Este texto é uma versão aumentada de uma entrevista com Benoît Jacquot, publicada na edição de 26 de setembro do DN com o título 'Como as criadas sentiram a revolução'.
Versalhes, 14 de julho de 1789. Os livros de História ensinam-nos que esta não foi uma data como outra qualquer. Em Paris uma multidão assaltava a Bastilha (uma fortaleza-prisão que era um símbolo do regime). Mas no palácio, a poucas dezenas de quilómetros, a corte vivia um dia como outro qualquer. “Era um mundo fechado, impenetrável”, recorda o realizador Benoît Jacquot, que faz do seu filme Adeus, Minha Rainha um retrato dos três primeiros dias da sublevação que se transformaria na revolução francesa. Versalhes “estava guardado de tudo o que fosse informação negativa que pudesse vir do exterior”. E por isso mesmo o filme nos dá conta de como a notícia ali chegou. Lentamente. Primeiro por rumores de algo invulgar que se estaria a passar. “E quando a informação chega o pânico instala-se”, descreve o realizador, que nos mostra como essa mesma explosão de medo “é enfatizada pelo ambiente de clausura” em que muitos ali viviam.
Não é a primeira vez que o cinema nos leva à eclosão da revolução francesa. Filme de abertura da edição deste ano da Berlinale, Adeus, Minha Rainha propõe-nos contudo um olhar diferente. E se em A Inglesa e o Duque, de Rohmer, nos era dada a ver a revolução pelo ponto de vista da aristocracia, aqui quem no-la conta são os criados. Em particular a leitora da rainha (interpretada por Léa Seydoux). “Quis encontrar um ponto de vista de alguém que não é aristocrata e assiste a tudo, mas de uma forma que não é inocente”, explica Jacquot. Lembrando um outro exemplo de um ponto de vista pessoal no contar das histórias deste mesmo período, aponta o filme de 1938 La Mareseillaise, de Jean Renoir, “que na altura estava politicamente muito engagé”, sublinha. Jacquot reconhece no seu filme uma ligação ao modo de olhar o mundo das criadas que o fizeram pensar em Renoir, apesar das diferenças. “Sidonie é muito renoiriana”, sublinha.
Eram quatro mil os habitantes do palácio naquele tempo, “três mil servindo a corte, entre pessoal da cozinha, criados de quarto dos estábulos, valetes, etc”, diz o realizador que ainda recentemente sentira uma comparação possível com estes ambientes e diferenças quando leu as notícias do naufrágio do Costa Concordia.
A figura de Maria Antonieta, não sendo protagonista, “nem a razão de ser do filme”, também não deixa de ser central à ação. “Nunca teria a ideia de fazer um filme sobre a rainha e os filmes que até hoje vi sobre ela não me parecem particularmente interessantes”, justifica o realizador, para quem a mulher de Luis XIV não é a razão de ser deste filme, sendo que “foi mais a situação exposta no romance [de Chantal Thomas] que deu a ideia”. Mas reconhece o fascínio que emana da personagem, que descreve como sendo “uma lenda para os franceses”. Atrai-o contudo a identidade “algo esquizofrénica” de alguém que chegou a Versalhes “como uma princesa desolada que vem do estrangeiro” e que com o tempo “transforma o palácio num espaço de representação frívola” e que, de certa maneira “inventou o conceito de mundo da moda” (algo que, ressalva, “Sofia Coppola apanhou muito bem”). Adeus, Minha Rainha retrata mesmo assim aquele que Jacquot descreve como “o momento em que ela se coroa a si mesma”, em que “sai do seu mundo frívolo e se transforma na rainha de França”. Uma coroação com uma carga de tragédia. “E isso é fascinante”, conclui.
Baseado no romance homónimo de Chantal Thomas, Adeus, Minha Rainha sugere um clima de envolvimento romântico entre a rainha e a duquesa de Polignac. “O filme não indica que tenha havido uma relação sexual ou mesmo erótica”, diz Jacquot, que fala antes de “uma paixão”. Acrescenta, contudo, que “as amizades femininas entre a aristocracia de então tinham uma dimensão passional extraordinária”. Maria Antonieta, diz, “era muito só e há ali uma dimensão de vida de convento”, diz. “Teve as suas histórias de amor, algumas com mulheres, mas não procurei sublinhar uma abordagem sáfica, apenas que fosse erotizado”, defende.
É certo que nem só do romance de Chantal Thomas viveu a preparação do filme. “Não se pode fazer um filme como este sem reunir um conhecimento do que se vai filmar”, diz Jacquot. “O filme vem de um livro e quem o escreve é uma especialista daquele período” e essa vontade de respeitar esse rigor na representação das gentes e lugares levou-o a filmar em Versalhes (sobretudo de noite e nos dias em que está fechado a visitas), pelo que Adeus, Minha Rainha “foi feito em conivência com o Palácio, que é o primeiro destino turístico do mundo”. E sublinha: “filmar em Versalhes implica uma colaboração cerrada e um apoio positivo” da instituição. Há, contudo, “lugares que já não existem”, alguns deles “hoje transformados em escritórios” ou salas de apoio. Teve assim de criar algune décors, como é o caso do quarto da rainha no Petit Trianon, uma vez que o verdadeiro tem a dimensão “de uma casinha de bonecas” onde não cabia nem a equipa nem o material.
Benoît Jacquot regressou ao palácio para uma sessão fotográfica. “É bizarro o fantasma de ali ter filmado”, reconhece. E a dada altura sentiu mesmo que o verdadeiro Versalhes era o do seu filme e não aquele onde estava novamente a passear.
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sexta-feira, setembro 28, 2012
Um realizador em Versalhes
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quinta-feira, setembro 27, 2012
Versalhes, 14 de julho de 1789...
A história conta-se com tempo e distância. Procurando uma objetividade que o jornalismo tenta observar mais em cima do acontecimento. Mas quando estamos demasiado perto das situações há, inevitavelmente, um ponto de vista. Não apenas pela forma como pessoalmente interpretamos o sucedido em função da nossa proximidade relativamente aos factos. Mas também pelo modo como a esses factos temos acesso... Estas são premissas centrais a Adeus, Minha Rainha (no original Les Adieux à La Reine), filme de Benoît Jacquot que abriu este ano a Berlinale e que chega hoje às salas de cinema portuguesas.
O lugar é Versalhes. O tempo, o dia 14 de julho de 1789. O dia da tomada da Bastilha (em Paris). O eclodir da revolta popular que em breve se transformaria numa revolução. Mas no palácio, a poucas dezenas de quilómetros da capital francesa, é business as usual (que é como quem diz que não acontece nada além de uma agenda de frívolo passar do tempo para a corte e de azáfama quase invisível para quem a serve). Adeus, Minha Rainha, coloca-nos em Versalhes, ao longo dos três dias que se seguem à revolta popular. Observa como a informação vai chegando aos poucos, sussurrada primeiro entre rumores de algo que terá acontecido, explosão de terror pouco depois quando ali chega uma lista das cabeças que a multidão revoltada quer fazer saltar...
Benoît Jacquot foca contudo o desenrolar dos acontecimentos segundo o ponto de vista de uma criada. Sidonie (interpretada por Léa Seydoux), a leitora da rainha Maria Antonieta, que começa o dia a rumar ao Petit Trianon para ler-lhe algumas páginas e acaba a tecer um bordado para tentar aliviar a tensão e o medo que pouco depois ali se instala. É entre as cozinhas, os corredores dos dormitórios dos criados e salas de trabalho onde a corte não entra que o filme coloca o seu ponto de vista, olhando a realeza e quem com ela vive de perto. Entre gente do povo, portanto, mas habituada a uma vida entre o fausto de Versalhes. Uma população crítica, talvez, mas não inocente...
O filme, baseado no romance de Chantal Thomas, junta ainda uma condimentação extra ao sugerir uma tensão amorosa (podemos mesmo dizer erotizada, se bem que não necessariamente sexualmente consumada) entre a rainha (Diane Kruger) e a duquesa de Polignac (Virgine Ledoyen). História paralela que quase tropeça no verdadeiro fio narrativo e que acaba na verdade coisa tão secundarizada como a passagem por algumas cenas e planos do rei Luis XVI. Afinal, é entre quem serve os apartamentos da rainha que olhamos o evoluir dos acontecimentos.
Se o magnífico A Inglesa e o Duque, de Eric Rohmer, nos deu um ponto de vista diferente da revolução francesa (em concreto o da aristocracia), Adeus, Minha Rainha olha-a do ângulo dos que a serviam. Tal como o belíssimo Marie Antoniette, de Sofia Coppola, o filme de Jacquot revela espantosa art direction e tem um cuidado extremo na reconstituição dos espaços, dos figurinos e dos gestos. Focado porém no momento em que uma onda de choque abana a pax dourada de Versalhes, Adeus, Minha Rainha é narrativamente mais consistente (por oposição ao olhar eminentemente plástico do filme de Coppola que, na essência nos mostra a história de um lugar onde não havia história senão uma rotina de protocolos coreografados, com pontos de fuga nas noites de festa e nas escapadelas no Trianon). Tal como o filme de Coppola, também o de Jacquot deixa a história da revolução por contar. Fica em Versalhes. O resto, sabemo-lo dos livros de história.
A solidez com que lança o olhar, encena os acontecimentos e observa o fazer da história faz de Adeus, Minha Rainha, um episódio marcante na história da representação deste período da história de França. Quem pensava que já tinha sido contado tudo sobre Versalhes e a revolução francesa, terá aqui uma bela surpresa.
Três imagens que recordam três representações do universo de Versalhes no cinema e na televisão. A primeira corresponde a Si Versailles m'était conté (1954), de Sacha-Guitry. A segunda a produção televisiva La Prise du Pouvoir Par Louis XIV (1966) de Roberto Rosselini. E a terceira, o mais recente olhar de Sofia Coppola sobre a figura da rainha em Marie Antoinette (2006).
O lugar é Versalhes. O tempo, o dia 14 de julho de 1789. O dia da tomada da Bastilha (em Paris). O eclodir da revolta popular que em breve se transformaria numa revolução. Mas no palácio, a poucas dezenas de quilómetros da capital francesa, é business as usual (que é como quem diz que não acontece nada além de uma agenda de frívolo passar do tempo para a corte e de azáfama quase invisível para quem a serve). Adeus, Minha Rainha, coloca-nos em Versalhes, ao longo dos três dias que se seguem à revolta popular. Observa como a informação vai chegando aos poucos, sussurrada primeiro entre rumores de algo que terá acontecido, explosão de terror pouco depois quando ali chega uma lista das cabeças que a multidão revoltada quer fazer saltar...
Benoît Jacquot foca contudo o desenrolar dos acontecimentos segundo o ponto de vista de uma criada. Sidonie (interpretada por Léa Seydoux), a leitora da rainha Maria Antonieta, que começa o dia a rumar ao Petit Trianon para ler-lhe algumas páginas e acaba a tecer um bordado para tentar aliviar a tensão e o medo que pouco depois ali se instala. É entre as cozinhas, os corredores dos dormitórios dos criados e salas de trabalho onde a corte não entra que o filme coloca o seu ponto de vista, olhando a realeza e quem com ela vive de perto. Entre gente do povo, portanto, mas habituada a uma vida entre o fausto de Versalhes. Uma população crítica, talvez, mas não inocente...
O filme, baseado no romance de Chantal Thomas, junta ainda uma condimentação extra ao sugerir uma tensão amorosa (podemos mesmo dizer erotizada, se bem que não necessariamente sexualmente consumada) entre a rainha (Diane Kruger) e a duquesa de Polignac (Virgine Ledoyen). História paralela que quase tropeça no verdadeiro fio narrativo e que acaba na verdade coisa tão secundarizada como a passagem por algumas cenas e planos do rei Luis XVI. Afinal, é entre quem serve os apartamentos da rainha que olhamos o evoluir dos acontecimentos.
Se o magnífico A Inglesa e o Duque, de Eric Rohmer, nos deu um ponto de vista diferente da revolução francesa (em concreto o da aristocracia), Adeus, Minha Rainha olha-a do ângulo dos que a serviam. Tal como o belíssimo Marie Antoniette, de Sofia Coppola, o filme de Jacquot revela espantosa art direction e tem um cuidado extremo na reconstituição dos espaços, dos figurinos e dos gestos. Focado porém no momento em que uma onda de choque abana a pax dourada de Versalhes, Adeus, Minha Rainha é narrativamente mais consistente (por oposição ao olhar eminentemente plástico do filme de Coppola que, na essência nos mostra a história de um lugar onde não havia história senão uma rotina de protocolos coreografados, com pontos de fuga nas noites de festa e nas escapadelas no Trianon). Tal como o filme de Coppola, também o de Jacquot deixa a história da revolução por contar. Fica em Versalhes. O resto, sabemo-lo dos livros de história.
A solidez com que lança o olhar, encena os acontecimentos e observa o fazer da história faz de Adeus, Minha Rainha, um episódio marcante na história da representação deste período da história de França. Quem pensava que já tinha sido contado tudo sobre Versalhes e a revolução francesa, terá aqui uma bela surpresa.
Três imagens que recordam três representações do universo de Versalhes no cinema e na televisão. A primeira corresponde a Si Versailles m'était conté (1954), de Sacha-Guitry. A segunda a produção televisiva La Prise du Pouvoir Par Louis XIV (1966) de Roberto Rosselini. E a terceira, o mais recente olhar de Sofia Coppola sobre a figura da rainha em Marie Antoinette (2006).
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segunda-feira, setembro 03, 2012
O palácio multiplicado
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| Fotos: Jean-François Rauzier |
Imagens criadas pelo fotógrafo francês Jean-François Rauzier (n. 1952) que desde o ano 2000 tem desenvolvido um conceito de multiplicação de espaços a que chamou ‘hiperfoto’. Aqui vemos três exemplos da aplicação desse mesmo conceito a espaços do Palácio de Versalhes. Uma vista geral do palácio vista dos jardins. Depois uma das escadarias e, por fim, a capela.
Podem ver aqui o restante portfólio dedicado ao palácio de Versalhes.
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quinta-feira, junho 21, 2012
Um passeio por Versalhes (3)
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| Direitos reservados / Atelier Joana Vasconcelos |
Continuamos a visitar os espaços de Versalhes, não apenas os que acolhem as obras de Joana Vasconcelos, como as demais salas do palácio. Nesta primeira imagem, em pleno Quarto da Rainha, mora agora ‘Perruque’, uma das obras que a artista portuguesa criou expressamente para esta exposição.
| Fotos N.G. + F.G. |
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quarta-feira, junho 20, 2012
Um passeio por Versalhes (2)
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| Direitos reservados / Atelier Joana Vasconcelos |
Mais um conjunto de olhares entre a exposição de Joana Vasconcelos que inaugurou ontem em Versalhes e os espaços à sua volta. Esta primeira imagem mostra ‘Gardes’, um conjunto que agora “guarda” o espaço da Sala dos Guardas da Rainha.
| Fotos: N.G. |
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terça-feira, junho 19, 2012
Um passeio por Versalhes (1)
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| Direitos reservados / Atelier Joana Vasconcelos |
É hoje que abre ao público a exposição de Joana Vasconcelos em Versalhes. A assinar o momento vamos ao longo dos próximos dias olhar para algumas das obras expostas, assim como fazer breves visitas aos espaços em seu redor. A abrir este post vemos Pavillon de Thé, onbra que está exposta nos exteriores do palácio, sob as janelas da chamada “ala” da rainha.
| Fotos: N.G. |
Mais três olhares pelos exteriores de Versalhes, todos eles aqui centrando as atenções nos grupos escultóricos, lagos, fontes e alamedas junto ao palácio.
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segunda-feira, junho 18, 2012
Os novos inquilinos de Versalhes
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| Fotos: Direitos reservados / Alelier Joana Vasconcelos |
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domingo, abril 22, 2012
De visita a Versalhes (4)
| Foto: F.G. |
Continuando a visitar as salas do Palácio de Versalhes, passamos hoje pelo Salão da Abundância. Face a outras das salas desta ala do palácio esta é de dimensões relativamente reduzidas e representa, a primeira de uma série de salas interligadas entre o Salão de Hércules e a Galeria dos Espelhos.
sábado, abril 21, 2012
De visita a Versalhes (3)
| Foto: F.G. |
Continuamos a viagem através das salas do Palácio de Versalhes. Ao entramos no palácio percorremos primeiro o grande corredor da ala Norte, subindo as escadas que ficam ao fundo, à esquerda (e a carecer de restauro) e entramos no piso nobre junto à Ópera. Fazemos o caminho inverso, passando pela capela e, logo a seguir, o Salão de Hércules, onde hoje circularemos.
| Fotos: N.G. + F.G. |
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| Imagens Google Earth |
Podem fazer aqui o percurso virtual pelo palácio.
domingo, abril 15, 2012
Um percurso por Versalhes (2)
| Fotos: F.G. |
Uma cena da vida da capela (a quinta). A imagem data de 1724 e mostra o ainda jovem Luis XV numa imposição da Ordem do Espírito Santo, pintada por Nicolas Lancret.
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