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terça-feira, outubro 28, 2014
Pulp vezes 5:
The Trees (2001)
Este foi o primeiro single extraído de We Love Life, álbum que os Pulp gravaram com Scott Walker como produtor. O tema foi lançado em single em formato double A side com o assombroso Sunrise a completar o alinhamento. Um disco ao qual vale a pena regressar. Aqui integra este conjunto de memórias em semana de chegada de um documentário dos Pulp às nossas salas de cinema.
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sexta-feira, julho 18, 2014
Para ler: Scott Walker com Sunn O)))
Está confirmada a parceria entre Scott Walker e o coletivo de drone metal Sunn O))) para um novo álbum a editar em setembro. O ano ganha mais um título de primeira linha...
Podem ler aqui a notícia no Guardian.
Podem ler aqui a notícia no Guardian.
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segunda-feira, dezembro 23, 2013
Os melhores discos de 2013 (N. G.)
Juntar num mesmo disco um manifesto político e uma perspetiva musical que olha em frente, desafiando (em vez da mais habitual cenografia voz e guitarra tantas vezes usada quando se pretende debater causas). Foi o que fizeram os suecos The Knife. Sucessor de Silent Shout (2006) e nascido na sequência de uma experiência nos palcos da ópera com Tomorrow In A Year, o álbum Shaking The Habitual mostrou por um lado uma alma interventiva com vontade de discutir questões de género, de igualdade de oportunidades ou de uma mais justa distribuição de riqueza (juntando mesmo uma BD para levar o debate a um patamar artístico e político ainda mais completo) e, por outro, uma abordagem à composição com vontade de olhar adiante na utilização das electrónicas, experimentando mesmo uma certa aspereza e angulosidades num quadro de ideias que faz deste um dos discos mais visionários do nosso tempo. A vontade de procurar novos caminhos habita também o álbum Matangi de M.I.A.. O reencontro de Nick Cave com os Bad Seeds deu-lhe o seu melhor disco de sempre. O regresso de David Bowie foi um dos casos maiores do ano. Os diálogos de John Grant com as electrónicas confirmaram as promessas do álbum de estreia a solo. E, com nova alma (ler ânimo) os Arcade Fire voltaram a ser entusiasmantes. Breve retrato de um ano que teve discos dos These New Puritans, James Blake, Kanye West e Disclosure (reativando ecos da deep house) entre os seus melhores. Além destes dez títulos o melhor de 2013 no departamento pop/rock e periferias passa ainda por discos de nomes como Mark Eitzel, Darkside, Pet Shop Boys, Julianna Barwick, Alela Diane, Major Lazer, Justin Timberlake, Julian Cope, Vampire Weekend e Elvis Costello com os The Roots.
1. The Knife, Shaking The Habitual (Rabid)
2. M.I.A., Matangi (Interscope)
3. Nick Cave & The Bad Seeds, Push The Sky Away (Bad Seeds, Ltd.)
4. John Grant, Pale Green Ghosts (Bella Union)
5. David Bowie, The Next Day (ISO Records)
6. Arcade Fire, Reflektor (Merge)
7. These New Purtitans, Field of Reeds (Infectious Music)
8. James Blake, Overgrown (Polydor)
9. Kanye West, Yeezus (Roc-A-Fella)
10. Disclosure, Settle (Island)
Canção do ano
Canção do ano
A 8 de janeiro o mundo acordava com uma nova canção de David Bowie, a sua primeira nova canção em dez anos. Com uma carga de memórias, transportando-nos para os dias em que viveu em Berlim, Where Are We Now foi o cartão de visita perfeito para o álbum que chegaria dois meses depois. Outra das grandes surpresas do ano chegou com David Sylvian, que editou em formato de single (num vinil de dez polegadas e lançamento digital) o tema Do You Know Me Now?, onde retomou as linhas mais clássicas de composição que lhe deram em Secrets Of The Beehive (1987) a sua obra-prima em disco. Entre as grandes canções do ano está John Grant e também Nick Cave, com Jubilee Street, o momento maio do alinhamento do álbum que lançou logo no início do ano. Ecos do psicadelismo dos sessentas iluminam San Francisco, o tema que anunciou a chegada do segundo álbum dos Foxygen. E em Love Is A Bourgeois Construct reencontramos o charme e a perspicácia do melhor da obra dos Pet Shop Boys num tema que usa elementos de uma composição de Michael Nyman que, por sua vez, cita Henry Purcell. Entre os melhores do ano estão ainda temas do projeto Major Lazer (com a voz de Ezra Koenig, dos Vampire Weekend), da dupla alemã Coma, de uma colaboração de Blixa Bargeld com Teho Teardo e uma outra de Elvis Costello com os The Roots. Arcade Fire, Franz Ferdinand, CocoRosie, El Perro del Mar, Seoul ou o regresso dos Pixies contam-se ainda entre os momentos melhores de 2013.
1. David Bowie, Where Are We Now? (Iso)
2. David Sylvian, Do You Know Me Now? (Samadhi Sound)
3. John Grant, GMF (Bella Union)
4. Nick Cave & The Bad Seeds, Jubilee Street (Bad Seeds Ltd.)
5. Foxygen, San Francisco (Jagjaguwar)
6. Pet Shop Boys, Love Is a Bourgeois Construct (X2)
7. Major Lazer, Jessica (Secretly Canadian)
8. Coma, Les Dilletantes (Kompakt)
9. Blixa Bargeld + Teho Teardo, Mi Scusi (Specula Records)
10. Elvis Costello + The Roots, Cinco Minutos Con Vos (Blue Note)
Arquivo / reedições
Os cinco álbuns que Scott Walker editou entre 1967 e 1970, entre os quais encontramos nove versões sublimes de canções de Jacques Brel, surgiram este ano reunidos numa caixa. Não trazia temas extra, mas o som remasterizado e um booklet com um completo ensaio que serve de exemplo ao que deve ser o trabalho de escrita para servir uma reedição. Entre os muitos discos que, ao longo do ano, reativaram registos de arquivo contam-se novas incursões pelos catálogos de nomes como os de Nick Drake ou The Velvet Underground. Houve edições expandidas de importantes títulos de nomes como os House of Love, Postal Service, Teardrop Explodes, Tears For Fears ou Electronic. Dos Beatles continuam a chegar surpresas: primeiro na forma de um segundo volume de sessões na BBC, depois através de uma coleção de gravações ainda inéditas de 1963, lançadas para já apenas em suporte digital.
1. Scott Walker, Scott – The Collection 1967 – 1970 (Mercury)
2. Nick Drake, Tuckbox (Island)
3. The House Of Love, The House Of Love – 3CD Deluxe Edition (Cherry Red)
4. Postal Service, Give It Up – 10th Anniversary Edition (Sub Pop)
5. The Beatles, Beatles Bootlegs 1963 (Apple Records)
6. The Velvet Underground, White Light White Heat – Super Deluxe (Verve)
7. Teardrop Explodes, Wilder – Deluxe Edition (Mercury)
8. Tears For Fears, The Hurting – CD + DVD Box Set (Mercury)
9. Electronic, Electronic – Special Edition (EMI)
10. The Beatles, The Beatles At The BBC – Vol 2 (Apple Records)
Between Two Waves não corresponde à primeira edição em disco de obras do compositor contemporâneo russo Victor Kissine, mas representou o primeiro momento de protagonismo maior da sua obra até ao momento, numa ediçãoo pela ECM que contou com a contribuição de Gidon Kremer e dos músicos da sua Kremerata Baltica. Transportando ecos de memórias de juventude (da cidade de São Petesburgo – então Leninegrado – onde viveu e das águas do rio Neva em particular) o disco representou mais um exemplo claro de uma atenção sábia de Manfred Eicher (e da sua ECM) pelo espaço musical que nasce de filhos da antiga URSS. O ano “clássico” vincou a presença de John Adams entre os nomes de referência da sua geração junto das programações das orquestras e de quem as edita. Trouxe belíssimas gravações de obras recentes de John Corrigliano, Philip Glass e Dutilleux. Juntou novas abordagens de grande nível a Poulenc, Shostakovich (com a integral de Petrenko a caminho de se completar) ou Stravinsky (no ano do centenário d’A Sagração da Primavera). A Deutsche Grammophon juntou as suas gravações de obras de Henze numa só caixa. E Daniel Hope celebrou a música do nosso tempo no mais interessante dos seus discos temáticos.
1. Victor Kissine, Between Two Waves (ECM)
2. John Adams – P. Oundjian / Royal Scottish Nat. Orch., Harmonielehre + Doctor Atomic Symphony (Chandos)
3. John Corrigliano – D.A. Miller / Albany Symphony, Conjurer (Naxos)
4. Francis Poulenc - P. Jaarvi / Orch. de Paris, Stabat Mater (Deutsche Grammophon)
5. Hans W. Henze, The Complete Deutsche Grammophon Recordings (Deutsche Grammophon)
6. Pierre Dutilleux, B Hanningan + A. Kartunen / Orch. Phil. De Radio France, Correspondences (Deutsche Grammophon)
7. Dmitri Shostakovich – V. Petrenko / Royal Liverpool S. Orch, Symphony 4 (Naxos)
8. Daniel Hope, Spheres (Deutsche Grammophon)
9. Philip Glass, Visitors (Orange Mountain Music)
10. Igor Stravinsky - S. Rattle / Berliner Phil., Le Sacre du Printemps (EMI Classics)
PS. A produção nacional surgirá numa lista a publicar ainda esta semana. Esta é a lista "definitiva" (se é que isso existe) deste ano. A que apresentei na Radar já tem umas semanas e entretanto foi ligeiramente alterada.
PS. A produção nacional surgirá numa lista a publicar ainda esta semana. Esta é a lista "definitiva" (se é que isso existe) deste ano. A que apresentei na Radar já tem umas semanas e entretanto foi ligeiramente alterada.
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domingo, outubro 13, 2013
Entre cinco discos históricos
de Scott Walker (4 e 5)
Este texto é a terceira parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q. do Diário de Notícias com o título ‘Scott Walker: Cinco discos para redescobrir um mito’.
É contudo com Scott 4 (ainda de 1969), que edita originalmente como Nigel Scott Engel (e que representa o seu primeiro fracasso comercial) que podemos encontrar a sua obra-prima. Este é o primeiro disco que é integralmente feito de composições de sua autoria. E, sem se afastar dos caminhos que percorrera nos três discos anteriores, vinca as marcas de uma personalidade definitivamente encontrada num lote de canções curiosamente menos focadas num só caminho (mais que nunca afastado da simplicidade melodista da pop), e muitas vezes mais parecendo nascidas de fragmentos de ideias. O fulgor rítmico de Hero of The War (sobre o absurdo que é a guerra) ou a assimilação de elementos country em Rhymes of Goodbye contrasta com a elegância frágil de Duchess ou a assombração sinfonista de The Old Man's Back Again (Dedicated To The Neo-Stalinist Regime), canção que comenta os recentes acontecimentos de repressão em Praga e evidencia a alma política que emerge entre uma escrita habitada por ambiguidades através das quais se revelam frestas (nem sempre decifráveis) do mundo de um solitário. Durante a gravação de Scott 4 o músico tinha ao pescoço a chave de uma cela para meditação num mosteiro beneditino na ilha de Wight onde fazia retiros desde 1966. A opção pela utilização do seu nome real, e não da persona musical que tinha criado anos antes, sublinha essas assombrações de solidão, num mundo povoado por estímulos que chegam então da escrita de Camus ou do cinema de Bergman (em particular o filme O Sétimo Selo).
O fracasso do disco nas vendas encontrou em 1969 um Scott Walker bem distinto daquele que, depois de semelhante desaire em 1984 com Climate of Hunter, resistiu à frustração da editora e negou as sugestões de possíveis trabalhos de colaboração com nomes como Brian Eno, Daniel Lanois ou David Sylvian, como conta em 'Another Tree Falls', Jeremy Reed ( Creation Books, 1998). Editado em 1970, 'Til The Band Comes In é um disco a dois tempos, indiciando a etapa algo consequente que se segue com uma série de álbuns que edita na primeira metade dos setentas e da qual só recupera com a reunião dos Walker Brothers para três novos discos entre 1975 e 1978. Dez das canções são originais que procuram seguir o caminho que talhava, embora sem a o fulgor inquieto que domina Scott 4. Mas as cinco faixas finais do álbum são versões algo desconcertantes que nada acrescentam a um disco que teria encerrado de forma mais interessante à faixa dez.
Em 1998, 28 anos depois de 'Til The Band Comes In e três volvidos sobre o soberbo Tilt que reativara a sua verve (embora por caminhos mais assombrados e extremados), Jeremy Reed abria as páginas de Another Tree Falls, o já referido livro dedicado a Scott Walker sublinhando a extrema dificuldade de, mesmo ao cabo do que era então uma carreira de mais de 40 anos, conhecer de facto o homem por detrás da persona. Reed fala de Scott Walker, que conhecemos e admiramos. “o dramático baladeiro barítono” que lança a sua voz grave “sob uma muralha de som orquestral wagneriano”. Mas depois há Noel Scott Engel, o “indivíduo introspetivo e fechado, que escolheu fazer da sua vida um segredo quase inviolável”, chegando-o mesmo a comparar ao jogo e entre o real e a ficção que podemos estabelecer entre Isidore Ducasse e o seu alter-ego, o Conde de Lautreamont, autor dos Contos de Maldoror... É uma opinião... Na verdade, pode haver entre as canções da sua obra (particularmente as da fase 1967-70 e as posteriores a 84) alguns sinais e pontas soltas a convidar-nos à sua descoberta. Segundo cita Reed no seu livro, Scott Walker terá a dada altura revelado que Scott 4 tentara juntar a escrita de Sartre, Camus e Yevtushenko com as linhas modais de Bartók, comentando que ninguém o notara... Talvez esteja na hora de regressar a esse disco. Dele partir para o resto de uma obra notável. E mesmo que Nigel Scott Engel nunca nos de pistas mais claras sobre si mesmo, podemos procurar pelo menos descobrir que é, afinal, Scott Walker. E não há melhor sugestão por onde começar que o lote de cinco discos que fazem desta caixa antológica (com som remasterizado) uma das melhores reedições de 2013.
É contudo com Scott 4 (ainda de 1969), que edita originalmente como Nigel Scott Engel (e que representa o seu primeiro fracasso comercial) que podemos encontrar a sua obra-prima. Este é o primeiro disco que é integralmente feito de composições de sua autoria. E, sem se afastar dos caminhos que percorrera nos três discos anteriores, vinca as marcas de uma personalidade definitivamente encontrada num lote de canções curiosamente menos focadas num só caminho (mais que nunca afastado da simplicidade melodista da pop), e muitas vezes mais parecendo nascidas de fragmentos de ideias. O fulgor rítmico de Hero of The War (sobre o absurdo que é a guerra) ou a assimilação de elementos country em Rhymes of Goodbye contrasta com a elegância frágil de Duchess ou a assombração sinfonista de The Old Man's Back Again (Dedicated To The Neo-Stalinist Regime), canção que comenta os recentes acontecimentos de repressão em Praga e evidencia a alma política que emerge entre uma escrita habitada por ambiguidades através das quais se revelam frestas (nem sempre decifráveis) do mundo de um solitário. Durante a gravação de Scott 4 o músico tinha ao pescoço a chave de uma cela para meditação num mosteiro beneditino na ilha de Wight onde fazia retiros desde 1966. A opção pela utilização do seu nome real, e não da persona musical que tinha criado anos antes, sublinha essas assombrações de solidão, num mundo povoado por estímulos que chegam então da escrita de Camus ou do cinema de Bergman (em particular o filme O Sétimo Selo).
O fracasso do disco nas vendas encontrou em 1969 um Scott Walker bem distinto daquele que, depois de semelhante desaire em 1984 com Climate of Hunter, resistiu à frustração da editora e negou as sugestões de possíveis trabalhos de colaboração com nomes como Brian Eno, Daniel Lanois ou David Sylvian, como conta em 'Another Tree Falls', Jeremy Reed ( Creation Books, 1998). Editado em 1970, 'Til The Band Comes In é um disco a dois tempos, indiciando a etapa algo consequente que se segue com uma série de álbuns que edita na primeira metade dos setentas e da qual só recupera com a reunião dos Walker Brothers para três novos discos entre 1975 e 1978. Dez das canções são originais que procuram seguir o caminho que talhava, embora sem a o fulgor inquieto que domina Scott 4. Mas as cinco faixas finais do álbum são versões algo desconcertantes que nada acrescentam a um disco que teria encerrado de forma mais interessante à faixa dez.
Em 1998, 28 anos depois de 'Til The Band Comes In e três volvidos sobre o soberbo Tilt que reativara a sua verve (embora por caminhos mais assombrados e extremados), Jeremy Reed abria as páginas de Another Tree Falls, o já referido livro dedicado a Scott Walker sublinhando a extrema dificuldade de, mesmo ao cabo do que era então uma carreira de mais de 40 anos, conhecer de facto o homem por detrás da persona. Reed fala de Scott Walker, que conhecemos e admiramos. “o dramático baladeiro barítono” que lança a sua voz grave “sob uma muralha de som orquestral wagneriano”. Mas depois há Noel Scott Engel, o “indivíduo introspetivo e fechado, que escolheu fazer da sua vida um segredo quase inviolável”, chegando-o mesmo a comparar ao jogo e entre o real e a ficção que podemos estabelecer entre Isidore Ducasse e o seu alter-ego, o Conde de Lautreamont, autor dos Contos de Maldoror... É uma opinião... Na verdade, pode haver entre as canções da sua obra (particularmente as da fase 1967-70 e as posteriores a 84) alguns sinais e pontas soltas a convidar-nos à sua descoberta. Segundo cita Reed no seu livro, Scott Walker terá a dada altura revelado que Scott 4 tentara juntar a escrita de Sartre, Camus e Yevtushenko com as linhas modais de Bartók, comentando que ninguém o notara... Talvez esteja na hora de regressar a esse disco. Dele partir para o resto de uma obra notável. E mesmo que Nigel Scott Engel nunca nos de pistas mais claras sobre si mesmo, podemos procurar pelo menos descobrir que é, afinal, Scott Walker. E não há melhor sugestão por onde começar que o lote de cinco discos que fazem desta caixa antológica (com som remasterizado) uma das melhores reedições de 2013.
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quarta-feira, outubro 09, 2013
Entre cinco discos históricos de Scott Walker (3)
Este texto é a terceira parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q. do Diário de Notícias com o título ‘Scott Walker: Cinco discos para redescobrir um mito’.
A chegada de 1968 (e a preparação de novo disco que chegaria em março) espelha ainda ecos de uma popularidade que vinha ainda dos dias da primeira vida dos Walker Brothers, colocando-o em listas de preferências. Os leitores da Disc & Music Echo, por exemplo, votam-no como Melhor Cantor e só o Sgt. Peppers dos Beatles ultrapassou o seu disco a solo na lista dos álbuns do ano. Mas a obsessão de Scott Walker afastava-o progressivamente desses focos de atenção, a sua vivência cultural e política focando interesses e revelando atenções bem distintas. Nesse ano recusa-se a atuar na África do Sul por não concordar com a política do apartheid e compra um anuncio no The Times onde pede aos americanos expatriados que apoiem a candidatura presidencial de Bobbby Kennedy. Scott 2, tal como Scott 3 (lançado um ano depois) aprofundam a procura de um novo caminho mais “sério” (expressão que chega a usar numa entrevista a Jonathan King). Os arranjos alargam horizontes, por vezes lançando bases de ideias mais desafiantes que retomaria décadas mais tarde. A voz ganhava profundidade e corpo, em nada parecendo a de alguém que ainda não chegara aos 30 anos. E em Scott 3, muito particularmente, nota-se uma mais alargada atenção às potencialidades do estúdio de gravação, criando aquele que muitas vezes é apontado como o disco maior da sua obra.
A chegada de 1968 (e a preparação de novo disco que chegaria em março) espelha ainda ecos de uma popularidade que vinha ainda dos dias da primeira vida dos Walker Brothers, colocando-o em listas de preferências. Os leitores da Disc & Music Echo, por exemplo, votam-no como Melhor Cantor e só o Sgt. Peppers dos Beatles ultrapassou o seu disco a solo na lista dos álbuns do ano. Mas a obsessão de Scott Walker afastava-o progressivamente desses focos de atenção, a sua vivência cultural e política focando interesses e revelando atenções bem distintas. Nesse ano recusa-se a atuar na África do Sul por não concordar com a política do apartheid e compra um anuncio no The Times onde pede aos americanos expatriados que apoiem a candidatura presidencial de Bobbby Kennedy. Scott 2, tal como Scott 3 (lançado um ano depois) aprofundam a procura de um novo caminho mais “sério” (expressão que chega a usar numa entrevista a Jonathan King). Os arranjos alargam horizontes, por vezes lançando bases de ideias mais desafiantes que retomaria décadas mais tarde. A voz ganhava profundidade e corpo, em nada parecendo a de alguém que ainda não chegara aos 30 anos. E em Scott 3, muito particularmente, nota-se uma mais alargada atenção às potencialidades do estúdio de gravação, criando aquele que muitas vezes é apontado como o disco maior da sua obra.
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terça-feira, outubro 08, 2013
Entre cinco discos históricos de Scott Walker (2)
Este texto é a segunda parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q. do Diário de Notícias com o título ‘Scott Walker: Cinco discos para redescobrir um mito’.
A consciência da limitação dos formatos pelos quais se expressava a música dos Walker Brothers e a progressiva formação de um gosto a seguir por caminhos diametralmente opostos – passando por Beethoven pelo jazz, o cinema de Godard ou de Bergman - acabariam por conduzir a uma (primeira) separação do trio, devolvendo Scott Walker a si mesmo. Mas o homem que editaria o seu primeiro álbum a solo em 1967 estava longe da teen star que somara êxitos com Pretty Girls Everywhere, Make It Easy On Yourself ou The Sun Ain't Gona Shine Anymore entre 1965 e 66 e, mais ainda, do rapazito que, em nome próprio, dera os primeiros passos nos anos 50. Editado em setembro de 1967, Scott mostrava desde logo na foto da capa um rosto que recusava olhar para a câmara, escondendo os olhos com uns óculos escuros. “Há ali uma privacidade a ser defendida”, descreve Rob Young no booklet da edição da nova caixa (que reúne os álbuns de 1967 a 1970), acrescentando que “coisas da infância estão assim a ser arrumadas”.
Um Scott Walker existencialista emerge naquele instante em que o rapaz se afasta e cede o palco ao homem. As vivências recentes entre concertos de música clássica, uma admiração pelas bandas sonoras assinadas por Michel Legrand e Ennio Morricone e a pop mais sofisticada que chegava de França ajudam a definir um patamar que define o terreno onde emergem as canções. Mas a maior das descobertas que o disco denuncia é a da música de Jacques Brel. O grande cantautor belga – um dos maiores de todos os tempos – tinha abandonado os palcos em 1966, mas foi num musical, com letras traduzidas para a língua inglesa por Mort Schuman, que Scott Walker contactou pela primeira vez com aquele que seria uma das mais marcantes forças na definição da sua personalidade musical. A força daquela escrita (das palavras aos temas controversos), o fulgor dos seus arranjos e pujança interpretativa de Brel arrebatam-no. Scott junta as primeiras das nove versões de Brel que Scott Walker registaria nos seus três primeiros álbuns a solo (e que mais tarde seriam reunidas na compilação Scott Walker Sings Jacques Brel, de 1981).
Hoje deixamos imagens de Jackie, mais uma versão de um tema original de Jacques Brelo. Este foi um entre as três canções do cantor belga que Scott Walker gravou em Scott 2, que editou em 1968. Estas imagens correspondem a uma atuação televisiva da época.
A consciência da limitação dos formatos pelos quais se expressava a música dos Walker Brothers e a progressiva formação de um gosto a seguir por caminhos diametralmente opostos – passando por Beethoven pelo jazz, o cinema de Godard ou de Bergman - acabariam por conduzir a uma (primeira) separação do trio, devolvendo Scott Walker a si mesmo. Mas o homem que editaria o seu primeiro álbum a solo em 1967 estava longe da teen star que somara êxitos com Pretty Girls Everywhere, Make It Easy On Yourself ou The Sun Ain't Gona Shine Anymore entre 1965 e 66 e, mais ainda, do rapazito que, em nome próprio, dera os primeiros passos nos anos 50. Editado em setembro de 1967, Scott mostrava desde logo na foto da capa um rosto que recusava olhar para a câmara, escondendo os olhos com uns óculos escuros. “Há ali uma privacidade a ser defendida”, descreve Rob Young no booklet da edição da nova caixa (que reúne os álbuns de 1967 a 1970), acrescentando que “coisas da infância estão assim a ser arrumadas”.
Um Scott Walker existencialista emerge naquele instante em que o rapaz se afasta e cede o palco ao homem. As vivências recentes entre concertos de música clássica, uma admiração pelas bandas sonoras assinadas por Michel Legrand e Ennio Morricone e a pop mais sofisticada que chegava de França ajudam a definir um patamar que define o terreno onde emergem as canções. Mas a maior das descobertas que o disco denuncia é a da música de Jacques Brel. O grande cantautor belga – um dos maiores de todos os tempos – tinha abandonado os palcos em 1966, mas foi num musical, com letras traduzidas para a língua inglesa por Mort Schuman, que Scott Walker contactou pela primeira vez com aquele que seria uma das mais marcantes forças na definição da sua personalidade musical. A força daquela escrita (das palavras aos temas controversos), o fulgor dos seus arranjos e pujança interpretativa de Brel arrebatam-no. Scott junta as primeiras das nove versões de Brel que Scott Walker registaria nos seus três primeiros álbuns a solo (e que mais tarde seriam reunidas na compilação Scott Walker Sings Jacques Brel, de 1981).
Scott define a emergência de um novo modo de entender a forma das canções. Diferente da grandiosidade do som dos Walker Brothers, as canções procuram novos caminhos, alargam os horizontes dos arranjos, explorando as potencialidades dos sons da orquestra. Scott é o que Rob Young descreve como um casamento “curioso, mas ocasionalmente desconfortável” de três modos distintos: versões de canções tornadas populares pelas vozes de Tony Benett, Frank Sinatra ou Petula Clark, abordagens com arranjos estilisticamente distintos e bem pessoais de temas de Jacques Brel e as canções do próprio Scott Walker. Nascido em contraciclo num verão que assistia ao florescer definitivo do psicadelismo, o disco define assim um modelo que será retomado, sob ocasionais diferenças, nos discos Scott 2 e Scott 3, a grande mudança chegando em Scott 4, o primeiro dos seus discos integralmente feito apenas de canções de sua autoria. As notas de capa da edição original de Scott o próprio músico, então com 25 anos, descrevia o álbum como a sua obsessão. Melhor palavra não poderia descrever a demanda que então enceta e que lança uma etapa única na sua obra (retomando igual busca incansável no período que se segue a Tilt).
(continua)
Hoje deixamos imagens de Jackie, mais uma versão de um tema original de Jacques Brelo. Este foi um entre as três canções do cantor belga que Scott Walker gravou em Scott 2, que editou em 1968. Estas imagens correspondem a uma atuação televisiva da época.
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segunda-feira, outubro 07, 2013
Entre cinco discos históricos de Scott Walker (1)
Começou a carreira como 'teen idol' nos anos 50 e cinco décadas depois é um dos mais respeitados experimentadores para lá das fronteiras dos géneros musicais. Apesar da forma como têm sido aclamados os seus discos mais recentes, é num conjunto de cinco álbuns editados entre 1967 e 1970 que encontramos a essência de uma personalidade criada por um músico de génio que, todavia, guardou sempre para si quem afinal ele é. Este texto foi originalmente publicado no suplemento Q. do Diário de Notícias com o título ‘Scott Walker: Cinco discos para redescobrir um mito’.
Chegaram a apontá-lo como o próximo Frank Sinatra. Deu, como mais ninguém, vida às canções de Jacques Brel para lá da língua francesa, levando-as a novos públicos (e outras gerações). Tem Marc Almond, Julian Cope ou Neil Hannon (dos Divine Comedy) entre as suas mais evidentes descendências. E, caso único na história da música, é exemplo de uma carreira iniciada como teen idol, evoluindo a cada passo até aos terrenos de uma música mais experimental, nas vanguardas das formas e para lá das regras e fronteiras dos géneros musicais, tal e qual os seus discos mais recentes têm mostrado. Mas por muitas paixões que discos mais recentes como Tilt (1995) ou The Drift (2006) tenham levantado ou por maiores que sejam os feitos pop que alcançou com os Walker Brothers com canções como No Regrets ou Nite Flights, a verdade é que reside num conjunto de cinco álbuns editados entre 1967 e 1970 a raiz do estatuto mítico que faz de Scott Walker um dos maiores criadores da música popular da segunda metade do século XX.
Nos últimos 30 anos a discografia de Scott Walker somou apenas quatro álbuns. E mesmo tendo o mais recente Bish Bosh (de 2012) surgido “apenas” seis anos após The Drift, a sua obra a solo posterior ao reencontro dos Walker Brothers na segunda metade dos anos 70 contou apenas com um título nos anos 80 (Climate of Hunter, em 1984) e um outro nos anos 90 (Tilt, em 1995)... Contudo, a chegada de cada novo disco seu anuncia-se sempre como um acontecimento maior, lançando expectativas e dividindo opiniões. E mesmo sendo a sua obra atual um caso notável de uma capacidade de visão para lá das normas e modas do nosso tempo (mais próxima até de uma lógica da música contemporânea erudita que da música popular), a verdade é que não podemos nunca dissociar a sua voz e a própria menção do seu nome daqueles cinco discos de finais dos sessentas, três deles – Scott 2, Scott 3 e Scott 4 representando mesmo um daqueles raros casos de sucessão consecutiva de discos excepcionais como só as discografias de nomes como os Beatles, Kraftwerk, David Bowie ou Prince conseguiram alcançar (na verdade há um álbum editado entre 'Scott 3' e 'Scott 4'. Trata-se de 'Scott Walker Sings Songs From His TV Series', uma compilação com versões de canções que o músico cantou no programa que então teve na BBC. O disco foi descatalogado porco depois e nunca foi reeditado.).
Norte-americano, natural do Ohio (nasceu em Hamilton em 1943), Scott editou os seus primeiros discos em finais dos anos 50. Moldado segundo as normas dos teen idols da época, estreou-se como Scott Engel (o seu verdadeiro nome é Noel Scott Engel) em 1957 com o single When is a Boy a Man. Sem se afastar muito desses terrenos de uma pop ligeira para consumo dos adolescentes da época, continuou a gravar ora a solo ora através de bandas como os Moongoers, The Chosen Few, The Newporters e The Dalton Brothers antes de, em 1964, se juntar a John Maus e Gary Leeds para com eles formar os Walker Brothers que lhe dariam um estatuto de grande popularidade.
Aproveitamos esta semana, em que aqui recordamos memórias da obra marcante de Scott Walker entre 1967 e 1970 para recordar algumas das suas atuações televisivas. Estas imagens correspondem à sua estreia a solo (como Scott Walker) em 1967, num programa apresentado por Dusty Springfield. Scott Walker canta aqui Mathilde, um dos três temas de Jacques Brel que incluiu em Scott, o álbum que lançou nesse mesmo ano.
Nos últimos 30 anos a discografia de Scott Walker somou apenas quatro álbuns. E mesmo tendo o mais recente Bish Bosh (de 2012) surgido “apenas” seis anos após The Drift, a sua obra a solo posterior ao reencontro dos Walker Brothers na segunda metade dos anos 70 contou apenas com um título nos anos 80 (Climate of Hunter, em 1984) e um outro nos anos 90 (Tilt, em 1995)... Contudo, a chegada de cada novo disco seu anuncia-se sempre como um acontecimento maior, lançando expectativas e dividindo opiniões. E mesmo sendo a sua obra atual um caso notável de uma capacidade de visão para lá das normas e modas do nosso tempo (mais próxima até de uma lógica da música contemporânea erudita que da música popular), a verdade é que não podemos nunca dissociar a sua voz e a própria menção do seu nome daqueles cinco discos de finais dos sessentas, três deles – Scott 2, Scott 3 e Scott 4 representando mesmo um daqueles raros casos de sucessão consecutiva de discos excepcionais como só as discografias de nomes como os Beatles, Kraftwerk, David Bowie ou Prince conseguiram alcançar (na verdade há um álbum editado entre 'Scott 3' e 'Scott 4'. Trata-se de 'Scott Walker Sings Songs From His TV Series', uma compilação com versões de canções que o músico cantou no programa que então teve na BBC. O disco foi descatalogado porco depois e nunca foi reeditado.).
Norte-americano, natural do Ohio (nasceu em Hamilton em 1943), Scott editou os seus primeiros discos em finais dos anos 50. Moldado segundo as normas dos teen idols da época, estreou-se como Scott Engel (o seu verdadeiro nome é Noel Scott Engel) em 1957 com o single When is a Boy a Man. Sem se afastar muito desses terrenos de uma pop ligeira para consumo dos adolescentes da época, continuou a gravar ora a solo ora através de bandas como os Moongoers, The Chosen Few, The Newporters e The Dalton Brothers antes de, em 1964, se juntar a John Maus e Gary Leeds para com eles formar os Walker Brothers que lhe dariam um estatuto de grande popularidade.
(continua)
Aproveitamos esta semana, em que aqui recordamos memórias da obra marcante de Scott Walker entre 1967 e 1970 para recordar algumas das suas atuações televisivas. Estas imagens correspondem à sua estreia a solo (como Scott Walker) em 1967, num programa apresentado por Dusty Springfield. Scott Walker canta aqui Mathilde, um dos três temas de Jacques Brel que incluiu em Scott, o álbum que lançou nesse mesmo ano.
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quinta-feira, outubro 03, 2013
Discos pe(r)didos:
Scott Walker,
Scott: Scott Walker Sings Songs
from his T.V. Series
Scott Walker
“Scott: Scott Walker Sings Songs from his T.V. Series”
Phillips
(1969)
O ano de 1960 foi particularmente intenso para Scott Walker. Em março, o álbum Scott 3 (o último a inclui um trio de versões de canções de Jacques Brel) elevou a um ainda mais requintado patamar a expressão de uma demanda autoral encetata dois anos antes na sua estreia a solo. Em novembro nasceria a sua obra-prima: o álbum Scott 4, integralmente feito de temas originais seus, e também o primeiro que resolveu editar como Noel Scott Engel (o seu verdadeiro nome), e que representou um tropeção nas vendas. Mas entre esses dois discos houve um terceiro álbum editado nesse ano. Saiu em julho, está descatalogado desde então, mas representou na época uma montra em suporte discográfico para uma breve experiência televisiva do músico. Com o título (bem explicativo) Scott: Scott Walker Sings Songs from his T.V. Series, o disco recolhe canções que o músico levou ao programa que então teve na BBC, todas elas em versões regravadas em estúdio (uma vez que não se recuperam aqui as versões interpretadas ao vivo durante os programas). Não há aqui originais seus, apenas uma mão cheia de versões de temas que na sua maioria ou são baladas de imponente alma orquestral ou standards por si recriados, seguindo caminhos não muito distantes dos que ensaiara nos três primeitos discos a solo. Apesar do impacte comercial que o disco teve na época, este álbum pode não ter agradado muito ao cantor. E representa, juntamente com The Moviegoer (de 1972) e Any day Now (de 1973), um dos três títulos da obra discográfica de Scott Walker que não voltaram a entrar em catálogo. Há mesmo assim excertos do alinhamento disseminados entre algumas antologias mais recentes, o que permite pelo menos um contacto com um disco, literalmente “perdido” para a memória dos colecionadores do vinil de então. Não é uma obra-prima. Está longe de ser um álbum maior na obra de Scott Walker. Mas é um pormenor curioso que é pena estar tão longe de um acesso mais fácil.
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sexta-feira, abril 12, 2013
Outros tempos na obra de Scott Walker
A obra de Scott Walker a solo editada entre finais dos anos 60 e o início da década de 70 vai ser reeditada em conjunto numa caixa. Scott Walker 1967-1970 junta assim os álbuns Scott (1967), Scott 2 (1968), Scott 3 (1969), Scott 4 (1969) e 'Till The Band Comes In (1970). A caixa, que estará disponível tanto em versões para CD como vinil, está agendada para edição a 3 de junho.
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terça-feira, dezembro 11, 2012
Novas edições:
Scott Walker, Bish Bosch
Scott Walker
'Bish Bosch'
4AD Records / Popstock
4 / 5
Há uma certa tendência, entre músicos veteranos de, a dada altura, mergulhar num regresso às origens. O back to basics, como habitualmente o descrevem os que falam inglês. Nada de errado nisso, tantos bons exemplos que podemos citar, do reencontro dos U2 com as linhas mais cruas dos seus primeiros tempos que em 2004 viveram em How To Dismantle An Atomic Bomb; o regresso dos Rolling Stones à sua linguagem primordial em A Bigger Bang (2005); ou o tom abrasivo dos álbuns de inícios dos oitentas que os R.E.M. redescobriram em Accelerate (2008). Mas há quem recuse estes olhares para o retrovisor. E se há veterano que tem insistido em nunca voltar atrás, como que acreditando que o que foi não volta a ser, ele é Scott Walker. E agora, aos 69 anos de idade, e 45 depois do seu primeiro álbum a solo, apresenta em Bish Bosch mais uma coleção de composições que o colocam mais perto das artes de vanguarda que das memórias do crooner de alma pop/rock que em finais dos anos 60 cantava Plastic Palace People ou versões de originais de Jacques Brel.
Longe, muito longe, do jovem que vestiu a pele de cantor teen na primeira geração dos Walker Brothers (em meados dos anos 60) e distante das baladas sumptuosas que nos apresentou, entre 1967 e 1969, em quatro álbuns que encetaram a sua carreira a solo (a que chamou Scott 1, 2, 3 e 4), Scott Walker mantém firme o desejo em trilhar caminhos de maior desafio que começou a lançar a si mesmo (e aos seus admiradores) ainda em finais dos anos 70 quando em Nite Flights apresentou o derradeiro álbum dos Walker Brothers. Caminho que aprofundou em Climate of Hunter (1984) e nos escassos momentos de reencontro com os discos que viveu desde então: Tilt (1995) e The Drift (2006).
Percussões insistentes abrem o alinhamento de Bish Bosch, um disco onde tanto explora o som de lâminas que se esfregam entre si (em Tar) como aprofunda o trabalho com a orquestra. Trabalho que, como ele explica, é feito em busca de ruídos, texturas e grandes pilares de som, em detrimento da mais frequente procura de arranjos de arrumação elegante. Num texto que encontramos no microsite que a 4AD criou para apresentar o álbum, o título é explicado como juntando uma alteração da palavra "bitch" com o apelido do pintor renascentista Hieronymous Bosch. E como aí bem observa Rob Young (editor da The Wire), a música de Scott Walker é feita de pequenos detalhes, acções e formas, tal e qual alguns dos quadros de Bosch.
Desafiando-nos a ouvir assim a sua música com disponibilidade para a ela regressar e aos poucos nela sentir pequenas obsessões e, assim, descobrir portas de entrada, que geram a descoberta e um progressivo entendimento. Em The Night The Conductor Died evoca a execução de Nicolae e Elena Ceausescu em 1989. A morte, a dor, são temas que passam entre composições assinadas por um reconhecido pessimista que vê as suas canções como seres com alma espiritual. E onde o cinismo não tem lugar.
Bish Bosch mantém firme a demanda por novas formas que ainda há seis anos reencontrávamos em The Drift, a sua estreia no catálogo da 4AD e promove uma vez mais novos modos de entender a canção que Scott Walker tem protagonizado nos últimos 30 anos. Um pouco como David Sylvian o tem feito depois de Blemish (2003), Scott Walker toma a linha vocal como um fio condutor narrativo, criando em seu redor uma noção de espaço e cenário. Há pontuais frestas de melodismo, mas é de sons, de texturas e acontecimentos que vive a alma desta música tão intrigante quanto cativante.
PS. Este texto é uma versão editada de um outro editado originalmente na edição de 4 de dezembro do DN, com o título 'Os novos desafios do veterano Scott Walker'.
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sexta-feira, outubro 12, 2012
À espera de Scott Walker
É naturalmente um dos álbuns mais aguardados nesta reta final de 2012. Seis anos depois de The Drift, o segundo álbum de Scott Walker para o catálogo da 4AD Records, Bish Bosch tem data de lançamento agendada para o dia 3 de dezembro. Um primeiro olhar pelo que nos espera no alinhamento do álbum surge num vídeo com excertos de algumas das faixas e imagens de estúdio captadas durante as sessões de gravação. Há um cão que ladra, lâminas a ser afiadas...
Podem ver aqui o vídeo.
Podem ver aqui o vídeo.
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