Mergulhando 25 anos no tempo, encontramos este Don’t Make Me Wait como um dos dois temas do single “double A side” que o projeto Bomb The Bass lançava como sucessor da muito bem sucedida estreia com Beat Dis, editado poucos meses antes. Mais que Megablast, o outro tema do single, onde se propunha uma lógica de extensão natural do modelo da composição feita de corte e colagem de elementos sobre uma matriz house, este Don’t Make Me Wait expressava contudo uma ponte para com um passado (então) recente da história da club culture, revisitando num quadro em que a house redefinia rumos, alguns ecos do som electro que esteve associado à cultura hip hop (e às expressões visuais do breakdance) de meados dos oitentas.
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sábado, agosto 31, 2013
No verão de há 25 anos... (3)
Mergulhando 25 anos no tempo, encontramos este Don’t Make Me Wait como um dos dois temas do single “double A side” que o projeto Bomb The Bass lançava como sucessor da muito bem sucedida estreia com Beat Dis, editado poucos meses antes. Mais que Megablast, o outro tema do single, onde se propunha uma lógica de extensão natural do modelo da composição feita de corte e colagem de elementos sobre uma matriz house, este Don’t Make Me Wait expressava contudo uma ponte para com um passado (então) recente da história da club culture, revisitando num quadro em que a house redefinia rumos, alguns ecos do som electro que esteve associado à cultura hip hop (e às expressões visuais do breakdance) de meados dos oitentas.
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sexta-feira, agosto 30, 2013
Uma canção para o verão (2013.21)
Concluímos hoje mais uma série de canções escolhidas para ir ouvindo ao longo do mês de agosto (tradição que aqui já se instalou desde 2008)... E a fechar fica uma viagem no tempo até 1967, e a uma canção marcante da discografia de Françoise Hardy, num "filme" televisivo da época. Aqui fica Volià.
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Repoisções de verão:
'How I Ended This Summer' (2010)
Nem sempre o verão é terreno de calor... Mesmo com praia, a latitude a que a história se conta pode pedir mais que um calção e uma toalha. É o caso. Estamos na península de Chukotka. No extremo nordeste da Rússia, o mar ártico a Norte, o Alasca a Leste... Estamos em concreto numa ilha, afastada de tudo e todos onde além dos ursos polares e das trutas pouco mais encontramos senão dois habitantes. E é em volta dos dois que o realizador Alexei Popogrebsky faz nascer em How I Ended This Summer (título traduzido para inglês) um filme que, sem procurar caminhos do postal documental, mostra como sabe olhar o espaço para dele fazer mais que apenas o “fundo” cénico em volta do qual evolui uma narrativa.
A paisagem é desolada, mas imponente. Dos olhares sobre o mar, as falésias de xisto, as praias pedregosas, a tundra a câmara mostrando-nos não apenas as formas, mas também o sentido de solidão, de isolamento e, sobretudo, distância, que a paisagem sugere. É assim, longe, que vivem dois homens. Não sabemos há quanto tempo ali estão, mas depreendemos que, por ali, as temporadas de trabalho não se medem ao ritmo da semana em clima urbano, com horário das nove às cinco e as folgas logo a seguir. Ali trabalha-se ininterruptamente, dormindo entre tarefas. E só não é de sol a sol porque, em pleno verão ártico, o sol não se põe nunca, tocando por minutos a linha do horizonte para voltar logo depois a subir... Nesta região estão instalados alguns postos de observação meteorológica cujas observações permitem recolher dados sobre as alterações climáticas. Mas não há uma agenda ecologista no texto. Vemos apenas que o dia a dia daqueles dois homens vive de incessantes medições em estações e dados de telemetria, que enviam de tantas em tantas horas para uma estação maior, supomos que no continente... Não falam dos fins a que se destinam os valores que colhem. De resto, só os vemos a ditar números. Nem sabemos bem do quê. Pressão atmosférica? Temperatura? Albedo?... O certo é que pouco resta aos dois senão o cumprir dessa rotina, ocasionalmente com pontos de fuga nas horas vagas.
Eles são Gulybin (interpretado por Sergei Puskepalis) e Danilov (Grigory Dobrygin). O primeiro um veterano já conhecedor do espaço, do trabalho e transformado em servo de uma rotina que não ousa romper, a mais séria das suas infrações sendo ocasionais passeios de barco a uma laguna onde pesca trutas. O segundo é mais jovem, supomos que ainda estudante universitário (está ali com o fim de escrever um ensaio com o título do próprio filme), e mora nos antípodas do comportamento do primeiro. Agarra-se a um radar como se fosse um carrocel, usa brinco, ouve rock’n’roll por uns headphones que raramente esquece quando sai da estação. O que esquece, por vezes, são os cartuchos da espingarda que não deve nunca deixar no armário quando se afasta um pouco, não vá ter um encontro imediato com um urso... Que, pelo que o mais velho conta, não são coisa fofinha de peluche e já mataram um colega numa campanha anterior.
How I Ended This Summer pode refletir sobretudo sobre a mutação de comportamentos que o isolamento por vezes desencadeia. Mas o seu foco está antes na forma como, afastados dos lugares onde a população em massa vive, dois homens podem ser, cada qual, o paradigma de uma Rússia. Uma, vergada a regras e conservadora. Uma outra mais desafiante, mas que não parece ter rumo definido. Mas tudo isto sem conotações políticas face ao poder vigente. Isso daria (e dará certamente) outros filmes...
A paisagem é desolada, mas imponente. Dos olhares sobre o mar, as falésias de xisto, as praias pedregosas, a tundra a câmara mostrando-nos não apenas as formas, mas também o sentido de solidão, de isolamento e, sobretudo, distância, que a paisagem sugere. É assim, longe, que vivem dois homens. Não sabemos há quanto tempo ali estão, mas depreendemos que, por ali, as temporadas de trabalho não se medem ao ritmo da semana em clima urbano, com horário das nove às cinco e as folgas logo a seguir. Ali trabalha-se ininterruptamente, dormindo entre tarefas. E só não é de sol a sol porque, em pleno verão ártico, o sol não se põe nunca, tocando por minutos a linha do horizonte para voltar logo depois a subir... Nesta região estão instalados alguns postos de observação meteorológica cujas observações permitem recolher dados sobre as alterações climáticas. Mas não há uma agenda ecologista no texto. Vemos apenas que o dia a dia daqueles dois homens vive de incessantes medições em estações e dados de telemetria, que enviam de tantas em tantas horas para uma estação maior, supomos que no continente... Não falam dos fins a que se destinam os valores que colhem. De resto, só os vemos a ditar números. Nem sabemos bem do quê. Pressão atmosférica? Temperatura? Albedo?... O certo é que pouco resta aos dois senão o cumprir dessa rotina, ocasionalmente com pontos de fuga nas horas vagas.
Eles são Gulybin (interpretado por Sergei Puskepalis) e Danilov (Grigory Dobrygin). O primeiro um veterano já conhecedor do espaço, do trabalho e transformado em servo de uma rotina que não ousa romper, a mais séria das suas infrações sendo ocasionais passeios de barco a uma laguna onde pesca trutas. O segundo é mais jovem, supomos que ainda estudante universitário (está ali com o fim de escrever um ensaio com o título do próprio filme), e mora nos antípodas do comportamento do primeiro. Agarra-se a um radar como se fosse um carrocel, usa brinco, ouve rock’n’roll por uns headphones que raramente esquece quando sai da estação. O que esquece, por vezes, são os cartuchos da espingarda que não deve nunca deixar no armário quando se afasta um pouco, não vá ter um encontro imediato com um urso... Que, pelo que o mais velho conta, não são coisa fofinha de peluche e já mataram um colega numa campanha anterior.
How I Ended This Summer pode refletir sobretudo sobre a mutação de comportamentos que o isolamento por vezes desencadeia. Mas o seu foco está antes na forma como, afastados dos lugares onde a população em massa vive, dois homens podem ser, cada qual, o paradigma de uma Rússia. Uma, vergada a regras e conservadora. Uma outra mais desafiante, mas que não parece ter rumo definido. Mas tudo isto sem conotações políticas face ao poder vigente. Isso daria (e dará certamente) outros filmes...
PS. Este texto é a adaptação de um post anteriormente publicado no Sound + Vision
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quinta-feira, agosto 29, 2013
Uma canção para o verão (2013.20)
Já na reta final da série que escolhemos este ano de canções para ouvir ao longo de agosto, fica mais um olhar de verão que não corresponde aos paradigmas habitualmente imaginados para os dias de calor. Nem festa, nem luz, nem praia... Chama-se Summertime Sadness e foi um dos temas apresentados no alinhamento do álbum de estreia de Lana del Rey editado no ano passado. Aqui ficam as imagens.
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Lana del Rey,
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Música para ouvir em dias quentes (12)
Discos para ouvir em tempo de Verão... Este texto integra a série 'Para ouvir na praia', que por estes dias tem sido publicada no DN.
Foi em inícios dos anos 80, num documentário realizado por Peter Greenaway, que Philip Glass descreveu de forma magistral o deliciosos paradoxos que podem habitar na forma como as pessoas vivem a sua música. “ Há quem goste porque é barulhenta, e quem goste porque é rápida, há quem goste porque é muito clássica, há quem goste porque não é clássica, há quem goste porque soa a música indie e quem goste porque acha que não soa a música indie”... Algo desencantado com o panorama da música clássica em meados de 70 (numa altura em que Glass encontrava o seu eureka ao som de Einstein on The Beach), Simon Jeffes, um multi-instrumentista britânico de formação clássica e viajado pelo mundo (por “culpa” da itinerância do trabalho do pai) resolveu criar uma banda diferente que, como poucos projetos musicais, assimilou esta mesma capacidade em jogar em frentes aparentemente contrárias de que falava Glass.
Estreados em disco em 1976, editaram em 1987 Signs of Life, um quarto álbum que, mais ainda que todos os anteriores, consegue libertar-se da releção mais evidente com certas geografias, cruzando latitudes e longitudes, diluindo-as num corpo com alma global, com referências musicais que vão da folk aos minimalistas. Instrumental, a música da Penguin Cafe Orchestra sempre desafiou as tentativas de rotulagem, nem encaixando na world music, nem na pop nem na clássica, entre todas colhendo boas ideias.
Foi em inícios dos anos 80, num documentário realizado por Peter Greenaway, que Philip Glass descreveu de forma magistral o deliciosos paradoxos que podem habitar na forma como as pessoas vivem a sua música. “ Há quem goste porque é barulhenta, e quem goste porque é rápida, há quem goste porque é muito clássica, há quem goste porque não é clássica, há quem goste porque soa a música indie e quem goste porque acha que não soa a música indie”... Algo desencantado com o panorama da música clássica em meados de 70 (numa altura em que Glass encontrava o seu eureka ao som de Einstein on The Beach), Simon Jeffes, um multi-instrumentista britânico de formação clássica e viajado pelo mundo (por “culpa” da itinerância do trabalho do pai) resolveu criar uma banda diferente que, como poucos projetos musicais, assimilou esta mesma capacidade em jogar em frentes aparentemente contrárias de que falava Glass.
Estreados em disco em 1976, editaram em 1987 Signs of Life, um quarto álbum que, mais ainda que todos os anteriores, consegue libertar-se da releção mais evidente com certas geografias, cruzando latitudes e longitudes, diluindo-as num corpo com alma global, com referências musicais que vão da folk aos minimalistas. Instrumental, a música da Penguin Cafe Orchestra sempre desafiou as tentativas de rotulagem, nem encaixando na world music, nem na pop nem na clássica, entre todas colhendo boas ideias.
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quarta-feira, agosto 28, 2013
Uma canção para o verão (2013.19)
São suecas, chamam-se Icona Pop e este ano deram que falar quando o mundo finalmente descobriu I Love It, que na verdade é já canção de 2012. Antes mais tarde que nunca, de facto! Mas hoje recuamos um pouco no tempo para recordar a canção com a qual as descobrimos por aqui. É este Manners.
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Discos para ouvir em dias quentes (11)
Discos para ouvir em tempo de Verão... Este texto integra a série 'Para ouvir na praia', que por estes dias tem sido publicada no DN.
É claro que já se falava em músicas do mundo há muitos anos. E tinham já feito história tanto as edições de gravações de música étnica lançadas pela Chant du Monde como, entre nós, se reconhecia o mérito das recolhas de Giacometti. Mas enquanto fenómeno discográfico de maior amplitude, e com nome novo (chamou-se-lhe então world music) a abertura dos mercados a outras geografias sonoras chegou em finais da década de 80. E curiosamente conheceu importante contribuição na expressão de paixão (e consequente mediatização) de três nomes vindos de terrenos pop/rock: Paul Simon (que grava Graceland, na África do Sul, em 1986), Peter Gabriel (que descobre novos horizontes ao trabalhar na banda sonora de A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, em 1988) e David Byrne, que entre as últimas gravações dos Talking Heads e o arranque definitivo de uma carreira a solo, lança as bases de uma editora entregue à sua admiração pelas músicas do mundo: a Luaka Bop.
E como não há melhor chefe como aquele que sabe dar o exemplo, Byrne editou em 1989 um álbum a solo que, juntamente com duas antologias de música brasileira, inauguravam o catálogo da Luaka Bop. Chamou-lhe Rei Momo, nele apresentando canções de alma pop, mas em franco diálogo com formas latino-americanas, como o mambo, a cumbia, o bolero ou o cha cha cha, e contando com colaboradores como Herbert Viana ou Celia Cruz.
É claro que já se falava em músicas do mundo há muitos anos. E tinham já feito história tanto as edições de gravações de música étnica lançadas pela Chant du Monde como, entre nós, se reconhecia o mérito das recolhas de Giacometti. Mas enquanto fenómeno discográfico de maior amplitude, e com nome novo (chamou-se-lhe então world music) a abertura dos mercados a outras geografias sonoras chegou em finais da década de 80. E curiosamente conheceu importante contribuição na expressão de paixão (e consequente mediatização) de três nomes vindos de terrenos pop/rock: Paul Simon (que grava Graceland, na África do Sul, em 1986), Peter Gabriel (que descobre novos horizontes ao trabalhar na banda sonora de A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, em 1988) e David Byrne, que entre as últimas gravações dos Talking Heads e o arranque definitivo de uma carreira a solo, lança as bases de uma editora entregue à sua admiração pelas músicas do mundo: a Luaka Bop.
E como não há melhor chefe como aquele que sabe dar o exemplo, Byrne editou em 1989 um álbum a solo que, juntamente com duas antologias de música brasileira, inauguravam o catálogo da Luaka Bop. Chamou-lhe Rei Momo, nele apresentando canções de alma pop, mas em franco diálogo com formas latino-americanas, como o mambo, a cumbia, o bolero ou o cha cha cha, e contando com colaboradores como Herbert Viana ou Celia Cruz.
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David Byrne,
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terça-feira, agosto 27, 2013
Uma canção para o verão (2013.18)
Foi um dos “mistérios” que fizeram correr tinta na imprensa musical de então. Seria ou não George Michael a voz que se escutava na versão de Jive Talkin’, um original dos Bee Gees, que nesse 1989 era editado num single sob a designação Boogie Box High... Afinal era mesmo, numa colaboração pontual com este projeto de um primo seu que, na verdade, pouco marcou para lá desta canção.
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Discos para ouvir em dias quentes (10)
Discos para ouvir em tempo de Verão... Este texto integra a série 'Para ouvir na praia', que por estes dias tem sido publicada no DN.
Depois das Supremes ou de Martha and The Vandellas, e bem antes das Spice Girls, do girl power e dos sucedâneos que se seguiram, houve uma girl band a dar que falar entre o panorama da música pop dos oitentas. Formadas em 1979 em Londres por três velhas colegas (e amigas) dos dias de escola que eram claras seguidoras dos acontecimentos em clima punk, as Bananarama começaram por contribuir com coros ou participações especiais em concertos de nomes como os The Jam, Monochrome Set ou Iggy Pop. Viviam então por cima da sala de ensaio de antigos membros dos Sex Pistols e com a sua ajuda gravaram a maquete de Aie a Mwana, canção em swahili que levaram à ronda das editoras, de lá regressando com um acordo editorial (e um primerio single, lançado em 1981). O arranque de carreira mereceu ainda a ajuda complementar de uma colaboração no single de 1982 T’ain’t What You Do (It’s the Way That You Do It) dos Fun Boy Three, uma banda entretanto nascida da separação dos The Specials.
Em 1983, depois de dois singles de sucesso – Really Saying Something (onde os Fun Boy Three participaram em jeito de retribuição) e Shy Boy – o álbum de estreia Deep Sea Skiving, com capa com sabor a maresia, confirmava as potencialidades de uma visão pop que, nos anos seguintes se afastaria de terrenos pós-punk para rumar a uma carreira de sucesso mainstream. Este primeiro disco é contudo uma pequena pérola que vale a pena (re)descobrir.
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segunda-feira, agosto 26, 2013
Uma canção para o verão (2013.17)
Chama-se Iggy Azaela e é um nome para seguir com atenção. De origem australiana esta rapper lançou uma primeira mixtape em 2011 e prepara-se para editar em breve o seu primeiro álbum de estúdio. Work é um dos singles de uma curta discografia que promete. Aqui ficam as imagens.
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Reposições de verão: 'Alamar' (2009)
Há duas maneiras bem distintas para vermos Alamar, documentário de Pedro González-Rubio que correu o circuito de festivais entre 2009 e 2010. Ou limitando-nos a contemplar o espaço de fuga e liberdade que as imagens colocam pela nossa frente. Ou procurando saber afinal quem são aquelas pessoas, o que as levou até ali e o que as experiências que vivem à nossa frente representarão depois de lido ‘The End’ quando chegar a hora dos créditos finais.
Na verdade pouco ficamos a saber para lá do que vemos. E o que vemos? Vemos um casal que teve uma breve relação da qual nasceu um filho. Ela vive num apartamento em Roma. Ele numa cabana sobre estacas (e com as ondas a passar por baixo) num atol a 35 quilómetros da costa mexicana, já em pleno mar das Caraíbas. O pequeno Natan vai passar uns tempos com o pai. Durante um verão acorda com o mar e os animais por perto, respira o calor sobre as águas do recife, vive da pesca (com o pai e o avô), come a barracuda e a lagosta que apanham...
Sob um registo documental, acompanhando todavia bem de perto as várias figuras em cujas vidas entramos momentaneamente, Alamar vive na fronteira entre uma noção de retrato de realidade e a construção de uma narrativa que, pela presença da câmara (que parece invisível), necessariamente ganha contornos de construção narrativa.
Se nos deixarmos encantar pela sucessão de quadros visuais, naquele ritmo lento como o do marulhar das ondas que deixam a rebentação para lá do recife e não chegam à ilhota no centro do atol onde vive o pai de Natan, então Alamar é uma experiência de tranquila libertação (sobretudo para nós, encaixados nas rotinas de vivências urbanas), o olhar sobre o paraíso perdido que é o Banco Chinchorro podendo até levantar um debate social e ecológico sobre até onde devemos agir quanto ao estado semi-selvagem em que a vida ali se faz. A placidez da relação que se estabelece entre pai e filho, o aprender dos modos da vida longe da cidade, a facilidade com que o pequeno fala espanhol e a beleza pura de uma paisagem naturalmente desarrumada e arrebatadora são argumentos que conquistam o olhar. É certo que nunca ficaremos a saber mais sobre a relação entre o pai e a mãe do pequeno protagonista, que visita afinal é esta, se foi experiência pontual ou se repetirá no futuro e de que forma agirá no pequeno ao regressar a Roma... Confesso que, mesmo sem saber quase nada, a contemplação dos raros episódios de liberdade e o fulgor tranquilo das imagens que envolvem as personagens foram suficientes para fazer de Alamar uma bela experiência de cinema. No fundo, não poderemos, mesmo perante um documentário, imaginar nós mesmos o que falta à história tal como fazemos em tantos filmes de ficção?
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sexta-feira, agosto 23, 2013
Uma canção para o verão (16)
O disco sabe a verão e o teledisco foi rodado numa praia. Falamos de When I'm With You, um dos singles extraídos de Crazy For You, aquele que em 2010 foi o álbum de estreia dos californianos Best Coast. Aqui ficam as imagens.
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A minha cidade: Biel (Suíça)
Hoje passamos por Biel, na Suíça. A foto e as palavras são de Hugo Moura, a alma por detrás do projeto musical Mourah, que tem novo (e belíssimo) disco, do qual aqui falaremos muito em breve.
Cidade cosmopolita de Biel/Bienne de 50.000 habitantes, oficialmente bilingue (60% falam alemão, 40% são francófonos) uma cidade que não faz sonhar ao primeiro olhar, mas vendo de mais perto, propõe uma vida à escala humana, onde a bicicleta é rainha, onde cada um desfruta de um conforto ímpar, próprio ao pais organizado e prospero que é a Suíça. Uma cidade que oferece muitos bares e lugares de arte para o seu tamanho relativamente pequeno. Uma cidade longe do bling-bling de Genebra ou Zurique. É uma cidade de artesanato, obreiros, onde o chamado Hayek criou o império Swatch e, em consequência, disso devolveu ao pais o primeiro lugar de exportação de relógios do mundo.
Quando uma pessoa sente vontade de novos horizontes, basta apanhar um barco e dar um passeio no lago da cidade e ver as pequenas aldeias e vinhas à volta a desfilar. Permite sonhar outros horizontes, mais espaçosos, menos confortáveis, mais vibrantes talvez. Biel/Bienne é uma cidade que permite não pensar nela como uma cidade, ou melhor, permite pensar noutras cidades sem se sentir infiel.
Cidade cosmopolita de Biel/Bienne de 50.000 habitantes, oficialmente bilingue (60% falam alemão, 40% são francófonos) uma cidade que não faz sonhar ao primeiro olhar, mas vendo de mais perto, propõe uma vida à escala humana, onde a bicicleta é rainha, onde cada um desfruta de um conforto ímpar, próprio ao pais organizado e prospero que é a Suíça. Uma cidade que oferece muitos bares e lugares de arte para o seu tamanho relativamente pequeno. Uma cidade longe do bling-bling de Genebra ou Zurique. É uma cidade de artesanato, obreiros, onde o chamado Hayek criou o império Swatch e, em consequência, disso devolveu ao pais o primeiro lugar de exportação de relógios do mundo.
Quando uma pessoa sente vontade de novos horizontes, basta apanhar um barco e dar um passeio no lago da cidade e ver as pequenas aldeias e vinhas à volta a desfilar. Permite sonhar outros horizontes, mais espaçosos, menos confortáveis, mais vibrantes talvez. Biel/Bienne é uma cidade que permite não pensar nela como uma cidade, ou melhor, permite pensar noutras cidades sem se sentir infiel.
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quinta-feira, agosto 22, 2013
Uma canção para o verão (15)
Com formação nos espaços da música clássica, Kelley Polar foi uma das maiores revelações da década dos zeros no espaço da canção eletrónica. Hoje recordamos Chrysanthemum, um tema que, inicialmente editado no formato de single, acabaria depois integrado no alinhamento do seu segundo álbum, I Need You To Hold On While The Sky Is Falling, de 2008.
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Discos para ouvir em dias quentes (9)
Discos para ouvir em tempo de Verão... Este texto integra a série 'Para ouvir na praia', que por estes dias tem sido publicada no DN.
Não é difícil encontrar canções da obra dos Pet Shop Boys que sirvam que nem uma luva aos calendários de verão. Do festim pop de um Go West à melancolia para noite quente de um Being Boring, a obra desta dupla que soma já 29 anos de vida discográfica cruzou-se em muitas ocasiões com as sensações de celebração festiva que associamos muitas vezes às noites de verão (sendo que não descuidaram nunca a inteligente utilização das palavras em quaisquer destas aventuras estivais). Ao procurar um álbum dos Pet Shop Boys para este ano ouvir na praia poderíamos passar pela elegância de um Behaviour (1990) ou pelo apelo dançável do novo Electric (2013). Mas apontemos a memória a 1996 e a um álbum que assimilou a luz e os sabores da cultura latina para fazer... canções pop.
Na verdade já em 1988, em Domino Dancing, o duo Neil Tennant / Chris Lowe tinha ensaiado um breve flirt de verão com temperos da música latino-americana. Mas em Bilingual foram mais longe, alargando esses mesmos diálogos a todo o alinhamento (bem coerente) de um álbum. Nascido depois de uma digressão sul-americana, Bilingual estende ainda a abordagem latina dos Pet Shop Boys aos domínios da própria língua, algumas das canções sendo, de facto, bilingues, juntando o inglês ao espanhol e ao português - aqui em concreto com Se A Vida É (That’s The Way Life Is), canção que foi inclusivamente editada como um dos quatro singles extraídos deste álbum.
Não é difícil encontrar canções da obra dos Pet Shop Boys que sirvam que nem uma luva aos calendários de verão. Do festim pop de um Go West à melancolia para noite quente de um Being Boring, a obra desta dupla que soma já 29 anos de vida discográfica cruzou-se em muitas ocasiões com as sensações de celebração festiva que associamos muitas vezes às noites de verão (sendo que não descuidaram nunca a inteligente utilização das palavras em quaisquer destas aventuras estivais). Ao procurar um álbum dos Pet Shop Boys para este ano ouvir na praia poderíamos passar pela elegância de um Behaviour (1990) ou pelo apelo dançável do novo Electric (2013). Mas apontemos a memória a 1996 e a um álbum que assimilou a luz e os sabores da cultura latina para fazer... canções pop.
Na verdade já em 1988, em Domino Dancing, o duo Neil Tennant / Chris Lowe tinha ensaiado um breve flirt de verão com temperos da música latino-americana. Mas em Bilingual foram mais longe, alargando esses mesmos diálogos a todo o alinhamento (bem coerente) de um álbum. Nascido depois de uma digressão sul-americana, Bilingual estende ainda a abordagem latina dos Pet Shop Boys aos domínios da própria língua, algumas das canções sendo, de facto, bilingues, juntando o inglês ao espanhol e ao português - aqui em concreto com Se A Vida É (That’s The Way Life Is), canção que foi inclusivamente editada como um dos quatro singles extraídos deste álbum.
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quarta-feira, agosto 21, 2013
Uma canção para o verão (14)
Hoje damos a volta ao globo para (re)descobrir uma canção que chega do outro lado do mundo, em concreto da Nova Zerlândia. Falamos dos Ruby Suns que em 2008 editaram Sea Lion, certamente um dos melhores discos com berço perto das águas do Pacífico que nos foram dados a escutar aqui nas margens do Atlântico. There Are Birds, que hoje recordamos, integrava o alinhamento desse álbum.
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Discos para ouvir em dias quentes (8)
Discos para ouvir em tempo de Verão... Este texto integra a série 'Para ouvir na praia', que por estes dias tem sido publicada no DN.
Uma das mais curiosas consequências da revolução que a música de dança trouxe ao panorama da música popular em finais dos anos 80 foi um redespertar de atenções para o jazz para além dos seus circuitos mais habituais. E pouco depois de expressões como a house, acid house ou chill out saírem das suas vivências noturnas para as estações de rádio e os circuitos dos discos, as primeiras manifestações de interesse pela descoberta de diálogos com o jazz entre as novas gerações de músicos e seus ouvintes ganhou forma através de fenómenos como o acid jazz, os terrenos do rare groove (que procurava fontes de inspiração mais obscuras) e, já nos anos 90 ou os estimulantes cruzamentos com o hip hop que nos deram discos de referência de nomes como os Us3, Guru ou A Tribe Called Quest.
A verdade é que o que então se semeou deixou hábitos, influenciou novos músicos e criou públicos. E quando em finais dos anos 90 emergiu uma nova corrente de criadores de ambientes cool com eletrónicas, houve quem chamasse o jazz para alargar os horizontes da sua música. Um exemplo desse tempo pode ser recordado entre os primeiros títulos da obra do DJ e produtor belga Sven Van Hees. Editado em 1999, o álbum Gemini (o seu segundo longa-duração) é um suave festim feito de ambientes cool onde as eletrónicas desenham cenários e as formas ganham vida sob um claro piscar de olho a heranças escutadas no jazz.
Uma das mais curiosas consequências da revolução que a música de dança trouxe ao panorama da música popular em finais dos anos 80 foi um redespertar de atenções para o jazz para além dos seus circuitos mais habituais. E pouco depois de expressões como a house, acid house ou chill out saírem das suas vivências noturnas para as estações de rádio e os circuitos dos discos, as primeiras manifestações de interesse pela descoberta de diálogos com o jazz entre as novas gerações de músicos e seus ouvintes ganhou forma através de fenómenos como o acid jazz, os terrenos do rare groove (que procurava fontes de inspiração mais obscuras) e, já nos anos 90 ou os estimulantes cruzamentos com o hip hop que nos deram discos de referência de nomes como os Us3, Guru ou A Tribe Called Quest.
A verdade é que o que então se semeou deixou hábitos, influenciou novos músicos e criou públicos. E quando em finais dos anos 90 emergiu uma nova corrente de criadores de ambientes cool com eletrónicas, houve quem chamasse o jazz para alargar os horizontes da sua música. Um exemplo desse tempo pode ser recordado entre os primeiros títulos da obra do DJ e produtor belga Sven Van Hees. Editado em 1999, o álbum Gemini (o seu segundo longa-duração) é um suave festim feito de ambientes cool onde as eletrónicas desenham cenários e as formas ganham vida sob um claro piscar de olho a heranças escutadas no jazz.
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