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terça-feira, setembro 03, 2019

Boris Johnson & Donald Trump
— anatomia do burlesco

[ DN ]
Será que Boris Johnson e Donald Trump vão cair das escadas? Algumas imagens contemporâneas da vida política passaram a integrar componentes eminentemente burlescas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (31 Agosto).

O burlesco já não é o que era. Quando vemos a fotografia de Donald Trump a apoiar-se em Boris Johnson para enfrentar um lanço de escadas, compreendemos que o burlesco mudou de cenário. E não é a reunião dos G7 que define tal cenário: o que está inscrito na história do cinema como uma sofisticada linguagem de desafio aos limites físicos e simbólicos do corpo passou a existir como elemento mais ou menos hilariante (burlesco, justamente) do nosso espaço mediático.
Que aconteceu, então? Não é fácil lidar com o burlesco, quanto mais não seja porque tudo o que envolve a comédia e o riso tende a ser socialmente celebrado como "entretenimento", logo alheio a qualquer derivação intelectual. E por aí começam equívocos e incompreensões. Porquê? Porque a inscrição do burlesco na cultura popular não anula o facto de a sua linguagem envolver uma especial capacidade de abstração intelectual.
Lembremos a referência óbvia dos filmes da Keystone Film Company de Mack Sennett, produzidos há mais de um século (até 1917). As célebres e aceleradas perseguições desencadeadas pelos polícias ("Keystone Cops") não se limitavam a ser uma acumulação de correrias e trambolhões [foto]. O seu funcionamento pressupõe sempre que tais atribulações decorrem de uma determinada ordem social e legal, conceito intelectual entre todos. Dito de outro modo: são filmes sobre a possibilidade de reposição da ordem, sendo o riso uma expressão visceral do misto de necessidade e fragilidade que reconhecemos nessa mesma ordem.


Escusado será acrescentar que, de Charlie Chaplin a Jerry Lewis, sem esquecer o genial Buster Keaton, esse poder revelador está presente em toda a história do burlesco. Os sinais mais evidentes das suas encenações nunca são alheios a uma estranheza genuinamente humana que começa na dificuldade de compreendermos as mensagens que recebemos do nosso próprio corpo. Veja-se ou reveja-se O Homem das Mulheres (1961), obra-prima de e com Jerry Lewis [poster] — será preciso sublinhar que todos os acidentes e incidentes que ele protagoniza decorrem da dificuldade, potencialmente trágica, de lidar com o universo feminino?


Trump e Johnson pertencem a outro mundo, vivem através de outro sistema de linguagem. Claro que neles encontramos a verdade mais primitiva do burlesco. A saber: o corpo é esse elemento visível, mas imponderável, que em qualquer momento pode pôr em causa o nosso papel no interior de um determinado evento, grupo ou comunidade. Dito de forma muito simples: a possibilidade de os dois líderes políticos caírem escada abaixo faz parte do humor que, de modo mais ou menos consciente, associamos à imagem.
Acontece que, agora, neste tempo em que a velocidade da informação tende a desqualificar o próprio trabalho informativo, a esmagadora maioria dos eventos que vemos obedece a uma lógica de spot publicitário: o que conta não é a "mensagem" que se passa, mas apenas a criação de uma agitação efémera cuja vibração possa gerar uma infinita circulação. E não há dúvida de que Trump e Johnson são mestres dessa arte menor de protagonizar imagens suscetíveis de alimentar os nossos circuitos virtuais. A imagem adquiriu mesmo um funcionamento idêntico ao chamado soundbite: o que se diz (ou mostra) pode ser vazio, até mesmo liminarmente estúpido, mas a sua multiplicação mediática confere uma espécie de dignidade abstrata a quem o gerou.
Surgem, assim, duas questões perturbantes. A primeira é ancestral na vida do jornalismo e, como é óbvio, não pode ser pensada apenas a partir de exemplos mais ou menos anedóticos como esta fotografia: trata-se de discutir, não apenas o que se mostra, mas como mostrá-lo e difundi-lo. A segunda adquiriu configurações muito particulares no novo universo "social", exponenciado pela nossa vida em rede: no limite, há mecanismos de intervenção política que passaram a aplicar uma linguagem mais ou menos burlesca. E não temos Keystone Cops para lidar com o problema.

sábado, agosto 03, 2019

"Green River" — 50 anos

John Fogerty, Tom Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford. Nas convulsões musicais e políticas de 1969, os Creedence Clearwater Revival distinguiram-se por uma participação emblemática, a começar pelo facto de terem lançado três álbuns de originais: Bayou Country, em Janeiro, Green River, em Agosto, Willy and the Poor Boys, em Novembro [NPR].
A canção Bad Moon Rising, do segundo desses álbuns, ficou como bandeira de um rock cuja nostalgia folk se projectava numa desencantada visão do presente — there's a bad moon on the rise.
Green River foi lançado a 3 de Agosto de 1969 — faz hoje 50 anos.

I see a bad moon a-rising
I see trouble on the way
I see earthquakes and lightnin'
I see bad times today

Don't go 'round tonight
It's bound to take your life
There's a bad moon on the rise

I hear hurricanes a-blowing
I know the end is coming soon
I fear rivers over flowing
I hear the voice of rage and ruin

Don't go 'round tonight
[...]

I hope you got your things together
I hope you are quite prepared to die
Look's like we're in for nasty weather
One eye is taken for an eye

Don't go 'round tonight
[...]

terça-feira, julho 23, 2019

O helicóptero de Donald Trump

Quando vemos Donald Trump a falar aos jornalistas nos jardins da Casa Branca, nem sempre é fácil ouvir o que ele diz. Porquê? Porque lá ao fundo está um helicóptero a rugir — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Julho), com o título 'Porque grita Trump'.

A imagem possui um valor icónico. No sentido figurativo que António Houaiss estabelece no seu dicionário: “pessoa ou coisa emblemática do seu tempo, do seu grupo, de um modo de agir ou pensar, etc.”
Creio que esse valor começa num básico efeito de reconhecimento. Aí está o contorno do corpo de Donald Trump, a coloração do seu cabelo e o gesto de desenhar um arco com as mãos, reiterando algo que considera evidente. Tudo isso pressupõe a ocupação de um lugar concreto, os jardins da Casa Branca, em que as figuras dos seguranças e os microfones dos jornalistas são elementos correntes da cenografia da informação presidencial.
Trata-se, curiosamente, de uma imagem oficial: um fotograma — ou “frame”, para aplicarmos a terminologia que o digital impôs — retirado de um vídeo da Casa Branca (repare-se no emblema colocado no topo direito com o endereço abreviado: WH.GOV). O certo é que tão cândida descrição está longe de ser suficiente para compreendermos o funcionamento da imagem e do fluxo de imagens em que está integrada.


Falta-nos algo que quase sempre esquecemos quando proclamamos esse lugar-comum, tão cómodo e tão preguiçoso, segundo o qual “vivemos num mundo de imagens”. Falta o som do ambiente em que a imagem foi gerada. Dito de outro modo: precisamos de olhar para o fundo e sublinhar a presença do Marine One, o helicóptero presidencial. No vídeo, o ruído do helicóptero domina a cena, levando Trump a gritar para que as suas palavras possam ser ouvidas.
Como espectador interessado na quotidiana convivência de políticos e televisões, ou melhor, nas narrativas geradas através dessa convivência, fui-me apercebendo desse dado insólito: na Casa Branca, a esmagadora maioria das declarações de Trump aos jornalistas passou a ser feita antes das suas saídas em helicóptero, com o Presidente dos EUA a “integrar” o ruído no seu espaço comunicacional.
Em boa verdade, a situação já tinha sido considerada por alguma informação americana. Assim, em Março do corrente ano, o jornal The Washington Post publicou um pequeno vídeo (um minuto e meio) em que inventariava as suas variações dramáticas. É fascinante, com o seu quê de assustador, observar como Trump, consciente das dificuldades de comunicação originadas pelo ruído do helicóptero, promove esse ruído a contraponto do seu discurso. Quando um jornalista lhe coloca uma questão que ele próprio não terá entendido, diz: “Você está a competir com o helicóptero...” Ou dá conta das suas dificuldades de audição: “Peço desculpa, mas tenho um helicóptero a rugir ali ao fundo...” Ou ainda: “Não consigo ouvi-lo, tenho ali um helicóptero...”


Ainda em 2018, numa edição de Dezembro do programa The David Pakman Show (disponível em televisão, rádio e Internet), o próprio Pakman tinha perguntado se faria sentido acusar Trump de organizar este tipo de situações para evitar enfrentar as perguntas mais difíceis dos jornalistas. Com louvável prudência, Pakman evitava cair nesse género de especulação “policial”, chamando antes a atenção para o essencial: na prática, aquela conjuntura “informativa” favorece a fuga sistemática de Trump a qualquer diálogo sério.


Falta recordar o mais perturbante, eventualmente o mais incómodo. A saber: a possibilidade de os próprios jornalistas recusarem “dialogar” naquele aparato ruidoso em que, objectivamente, apenas é possível registar um ou outro “soundbyte”.
Será tal possibilidade uma via pertinente para afirmar a identidade do jornalismo? Não tenho qualquer certeza sobre isso, mas é um facto que os “soundbytes” assim obtidos são regularmente lançados (e reproduzidos ad infinitum) nos circuitos internacionais de televisão. Sobra, por isso, uma interrogação cruel: de que modo o exercício do poder político passou a conter muitos elementos induzidos, sustentados e, por vezes, inconscientemente potenciados pelos dispositivos “naturais” da televisão?

terça-feira, julho 09, 2019

Philip Roth no país de Trump

PHILIP ROTH
(1933 - 2018)
A obra de Philip Roth contém algumas das páginas mais admiráveis que se escreveram sobre a América das últimas décadas. Com ou sem o seu beneplácito, o cinema e a televisão não lhe são indiferentes — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Julho).

Oito meses antes do seu falecimento, o escritor americano Philip Roth (1933-2018) publicou uma colectânea de memórias, entrevistas e ensaios, incluindo alguns inéditos, intitulada Why Write? (Library of America, 2017). São páginas fascinantes de alguém que manteve uma reflexão tão obstinada quanto exigente sobre as convulsões do seu país e, em particular, o lugar do escritor no interior dessas convulsões.
São dele estas palavras, proferidas numa sessão de celebração do seu 80º aniversário, a 19 de Março de 2013, no Museu de Newark: “(...) esta paixão pela especificidade das coisas, pela hipnótica materialidade do mundo em que vivemos, surge de modo fundamental na tarefa assumida por todos os romancistas americanos, desde Melville e a sua baleia ou Mark Twain e o seu rio: encontrar em palavras a descrição mais tocante e mais sugestiva para dar conta da mais remota das pequenas coisas que fazem da América o que ela é. Sem uma sólida representação da coisa — animada ou inanimada —, sem uma representação decisiva do real, não há nada” (traduzo da edição francesa, Pourquoi écrire?, Folio/Gallimard, 2019).
Roth não abdica do valor das palavras e, por maioria de razão, do labor da escrita. Há nele uma intransigência do dizer e do escrever cada vez mais importante face a uma vida política tecida de muitas acelerações, visuais e audiovisuais, em que a brevidade pueril do Twitter foi mesmo transformada pelo Presidente dos EUA em “gestão” quotidiana da esfera política. Em Janeiro de 2017, em declarações à revista The New Yorker, Roth resumiu a questão, definindo Donald Trump como um “artista da ilusão” (tradução branda de “con artist”).
Não deixa de ser curioso e, de alguma maneira, pedagógico observar que Roth não explora qualquer sugestão de paralelismo entre o seu trabalho — e, em boa verdade, de toda a geração de escritores do pós-guerra (Cormac McCarthty, Don DeLillo, Joyce Carol Oates, etc.) — e as aventuras narrativas que foram acontecendo no grande cinema americano, de John Ford a Clint Eastwood. Nem sequer gasta tempo a avaliar as adaptações cinematográficas dos seus romances, algumas delas, a meu ver, francamente brilhantes. Penso, por exemplo, e para ficarmos pelos títulos mais recentes, em A Humilhação (Barry Levinson, 2014), Indignação (James Schamus, 2016) e Uma História Americana (Ewan McGregor, 2016), este último baseado, como é óbvio, em Pastoral Americana (todos disponíveis em traduções portuguesas com chancela Dom Quixote).
Em boa verdade, faz sentido que Roth se distancie das imagens do cinema. A sua defesa de uma “sólida representação da coisa” enraíza-se num modo de ver, pensar e escrever que não necessita de qualquer caução corrente, até porque ele aponta o dedo a uma “cultura popular voraz e devoradora” que leva os jovens a “viverem segundo crenças para eles fabricadas pelos que não pensam” (palavras de uma entrevista de 2014).
O elogio do pensamento envolve, não a especulação abstracta, mas sim essa “representação decisiva do real” que pode até fundamentar-se em elementos inventados, como acontece no seu romance A Conspiração Contra a América (2004). Aí, Roth formula a hipótese de as presidenciais americanas de 1940 terem sido ganhas, não por Franklin D. Roosevelt, mas sim por Charles Lindbergh, o célebre aviador cujas ideias anti-semitas (reais) o levam a negociar (no livro) um pacto com Adolf Hitler. Ou como o próprio Roth referiu, em 2017, nas citadas declarações a The New Yorker: “É mais fácil entender a eleição de um Presidente Charles Lindbergh do que um verdadeiro Presidente como é Donald Trump.”
Eis uma lição pouco popular nos dias de hoje (porque, precisamente, contraria muitas crenças da cultura popular): a representação “espontânea” e “automática” da nossa existência, dominante no território das chamadas redes sociais, não pode ser confundida com uma visão transparente, muito menos redentora, da cidadania.
Registemos, enfim, que o autor e produtor David Simon (criador da série The Wire) está a trabalhar numa mini-série inspirada em A Conspiração Contra a América. E também que, numa entrevista ao New York Times, em Janeiro de 2018, Roth considerou que o assunto “está em boas mãos”.

sexta-feira, junho 28, 2019

Migrações, jornalismo e fotografia

Uma mãe e os seus filhos a norte de Palenque, estado de Chiapas, México
[FOTO: Marco Ugarte/AP]
Dar a ver o labirinto de dramas das migrações contemporâneas — eis uma via essencial, porventura uma missão, do trabalho jornalístico. Ao mesmo tempo, dar a ver pressupõe e, num certo sentido, impõe que tal tarefa possa desenvolver-se para lá da mera gestão de imagens "emblemáticas" (mesmo reconhecendo que tais imagens podem possuir um inestimável valor simbólico e político). Eis o exemplo modelar de um portfolio organizado pelo jornal The Boston Globe: 19 fotografias de muitas formas de sobrevivência e resistência.

À espera de um comboio em Salto del Agua, Chiapas, México
[FOTO: Marco Ugarte/AP]
Abrigo do Bom Pastor em Tapachula
[FOTO: Rebecca Blackwell/AP]

quinta-feira, junho 27, 2019

Madonna: "American Life", Parte 2

Mais um video para figurar em lugar de destaque na história de Madonna — e, em boa verdade, na história iconográfica dos EUA em tempos de Donald Trump. Com God Control, Madonna assina aquele é que, seguramente, o seu mais contundente panfleto político desde o teledisco de American Life (lançado em 2003). Neste, a América de George W. Bush surgia encenada como uma paisagem de delirante e irresponsável proliferação de muitas formas de violência, tudo envolvendo uma interrogação radical da própria identidade pessoal:

I'd like to express my extreme point-of-view
I'm not a Christian and I'm not a Jew
I'm just living out the American dream
And I just realized that nothing is what it seems

Agora, o tema duplica-se e transfigura-se, tanto mais que "A nossa nação mentiu/Perdemos respeito":

Everybody knows the damn truth
Our nation lied, we lost respect
When we wake up, what can we do?
Get the kids ready, take them to school
Everybody knows they don't have a chance
To get a decent job, to have a normal life

O efeito é tanto mais perturbante quanto o crescendo de violência que o teledisco sugere (em momentos que, perversamente, não deixam de recordar encenações festivas como a de Deeper and Deeper, em 1992) se apresenta tratado através de uma sequência de situações cronologicamente invertida, protagonizada pela própria Madonna. De acordo com uma regra de ouro da sua iconografia de obstinada Material Girl, ela duplica-se numa personagem que escreve a letra da própria canção, numa pontuação de crescente desencanto e desespero. Coincidência nada acidental: American Life e God Control foram ambos realizados por um velho aliado, o sueco Jonas Åkerlund.


* * * * *

American Life existe em duas versões: a primeira, produzida antes do início da invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA (20 Março 2003), surgiu já com essa invasão em marcha, de imediato suscitando acesas controvérsias. Poucos dias depois, a 1 de Abril, Madonna decidiu retirar o teledisco, divulgando uma declaração em que dizia, nomeadamente: "Decidi não difundir o meu video. Foi filmado antes da guerra começar e não creio que seja apropriado emiti-lo neste momento. Devido ao volátil estado do mundo, por manifestação de sensibilidade e respeito pelas forças armadas, que apoio e por quem rezo, não quero correr o risco de ofender quem quer que seja que possa interpretar erradamente o significado deste video."
A segunda montagem de American Life conserva a imagem introdutória de Madonna em uniforme militar, agora como "narradora" de todo o teledisco, apresentando como pano de fundo bandeiras de países de todo o mundo; começou a circular a 16 de Abril de 2003 — eis as duas versões.



terça-feira, junho 25, 2019

Trump, Buzz Lightyear & etc.

Joe Biden? Bernie Sanders? Elizabeth Warren? Quando o Libération pergunta quem poderá "vencer Trump", dir-se-ia que todas as hipóteses parecem... sequelas — tal como, aliás, o próprio Donald Trump que se foi transformando numa interminável sequela mediática da sua mitologia, dispensando mesmo qualquer verosimilhança narrativa. Neste contexto, Buzz Lightyear, reencontrado em Toy Story 4, pode mesmo surgir como alternativa. A caricatura é feliz, embora talvez arraste consigo a mais infeliz das constatações. A saber: quem voar mais alto no seu delírio paranóide já está a fazer política — to infinity and beyond!

segunda-feira, junho 17, 2019

"O nosso planeta que se afunda"

Um pouco por toda a parte, as convulsões do clima estão mesmo a provocar a "subida dos mares", a obrigar à "fuga de habitantes", enfim, a contribuir para o "desaparecimento de povoações". Mas a fotografia do Secretário-Geral das Nações Unidas não se esgota na sua espantosa vibração simbólica. Acontece que a imagem de António Guterres, assinada por Christopher Gregory, possui um efeito realista suplementar: foi obtida na costa de Tuvalu, pequeno país da Polinésia, a sentir de forma dramática a alteração dos mais primitivos equilíbrios ecológicos.
Como escreve o jornalista da Time, Justin Worland, "Guterres está a trabalhar no sentido de posicionar as pequenas nações-ilhas não apenas no centro político do debate, mas também como o seu centro moral" — eis uma urgência que, como se prova, o melhor jornalismo sabe assumir no interior do seu trabalho específico.

Sailosi Ramatu (à direita), administrador da povoação de Vunidogoloa,
e o seu filho Simi Botu naquilo que resta da sua antiga casa
[FOTO: Christopher Gregory]

quarta-feira, junho 12, 2019

Jon Stewart ou a precisão das palavras

Que não haja confusões típicas da cultura mediática "cor de rosa": o facto de alguém, anónimo ou figura pública, surgir em imagens de evidente comoção, eventualmente em lágrimas, nada tem a ver com uma qualquer compulsiva prova de verdade — e só por chantagem afectiva pode ser tratado como um fim em sim mesmo.
O certo é que as emoções que podemos ver no rosto e na pose de Jon Stewart, dirigindo-se a elementos do Congresso dos EUA, não pertencem ao domínio do gratuito informativo nem da manipulação cognitiva. O ex-apresentador de The Daily Show falava em defesa das pessoas envolvidas nas acções de salvamento no World Trade Centre de Nova Iorque, na sequência do atentado de 11 de Setembro, voltando a criticar com veemência a inacção dos legisladores no sentido de garantir as devidas condições de tratamento e apoio médico a essas pessoas. São momentos em que, também na televisão, voltamos a acreditar no valor primordial das palavras e na precisão que o seu uso pode envolver — eis a intervenção de Jon Stewart em registo da CNN.

domingo, maio 19, 2019

Madonna na Eurovisão

Se a urgência dos símbolos passou a ser uma componente incontornável das nossas sociedades mediáticas, recordemos os factos: Madonna esteve no Festival da Eurovisão e, ao fechar a sua actuação com o tema Future, na companhia de Quavo, deixou uma mensagem: "Acordem". Mais ainda: dois dos bailarinos, de braço dado, ostentavam duas bandeiras — Israel e Palestina — nas costas. O pós-concerto ficou marcado por um comunicado da European Broadcasting Union, sublinhando o carácter não-político da Eurovisão e também o facto de desconhecerem que as duas bandeiras iriam ser usadas. Fica o registo, sublinhando apenas que a primeira canção da performance se chama 'Como uma oração'. Voilà!

domingo, maio 05, 2019

O Facebook nunca existiu

Mark Zuckerberg definiu um novo mote para a actividade do Facebook: “O futuro é privado”. No seu simplismo, a fórmula afasta-nos da discussão do conceito de privacidade e, no limite, evita pensar qualquer hipótese de futuro — este texto foi publicado no Diário de Notícias (2 Maio).

Depois de vários casos de abuso de gestão de dados pessoais de frequentadores do Facebook — com inevitável destaque para o escândalo em torno da Cambridge Analytica, envolvendo elementos das fichas de 87 milhões de pessoas —, Mark Zuckerberg veio anunciar um novo mote para a sua empresa. Assim, na conferência anual do Facebook, realizada em San Jose, Califórnia, proclamou uma surpreendente palavra de ordem: “O futuro é privado.”


Num universo parasitado por “soundbytes”, eis um slogan com imediata e perversa ressonância universal a que, em última instância, será difícil reconhecer o mínimo de consistência argumentativa. Como se pode ver/ouvir através de vídeos disponíveis em infinitos lugares da internet, Zuckerberg explicita a sua “mensagem” através de um raciocínio que seria apenas pueril, não se desse o caso de ter adquirido o poder devastador de uma ideologia “social”. A saber: “A privacidade dá-nos a liberdade de sermos nós próprios.”
Como? Registe-se, antes do mais, que o criador do Facebook mudou a agulha do seu discurso (e, ao que parece, dos seus negócios). Antes, numa estratégia de ocupação planetária (com mais de 2,3 mil milhões de seguidores, a palavra é apenas objectiva), o Facebook apresentava-se como a cândida consagração de uma permanente, polimorfa e redentora exposição de “informação” pessoal, capaz de definir um reino de felicidade automática, automaticamente partilhável. Zuckerberg conseguiu mesmo convencer a maior parte desses milhões de pessoas a aplicar os seus emblemáticos polegares ao alto, desse modo confundindo a proliferação de “likes” com um sistema social de radiosa comunhão de interesses, saberes e civilizações.
Agora, tentando relativizar os efeitos devastadores (leia-se: anti-sociais) de todo esse aparato, o Facebook propõe-se ensinar-nos que “sermos nós próprios” nada tem a ver com formas de relação com outros, decorrendo mesmo de uma configuração do mais ritualizado egoísmo — afinal, só somos o que somos quando nos encerramos em algum domínio privado... A fazer o quê? O marketing não podia ser mais linear: quando vivemos a nossa privacidade percorrendo programas e aplicações que o Facebook coloca à nossa disposição.
Compreendo melhor, agora, por que é que o prodigioso filme de David Fincher, A Rede Social (2010), sobre o nascimento do Facebook, suscitou tantas resistências, por vezes mais ou menos revoltosas. Trabalhando sobre um notável argumento de Aaron Sorkin (premiado com um Oscar), Fincher não se limitava a expor o mais básico, isto é, a vertiginosa procura de lucros financeiros através do Facebook. Na sua metódica narrativa, o filme era também o retrato de um sistema de circulação de informação, links e “likes” em que o factor humano tende a existir como elemento descartável, susceptível de permanente instrumentalização simbólica e comercial.


Confunde-me também, por isso, a agitação mediática com que, nos mais diversos contextos, o Facebook passou a ser referido e questionado. Já era tempo de formular algumas perguntas básicas... Sem dúvida. Ainda assim, importa recordar que há poucos anos (antes e depois do lançamento do filme de Fincher) circulava pelo planeta Terra uma adoração beata do Facebook, identificando como “bárbaros” todos aqueles que se atreviam a enunciar a mais ténue dúvida ética sobre o gigantesco dispositivo virtual que estava a instalar-se.
Dir-se-ia que milhões e milhões de pessoas, para além de nacionalidades, raças ou credos, tinham tido a revelação de um éden virtual, tratando qualquer hesitação face às respectivas maravilhas como manifestação de uma minoria de espíritos enclausurados em “preconceitos” medievais... Agora, tudo se passa como se esses mesmos “preconceitos” tivessem sido reconvertidos em apressados preceitos morais, a ponto de definirem uma nova idade da razão.
Como ponto de fuga de tudo isto, deparamos com uma miséria filosófica de que, em boa verdade, Zuckerberg não pode ser apontado como responsável único. Rasurando o passado, procedendo como se o Facebook nunca tivesse existido, o seu infantilismo ideológico tem algo de patético, mas demonizá-lo como pessoa não passará de uma forma cínica de escamotear as nossas responsabilidades individuais e colectivas.
A saga trágica do Facebook é, afinal, a expressão, não de um novo conceito de privacidade, mas de um sistema de valores que vai contribuindo para o esvaziamento prático e simbólico do próprio território privado. Da omnipresença compulsiva das comunicações virtuais ao triunfo obsceno da “reality TV”, demo-nos ao luxo de abraçar um “progresso” comunicacional alicerçado na quotidiana decomposição dos laços humanos.
Como alguém escreveu: “A combinação do capitalismo de mercado livre, mais as plataformas monopolistas, mais a confiança que utilizadores e agentes políticos depositaram na técnica deixou-nos à mercê dos controladores da tecnologia. Os líderes não eleitos das maiores plataformas tecnológicas — em especial Facebook e Google — estão a corroer as fundações da democracia liberal em todo o mundo, e apesar disso entregámos-lhes a segurança da informação nas nossas eleições de 2018 [intercalares nos EUA]. Eles estão a minar a saúde pública, redefinindo os limites da privacidade pessoal e reestruturando a economia global, tudo isso sem darem voz àqueles que são afectados. Todos, mas em especial os optimistas da tecnologia, deveriam investigar o modo como os interesses dos gigantes da internet podem entrar em conflito com os do público.”


Convém sublinhar que estas não são palavras de um qualquer enraivecido activista que se possa definir como anti-militante do Facebook. Nada disso. Trata-se de uma citação de um espantoso livro — Zucked: Waking up to the Facebook Catastrophe (HarperCollins, 2019) —, escrito por Roger McNamee, capitalista sem hipocrisia mercantil, homem de negócios, analista, investidor, em tempos conselheiro de Mark Zuckerberg.
Evitando reduzir os problemas gerados pelo Facebook à gritaria de um qualquer tribunal público, mais ou menos televisivo, lembrando mesmo que a evolução das chamadas “redes sociais” não pode ser dissociada do espírito libertário que, até certo altura, marcou os negócios de Silicon Valley, McNamee convoca-nos para uma reflexão urgente e exigente: muito para além dos poderes virtuais dos “likes”, o que está em jogo é (e será) sempre de natureza política. Resta saber se o trabalho político está a tender para uma angariação de polegares.

quarta-feira, maio 01, 2019

Olhar as coisas [citação]

>>> (Escolho uma citação:) As democracias modernas, transformando a política num domínio de pensamento autónomo, predispõem ao totalitarismo. [...] Porque é que aquilo a que ainda damos os nomes de esquerda e direita... como é que, ao verem um problema, não conseguem entender-se? Por exemplo, na cozinha alguns chefes conseguem entender-se para dizer que aqui há sal a mais, ali não há o suficiente... A esquerda e a direita não olham as coisas. Dizem as coisas, dizem vitupérios, mas não as olham...

JEAN-LUC GODARD
24 Abril 2019
Da Vinci

sábado, abril 20, 2019

Notre Dame ou os dias da Europa

Perante as imagens de destruição da Notre Dame de Paris, todos evocamos a grandeza histórica da nossa Europa. Será que isso basta para sermos realmente europeus? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Abril), com o título 'A Europa do nosso descontentamento'.

Contemplo as imagens de destruição da Notre Dame de Paris. Nos jornais e televisões, nos noticiários televisivos, o fogo acorda em nós a certeza amarga de uma impotência que importa superar, quanto mais não seja porque sabemos que o fazer da história é um infinito labor de construção e reconstrução, perdição e esperança.
Sinto-me, por isso, próximo de todos os discursos que apontam Notre Dame como símbolo de uma entidade em que, subitamente, para além de todas as crises, todos nos reconhecemos. A saber: esse lugar geográfico e mítico a que damos o nome de Europa.
Ao mesmo tempo, a sensação de comunhão face à vulnerabilidade da Notre Dame acorda em mim um outro sentimento que, mal ou bem, é também uma forma de pensamento. Que acontece (que está a acontecer) quando necessitamos de imagens trágicas como as que nos chegam de Paris para nos afirmarmos europeus?
DN (16-04-19)
Não quero encerrar a questão em generalizações automáticas, dessas que podem funcionar meia dúzia de dias nas manchetes televisivas para depois se desvanecerem numa agonia silenciosa de esquecimento. Ainda assim, pergunto-me se esta comunhão não envolve os valores (ou a falta deles) do mais corrente niilismo. Como se os contrastes, porventura as contradições, que todos sentimos — entre a utopia europeia e a sua vivência política — necessitassem de imagens cruas de destruição ou morte para a Europa reaparecer à tona do nosso oceano de diferenças.
Para nos ficarmos pelas imagens, precisamente, lembremos que vivemos numa Europa cujo espaço televisivo está todos os dias contaminado pela miséria conceptual e moral da “reality TV” e seus derivados. A formatação obscena dos comportamentos humanos promovida pela “reality TV” (com especial evidência para a coisificação sexual de homens e mulheres) transformou-se mesmo num elemento corrente de muitos modelos de comunicação televisiva — ou, como dirão os “especialistas”, um formato.
Não vejo, não escuto os protagonistas da cena política a defender uma ideia primordial de Europa face a essa metódica irrisão dos laços humanos e da mais nobre noção de humanismo. Vejo, isso sim, e escuto-os, a dar conta da tristeza radical com que contemplam as imagens de Notre Dame.
No meu recanto individual, partilho tal tristeza e acredito que os projectos de reconstrução se vão consumar, superando a destruição física e renovando o nosso amor por aquela igreja e o seu tocante simbolismo. Pergunto-me apenas se (e como) é possível termos mais Europa nos outros dias, aqueles em que o fogo não nos alerta para a ancestral excelência da nossa identidade colectiva.

quarta-feira, abril 17, 2019

A catástrofe do Facebook [citação]

>>> A combinação do capitalismo de mercado livre, mais as plataformas monopolistas, mais a confiança que utilizadores e agentes políticos depositaram na técnica deixou-nos à mercê dos controladores da tecnologia. Os líderes não eleitos das maiores plataformas tecnológicas — em especial Facebook e Google — estão a corroer as fundações da democracia liberal em todo o mundo, e apesar disso entregámos-lhes a segurança da informação nas nossas eleições de 2018 [intercalares nos EUA]. Eles estão a minar a saúde pública, redefinindo os limites da privacidade pessoal e reestruturando a economia global, tudo isso sem darem voz àqueles que são afectados. Todos, mas em especial os optimistas da tecnologia, deveriam investigar o modo como os interesses dos gigantes da internet podem entrar em conflito com os do público.

ROGER McNAMEE
HarperCollins, 2019

domingo, abril 07, 2019

Populismo vs. politicamente correcto [citação]

>>> O populismo e o politicamente correcto são (...) duas formas complementares de mentira que correspondem à clássica distinção entre histeria e neurose obsessiva: um histérico diz a verdade disfarçada de mentira (o que é dito não é literalmente verdade, mas a mentira exprime através de uma forma falsa uma queixa autêntica), enquanto que aquilo que o neurótico obsessivo proclama é literalmente verdade, mas é uma verdade que serve uma mentira.

(Penguin, 2018)

quarta-feira, abril 03, 2019

#UnravelHate

Uma marca de roupas canadiana, Peace Collective, pôs em marcha uma campanha sobre as formas de acolhimento dos estrangeiros, demarcando-se do slogan 'Make America great again', de Donald Trump. O princípio de acção é: #UnravelHate. E o resultado é este magnífico spot, da responsabilidade da agência Zulu Alpha Kilo.

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Michael Cohen vs. Donald Trump

Para que fique registado: este é o video (de mais de sete horas de duração) disponibilizado por The New York Times, correspondente ao interrogatório de Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, no Congresso dos EUA — ou como a cena política existe, hoje em dia, como acontecimento televisivo ou tele-jornalístico.

Os políticos portugueses e os seus cartazes

ALBRECHT DÜRER
Auto-retrato
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Como é que os políticos se representam através das imagens da própria propaganda política? Que visão do mundo se exprime, por exemplo, nos seus cartazes? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Fevereiro).

Há dias, no final do “Jornal 2” (RTP2), Sandra Sousa conduziu uma breve e muito interessante conversa com Ricardo Pais. O pretexto imediato era a sua encenação da peça Oleanna, de David Mamet (Teatro Sá da Bandeira, Porto, até 17 de Março).
Foi com especial prazer que escutei as palavras concisas de Ricardo Pais sobre o texto de Mamet, explicando, em particular, a sua tão peculiar (e também tão inconfundível) arte do diálogo e sublinhando o desafio que representa para os actores. Para além disso, registo o modo preciso e eloquente com que lembrou uma verdade muito incómoda. A saber: o desinvestimento do Estado na chamada área cultural.
O assunto é árduo e, como é evidente, não “cabia” nos poucos minutos daquela conversa televisiva (nem nas linhas deste texto). Até porque se corre sempre o risco de esvaziar a difícil arte de fazer política, favorecendo a ideia simplista segundo a qual se trata apenas de distinguir os governos que investiram “mais” daqueles que investiram “menos”... e sabemos bem que a cena político-mediática está saturada de debates (?) desse género em que quase todos, de todos os quadrantes políticos, parecem apenas empenhados em encontrar algum radioso soundbyte.
Não querendo fazer extrapolações abusivas a partir das palavras de Ricardo Pais, direi apenas, em termos pessoais, que me parece que o desinvestimento atrás referido está longe de ser meramente financeiro. É, acima de tudo, um elemento estrutural de um universo político, direitas e esquerdas confundidas, que há muito desistiu de pensar culturalmente o mundo.
David Mamet
Há excepções individuais, sem dúvida. Hoje como em décadas anteriores da nossa vida democrática. Mas também não se trata de multiplicar o simplismo, propondo uma espécie de “quadro de honra” no interior da classe política. Trata-se, isso sim, de perguntar como é que as entidades políticas que nos governam, já governaram ou podem vir a governar, pensam a cultura do país. Mais do que isso: como pensam culturalmente o país.
Será uma derivação esquemática, mas confesso que não pude deixar de recordar estes temas e dúvidas ao contemplar os cartazes que, preparando os próximos actos eleitorais, já começaram a proliferar nas ruas das nossas cidades. E perguntar: como é que os nossos políticos pensam as imagens? Ou apenas: como é que pensam as suas imagens?
Não tenho gosto nenhum em dizê-lo, mas receio que não pensem em nada que tenha a ver com a representação do mundo à sua volta — a começar pela representação de si próprios. Mais uma vez direitas e esquerdas confundidas, todos parecem obedecer aos conceitos criativos (?) de profissionais do marketing que, há anos, os fixaram num cliché único e unívoco: coloca-se uma foto tipo passe do político e ilustra-se com uma frase mais ou menos militante e apelativa.
Acima de tudo, importa que o fundo seja uma cor uniforme, pastel de preferência, não agressiva. Dito de outro modo: não há fundo representado (ou representável) para a imagem do político porque ninguém pensa, ou quer pensar, o contexto em que tudo isto está a acontecer.
Bem sei que a transformação das nossas vidas (já agora, se possível, para melhor) não se faz com cartazes nem se organiza com palavras de ordem. Ainda assim, quando os protagonistas da política acreditam que são aqueles cartazes que vão motivar os portugueses, contrariando, por exemplo, os seus hábitos abstencionistas, sou levado a pensar que há neles a candura chique de quem gosta de proclamar que “vivemos num mundo de imagens”, mas que nunca dedicou um escasso minuto do seu tempo a pensar o que isso pode querer dizer. Ou significar.

domingo, fevereiro 10, 2019

A agenda política dos Pet Shop Boys

O tema não está na moda. Que tema? A apropriação artística do discurso político. Porquê? Porque tendemos a confundir os gestos políticos com a ocupação da paisagem televisiva por soundbytes mais ou menos efémeros.
Pois bem, Agenda, o novo EP dos Pet Shop Boys reflecte, precisamente, a agenda política de quem sempre concebeu o trabalho musical como um exercício de uma só vez lírico e pedagógico que, embora evitando encerrar-se num discurso panfletário, não abdica de olhar o mundo à sua volta. Neil Tennant e Chris Lowe oferecem-nos assim, quatro canções ("três satíricas e uma muito triste", no dizer de Tennant) que inventariam temas trágicos do nosso viver e, sobretudo do nosso mal viver. A saber:
Give Stupidity A Chance, sobre a mediocridade de alguns líderes políticos;
On Social Media, expondo as simulações e ilusões da sociedade em rede;
What Are We Going To Do About The Rich, denunciando a associação do dinheiro à insensibilidade humana;
The Forgotten Child, observando o vulnerável lugar da infância num mundo sem compaixão.
Aqui estão as novas canções (que não farão parte do álbum que o duo prepara para o Outono), devidamente ilustradas pela concisão das suas palavras.








>>> Site oficial dos Pet Shop Boys.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

26 = 3.800.000.000

Oxford Committee for Famine Relief — constituída em 1942, agregando duas dezenas de organizações de cariz humanitário, a Oxfam publicou um relatório em que dá conta das desigualdades globais na distribuição da riqueza. Com uma estatística trágica: 26 multi-milionários concentram tanta riqueza quanto 3.800 milhões de habitantes do planeta Terra (metade da humanidade) — sobre tal indecência, leia-se o dossier hoje publicado pelo Libération; no seu site, a revista Time trata a notícia com um video que inclui um breve depoimento de Winnie Byanyima, directora executiva da Oxfam International.