Intimismo? Acústico? Convenhamos que, por vezes, a junção deste substantivo e deste adjectivo apenas serve para rotular empreendimentos do mais absurdo convencionalismo. Registemos, para já, a diferença: no caso de Elanor Moss estamos perante um talento genuíno, fascinante.
As suas canções, tão cruas quanto encantadas (encantatórias será a palavra exacta), acontecem como discretas aventuras emocionais que parecem ter sido recuperadas e, mais do que isso, reorganizadas por uma mente racional habitada por uma infinita compaixão — Fixer é o tema de abertura do seu álbum de estreia, The Knife, The Needle, além do mais encenado num teledisco de plano-sequência, com enquadramento fixo... mas em movimento...
Nicole Kidman trabalhou com Troye Sivan no filme Boy Erased (2018), entre nós lançado com o subtítulo O Rapaz que Sou, uma proeza do actor Joel Edgerton que, além de integrar o elenco, assumia com notável precisão a realização de uma história baseada em factos verídicos: um casal (interpretado por Kidman e Russell Crowe) enviava o filho (Lucas Hedges) para uma "terapia de conversão" concebida por uma igreja apostada em "corrigir" a homossexualidade dos mais jovens...
Agora, para o belíssimo teledisco de She's the Best, Troye convidou Nicole — é a primeira canção do álbum homónimo, a ser lançado em outubro.
Se é verdade que filho de peixe(s) sabe nadar, então será forçoso começar por referir que o jovem Blake Watt (25 anos) é filho de Tracey Thorn e Ben Watt, o par que conhecemos, musicalmente, como Everything but the Girl. Sem menosprezar o efeito retro de tal filiação, descobrimo-lo agora com um álbum de estreia que, com evidente aplicação e contida sofisticação, não receia enfrentar a herança nostálgica de uma pop de suave romantismo. Chama-se Family Stereo e o tema-título tem este teledisco, muito british, em que o cantor contracena com Ingo Dierkschnieder, sob a direção de Sebastiano O’Grady.
Fiel ao espírito trip hop (eis um género a que faz sentido atribuir um espírito...), Tricky, o rapper nascido em Bristol, em 1968, prossegue a sua deambulação musical com Different When It's Silent. Marcado por uma envolvente poesia dramática, em que os sons mais agrestes não excluem, antes parecem atrair, uma contemplação austera, este é também um novo capítulo da sua colaboração com a cantora polaca Marta Zlakowska — lembremos o álbum Ununiform (2017). Com um teledisco de enigmáticas sobreposições dos rostos de Tricky e Zlakowska, Out of Place pode servir de símbolo exemplar desta nova aventura seduzida pelo silêncio.
Depois de In the Stars, Jealous Lover, mais uma canção de Foreign Tongues, o novo álbum dos Rolling Stones, também já tem teledisco. Com assinatura da dupla Chris Barrett & Luke Taylor, nele encontramos Anya Taylor-Joy e Charles Melton enrolados (o verbo deve ser tomado à letra) numa sofisticada coreografia capaz de desmontar o absurdo do ciúme. Importa, por isso, registar também os nomes dos bailarinos: Freeda Elektra, Hanna Peddicord, Lucy Valley e Mia Seleno — it's only rock'n'roll.
O novo teledisco dos Rolling Stones foi feito por Inteligência Artificial? Digamos antes que é artificial e inteligente — eate texto foi publicado no Diário de Notícias (19 junho).
Se conseguirmos manter alguma lucidez no meio da histeria informativa que nos rodeia, todos os dias sustentada pelo pior que as televisões vão fabricando, convenhamos que não é fácil termos alguma noção consistente sobre o que é (ou pode ser) a utilização desse novo prodígio, fascinante e monstruoso, que é a Inteligência Artificial (IA). Não que possamos, de forma lúcida, precisamente, ignorar os perigos assustadores do seu desenvolvimento. Em qualquer caso, há uma diferença entre informar sobre tais perigos e utilizar a IA como sinónimo de um apocalipse anunciado.
Não quero, com este desabafo, atrair generalizações apocalípticas nem redentoras. Já basta o que basta. Foco-me apenas num acontecimento muito particular: o novo teledisco da canção In the Stars, tema do 25º álbum de estúdio dos Rolling Stones, Foreign Tongues, com lançamento marcado para 10 de julho. E dou-me conta da facilidade com que a sua descrição automática — “um teledisco fabricado pela IA” — tende a circular como uma espécie de rótulo compulsivo.
Enfim, é verdade que vemos Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood a interpretar In the Stars, sendo também verdade o seu contrário: aquilo que vemos não foi filmado com os elementos dos Rolling Stones. Aliás, mesmo descobrindo o teledisco no mais completo desconhecimento sobre a sua produção, rapidamente desembocamos num insólito beco sem saída: quem é este Mick Jagger, com ar e pose da década de 1980... numa canção composta em 2025 ou 2026?
Deparamos, assim, com um curioso bloqueio de linguagem. Dizemos que o teledisco “foi filmado”, mas a própria expressão deixou de ser adequada para lidarmos com objectos como este. Em termos esquemáticos, passámos a viver num universo de imagens em que aquilo que vemos não resulta necessariamente da presença de uma câmara frente a uma determinada acção física e humana.
Que aconteceu, então? Pois bem, o director do teledisco, o francês François Rousselet, começou com uma outra banda, os londrinos Hot Property, filmando-os a interpretar a canção dos Stones. “Emprestaram” os seus corpos à energia de In the Stars — aplicando a gíria tecnológica, foram “stand-ins”. Depois, os rostos jovens de Jagger, Richards e Wood foram “aplicados” nas imagens dos Hot Property — esse trabalho foi executado pela Deep Voodoo, empresa fundada em 2020 por Matt Stone e Trey Parker, criadores da série de animação South Park.
Em termos práticos, não necessariamente técnicos, o processo não será muito diferente daquele que James Cameron utilizou na concepção original, e respectivas derivações, do seu Avatar (2009). Os resultados podem também fazer lembrar as técnicas de “rejuvenecimento” (“de-aging”) que Martin Scorsese usou em O Irlandês, para figurar Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci algumas décadas antes da acção principal do filme; em todo o caso, com uma diferença importante: os intérpretes das personagens foram sempre os próprios actores.
Bem sabemos que há vozes muito respeitáveis (Tom Hanks, Scarlett Johansson, Cate Blanchett, etc.) que em diversos contextos têm denunciado a eventual manipulação industrial de imagens de actores e actrizes através da IA como uma ofensa ao respectivo trabalho e, em rigor, um crime contra a criação artística. Acontece que no exemplo de In the Stars são os próprios artistas a “assinar” a irónica transfiguração das suas imagens — um pouco à maneira de René Magritte quando, há quase um século (1929), pintou um cachimbo com a legenda “Isto não é um cachimbo”.
Ao longo destes anos 20, Madonna surgiu associada a vários registos audiovisuais, sempre como "convidada" de outros artistas (de Dua Lipa a Weeknd). O certo é que o último verdadeiro teledisco com a sua assinatura, Batuka, realizado por Emmanuel Adjei, data de 2019.
Agora, o seu 15º álbum de estúdio — Confessions II (ou Confessions on a Dance Floor: Part II, remetendo para o primeiro Confessions, de 2005), com lançamento marcado para 3 de julho — parece envolver um afirmativo regresso ao universo tão particular dos videoclips.
Assim, no dia 5 de junho, no Beacon Theatre (Nova Iorque), no âmbito do Festival de Tribeca, Madonna lançou Confessions II - The Film. Trata-se, de facto, de um filme com a duração de 14 minutos, assinado por TORSO (a dupla David Toro/Solomon Chase), ou seja, uma colagem de fragmentos de seis (dos dezasseis) temas do novo álbum.
Teledisco(s) ou cinema? Talvez um inusitado cruzamento de formas e conceitos — já está no YouTube.
Aí está o teledisco de Elizabeth Taylor, porventura a canção mais emblemática do álbum The Life of a Showgirl, de Taylor Swift. É uma genuína coleção de memórias — momentos emblemáticos da filmografia de Elizabeth Taylor —, reforçando o laço simbólico que liga a solidão de uma estrela como Taylort Swift ao tempo e ao imaginário de um universo edificado sobre o conceito irradiante de star.
>>> Eis os filmes citados no teledisco de Elizabeth Taylor.
>>> A imagem final do teledisco servia de abertura ao trailer original de Bruscamente no Verão Passado (1960).
Mais uma das canções de Charli XCX para a banda sonora de O Monte dos Vendavais, de Emerald Fennell, a mesma ambiência de um "sinfonismo" pop tecido de nostalgia e experimentação — eis o teledisco de Always Everywhere, dirigido por Mitch Ryan.
O anúncio de um novo perfume Dolce & Gabbana, protagonizado por Madonna, com realização da dupla Mert Alas, é um breve e sofisticado exercício iconográfico que, certamente não por acaso, remete para memórias da obra videográfica da Material Girl — reveja-se, por exemplo, o teledisco de Take a Bow (1994). E também não será indiferente o facto de a banda sonora ser feita com a canção italiana La Bambola, um sucesso mítico de 1968, recriada por Madonna.
Ella Harris (voz, teclas, percussão), Josh Baxter (voz, teclas) e Louis Satchell (bateria) formam os PVA, fundados em Londres, em 2017, tendo-se estreado nos álbuns com Blush (2022). Vogam num labirinto de punk mais ou menos dançável, sempre abençoado pelos espíritos do trip hop, com electrónicas q.b. — talvez se reconheçam mesmo numa herança em que a elegância dos Massive Attack se cruza com a crueza dos sons de Tricky...
Surge agora o seu segundo álbum, No More Like This, em que contam com a colaboração de Ruby Kyriaki (violino). Estamos perante uma proeza tanto mais assinalável quanto as derivações experimentais não põem a em causa a consistência poética de canções assombradas por uma rudeza existencial que a fisicalidade da capa espelha de forma muito directa — a espantosa fotografia é da autoria de Jak Payne.
Eis duas vias possíveis para uma bela descoberta: o teledisco de Enough e uma performance de Send.
As acções brutais das forças do ICE (Immigration and Customs Enforcement) na cidade de Minneapolis, com o saldo trágico de duas vítimas mortais, Alex Pretti e Renee Good, levaram Bruce Springsteen a escrever Streets of Philadelphia.
Fazendo recordar a energia de outros momentos emblemáticos da obra de Springsteen — de The River (1980) a The Rising (2002) —, momentos em que a consciência social se exprime através de um discurso visceralmente político, eis a canção na chamada radio mix; o teledisco (ou lyric video, se preferirem) tem assinatura de Thom Zimny.
Na história das imagens e dos sons dos Pink Floyd, o filme Pink Floyd: Live at Pompeii (1972) ocupa um lugar central. Filmados por uma equipa dirigida por Adrian Maben, aí descobrimos o quarteto que estava a trabalhar em The Dark Side of the Moon (1973) — Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason — numa extraordinária performance realizada num anfiteatro romano das ruínas de Pompeia... sem espectadores.
Restaurado em 4K, o filme/concerto vai ser reeditado em Blu-ray, com lançamento marcado para 27 de fevereiro. Em paralelo, a banda pôs a circular um outro restauro: o teledisco (se é que na altura a palavra se aplicava...) de Wish You Were Here, tema-título do álbum que surgiria em 1975 — impecável.
Na companhia de um elenco de vedetas, incluindo Graham Norton, Cillian Murphy e Domhnall Gleeson, Taylor Swift protagoniza e realiza o teledisco de Opalite, o segundo de temas do seu álbum The Life of a Showgirl. Recuperando sinais da iconografia da década de 1990 (a começar pelo anúncio televisivo de uma poção mágica...), eis uma celebração festiva de uma cultura pop em que a tradição persiste como matéria ambígua, porque sujeita a permanentes transfigurações formais e simbólicas — com permanente sentido de auto-ironia.
Eis um laço artístico e simbólico que importava redescobrir e, mais do que isso, dar a ouvir: na sua depurada beleza, os 18 Nocturnos compostos pelo irlandês John Field (1782-1837) foram uma inspiração e, por assim dizer, uma premonição essencial para os 21 Nocturnos de Frédéric Chopin (1810-1849). Revisitadas por Alice Sara Ott, por certo uma das mais sofsticadas pianistas da actualidade (entenda-se: de uma sofisticação de absoluta sobriedade), as 18 peças conseguem a proeza de nos colocar num tempo de fascinantes ambivalência artísticas, até porque a Deutsche Grammophon encenou algumas delas em telediscos de inequívoco gosto pop — eis o Nº 14.
Bedtime Story (singular) é, seguramente, a canção de Madonna sustentada pela produção tecnicamente mais sofisticada da sua coleção de telediscos. É também o emblema do álbum Bedtime Stories (plural), agora relançado em edição Deluxe — subtítulo The Untold Chapter, com o alinhamento original + uma série de remixes — para assinalar o seu 30º aniversário. Altura certa para revermos o dito teledisco, obra-prima assinada por Mark Romanek.
Utópico? Distópico? Com o tema Human, Brandi Carlile baralha (e volta e dar as regras) das nossas lendas graças a um sedutor teledisco apocalíptico, ma non troppo, assinado por Floria Sigismondi (autora, por exemplo, de Dead Man Walking, de David Bowie) — é uma das canções de Returning to Myself, oitavo álbum de estúdio da cantora norte-americana.
Actor de múltiplas transfigurações, vividas a partir de um pathos de pose austera e enigmática, o alemão Udo Kier faleceu no dia 23 de novembro, em Palm Springs — contava 81 anos. Como um puzzle em eterna reconversão, a sua filmografia resulta de encontros com os mais diversos autores, de Paul Morrissey (Carne para Frankenstein, 1973) até Kleber Mendonça Filho (Bacurau e O Agente Secreto, respectivamente de 2019 e 2025), passando por Lars von Trier (Dogville, 2003) — sem esquecer, claro, as várias colaborações com Rainer Wertner Fassbinder, incluindo A Terceira Geração (1978).
Qual fantasma acolhedor, contracenou com Madonna, sob a direcção de Bobby Woods, no teledisco de Deeper and Deeper (1992).
Cruzamento de culturas? Enfim, convenhamos que a expressão pode servir (e tem servido) para um pouco de tudo — das genuínas experiências de contaminação de formas, estéticas e narrativas, até à exploração demagógica de um "ecumenismo" que se vende bem em certos espaços televisivos e, claro, nos enredamentos "sociais" que nos querem impor.
Celebremos, por isso, a excepção da espanhola Rosalía, apostando na afirmação das suas raízes musicais, ao mesmo tempo que procura integrar inspirações e influências de outras paisagens, e também outras vozes. Assim, no seu quarto álbum de estúdio, Lux, na lista de convidados encontramos a portuguesa Carminho, a islandesa Björk e o músico experimental americano Yves Tumor — os dois últimos participam em Berghain, contando também com a companhia da London Symphony Orchestra, tema, além do mais, servido por um feérico teledisco assinado por Nicolás Méndez.
Dancing in the Street, tema emblemático de Martha and the Vandellas, em 1964, foi um dos símbolos do Live Aid, há 40 anos (13 julho 1985), na interpretração de uma dupla genial: David Bowie/Mick Jagger. A sua performance surgiu nos ecrãs dos estádios de Londres e Filadélfia que acolheram o concerto, num teledisco assinado por David Mallet. Agora num primoroso restauro em 4K, surgiu também numa versão "complementar", um pouco à maneira de um clássico making of — eis as duas versões.