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terça-feira, outubro 09, 2012

A mão que dá é a mão que tira


Há poucas semanas a Secretaria de Estado da Cultura anunciava, na sala principal da Cinemateca Portuguesa, um programa conjunto com o Ministério da Cultura com vista à firmação de uma literacia do cinema nas escolas. Chamou-lhe Plano Nacional de Cinema e é, no geral, uma boa ideia, o programa de filmes agendados dando uma ideia da diversidade da linguagem cinematográfica, das formas abordadas às suas origens geográficas (e línguas cujas culturas assim representa) e atento ao público alvo a que se destina (e a temas e a espaços de identificação capazes de sugerir a empatia).

Formar públicos para o cinema é, num tempo em que a televisão generalista quase abdicou de o mostrar e numa era em que as formas de comunicação (via Internet, sobretudo) cedem espaço ao que é rápido, ao imediato, ao fragmentário, ao ‘soundbyte’, torna-se assim uma tarefa não apenas útil mas também necessária. Requer, primeiro, a habituação a um espaço audiovisual de duração maior que exige tempo e atenção. E, depois, a todo um progressivo domínio sobre códigos visuais, verbais, narrativos e contemplativos, que não esgotarão certamente os efeitos da sua ginástica numa sala de cinema. E por aí adiante, descobrindo depois cinematografias, autores, formas de ver e pensar o lugar onde estamos e aquilo que somos.

Como é que o mesmo Governo que promove um plano de formação de novos públicos para o Cinema é o mesmo que, depois, permite o ceifar de uma pequena parcela de um serviço que serve os públicos que o cinema já tem? Vítima dos cortes (e é sabido que alguns terão mesmo de ser feitos), o serviço de legendagem electrónica da Cinemateca Portuguesa (que permitia o visionamento de títulos estrangeiros exteriores ao próprio arquivo da instituição e, assim, assegurar o importante papel divulgador de um cinema sem fronteiras que cabe a uma instituição como esta) foi suspenso. Afetando já o ciclo dedicado a Lisandro Alonso (em curso) e outros títulos já agendados para este mês.

Como se pensa o patamar um de um processo e, ao mesmo tempo, se “corta” um outro mais além? Não faz tudo parte do mesmo saco? O da fomentação da cinefilia como expressão cultural do nosso tempo. Espaço de retrato e reflexão da diversidade de que é feito o nosso mundo?

Há um filme iraniano, de Abbas Kiarostami, no Plano Nacional de Cinema. Tem por título Diz-me Onde Fica a Casa do Meu Amigo, data de 1987 e vai ser mostrado aos alunos do sexto ano. Curiosamente, na Cinemateca de agora, na era das legendas silenciadas, a não haver já uma cópia previamente legendada, era filme que, muito provavelmente, nem seria projetado...

PS. Podem ler aqui a notícia sobre o corte do programa de legendagem eletrónica da Cinemateca.

sexta-feira, maio 11, 2012

E agora querem ressuscitar os músicos?


Imaginem que uma respeitada sala essencialmente dedicada à música clássica anunciava, para a época seguinte, uma Sinfonia Nº 2 de Mahler com o próprio “herr” Mahler na sala ou um programa para piano chamando para a salva final de aplausos nada mais nada menos que o “pai” da ideia de recital para o instrumento: Franz Liszt?... Ah, e resta dizer que falaríamos da temporada 2012/13... E sem recurso a uma qualquer máquina do tempo. Só mesmo encolhendo os ombros e dizendo... “disparate”...

Porque é então menos disparate a ideia de, para assinalar os dez anos de cena do musical We Will Rock You, estar prometida a encenação de uma “aparição” de um Freddie Mercury tecnologicamente criado (atenção que não é holograma) no palco do londrino Dominion Theatre? Usando uma tecnologia semelhante à que há pouco tempo recriou a figura de Tupac Shakur num dos palcos de Coachella, um Freddie “virtual” estará em palco dia 14.

É sabido que os “mortos” vendem música. Lembramo-nos do que aconteceu recentemente com Michael Jackson e Amy Winehouse... Ou agora com os Beatie Boys, cujas vendas semanais saltaram de 4 para 55 mil discos nos dias que se seguiram à morte de Adam Yauch...

Lembro-me de, nos anos 90, haver uma ideia de uma digressão nos EUA com temas de Elvis em palco com a sua imagem projetada num ecrã sobre o palco. E lembro-me de viver, com uma sensação de profundo desconforto (sobretudo pela força da verdade que há num ícone), o concerto dos elementos dos Doors com Ian Astbuury em cena e uma foto de Jim Morrisson sobre o palco no Pavilhão Atlântico...

Os casos 2Pac e Freddie Mercury podem abrir uma perigosa caixa de Pandora. E criar uma nova sensação. Como se não bastasse já a falta de real entusiasmo (e verdade) nas digressões de reunião para nostalgia ver, imagino já a vaga das digressões de ressurreição... Haverá músicos e promotores com “lata” para cobrar bilhetes para ver concertos de bandas à metade vivos à metade virtualmente recriados em cena? Talvez... Assim como imagino que haverá quem pague para ver e de lá saia a dizer aos amigos que foi giríssimo.

Faço aqui ficção científica, claro. 2Pac “regressou” num festival. Freddie surgirá numa sessão especial num musical. Mas um cenário em que estas ideias se vulgarizem levanta um debate ético que os próprios músicos deveriam, antes de mais, discutir entre si.

Que dizer de um hipotético concerto dos Foo Fighters no qual Dave Grohl convidasse Novoselic e um Cobain virtual para um encore ao som de um tema dos Nirvana? Uma digressão dos Beach Boys que “chamasse” um Dennis Wilson tecnologicamente recriado a um dos temas? E o cúmulo da fantochada seria ver, em palco, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris a cantar Love Will Tear Us Apart com um Ian Curtis virtual... Mete medo a ideia. E levanta fantasmas que nos devem fazer pensar onde estão os limites da relação da arte (e do próprio espectáculo) com a tecnologia.

Deixem lá então um grande maestro como Tilson Thomas ou Simon Rattle dirigir o Mahler. E a um Lang Lang ou um Pollini a tarefa de dar nova vida à música de Liszt...

domingo, julho 12, 2009

A vingança do 'disco'

Foi há 30 anos. Um DJ ressentido depois de ver a sua estação de rádio transformada numa espécie de juke box de disco sound, lançou um berro de revolta. E cantou vitória depois de ver um estádio de Chicago cheio, com 70 mil pessoas, cada qual trazendo um single de disco, destruindo-o na ocasião... Mal sabia era que a rebelião que convocara, que até valeu séria cobertura mediática e levou muitos a acreditar que tinha decretado a morte ao disco sound, seria, afinal, o passaporte para uma mais longa, mais sólida e global vida para o que então tentara destruir...

Estávamos em Julho de 1979. 40 por cento do mercado de singles americano era dominado pelo disco sound. Ninguém escapava ao som do momento... Já os Rolling Stones ou Rod Stewart tinham gravado disco... E muita era já, de facto, a oferta de sub-produtos para ouvir e dançar por umas semanas, e venha a canção seguinte logo depois... Havia excesso. Havia bom disco. Mas, na verdade, também cada vez mais lixo na forma de disco...
A reacção de Steve Dahl, contudo, foi excessiva. O DJ de Detroit clamou por revolta em Chicago... E muitos, numa América branca e conservadora, responderam de feição... Depois da encenação do protesto num estádio de Chicago, o 'disco' sofreu um golpe evidente. Algumas discotecas mudaram a banda sonora das suas febres de sábado à noite... E outras músicas começaram a chegar à rádio... Parecia que a "limpeza" tinha resultado...
Grande engano!
Ao mergulhar no underground, de onde ascendera anos antes (entre bares de negros, latinos e da comunidade gay), o disco conquistou novos cultores. E reemergiu, em meados de 80, sob a forma de uma nova cultura, com a house music e as demais formas de derivação que então elevaram a música de dança a um estatuto de primeira divisão na cena pop global...
Desde finais de 80, entre os frutos da evolução natural do disco e as várias vagas de redescoberta das suas origens (com nomes que vão dos Deee Lite ou M People, de Lindstrom e tantos outros mais no presente), o disco tem-se revelado, afinal, como uma das mais resistentes e revisitadas entre as formas musicais nascidas nos anos 70. Afinal, o berreiro xenofóbico que fez a notícia e cantava a morte do disco naquele estádio, em Chicago, a 12 de Julho de 1970, mais não fez que dar a esta música as fundações para uma vida mais longa, mais visível e mais feliz...

quarta-feira, abril 15, 2009

Internet killed the television star

Em 1979, os Buggles cantavam o que parecia uma profecia em Video Killed The Radio Star... E dois anos depois, com a chegada da MTV, a realidade deu-lhes razão... E com o tempo a televisão passou a ser a mais importante janela de revelação de novos acontecimentos em várias áreas da produção musical. Nos últimos anos, contudo, a relação da música com a televisão entrou em progresiva dieta, até acabar no estado de quase pele e osso que hoje conhecemos. Chegou a Internet... E a música mudou-se para nova casa. A progressiva transferência de acontecimentos da televisão para a Internet continua... E dá novo e importante passo com o anuncio de nova operação, desta vez com o YouTube e a Universal a unir esforços. Juntos criaram o Vevo, um site que vai acolher os mais de dez mil videos musicais da editora. Estará online lá para o fim do ano. De consulta gratuita, com anuncios de 15 segundos antes dos telediscos... Há já negociações com outras editoras para se juntarem a esta operação... E quem se segue?

quarta-feira, agosto 06, 2008

Frustrações

Um inquérito recentemente conduzido no Reino Unido revelou que 20 por cento dos ingleses se afirmam como músicos frustrados (e que estariam prontos a trocar os seus empregos por uma vida na música)... O inquérito só não verificou que, entre os que já são músicos no departamento pop/rock, grande parte do seu trabalho nos últimos tempos (os discos, entenda-se) tem sido, essencialmente... frustrante.

terça-feira, junho 10, 2008

Nós por cá todos... estamos

Vilar de Mouros está uma vez mais arredado do mapa do Verão festivaleiro. Por razões instuticionais que continuam por resolver, adiando agora para 2009 um eventual regresso do mais antigo festival musical português. Mas lá por fora há também notícias de festivais, igualmente com história feita, a fechar as suas portas... Da Noruega chegou esta semana a notícia do cancelamento da edição deste ano do Quart Festival, que deveria decorrer de 2 a 5 de Julho em Kristiansand, com nomes como os Interpol, Death Cab For Cutie, Battles, The Streets ou Gnarls Barkley, entre outros mais, anunciados para o seu cartaz... A fraca venda de bilhetes é apontada pela organização como sendo a justificação principal para o cancelamento... Num país com economia bem mais sólida que a que conhecemos por estes lados, o cancelamento pode ser lido, à distância, como sendo um primeiro aviso...
As carteiras não resistem a tanta oferta. E em tempo de crise mais feita de factos que de receios anunciados, há que começar a redimensionar as agendas por estes lados.
Não se gosta menos de música. Pelo contrário, nunca se consumiu tanta! Mas nos últimos anos os promotores de espectáculos viveram um cenário de prosperidade que decorreu, em parte, do facto de muitos consumidores de música a terem passado a "encontrar" à borla (as quebras nas vendas de discos não deixam dúvidas), sobrando na carteira um fundo de orçamento que segue direitinho para a música... ao vivo.
O cenário de contestação social que se vive entre nós não é apenas fruto desta ou aquela opção política, mas antes expressão cada vez mais clara (e próxima) de um tempo de recessão que, de facto, existe. É o nosso tempo. E estamos a vive-lo. Por muito distraída e eufórica que a multidão fique com bandeiras à janela e nos carros, a troco de 90 minutos de relvado com gente e bola em cena, a verdade é que não são sorridentes os tempos mais próximos que se aproximam. Mais dia menos dia, as indústrias do entretenimento sentirão na pele a necessidade de desvio dos dinheiros livres para as prioridades de sobrevivência. E num pequeno país, longe da retoma anunciada, o excesso de oferta nos cartazes musicais a que estamos a assistir este ano poderá não se voltar a repetir.
Madonna esgotou. Naturalmente!
O Rock In Rio teve a maior enchente de sempre.
Vejamos agora como se comportam as bilheteiras dos festivais de Julho, em alguns dias com sobreposições desnecessárias. E os muitos concertos extra-festival que se anunciam para os próximos meses...
Se a gasolina, o arroz, a fruta fresca, e outras mais necessidades prioritárias falarem mais alto, não se duvide que os palcos serão os primeiros a sentir a dieta. Nada como repensar a oferta, antes de ter de começar a anunciar cancelamentos por fraca venda de bilhetes...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Afinal a borla... pode vender

O caso discográfico mais mediatizado do ano promete virar case study na história da relação da música com o mercado. Há meses, In Rainbows, dos Radiohead, foi tecnicamente "oferecido" pelo grupo para download no seu site oficial. E não foram poucos, os downloads... Agora, desde 31 de Dezembro, o disco está nas lojas no clássico suporte físico. Ou seja, há um CD, com capa e tudo... Assim como, nas lojas online, há também uma versão digital, a troco do preço habitualmente aí praticado. E o disco, em ambos os formatos, vende. Como vende! Primeiro lugar no top de álbuns inglês. Líder na loja iTunes portuguesa... Ou seja, a "borla" não demoveu os potenciais compradores. Antes, estimulou resposta de aparente "agradecimento", como quem diz que, depois da oferta, agora responde-se, pagando pela música. Isto porque, além de eventuais compradores que, depois de anunciada a "oferta", não optaram pelo download, e esperaram, há quem tenha o feito, gratuito e, agora, esteja a comprar o disco para o ter na prateleira. O caso não é bem igual ao dos Arctic Monkeys, apesar de pontuais semelhanças (estes eram ainda desconhecidos quando, depois das "borlas", viram o seu álbum de estreia transformado em fenómeno de... vendas). Os dois casos contribuem para repensar a relação da "borla" com o negócio da música. É certo que nunca regressaremos a cenários cem por cento "a pagar". Mas fica claro que, cada vez mais, o gesto da oferta (que contraria a pulsão pirata, porque nasce de um outro tipo de relação de quem faz música com quem a ouve) pode ser, mais que um desencorajador de vendas, um estímulo, um aperitivo, um sinal de atenção para com quem ouve música nesta idade da comunicação digital. Não se tome já o modelo como único e garantido, mas é caso para suscitar reflexão. O que não quer dizer que não haja outras ideias a rever na relação da indústria e do Estado com o potencial comprador de música (como os já estafados pedidos para redução do preço dos discos, do nivelamento do IVA com o livro e de um repensar da música nos programas curriculares). Assim como estes sinais interessantes não fazer de In Rainbows um disco mais que, apenas, "bom"...

quarta-feira, outubro 17, 2007

Trolaró 2.06

A velha crónica, agora em formato digital

Ch Ch Changes...

Há pouco mais de uma semana os Radiohead fizeram a notícia. A edição, sem editora, sem suporte físico, sem promoção, de In Rainbows foi, independentemente do que se pensa sobre a música que o disco encerra, um êxito global. Mais de um milhão de downloads nos primeiros dias, cada qual a decidir quanto pagava pelo disco, muitos tendo já encomendado a versão “feita-à-medida”, por 40 libras, que se anuncia para 3 de Dezembro... As reacções não se fizeram esperar. Muitos outros artistas apoiaram a iniciativa. Trent Reznor anunciou que seguirá os passos dos Radiohead. Há rumores (sublinho, rumores) que falam de eventuais processos semelhantes pelos Oasis e Jamiroquai...
Agora, é Madonna quem faz a agenda do dia. Ontem ao cair da noite confirmou o afastamento da Warner (após 25 anos de relacionamento profissional) e a sua associação à Live Nation, uma empresa que até aqui trabalhava sobretudo na promoção de espectáculos e na gestão de salas de concerto. Madonna é a sua primeira artista de catálogo e, desde ontem, também accionista da companhia. Para a Live Nation gravará três álbuns em dez anos, ficando também a empresa a representá-la em digressão, no cinema e demais operações. Pela assinatura do acordo, segundo se diz, Madonna arrecadou 18 milhões de dólares e, como avanço por cada disco novo, 17 milhões.
Madonna explicou que, como artista e mulher de negócios, sentia o paradigma a mudar. Pelo que também ela tinha de mudar. E o Presidente Executivo da Live Nation sublinhou que este acordo é exemplo de uma nova forma de encarar o negócio da música.
Madonna não esgota assim nos discos (e negócios de publishing) o seu relacionamento com a empresa que a representa. O negócio é transversal e tem em conta que a venda de música gravada e a negociação e licenciamentos dos direitos das mesmas canções não são mais o núcleo da relação empresarial do artista com a indústria da música. O negócio mostra consciência clara sobre a necessidade de exploração de outras fontes de rendimento. Aos 49 anos, Madonna mostra que está atenta e na linha da frente da revolução em curso neste negócio (sim, a música, desde que exista para ser vendida, é negócio).
O paradigma mudou. Ela mudou. Quantos mais mudarão? Quando mudará a indústria discográfica “tradicional” a sua postura perante um mundo em acelerada mutação que, a cada dia, lhes foge das mãos? O recente caso da multa excessiva a uma americana (que, de facto, infringiu as regras) não é o caminho da salvação. Se por um lado mostra que o edifício legal anti-pirataria já é eficaz (e nada contra nesse capítulo) por outro, levantou mais vozes ainda contra uma indústria que já tem poucos amigos. A verdadeira sangria que se segue não corresponderá apenas aos “furtos” por pirataria (que, de facto, lesam esta indústria em milhões todos os anos)... A "nova" sangria virá dos artistas que, como Madonna, os Radiohead e outros mais, começam a querer ter nas suas mãos, e de outra maneira, a gestão das suas músicas...

quarta-feira, julho 25, 2007

Trolaró 2.05

A nova versão da velha crónica, agora em formato digital

Save 1520!

Nova Iorque tem entre mãos mais uma campanha pela defesa do seu património cultural. Um ano depois de infeliz desfecho no caso CBGB, obrigando Hilly Krystal a fechar o mítico clube que, entre 1973 e 75 viu nascer o punk, uma nova luta junta músicos, políticos e demais cidadãos pela defesa de um outro edifício. Longe da Bowery, no Sul de Manhattam, onde durante mais de 30 anos morou o agora encerrado CBGB, o número 1520 da Sedgwick Avenue, no Broxn, é o espaço agora na berlinda. Trata-se de um edifício construído em 1969, ao abrigo de um programa de habitação económica no qual, em festas num apartamento do primeiro andar, no Verão de 1973, terá nascido o hip hop.
Quem recorda esse berço é hoje o DJ Kool Herc, então com 18 anos e que, juntamente com a irmã Cindy Campbell, era uma das figuras mais activas desse movimento que hoje é reconhecido como determinante momento de invenção na proto-história do hip hop. Nascido na Jamaica em meados dos anos 50, cedo descobriu o encanto dos sound systems e da cultura dancehall em Kingston Town. Juntando o seu gira-discos a outros emprestados de amigos, cruzando discos (muitos deles de funk), ensaiou manobras inovadoras, aos poucos estabelecendo a base do que se veio a chamar break beat DJing. E, de certa forma, dando primeiros passos formais em formas de construção rítmica das quais evoluiria o hip hop.
Kool Herc é o rosto da campanha em defesa do número 1520 da Sedgwick Avenue. Campanha que, na primeira linha, pede a inscrição como património, daquele berço de uma expressão cultural que é filha da cidade de Nova Iorque e que, entretanto, descobriu o mundo. Todavia, esta é também uma campanha em defesa das premissas sociais pelas quais o edifício foi construído, cujo futuro está comprometido, um eventual levantamento do estatuto de habitação económica significando imediato aumento de rendas.
A campanha, que conta já com o apoio de políticos ligados ao Bronx (um congressista e um senador, ambos democratas), ganhou a simpatia do gabinete que gere a designação das candidaturas ao estatuto de património da cidade pretendido. Regras que obrigam a uma idade mínima dos edifícios a inscrever enquanto património apontam a uma fasquia de 50 anos. Porém, apontando o interesse cultural do edifício, a inscrição está garantida. Resta, agora, a aprovação...
O caso revela mais uma manifestação de cidadania que junta a vida cultural da cidade ao seu dia a dia. O arranque da campanha teve mediatização garantida, sobretudo depois de um expressivo artigo no New York Times, e flui agora pela blogosfera. O clima parece favorável... Kool Herc e seus “descendentes” só esperam um desfecho diferente do CBGB. Na verdade, ambos mereciam a inscrição como património, uma vez que foram primeira “casa” de dois entre os mais expressivos movimentos musicais nascidos na cidade. Terá o hip hop mais sorte que o punk?

Os interessados em ler mais, podem consultar o MySpace desta campanha.

sexta-feira, julho 13, 2007

Trolaró 2.04

A nova versão da velha crónica, agora em formato digital.

Mudar de vida

Todas as semanas chegam sinais de saudável agitação no meio musical que, como qualquer entidade viva, luta pela sobrevivência. Prince oferece o novo álbum com um jornal inglês. Paul McCartney e Sonic Youth editam por uma rede de cafés. A Chicago Symphony Orchestra encontrou mecenas e fundou a sua própria editora. Philip Glass edita por conta própria e sonha num futuro apenas feito por download. O MySpace vai mesmo começar a vender música. E os artistas da EMI vão brevemente poder vender downloads directamente dos seus sites oficiais.
Pergunta inevitável: que futuro é reservado aos editores neste cenário?
Nem 8 nem 80. Ou seja, nem a catástrofe da extinção inevitável. Nem nova e farta vida (como a que conheceram em tempo de vacas gordas). A razão corre algures pelo meio, num novo espaço de manobra sob novos hábitos (certo sendo que quem mais adiar a mudança de modos de acção, acabará por ter de encomendar missa por mais uma alma que se foi).
O paradigma mudou. A música é já hoje uma realidade que brota do mundo virtual. E contra isso nada a fazer. Cada novo projecto que entra em cena pode, sem a inevitabilidade dos orçamentos de há 20 anos, projectar e lançar uma carreira discográfica (ou, antes, musical). Ou seja, não precisa mais de uma estrutura que avance, qual banco, com um adiantamento para a gravação, a edição, a promoção... Grava-se em casa ou arredores, para computadores baratos. Coloca-se a música online. Usam-se redes de blogues e sites atentos para disseminar o som. Recorre-se a janelas de exposição global (como o MySpace, Last FM ou YouTube e, brevemente generalizado, o Second Life). Quem quiser cobra pelo que dá a ouvir, quem entender, oferece aperitivos para (como os Arctic Monkeys) cobrar mais tarde. Novos espaços de acção profissional estabelecem ligações entre artistas e eventuais anunciantes que usem a sua música em projectos comerciais... E sem esforço de reflexão, abre-se um leque variado de ambições de sucesso, da simples criação para exibição e já está, à não menos ética projecção empresarial de uma obra... Perante a infinita variedade de oferta, aos melhores (ou aos mais ágeis) sorrirão as melhores ofertas... Ao músico, assim, a obrigação de acreditar no que faz, a aposta no mais ginasticado programa de divulgação...
E os editores, no meio de tudo isto? Perdido o campeonato da nova música e o monopólio dos grandes acontecimentos, resta-lhes hoje, com staff reduzido a metade, o (nada desprezável) universo das grandes carreiras globais, cuja condução, sobretudo nos departamentos de marketing, exigem concertação central e eficaz acção imediata à escala planetária. A gestão correcta dos fundos de catálogo, farta oferta de memórias sempre prontas a mostrar-se perante interessados, se devidamente apresentadas, é baú a ter em conta. Assim como a capacidade de explorar outras fontes de “rendimento” da imagem e som dos seus artistas. Um Cohen ou um Sérgio Godinho podem hoje viver sem uma grande editora. Mas alguém imagina um Timbrelake ou uma Mariza sem uma?
O canto da desgraça não é música que se escute. Há, mais que nunca, espaço para todos (os gostos, os públicos, as ambições). Cada qual, contudo, que se aplique no que de mais indicado há no seu horizonte. A música, no fim, sobreviverá sempre. Aos mais aptos, como sempre, estando guardada a capacidade de nela encontrar novas formas de negócio.
PS. A imagem que ilustra este post é meramente para efeito estético, não se relacionando com nenhuma destas causas em particular.

quarta-feira, junho 27, 2007

Trolaró 2.03

A nova versão da velha coluna, agora em formato semanal e digital. Esta semana, naturalmente, a crónica das primeiras visitas ao Museu Colecção Berardo, no CCB, em Lisboa

Interior With Restful Paintings (1991), Roy Lichtenstein

O Museu

Não vou aqui comentar os recentes acontecimentos no CCB. A demissão de Mega Ferreira e o que representa... Vou, apenas, deixar as primeiras impressões de uma primeira visita ao Museu Colecção Berardo. Na tarde de inauguração, naturalmente, não vi quase nada... Havia um batalhão de ministros e, entre a multidão, alguns ex-ministros. Candidatos à Câmara de Lisboa eram vários. Figuras da cultura, dos media, dos negócios. E artistas plásticos vindos dos mais variados destinos. Foram perto de 800 os convidados à inauguração do Museu Colecção Berardo, que agora ocupa as salas do Centro de Exposições do CCB. Informal, Joe Berardo acolheu os presentes com palavras de satisfação. Mais formal, Isabel Pires de Lima lembrava a importância recente (na cultura, no turismo, na economia) para as cidades de Bilbao e Valencia da existência de activos pólos museológicos e, ao citar Wim Wenders, sublinhava como se ama o país pela cultura e não pela economia. José Sócrates, a fechar os discursos afirmava que, contra um cenário anterior, no qual os roteiros da arte contemporânea terminavam em Madrid, agora começam em Lisboa... E lá partimos todos, então, à descoberta das salas do novo museu. Escada abaixo rumo, primeiro, ao piso zero, subindo depois para o andar superior... Em ritmo de cortejo lento, poucos realmente viam as obras expostas. Viam-se mais uns aos outros. Nada de grave. É sempre assim... E um museu nunca se vê, realmente, em tarde de inauguração.
Regressei um dia depois. E com outra tranquilidade, convenhamos que a visita é obrigatória. Ao reflectir sobre o que se disse, talvez os discursos oficiais tenham passado tábua rasa a outros espaços museológicos portugueses igualmente dedicados à arte contemporânea. Gulbenkian e Serralves, para citar dois dos espaços mais visitados do país, têm actividade regular na área. E Lisboa tem, no Museu do Chiado, um outro museu de arte contemporânea. Certo é, contudo, que o país não tinha ainda, à disposição do cidadão, uma colecção tão representativa de caminhos e nomes da arte contemporânea como esta o é, de facto.
Num mesmo conjunto de salas encontramos obras de Miró, Picasso, Max Ernst, Bacon, Warhol, Rotella, Lichtenstein, Vieira da Silva, Paula Rego, Jorge Molder, Judd, Cabrita Reis, Nauman, Helena Almeida, Duchamp, Magritte, Dali, Mondrian, Balthus, Cesariny, Man Ray, Klein, Stella, Cindy Sherman, Nan Goldin... A lista é impressionante! Obras bem expostas, espaço de contemplação e respiração previsto, tranquila luz natural a invadir discretamente as salas. Faltam, apenas, sobretudo no andar superior, bancos para ocasional paragem do visitante. Há, contudo, um calcanhar de Aquiles, a rever: falta mais eficaz legendagem no indicar do que é o quê e na distribuição, em sala, e, acima de tudo, o cumprir de mínimos olímpicos de informação para quem quiser saber afinal o que ali vê. As folhinhas de sala não dispensam texto em parede.
À cidade e ao país, agora, o convite à visita. Aos governantes, e para fazer das palavras da ministra da cultura uma ressalva consequente, o desafio de uma comunicação internacional do novo museu que o saiba colocar, de facto, na agenda internacional da arte contemporânea e do turismo.

quinta-feira, junho 14, 2007

Trolaró 2.02

A nova versão da velha coluna, em formato semanal e digital...

Somos verdes

A culpa não é de Al Gore. De resto, há muito que o mundo devia ter acordado para a necessidade (ou mesmo inevitabilidade) de uma política que, a bem da sobrevivência da espécie humana sobre este naco de rocha no espaço, não pode mais deixar de ter o ambiente senão como prioridade. Mas quem resiste a um ex-futuro presidente dos EUA? A sua “conferência” em digressão na forma de roadshow ganhou fôlego. Fez-se livro e filme. Gore foi aos Óscares, e quase disse o que queria mesmo dizer (que se candidatava)... O seu mérito é o de ter, finalmente mediatizado uma atitude verde. Mas, e por muito que o ex-vice de Clinton sempre se tenha batalhado pela questão, não vamos a ele reduzir os méritos das mudanças, ainda ténues, em curso. Já havia consciência ecologista em muito boa gente e instituição antes de Gore. E, por justa que seja a “sua” defesa da causa, ainda ninguém me convenceu que não seja a mais genial (e cool) estratégia pré-presidencial de sempre...
Mediatizada, a coisa verde agora parece que é condição necessária (e, para muitos, suficiente) para qualquer coisa existir com uma certa dignidade. Agora todos somos verdes. Não apenas o Shrek, portanto.
A Rolling Stone, a mais política das revistas sobre cultura pop, vai ser verde. Ou seja, vai publicar a sua edição de dia 28 num tipo de papel cujo fabrico tem impacte menos agressivo sobre o ambiente (nada contra, antes pelo contrário)... Não se trata de papel reciclado, como alguns chegaram a noticiar... Mas lá terá Al Gore como entrevistado na edição... erm... verde.
Entretanto, à Billboard, Jack Johnson diz que vai reformular o seu estúdio para o fazer mais amigo do ambiente. E, claro, anuncia logo que vai gravar novo álbum, com o produtor não sei quantos...
O verde pop chega entretanto aos festivais. O Oeiras Alive, que musicalmente mostrou como uma bela programação pode ser versátil e apelativa em várias frentes, tinha supostamente uma mensagem... verde. Os promotores chegaram a chamar a atenção para a coisa, mas como nos mundos melhores que outros apregoam à pala de rock em Lisboa, parece que foi mais coisa para jornal ler que para o público presente reflectir.
PS. E quantos mais festivais de 2007 serão... verdes?

segunda-feira, junho 04, 2007

Trolaró: o regresso

Depois de uma pausa, o "Trolaró" regressa em formato digital. Uma vez por semana, no Sound + Vision.

Não há bela sem senão

A Apple começou, no dia 30 de Maio, a vender temas da EMI sem DRM (Digital Rights Management), ou seja, livres de serem adquiridos apenas para uso por donos de iPod, abrindo assim a sua loja digital aos portadores de todos os tipos de leitores de música digital. A ideia foi aplaudida, juntamente com a política de preços proposta, passando os temas, sem DRM, a ser vendidos com um agravamento de 20 cêntimos, ou seja, a 1,29 euros. O sistema exige apenas ao consumidor o download (grautito) do iTunes 7.2, que lhe permite acesso às compras no banner iTunes Plus.
Contudo, poucos dias depois de iniciada a nova etapa na vida do mercado da música digital, o site Ars Technica descobriu que as faixas adquiridas, ou seja, os ficheiros digitais, continham informação neles encriptada sonbre quem os adquiriu, inclusivamente com o seu email. Uma medida que o site sugere como um suposto mecanismo anti-pirataria, tendo em vista a eventual colocação destas faixas assim adquiridas em sites de troca de ficheiros...
Não há mesmo bela sem senão.
A boa ideia, afinal, tem sabor a "big brother is hearing you" e poderá contribuir para o alargar de um fosso de desconfiança entre consumidores de música e editores que parece cada vez com menos soluções.
Quem edita tem direito de zelar pelo que é seu. Mas quem compra não gosta de ser monitoroizado. E, convenhamos, quem coloca ou "saca" temas online ia dar a preço zero, aos outros, o que lhe custou a si? A pirataria musical na era digital é, na maioria dos casos, coisa de borla para cá, borla para lá... Ilegal, sem dúvida, mas a combater com outras medidas que não estas, que visam apenas quem ainda gasta dinheiro para ter música em casa.