D'amour, l'ardente flamme é uma célebre ária da ópera A Danação de Fausto, composta por Hector Berlioz em 1845 — aqui, na imaculada interpretação da mezzo soprano Elina Garanca.
De vez em quando, é preciso parar para denunciar o misto de ignorância factual e agressão emocional que circula pela Net, alimentando a sua própria impunidade. De vez em quando, é mesmo necessário mostrar que ser social envolve um trabalho árduo de respeito, e auto-respeito, que as novas formas de "comunicação" acelerada desconhecem.
Por isso mesmo, veja-se e escute-se este video de Rick Beato — músico, guitarrista, professor com uma notável presença no YouTube —, tendo como ponto de partida um comentário anónimo (enfim, disfarçado num pesudónimo indecifrável) sobre a seriedade do seu labor. Pedagógico e libertador.
O guitarrista e compositor americano Pat Metheny faz hoje 72 anos (nasceu a 12 de agosto de 1954, na cidade de Lee's Summit, Missouri). Celebremos a data recordando que este é também o ano em que o seu álbum de estreia, Bright Size Life (ECM), perfaz meio século — eis a faixa nº 4, Missouri Uncompromised.
Produtor, aliás, super-produtor (com Dylan e U2 no curriculum), o canadiano Daniel Lanois é também um criador com identidade muito própria. Lançou recentemente um novo álbum, Belladonna Nocturne (ecoando o seu Belladonna, de 2005), ao mesmo tempo que colocou online este registo de JJ Leaves LA, tema do álbum Shine (2003) interpretado ao vivo. Lanois, na guitarra havaiana, conta com a companhia de Jim Wilson (baixo) e Jermaine Holmes (bateria).
Era uma questão de tempo: Rubber Soul, sexto álbum de estúdios dos Beatles, datado de 1965, vai ter uma especalíssima edição em outubro, De Luxe & etc. — lá encontramos Norwegian Wood, Michelle, Girl, I'm Looking Through You, In My Life... Para já, fiquemos com Michelle, "Take 1".
O primeiro single de Elvis Presley, That's All Right, foi gravado nos estúdios da Sun Records, em Memphis, Tennessee, no dia 5 de julho de 1954 — faz hoje 72 anos.
O extraordinário Earrings Off!, dos ingleses Adult Jazz, foi lançado há dez anos — assinalemos a efeméride, celebrando a impossibilidade de os encerrarmos num rótulo definitivo.
Celebremos Sonny Rollins, escutando o monumental Saxophone Colossus. São memórias de há 70 anos — 1956, exactamente, ano de muitas fulgurâncias, incluindo os cinco-álbuns-cinco gravados por Miles Davis ((Cookin' , Relaxin' , Workin', Steamin' e Round about Midnight). Sem esquecer mais três de Sonny — Sonny Rollins Plus 4, Tenor Madness e Work Time — e This Is How I Feel About Jazz, de Quincy Jones.
O trompetista Miles Davis nasceu na cidade de Alton, Illinois, no dia 26 de maio de 1926 — faz hoje 100 anos. Escutemos, em silenciosa atenção, o tema So What, do álbum Kind of Blue (1959). Digamos, para simplificar, que estamos perante um dos muitos momentos em que Miles refez a lógica, a linearidade e o destino da história do jazz — entenda-se: da música.
Como foi a vida de Paul McCartney depois dos Beatles? Realizado por Morgan Neville, Man on the Run revisita a criação de uma nova banda, os Wings, celebrando o seu singular trajecto criativo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 março).
Sem ter passado pelas salas (o que é uma pena...), o documentário Man on the Run, sobre Paul McCartney, está disponível na plataforma Prime Video. Esquematizando, trata-se de evocar a sobrevivência artística de McCartney depois dos Beatles, muito para lá dos clichés mediáticos que, a partir de 1970, se foram acumulando. Sim, é verdade que a relação de McCartney com John Lennon passou por tempos complicados, mas Lennon resumiu bem o problema: “Já não posso discutir com o meu melhor amigo?” Dito de outro modo: importa respeitar a complexidade das pessoas e relações retratadas — é o que faz o realizador americano Morgan Neville, “oscarizado” em 2014 pelo seu A Dois Passos do Estrelato, dedicado à existência quase sempre anónima das chamadas “backup singers” (cantoras de apoio de muitas formações musicais).
Como é que McCartney viveu o fim dos Beatles? Como é que, a partir do vazio artístico e existencial gerado pelo fim do quarteto de Liverpool, ele acabou por fundar uma nova banda, os Wings, protagonizando um singular capítulo musical? A cronologia é suficientemente bizarra para nos fazer perceber que nada foi linear, mesmo quando foi friamente burocrático — aliás, como o documentário recorda, passaram-se vários anos, incluindo algumas peripécias mais ou menos desagradáveis, até ser resolvido o imbróglio jurídico da distribuição dos direitos das canções dos Beatles por George Harrison, Ringo Starr, Lennon e Paul.
Assim, o derradeiro LP dos Beatles, Let it Be, foi posto à venda a 8 de maio de 1970. O primeiro álbum a solo de McCartney, intitulado apenas McCartney, surgira cerca de três semanas antes, a 17 de abril. A decomposição emocional da banda era cada vez mais nítida, de tal modo que todos já tinham projectos em nome próprio. Lennon era o mais activo, com três registos co-assinados com Yoko Ono, incluindo Wedding Album. Harrison já lançara dois, sendo Ringo o mais “atrasado”, com Sentimental Journey a surgir a 24 de abril, uma semana depois de McCartney, mas ainda antes do aparecimento de Let it Be... Isto sem esquecer que, a 9 de abril, o dossier de imprensa do álbum de McCartney incluía uma entrevista em que ele era questionado sobre a possibilidade de se refazer a dupla Lennon/McCartney. A sua resposta minimalista entrou para a história como símbolo de uma tragédia cultural: “Não.”
A agilidade narrativa do documentário leva-nos a ouvir (e sentir) as canções como algo mais, muito mais, do que meros artefactos musicais — o que, convenhamos, já não seria pouco. Especialmente eloquentes são os momentos de confluência de factos familiares, logísticos e, precisamente, musicais. Exemplo? O casamento de Paul com Linda Eastman (consagrada também pela sua obra fotográfica, como Linda McCartney); depois, a opção por um refúgio, “longe da civilização”, na Escócia; enfim, o aparecimento do segundo álbum, Ram (1971), co-assinado por Paul e Linda — uma obra-prima menosprezada por muitos críticos da época que, em boa verdade, ajudou toda uma juventude a reconhecer que, de facto, não haveria mais Beatles.
O som dos Wings
Podemos, enfim, conhecer e reconhecer os Wings (o primeiro álbum, Wild Life, foi editado em finais de 1971) como um projecto que transcende a procura de uma nova banda “à maneira” dos Beatles. McCartney sentia, sem dúvida, que precisava de um ambiente que lhe permitisse construir um espaço criativo em que persistisse a sensibilidade “familiar” do passado. O certo é que foi nesse ambiente que nasceu uma nova sonoridade. Mesmo com a instabilidade dos que foram entrando e saindo, os Wings viveram uma saga muito própria, afinal com uma afirmação exuberante nos palcos que os Beatles tinham abandonado a meio da sua década gloriosa — o álbum Band on the Run (1973) ficou como símbolo nuclear de tudo isso.
A realização de Neville possui a arte e o engenho de valorizar a habitual panóplia de materiais de arquivo (incluindo os filmes da família McCartney) sem nunca recorrer aos estereótipos da “fama” ou do “sucesso”, antes devolvendo-nos a alegria de uma invulgar viagem musical. Por alguma razão, os elementos de animação que Man on the Run utiliza contaminam o documentário com uma deliciosa ambiguidade: podia ser um conto de fadas, mas é um romance de gente viva, próxima de nós.
>>>Band on the Run, lyric video.
>>> Kreen-Akrore, tema que encerra o alinhamento do álbum McCartney (todos os instrumentos são tocados por Paul McCartney).
Richard Linklater é um realizador que gosta de revisitar a história do cinema. Com Blue Moon, propõe-nos uma maravilhosa redescoberta de Lorenz Hart, autor dos versos de centenas de canções lendárias — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 fevereiro).
Há muito que o género musical deixou de ser uma presença regular nas salas de cinema. Dir-se-ia que os espectadores que aprenderam a “ver” a música através de telediscos e telemóveis não têm disponibilidade para as gloriosas performances de Fred Astaire, Judy Garland ou Gene Kelly. Face ao filme Blue Moon, de Richard Linklater, digamos, para simplificar, que a sua maravilhosa evocação de um dos grandes letristas da história do musical, Lorenz Hart (1895-1943) pode servir para que não continuemos a alienar memórias preciosas.
Convém esclarecer que Blue Moon não é um musical — nem sequer é um filme em que haja qualquer momento coreográfico típico do género. Nada disso: este é um retrato de Hart numa única noite e praticamente num único cenário, o lendário restaurante Sardi’s em Manhattan, Nova Iorque.
Tudo acontece a 31 de março de 1943, quando Hart assiste à estreia do musical Oklahoma! (“com um ponto de exclamação”, como não se cansa de sublinhar), com música de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II. Agastado com o espectáculo, abandona o seu camarote e refugia-se no Sardi’s que, um pouco mais tarde, será palco de uma recepção à dupla de autores. A sua prostração resulta menos do musical e mais do facto de Rodgers — com quem escrevera 28 musicais e mais de 500 canções, incluindo Blue Moon, Manhattan e Little Girl Blue — ter posto fim à sua colaboração, optando por trabalhar com Hammerstein. Na verdade, a vida de Hart, marcada pela solidão e o alcoolismo, estava já no capítulo final. Viria a falecer cerca de oito meses mais tarde, a 22 de novembro — a informação da sua morte constitui mesmo o prólogo do filme de Linklater.
Dito isto, não será fácil adivinhar o misto de alegria, sarcasmo e infinito amor pelo trabalho artístico que contamina todo o filme de Linklater. Claro que a composição de Hart por Ethan Hawke, num registo tão exuberante quanto carregado de subtis emoções, não será estranha à excelência dos resultados — foi, aliás, nomeado para o Oscar de melhor actor (é a sua quinta nomeação, sem esquecer que duas delas, em 2005 e 2014, foram na categoria de argumento adaptado em dois filmes também de Linklater, Antes do Anoitecer e Antes da Meia-Noite). Seja como for, importa não secundarizar o prodigioso argumento original assinado por Robert Kaplow (também nomeado na respectiva categoria), transformando o Sardi’s num palco de muitos contrastes em que Hart vai enunciado, ora em tom dramático, ora através de um humor contagiante, o seu fundamental princípio artístico e, mais do que isso, existencial. A saber: nunca desistir da beleza.
O que é, então, a beleza? A expressão mais visível é a personagem (fictícia) de Elizabeth Weiland, interpretada pela sempre impecável Margaret Qualley. Tal como confessa ao “barman” Eddie (Bobby Canavale), Hart tem por ela uma paixão intensa que, em qualquer caso, transcende a sexualidade — Hart confessa-se também como homossexual. Para ele, na relação com cada ser humano, tal como em cada verso das suas canções, a beleza é essa vibração sem nome que nos liberta das rotinas do quotidiano, da desumanização social e também da hipocrisia das relações humanas.
Welles, Godard & etc.
Como se prova, Linklater é um autor apostado em devolver o cinema à cinefilia, quer dizer, à consciência militante de que os filmes são (ou podem ser) uma arte que não abdica da celebração da beleza das histórias que se contam — e também daqueles que as vivem.
Afinal, com Me and Orson Welles (2008), ele já tinha trabalhado a partir de um romance do seu argumentista, Kaplow, evocando o trabalho de Welles no Mercury Theatre, em 1937 (quatro anos antes de realizar O Mundo a Seus Pés); entretanto, o ano passado, Linklater ofereceu-nos Nouvelle Vague, belíssima evocação da rodagem da primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard, em 1959. Como Hart escreveu em Blue Moon, a lua pode “transformar-se em ouro” — não receemos a beleza da metáfora.
Days We Left Behind, assim se chama a canção que serve de cartão de visita do novo álbum de Paul McCartney, nº 19 da sua discografia em nome próprio. Tem como título The Boys of Dungeon Lane, uma expressão deste primeiro tema, e estará disponível a partir de 29 de maio. Serão memórias de tempos remotos, em grande parte centradas na amizade entre McCartney e John Lennon — o passado refaz-se na emoção do presente.
Os 18 Nocturnos compostos pelo irlandês John Field (1782-1837) foram uma das grandes (re)descobertas de 2025, através do álbum que lhes dedicou essa pianista admirável que é Alice Sara Ott. Eis o Nº1, numa curiosa encenação que reflecte o modo como a Deutsche Grammophon tem apostado na "reconversão" visual de alguns dos seus artistas, aproximando a música dita erudita de algumas iconografias do mundo pop — sem preconceitos, voilà!
Incluída no álbum Clouds (1969), o segundo da discografia de Joni Mitchell, a canção Both Sides Now é um desafio para qualquer intérprete. Aí está a islandesa Laufey a mostrar que é possível revisitá-la sem atitudes banalmente copistas, sabendo preservar o seu espírito poético e também o seu delicado simbolismo — aconteceu no Piano Room da BBC2, com a BBC Concert Orchestra.
No espaço restrito do Studio UGO, eis uma performance de The Kills. Foi há 20 anos — a canção The Good Ones pertencia ao alinhamento de No Wow, o segundo álbum de Alison Mosshart e Jamie Hince lançado em 2005. Comoventes solidões.
As gravações "perdidas" de Bob Dylan são um galáxia sem fim... Assim é o volume 18 da série, a comprovar de forma exuberante a riqueza do património do compositor de The Times They Are A-Changin'. Como diz o título — Bootleg Series Volume 18: Through The Open Window, 1956-1963 —, esta é uma edição que nos faz revisitar os anos de transição, 1950/60, quando Dylan inventariava referências da tradição folk, ao mesmo tempo que definia as componentes específicas de uma identidade criativa que nunca se encerrou na solução preguiçosa da imitação mais ou menos nostálgica.
Com edições em vários formatos, a mais abrangente tem 8 CD com um total de 139 faixas, incluindo 48 gravações inéditas, sendo acompanhada por um livro com notas de Sean Wilentz e cerca de uma centena de raridades fotográficas.
Eis um tema tradicional, Man of Constant Sorrow, no registo de um ensaio de 1961, em Nova Iorque — seria integrado no alinhamento de Bob Dylan, primeiro álbum de estúdio lançado há 64 anos, mais precisamente a 19 de março de 1962.
"Norah Jones Is Playing Along" — assim se chama um podcast que Norah Jones iniciou em 2022. Com uma regra central: receber outros artistas que, com ela, interpretam, de modo mais ou menos improvisado, algumas canções. Com o cantor e compositor Joshua Homme recriou Somethin' Stupid, tema que, em 1967, foi um imenso sucesso de Frank e Nancy Sinatra — eis uma performance de serena harmonia.
Composta por Jule Styne (música) e Sammy Cahn (letra), I Fall In Love Too Easily é uma jóia do cancioneiro musical de Hollywood — a canção foi interpretada pela primeira vez por Frank Sinatra no filme Anchors Aweigh/ Paixão de Marinheiro (1945), de George Sidney, sendo conhecida através de múltiplas versões, incluindo as de Chet Baker, Ray Conniff, Shirley Horn, Tony Bennett e Anita O'Day. Eis o original e a sua recriação por Miles Davis e Keith Jarrett.
>>> Frank Sinatra (com Gene Kelly) em Anchors Aweigh (1945).
>>> Miles Davis — Copenhaga, 1969.
>>> Keith Jarrett, com Gary Peacock (baixo) e Jack DeJohnette (bateria) — Festival de Lugano, 1986.
Até que ponto o free jazz é, ou pode ser, free? Podemos responder evocando Ascension, álbum fulcral de John Coltrane em que, abraçando as liberdades da improvisação, o saxofonista de Blue Train (1958) e A Love Supreme (1965) reforçava a lógica de uma etapa criativa para lá da formação clássica do quarteto — entre
os convidados estão Freddie Hubbard (trompete), Pharoah Sanders (saxofone tenor)
e McCoy Tyner (piano).
O álbum teve duas "versões" — 'Edition I' (aqui em baixo) e 'Edition II' — que existem numa edição conjunta, datada de 2000, com chancela da Impulse!. As gravações ocorreram a 28 de junho de 1965, tendo Ascension sido lançado em fevereiro de 1966 — 60 anos depois, o tempo imobilizou-se na vertigem do seu próprio futuro.