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quarta-feira, agosto 06, 2014

Na solidão de Uri Caine

É o que se chama um álbum gravado num fôlego — ou onze fôlegos, já que é esse o número de faixas de Callithump (*), piano solo de Uri Caine. E é de solidão que se trata, sem dúvida, já que a performance nos transmite essa sensação, a um tempo intimista e distante, de alguém que, perante a exigência serena do teclado, se supera e, de algum modo, supera o próprio instrumento — exemplo: os cerca de seis minutos de The Magic of Her Nearness [apenas som].


Aliás, o sentimento de que há uma urgência, radical mas pudica, em tudo isso parece decorrer das próprias condições em que o álbum foi registado: uma única sessão na Power Station de Nova Iorque, actualmente Avatar Studios, directo ao essencial, sem segundas takes. Típico, sem dúvida, do misto de experimentalismo e classicismo que define Uri Caine — ou, como escreveu Will Layman, "uma gravação típica de Uri Caine é tudo menos típica". Em resumo, e se me é permitida uma pequena simplificação panfletária, este ano não ouvi nada de tão depurado e tão belo como Callithump.
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(*) A palavra callithump tem as suas origens no séc. XVIII, servindo para classificar distúrbios eleitorais; com o passar do tempo, passou a designar uma parada ou um desfile mais ou menos barulhento.

domingo, abril 14, 2013

Beethoven, séc. XXI

Uri Caine

* GULBENKIAN: Sexta, 12 Abr. 2013, 19:00 - Grande Auditório

J.L. - A temporada de música da Fundação Gulbenkian continua a proporcionar alguns maravilhosos e heterodoxos arranjos, desafiando matrizes mais convencionais, embora sem nunca perder a sua relação criativa com o vasto universo dos clássicos. Neste caso, a música de Andreia Pinto-Correia preencheu uma primeira parte que serviu de prólogo paradoxal à presença do pianista Uri Caine no palco do Grande Auditório.
De Andreia Pinto-Correia, escutámos Elegia a Al-Mu’tamid, Alfama e Xántara — a segunda peça, com Ana Maria Pinto (soprano), resultante de uma encomenda da Fromm Music Foundation/Harvard University, em estreia europeia. Há na sua música um misto de desencantado romantismo e metódica geometria que confere a cada uma das obras uma contagiante dimensão invocativa. Alfama, em particular, integra um traço de melancolia que, tal como a própria autora refere num texto do programa, não é possível dissociar de um pudico sentimento de perda. São momentos introspectivos capazes de apelar a uma partilha ritualizada, como numa cerimónia em que cada um pode encontrar a razão oculta do seu universalismo.
Beethoven (1820)
O mesmo se poderá dizer do fulgurante Uri Caine, naturalmente por caminhos bem diversos. A sua apropriação das Variações Diabelli, Opus 120, de Ludwig van Beethoven, não se limita a "transferir" a obra para orquestra de câmara e piano improvisado. Que é como quem diz: não se trata apenas de propor um novo "arranjo" (o que, convenhamos, face a uma das mais lendárias peças do património pianístico, já não seria pouco) — Caine visa a produção de uma linguagem alternativa (!) que se desloca para os espaços de improvisação do jazz, preservando e, num certo sentido, exacerbando a vocação lúdica do original.
Afinal de contas, este Beethoven para o século XXI ilustra a versátil pedagogia do pianista: de Mozart a Mahler, passando por Bach (Variações Goldberg), a trajectória de Caine faz-se de muitas e surpreendentes deslocações formais que, em todo o caso, preservam sempre o gosto pelo concerto como formato conciso de partilha e fruição. Neste caso, convém não esquecer, com o sempre notável rigor da Orquestra Gulbenkian, com impecável direcção de Joana Carneiro.

N.G.O regresso de Uri Caine ao Grande Auditório da Gulbenkian, depois de uma notável passagem na temporada passada, evocando então ecos dos últimos dias de Wagner em Veneza, traduziu-se numa daquelas raras noites que ficam na memória do que de melhor a música pode fazer: comunicar.
Joana Carneiro
Acompanhado por uma formação de câmara, magistralmente dirigida por Joana Carneiro, Uri Canie caminhou por entre as Diabelli Variations de Beethoven, procurando o seu caminho, dialogando com as notas e os tempos que ali se cruzavam, promovendo estimulantes pontes entre épocas, entre o compositor e a plateia que assim o (re)drescobria e, naturalmente, e como é já marca da sua identidade, entre a música orquestral do período clássico e outras formas do nosso tempo, sob um certo protagonismo dos espaços jazzísticos (mas sem nunca acreditar numa noção de barreira ou fronteira entre a música).

O evidente brio instrumental na execução não foi contudo o único ser maior de uma atuação em tudo irrepreensível. A noção de liberdade e o desejo de busca que Uri Caine lançou sobre as notas de Beethoven – que a orquestra e maestrina espantosamente souberam acompanhar – sublinha uma atitude de dessacralização que importa nunca apagar de um presente que sabe que inventa o futuro quando integra e escuta o que o passado lhe deu a conhecer. Tal como nos mostrou já com pontos de partida em obras de Wagner, Bach ou Mahler, Uri Caine procura o seu caminho e o seu lugar sabendo que tem uma matéria prima em mãos que pode assim transformar. E é deste ato de reflexão presente sobre o passado que, muitas vezes, a arte dá um passo em frente. Porque, tal como o mundo da ciência há muito reconheceu, a noção de “geração espontânea” é mais uma ideia abstrata que uma realidade do mundo físico. 

domingo, junho 10, 2012

As Quatro Estações no século XXI


Uri Caine e Theo Bleckman juntam um olhar do nosso tempo a uma leitura diferente d’As Quatro Estações de Vivaldi (em interpretação do ensemble Forma Antiqva). A edição é da Winter & Winter.

Há uns anos, a andar pelas ruas de Praga, reparava na quantidade espantosa de salas que ofereciam programas de música clássica para turista ver. Quase tantas quanto as lojas de cristais da Boémia... E se havia algo em comum entre quase todas era a presença d’As Quatro Estações de Vivaldi nos programas que flyers e cartazes espalhavam pelos pontos turisticamente mais estratégicos da cidade. Há, de facto, obras que o tempo fez coisa de todos e para as quais certamente já se perdeu a contabilidade do número de vezes que conheceram gravação para edição em disco. E tal como entre as ruas de Praga, nos escaparates de uma loja de discos não faltam gravações disponíveis, a cada nova proposta que entra em cena cabendo o desafio de ser particularmente inovadora ou dotada de uma personalidade que a distinga das demais, sob pena de se diluir entre as tantas outras que já existem. É o que acontece com esta nova gravação que a editora Winter & Winter colocou em cena este ano. Juntando a música do compositor barroco italiano a contribuições do nosso tempo que vincam uma outra forma de olhar para Vivaldi.

O ponto de partida é o clássico conjunto de concertos que Vivaldi compôs em 1723 expressando uma ideia de programa narrativo e sugestivo a acompanhar cada um dos andamentos que caracterizam as quatro estações do ano. Os concertos foram desde logo acompanhados por quatro sonetos que, atribuídos a Vivaldi (facto que não é unânime), aprofundam a caracterização dos retratos que a música sugere. Nesta visão junta-se a música e o texto. E como? Colocando a partitura de Vivaldi nas mãos do ensemble espanhol Forma Antiqva (com reconhecidas credenciais na música aquele tempo) e encontrando nas palavras dos sonetos um espaço de comunicação direta com formas musicais de hoje, entrando aí em cena a colaboração entre o cantor Theo Bleckman e o visionário Uri Caine, as “vozes” do piano e das electrónicas acolhendo como cenários palavras que chegam dos tempos da música que estes sonetos agora entrecruzam.

Uri Caine é um músico com reconhecido interesse por formas de abordagem contemporâneas a ideias, ecos e obras de outros tempos. Pianista e compositor com tanto interesse pelos espaços do jazz como pelos da música clássica, propõe abordagens que se distinguem da forma como Keith Jarett (outro importante pianista com obra essencialmente talhada nos espaços do jazz) abordou já peças de Bach ou Shostakovich pelo modo como não limita a sua abordagem à expressão de uma personalidade interpretativa de alma jazzística. Na verdade, Uri Caine interage, molda e transforma a música. E ao abordar umas Variações Goldberg de Bach ou a trabalhar a música de compositores como Wagner, Mahler, Mozart ou Schumann (como o fez já em vários discos que editou na Winter & Winter) procura o seu lugar num espaço que tem esta música que evoca não como destino mas sim um ponto de partida. Não interpreta, portanto. Reinventa. Assimila e projeta. Cria, tal e qual Scott Walker abordou Jaques Brel ou Brad Mehldau trabalhou os Radiohead. Ou seja, procurando-se a si mesmo a partir de uma matéria prima.

Nesta nova visão d’As Quatro Estações a abordagem de Caine e Bleckman é contudo distinta de outros trabalhos de diálogo com compositores de outros tempos. Os concertos de Vivaldi surgem numa clara e cuidada leitura “canónica” pelo grupo espanhol, a presença do nosso tempo nesta visão habitando apenas a forma de cenografar (de forma magnífica, sublinhe-se) os sonetos que surgem integrados em cada estação, as palavras de há 300 anos viajando assim no tempo, com elas trazendo depois a música que assim encontra um espaço diferente (e entusiasmante) de expressão no presente.