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quarta-feira, fevereiro 26, 2025

Na América de Beyoncé

O imaginário texano revisto por Beyoncé

A recente consagração do álbum Cowboy Carter nos Grammys leva-nos a redescobrir um certo imaginário americano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 fevereiro).

Ao receber o Grammy de Álbum do Ano, por Cowboy Carter, Beyoncé dedicou a distinção a Miss Martell: “Espero que continuemos a fazer força para seguir em frente, abrindo portas.” Referia-se ela a Linda Martell, actualmente com 83 anos, cuja voz surge em dois temas do álbum. Num deles, Spaghettii, Martell pergunta: “Os géneros são um pequeno conceito divertido, não são?” [video] A questão está longe de ser banalmente pitoresca. Desde logo porque a inscrição de Cowboy Carter num género, a música country, tem tanto de linear, por causa das referências tradicionais que convoca, como de inadequado, já que estamos perante um álbum inequivocamente “by Beyoncé”.


Tendo em conta que Cowboy Carter também arrebatou o Grammy de melhor álbum country, as contas baralham-se, obrigando-nos a não cedermos na catalogação de qualquer produção artística como mera ilustração de um cânone pré-estabelecido. Afinal de contas, a saudação de Beyoncé remete para um evento muito concreto: em agosto de 1969, Linda Martell foi a primeira cantora afro-americana a participar no lendário programa de rádio Grand Ole Opry [video], em Nashville, Tennessee, verdadeiro templo artístico da country (criado em 1925, já ultrapassou as 5 mil edições).


A concepção de Cowboy Carter como um espaço de muitos cruzamentos temáticos e simbólicos tem outro sinal inequívoco na integração da canção Blackbird, tema dos Beatles do chamado “Álbum Branco”, publicado em 1968. Assinada pela dupla Lennon/McCartney, é uma daquelas composições cuja autoria pertence apenas a um deles, Paul McCartney. A canção nasceu associada a uma referência muito concreta (que, aliás, o próprio McCartney já explicitou em várias intervenções públicas): nela se evoca o chamado “Little Rock Nine”, grupo de nove estudantes afro-americanos (rapazes e raparigas) impedidos de entrar no liceu de Little Rock, Arkansas, a 4 de setembro de 1957 — a proibição foi ordenada por Orval Faubus, Governador do Arkansas, vindo a ser anulada pelo Presidente Dwight D. Eisenhower.


Há na elaboração de Cowboy Carter a lógica de um requiem. O que, bem entendido, está presente desde a canção de abertura, Ameriican Requiem — sem esquecer que a duplicação (“ii”) que encontramos em vários títulos do alinhamento decorre do facto de este ser o Act II: Cowboy Carter, dois anos passados sobre o lançamento de Renaissance, ou melhor, Act I: Renaissance. O arco simbólico desemboca no tema final, Amen, em que Beyoncé propõe uma “oração pelo que aconteceu”, já que “seremos nós a purificar os pecados dos nossos Pais”. Ou ainda: “As suas velhas ideias serão enterradas aqui.” [video]


Todo o trabalho iconográfico do álbum propõe um jogo de variações sobre as imagens tradicionalmente associadas às performances públicas da música country e, mais do que isso, a um imaginário dos “cowboys” intimamente ligado a múltiplas imagens da história de cinema e televisão. Da responsabilidade do fotógrafo Blair Caldwell, o portfolio de Cowboy Carter tem a sua imagem emblemática na capa do álbum, com Beyoncé a cavalo, com uma bandeira dos EUA, recriando o típico arranjo de abertura dos rodeos no estado do Texas (Caldwell é texano, tendo nascido na cidade de Tyler, em 1994).
Beyoncé, fotografada por Blair Caldwell

Dir-se-á que, globalmente, Cowboy Carter cumpre essa tarefa “ideológica” de revisitar o imaginário country, cruzando-o com as referências da cultura afro-americana que permaneciam secundarizadas ou mesmo omitidas. Assim é, sem dúvida, mas seria errado ceder ao simplismo do politicamente correcto para encerrar Beyoncé numa “mensagem” estereotipada. Nada disso pode ser dissociado de uma sensualidade das formas, das imagens e dos sons que se exprime na textura das canções. Escute-se, por exemplo, o tema Levii’s Jeans [video], interpretado com Post Malone — "Boy, I'll let you be my Levi's jeans".
 

segunda-feira, janeiro 06, 2025

2024 / 10 álbuns [9]

* BEYONCÉ, Cowboy Carter

Como se diz na abertura, celebra-se um genuíno Requiem Americano [video] em que Beyoncé cruza as referências míticas da nação com o desencanto e a esperança da história colectiva — tudo isso pontuado por discretas, mas incisivas, reminiscências pessoais. A excelência dos resultados é tanto mais admirável quanto estamos perante uma artista que não se dilui nas referências que convoca, neste caso o country. Aliás, não é um álbum country, como ela fez questão em esclarecer: “This ain’t a Country album. This is a ‘Beyoncé’ album.”


[ Waxahatchee ] [ Jessica Pratt ] [ Danish String Quartet ] [ Andra Day ] [ Fred Hersch ] [ The Smile ] [ Billie Eilish ]
[ Ryan Adams ]

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segunda-feira, outubro 02, 2023

Beyoncé, o filme

Porque o cinema também é música. Porque a música se duplica e, literal e simbolicamente, engrandece num ecrã de cinema. Dito de outro modo: Beyoncé anunciou o filme que, entre palcos e bastidores, faz a história da sua digressão "Renaissance". Renaissance: A Film by Beyoncé chega às salas americanas no dia 1 de dezembro. O resto do mundo fica à espera de notícias...

terça-feira, junho 21, 2022

Beyoncé — nova canção, novo álbum

A nova canção de Beyoncé intitula-se Break My Soul e serve de anúncio de um álbum, Renaissance, com lançamento marcado para 29 de julho — eis o lyric video. Segundo artigo da British Vogue, o novo registo está marcado por um "exuberante retro-futurismo".

segunda-feira, junho 18, 2018

Beyoncé + Jay-Z

Demonstração de poder, sem dúvida. Poder mediático e figurativo, numa palavra, simbólico: Beyoncé e Jay-Z encenam-se no Museu do Louvre a cantar APESHIT. Não há visitantes, apenas os figurantes/bailarinos da sua teatralidade. Talvez seja essa a forma limite, perversamente utópica, de poder contemporâneo — obrigar os consumidores a desertar.
A canção, escrita e produzida com Pharrell Williams, é o cartão de visita de um álbum surpresa: Everything Is Love. Com assinatura conjugal: The Carters.

terça-feira, dezembro 26, 2017

Eminem sobre a água gelada


I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water
But only when it freezes

Eminem transformou o seu amargo auto-retrato em teledisco. Walk on Water, tema de apresentação do álbum Revival, fabricado em colaboração com Beyoncé, aí está: a metáfora da água gelada é encenada à letra, sublinhando o misto de tragédia e revolta que a canção convoca.

sábado, novembro 11, 2017

Eminem + Beyoncé

O essencial da notícia, isto é, o lançamento de Revival, nono álbum de Eminem, foi ganhando consistência através de vários fragmentos noticiosos [Rolling Stone]. Em forma de antecipação, fomos presenteados com uma magnífica colaboração, Eminem + Beyoncé, num auto-retrato tecido de angústia, orgulho e desencanto — para ler e escutar.

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water
But only when it freezes (fuck)

Why are expectations so high? Is it the bar I set?
My arms, I stretch, but I can’t reach
A far cry from it, or it's in my grasp, but as
Soon as I grab, squeeze
I lose my grip like the flyin' trapeze
Into the dark I plummet, now the sky’s blackening
I know the mark's high, butter–
flies rip apart my stomach
Knowin' that no matter what bars I come with
You're gonna harp, gripe, and
That's a hard Vicodin to swallow, so I scrap these
As pressure increases like khakis
I feel the ice cracking, because—

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water (shit)
But only when it freezes

It's the curse of the standard
That the first of the Mathers discs set
Always in search of the verse that I haven't spit yet
Will this step just be another misstep
To tarnish whatever the legacy, love or respect
I’ve garnered? The rhyme has to be perfect, the delivery flawless
And it always feels like I’m hittin' the mark
’Til I go sit in the car, listen and pick it apart
Like, "This shit is garbage!"
God's given me all this, still I feel no different regardless
Kids look to me as a god, this is retarded
If only they knew, it's a facade and it's exhaustive
And I try not to listen to nonsense
But if you bitches are tryin’ to strip me of my confidence
Mission accomplished
I'm not God-sent, Nas, Rakim, Pac, B.I.G., James Todd Smith
And I'm not Prince, so…

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water
But only when it freezes

'Cause I'm only human, just like you
Making my mistakes, oh, if you only knew
I don't think you should believe in me the way that you do
'Cause I'm terrified to let you down, oh

It's true, I'm a Rubik's—a beautiful mess
At times juvenile, yes, I goof and I jest
A flawed human, I guess
But I'm doin' my best to not ruin your ex–
pectations and meet 'em, but first
The "Speedom" verse, now Big Sean
He's goin' too fast, is he gonna shout or curse out his mom?
There was a time I had the world by the balls, eatin' out my palm
Every album song I was spazzin' the fuck out on
And now I'm gettin' clowned and frowned on
But the only one who's looking down on me that matters now's DeShaun
Am I lucky to be around this long?
Begs the question though
Especially after the methadone
As yesterday fades and the Dresden home
Is burnt to the ground, and all that's left of my house is lawn
The crowds are gone
And it's time to wash out the blonde
Sales decline, the curtain's drawn
They're closin' the set, I'm still pokin' my head from out behind
And everyone who has doubt, remind
Now take your best rhyme, outdo it, now do it a thousand times
Now let 'em tell ya the world no longer cares or gives a fuck about your rhymes
And as I grow outta sight, outta mind, I might go outta mine
'Cause how do I ever let this mic go without a fight
When I made a fuckin' tightrope outta twine?
But when I do fall from these heights though, I'll be fine
I won't pout or cry or spiral down or whine
But I'll decide if it's my final bow this time around, 'cause—

I walk on water
But I ain't no Jesus
I walk on water
But only when it freezes

'Cause I'm only human, just like you
I've been making my mistakes, oh, if you only knew
I don't think you should believe in me the way that you do
'Cause I'm terrified to let you down, oh
If I walked on water, I would drown

'Cause I'm just a man
But as long as I got a mic, I'm godlike
So me and you are not alike
Bitch, I wrote "Stan"

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Beyoncé, a Rainha Mãe

Adele ganhou o Grammy de álbum do ano com o seu 25. E, num gesto pouco comum, fez saber que, segundo ela, era Beyoncé "que devia ter ganho" (com o prodigioso Lemonade). Saudemos a sua lucidez e celebremos a performance de Beyoncé, em pose de Rainha Mãe [eis o seu discurso, ao receber o prémio de melhor "álbum urbano"].


>>> Nomeados e vencedores — Grammys.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

2016, Figura do Ano [internacional]
— BEYONCÉ

beyonce.com

N. G.: Uma carreira não de vislumbra ao cabo de um ou dois discos, por gigantesca que possa ser a expressão global que eventualmente tenham conquistado. E se por vezes há uma ânsia de encontrar "novos" ou "novas" qualquer coisa ao primeiro sinal de um sucesso maior, na verdade não há melhor sugestão senão a de conceder ao tempo... tempo. Ou seja, numa altura em que os consumos culturais (muito por consequência das vivências online) pulverizaram a velha ideia do blockbuster e tantos mega-fenómenos o são afinal coisa de uma época ou duas, às quais se sucede o silêncio (por vezes sob abrupta saída de cena), o tom prematuro com que se elegem novos ícones tem acabado, tantas vezes, em histórias afinal bem diferentes. Beyoncé é aqui um dos raros casos diferentes. E é talvez a única voz da sua geração que, disco após disco, digressão após digressão, conseguiu definir um estatuto global verdadeiramente perene. Sustentado, como se diz em discurso do "economês" político do nosso tempo. A sua é uma obra que tem sabido escutar pistas na música capazes de definirem uma linha central de acção embora aberta a outras ideias, sugestões, colaborações. E junta desde o início uma relação igualmente atenta e consistente com o trabalho no plano das imagens. Uma artista completa, sem dúvida. E que teve em Lemonade, de 2016, um exemplo evidente de uma visão que está longe de esgotada. 

J. L.: Vivemos no mundo global das "redes" e "plataformas", de tal modo que, não poucas vezes, passámos a confundir a mera proliferação de links em que nos movemos com a definição da nossa identidade (individual ou colectiva). Como David Bowie ou Madonna, Beyoncé é uma artista consciente desse labirinto criativo e informativo, tendo lançado o seu Lemonade como um objecto fascinantemente plural: um álbum que é também um video-álbum, uma celebração musical que se confunde com uma cerimónia política. Daqui a muitas décadas, quando se esbaterem as paixões mais aguerridas, e também mais voláteis, será definido como um símbolo exemplar da era Obama.

quinta-feira, setembro 29, 2016

SOUND + VISION Magazine / FNAC
— Beyoncé & etc. [hoje]

Regressamos à FNAC para falar do modo como, cada vez mais, a música explora caminhos narrativos que têm as suas raízes no cinema. Beyoncé e Nick Cave serão convocados, como sempre através de imagens + sons. Isto sem esquecer que os Beatles estão de volta… ao cinema!

sexta-feira, julho 08, 2016

Beyoncé — palavras contra a violência

I. Na sequência das mortes de Alton Sterling e Philando Castile, dois cidadãos afro-americanos, Beyoncé publicou um testemunho no seu site. Reflectindo sobre a vaga de "assassinatos de homens e mulheres jovens nas nossas comunidades", a cantora lembra que se trata de uma "luta humana" que está para além da "raça, género ou orientação sexual" — o seu testemunho ecoa também o discurso multifacetado, estético e político, do seu Lemonade, em formato de "álbum visual".

II. Na Polónia, onde participou numa reunião da NATO, o Presidente Barack Obama comentou os tiroteios em que a polícia esteve envolvida, sublinhando que aquilo que está em jogo "está longe de ser apenas uma questão negra" — num caso como noutro, são elementos essenciais de reflexão para uma conjuntura em que, além do mais, a velocidade de informação e a proliferação de imagens (mais ou menos "amadoras"), mais do que elementos noticiosos, passaram a reflectir modos específicos de viver o quotidiano e habitar os lugares a que pertencemos.

III. Michael Eric Dyson, um professor de sociologia na Universidade de Georgetown, autor do livro The Black Presidency: Barack Obama and the Politics of Race in America, analisa a conjuntura de forma drástica, em artigo de opinião no New York Times, intitulado 'O que a América branca não consegue ver' — o ponto de partida diz mesmo que "é claro que vocês, América branca, nunca nos compreenderão". Entretanto, em editorial, 'Quando acabará a matança?', o jornal reflecte sobre o papel dos novos meios de registo e difusão (telemóveis, Internet) no conhecimento de factos tão dramáticos — esta imagem, da autoria de Justin Renteria, ilustra o editorial.

terça-feira, julho 05, 2016

O "álbum visual" de Beyoncé

Lemonade, de Beyoncé, é um magnífico objecto de música que se oferece também como prodigioso "álbum visual" — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Julho), com o título 'Ser e não ser segundo Beyoncé'.

Em tempos de militante menosprezo pela riqueza da cultural dos Estados Unidos da América (passado e presente), o filme Lemonade, produzido por Beyoncé para acompanhar o seu álbum homónimo, passou de forma discreta nos canais TVCine. O quase silêncio em torno da sua difusão é revelador do afunilamento de um marketing a que parecem faltar ideias sobre a procura dos espectadores (regulares ou potenciais).
Militância por militância, peço licença para proclamar que se trata de uma das obras-primas do audiovisual de 2016. Filme de cinema? Programa de televisão? Em boa verdade, não sei responder (mesmo se, na origem, foi difundido pela HBO): eis um objecto capaz de desafiar modelos e certezas, abrindo caminho a novas relações com o espectador.
Digamos que Lemonade começa por ser um “especial” de televisão que, de forma admiravelmente livre, integra e reinventa algumas matrizes dos telediscos — a sua designação é, aliás, sugestiva: “um álbum visual”. Ao mesmo tempo, há nele o impulso cinematográfico de quem sabe criar uma narrativa eminentemente pessoal, cruzando-a com as convulsões da história dos afro-americanos.
Lemonade combina as mais variadas referências, desde a poesia de Warsan Shire (nascida no Quénia, em 1988, residente em Londres) até às imagens de jovens afro-americanos (Trayvon Martin, Michael Brown e Eric Garner) cujas mortes abalaram a sociedade americana durante a presidência de Barack Obama. A conjugação de tais referências não decorre de qualquer inventário “simbólico”, antes de um desejo de celebração narrativa em que a própria Beyoncé, transfigurado-se de musa do R&B a lady do século XIX, emerge como a primeira matéria viva — contar a nossa história é, afinal, reconhecermos que podemos ser outra personagem além daquela que imaginamos ou outros nos atribuíram.
Para concretizar o projecto, Beyoncé contou com a colaboração de um colectivo de sete realizadores, incluindo o sueco Jonas Akerlund e o americano Mark Romanek (responsáveis por alguns momentos fulcrais da história moderna das imagens e da música, em particular através dos seus trabalhos com Madonna, David Bowie ou Rolling Stones). Essa direcção partilhada favorece a sensação de estarmos a assistir a um ritual colectivo em que as imagens surgem menos como uma “ilustração” e mais como testemunhos vivos de uma procura incessante do nosso lugar no mundo, suas razões e enigmas [video: fragmento de Sorry].
Alguma imprensa pouco interessada na beleza de Lemonade especulou sobre a possibilidade de as palavras que falam de uma traição masculina serem reflexo de uma ruptura iminente no casamento de Beyoncé e Jay Z (que, aliás, também surge numa breve sequência). Como sempre, importa separar as águas: mesmo que tal paralelismo possa ter algum fundamento, Lemonade nada tem a ver com a tristeza moral do mundo dos “famosos”. Esperemos que o mercado encontre outras maneiras de o mostrar mais e melhor.

segunda-feira, maio 02, 2016

Para ler: que impacte terão Prince
e Beyoncé no serviço Tidal?

Não tem a amplitude de alcance de outros serviços, mas apresenta alguns exclusivos como trunfo. Uma boa reflexão sobre as reais potencialidades e futuro do Tidal.

Podem ler aqui.

segunda-feira, março 07, 2016

Beyoncé, por exemplo...

Será que a televisão, sobretudo no seu registo generalista, dá a devida atenção à música? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Março).

Beyoncé e os Coldplay no Super Bowl. Lorde a homenagear David Bowie nos Grammy. Dave Grohl ou Lady Gaga nos Oscars. Foram momentos musicais que, nos últimos tempos, deixaram marcas televisivas fortes. Que é como quem diz: o espectáculo de palco adquiriu uma sofisticação indissociável dos recursos e técnicas da televisão, mesmo quando a respectiva utilização obedece a regras de delicada austeridade (recorde-se a singeleza da performance de Grohl, cantando Blackbird, dos Beatles, na tradicional homenagem aos que faleceram ao longo do último ano).
Tudo isto ao mesmo que tempo que, curiosamente, no mercado do DVD, surgiu o registo da digressão Roger Waters The Wall, retomando os temas do lendário álbum dos Pink Floyd (lançado em 1979). Na verdade, no seu espectacular gigantismo, o concerto concebido por Waters é também devedor de uma imaginação e um imaginário cujas raízes (e técnicas) se cruzam com as componentes específicas do espaço televisivo.


Como espectador, lamento que os eventos musicais não tenham mais significativa presença nos canais generalistas. E os exemplos citados nem sequer são reveladores da imensa variedade de materiais que poderiam integrar programações mais abertas à pluralidade da música. Assim, para além de acontecimentos que pertencem ao calendário do entertainment internacional, existem muitos concertos (ou outro tipo de performances, inclusive em espaços televisivos) que poderiam ser devidamente valorizados por opções mais abertas à diversidade.
Em última instância, o que está em causa é a possibilidade de superar os formatos “obrigatórios” (desde o futebol e os debates até aos episódios cada vez mais lamentáveis da “reality TV”) e dar a ver o que, de uma maneira ou de outra, é eminentemente popular. A não ser que alguém queira demonstrar que Beyoncé ou Lady Gaga são nomes insondáveis da música mais experimental e inacessível...

domingo, fevereiro 07, 2016

Beyoncé: nova canção + teledisco

Desde Novembro de 2014 que Beyoncé não lançava uma nova canção. Valeu a pena esperar: Formation é um pequeno prodígio de invenção e elegância, desenvolvendo uma estrutura em que cabem fragmentos das memórias afro-americanas, tanto quanto imagens do furacão Katrina, passando por sugestivas especulações sobre a democratização da riqueza: You just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay / I just might be a black Bill Gates in the making [letra, tal como divulgada pelo site JustJared].
Teledisco a condizer — fulgurante e subtil, com realização de Melina Matsoukas.


[Intro: Messy Mya]
What happened at the New Wil’ins?
Bitch, I'm back by popular demand

[Refrain: Beyonce]
Y'all haters corny with that illuminati mess
Paparazzi, catch my fly, and my cocky fresh
I'm so reckless when I rock my Givenchy dress (stylin')
I'm so possessive so I rock his Roc necklaces
My daddy Alabama, Momma Louisiana
You mix that negro with that Creole make a Texas bamma
I like my baby hair, with baby hair and afros
I like my negro nose with Jackson Five nostrils
Earned all this money but they never take the country out me
I got a hot sauce in my bag, swag

[Interlude: Messy Mya + Big Freedia]
Oh yeah baby, oh yeah I, ohhhhh, oh yes I like that
I did not come to play with you hoes, haha
I came to slay, bitch
I like cornbreads and collard greens, bitch
Oh yes, you besta believe it

[Refrain: Beyonce]
Y'all haters corny with that illuminati mess
...

[Chorus: Beyonce]
I see it, I want it
I stunt, yeah, yellow bone it
I dream it, I work hard
I grind 'til I own it
I twirl on them haters
Albino alligators
El Camino with the seat low
Sippin' Cuervo with no chaser
Sometimes I go off, I go off
I go hard, I go hard
Get what's mine, take what's mine
I'm a star, I'm a star
Cause I slay, slay
I slay, hey, I slay, okay
I slay, okay, all day, okay
I slay, okay, I slay okay
We gon' slay, slay
Gon' slay, okay
We slay, okay
I slay, okay
I slay, okay
Okay, okay, I slay, okay
Okay, okay, okay, okay
Okay, okay, ladies, now let's get in formation, cause I slay
Okay ladies, now let's get in formation, cause I slay
Prove to me you got some coordination, cause I slay
Slay trick, or you get eliminated

[Verse 1: Beyonce]
When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay
When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay
If he hit it right, I might take him on a flight on my chopper, cause I slay
Drop him off at the mall, let him buy some J's, let him shop up, cause I slay
I might get your song played on the radio station, cause I slay
I might get your song played on the radio station, cause I slay
You just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay
I just might be a black Bill Gates in the making

[Chorus: Beyonce]
I see it, I want it
...

[Bridge: Beyonce]
Okay ladies, now let's get in formation, I slay
Okay ladies, now let's get in formation
You know you that bitch when you cause all this conversation
Always stay gracious, best revenge is your paper

[Outro]
Girl I hear some thunder
Golly this is that water boy, oh lord

domingo, setembro 27, 2015

Pearl Jam + Beyoncé

No sábado, dia 26, teve lugar em Nova Iorque, no Central Park, a quarta edição do Global Citizen Festival, uma organização das Nações Unidas integrada no combate à pobreza (os cidadãos que deram o seu contributo através do site do Global Poverty Project recebiam entradas grátis para o festival).
Com participações de Beyoncé, Pearl Jam, Ed Sheeran e Coldplay (Chris Martin é o actual director criativo do evento), o concerto teve um momento alto quando Eddie Vedder chamou ao palco Beyoncé para uma vibrante interpretação de Redemption Song, de Bob Marley — a performance incluiu um extracto do discurso de Nelson Mandela contra a pobreza global, em 2005, na Trafalgar Square de Londres.

domingo, novembro 23, 2014

Beyoncé ou a arte dos fragmentos

Não é fácil: encenar o ritmo contagiante de uma performance musical, fragmentando obsessivamente as imagens, mas sem perder a consistência narrativa e a lógica do espectáculo. É o que consegue Beyoncé no teledisco de uma nova canção, 7/11, num misto de precisão e euforia — Blue Ivy Carter, a filha de Beyoncé e Jay-Z, aparece aos 58 segundos.

quinta-feira, maio 01, 2014

Ronaldo & Beyoncé — a estupidez figurativa

[ mundodeportivo.com ]
> A estupidez figurativa de muita "informação" contemporânea tem na futilidade da Internet a sua principal arma de criação & difusão. Observe-se o alarido que por aí vai por causa dos gestos com que, no jogo Bayern-Real Madrid, Cristiano Ronaldo comemorou o seu recorde de 15 golos na Liga dos Campeões (viria ainda a marcar o 16º): assim, há quem tenha descoberto a fascinante (?) coincidência entre os movimentos das mãos de Ronaldo e uns breves momentos da coreografia de Beyoncé no teledisco de Single Ladies (Put a Ring on It)...


> Importa lidar com esta ocupação do tempo (dos consumidores) e do espaço (jornalístico) para além da mais básica candura. Assim, claro que podemos detectar alguma semelhança física entre os movimentos das mãos de Beyoncé e Ronaldo. Mais do que isso: quem quiser especular sobre as estratégias visuais da marca Ronaldo (obviamente pensadas e organizadas para além de qualquer espontaneísmo), poderá até sugerir que o gesto do jogador foi feito com absoluta consciência dos paralelismos que podia suscitar — não é nada disso que aqui se comenta.

> O que está em causa é a banalidade discursiva de um método de olhar & ler o mundo que se faz apenas deste tipo de frugais coincidências. No seu simplismo mental, este tipo de pensamento mediático está sempre disponível para aproximar o que não é aproximável. Pior do que isso: para reduzir o mundo a uma anedota contínua em que tudo se equivale, tudo se banaliza, nada tem peso histórico ou simbólico. Podemos, aliás, gerar infinitos exemplos desse (des)entendimento da experiência humana [exemplo em baixo] como uma repetição de clichés que, supostamente, consagram uma salutar diversão — na prática, limitam-se a promover a estupidez individual e colectiva.

sábado, abril 26, 2014

Beyoncé no labirinto da beleza


Pretty hurts, we shine the light on whatever's worst
Perfection is a disease of a nation, pretty hurts, pretty hurts (...)

Em número duplo, com data de 5/12 de Maio, a revista Time volta a propor a sua lista das "100 pessoas mais influentes no mundo". Na capa está Beyoncé que, através do site da revista, divulga o novo teledisco do tema Pretty Hurts — um magnífico exercício, ao mesmo tempo exuberante e distante, sobre a beleza, seu labirinto e contradições. A realização é de Melina Matsoukas, com Harvey Keitel num pequeno papel.


>>> Site oficial de Beyoncé.

terça-feira, março 04, 2014

Beyoncé no Crazy Horse

Lançado directamente no iTunes, a 13 de Dezembro de 2013, o álbum homónimo de Beyoncé continua a sua difusão através de telediscos empenhados em experimentar os limites do próprio universo figurativo da sua criadora. Agora, o tema Partition surge reinventado através de um exuberante pequeno filme dirigido pelo inglês Jake Nava, encenando um striptease no Crazy Horse de Paris — uma metódica aventura de erotismo e burlesco, em tom de conto conjugal. Com Jay-Z, et pour cause.