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quinta-feira, dezembro 05, 2019

Uma lição jornalística de Nancy Pelosi

Nancy Pelosi
1. A degradação dos padrões jornalísticos não fez desaparecer o próprio jornalismo. O certo é que tal degradação, transversal e multinacional, raras vezes é enfrentada pela própria comunidade jornalística. Como se reafirmar a deontologia e os valores jornalísticos fosse um sinal de enfraquecimento.

2. Felizmente (ou infelizmente), ainda há quem, na classe política, não se deixe submeter à desvergonha do jornalismo fulanizado e provocador, apenas à procura da agitação pela agitação. Aconteceu hoje, quando a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, anunciou a passagem à fase seguinte do processo de destituição de Donald Trump [notícia: DN]. Quando um jornalista lhe perguntou se ela "odeia Trump", Pelosi teve a reacção firme e pedagógica de quem não se submete à obscenidade mediática [video].

3. Nada disto, entenda-se, envolve qualquer desvalorização do papel de informação, investigação e escrutínio que a classe jornalística pode e deve desempenhar (e que, obviamente, em muitos casos, continua a desempenhar). O que está em causa é a resistência a esse comportamento que combina a irresponsabilidade profissional e a vulgaridade humana.

sexta-feira, novembro 15, 2019

Impeachment, em 7 minutos

Conhecer o presente, compreender os acontecimentos para além da espuma mediática: eis um trabalho eminentemente jornalístico que alguns videos do New York Times ilustram de modo exemplar — aqui, para entender melhor o processo de destituição [impeachment] de Donald Trump, eis 7 didácticos minutos.

quarta-feira, novembro 13, 2019

Impeachment segundo a Rua Sésamo

No debate sobre a possível destituição [impeachment] de Donald Trump, a Rua Sésamo dá o seu contributo, em colaboração com The Late Show, de Stephen Colbert — eis um alfabeto para lidarmos com o processo político em curso.

quarta-feira, outubro 30, 2019

IMPEACHMENT
—Trump, as palavras & etc.

Sinal dos tempos: nesta sociedade de imagens em que vivemos, a instrumentalização quotidiana das palavras não anulou os seus poderes primitivos. A saber: fazer política é também uma arte de administração de palavras, discursos e significações.
Sintomaticamente, o processo de destituição [impeachment] do Presidente Donald Trump está a ser dirimido em muitos e complexos cenários que, para além, ou melhor, através das suas componentes audiovisuais, envolvem os mais diversos gestos de consciência e análise das palavras.
Este video da CNN pode servir de exemplo modelar: em diálogo com John Berman, Elie Honig, analista do sistema legal, faz o ponto de situação do que já foi dito, das mensagens claras às hipóteses mais ou menos obscuras. Correspondendo à dinâmica dos acontecimentos, a CNN criou mesmo uma newsletter a que deu o nome de Impeachment Watch.

quarta-feira, outubro 23, 2019

Donald Trump em verso

Actor de filmes tão populares como Blow Out (Brian de Palma, 1981), Laços de Ternura (James L. Brooks, 1983) ou Interstellar (Christopher Nolan, 2014), vedeta da série televisiva 3º Calhau a Contar do Sol (1996-2001), John Lithgow nunca desistiu do gosto de desenhar e escrever poesia. De tal modo que surge agora como autor total, palavras e imagens, de Dumpty, livro com um subtítulo especialmente sugestivo: "A idade de Trump em verso". É também, acrescenta ele, uma forma de lidar com o vazio humorístico do próprio Donald Trump — explicações saborosas e festivas em The Late Show, com Stephen Colbert; em baixo, um magnífico sketch da mesma edição do programa, com Lithgow a interpretar o surreal advogado de Trump, Rudy Giuliani.



quinta-feira, outubro 03, 2019

Trump contra Trump

"Um dia dramático para a América" — foi a expressão usada por Jim Baker, antigo conselheiro do FBI, comentando na CNN as novas declarações de Donald Trump perante as câmaras de televisão.
Como é sabido, o Presidente dos EUA enfrenta um processo de destituição, motivado pelo facto de, num telefonema, ter "solicitado" ao Presidente da Ucrânia que investigasse Joe Biden e o seu filho. Ora, que novo e perturbante "dramatismo" Trump introduziu em toda esta situação? Pois bem, repetiu, agora em público [video: NYT], o mesmo apelo, chegando ao ponto de sugerir que não deveria ser apenas a Ucrânia a investigar os Biden... mas também a China!
Escusado será dizer que este novo episódio, tragicamente caricatural, fragiliza ainda mais a posição institucional de Trump, ao mesmo tempo que reforça (?) a sua existência como entidade que vive apenas pela televisão, para a televisão. De uma maneira ou de outra, o desenlace da sua saga política não poderá deixar de envolver alguma reflexão, metódica e exigente, sobre o perverso funcionamento da galáxia mediática que habitamos.

quinta-feira, setembro 26, 2019

"Fake news" — algumas ideias vagas

Jean-Pierre Léaud — LA CHINOISE (1967)
Nestes tempos de “fake news”, o que significa procurar a verdade? E o que é, afinal, uma ideologia? Um velho filme de Jean-Luc Godard ajuda-nos a reformular essas perguntas, lidando com a fragilidade de algumas ideias — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Setembro).

A noção de “fake news” é tão velha como a imprensa, mas não há dúvida que se tem transfigurado neste nosso tempo de informação global, domínios virtuais e… Donald Trump. Já não nos basta considerar o método e a honestidade com que cada órgão de informação representa o mundo em que vivemos. Na expressão usada por todos (mesmo os que não dominam a língua inglesa), assistimos à secundarização da palavra “news” — vivemos e consumimos o espectáculo do “fake”, mesmo que, por princípio, o condenemos.
Donald Trump
Nesta dinâmica realmente global, Trump conseguiu uma vitória extraordinária, em grande parte alimentada pela nossa aceitação do quotidiano como uma parada de peripécias mais ou menos pitorescas, fúteis e, no limite, reversíveis. O 45º Presidente dos EUA entronizou-se como tenente-general de um sistema de leitura do mundo regido por uma festiva dicotomia: se há “fake news”, isso significa que a verdade pode ser vivida e tratada como um absoluto; tudo o resto é ideologia.
Depois dos conflitos de valores e pensamento das sociedades pré-digitais — que encarnaram em figuras de grande vibração simbólica como John F. Kennedy, François Mitterrand ou Mikhail Gorbatchov —, a ilusão de que comunicamos com tudo, logo tudo sabemos, reaproximou-nos de formas de infantilismo que noutros tempos rejeitámos. Depois da ilusão do “fim da história”, proclamada por Francis Fukuyama no começo dos anos 90, a nossa nova morfina moral é o “fim das ideologias”.
Num filme sobre a contaminação do território universitário francês pelo maoísmo, intitulado La Chinoise, Jean-Luc Godard tratou esta questão da inevitabilidade ideológica no contexto de Maio de 68. Aliás, corrijo: colocando em cena um grupo de estudantes que tenta aplicar os princípios enunciados no Livro Vermelho, o filme é muitas vezes evocado como um retrato das convulsões de Maio de 68, mas o certo é que a sua estreia ocorreu em… Agosto de 1967!
La Chinoise trata as ilusões das suas personagens com esse misto de ternura e crueldade que, na filmografia de Godard, constitui um genuíno sistema de prospecção humana e interrogação filosófica. As personagens de La Chinoise são a emanação de uma juventude exaurida nas suas próprias utopias, com os respectivos intérpretes a integrar uma espécie de “tribo” artística: é o caso de Jean-Pierre Léaud, actor mítico da Nova Vaga francesa, e Anne Wiazemsky (1947-2017), neta de François Mauriac, na época casada com o realizador.
Jean-Luc Godard
A certa altura, Léaud experimenta vários pares de óculos, cada um deles com lentes com a bandeira de um país (China, EUA, França…). São imagens que, de modo eminentemente lúdico, materializam a própria noção de ideologia: os óculos são o filtro ideológico da leitura de Léaud; ao mesmo tempo, porém, definem-no para os outros através de um símbolo, a bandeira, também ele ideológico.
Dito de outro modo: a ideologia não é um espaço em que decidimos entrar, como quem escolhe estados de alma a partir de um menu existencial ou acede a uma superfície comercial para adquirir os produtos de que necessita; na sua pluralidade, são os caminhos ideológicos que desenham o mapa do território histórico e social em que, com uma consciência mais ou menos aguda, nos descobrimos inseridos.
Nas frágeis personagens de La Chinoise, Godard admira uma força primitiva: a tenacidade de saber e querer saber, conhecer e querer conhecer. Não se trata de uma postura exactamente jornalística, nem exclusivamente cinematográfica, antes visceralmente literária. Porquê? Porque sempre envolvida com o amor das palavras e o obstinado labor da escrita. A sua ética está condensada num princípio de acção que, a certa altura, surge inscrito numa parede de um cenário: “É preciso confrontar as ideias vagas com imagens claras.”

quarta-feira, setembro 25, 2019

Trump, por escrito

[FOTO: Le Monde]
Depois da abertura de um processo de impeachment, que poderá conduzir (ou não) à destituição de Donald Trump, a Casa Branca divulgou o registo da conversa do Presidente dos EUA com Vladimir Zelenski, presidente da Ucrânia [The Guardian]. Há, desde já, uma óbvia confirmação: Trump tentou "mobilizar" Zelenski para investigar Joe Biden e o seu filho...
Em qualquer caso, o que importa referir é a fundamental mudança de paradigma: seja qual for o desenlace deste processo, a linguagem dominante do audiovisual (televisão & Net) passou a coexistir na dinâmica social com a matéria primitiva da escrita, da palavra escrita — eis um assinalável acontecimento político.

“No one is above the law.”

I. "Ninguém está acima da lei", lembrou Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, ao anunciar a abertura de um processo formal de investigação com vista à destituição [impeachment] do Presidente dos EUA, Donald Trump. Motivo: uma suposta tentativa de Trump em pressionar o presidente ucraniano a investigar o antigo vice-presidente Joe Biden [DN].

II. Primeiro: a presunção de inocência de Trump (como de qualquer cidadão que, por uma ou outra razão, é objecto de alguma investigação legal) não está em causa. Segundo: o resultado concreto deste processo está longe de poder ser antecipado, até porque cabe ao Senado decidir, por maioria de dois terços, a eventual demissão do presidente (recorde-se que o Partido Republicado é maioritário no Senado).

III. Uma coisa é certa: este novo facto político [video: New York Times] implica alguma reconversão de forças no interior da paisagem política americana, com incidências mais que prováveis na cena internacional. De uma maneira ou de outra, para o melhor ou para o pior, depois do impacto ambivalente do Relatório Mueller, a discussão sobre a legitimidade política de Trump deixou de ser um exercício estritamente moral — agora, mais do que nunca, a exigência ética exprime-se no plano institucional.

terça-feira, julho 23, 2019

O helicóptero de Donald Trump

Quando vemos Donald Trump a falar aos jornalistas nos jardins da Casa Branca, nem sempre é fácil ouvir o que ele diz. Porquê? Porque lá ao fundo está um helicóptero a rugir — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Julho), com o título 'Porque grita Trump'.

A imagem possui um valor icónico. No sentido figurativo que António Houaiss estabelece no seu dicionário: “pessoa ou coisa emblemática do seu tempo, do seu grupo, de um modo de agir ou pensar, etc.”
Creio que esse valor começa num básico efeito de reconhecimento. Aí está o contorno do corpo de Donald Trump, a coloração do seu cabelo e o gesto de desenhar um arco com as mãos, reiterando algo que considera evidente. Tudo isso pressupõe a ocupação de um lugar concreto, os jardins da Casa Branca, em que as figuras dos seguranças e os microfones dos jornalistas são elementos correntes da cenografia da informação presidencial.
Trata-se, curiosamente, de uma imagem oficial: um fotograma — ou “frame”, para aplicarmos a terminologia que o digital impôs — retirado de um vídeo da Casa Branca (repare-se no emblema colocado no topo direito com o endereço abreviado: WH.GOV). O certo é que tão cândida descrição está longe de ser suficiente para compreendermos o funcionamento da imagem e do fluxo de imagens em que está integrada.


Falta-nos algo que quase sempre esquecemos quando proclamamos esse lugar-comum, tão cómodo e tão preguiçoso, segundo o qual “vivemos num mundo de imagens”. Falta o som do ambiente em que a imagem foi gerada. Dito de outro modo: precisamos de olhar para o fundo e sublinhar a presença do Marine One, o helicóptero presidencial. No vídeo, o ruído do helicóptero domina a cena, levando Trump a gritar para que as suas palavras possam ser ouvidas.
Como espectador interessado na quotidiana convivência de políticos e televisões, ou melhor, nas narrativas geradas através dessa convivência, fui-me apercebendo desse dado insólito: na Casa Branca, a esmagadora maioria das declarações de Trump aos jornalistas passou a ser feita antes das suas saídas em helicóptero, com o Presidente dos EUA a “integrar” o ruído no seu espaço comunicacional.
Em boa verdade, a situação já tinha sido considerada por alguma informação americana. Assim, em Março do corrente ano, o jornal The Washington Post publicou um pequeno vídeo (um minuto e meio) em que inventariava as suas variações dramáticas. É fascinante, com o seu quê de assustador, observar como Trump, consciente das dificuldades de comunicação originadas pelo ruído do helicóptero, promove esse ruído a contraponto do seu discurso. Quando um jornalista lhe coloca uma questão que ele próprio não terá entendido, diz: “Você está a competir com o helicóptero...” Ou dá conta das suas dificuldades de audição: “Peço desculpa, mas tenho um helicóptero a rugir ali ao fundo...” Ou ainda: “Não consigo ouvi-lo, tenho ali um helicóptero...”


Ainda em 2018, numa edição de Dezembro do programa The David Pakman Show (disponível em televisão, rádio e Internet), o próprio Pakman tinha perguntado se faria sentido acusar Trump de organizar este tipo de situações para evitar enfrentar as perguntas mais difíceis dos jornalistas. Com louvável prudência, Pakman evitava cair nesse género de especulação “policial”, chamando antes a atenção para o essencial: na prática, aquela conjuntura “informativa” favorece a fuga sistemática de Trump a qualquer diálogo sério.


Falta recordar o mais perturbante, eventualmente o mais incómodo. A saber: a possibilidade de os próprios jornalistas recusarem “dialogar” naquele aparato ruidoso em que, objectivamente, apenas é possível registar um ou outro “soundbyte”.
Será tal possibilidade uma via pertinente para afirmar a identidade do jornalismo? Não tenho qualquer certeza sobre isso, mas é um facto que os “soundbytes” assim obtidos são regularmente lançados (e reproduzidos ad infinitum) nos circuitos internacionais de televisão. Sobra, por isso, uma interrogação cruel: de que modo o exercício do poder político passou a conter muitos elementos induzidos, sustentados e, por vezes, inconscientemente potenciados pelos dispositivos “naturais” da televisão?

terça-feira, julho 09, 2019

Philip Roth no país de Trump

PHILIP ROTH
(1933 - 2018)
A obra de Philip Roth contém algumas das páginas mais admiráveis que se escreveram sobre a América das últimas décadas. Com ou sem o seu beneplácito, o cinema e a televisão não lhe são indiferentes — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Julho).

Oito meses antes do seu falecimento, o escritor americano Philip Roth (1933-2018) publicou uma colectânea de memórias, entrevistas e ensaios, incluindo alguns inéditos, intitulada Why Write? (Library of America, 2017). São páginas fascinantes de alguém que manteve uma reflexão tão obstinada quanto exigente sobre as convulsões do seu país e, em particular, o lugar do escritor no interior dessas convulsões.
São dele estas palavras, proferidas numa sessão de celebração do seu 80º aniversário, a 19 de Março de 2013, no Museu de Newark: “(...) esta paixão pela especificidade das coisas, pela hipnótica materialidade do mundo em que vivemos, surge de modo fundamental na tarefa assumida por todos os romancistas americanos, desde Melville e a sua baleia ou Mark Twain e o seu rio: encontrar em palavras a descrição mais tocante e mais sugestiva para dar conta da mais remota das pequenas coisas que fazem da América o que ela é. Sem uma sólida representação da coisa — animada ou inanimada —, sem uma representação decisiva do real, não há nada” (traduzo da edição francesa, Pourquoi écrire?, Folio/Gallimard, 2019).
Roth não abdica do valor das palavras e, por maioria de razão, do labor da escrita. Há nele uma intransigência do dizer e do escrever cada vez mais importante face a uma vida política tecida de muitas acelerações, visuais e audiovisuais, em que a brevidade pueril do Twitter foi mesmo transformada pelo Presidente dos EUA em “gestão” quotidiana da esfera política. Em Janeiro de 2017, em declarações à revista The New Yorker, Roth resumiu a questão, definindo Donald Trump como um “artista da ilusão” (tradução branda de “con artist”).
Não deixa de ser curioso e, de alguma maneira, pedagógico observar que Roth não explora qualquer sugestão de paralelismo entre o seu trabalho — e, em boa verdade, de toda a geração de escritores do pós-guerra (Cormac McCarthty, Don DeLillo, Joyce Carol Oates, etc.) — e as aventuras narrativas que foram acontecendo no grande cinema americano, de John Ford a Clint Eastwood. Nem sequer gasta tempo a avaliar as adaptações cinematográficas dos seus romances, algumas delas, a meu ver, francamente brilhantes. Penso, por exemplo, e para ficarmos pelos títulos mais recentes, em A Humilhação (Barry Levinson, 2014), Indignação (James Schamus, 2016) e Uma História Americana (Ewan McGregor, 2016), este último baseado, como é óbvio, em Pastoral Americana (todos disponíveis em traduções portuguesas com chancela Dom Quixote).
Em boa verdade, faz sentido que Roth se distancie das imagens do cinema. A sua defesa de uma “sólida representação da coisa” enraíza-se num modo de ver, pensar e escrever que não necessita de qualquer caução corrente, até porque ele aponta o dedo a uma “cultura popular voraz e devoradora” que leva os jovens a “viverem segundo crenças para eles fabricadas pelos que não pensam” (palavras de uma entrevista de 2014).
O elogio do pensamento envolve, não a especulação abstracta, mas sim essa “representação decisiva do real” que pode até fundamentar-se em elementos inventados, como acontece no seu romance A Conspiração Contra a América (2004). Aí, Roth formula a hipótese de as presidenciais americanas de 1940 terem sido ganhas, não por Franklin D. Roosevelt, mas sim por Charles Lindbergh, o célebre aviador cujas ideias anti-semitas (reais) o levam a negociar (no livro) um pacto com Adolf Hitler. Ou como o próprio Roth referiu, em 2017, nas citadas declarações a The New Yorker: “É mais fácil entender a eleição de um Presidente Charles Lindbergh do que um verdadeiro Presidente como é Donald Trump.”
Eis uma lição pouco popular nos dias de hoje (porque, precisamente, contraria muitas crenças da cultura popular): a representação “espontânea” e “automática” da nossa existência, dominante no território das chamadas redes sociais, não pode ser confundida com uma visão transparente, muito menos redentora, da cidadania.
Registemos, enfim, que o autor e produtor David Simon (criador da série The Wire) está a trabalhar numa mini-série inspirada em A Conspiração Contra a América. E também que, numa entrevista ao New York Times, em Janeiro de 2018, Roth considerou que o assunto “está em boas mãos”.

terça-feira, junho 25, 2019

Trump, Buzz Lightyear & etc.

Joe Biden? Bernie Sanders? Elizabeth Warren? Quando o Libération pergunta quem poderá "vencer Trump", dir-se-ia que todas as hipóteses parecem... sequelas — tal como, aliás, o próprio Donald Trump que se foi transformando numa interminável sequela mediática da sua mitologia, dispensando mesmo qualquer verosimilhança narrativa. Neste contexto, Buzz Lightyear, reencontrado em Toy Story 4, pode mesmo surgir como alternativa. A caricatura é feliz, embora talvez arraste consigo a mais infeliz das constatações. A saber: quem voar mais alto no seu delírio paranóide já está a fazer política — to infinity and beyond!

domingo, maio 12, 2019

Clooney, Trump e o planeta

George Clooney esteve no programa de Jimmy Kimmel, alertando para os dramas climatéricos do planeta Terra e denunciando os disparates [DUMBF**KERY] de vários protagonistas da cena política, incluindo o actual inquilino da Casa Branca — grande momento de televisão.

sexta-feira, abril 12, 2019

A IMAGEM: John Moore, 2018

JOHN MOORE / Getty Images
Yanela Sanchez chora quando ela e a mãe, Sandra Sanchez,
são detidas pela polícia de fronteiras dos EUA
McAllen, Texas, 12 Junho 2018
WORLD PRESS PHOTO — fotografia do ano

domingo, abril 07, 2019

Populismo vs. politicamente correcto [citação]

>>> O populismo e o politicamente correcto são (...) duas formas complementares de mentira que correspondem à clássica distinção entre histeria e neurose obsessiva: um histérico diz a verdade disfarçada de mentira (o que é dito não é literalmente verdade, mas a mentira exprime através de uma forma falsa uma queixa autêntica), enquanto que aquilo que o neurótico obsessivo proclama é literalmente verdade, mas é uma verdade que serve uma mentira.

(Penguin, 2018)

quarta-feira, abril 03, 2019

#UnravelHate

Uma marca de roupas canadiana, Peace Collective, pôs em marcha uma campanha sobre as formas de acolhimento dos estrangeiros, demarcando-se do slogan 'Make America great again', de Donald Trump. O princípio de acção é: #UnravelHate. E o resultado é este magnífico spot, da responsabilidade da agência Zulu Alpha Kilo.

terça-feira, abril 02, 2019

DeNiro & Mueller

[ The Washington Times ]
Robert Mueller também está no Saturday Night Live [NBC] — e através de uma performance fulgurante, misto de realismo e burlesco, de Robert DeNiro. Eis a leitura do relatório que (não) tem abalado a política americana, com Aidy Bryant no papel do procurador-geral William Barr e Alec Baldwin a continuar a fazer o "seu" Donald Trump, num registo que já se tornou uma espécie de anti-mitologia do actual habitante da Casa Branca.

sábado, março 02, 2019

Política vs. entertainment vs. cultura

Michel Cohen no Congresso dos EUA [27-02-19]
Muitas atribulações da cena política passaram a existir como acontecimentos televisivos. Resta saber se temos consciência da transformação da nossa condição de espectadores — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Fevereiro).

Eis uma data emblemática: na quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019, qualquer cidadão, em qualquer parte do mundo, pôde seguir as declarações ao Congresso dos EUA de Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, definindo o actual Presidente dos EUA como um “racista”, um especialista em “golpes” e um “mentiroso”. E eis uma evidência suplementar: esta possibilidade de acompanharmos as atribulações da cena política em directo há muito deixou de ser uma excepção; em boa verdade, talvez se possa dizer que muitas formas de fazer política passaram a integrar tal possibilidade.
Podemos até reconhecer, e com toda a transparência, que esta conjugação político-mediática transfigurou os próprios órgãos de informação. Ou, se quiserem, e para utilizarmos a expressão corrente, modificou todos os conceitos e práticas da comunicação social.
De tal modo que a própria noção de “especialização” informativa mudou. Assim, por exemplo, e para nos ficarmos pela paisagem informativa dos EUA, foi possível seguir as imagens de Michael Cohen nos sites de The New York Times e The Washington Post, mas também de The Hollywood Reporter ou Variety. Em termos práticos, o directo de Cohen surgiu, lado a lado, com as mais recentes notícias e análises sobre a cerimónia dos Oscars, realizada no domingo em Los Angeles.
Dizer que tudo isto não passa de um reflexo da chamada “informação-espectáculo” é, talvez, demasiado fácil. É verdade que sabemos que um dos actuais dramas do jornalismo global envolve a discussão das formas de coexistência ou contaminação entre a paixão dos factos e a sedução do “entertainment”. Mas não é menos verdade que tal discussão, por mais pertinente que seja (e é!), não pode ignorar a violenta mudança de paradigma em que vivemos ou nos obrigam a viver. A saber: em democracia, o trabalho político é cada vez menos um sistema de mediações (entre eleitores e eleitos), existindo cada vez mais como celebração contínua dos instantes e eventos que adquirem alguma visibilidade televisiva.
Seria precipitado tentar compreender o estado das coisas através de um qualquer dualismo “pró & contra” ou “verdade & mentira”. Uma coisa é certa: estamos a perder o sentido do tempo e o gosto da duração. Cada gesto político tende a manifestar-se como acontecimento imediato e mediático, colocando-nos na posição, não de agentes, mas de espectadores passivos da própria política.
Resta saber que espectáculo nos é proposto. Em qualquer caso, quando leio as notícias da regular baixa de frequência das salas de cinema (em Portugal e não só), não posso deixar de pensar que é esse modelo primitivo de ser espectador que está a ser metodicamente decomposto. Ser cinéfilo tornou-se mesmo uma forma essencial de fazer política cultural, ou melhor, de pensar a cultura em termos políticos.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Michael Cohen vs. Donald Trump

Para que fique registado: este é o video (de mais de sete horas de duração) disponibilizado por The New York Times, correspondente ao interrogatório de Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, no Congresso dos EUA — ou como a cena política existe, hoje em dia, como acontecimento televisivo ou tele-jornalístico.