diana entregue à australiana Elizabeth Debicki — vimo-la, em 2020, em Tenet, de Christopher Nolan, o único “blockbuster” de verão que ainda passou nas salas; no papel da rainha, Imelda Staunton sucede a Olivia Colman.
Enfim, se o tratamento cinematográfico de Diana evoluir num sentido realmente original, talvez possamos dizer que as maiores expectativas apontam para um filme que terá como título o seu apelido de solteira: Spencer. A princesa será interpretada por Kristen Stewart, a talentosa actriz americana cuja carreira, incerta e irregular, continua assombrada pela imagem “juvenil” dos filmes da série Twilight. Sem esquecer, claro, que a realização pertence ao chileno Pablo Larraín, notável analista da ditadura de Augusto Pinochet (recordemos apenas o exemplo de Post Mortem, com data de 2010), cuja filmografia inclui esse filme prodigioso que é Jackie (2016), retrato de Jacqueline Kennedy, interpretada por Natalie Portman, outra figura feminina envolta numa mitologia muito peculiar.
A rodagem de Spencer iniciou-se em janeiro, sabendo-se apenas que o argumento, escrito por Steven Knight, se concentra num fim de semana, no início dos anos 90, em Sandringham House, residência particular de Isabel II — terá sido o momento em que Diana decidiu divorciar-se do Príncipe Carlos.

A IMAGEM: Herb Ritts, 1997

HERB RITTS
Elizabeth Taylor
Bel Air, 1997

quinta-feira, abril 15, 2021

Mick Jagger + Dave Grohl
— a verdade primitiva do rock'n'roll

Mick Jagger com a companhia de Dave Grohl: Eazy Sleazy aí está, uma canção nascida do interior da pandemia, sem paternalismos disfarçados de pedagogia, vogando numa energia vital sem outro destino que não seja a verdade orgânica da sua performance — rock'n'roll, sem mais, primitivo, visceralmente presente.
 
We took it on the chin
The numbers were so grim
Bossed around by pricks
Stiffen upper lips
Pacing in the yard
Youre trying to take the mick
You must think im really thick

Looking at the graphs with a magnifying glass
Cancel all the tours footballs fake applause
No more travel brochures
Virtual premieres
Ive got nothing left to wear

Looking out from these prison walls
You got to rob peter if you’re paying paul
But its easy easy everythings gonna get really freaky
Alright on the night
Soon it ll be be a memory youre trying to remember to forget

Thats a pretty mask
But never take a chance tik tok stupid dance
Took a samba class I landed on my ass
Trying to write a tune you better hook me up to zoom
See my poncey books teach myself to cook
Way too much tv its lobotomising me
Think ive put on weight
Ill have another drink then ill clean the kitchen sink

We escaped from the prison walls
Open the windows and open the doors
But its easy easy
Everything s gonna get really freaky
Alright on the night
Its gonna be a garden of earthly delights
Easy sleazy its gonna be smooth and greasy
Yeah easy believe me
Itll only be a memory youre trying to remember
To forget

Shooting the vaccine bill gates is in my bloodstream
Its mind control
The earth is flat and cold its never warming up
The arctics turned to slush
The second comings late
Theres aliens in the deep state

We’ll escape from these prison walls
Now were out of these prison walls
You gotta pay peter if you’re robbing paul
But its easy easy everything s gonna be really freaky
Alright on the night
Were all headed back to paradise
Yeah easy believe me
Itll be a memory you’re trying to remember to forget
Easy cheesy everyone sing please please me
Itll be a memory you’re tring to remember to forget

quarta-feira, abril 14, 2021

Raymond Cauchetier
— sob o signo da Nova Vaga

[ 1959 ]

As fotografias dos primeiros filmes de Jean-Luc Godard e François Truffaut, assinadas por Raymond Cauchetier, definem uma memória cinéfila em que a reportagem se cruza com os afectos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 março).

Eis uma imagem emblemática dos tempos heróicos da Nova Vaga francesa: Jean Seberg beija Jean-Paul Belmondo em cenário de rodagem de À Bout de Souffle (O Acossado), primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard. Ele exibe aquele misto de ingenuidade e fatalidade de quem refaz a iconografia clássica de Humphrey Bogart em tom parisiense. Ela é a musa redentora, ma non troppo, que vende o “New York Herald Tribune” nos Campos Elíseos (o nome do jornal está bordado na emblemática camisola de malha), desse modo impondo-se como ícone de um novo e amargo romantismo. Não por acaso, como muitas vezes acontece no cinema de Godard, há coisas para ler…
Estava-se em 1959. A fotografia pertence a uma fascinante galeria de momentos de rodagem de filmes que, em França, definiram novas formas de entender o cinema, desde logo a partir da sua fabricação — no mesmo ano, recorde-se, surgiram os também fundamentais Os 400 Golpes, de François Truffaut, e Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais.
Podemos associá-la a outros instantâneos com protagonistas da Nova Vaga. São imagens que se consolidaram como testemunhos em que o trabalho desenha o mapa da cinefilia e a história se confunde a mitologia. Exemplos? Godard a beijar Anna Karina durante a rodagem do seu filme seguinte, Uma Mulher É uma Mulher (1961); Jeanne Moreau, Henri Serre e Oskar Werner, protagonistas de uma utopia sem nome, a correr na ponte metálica de Jules e Jim (1962), de François Truffaut; outra vez Truffaut, a acender um cigarro a Françoise Dorléac, filmando La Peau Douce/Angústia (1964), talvez na zona de Lisboa, uma vez que uma parte do filme, coproduzido por António da Cunha Telles, foi rodado em Portugal… etc.

Uma Mulher É uma Mulher

Jules e Jim

La Peau Douce

Para lá das afinidades geracionais e cinéfilas, estas fotografias têm como ponto comum a assinatura de Raymond Cauchetier. Divulgada há poucos dias, a notícia do seu falecimento (a 22 de fevereiro, contava 101 anos) suscita uma revisitação apaixonada desses momentos que, de facto, são indissociáveis das imagens — e do imaginário — dos filmes que fizeram a Nova Vaga francesa, porventura o movimento com mais profundas e duradouras influências em cinematografias de todo o mundo.
O envolvimento de Cauchetier com a Nova Vaga — iniciado, precisamente, com À Bout de Souffle, a convite de Godard — é apenas um dos capítulos de uma existência em que as dificuldades materiais da infância e juventude (foi criado pela mãe, sem nunca ter conhecido o pai) se combinam com um genuíno espírito de aventureiro. Integrou a Resistência durante a ocupação alemã da França, tendo começado a fotografar na Indochina, enquanto elemento da Força Aérea francesa.
Raymond Cauchetier
Com um portfolio resultante de viagens a países como Vietname, Cambodja, Laos, Japão ou EUA, há nele um espírito de reportagem, sempre atento ao detalhe revelador, militantemente disponível para a variedade do factor humano — são notáveis de realismo e ternura as suas imagens de Hiroshima, obtidas na década de 50, ainda com muitas marcas da bomba atómica.
As fotografias de À Bout de Souffle e dos outros filmes da época resultam de um olhar em constante adaptação ao imponderável dos acontecimentos. Nessa medida, reflectem o espírito criador dos próprios filmes, distantes das regras tradicionais do trabalho de estúdio, assumindo as consequências das variações da luz e da imprevisibilidade dos lugares e das gentes.
Até aí, pode dizer-se que os actores e actrizes do cinema francês eram fotografados de duas maneiras: no final de cada plano de filmagem, num registo automático de “duplicação” da cena registada; ou em poses de riquíssima elaboração formal, cujo modelo de referência era o trabalho dos estúdios Harcourt (sempre activos, entenda-se, e continuando a produzir magníficos retratos). Através do trabalho de Cauchetier, a foto de rodagem passou a integrar a volatilidade dos momentos, cruzando a objectividade da reportagem com a cumplicidade dos afectos. Foi uma tarefa breve — Cauchetier abandonou o mundo do cinema em 1968, desiludido com os baixos salários de um fotógrafo de cena —, mas a sua sedução persiste, ampliada pelas camadas do tempo.

segunda-feira, abril 12, 2021

Diana
— a princesa do povo televisivo [3/4]


Ao ganhar um Globo de Ouro pelo seu papel na série The Crown, Emma Corrin entrou na galeria de actrizes cuja carreira ficará para sempre marcada pela interpretação da Princesa Diana: a dimensão mítica da personagem envolve um desafio artístico e simbólico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 março).

[ 1 ]  [ 2 ]

A 29 de julho de 1981, o casamento de Carlos, Príncipe de Gales e Lady Diana Spencer foi transmitido em directo para cerca de meia centena de países, tendo sido acompanhado por uma audiência global calculada em 750 milhões de espectadores (30 milhões no Reino Unido). Não admira que a apropriação da história de Diana, envolvendo a consolidação de uma imagem de recortes mitológicos, tenha sido, antes de tudo o mais, um fenómeno televisivo.
Logo em 1982, dois telefilmes americanos abordaram o casamento: Charles & Diana: A Royal Love Story (ABC) e The Royal Romance of Charles and Diana (CBS), com a personagem de Diana interpretada, respectivamente, por Caroline Bliss e Catherine Oxenberg. Nenhum deles ocupa um lugar destaque em qualquer história da televisão. E por uma razão muito básica: não passam de dramatizações vulgares, promovendo a noção pueril de que a agitação dos noticiários se confirma e, de alguma maneira, amplia na “dramatização” dos protagonistas e da sua intimidade.
Esta lógica foi acompanhando a evolução do casamento de Carlos e Diana, ecoando, “em paralelo”, as respectivas atribulações mais ou menos mediatizadas. O romantismo das origens deu lugar à purificação pela verdade. Assim, por exemplo, em 1993, cerca de um ano depois da separação do casal (o divórcio só seria oficializado em 1996), a NBC produzia um telefilme cujo título proclamava a necessidade de contar a “história verídica”: Diana: Her True Story tinha como protagonista Serena Scott Thomas (irmã mais nova de Kristin Scott Thomas).
Em 1994, a relação de Diana com James Hewitt surgiu tratada no livro Princess in Love, de Anna Pasternak. A sua adaptação daria origem, em 1996, a um telefilme homónimo (CBS) que terá tido a sua mais contundente apreciação crítica formulada pela própria protagonista, Julie Cox. Assim, em vésperas da primeira emissão do telefilme, declarou à revista People que nem sequer lera o livro: “Pensei que iria detestá-lo. Pensei que, se o lesse, iria ter muita dificuldade em encarar o argumento a sério.”

domingo, abril 11, 2021

Hilary Hahn em tom parisiense

Violinista americana, nascida em 1979, Hilary Hahn é, hoje em dia, uma referência de excelência. A ponto de apresentar agora um álbum, Paris (Deutsche Grammophon), que, sendo um objecto de pura satisfação pessoal, não deixa de ser um acontecimento realmente excepcional no mundo do violino.
Porquê Paris? As motivações têm tanto de cultural como de afectivo (não será a mesma coisa?):
— Poema para Violino e Orquestra, do romântico Ernest Chausson, é, de facto, a única obra composta por um francês (em 1896);
— Concerto para Violino nº 1, de Sergei Prokofiev, teve a sua primeira performance, em Paris, corria o ano de 1923;
— Duas Serenatas, do finlandês Einojuhani Rautavaara, foram compostas para Hahn, sendo das derradeiras obras do compositor (falecido em 2016); tratou-se de uma encomenda do maestro, também finlandês, Mikko Franck, sendo ele que dirige em todo este admirável registo a Orquestra Filarmónica da Radio France.
Sem hesitação, este é, desde já, um dos álbuns incontornáveis de 2021 — eis a faixa de abertura, isto é, a obra de Chausson.
 

June Newton / Alice Springs (1923-2021)

Auto-retrato, 1972

Notável retratista, as suas fotografias nascem de um olhar disponível para a singularidade da pose e a complexidade dos seres humanos: a australiana June Newton faleceu no dia 9 de abril, em Monte Carlo, Mónaco — contava 97 anos.
A sua carreira evoluiu em paralelo com a do marido, o grande Helmut Newton (1920-2004), sem que a criatividade de qualquer deles dependesse do trabalho do outro. De qualquer modo, regra geral, a partir dos anos 70, passou a assinar as suas imagens como Alice Springs.
Começou por ser modelo e actriz de teatro, tendo ganho um prémio de interpretação, na Austrália, para a melhor actroz de 1956. Dir-se-ia que o seu savoir faire como intérprete terá contribuído para a subtil teatralidade com que sabia encenar aqueles que retratava. O essencial da sua obra está preservado na Fundação Helmut Newton, em Berlim; em 1999, o casal publicou um livro com fotografias de ambos, intitulado Us and Them.
Brigitte Nielsen, 1990

Diana Vreeland, 1983

June fotografada por Helmut
Hotel Volney, Nova Iorque, 1972

>>> Obituário na Vanity Fair.
>>> Site oficial da Fundação Helmut Newton.

sábado, abril 10, 2021

St. Vincent
— novo teledisco de "Daddy's Home"

Depois do lyric video, aí está o teledisco de The Melting of the Sun — o novo álbum de St. Vincent, Daddy's Home, vai-se consolidando em imagens tecidas de precisão, drama e nostalgia.

quinta-feira, abril 08, 2021

A IMAGEM: Bruce Gilden, 2020

BRUCE GILDEN / Magnum
Revista Numéro
Dez. 2020

Diana
— a princesa do povo televisivo [2/4]

[ 2006 ]

Ao ganhar um Globo de Ouro pelo seu papel na série The Crown, Emma Corrin entrou na galeria de actrizes cuja carreira ficará para sempre marcada pela interpretação da Princesa Diana: a dimensão mítica da personagem envolve um desafio artístico e simbólico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 março).

[ 1 ]

Mesmo não esquecendo que a memória de Diana envolve componentes trágicas e romanescas ainda relativamente próximas, é um facto que as personagens da realeza há muito funcionam como uma espécie de “suplemento” artístico. E, há que reconhecê-lo, com especial eficácia nas cerimónias de atribuição de prémios.
Aquele ou aquela que interpreta uma dessas personagens, rei ou rainha, príncipe ou princesa, parece surgir “engrandecido” pela respectiva dimensão mitológica. Lembremos o exemplo de um filme tão convencional como O Discurso do Rei (2010), de Tom Hooper: o academismo do empreendimento não o impediu de ganhar quatro Oscars, incluindo o de melhor actor (Colin Firth) e melhor filme do ano, numa corrida em que, vale a pena lembrar, estavam envolvidos títulos tão singulares como A Rede Social, de David Fincher, e A Origem, de Christopher Nolan.
[ 1939 ]
A apetência cinematográfica pela personagem de Diana não pode ser desligada de um fenómeno que há muito pontua a produção de língua inglesa: a realeza britânica funciona como fonte de narrativas tanto mais sugestivas quanto parece ser sempre possível tratá-las através de registos muito diversos, da tragédia familiar ao melodrama. Para nos ficarmos por um exemplo lendário, recordemos a composição de Isabel I por Bette Davis no filme The Private Lives of Elixabeth and Essex (1939), de Michael Curtiz, entre nós chamado Isabel de Inglaterra.
Na arqueologia cinematográfica da Diana, será fundamental recordar A Rainha (2006), o filme de Stephen Frears sobre a conjuntura política, mediática e emocional vivida na sequência da morte de Diana. A esse propósito, quem se lembra de Laurence Burg?… É esse o nome de uma conselheira municipal de uma cidadezinha do nordeste francês que teve alguma notoriedade mediática como “sósia” daquela que a história consagrou como Princesa do Povo… Pois bem, Frears soube do facto e convidou-a para assumir a personagem de Diana no seu filme. Como todos os espectadores de A Rainha se recordam, Diana era, afinal, uma personagem absolutamente secundária. Central pelas implicações familiares, políticas e simbólicas da sua morte, mas secundária no sentido em que tudo se passava em torno de Isabel II (a sua composição valeu um Oscar a Helen Mirren). Seja como for, há no filme de Frears um dado que, agora, somos levados a reconhecer como premonitório: o argumento tem assinatura de Peter Morgan, o criador, também argumentista, de The Crown.

quarta-feira, abril 07, 2021

A iconografia da pandemia

Será que se pode dizer que existe uma iconografia específica da pandemia, por ela gerada e, num certo sentido, humanizada?
A foto está publicada no jornal Libération (5 abril), ilustrando uma entrevista ao sociólogo Alexis Spire sobre o novo sistema de relações dos cidadãos com os médicos — em jogo está o grau de confiança dessas relações e o seu cruzamento (ou colisão) com as relações com as figuras da cena política.

domingo, abril 04, 2021

St. Vincent no Saturday Night Live

A promoção do novo álbum de St. Vincent, Daddy's Home, passou agora pelo Saturday Night Live, numa edição apresentada por Daniel Kaluuya. São momentos de sofisticada sobriedade com as duas canções já divulgadas: Pay your Way in Pain e The Melting of the Sun.
 


Elizabeth King — 77 anos, 1º álbum

Uma história de mais de meio século pode ser contada em meia dúzia de linhas? Não... Digamos apenas que Elizabeth King, nascida em Grenada, Mississipi, começou a ser conhecida (e reconhecida) como uma voz do gospel através de Testify, single lançado em 1969, depois integrando o grupo The Gospel Souls entre 1970 e 1973. Que aconteceu, então, nos 48 anos seguintes? King retirou-se para tratar dos seus 15 filhos, continuando a cantar na igreja e num programa semanal de rádio dedicado ao gospel. Até que em 2019 a Bible & Tire Recording, de Memphis, editou Elizabeth King and The Gospel Souls, uma antologia de singles lançados na década de 70. Daí surgiu o convite para aquele que é, para todos os efeitos, aos 77 anos, o álbum de estreia de King: Living the Last Days aí está como um prodígio de energia espiritual e verdade artística — este é o tema título.
 

sábado, abril 03, 2021

António Silva, o português suave [3/3]

A Canção de Lisboa (1933), com Beatriz Costa

Foi homem de teatro e pioneiro da televisão, mas é na memória da comédia cinematográfica “à portuguesa” que a sua imagem persiste como fundamental referência artística e afectiva: 50 anos depois do seu falecimento, lembramos o actor António Silva — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 fevereiro).
[ 1 ] [ 2 ]

No caso de António Silva, a fascinante capacidade de explorar as nuances sociais das suas personagens talvez não seja estranha a uma história pessoal marcada pela consciência muito directa das diferenças e hierarquias sociais. De origem humilde, a sua biografia regista o facto de ter sido como empregado de comércio que foi conseguindo sustentar os estudos (Curso Geral de Comércio, segundo a designação da época), muito cedo envolvendo-se com o meio teatral — a sua estreia como profissional ocorreu em 1910, no Teatro da Rua dos Condes.
O teatro de revista, em particular, terá dado a António Silva, tal como a outros actores da sua geração, uma agilidade física e um gosto lúdico das palavras indissociáveis de um estado de permanente improvisação. Será exagero supor que os seus momentos mais emblemáticos são totalmente improvisados, mas basta lembrar algumas situações em que contracena com Vasco Santana — em A Canção de Lisboa (1933) e O Pátio das Cantigas (1942) — para sentirmos esse gosto por uma certa “instabilidade” da representação em que o diálogo mais elaborado parece impor-se de modo absolutamente instintivo.
Exemplo típico, há muito integrado na linguagem popular, é a expressão “Ó Evaristo, tens cá disto?”, de O Pátio das Cantigas: Vasco Santana, no papel de Narciso, guitarrista versátil mas sempre bêbedo, utiliza-a para provocar o muito sério António Silva, o Sr. Evaristo que gere a sua drogaria como um mundo à parte. Sem esquecer, claro, que por estes filmes passam mais alguns outros intérpretes fundamentais deste período, como Beatriz Costa, Ribeirinho ou Manuel Santos Carvalho.
O inevitável destaque de António Silva no universo da comédia não exclui, antes reforça, as suas primordiais qualidades dramáticas e melodramáticas. Podemos observá-las através de personagens interpretadas em filmes como As Pupilas do Senhor Reitor (1935), de Leitão de Barros, João Ratão (1940), de Jorge Brum do Canto, Amor de Perdição (1943), de António Lopes Ribeiro, Camões (1946), de Leitão de Barros, ou O Dinheiro dos Pobres (1956), de Artur Semedo.
São momentos de um contexto de produção que, ao longo desses anos, se foi decompondo. Como escreve Bénard da Costa: “(…) em 1956, governantes e governados já não pensavam em cinema. Pensavam na televisão, com Ano 1 em 1957.” Artisticamente, António Silva viveu esses tempos numa sugestiva duplicidade: foi o período em que, com o empresário Vasco Morgado, renovou o sucesso no teatro de revista (Viva o Luxo, Abaixo as Saias, Lisboa à Noite, etc.), ao mesmo tempo que surgia como pioneiro do fenómeno televisivo em muitas emissões de teatro, não poucas vezes, num registo típico dessa conjuntura técnica, emitidas em directo. Agora que temos as galas em directo da “Reality TV”, António Silva quase parece um extraterrestre do mundo mediático. Estranhamente ou não, sentimos por ele a mesma admiração e o mesmo carinho.

A IMAGEM: Steven Meisel, 2009

STEVEN MEISEL
Coco Rocha
Vogue / 2009

sexta-feira, abril 02, 2021

St. Vincent em família

Nina Simone, Marilyn Monroe, Joni Mitchell... Eis algumas das inspirações pessoais que Annie Clark cita na canção The Melting of the Sun. É uma galeria familiar que prossegue a divulgação do novo álbum de St. Vincent, Daddy's Home (14 maio) — ou como a nostalgia das referências não exclui a excelência da experimentação.
 
It's just the melting of the sun
(It's just the sun)
I wanna watch you watch it burn
(So watch it burn)
We always knew this day would come
(The day has come)
It's just the melting of the sun
 

A função da crítica [citação]

>>> O objectivo de qualquer comentário sobre a arte deveria ser nos nossos dias tornar as obras de arte — e, por analogia, a nossa própria experiência — mais, e não menos, reais para nós. A função da crítica devia ser mostrar como é o que é, ou mesmo que é o que é, em vez de mostrar o que significa.

in Contra a interpretação e outros ensaios
(tradução de José Lima)
ed. Gótica, Lisboa, 2004

segunda-feira, março 29, 2021

Diana
— a princesa do povo televisivo [1/4]

Emma Corrin, The Crown

Ao ganhar um Globo de Ouro pelo seu papel na série The Crown, Emma Corrin entrou na galeria de actrizes cuja carreira ficará para sempre marcada pela interpretação da Princesa Diana: a dimensão mítica da personagem envolve um desafio artístico e simbólico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 março).

Ao receber um Globo de Ouro, atribuído pela Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, consagrando a sua interpretação da Princesa Diana na quarta temporada da série The Crown, Emma Corrin agradeceu… à Princesa Diana. Segundo as palavras da actriz inglesa de 25 anos (tinha cerca de um ano e meio quando, em 1997, ocorreu o acidente fatal que vitimou Diana), a sua personagem ensinou-lhe “compaixão e empatia para lá de qualquer medida que pudesse imaginar.”
Corrin reconhecia, assim, que a herança de Diana, sendo histórica, é sobretudo de natureza mitológica. A partir de agora, para o melhor ou para o pior, a sua carreira de actriz vai existir marcada por essa componente “transcendental” que faz com que a personagem se aproprie da sua intérprete, sobretudo quando, como é o caso, ainda não possui uma filmografia (cinematográfica ou televisiva) que lhe confira uma identidade artística acima destas atribulações de “casting”.
Em paralelo com o seu trabalho em The Crown, Corrin compôs uma personagem também com curiosas ressonâncias simbólicas… mas as notícias quase não recordaram essa performance. Foi, aliás, a sua estreia em cinema, no filme Misbehaviour (2020) entre nós lançado como Mulheres ao Poder. O seu tema: o concurso de Miss Mundo de 1970, realizado em Londres. Combinando ironia e militância, o filme, realizado por Philippa Lowthorpe, evoca o modo como o evento ficou marcado pelos protestos organizados por um grupo de activistas do recém formado Movimento de Libertação das Mulheres; tentando atenuar as controvérsias que antecederam o espectáculo, envolvendo em particular a denúncia do apartheid na África do Sul, a organização promoveu mesmo a inscrição de duas representantes desse país, uma branca, outra negra… A concorrente branca era interpretada por Emma Corrin.

domingo, março 28, 2021

Cinema & psicanálise — um blog

Cinema e psicanálise.
Cinema "sobre" psicanálise?
Psicanálise para "explicar" os filmes?
Talvez um pouco de uma coisa e outra, mas apenas como adendas. O essencial envolve a ideia de que cinema e psicanálise podem pensar, e pensar-se, em conjunto. Mais do que isso: dir-se-ia que no seu trabalho de muitos paralelismos e cruzamentos, encontramos as marcas cronologicamente remotas, mas simbolicamente próximas, de convulsões que marcaram a transição dos séculos XIX/XX, desafiando o ser humano a repensar de forma radical o seu lugar no mundo — e, nessa medida, a sua relação com o outro.
O blog 'Cinema & Psicanálise', de Ana Belchior Melícias & Elsa Couchinho, nasce de tais cumplicidades, do desejo de conhecer que envolvem e promovem. As autoras são psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association, psicanalistas da Criança e do Adolescente, formadoras do Instituto de Psicanálise e apresentam uma proposta que vale a pena seguir: escrever sobre filmes celebrando a ancestral aliança entre "saber" e "sabor".

>>> Move-nos a paixão pela Psicanálise, esse espaço infinito e criativo de indagação e descoberta das motivações inconscientes. Em cada gesto. Em cada produção humana.
Na tela cinematográfica mergulhamos num plano tantas vezes próximo do onírico e emergimos sustentados pelo insight que o pensar psicanalítico permite.
Entre atmosferas, ritmos, paisagens, personagens e histórias, deixamo-nos tocar para que passem a fazer parte de nós, do nosso imaginário, enriquecendo narrativas, permitindo novas rêveries. Afinal, saber vem de sabor, assim como o pensamento advém da emocionalidade.
Este blog é um espaço intermediário, nem de cinema, nem de psicanálise, mas do diálogo e da articulação plástica entre cinema e psicanálise...

>>> Cinema & Psicanálise.

Tune-Yards, ritmo e vertigem

O duo californiano Tune-Yards (tUnE-yArDs, se quisermos ser perfeccionistas), está de volta com o álbum que tinha sido anunciado por Hold Yourself. É o quinto registo de estúdio de Merrill Garbus e Nate Brenner, depurando a sua paleta rítmica na procura de uma vertigem admiravelmente consolidada no teledisco de hypnotized — realizado por Tee Ken Ng, aqui está aquela que é, desde já, uma das obras-primas de 2021.
 

sábado, março 27, 2021

António Silva, o português suave [2/3]


Foi homem de teatro e pioneiro da televisão, mas é na memória da comédia cinematográfica “à portuguesa” que a sua imagem persiste como fundamental referência artística e afectiva: 50 anos depois do seu falecimento, lembramos o actor António Silva — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 fevereiro).
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Filmes como O Leão da Estrela não foram necessariamente os vertiginosos sucessos com que alguma demagogia cultural tenta, por vezes, caracterizar a “idade de ouro” da produção portuguesa, alimentado a ideia, esteticamente simplista e economicamente cega, de que basta “repetir” as suas fórmulas para devolver ao cinema português o seu alienado paraíso financeiro.
Essa ilusão foi pedagogicamente desmontada por João Bénard da Costa num livro cujo título sarcástico, O Cinema Português Nunca Existiu (ed. CTT, 1996), resume a necessidade de encararmos tal passado com algum pragmatismo. Lembrando o período dessa suposta “idade de ouro” (1931-1954), refere a crença obstinada segundo a qual os filmes portugueses seriam, por essa altura, “a árvore das patacas”; e lança a sua evocação através de um esclarecedor aviso prévio: “Nada mais falso.”
O que, entenda-se, não invalida o reconhecimento desses mesmos filmes como elementos de uma sedutora nostalgia cinéfila, também ela suave e calorosa, reveladora de duas meritórias virtudes comunicacionais. Desde logo, a existência de um colectivo de actores com competências decorrentes de uma importante formação teatral, muitos deles de popularidade granjeada nos palcos do teatro de revista; em O Leão da Estrela, por exemplo, para lá da também admirável Laura Alves, encontramos ainda Milú, Maria Eugénia, Maria Olguim, Óscar Acúrcio, Fernando Curado Ribeiro e Erico Braga (intérprete do rival, adepto do Porto). Depois, a capacidade de integrar elementos da actualidade social, discretamente realistas, muitas vezes trabalhados em forma de caricatura.
A esse propósito, vale a pena recordar que o entusiasmo de Anastácio pelo seu clube decorre de um contexto desportivo em que o Sporting, com os lendários Cinco Violinos — Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano —, se impôs como equipa de espectacular eficácia atacante. Em 1947, ano da estreia de O Leão da Estrela, o Sporting ganhou o campeonato nacional (feito que repetiu nas duas épocas seguintes), marcando 123 golos em 26 jogos (era uma prova para 14 equipas), 43 dos quais com assinatura de Peyroteo.
1947 foi também o ano de lançamento de Capas Negras e Fado, História de uma Cantadeira, dois filmes fundamentais na consolidação de Amália Rodrigues como figura mítica do fado. Dir-se-ia que, pelo menos no domínio da ficção cinematográfica, Amália e António Silva (que também participa no segundo destes títulos) existem como rostos complementares, capazes de definir a identidade paradoxal, também mitológica, do ser (ou não ser) português em meados do século XX.
A cantadeira do fado protagoniza uma eterna demanda de felicidade, sempre assombrada pela crueldade de um “destino” castigador; por sua vez, Anastácio triunfa como variação bem disposta de um modo de ser personagem para quem a vida social existe como permanente jogo “teatral” em que cada um experimenta os poderes, e também os inevitáveis limites, da sua condição de classe. Será curioso e, por certo, sintomático referir que a intriga de O Leão da Estrela, a par de outros títulos da época (por exemplo, O Pai Tirano, dirigido por António Lopes Ribeiro em 1941), coloca em cena personagens que, por diversas razões, vivem situações em que simulam uma “nobreza” a que, de facto, não pertencem.

sexta-feira, março 26, 2021

Bertrand Tavernier (1941 - 2021)

[ Wikipedia ]

O seu legado tem tanto de artístico como de cinéfilo, conciliando o gosto clássico e o estudo do classicismo: o cineasta francês Bertrand Tavernier faleceu no dia 25 de março em Sainte-Maxime, na região de Var — contava 79 anos.
Se consultarmos o blog que mantinha no site do Instituto Lumière, sugestivamente intitulado DVDblog, poderemos compreender a sua visão do mundo (cinematográfico & humano): uma militante paixão pelas mais variadas formas de classicismo, sempre aberta à diversidade dos géneros e narrativas, sem nunca desvalorizar a importância crucial do trabalho dos actores.
Entre os seus títulos mais emblemáticos podemos citar, por exemplo: O Relojoeiro (1974), porventura uma das adaptações de Georges Simenon mais fiéis ao seu espírito de irrisão; 'Round Midnight/À Volta da Meia Noite (1986), celebração do mundo do jazz com Dexter Gordon como actor principal; e A Princesa de Montpensier (2010), fresco histórico sobre as convulsões da França no século XVI.
Nascido em 1941, a sua visão do cinema francês não foi, de modo algum, a de um "herdeiro" da Nova Vaga, o que, entenda-se, não quer dizer que se tenha definido como "adversário" dos seus autores e filmes. Tavernier assumia-se, afinal, como discípulo de um certo classicismo que incluía autores como Jean Renoir, Jacques Becker ou, na fronteira da Nova Vaga, Jean-Pierre Melville. A sua visão está exemplarmente expressa na sua obra monumental "Viagens pelo Cinema Francês".


>>> Obituário no jornal Le Monde.

quarta-feira, março 24, 2021

Para descobrir Garrett Bradley

Lançado na plataforma Prime Video, Time, de Garrett Bradley, é um filme admirável que está na corrida dos Oscars, com uma nomeação para melhor documentário — uma prodigiosa reflexão & montagem sobre o ser afro-americano, fazendo o retrato de uma mulher que tenta libertar o marido preso, condenado a uma sentença de 60 anos.
Lembremos, para já, apenas alguns factos:
— com Time, Bradley foi a primeira mulher afro-americana a ganhar o prémio de realização, na secção de documentários, do Festival de Sundance.
— o seu filme America (2019), sobre as imagens históricas, ou a história das imagens, de afro-americanos passou no Curtas Vila do Conde.
— em Alone (2017), no mesmo registo didáctico e austero, Bradley tratou o caso de uma mulher que quer casar com um homem que está na prisão: trata-se de uma produção do New York Times, aqui reproduzida.
 

terça-feira, março 23, 2021

Veneza, memória e esquecimento
— Luchino Visconti

Björn Andrésen e Dirk Bogarde

Inspirando-se em Thomas Mann, Luchino Visconti filmou e celebrou a criação da beleza como acto puramente espiritual: Morte em Veneza surgiu há 50 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 fevereiro).

[ Relógio D'Água ]
A adaptação cinematográfica de Morte em Veneza, de Thomas Mann, está a fazer meio século. Mais exactamente, o filme de Luchino Visconti, resultante de uma coprodução italo/francesa, estreou-se em Itália a 1 de março de 1971, tendo chegado aos ecrãs portugueses cerca de seis meses mais tarde.
Guardo memórias quentes da sua descoberta e das fascinantes clivagens críticas que o enquadraram. São memórias tanto mais persistentes quanto acompanhei tais clivagens ainda apenas como leitor. O debate de ideias estava longe de se esgotar numa qualquer dicotomia (hoje em dia frequente nas redes pouco “sociais”) entre o “bom” e o “mau”, os “prós” e os “contras”. Dos entusiastas aos reticentes, todos pareciam coincidir no reconhecimento e, num certo sentido, na partilha de uma convulsão muito mais radical porque, no limite, civilizacional: colhendo a herança plural de Mann, Visconti situar-se-ia num ponto em que a arte oscilava entre a celebração redentora da beleza e a rendição a um pessimismo quase suicidário. De um lado, o factor humano como linguagem de um sagrado sem deuses; do outro, o seu metódico desaparecimento como coisa irrisória, sem futuro.
Apesar do seu esquematismo “psicológico”, o clássico retrato tripartido de Visconti ajuda a enquadrar todo esse abalo interior: aristocrata, marxista e homossexual, ele foi, de facto, o admirável criador de uma obra capaz de integrar todas as componentes da sua identidade, sem nunca se encerrar em qualquer determinismo demonstrativo, muito menos panfletário. Talvez se possa considerar que Morte em Veneza é um filme que nos ajuda a ligar a dimensão trágica de Rocco e os seus Irmãos (1960) à cruel secura melodramática do título final, O Intruso (1976), porventura um pouco como podemos ler a narrativa inspiradora de Mann, publicada em 1912, como um breve ensaio ainda tocado pela frieza realista da escrita de Os Bunddenbrook (1901), mais tarde refeita na vertigem trágica de A Montanha Mágica (1924).
Há uma maneira cristalina de dizer tudo isto. Ou, pelo menos, uma palavra cujo poder mágico ilumina e assombra a escrita de Mann, impregnando a visão de Visconti. Essa palavra, Veneza, parece desafiar a “morte” do título, aceitando-a, devorando-a e, por fim, transcendendo-a. Como se Veneza fosse um supremo cenário de vida para reconhecer a inabalável proximidade da morte. A saber: a incurável fragilidade de qualquer ser humano.
É essa a saga de Gustav von Aschenbach, o compositor que contempla os fantasmas de Veneza, lentamente envolvida pela peste, como quem encontra a partitura incompleta da sua biografia. Como se o reencontro com a serenidade de viver fosse um modo de aguardar o chamamento da morte.
Demorei muito a compreender, sem dúvida a sentir, que os maneirismos de Dirk Bogarde na personagem de Ascenbach estão longe de se poder reduzir a um “excesso” de significação imposto pelo narcisismo do actor. Acontece que esse narcisismo começa na personagem: é um gesto de defesa de quem sabe estar a representar uma experiência teatral, tendencialmente solitária, a que não vai sobreviver.
Tadzio (Björn Andresen), o adolescente que Aschenbach devora com o olhar, surge como objecto do seu desejo, sem que seja possível reduzi-lo a um mero signo “erótico”. Nesta perspectiva, a passagem das décadas leva-me a supor que há uma cumplicidade, não apenas temporal, entre Morte em Veneza e O Último Tango em Paris. Lançado no ano seguinte, 1972, também realizado por um italiano, Bernardo Bertolucci, O Último Tango emerge das ilusões libertárias da década anterior, refazendo o mapa das sexualidades: a promessa de um pueril êxtase sem fronteiras desemboca, exausta, no reconhecimento da vulnerabilidade de qualquer utopia humana.
Aschenbach, enfim, existe através da procura obstinada da beleza como matéria ideal do trabalho artístico. Como ele diz ao seu amigo Alfred (Mark Burns), “os artistas são como caçadores, visam no escuro.” Mais do que isso: “Não conhecem o seu alvo e não sabem se o atingiram.” Daí a sua convicção filosófica: “A criação da beleza e da pureza é um acto espiritual.” Escusado será dizer que a maravilhosa insensatez de tudo isto tem dificuldade em sobreviver na vertigem virtual dos nossos ecrãs. Esquecemos Veneza.

>>> Trailer de Morte em Veneza + Venezia [National Geographic].



Jon Batiste, piano & etc.

Em 2020, Jon Batiste compôs a canção We Are para o movimento Black Lives Matter. A sua energia surge agora confirmada (e expandida) num álbum homónimo, através de uma celebração R&B que circula, sem esforço, do gospel à pop. Porventura mais conhecido de todos nós através de The Late Show (CBS), com Stephen Colbert, Jon Batiste prolonga assim a sua versatilidade, do piano ao canto, com a imprescindível contribuição da sua banda, Stay Human. Para lá das canções, atenção a Movement 11', dois minutos de puro piano.
Eis o teledisco de I Need You e os sons de Movement 11'.



domingo, março 21, 2021

sexta-feira, março 19, 2021

António Silva, o português suave [1/3]

O Leão da Estrela (1947)

Foi homem de teatro e pioneiro da televisão, mas é na memória da comédia cinematográfica “à portuguesa” que a sua imagem persiste como fundamental referência artística e afectiva: 50 anos depois do seu falecimento, lembramos o actor António Silva — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 fevereiro).

O cinema português, tantas vezes mal conhecido, porque reduzido a clichés sem fundamento, não deixa de ter a sua pequena mitologia popular. Pequena não por qualquer menoridade artística, antes porque sempre lhe faltou a estabilidade duradoura de uma indústria e a consistência económica do respectivo mercado. António Silva é uma das poucas personalidades que há muito conquistou um lugar de eleição nessa mitologia. Agora que se assinala o cinquentenário do seu falecimento (a 3 de março de 1971, contava 84 anos), podemos dizer que o seu nome superou épocas e modas, sendo conhecido e reconhecido como símbolo alegre e contagiante da arte de ser português — uma espécie de português suave.
Recordemos o exemplo modelar de O Leão da Estrela, realização de Arthur Duarte que a Tóbis Portuguesa produziu e lançou em 1947. António Silva interpreta aquela que é, muito provavelmente, a sua mais célebre personagem cinematográfica: o impagável Anastácio, adepto ferrenho do Sporting que anda desesperado para conseguir um bilhetinho de qualquer preço ou qualidade, “de pé, sentado, de cócoras…”, para ir ver o jogo da sua equipa com o Porto, a disputar na casa do rival.
Eram tempos de paixões futebolísticas bem diferentes das que envolvem as análises televisivas dos nossos dias, sob a pedagógica vigilância do VAR. Aliás, O Leão da Estrela inclui a figura emblemática, afinal realista, de Pedro Moutinho, devidamente identificado logo no genérico de abertura como “o locutor da Emissora Nacional”, a interpretar, como se diz, o seu próprio papel… Num tempo em que a televisão não passava de uma risonha utopia (as emissões regulares começariam uma década mais tarde), a vivência social do futebol era, assim, essencialmente radiofónica.
Em 1942, em O Costa do Castelo, também sob a direcção de Arthur Duarte, António Silva protagonizara já uma cena exemplar dedicada ao fenómeno radiofónico. Aí, na pele do enérgico Simplício Costa, apresentava à sua atónita e maravilhada comunidade familiar um instrumento ultra-moderno, coisa que “canta, mas não é canário”, aparelho revolucionário que emite sons e, pormenor importante, não se chama rádio, mas sim… telefonia: “Isto abre-se, liga-se à parede e é uma torneira a deitar música.” Como o aparelho demora a estabilizar, Simplício apresta-se a esclarecer: “São as bobinas que ainda estão frias.” Mais exactamente: “A onda passa na lâmpada e recua; daí, o som quer sair e não pode… Tem de aquecer o carburador, é o que é!”