Produtor, aliás, super-produtor (com Dylan e U2 no curriculum), o canadiano Daniel Lanois é também um criador com identidade muito própria. Lançou recentemente um novo álbum, Belladonna Nocturne (ecoando o seu Belladonna, de 2005), ao mesmo tempo que colocou online este registo de JJ Leaves LA, tema do álbum Shine (2003) interpretado ao vivo. Lanois, na guitarra havaiana, conta com a companhia de Jim Wilson (baixo) e Jermaine Holmes (bateria).
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sábado, agosto 01, 2026
sexta-feira, julho 31, 2026
Rubber Soul regressa em outubro
Era uma questão de tempo: Rubber Soul, sexto álbum de estúdios dos Beatles, datado de 1965, vai ter uma especalíssima edição em outubro, De Luxe & etc. — lá encontramos Norwegian Wood, Michelle, Girl, I'm Looking Through You, In My Life... Para já, fiquemos com Michelle, "Take 1".
domingo, julho 05, 2026
O primeiro single de Elvis Presley
O primeiro single de Elvis Presley, That's All Right, foi gravado nos estúdios da Sun Records, em Memphis, Tennessee, no dia 5 de julho de 1954 — faz hoje 72 anos.
domingo, junho 21, 2026
Adult Jazz, 2016
O extraordinário Earrings Off!, dos ingleses Adult Jazz, foi lançado há dez anos — assinalemos a efeméride, celebrando a impossibilidade de os encerrarmos num rótulo definitivo.
quinta-feira, maio 28, 2026
Sonny Rollins, Saxophone Colossus
Celebremos Sonny Rollins, escutando o monumental Saxophone Colossus. São memórias de há 70 anos — 1956, exactamente, ano de muitas fulgurâncias, incluindo os cinco-álbuns-cinco gravados por Miles Davis ((Cookin' , Relaxin' , Workin', Steamin' e Round about Midnight). Sem esquecer mais três de Sonny — Sonny Rollins Plus 4, Tenor Madness e Work Time — e This Is How I Feel About Jazz, de Quincy Jones.
terça-feira, maio 26, 2026
Miles Davis, So What
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| IRVING PENN A mão de Miles Davis 1986 |
O trompetista Miles Davis nasceu na cidade de Alton, Illinois, no dia 26 de maio de 1926 — faz hoje 100 anos. Escutemos, em silenciosa atenção, o tema So What, do álbum Kind of Blue (1959). Digamos, para simplificar, que estamos perante um dos muitos momentos em que Miles refez a lógica, a linearidade e o destino da história do jazz — entenda-se: da música.
segunda-feira, abril 06, 2026
Paul McCartney
— como sobreviver aos Beatles?
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| Linda e Paul McCartney, ao som dos Wings |
Como foi a vida de Paul McCartney depois dos Beatles? Realizado por Morgan Neville, Man on the Run revisita a criação de uma nova banda, os Wings, celebrando o seu singular trajecto criativo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 março).
Sem ter passado pelas salas (o que é uma pena...), o documentário Man on the Run, sobre Paul McCartney, está disponível na plataforma Prime Video. Esquematizando, trata-se de evocar a sobrevivência artística de McCartney depois dos Beatles, muito para lá dos clichés mediáticos que, a partir de 1970, se foram acumulando. Sim, é verdade que a relação de McCartney com John Lennon passou por tempos complicados, mas Lennon resumiu bem o problema: “Já não posso discutir com o meu melhor amigo?” Dito de outro modo: importa respeitar a complexidade das pessoas e relações retratadas — é o que faz o realizador americano Morgan Neville, “oscarizado” em 2014 pelo seu A Dois Passos do Estrelato, dedicado à existência quase sempre anónima das chamadas “backup singers” (cantoras de apoio de muitas formações musicais).
Como é que McCartney viveu o fim dos Beatles? Como é que, a partir do vazio artístico e existencial gerado pelo fim do quarteto de Liverpool, ele acabou por fundar uma nova banda, os Wings, protagonizando um singular capítulo musical? A cronologia é suficientemente bizarra para nos fazer perceber que nada foi linear, mesmo quando foi friamente burocrático — aliás, como o documentário recorda, passaram-se vários anos, incluindo algumas peripécias mais ou menos desagradáveis, até ser resolvido o imbróglio jurídico da distribuição dos direitos das canções dos Beatles por George Harrison, Ringo Starr, Lennon e Paul.
Assim, o derradeiro LP dos Beatles, Let it Be, foi posto à venda a 8 de maio de 1970. O primeiro álbum a solo de McCartney, intitulado apenas McCartney, surgira cerca de três semanas antes, a 17 de abril. A decomposição emocional da banda era cada vez mais nítida, de tal modo que todos já tinham projectos em nome próprio. Lennon era o mais activo, com três registos co-assinados com Yoko Ono, incluindo Wedding Album. Harrison já lançara dois, sendo Ringo o mais “atrasado”, com Sentimental Journey a surgir a 24 de abril, uma semana depois de McCartney, mas ainda antes do aparecimento de Let it Be... Isto sem esquecer que, a 9 de abril, o dossier de imprensa do álbum de McCartney incluía uma entrevista em que ele era questionado sobre a possibilidade de se refazer a dupla Lennon/McCartney. A sua resposta minimalista entrou para a história como símbolo de uma tragédia cultural: “Não.”
A agilidade narrativa do documentário leva-nos a ouvir (e sentir) as canções como algo mais, muito mais, do que meros artefactos musicais — o que, convenhamos, já não seria pouco. Especialmente eloquentes são os momentos de confluência de factos familiares, logísticos e, precisamente, musicais. Exemplo? O casamento de Paul com Linda Eastman (consagrada também pela sua obra fotográfica, como Linda McCartney); depois, a opção por um refúgio, “longe da civilização”, na Escócia; enfim, o aparecimento do segundo álbum, Ram (1971), co-assinado por Paul e Linda — uma obra-prima menosprezada por muitos críticos da época que, em boa verdade, ajudou toda uma juventude a reconhecer que, de facto, não haveria mais Beatles.
O som dos Wings
Podemos, enfim, conhecer e reconhecer os Wings (o primeiro álbum, Wild Life, foi editado em finais de 1971) como um projecto que transcende a procura de uma nova banda “à maneira” dos Beatles. McCartney sentia, sem dúvida, que precisava de um ambiente que lhe permitisse construir um espaço criativo em que persistisse a sensibilidade “familiar” do passado. O certo é que foi nesse ambiente que nasceu uma nova sonoridade. Mesmo com a instabilidade dos que foram entrando e saindo, os Wings viveram uma saga muito própria, afinal com uma afirmação exuberante nos palcos que os Beatles tinham abandonado a meio da sua década gloriosa — o álbum Band on the Run (1973) ficou como símbolo nuclear de tudo isso.
A realização de Neville possui a arte e o engenho de valorizar a habitual panóplia de materiais de arquivo (incluindo os filmes da família McCartney) sem nunca recorrer aos estereótipos da “fama” ou do “sucesso”, antes devolvendo-nos a alegria de uma invulgar viagem musical. Por alguma razão, os elementos de animação que Man on the Run utiliza contaminam o documentário com uma deliciosa ambiguidade: podia ser um conto de fadas, mas é um romance de gente viva, próxima de nós.
>>> Band on the Run, lyric video.
>>> Kreen-Akrore, tema que encerra o alinhamento do álbum McCartney (todos os instrumentos são tocados por Paul McCartney).
>>> Let it Be.
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sábado, março 28, 2026
Blue Moon,
ou a arte nunca desiste da beleza
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| Ethan Hawke: celebrando a herança de Lorenz Hart |
Richard Linklater é um realizador que gosta de revisitar a história do cinema. Com Blue Moon, propõe-nos uma maravilhosa redescoberta de Lorenz Hart, autor dos versos de centenas de canções lendárias — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 fevereiro).
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| Lorenzo Hart |
Convém esclarecer que Blue Moon não é um musical — nem sequer é um filme em que haja qualquer momento coreográfico típico do género. Nada disso: este é um retrato de Hart numa única noite e praticamente num único cenário, o lendário restaurante Sardi’s em Manhattan, Nova Iorque.
Tudo acontece a 31 de março de 1943, quando Hart assiste à estreia do musical Oklahoma! (“com um ponto de exclamação”, como não se cansa de sublinhar), com música de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II. Agastado com o espectáculo, abandona o seu camarote e refugia-se no Sardi’s que, um pouco mais tarde, será palco de uma recepção à dupla de autores. A sua prostração resulta menos do musical e mais do facto de Rodgers — com quem escrevera 28 musicais e mais de 500 canções, incluindo Blue Moon, Manhattan e Little Girl Blue — ter posto fim à sua colaboração, optando por trabalhar com Hammerstein. Na verdade, a vida de Hart, marcada pela solidão e o alcoolismo, estava já no capítulo final. Viria a falecer cerca de oito meses mais tarde, a 22 de novembro — a informação da sua morte constitui mesmo o prólogo do filme de Linklater.
Dito isto, não será fácil adivinhar o misto de alegria, sarcasmo e infinito amor pelo trabalho artístico que contamina todo o filme de Linklater. Claro que a composição de Hart por Ethan Hawke, num registo tão exuberante quanto carregado de subtis emoções, não será estranha à excelência dos resultados — foi, aliás, nomeado para o Oscar de melhor actor (é a sua quinta nomeação, sem esquecer que duas delas, em 2005 e 2014, foram na categoria de argumento adaptado em dois filmes também de Linklater, Antes do Anoitecer e Antes da Meia-Noite). Seja como for, importa não secundarizar o prodigioso argumento original assinado por Robert Kaplow (também nomeado na respectiva categoria), transformando o Sardi’s num palco de muitos contrastes em que Hart vai enunciado, ora em tom dramático, ora através de um humor contagiante, o seu fundamental princípio artístico e, mais do que isso, existencial. A saber: nunca desistir da beleza.
O que é, então, a beleza? A expressão mais visível é a personagem (fictícia) de Elizabeth Weiland, interpretada pela sempre impecável Margaret Qualley. Tal como confessa ao “barman” Eddie (Bobby Canavale), Hart tem por ela uma paixão intensa que, em qualquer caso, transcende a sexualidade — Hart confessa-se também como homossexual. Para ele, na relação com cada ser humano, tal como em cada verso das suas canções, a beleza é essa vibração sem nome que nos liberta das rotinas do quotidiano, da desumanização social e também da hipocrisia das relações humanas.
Welles, Godard & etc.
Como se prova, Linklater é um autor apostado em devolver o cinema à cinefilia, quer dizer, à consciência militante de que os filmes são (ou podem ser) uma arte que não abdica da celebração da beleza das histórias que se contam — e também daqueles que as vivem.
Afinal, com Me and Orson Welles (2008), ele já tinha trabalhado a partir de um romance do seu argumentista, Kaplow, evocando o trabalho de Welles no Mercury Theatre, em 1937 (quatro anos antes de realizar O Mundo a Seus Pés); entretanto, o ano passado, Linklater ofereceu-nos Nouvelle Vague, belíssima evocação da rodagem da primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard, em 1959. Como Hart escreveu em Blue Moon, a lua pode “transformar-se em ouro” — não receemos a beleza da metáfora.
quinta-feira, março 26, 2026
Paul McCartney, Opus 19
Days We Left Behind, assim se chama a canção que serve de cartão de visita do novo álbum de Paul McCartney, nº 19 da sua discografia em nome próprio. Tem como título The Boys of Dungeon Lane, uma expressão deste primeiro tema, e estará disponível a partir de 29 de maio. Serão memórias de tempos remotos, em grande parte centradas na amizade entre McCartney e John Lennon — o passado refaz-se na emoção do presente.
sábado, fevereiro 28, 2026
John Field, por Alice Sara Ott
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| John Field |
Os 18 Nocturnos compostos pelo irlandês John Field (1782-1837) foram uma das grandes (re)descobertas de 2025, através do álbum que lhes dedicou essa pianista admirável que é Alice Sara Ott. Eis o Nº1, numa curiosa encenação que reflecte o modo como a Deutsche Grammophon tem apostado na "reconversão" visual de alguns dos seus artistas, aproximando a música dita erudita de algumas iconografias do mundo pop — sem preconceitos, voilà!
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
Laufey canta Joni Mitchell
Incluída no álbum Clouds (1969), o segundo da discografia de Joni Mitchell, a canção Both Sides Now é um desafio para qualquer intérprete. Aí está a islandesa Laufey a mostrar que é possível revisitá-la sem atitudes banalmente copistas, sabendo preservar o seu espírito poético e também o seu delicado simbolismo — aconteceu no Piano Room da BBC2, com a BBC Concert Orchestra.
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
The Good Ones, The Kills
No espaço restrito do Studio UGO, eis uma performance de The Kills. Foi há 20 anos — a canção The Good Ones pertencia ao alinhamento de No Wow, o segundo álbum de Alison Mosshart e Jamie Hince lançado em 2005. Comoventes solidões.
terça-feira, fevereiro 24, 2026
Bob Dylan, Bootleg nº 18
As gravações "perdidas" de Bob Dylan são um galáxia sem fim... Assim é o volume 18 da série, a comprovar de forma exuberante a riqueza do património do compositor de The Times They Are A-Changin'. Como diz o título — Bootleg Series Volume 18: Through The Open Window, 1956-1963 —, esta é uma edição que nos faz revisitar os anos de transição, 1950/60, quando Dylan inventariava referências da tradição folk, ao mesmo tempo que definia as componentes específicas de uma identidade criativa que nunca se encerrou na solução preguiçosa da imitação mais ou menos nostálgica.
Com edições em vários formatos, a mais abrangente tem 8 CD com um total de 139 faixas, incluindo 48 gravações inéditas, sendo acompanhada por um livro com notas de Sean Wilentz e cerca de uma centena de raridades fotográficas.
Eis um tema tradicional, Man of Constant Sorrow, no registo de um ensaio de 1961, em Nova Iorque — seria integrado no alinhamento de Bob Dylan, primeiro álbum de estúdio lançado há 64 anos, mais precisamente a 19 de março de 1962.
sexta-feira, fevereiro 06, 2026
Somethin' Stupid
— Norah Jones e Joshua Homme
"Norah Jones Is Playing Along" — assim se chama um podcast que Norah Jones iniciou em 2022. Com uma regra central: receber outros artistas que, com ela, interpretam, de modo mais ou menos improvisado, algumas canções. Com o cantor e compositor Joshua Homme recriou Somethin' Stupid, tema que, em 1967, foi um imenso sucesso de Frank e Nancy Sinatra — eis uma performance de serena harmonia.
terça-feira, fevereiro 03, 2026
I Fall In Love Too Easily x 3
Composta por Jule Styne (música) e Sammy Cahn (letra), I Fall In Love Too Easily é uma jóia do cancioneiro musical de Hollywood — a canção foi interpretada pela primeira vez por Frank Sinatra no filme Anchors Aweigh/ Paixão de Marinheiro (1945), de George Sidney, sendo conhecida através de múltiplas versões, incluindo as de Chet Baker, Ray Conniff, Shirley Horn, Tony Bennett e Anita O'Day. Eis o original e a sua recriação por Miles Davis e Keith Jarrett.
>>> Frank Sinatra (com Gene Kelly) em Anchors Aweigh (1945).
>>> Miles Davis — Copenhaga, 1969.
>>> Keith Jarrett, com Gary Peacock (baixo) e Jack DeJohnette (bateria) — Festival de Lugano, 1986.
John Coltrane, Ascension
— 60 anos depois
Até que ponto o free jazz é, ou pode ser, free? Podemos responder evocando Ascension, álbum fulcral de John Coltrane em que, abraçando as liberdades da improvisação, o saxofonista de Blue Train (1958) e A Love Supreme (1965) reforçava a lógica de uma etapa criativa para lá da formação clássica do quarteto — entre
os convidados estão Freddie Hubbard (trompete), Pharoah Sanders (saxofone tenor)
e McCoy Tyner (piano).
O álbum teve duas "versões" — 'Edition I' (aqui em baixo) e 'Edition II' — que existem numa edição conjunta, datada de 2000, com chancela da Impulse!. As gravações ocorreram a 28 de junho de 1965, tendo Ascension sido lançado em fevereiro de 1966 — 60 anos depois, o tempo imobilizou-se na vertigem do seu próprio futuro.
sexta-feira, janeiro 30, 2026
Os Beatles no telhado da Apple
No dia 30 de janeiro de 1969 (faz hoje 57 anos), os Beatles subiram ao telhado da sua companhia, Apple Corps (no nº 3 da Savile Row, no centro de Londres), para darem um concerto... Durou 42 minutos (a inexcedível simpatia dos polícias não deu para mais).
Do seu registo, três canções — I've Got a Feeling, One After 909 e Dig a Pony — viriam a integrar o alinhamento do álbum Let it Be (lançado a 8 de maio de 1970). O "rooftop concert" de John Paul, George e Ringo parecia corresponder a uma celebração de um futuro que acabaria por não se cumprir — isto porque Let it Be, depois escutado infinitas vezes como um ritual sem sacerdotes, seria, de facto, um adeus.
A música sem redes sociais, plataformas digitais e tiktoks era apenas isso: música. E uma avalanche de emoções que não sabíamos dizer. Porventura continuamos sem saber.
>>> Get Back (take 1).
>>> The Beatles' rooftop concert [Wikipedia].
segunda-feira, janeiro 26, 2026
Celebrando as canções de Neil Diamond
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| Kate Hudson e Hugh Jackman: admiráveis! |
Song Sung Blue faz o retrato de uma dupla que se celebrizou interpretando as canções de Neil Diamond: para a alegria dos resultados, são decisivas as interpretações de Hugh Jackman e Kate Hudson — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 janeiro).
Apesar da distorção industrial que o cinema dos EUA tem vivido nas últimas duas décadas — primeiro, com a invasão dos “blockbusters” da Marvel & afins, depois com a brutal concorrência das plataformas de “streaming” —, Hollywood vai gerando filmes que, melhor ou pior, sabem reencontrar e revalorizar os seus valores tradicionais. Assim acontece com Song Sung Blue, uma realização de Craig Brewer, que consegue a proeza de renovar, com discreta elegância e equilíbrio formal, a tradição da “biografia de um cantor”.
Não se trata de um exemplo linear dessa tradição que, em anos recentes, deu origem a títulos como Rocketman (Dexter Fletcher, 2019), sobre Elton John, ou Elvis (Baz Luhrmann, 2022). Em Song Sung Blue, Mike Sardina, a personagem central, é um “cantor-imitador”. Entenda-se: alguém cuja vida profissional, frágil e errática, é feita de breves performances em bares ou feiras a imitar Don Ho, um cantor pop nascido no Hawai muito popular ao longo da década de 1960.
Não estamos, por isso, em sentido estrito, perante um “musical”. Claro que o filme está recheado de canções, mas a matriz narrativa de Song Sung Blue pertence a um território mitológico visceralmente made in USA, centrando-se numa personagem que se transcende porque nunca desiste do seu sonho (americano, como é óbvio). Na companhia de Claire, uma imitadora de Patsy Cline com quem virá a casar-se, Mike muda o seu “paradigma”, fundando a banda Lightning and Thunder e triunfando numa nova especialização. Ou seja: celebrando o cancioneiro de Neil Diamond — será preciso recordar que Song Sung Blue, do álbum Moods (1972), é um tema lendário de Neil Diamond?
Convém não esquecer que Mike e Claire são personagens verídicas (ele falecido em 2006, contava 55 anos; ela actualmente com 64 anos), sendo o filme de Craig Brewer inspirado num documentário de Greg Kohs sobre o casal, também intitulado Song Sung Blue (2008). O certo é que o novo Song Sung Blue evita jogar a cartada da mera duplicação das figuras retratadas, evitando também, o que seria francamente pior, reduzir-se a uma espécie de “filme-concerto” pontuado pela dramatização de algumas situações.
Para que tudo isso resulte, a composição de Mike e Claire por Hugh Jackman e Kate Hudson é absolutamente decisiva. É com eles, e por eles, que perpassam as emoções da saga dos Lightning and Thunder, numa lógica narrativa cuidadosamente controlada. Dito de outro modo: esta não é uma colagem de canções que evocam determinadas personagens, mas sim uma história de gente viva para quem as canções são matéria nuclear dos valores da sua própria existência.
>>> Cena do filme: Hugh Jackman e Kate Hudson cantam Sweet Caroline.
>>> Song Sung Blue, por Neil Diamond.
sexta-feira, janeiro 23, 2026
50 anos de Station to Station [3/3]
Experimentador, sempre à frente do seu tempo, David Bowie só foi um visionário porque, paradoxalmente ou não, nunca cortou relações (em boa verdade, intensificou-as) com as referências que o inspiraram, de alguma maneira moldando a sua personalidade artística. Daí o seu reencontro com uma canção como Wild Is the Wind, original de Dimitri Tiomkin/Ned Washington para o filme homónimo de 1957, com Anna Magnani e Anthony Quinn sob a direção de George Cukor; Johnny Mathis era o intérprete, aliás com enorme na sucesso na época, mas talvez não seja exagero dizer que a versão mais lendária da canção pertence a Nina Simone (editada no seu álbum Wild Is the Wind, 1966). Para Bowie, retomar Wild Is the Wind era, antes de tudo o mais, uma homenagem a Nina — o teledisco da canção, produzido alguns anos mais tarde para o lançamento da antologia Changestwobowie (1981), com direção de David Mallet, inclui uma banda fictícia cujos elementos, de facto, não participaram na gravação da canção (Tony Visconti surge no baixo).
Station to Station foi lançado no dia 23 de janeiro de 1976 — faz hoje 50 anos.
>>> Site oficial de David Bowie.
Música ao vivo
— um Top da revista Mojo
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| Savile Row, Londres (1969) |
Foi no dia 30 de janeiro de 1969: os Beatles subiram ao telhado da Apple Corps, em Londres, para um mini-concerto que, afinal, era uma despedida antecipada. O evento está incluido num curioso Top 10, proposto pela edição francesa da revista Mojo. Ou seja: os grandes momentos da história da música ao vivo. Também lá estão, por exemplo Jimi Hendrix e Bob Dylan... Vale a pena ver.
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