Vangelis e Carl Sagan — eis a dupla que serviu para definir o mote da nossa sessão de hoje, na FNAC. Ou seja: primeiro, o álbum Heaven and Hell, de Vangelis, editado há 50 anos; depois, a série do americano Sagan, Cosmos: A Personal Voyage (1980-81), que utilizava um tema do álbum do compositor grego no respectivo genérico — aqui estão essas memórias cruzadas.
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sexta-feira, novembro 21, 2025
terça-feira, março 11, 2014
Sobre o novo 'Cosmos':
para já foi um "small bang"...
Há sempre um risco à espreita sempre que uma sequela se coloca pela nossa frente: o da comparação com o original. Ainda é cedo para tecer uma opinião "definitiva" sobre a nova série Cosmos: A Spacetime Odissey que ontem teve estreia nos nossos pequenos ecrãs (um episódio não faz uma série, naturalmente)... Mas depois de visto o episódio de estreia deste novo Cosmos, a palavra “desilusão” é a que mais bem descreve o cair por terra (não por Terra) das expectativas que a campanha de lançamento fizera antecipar.
É preciso ter em conta que na origem desta nova série está uma outra que representou simplesmente a melhor que alguma vez levou os espaços da divulgação científica para os pequenos ecrãs. Animada pela visão e conhecimento de Carl Sagan, pelos seus dotes de grande comunicador e evidente entusiasmo na partilha do saber, o Cosmos original juntava o state of the art dos efeitos visuais da época não só para nos mergulhar numa viagem imaginária pelo Valles Marineris como pela Biblioteca de Alexandria, muitas das memórias de homens de ciência e descobertas de outros tempos surgindo em reconstituições de época que assim somavam o passado e o futuro a uma história que se contava no presente. E o presente tinha uma data: 1980.
Antes de mais, que fique claro que não tenho nada contra a novidade (pelo contrário). Nem contra as sequelas. Nem mesmo contra os remakes, desde bem feitos e tragam algo de novo ou confiram nova visibilidade à matéria prima na origem das ideias... O Império Contra-Ataca ou Indiana Jones e A Última Cruzada são dois bons exemplos de belíssimas sequelas. E o remake de Smile, pelo próprio Brian Wilson, é uma pequena maravilha da história da canção pop.
Mais de três décadas depois, o novo Comos partilha a co-autoria de Ann Druyan (que claramente vinca a “marca” Sagan no discurso) e recupera algumas das ideias originais, do calendário cósmico à nave da imaginação com a qual o novo apresentador caminha pelo cosmos. Nova tecnologia digital sugere outras imagens da superfície de Marte, de explosões solares, dos anéis de Saturno... E até aqui, tudo até parece correr bem.
Mas por muito que seja uma figura interessante e informada, o novo apresentador Neil deGrasse Tyson não é um Sagan (e ao apresentar um “Cosmos” não se livra de uma comparação desfavorável que, numa série com outro título e talvez outra agenda, seria problema inexistente). Falta-lhe o entusiasmo quase juvenil e familiar com que Sagan fazia das anãs brancas e dos puslares coisas que pareciam lá de casa. A ver como a evolução dos episódios permite ou não a sua “descolagem” das evidentes ligações “gravíticas” a Sagan que, para já, não venceu.
As imagens digitalmente criadas são interessantes. Mas se esse é “o valor maior” da nova série, então vale a pena recordar as propostas do britânico Brian Cox em Wonders of The Solar System ou Wonders of The Universe onde, pelo menos do que podemos comparar com o que se viu neste episódio de estreia, os resultados parecem bem melhores.
O que é mesmo mau neste novo Cosmos é a animação e a música. As sequências que evocam Giordano Bruno são histórica e cientificamente interessantes, mas o registo de animação “clássica” está longe do melhor que o desenho tem levado aos ecrãs. E a música, assinada por Alan Silvestri (que tem coisas do calibre de um Capitão América, G.I Joe e afins) é de pompa sinfonista desinteressante e incaracterística, vincando um contraste negativo na comparação com a presença de peças de Vangelis (sobretudo do álbum Heaven and Hell) na série original. Não havia entre os novos valores da música eletrónica quem desse melhor conta do recado?
Volto a sublinhar que ainda é cedo para assinar uma opinião definitiva sobre a série. Mas convenhamos que não começou lá muito bem...
É preciso ter em conta que na origem desta nova série está uma outra que representou simplesmente a melhor que alguma vez levou os espaços da divulgação científica para os pequenos ecrãs. Animada pela visão e conhecimento de Carl Sagan, pelos seus dotes de grande comunicador e evidente entusiasmo na partilha do saber, o Cosmos original juntava o state of the art dos efeitos visuais da época não só para nos mergulhar numa viagem imaginária pelo Valles Marineris como pela Biblioteca de Alexandria, muitas das memórias de homens de ciência e descobertas de outros tempos surgindo em reconstituições de época que assim somavam o passado e o futuro a uma história que se contava no presente. E o presente tinha uma data: 1980.
Antes de mais, que fique claro que não tenho nada contra a novidade (pelo contrário). Nem contra as sequelas. Nem mesmo contra os remakes, desde bem feitos e tragam algo de novo ou confiram nova visibilidade à matéria prima na origem das ideias... O Império Contra-Ataca ou Indiana Jones e A Última Cruzada são dois bons exemplos de belíssimas sequelas. E o remake de Smile, pelo próprio Brian Wilson, é uma pequena maravilha da história da canção pop.
Mais de três décadas depois, o novo Comos partilha a co-autoria de Ann Druyan (que claramente vinca a “marca” Sagan no discurso) e recupera algumas das ideias originais, do calendário cósmico à nave da imaginação com a qual o novo apresentador caminha pelo cosmos. Nova tecnologia digital sugere outras imagens da superfície de Marte, de explosões solares, dos anéis de Saturno... E até aqui, tudo até parece correr bem.
Mas por muito que seja uma figura interessante e informada, o novo apresentador Neil deGrasse Tyson não é um Sagan (e ao apresentar um “Cosmos” não se livra de uma comparação desfavorável que, numa série com outro título e talvez outra agenda, seria problema inexistente). Falta-lhe o entusiasmo quase juvenil e familiar com que Sagan fazia das anãs brancas e dos puslares coisas que pareciam lá de casa. A ver como a evolução dos episódios permite ou não a sua “descolagem” das evidentes ligações “gravíticas” a Sagan que, para já, não venceu.
As imagens digitalmente criadas são interessantes. Mas se esse é “o valor maior” da nova série, então vale a pena recordar as propostas do britânico Brian Cox em Wonders of The Solar System ou Wonders of The Universe onde, pelo menos do que podemos comparar com o que se viu neste episódio de estreia, os resultados parecem bem melhores.
O que é mesmo mau neste novo Cosmos é a animação e a música. As sequências que evocam Giordano Bruno são histórica e cientificamente interessantes, mas o registo de animação “clássica” está longe do melhor que o desenho tem levado aos ecrãs. E a música, assinada por Alan Silvestri (que tem coisas do calibre de um Capitão América, G.I Joe e afins) é de pompa sinfonista desinteressante e incaracterística, vincando um contraste negativo na comparação com a presença de peças de Vangelis (sobretudo do álbum Heaven and Hell) na série original. Não havia entre os novos valores da música eletrónica quem desse melhor conta do recado?
Volto a sublinhar que ainda é cedo para assinar uma opinião definitiva sobre a série. Mas convenhamos que não começou lá muito bem...
segunda-feira, março 10, 2014
Uma segunda vida para o 'Cosmos'
Originalmente exibida em 1980 no PBS (o canal público norte-americano), Cosmos rapidamente se afirmou como um marco de referencia na história da divulgação científica. Acompanhado por um livro com o mesmo título que passava pelas temáticas e ângulos de abordagem levantados pelos episódios, Cosmos fez de Carl Sagan uma das mais conhecidas vozes na história da divulgação da ciência ao grande público.
Com música de Vangelis e outros compositores, usando os efeitos visuais mais avançados para a época, a série levou-nos através do espaço e do tempo à descoberta do universo e, na verdade, de nós mesmos.
Agora, 34 anos depois, uma segunda série com o título Cosmos volta aos pequenos ecrãs. Trata-se de Cosmos – A Spacetime Odissey, que parte de textos de Ann Druyan (que partilhou vida e obra com Sagan e com ele co-assinou a série original) e conta com apresentação de Neil deGrasse Tyson. Com produção de Seth MacFarlane, a nova série de 13 episódios entrou em produção em 2011 e esta semana chega aos pequenos ecrãs. Teve estreia mundial ontem em dez canais de cabo norte-americanos. E chega hoje até nós, pelas 23.00 no National Geographic...
Podem ver aqui o trailer desta nova série.
quinta-feira, novembro 22, 2012
Quando a ficção é científica
A Gradiva acaba de reeditar no mercado nacional o romance Contacto, a única obra de ficção assinada por Carl Sagan. Este texto foi originalmente publicado na edição de 31 de outubro de 2012 do DN com o título 'Uma narrativa de ficção para discutir o universo'.
Carl Sagan acreditava que a ciência podia chegar a todos. Comunicador nato, fez da série televisiva Cosmos uma voz que deu a volta ao planeta, tornando próximos os distantes planetas, as estrelas e os quasars, os muitos livros que editou antes e depois seguindo o mesmo caminho. Sagan defendia que todos se podiam interessar pelos assuntos da ciência. “É só uma questão de fazer com que esta lhes chegue de uma forma acessível”, disse aos microfones da rádio pública norte- americana em 1996. Falava então da adaptação ao cinema de Contacto, aquele que foi o seu único livro de ficção, que a Gradiva agora volta a publicar entre nós, integrado numa coleção que tem vindo a apresentar a integral das suas obras. É frequente vermos autores de literatura de ficção científica a assinar títulos de ensaio na área da ciência. E basta recordar livros de nomes como Ben Bova ou Arthur C. Clark para termos bons exemplos de textos informados e consequentes. Carl Sagan fez o contrário. Astrónomo, com trabalho importante na área da exobiologia e da busca de vida extraterrestre e colorador de missões da NASA como a Voyager ou Viking, publicara nos anos 70 títulos de divulgação como Dragões do Éden (1977) ou O Cérebro de Broca, antes de em 1980 criar em Cosmos uma das mais celebradas séries de divulgação científica sobre as grandes questões da astronomia.
Por essa altura trabalhava, juntamente com Ann Druyan ( com quem se casou em 1981), no argumento para um filme de ficção. O projeto não chegou então a bom porto. Mas Sagan não o fechou numa gaveta e desenvolveu a narrativa, acabando nas mãos com um romance de ficção científica. Chamou- lhe Contacto e, através de uma narrativa que acompanha o primeiro “contacto” de seres humanos com uma mensagem extraterrestre ( que os conduzirá à construção de uma “máquina” que eventualmente permitirá o “contacto” entre as civilizações), aproveita para lançar e debater questões, de antigos conflitos entre as visões da ciência e as da fé a uma das dúvidas que mais motivou toda a sua obra científica: estaremos sós?
A história, que encara a matemática como língua universal e apresenta um projeto de busca de sinais de outras civilizações semelhante ao SETI ( em que Sagan colaborou) acabaria por chegar ao cinema em 1997, um ano depois da morte de Carl Sagan.
O argumento que Sagan começou a escrever ( com Ann Druyan) em 1979 e que na altura conheceu ponto final por incapacidade em desenvolver a produção de um filme acabou por chegar ao cinema em 1997, pelas mãos de Robert Zemeckis. Em 1996, falando à NPR, Sagan dizia que, se o filme chegasse “aos calcanhares” do 2001 Odisseia no Espaço de Kubrick já se daria por feliz. Sagan via o cinema como mais uma “ferramenta” para levar mais longe as questões da ciência. E as reflexões e questões que lançara no livro como contexto e também fermento para a condução da própria narrativa fizeram desta aventura mais um espaço de debate sobre a ciência ( e a sua relação até com o mundo da política), os dogmas, a eventualidade da existência de vida (e a própria capacidade de sobrevivência das civilizações) Protagonizado por Jodie Foster, Contacto chegou aos cinemas em 1997, depois da morte do autor. Já doente, Carl Sagan colaborou ainda com a produção e chegou mesmo a dar uma palestra ao elenco e técnicos sobre a história da astronomia.
Carl Sagan acreditava que a ciência podia chegar a todos. Comunicador nato, fez da série televisiva Cosmos uma voz que deu a volta ao planeta, tornando próximos os distantes planetas, as estrelas e os quasars, os muitos livros que editou antes e depois seguindo o mesmo caminho. Sagan defendia que todos se podiam interessar pelos assuntos da ciência. “É só uma questão de fazer com que esta lhes chegue de uma forma acessível”, disse aos microfones da rádio pública norte- americana em 1996. Falava então da adaptação ao cinema de Contacto, aquele que foi o seu único livro de ficção, que a Gradiva agora volta a publicar entre nós, integrado numa coleção que tem vindo a apresentar a integral das suas obras. É frequente vermos autores de literatura de ficção científica a assinar títulos de ensaio na área da ciência. E basta recordar livros de nomes como Ben Bova ou Arthur C. Clark para termos bons exemplos de textos informados e consequentes. Carl Sagan fez o contrário. Astrónomo, com trabalho importante na área da exobiologia e da busca de vida extraterrestre e colorador de missões da NASA como a Voyager ou Viking, publicara nos anos 70 títulos de divulgação como Dragões do Éden (1977) ou O Cérebro de Broca, antes de em 1980 criar em Cosmos uma das mais celebradas séries de divulgação científica sobre as grandes questões da astronomia.
Por essa altura trabalhava, juntamente com Ann Druyan ( com quem se casou em 1981), no argumento para um filme de ficção. O projeto não chegou então a bom porto. Mas Sagan não o fechou numa gaveta e desenvolveu a narrativa, acabando nas mãos com um romance de ficção científica. Chamou- lhe Contacto e, através de uma narrativa que acompanha o primeiro “contacto” de seres humanos com uma mensagem extraterrestre ( que os conduzirá à construção de uma “máquina” que eventualmente permitirá o “contacto” entre as civilizações), aproveita para lançar e debater questões, de antigos conflitos entre as visões da ciência e as da fé a uma das dúvidas que mais motivou toda a sua obra científica: estaremos sós?
A história, que encara a matemática como língua universal e apresenta um projeto de busca de sinais de outras civilizações semelhante ao SETI ( em que Sagan colaborou) acabaria por chegar ao cinema em 1997, um ano depois da morte de Carl Sagan.
O argumento que Sagan começou a escrever ( com Ann Druyan) em 1979 e que na altura conheceu ponto final por incapacidade em desenvolver a produção de um filme acabou por chegar ao cinema em 1997, pelas mãos de Robert Zemeckis. Em 1996, falando à NPR, Sagan dizia que, se o filme chegasse “aos calcanhares” do 2001 Odisseia no Espaço de Kubrick já se daria por feliz. Sagan via o cinema como mais uma “ferramenta” para levar mais longe as questões da ciência. E as reflexões e questões que lançara no livro como contexto e também fermento para a condução da própria narrativa fizeram desta aventura mais um espaço de debate sobre a ciência ( e a sua relação até com o mundo da política), os dogmas, a eventualidade da existência de vida (e a própria capacidade de sobrevivência das civilizações) Protagonizado por Jodie Foster, Contacto chegou aos cinemas em 1997, depois da morte do autor. Já doente, Carl Sagan colaborou ainda com a produção e chegou mesmo a dar uma palestra ao elenco e técnicos sobre a história da astronomia.
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