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terça-feira, fevereiro 26, 2013

Michelle Obama nos Oscars

Foto THE WHITE HOUSE
Faz sentido que a (des)informação iraniana tenha retocado a imagem de Michelle Obama ("corrigindo" a linha do seu decote) a apresentar o Oscar de melhor filme, no final da 85ª cerimónia dos prémios da Academia de Hollywood. Afinal de contas, poupemos os eufemismos: a sua presença não teve nada de decorativo, uma vez que foi um gesto genuinamente político, emanado de uma administração cujo discurso oficial não esquece a defesa da expressão artística — e da sua dimensão económica.
Por tudo isso, vale a pena recordar que, quando Jack Nicholson apresentou a Primeira Dama dos EUA, tal presença estava longe de ser um acto isolado. Cerca de duas semanas antes, Michelle Obama presidira a um workshop para estudantes liceais, tendo como tema, precisamente, um dos principais nomeados para os Oscars: Bestas do Sul Selvagem; no âmbito dessa iniciativa, ela própria conduziu uma conversa de cerca de uma hora, contando com a participação do realizador Benh Zeitlin e dos actores Dwight Henry e Quvenzhané Wallis.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Óscares 2013: a noite das más surpresas


Perguntávamos, ao longo dos últimos dias, se havia ainda espaço para surpresa nos Óscares? Tendo em conta as tendências verificadas nos últimos anos, observando as premiações que antecedem a noite da entrega dos prémios – dos Globos de Ouro às várias associações técnicas, não tanto as de críticos – há resultados que se vão desenhando como quase inevitáveis... A tendência de certa forma confirmou-se ao vermos Argo vencer Melhor Filme ou Melhor Argumento Adaptado, Daniel Day-Lewis a triunfar (justificadamente) como Melhor Ator pelo seu papel em Lincoln, Anne Hathaway a ser distinguida como Melhor Atriz Secundária em Os Miseráveis, Haneke como merecido vencedor do Melhor Filme em Língua Estrangeira (Amour) ou vendo os prémios na área da imagem navegando na direção de A Vida de Pi (e não se compreende como não se deu a Janusz Kaminski o prémio de Fotografia pelo seu trabalho em Lincoln), de Ang Lee. Mas nos espaços em que haveria eventual espaço para sermos surpreendidos, convenhamos que as surpresas não podia ter sido (na maioria dos casos, as piores). Jennifer Lawrence como Melhor Atriz em detrimento de Emmanuelle Riva (Amour) ou Jessica Chastain (00.30 Hora Negra)? Mychael Danna como autor da Melhor Banda Sonora, quando Thomas Newman era nomeado pelo seu trabalho em 007 Skyfall? E, pior ainda, Ang Lee como Melhor Realizador (com aquele que é talvez o seu pior filme) em vez de Spielberg ou Haneke?

É verdade que houve boas “surpresas” como a da vitória de Tarantino (Argumento Original) e Christoph Waltz (Ator Secundário) por Django Libertado. A da equipa que trabalhou em Lincoln na Direção Artística. Ou, até mesmo com uma canção que está bem longe do melhor da tradição 007, ver Skyfall a dar a James Bond um primeiro Óscar por uma canção.

Mas na essência esta foi uma noite de premiação dispersa, desnorteada e desinteressante. Aqui ficam os resultados:

Melhor Filme – ‘Argo’, de Ben Affleck
Melhor Realizador – Ang Lee, em ‘A Vida de Pi’
Melhor Ator – Daniel Day Lewis, em ‘Lincoln’
Melhor Atriz – Jennifer Lawrence, em ‘Guia Para Um Final Feliz’
Melhor Ator Secundário – Christoph Waltz, em ‘Django Libertado’
Melhor Atriz Secundária – Anne Hathaway , em ‘Os Miseráveis’
Melhor Argumento Original – Quentin Tarantino, em ‘Django Libertado’
Melhor Argumento Adaptado – Chris Terrio, por ‘Argo’
Melhor Fotografia – Claudio Miranda, por ‘A Vida de Pi’
Melhor Montagem - William Goldenberg, por ‘Argo’
Melhores Efeitos Visuais – Bill Westenhofer, Guillaume Rocheron, Erik-Jan De Boer e Donald R. Elliott, por ‘A Vida de Pi’
Melhor Direção Artística - Rick Carter e Jim Erickson, por ‘Lincoln’
Melhor Mistura de Som - Andy Nelson, Mark Paterson e Simon Hayes, por ‘Os Miseráveis’
Melhor Montagem de Som - Paul N.J. Ottosson, por ’00.30 Hora Negra’ e Per Hallberg e Karen Baker Landers por ‘007 Skyfall’
Melhor Guarda Roupa – Jacqueline Durran, em ‘Anna Karenina’
Melhor Caracterização – Lisa Westcott e Julie Dartnell, por ‘Os Miseráveis’
Melhor Canção Original – Adele Adkins e Paul Epworth, por ‘007 Skyfall’
Melhor Banda Sonora – Michael Danna, por ‘A Vida de Pi’
Melhor Filme em Língua Estrangeira – ‘Amour’, de Michael Haneke
Melhor Longa-Metragem de Animação – ‘Brave – Indomável’, de Mark Andrews e Brenda Chapman
Melhor Curta-Metragem de Animação – ‘Paperman’, de John Kahrs
Melhor Curta-Metragem de Imagem Real – ‘Curfew’, de Shawn Christensen
Melhor Curta-metragem Documental – ‘Inocente’, de Sean Fine e Andrea Nix Fine
Melhor Longa-Metragem Documental – ‘Searching For Sugar Man’, de Malik Bendjelloul e Simon Chinn

Seth MacFarlane: o enigma

Nos Oscars, há um enigma Seth MacFarlane. E não tem a ver com o seu talento: até que ponto o realizador de Ted, sendo uma personalidade sobretudo conotada com o universo televisivo (especialmente através das séries de animação Family Guy ou American Dad!), pode ter peso, carisma e eficácia, não apenas na dimensão espectacular da cerimónia de Hollywood, mas também na questão muito prática da mobilização de audiências?
Curiosamente, as próprias promoções da cerimónia encaram essas dúvidas com um sentido eminentemente pragmático. Numa delas, revelando uma salutar lucidez face à juventude do seu público dominante, MacFarlane diz mesmo: “Olá, eu sou Seth MacFarlane (perguntem aos vossos filhos). E vou apresentar os prémios da Academia (perguntem aos vossos pais).”
Aqui em baixo, podemos ver três dessas promoções. Vale a pena ler também a entrevista de MacFarlane ao site Collider.






>>> Seth MacFarlane no YouTube.
>>> Site oficial da Academia de Hollywood.

domingo, fevereiro 24, 2013

Oscares 2013: as escolhas dos leitores

Ao longo da última semana convidámos os leitores do Sound + Vision a votar numa série de categorias, tendo como ponto de partida os filmes nomeados para a 85ª cerimónia de entrega dos Óscares. A todos, desde já, um muito obrigado pela participação. Aqui ficam os resultados da votação apontando, em cada categoria, o filme vencedor:

Melhor Filme: "Django Libertado", de Quentin Tarantino

Melhor Realizador: Michael Haneke ("Amour")

Melhor Ator: Daniel Day-Lewis ("Lincoln")

Melhor Atriz: Emmanuelle Riva ("Amour")

Melhor Ator Secundário: Christoph Waltz ("Django Libertado")

Melhor Atriz Secundária: Sally Field ("Lincoln")

Melhor Argumento Original: Quentin Tarantino, "Django Libertado"

Melhor Argumento Adaptado: Chris Terrio, "Argo"

Melhor Canção Original: "Skyfall", por Adele ("007 Skyfall")

Melhor Banda Sonora Original: Thomas Newman: "Skyfall"

Melhor Filme em Língua Estrangeira: "Amour", de Michael Haneke

Melhor Longa Metragem de Animação: "Frankenweenie", de Tim Burton


Oscares 2013: As nossas escolhas


A horas da 85ª gala de entrega dos Óscares, aqui deixamos as nossas escolhas pessoais, naturalmente tendo como ponto de partida os filmes nomeados. 

J.L.

Melhor Filme: "Lincoln", de Steven Spielberg
Melhor Realizador: Steven Spielberg ("Lincoln")
Melhor Actor: Daniel Day-Lewis ("Lincoln")
Melhor Actriz: Jessica Chastain ("00:30, A Hora Negra")
Melhor Actor Secundário: Philip Seymour Hoffman ("O Mentor")
Melhor Actriz Secundária: Helen Hunt ("Seis Sessões")
Melhor Argumento Original: Mark Boal ("00:30, A Hora Negra")
Melhor Argumento Adaptado: Tony Kushner ("Lincoln")
Melhor Fotografia: Janusz Kaminski ("Lincoln")
Melhor Montagem: William Goldenberg e Dylan Tichenor ("00:30, A Hora Negra")
Melhor Longa-Metragem de Animação: "Frankenweenie", de Tim Burton


N.G.

Melhor Filme: "Amour", de Michael Haneke
Melhor Realizador: Steven Spielberg ("Lincoln)
Melhor Ator: Daniel Day-Lewis ("Lincoln")
Melhor Atriz: Emmanuelle Riva ("Amour")
Melhor Ator Secundário: Tommy Lee Jones ("Lincoln")
Melhor Atrz Secundária: Sally Field ("Lincoln")
Melhor Argumento Original: Quentin Tarantino ("Django Libertado")
Melhor Argumento Adaptado: Tony Kushner ("Lincoln")
Melhor Fotografia: Janusz Kaminski ("Lincoln")
Melhor Banda Sonora: Thomas Newman ("Skyfall")
Melhor Filme em Língua Estrangeira: "Amour", de Michael Haneke
Melhor Longa Metragem de Animação: "Frankenweenie", de Tim Burton

PS. Melhor canção não há (apesar de haver cinco nomeadas)...

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

A quem daria os Óscares?

Os Óscares são entregues na noite do próximo dia 24 no Dolby Theatre em Hollywood. Em tempo de contagem decrescente para a cerimónia, convidamos os leitores do Sound + Vision a fazer as suas escolhas. Estão disponíveis os nomeados numa série de categorias na barra lateral do blogue, nas quais podem votar. Não se trata aqui de “adivinhar” quem pode ganhar, que não somos nada adeptos das artes divinatórias e, como em tempos nos ensinou Niels Bohr, o criador da física quântica, “é muito difícil fazer previsões, especialmente do futuro”... Escolham, portanto, aqueles que gostassem que vencesse. Ou seja, e respondendo à questão que lançamos nessa mesma barra lateral: “a quem daria os Óscares?” Quem desejar pronunciar-se sobre outras das categorias a concurso pode fazê-lo ou na página de Facebook do blogue ou por email.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Actores e actrizes para os Oscars

Jessica Chastain (ZERO DARK THIRTY)
Saber fazer pose não é, obviamente, a qualidade decisiva de um actor ou uma actriz. Em todo o caso, essa capacidade de se oferecer em imagem — strike a pose — não é coisa secundária num tempo em que a exposição mediática se tornou incontornável. Alguns dos que estão na corrida para os Oscars de interpretação surgem num magnífico dossier da revista Time, integrando um portfolio assinado por Paola Kudacki (que, recentemente, fotografara Kathryn Bigelow para uma capa da mesma publicação): Hollywood a preto e branco, com alguma nostalgia, ma non troppo.

Quvenzhané Wallis (BESTAS DO SUL SELVAGEM)
Christoph Waltz (DJANGO LIBERTADO)

terça-feira, janeiro 22, 2013

Mark O'Brien revisitado pelo cinema

Esta é uma fotografia de Mark O'Brien, escritor que, devido aos efeitos da poliomielite, viveu grande parte da sua existência dependente de um "pulmão de aço"; a imagem provém do filme Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O'Brien, de Jessica Yu, distinguido nos Oscars de 1997 com a estatueta de melhor documentário (curta-metragem). Agora, o cinema revisita a figura de O'Brien no filme Seis Sessões, de Ben Lewin — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Janeiro), com o título 'Nudez, sexo e o cinema de Hollywood'.

* * * * *

Infelizmente, algumas formas de aproximação jornalística da temporada dos prémios da Academia de Hollywood vivem de monótonos lugares-comuns. Já não há paciência, por exemplo, para ouvir dizer que os Globos de Ouro “antecipam” os Oscars... Desde logo porque a simples consulta dos resultados das últimas décadas desmente a existência de qualquer repetição “automática” (por que não atribuir pertinência às coincidências das escolhas da Academia com as de algumas associações de críticos americanos?); mas sobretudo porque a diferença entre quem decide os Globos (menos de uma centena de elementos da imprensa estrangeira em Hollywood) e os Oscars (cerca de seis mil profissionais da indústria) aconselharia, no mínimo, a não procurar equivalências estruturais onde elas não podem existir.
Neste turbilhão de factos e notícias, um filme como Seis Sessões (Sessions), de Ben Lewin, que trouxe a Helen Hunt uma nomeação para o Oscar de melhor actriz secundária, distingue-se por uma singularidade que corre o risco de ser ignorada. Que singularidade é essa? Pois bem, a paciente e muito terna figuração da nudez dos protagonistas e de alguns actos sexuais.
A questão não tem nada de caricato, muito menos de “escandaloso”. Acontece que vivemos num universo mediático em que alguns centímetros de nudez de um qualquer “famoso” numa qualquer telenovela são suficientes para mobilizar este mundo e o outro para a “ousadia” do evento... Mas quando, realmente, alguém arrisca encenar a complexidade dos afectos humanos (e, em particular, os enigmas da sexualidade), aí os arautos da nudez “reveladora” desaparecem de cena e ficam enroscados na mediocridade vazia do seu discurso.
Não é fácil, claro. Até porque há uma dimensão inesperada, tão delicada quanto perturbante, a envolver a história (verídica) de Seis Sessões: nele se apresenta a relação entre o jornalista e poeta Mark O’Brien (1949-1999), imobilizado pela poliomielite, e Cheryl Cohen-Greene, uma terapeuta do sexo a que ele recorre para perder a virgindade. O que distingue um filme tão directamente envolvido com os gestos sexuais não é a “quantidade” daquilo que se mostra, mas o modo como nele se lida com os enigmas, impasses e cumplicidades do contrato que se estabelece entre dois corpos que se tocam e relacionam.
Claro que, se for entendida numa perspectiva burocrática ou moralista, a palavra “contrato” poderá chocar. Mas o que está em jogo envolve, de facto, um compromisso singular: os seus termos nascem do contacto de duas pessoas que se sabem diferentes, impossíveis de conhecer em absoluto – e o que acontece participa de um misto de entrega e distanciamento, exposição e pudor. É uma maravilha ver dois grandes actores, Helen Hunt e John Hawkes, figurar essa tarefa imensa, imensamente contrastada, porventura contraditória, de sermos humanos. E acreditar que podemos sê-lo.

sábado, janeiro 12, 2013

O ausente dos Oscars

Paul Thomas Anderson não está nomeado pelo filme The Master/O Mentor (estreia portuguesa: 7 de Fevereiro), em que acumula as funções de argumentista e realizador. Envolvido em alguma polémica pelo facto de, pelo menos em parte, se inspirar na figura de L. Ron Hubbard (fundador da 'Cientologia'), o certo é que o filme não terá sensibilizado a maioria dos membros da Academia de Hollywood que, em todo o caso, nomearam os três nomes principais do respectivo elenco: Joaquin Phoenix (para melhor actor), Amy Adams e Philip Seymour Hoffman (ambos nas categorias secundárias de interpretação). O facto merece destaque, por duas razões essenciais:
1) - Anderson é um dos maiores narradores do actual cinema americano, com os seus filmes — Hard Eight (1996), Boogie Nights (1997), Magnolia (1999), Punch-Drunk Love (2002), There Will Be Blood (2007) — desenhando uma paisagem de histórias e personagens cuja modernidade se enraíza numa paciente e apaixonada releitura dos clássicos;
2) - The Master, mais do que um retrato mais ou menos controverso de uma personalidade e da sua entourage, impõe-se como uma extraordinária reflexão sobre a América que nasce após a Segunda Guerra Mundial, ancorada nas convulsões da própria noção utópica de comunidade.Dito isto, convém acrescentar também o seguinte: não se trata de demonizar o cinema americano pelas próprias escolhas da Academia — só mesmo um jornalismo anedótico insiste em celebrar os mais ridículos fait divers dos Oscars, ao mesmo tempo que aplica a palavra "Hollywood" com automático sentido pejorativo. Esperemos apenas pela madrugada de 24 para 25 de Fevereiro: talvez ouçamos o nome do realizador de The Master dito por um dos seus actores, com uma estatueta dourada nas mãos...

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Um independente nos Oscars

Quvenzhané Wallis: americana, nasceu em Huoma, estado da Louisiana, a 2008 de Agosto de 2003: tem, portanto, nove anos e entra para a história de Hollywood como a mais jovem nomeada de sempre para o Oscar de melhor actriz — o filme que lhe trouxe esse privilégio, a produção independente Beasts of the Southern Wild, consegue ainda a proeza de obter um total de quatro importantes nomeações, incluindo uma na categoria principal, de melhor filme de 2012.
Vale a pena recordar que são nove os títulos que podem arrebatar esse Oscar; mais do que isso, que há neles um cruzamento de temas, estilos e formas de produção que nos garante que o cinema americano contemporâneo não pode ser reduzido aos números de bilheteira dos blockbusters com "super-heróis". Isto sem esquecermos, claro, que semelhante pluralidade não renega as provas de amor que chegam da Europa:

* AMOUR / Amor, de Michael Haneke
* ARGO / Argo, de Ben Affleck
* BEASTS OF THE SOUTHERN WILD / Bestas do Sul Selvagem, de Benh Zeitlin
* DJANGO UNCHAINED / Django Libertado, de Quentin Tarantino
* LES MISÉRABLES / Os Miseráveis, de Tobe Hooper
* LIFE OF PI / A Vida de Pi, de Ang Lee
* LINCOLN / Lincoln, de Steven Spielberg
* SILVER LININGS PLAYBOOK / Guia para um Final Feliz, de David O. Russell
* ZERO DARK THIRTY / 00:30 Hora Negra, de Kathryn Bigelow

>>> Lista completa de nomeações no site da Academia de Hollywood.

Oscares: os nomeados... e os outros

Pois... “É aquela altura do ano outra vez”, como tão bem o diz o Eurico de Barros na coluna que hoje assina no DN. Chegaram as nomeações dos Oscares e, a dias dos Globos de Ouro e a meio da temporada das distinções das dezenas de associações de críticos e das várias ligas, guildas e “ajuntamentos” profissionais, lá se fazem as notícias somando números, favoritismos e por aí adiante. Poucas semanas depois das listas dos melhores do ano surgem assim outras listas, nem sempre de melhores, mas daqueles de quem se vai falar por conta de uma gala que, ao contrário do que os Grammys gostariam de fazer com os discos, de facto vende globalmente bilhetes nas salas de cinema pelas salas de todo o mundo.

Feitas as contas aos nomeados para os Oscares em 2013 eis que surge Lincoln, de Steven Spielberg na frente. Um filme falado, que nos coloca nos bastidores da votação de uma emenda à constituição americana que deixou o presidente na história pelo facto de ter sido ele o rosto da abolição da escravatura nos EUA. Um filme com ressonâncias evidentes entre aquele e o nosso tempo, particularmente num momento em que um afro-americano ocupa agora a Casa Branca e se prepara para tomar posse para um segundo mandato. Às 12 nomeações de Lincoln seguem-se, na aritmética dourada dos Oscares os 11 que recolheu A Vida de Pi, adaptação garrida de Ang Lee do livro homónimo de Yann Martel. Com oito surge Guia Para Um Final Feliz, recentemente estreado entre nós. E, com sete, uma visão chuva de estrelas de Les Miserables e o bem interessante Argo, de Ben Affleck, outro dos grandes filmes políticos do ano.

Mas ao contrário do que tem sido a norma nos últimos anos (e 2012 foi um pasto desértico e entediante de nomeações e vitórias já esperadas), as nomeações para este ano trouxeram surpresas. Uma delas na forma das cinco nomeações para Amor, de Michael Hanecke (Filme, Realizador, Argumento Original, Atriz e Filme em Língua Estrangeira), que para ser coisa mesmo justa deveria ainda ter somado uma sexta para melhor ator. A outra na expressão algo inesperada (mas justíssima) de Beasts of The Southern Wild, de Benh Zeitlin, uma das mais claras evidências do potencial da “escola” Sundance, que soma quatro merecidas nomeações (Filme, Realizador, Argumento Adaptado e Atriz, aqui fazendo da pequena Quvenzhané Wallis a mais jovem de sempre nesta categoria). Falta aqui a nomeação de Zeiltin para banda sonora, que co-assina com Dan Romer. Houve já quem notasse a reduzida representação de O Mestre, de Paul Thomas Anderson ou Django Libertado de Quentin Tarantino. Mais gritante sendo ainda a ausência de Kathryn Bigelow entre os cinco realizadores nomeados com 00.30 Hora Negra (quase certa sendo contudo a vitória de Jessica Chastain como melhor atriz). E, com Skyfall, Adele deverá levar o primeiro Oscar para a já longa e ilustre galeria de Bond Songs. Mas, aqui, será que ninguém escutou a magnífica canção que Neil Hannon escreveu para Kylie Minogue em Holy Motors?

Nem vale a pena fazer o deve e haver dos que ficaram de fora. Muitos dos grandes filmes que vimos em 2012 não passam por aqui (alguns já estavam de fora do intervalo de tempo e deviam ter surgido já no ano passado). Muito so bom cinema (elegível para este ano) que iremos ver não passa por aqui. Mas ninguém esperaria que passasse... Agora, é esperar pela madrugada do costume...

Podem ver aqui a lista completa das nomeações.