Objecto central no interminável combate com os limites do nosso imaginário de redenção, eis um álbum sempre presente, capaz de refazer o labirinto do tempo para o tempo em que, ciclicamente, o reencontramos — Nevermind, segundo registo de estúdio dos três que os Nirvana editaram, foi lançado no dia 24 de setembro de 1991, faz hoje 30 anos.
Há um pré-Nevermind, como há um pós-Nevermind. Como se fossem, de facto, os últimos dias de um estado de corpo e espírito que, em 1994, a morte de Kurt Cobain, aos 27 anos, viria sancionar com a crueldade da história e a imponderabilidade do mito — a sua mensagem sem mensageiro foi filmada por Gus Van Sant no bem chamado Last Days (2005).
Dizer que toda a revolta do grunge desagua aqui, expondo o seu radicalismo e a sua inconsolável fragilidade, é pouco. No limite, canções como Come As You Are ou Lithium são breves e contundentes antologias de uma ideia de adolescência que já integrou o fantasma de morte que, desde o início, a assombrava — Smells Like Teen Spirit, ontem e hoje. Poupemos a invocação do futuro.
Saborosa ditadura da estatística: o teledisco de Smells Like Teen Spirit, dos Nirvana, superou no YouTube os mil milhões de visualizações [Stephen Thompson, NPR].
De facto, os números não falam por si. Citemos apenas um exemplo esclarecedor: Shape of You, de Ed Sheeran, consegue um valor que multiplica esse número por 4,5 vezes (exacto: mais de 4,5 mil milhões de visualizações) e, salvo melhor opinião, não creio que, apesar da inteligência caótica do planeta, haja algures algum heróico cidadão capaz de proclamar, com convicção, que se pode estabelecer qualquer paralelismo, seja de que natureza for, entre uma e outra canção...
Fiquemo-nos pela noção vaga, mas suavemente reconfortante, de que há uma tribo virtual gerada pela composição de Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl, produzida por Butch Vig. Tema de abertura do segundo álbum dos Nirvana, Nevermind (1991), Smells Like Teen Spirit incrustou-se no imaginário musical das últimas décadas como bandeira relutante do grunge — I feel stupid and contagious... —, proeza obviamente indissociável do teledisco assinado por Samuel Bayer. Em boa verdade, participamos dessa cumplicidade tribal através de uma vertigem de negação que a própria canção consagra no final, silenciando-se através do grito derradeiro de Cobain.
Eis um filme literalmente à flor da pele: Kurt Cobain: Montage of Heck, de Brett Morgen (em período limitado de exibição em várias salas), convoca-nos para uma viagem às memórias trágicas de Kurt Cobain (1967-1994), a partir de uma impressionante colecção de materiais de arquivo — filmes de super 8, cassetes com montagens sonoras (como aquela que dá o título ao filme), desenhos, páginas de diário, recortes de imprensa, etc.
Pode, até certo ponto, ser definido como um clássico filme biográfico. Ao mesmo tempo, porém, face à profusão de elementos que tem para trabalhar, Morgen sabe fazer-nos sentir que Cobain, com e sem os Nirvana, foi uma personagem paradoxal, e paradoxalmente assombrada, da sua própria angústia — um ser à deriva, embora consciente da sua errância, procurando, afinal, conquistar o poder de escrever/cantar a irredutibilidade da sua própria história.
Concebido a partir dos materiais cedidos por Courtney Love, com produção executiva de Frances Bean Cobain (filha de Kurt e Courtney, nascida em 1992), Kurt Cobain: Montage of Heck consegue essa proeza rara de lidar com um ser a que se colou uma poderosa mitologia, retirando-lhe as redundâncias, devolvendo-o à terra — é um puro e precioso documentário que nos ensina a compreender que documentar não é "reproduzir" uma história já adquirida, mas sim consolidar, pacientemente, com rigor e amor, a sua possibilidade.