Did You Know That There's a Tunnel Under Ocean Blvd
Para Lana Del Rey, a nostalgia confunde-se com o futuro inventado pelos nossos pais. O seu nono álbum de estúdio relança as suas obsessões como se de um mapa íntimo se tratasse. Segundo ela, o tema-título tem duas inspirações: um túnel verdadeiro, entretanto encerrado, sob o Jergins Trust Building em Long Beach, California, e Don't Forget Me uma canção de Harry Nilsson datada de 1974 — fantasmas & beleza.
O conselho clássico do poeta mantém-se: estranha-se e, depois, entranha-se... Assim é o novo teledisco de Lana Del Rey, Chemtrails Over The Country Club, tema-título do álbum agendado para 19 de março. Da iconografia clássica da América à calorosa companhia dos lobos, a música relança o mesmo magoado romantismo — vintage.
Chemtrails over the Country Club: será este o título do sétimo álbum de estúdio de Lana Del Rey, a surgir em 2021, em data por anunciar. O primeiro single, Let Me Love You Like a Woman, foi apresentado recentemente no show de Jimmmy Fallon — a tradição ainda é o que era.
Foi o ano do brilhantíssimo Madame X, com Madonna, fado oblige, a lembrar-nos a condição nómada da música, das canções, da mais difícil de todas as artes, a arte de viver, de que falava o pai Brecht. Para completar as escolhas de cinema, eis uma colecção de uma dezena de álbuns sem qualquer sujeição à ditadura dos "melhores" (a lista dos que ficaram por ouvir é sempre muito maior...). Apenas uma antologia breve, respeitando a ordem alfabética, de coisas que nos ajudam a não desesperar do planeta da música — ou, se quiserem, do novo-riquismo dos rótulos da world music. Há mais mundos.
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ANNA MEREDITH, FIBS — Pop, electrónica e experimental. Ligeira ou sinfónica. Lúdica e grave. A música de Anna Meredith desafia as classificações adquiridas, celebrando um genuíno conceito de fusão e convidando-nos, afinal, a questionar as formas correntes de escuta. Além do mais, Paramour, dirigido por Ewan Jones Morris, merece o título de teledisco do ano.
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BILLIE EILISH, When We All Fall Asleep, Where Do We Go? — Ter 17 anos (completou 18 a 18 de Dezembro) e cantar o "fim da festa", eis uma aventura existencial que nos obriga a superar os clichés da juventude e da pop: Billie Eilish é coisa genuína, com um gosto genuinamente experimental de fazer inveja aos profissionais de muitas (con)fusões.
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BOB DYLAN, Travellin' Thru, 1967 - 1969 — O presente também se faz destes "desvios". A reunião de materiais de Dylan nos anos finais da década de 60, incluindo muitos inéditos, lança nova luz sobre a sua cruzada em Nashville e, em particular, uma convivência de peculiares cumplicidades — com Johnny Cash, nomeadamente no seu programa de televisão.
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BRUCE SPRINGSTEEN, Western Stars — Aos 70 anos, é aconselhável dispensar as divagações juvenis e reconhecer a inteligência que o mundo tem para nos doar — I woke up this morning just glad my boots were on. Pedagogicamente, Bruce recordou-nos que a primitiva sensibilidade rock não é estranha a um sofisticado gosto orquestral.
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CAROLINE SHAW / ATTACCA QUARTET, Orange — Punctum, Entr'acte [video] ou Plan & Elevation: o Attacca Quartet interpreta algumas das composições que fizeram de Caroline Shaw um caso sério da música "made in USA": Pulitzer de 2013, colaboradora de Kanye West, o seu trabalho desafia certezas, esquemas e fronteiras.
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DANISH STRING QUARTET, Prism II — "Um raio de luz fragmenta-se através do prisma de Beethoven" — voltaram a mostrá-lo com o segundo volume de Prism, ligando fugas de Bach e os quartetos finais de Beethoven a sons da nossa modernidade. Agora, o contraponto é dado pelo Quarteto nº 3, de Alfred Schnittke [video: Andante], composto em 1983.
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LANA DEL REY, Norman Fucking Rockwell! — Veneza. E arredores. Califórnia, entenda-se: a mesma Venice onde Jacques Demy rodou o seu admirável Model Shop (1969). Lana Del Rey poderia ser uma personagem em fuga desse universo cinéfilo, perseguindo sempre a miragem de uma utopia romântica que se diz através dos filmes em Super 8.
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LARRY GRENADIER, The Gleaners — O título remete para a inspiração de Agnès Varda (1928-2019), através do filme de 2000 Os Respigadores e a Respigadora [The Gleaners and I], como quem recolhe restos esquecidos de uma arte condenada ao paciente exercício da solidão — o contrabaixo de Grenadier expõe o povoamento dessa solidão.
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SHARON VAN ETTEN, Remind Me Tomorrow — "Ninguém é fácil de amar", canta ela. Através de um metódico paradoxo: expondo as agruras de qualquer movimento amoroso, através de uma cenografia de discreto distanciamento, como quem nos recorda que sobrevivemos ao apocalipse — se existe uma pop "brechtiana" (oops...), encontramo-la em Sharon Van Etten.
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THOMAS ZEHETMAIR, Sei Solo — A arte do violino terá um dos seus desafios mais radicais nas seis Sonatas e Partitas para violino solo, BWV 1001-1006, compostas por Bach em 1720. Usando instrumentos de época, Zehetmair convoca-nos para um reencontro apaixonado que envolve a sensação radical de uma primeira escuta.
Lana Del Rey volta a contar com a colaboração de Chuck Grant, sua irmã, para acrescentar mais um capítulo à sua magnífica galeria de telediscos. No plural, entenda-se. Isto porque o video de Norman Fucking Rockwell, canção-título do seu sexto registo de estúdio, contém mais duas canções do mesmo álbum: Bartender e Happiness Is a Butterfly. Tudo devidamente encenado em deliciosas imagens retro, com a nostalgia da película Super 8 a integrar alguns efeitos especiais tão discretos quanto irónicos.
Poderá fazer lembrar a veia poética de alguma ficção científica das décadas de 40/50. Ou, mais directamente, o teledisco de Love Is Strong (1994), em que David Fincher filmava os membros dos Rolling Stones em pose de gigantes urbanos. Ou ainda as ambivalências figurativas de A Rosa Púrpura do Cairo (1985), por certo um dos mais ousados exercícios narrativos de Woody Allen... Seja como for, Doin' Time é Lana Del Rey no seu melhor, material e imaterial, teatral e cinematográfica, bigger than life — é também mais um tema do novíssimo Norman Fucking Rockwell, aqui seguido das heranças de Fincher e Allen.
O sexto álbum de estúdio de Lana Del Rey (30 Agosto) apresenta-se com um título delicioso a cujas ressonâncias simbólicas, brevemente, nos deveremos dedicar: Norman Fucking Rockwell!.
Para já, digamos apenas que tem sido promovido através de cenários e imagens de espírito made in California, transportando um romantismo paradoxal, tecido de ternura e cepticismo. Com uma novidade insólita, e tanto mais quanto tem mesmo qualquer coisa de único. Ou seja: um video que não é exactamente o teledisco de uma canção, mas de duas... Ou serão dois telediscos irmanados no mesmo video... Enfim, o que mais conta é a sinceridade festiva do empreendimento, "colando" os dois temas no mesmo acontecimento audiovisual — eis o trailer do álbum e, em baixo, Fuck It I Love You & The Greatest.
Misteriosa oração amorosa [... kiss the sky and whisper to Jesus], eis como talvez possamos definir a nova canção de Lana Del Rey: Mariners Apartment Complex poderá ser a primeira antecipação de um novo álbum que, em qualquer caso, a cantora prevê apenas para 2019. O teledisco, evocando as singularidades da película Super 8, a preto e branco, tem assinatura de Chuck Grant (nome próprio: Caroline), irmã de Elizabeth (=Lana).
You took my sadness out of context
At the Mariners apartment complex
I ain't no candle in the wind
I'm the board, the lightning, the thunder
Kind of girl who's gonna make you wonder
Who you are and who you've been
And who I've been is with you on these beaches
Your Venice bitch, your die-hard, your weakness
Maybe I could save you from your sins
So, kiss the sky and whisper to Jesus
My, my, my, you found this, you need this
Take a deep breath, baby, let me in
You lose your way, just take my hand
You're lost at sea, then I'll command your boat to me again
Don't look too far, right where you are, that's where I am
I'm your man
I'm your man
They mistook my kindness for weakness
I fucked up, I know that, but Jesus
Can't a girl just do the best she can?
Catch a wave and take in the sweetness
Think about it, the darkness, the deepness
All the things that make me who I am
And who I am is a big time believer
That people can change, but you don't have to leave her
When everyone's talking, you can make a stand
'Cause even in the dark I feel your resistance
You can see my heart burning in the distance
Baby, baby, baby, I'm your man (yeah)
You lose your way, just take my hand
You're lost at sea, then I'll command your boat to me again
Don't look too far, right where you are, that's where I am
O novo álbum de Lana Del Rey, Lust for Life, continua com data de lançamento por esclarecer... Mas há mais um teledisco, precisamente do tema-título, com colaboração de Abel Makkonen Tesfaye, aliás, The Weeknd — uma breve e fascinante deambulação romântica pelas letras, literalmente, de Hollywood nas colinas de Los Angeles.
Depois da canção Love, sinal ainda incerto de um quinto álbum de estúdio de Lana Del Rey, chegamos a um novo capítulo. Ou seja: não só esse álbum deixou de ser um mero objecto de especulação, como tem uma capa — dir-se-ia um exercício de suave revivalismo (das flores no cabelo ao tipo de letra adoptado), convocando as marcas da mais pura Americana.
Isto poucos dias depois de a cantora americana ter divulgado o título do álbum, Lust for Life (ainda sem data de lançamento anunciada), através do mais insólito dos trailers: figurando-se como bruxa romântica, confessando o seu gosto pela solidão que encontrou na sua casa situada no... sinal 'Hollywood' nas colinas de Los Angeles.
Estamos perante uma ficção tanto mais desconcertante e sedutora quanto Lana Del Rey se (re)afirma como star para o nosso presente, encenando-se como personagem voluntariamente anacrónica, nostálgica de outras iconografias e sensibilidades.
A esse propósito, vale a pena recordar que, no seu universal apelo poético (e psicanalítico...), a expressão 'Lust for Life' pertence ao imaginário popular, e não apenas por causa do álbum assim chamado de Iggy Pop, datado de 1977. Também porque é esse o título da biografia de Vincent Van Gogh, da autoria de Irving Stone, publicada em 1934, e ainda da respectiva adaptação cinematográfica — o filme, realizado por Vincente Minnelli, foi lançado em 1956, com Kirk Douglas e Anthony Quinn, nos papéis, respectivamente, de Van Gogh e Paul Gauguin.
Dois dias depois da revelação de Love, Lana Del Rey divulgou o respectivo teledisco: uma viagem romântica, surreal e lunar, com realização de Rich Lee — a canção fará parte de um quinto álbum de estúdio, com data ainda por divulgar.
O último álbum de Lana Del Rey, Honeymoon, surgiu em Setembro de 2015. O próximo... sabemos que envolverá outra atitude: "Fiz os meus primeiros quatro álbuns para mim, este é para os meus fãs." Nada contra — para já, a primeira canção divulgada, Love, promete a mais austera fidelidade ao mais clássico romantismo.
Look at you kids with your vintage music
Comin' through satellites while cruisin'
You're part of the past, but now you're the future
Signals crossing can get confusing
Lana del Rey tem um teledisco que ela própria dirigiu: Honeymoon, canção-título do seu excelente álbum de 2015, apresenta-se numa espécie de home movie mais ou menos documental, mais ou menos onírico — é a demonstração exemplar de uma arte de se exprimir na primeira pessoa, desviando-se de qualquer cliché artístico ou mediático.
O novo teledisco de Lana Del Rey é um exercício tão heterodoxo quanto saboroso: fiel à sua letra (Baby, if you wanna leave / Come to California / Be a freak like me, too), Freak surge encenado como uma trip romântica, lenta, indecifrável e envolvente — Father John Misty participa e, quando a canção acaba, ainda vai tudo a meio, já que a segunda metade do teledisco tem a bênção do Clair de Lune, de Claude Debussy. Pop mais pop não há.
Aqui, ainda mais do que nos filmes, vejo-me compelido a solicitar a indulgência do leitor: "aquele" disco que outros classificam de incontornável (e não tenho nenhuma razão para duvidar), provavelmente não o ouvi... Em todo o caso, confesso algum cansaço pelo experimentalismo chic que circula um pouco por todo o lado, inevitavelmente favorecido pelos modos virtuais, virtualmente acelerados, de escuta da música.
Por isso também, devo reconhecer, com algum embaraço, mas sem sentimento de culpa, a minha fidelidade aos "velhos" que não páram de nos surpreender (até saíu o 100º álbum oficial de Frank Zappa!). Dito isto, deixo-vos a volatilidade da habitual lista, acompanhada por alguma música com imagens ou, se quiserem jogar com as palavras, alguma música imaginada — Even when the world turns its back on me / That could be a war, but I'm not Joan of Arc...
FADO PORTUGUÊS, Amália Rodrigues
DANCE ME THIS, Frank Zappa
REBEL HEART, Madonna
CREATION, Keith Jarrett
SAVE YOUR BREATH, Kris Davis Infrasound
HONEYMOON, Lana Del Rey
ALGIERS, Algiers
APOCALYPSE, GIRL, Jenny Hval
DODGE AND BURN, The Dead Weather
ABYSS, Chelsea Wolfe
>>> Lana Del Rey (Music To Watch Boys To) + Algiers (Black Eunuch) + The Dead Weather (I Feel Love (Every Million Miles)).
As lendas de Hollywood nunca envelhecem, diz ela. Poucos dias depois do contundente teledisco de High By the Beach, Lana Del Rey divulga mais um tema do seu álbum Honeymoon. Chama-se Terrence Loves You e traduz-se numa belíssima deambulação romântica por uma paisagem algo jazzística — registe-se o magnífico verso: And I still got jazz when I've got those blues... — em que coabitam as mais sofisticadas referências, incluindo o emblemático "Ground control to Major Tom", roubado ao Space Oddity, de David Bowie. Letra e música, para já.
You are what you are
I don't matter to anyone
But Hollywood legends will never grow old
And all of what's hidden
Well it will never grow cold
But I lost my self when I lost you
And I still got jazz when I've got those blues
And I lost myself when I lost you
And I still get trashed darling when I hear your tunes
Que fazer perante o assédio de um paparazzo? Lana Del Rey avança com uma resposta linear, eficaz, talvez pouco ortodoxa — em todo o caso, para conhecer a sua perspectiva sobre o assunto, será necessário ver até ao fim o contundente teledisco de High By the Beach, tema do seu próximo álbum Honeymoon.
O projecto do novo álbum estúdio de Lana Del Rey, Honeymoon (Setembro), já era conhecido através da canção homónima. Chega agora High by the Beach, single servido por um registo sonoro acompanhado de um interminável animação em loop, um GIF de enigmática elegância — a música e a voz mantêm-se fiéis a um romantismo intemporal, sofisticado por vocação, barroco q. b.
Boy, look at you looking at me
I know you don't understand
You could be a bad motherfucker
But that don't make you a man
Now you're just another one of my problems
Because you got out of hand
We won't survive, we're sinking into the sand
Foi o ano da plena revelação de um dos álbuns mais electrizantes de Miles Davis: Miles at the Fillmore reúne os sons de quatro dias (17/20 Junho 1970) no Fillmore East, Nova Iorque, levando-nos a redescobrir um artista de génio numa encruzilhada fascinante entre o património acumulado e a vertigem da experimentação: é um álbum sem tempo, clássico pela excelência, moderno em qualquer conjuntura — e se é preciso escolher um disco do ano, este será o meu.
Em todo o caso, que o leitor não se iluda com a abundância, porventura deselegante, desta lista. Não são 30 discos porque queira fazer valer a quantidade. O excesso é, aqui, sintoma das próprias limitações que não posso deixar de me reconhecer: acredito que não ouvi com a devida atenção (ou, pura e simplesmente, não ouvi) muitos outros que, por certo, mereciam um destaque neste balanço. Digamos que estes podem condensar um panorama de géneros (e séculos!) cujos contrastes nos levam a experimentar a deslocação criativa das próprias fronteiras musicais — didacticamente, ou talvez não, aqui ficam por ordem alfabética dos respectivos títulos.