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sexta-feira, janeiro 02, 2015

Sound + Vision 10 Anos
Memórias de Arquivo (2)


'The Nomi Song editado em DVD'
(24 de outubro de 2005)

“Quem é Klaus Nomi? Um discreto mas brilhante génio ou uma farsa total? A oitava maravilha do mundo ou um erro trágico na linha de montagem da vida?” Palavras de dúvida, publicadas em 1980 na imprensa nova-iorquina. Questões a esclarecer, agora, em The Nomi Song, documentário de Andrew Horn acabado de editar em DVD no Reino Unido (sem projecto algum de edição portuguesa).

Cara pintada de branco, casaco estilizado ao jeito de um Dr. Caligari, cantando ora versões de Dietrich, ora árias de Purcell ou Saint Saëns, ora devaneios electro pop ora cantos de desespero teatral, cruzando a urgência pop da emergente new wave com canto lírico, foi um “ovni” na cena musical nova iorquina de finais de 70 e inícios de 80. Em 1981, o álbum de estreia Klaus Nomi horrorizou puristas, mas arrebatou espíritos ávidos de novidade. No ano seguinte, um segundo álbum, Simple Man, vincava a sua aproximação à pop. Mas por essa altura eram já visíveis os traços de debilidade que a sida decretara sobre o seu corpo. A doença, de que se começava a falar, levou-o em 1983.

The Nomi Song é um extraordinário exercício de cinema documental, e faz-nos (re)descobrir Klaus Nomi. Canções, surpreendentes imagens de arquivo e uma interessante colecção de depoimentos evocam uma vida que conheceu escape pela construção de uma personagem feita de música e puro exagero teatral. Começamos por tactear talento e sonho no East Village e acabamos em terreno profissional, discos editados, páginas nas revistas, fotos pelo mundo. Nomi tornou-se mais real que Klaus Sperber (o seu nome real), e acabou afogado na persona que criou. O DVD junta ao excelente filme uma série de extras, entre os quais cenas retiradas, entrevistas não usadas, imagens de actuações ao vivo entre 1979 e 82, comentário áudio do realizador, remisturas de cinco temas de Klaus Nomi e... a famosa receita de tarte de lima que Klaus fazia em casa e vendia para ganhar trocos adicionais.

PS. Tal como em 2005, o filme ainda hoje não tem lançamento em DVD entre nós.

domingo, dezembro 08, 2013

Máquina do tempo
Klaus Nomi, Cold Song (1981)



Imagens de uma atuação de Klaus Nomi na televisão francesa em 1981. Interpretação ao vivo, com uma pequena orquestra, de Cold Song (com base em música de Purcell), que surgiu no alinhamento do seu álbum de estreia, Klaus Nomi, editado em 1981.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Discos pe(r)didos:
Klaus Nomi, Simple Man


Klaus Nomi 
“Simple Man” 
RCA 
(1982)
 
Não é por acaso que o documentário The Nomi Song, de Andrew Horn (talvez o mais profundo trabalho sobre o músico já elaborado), termina com a evocação de uma cena de um velho filme de ficção científica (de série lo-fi) no qual um ovni nos deixa e alguém diz que o encontro “imediato” que tinham visto talvez tivesse acontecido cedo demais, pelo que não estariam preparados para ele... Na verdade o tempo de Klaus Nomi foi o certo (militante new wave e fruto de uma etapa de saudável loucura criativa na cena undreground nova iorquina), mas a noção de “ovni” pode ser um bom ponto de partida para a sua descrição. Alemão, residente em Nova Iorque desde 1972, era dotado de um registo vocal invulgar, isto numa época em que estava ainda longe a abertura de espaço de interesse pelos contratenores que hoje dão nova vida, sobretudo, grandes criações da ópera barroca. Entre espetáculos de vaudeville “alternativo” foi ganhando espaço e cultivando uma personagem que chegou aos ouvidos de Bowie, que o levou a uma atuação no Saturday Night Live. Entre o encanto pelas heranças de outras épocas e a uma nova linguagem pop que se desenhava na altura (atenta à emergência dos sintetizadores), gravou um primeiro álbum em 1981 ao qual deu o seu nome e que se transformaria numa verdadeira peça de referência pelo modo ímpar como juntava esses dois mundos e apresentava a sua voz. Era diferente de tudo e todos... Um ano depois regressou a estúdio para gravar um segundo álbum onde, uma vez mais, cruzava ecos de um passado distante (em concreto revisitando uma ária de Purcell e composições de John Dowland) com alguns originais inéditos, sob evidente protagonismo instrumental dos sintetizadores, juntando ainda ao alinhamento uma versão de Falling In Love Again (imortalizada por Marlene Dietrich), uma outra de Ding Dong (da banda sonora de O Feiticeiro de Oz) e ainda uma de Just One Look (originalmente gravada por Doris Troy em 1963). Sem causar o mesmo arrepio do álbum de estreia, Simple Man passa por vezes bem para lá da linha do kitsch e parece fazer pouco mais que a aplicação de uma mesma ideia a uma menos interessante coleção de canções (as versões com memória cinematográfica deixando-nos perplexos algures entre o patamar da paródia e o da tragédia). Convém acrescentar que quando trabalhou este disco Nomi estava já certamente doente, tendo morrido de complicações de sida no ano posterior à sua edição. Simple Man não será nunca a expressão maior da sua obra (deixemos esse estatuto merecidamente entregue à sua obra-prima, que é o seu álbum de estreia). Mas, mais que as peças póstumas editadas em 2007 (a ópera inacabada Ze Bakdaz), junta um segundo lote de canções a uma obra que continua a ser um caso ímpar na história da música pop.