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sábado, janeiro 17, 2026

MTV (1981 - 2025)

A MTV nasceu do gosto pela música, mas a sua agonia aconteceu através dos horrores da Reality TV — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 dezembro).

A notícia aí está, obrigando-nos a alguma revisão de memórias. Ou seja: a MTV, propriedade da Paramount Global, vai acabar — as respectivas emissões iniciaram-se a 1 de agosto de 1981, estando o seu encerramento agendado para 31 de dezembro de 2025.
Mais exactamente: os canais MTV Music, MTV 80s, MTV 90s, Club MTV e MTV Live vão encerrar (ou vão ser “descontinuados”, para usar a linguagem tecnocrática) por questões decorrentes da “reestruturação interna” do grupo Paramount, na sequência da sua fusão com a Skydance Media. Quer isto dizer que a MTV — Music Television, de acordo com o significado original da sua sigla —, embora vá manter diversas formas de presença digital e também a organização de espectáculos como os MTV Video Music Awards, vai renegar o seu modelo original. A saber: o acompanhamento regular da actualidade musical em que os telediscos eram, de facto, a matéria principal.
A explicação corporativa para semelhante abalo conceptual não deixa de evocar alguns dados que estão longe de ser secundários. Assim, do YouTube ao TikTok, as formas de acompanhamento da música mudaram radicalmente, a ponto de muitos artistas já não estabelecerem uma relação com o mundo das imagens idêntica à que, nas décadas de 1980/90, transformou Madonna, Michael Jackson ou David Bowie em arautos de toda uma iconografia em que a música não era apenas matéria de “ilustração” visual, antes ponto de partida para uma verdadeira revolução audiovisual.
Tudo isso envolve algumas verdades incontornáveis, sem dúvida. Mas será que a decomposição estrutural dos valores que fundaram a MTV se pode explicar apenas por aquilo que os “outros” fazem ou fizeram? Acontece que a desvalorização dos telediscos não é um dado recente. Foi sendo consumada a par de uma promoção dos valores mais ou menos obscenos da Reality TV — em boa verdade, a MTV foi-se transformando num apêndice “musical” da estética desumana do Big Brother televisivo.
No início da década de 1990, um programa pioneiro como The Real World, acompanhando um grupo de jovens a viver numa mesma residência, começou por resultar do curioso cruzamento dos sinais de um mundo de novas relações (sociais, profissionais, sexuais, etc.) com a herança do melhor documentarismo cinematográfico. O certo é que, a pouco e pouco, a grosseria foi dispensando a inteligência. Que dizer, por exemplo, de Parental Control (2006-2010), programa em que pais e mães eram “convocados” para, perante as câmaras, avaliar, ou mesmo condicionar, as escolhas dos namorados ou namoradas da sua prole?
Dos “apanhados” mais agressivos contra a dignidade humana até à exploração do “humor” de videos com quedas aparatosas dos seus tristes protagonistas, a MTV foi-se transformando numa montra de vulgaridades contrárias a qualquer gosto pela música e pela sua multifacetada criatividade. Sintoma cruel de tudo isso foi (continua a ser) a promoção de jovens apresentadores cuja “relação” com o público se desenvolve a partir de uma indiferença militante, supostamente divertida, face à complexidade do mundo à nossa volta — no limite, proferir disparates atrás de disparates passou a ser incensado como o ideal comunicativo da “juventude”.
O primeiro teledisco transmitido pela MTV — Video Killed the Radio Star, da banda inglesa The Buggles — sinalizou uma profunda transformação cultural na passagem dos sons da rádio para as imagens da televisão. A partir de certa altura, a MTV foi consolidando a sua própria agonia através de uma postura em que o gosto, a alegria e o trabalho da criação artística iam sendo anulados pelo triunfo de uma visão dos actos humanos como “coisas” fúteis, descartáveis e irrisórias. O seu fim resume e consagra as tragédias culturais do ano de 2025.

>>> Video Killed the Radio Star (1979), realização de Russell Mulcahy.
 

segunda-feira, agosto 04, 2025

Justin Bieber, Opus 7

31 anos, completados no passado dia 1 de março — Justin Bieber vive assombrado pela maturidade que, supostamente, não o abençoou no tempo certo. Porquê? Simplificando, digamos: por causa das atribulações mediáticas da sua adolescência e juventude. Ou de uma juventude configurada como eterna adolescência.
Talvez tenha sido assim. Talvez. Afinal, quem não vive os sobressaltos de todas essas atribulações (ainda que sem os ecos públicos que, no nosso miserável tempo "social" e "em rede" tendem a banalizá-las)?
Vale a pena descer à terra. Entenda-se: prestar alguma atenção à música. Assim, se ficarmos pela linha musical da sua trajectória, talvez possamos reconhecer que Swag, sétimo álbum de estúdio do jovem adulto Bieber, é acima de tudo a afirmação de um depuração formal que parece ter encontrado a encruzilhada exacta da sua vocação criativa. A saber: uma pop sofisticada a tender cada vez mais para os domínios do R&B — soul, eis a questão, porque é a alma que está em jogo.
Com uma fortísima dimensão confessional? Sim, sem dúvida, as memórias e os seus fantasmas vêm sempre para ficar. A prova: All I Can Take — com vocalização e arranjos a citar Michael Jackson, pourquoi pas?

And it's all I can take
(...)

These symptons of my sensitivity
Feels personal when no one's listening
There's things that I can't change, lord knows I've tried
Oh, baby, we can leave it all tonight

Ooh, baby don't it feel good baby don't it feel nice
Ooh, baby, don't it feel good you don't have to think twice (lean back and rock away)

And it's all I can take (in this moment)
And it's all I can take (keep it goin')
And it's all I can take (in this moment)
And it's all I can take (and rock away)

Good time tonight, keep it rolling
Baby let's enjoy moment
So we going 'til 4 in the morning
I got a gift a know it, I'll cherish it and hold it
There's a reason, there's a reason for all this

Ooh, baby don't it feel good baby don't it feel nice
Weight up on my shoulders and my hands up high
Oh (lean back and rock away)

And it's all I can take (in this moment)
(...)


>>> "Your soul is black" — Diálogo com Druski (Soulful, faixa 9 de Swag).

sexta-feira, março 01, 2024

We Are the World
— memórias épicas de uma canção

Lançada em 1985 para angariar fundos para combater a fome em África, a canção We Are the World foi um verdadeiro fenómeno global. Agora, na Netflix, A Grande Noite da Pop faz o retrato fascinante da sua concepção e gravação.

Imaginemos um filme cujo elenco possa incluir, entre outros, os nomes de Ray Charles, Bob Dylan, Michael Jackson, Cindy Lauper, Lionel Richie, Diana Ross, Paul Simon, Bruce Springsteen, Tina Turner, Stevie Wonder… Em boa verdade, esse filme existe desde 1985 — trata-se do teledisco de We Are the World, canção criada para angariar fundos para combater a fome em África. Agora, através de um notável documentário intitulado A Grande Noite da Pop, disponível na Netflix (título original: The Greatest Night in Pop), podemos descobrir aquilo que apetece chamar a “versão longa” do teledisco.
A Grande Noite da Pop faz uma revisitação de We Are the World em parte semelhante à proposta que encontramos na série The Beatles - Get Back (Disney+), de Peter Jackson. Tal como Jackson trabalhou a partir dos registos inéditos das gravações do álbum final dos Beatles (Let it Be), também Bao Nguyen, realizador americano de ascendência vietnamita, pôde aceder a uma espantosa colecção de imagens registadas durante a gravação da canção.


Reconhecemos, claro, as imagens do teledisco, mas as novidades são fascinantes. Há também diversos depoimentos filmados agora, surgindo Lionel Richie como principal narrador: é ele que começa por recordar a origem da canção, primeiro com o impulso decisivo de Harry Belafonte, depois através do envolvimento de Bob Geldof que, no Reino Unido, no Natal de 1984, tinha organizado um projecto humanitário semelhante, dando origem à canção Do They Know It’s Christmas? Seja como for, o essencial são as largas dezenas de minutos (mais de metade do documentário que dura 01h 36m) em que assistimos ao labor de cerca de quatro dezenas de cantores — incluindo o coro que, além de Geldof, integra, por exemplo, Sheila E., Bette Midler e Smokey Robinson — durante uma noite realmente épica.
O título A Grande Noite da Pop é para ser tomado à letra. A partir do momento em que Lionel Richie e Michael Jackson começaram a compor a canção, tendo garantido que a produção estaria a cargo de Quincy Jones (personagem decisiva em toda esta aventura), tratava-se de saber como organizar a logística de uma gravação que, além de outros convidados, iria integrar vários dos participantes nos American Music Awards, a realizar, também em Los Angeles, na mesma noite do dia 28 de janeiro de 1985… e com apresentação de Lionel Richie.
Deparamos com toda uma colecção de pormenores inesperados ou desconcertantes — desde o mal estar inicial de Bob Dylan perante a altura das notas que Quincy Jones estava a pedir, até ao comportamento errático de Al Jarreau, consumindo mais do que o aconselhável das garrafas que começaram a aparecer no estúdio, passando pelos ruídos na gravação da voz de Cindy Lauper… por causa dos exuberantes colares que usava nessa noite. Em qualquer caso, A Grande Noite da Pop não se esgota numa acumulação de elementos mais ou menos pitorescos, impondo-se como um testemunho exemplar de um trabalho colectivo que, escusado será sublinhá-lo, resistiu ao tempo, às modas e às próprias transformações do audiovisual nas décadas que se seguiram.

terça-feira, julho 24, 2018

* Prince + Michael Jackson
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

Entre a realidade e a mitologia, Prince e Michael Jackson são dois nomes fundamentais da música popular; ambos completariam 60 anos em 2018 — numa das nossas habituais sessões na FNAC, propomos uma viagem/celebração através de memórias feitas de imagens e sons.

* FNAC (Chiado) — hoje, 24 Julho, 18h30

quinta-feira, agosto 14, 2014

Para ver: novo teledisco de Michael Jackson

Os primeiros sons desta canção surgiram pouco depois da morte do cantor, a sua versão "definitiva" tendo sido incluída no alinhamento de Xcape, álbum póstumo lançado no mês de maio deste ano. Agora é a vez de chegar não apenas ao formato de single, mas também ao teledisco (afinal um dos espaços onde o cantor investiu claramente desde a alvorada dos anos 80). Com A Horse With No Name dos America como ponto de partida, este é A Place With No Name. O teledisco, estreado ontem, foi realizado por Samuel Bayer (que antes trabalhara já com os Nirvana, Strokes ou Green Day) e inclui imagens captadas na rodagem de In The Closet.

Podem ver aqui o teledisco.

terça-feira, maio 20, 2014

Michael Jackson em holograma

Que dizer do holograma de Michael Jackson, "interpretando" a canção Slave to the Rhythm nos prémios da revista Billboard? A pergunta talvez se possa formular de modo mais conciso. A saber: quando nos apresentam Michael Jackson em holograma, o que é que vemos, o que é que ainda estamos a ver?


Nada a ver, entenda-se, com a estupidez desses "debates" cíclicos que agitam a superfície mais superficial do jornalismo "social", sempre que alguém descobre que uma foto foi manipulada... Será que ignoram em absoluto que, desde as técnicas mais primitivas da revelação química até às mais modernas intervenções digitais, a fotografia sempre foi uma área de manipulação?
Enfim, evitemos agravar o simplismo com mais simplismo — claro que a manipulação dos olhos de uma estrela na capa de uma qualquer revista de "celebridades" não é exactamente o mesmo que a supressão, nas imagens oficiais do estalinismo, das figuras caídas em desgraça (e que, em vários casos, Estaline já se tinha encarregado de fazer desaparecer de forma consideravelmente mais extremada).
Não é isso que está em causa. O que está em causa é a preservação (?) de uma figura do espectáculo, não através das imagens que dele existem, mas gerando novas imagens que são reinvestidas, de forma totalizante, em dispositivos específicos desse mesmo espectáculo.
Aquilo a que, aqui, assistimos é ao triunfo pleno do simulacro (como não evocar Baudrillard?), já não como artifício interior ao espectáculo, mas como matéria única, tendencialmente unívoca, do próprio espectáculo. Na prática, o que se desvaloriza é, por certo, a riqueza e complexidade da herança (visual & musical) que Jackson nos legou — mas é também a singularidade do nosso olhar, já que algo nos quer levar a acreditar que olhar para o vazio não atrai o vazio do olhar.

sábado, março 15, 2014

Ver + ouvir:
Rockwell, Somebody's Watching Me (1984)



Recordamos hoje uma canção que há precisamente 30 anos se fazia escutar pelas estações de rádio de todo o mundo. Com uma colaboração de Michael Jackson, este tema foi mesmo um dos mais ouvidos do ano. E fez de Rockwell um dos 'one hit wonders' da temporada...

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Michael Jackson, aliás, Michael Jackson

É bem verdade que Michael Jackson (1958-2009) ocupa um lugar central na história moderna da cultura afro-americana e, através disso, na história do imaginário pop. Algo esquecido, ou incompreendido, na sua herança é o facto de ele ter cantado, não exactamente a diferença da cor da pele, mas a sua indiferença. Aliás, na bem chamada canção Black or White (e não "Black and White"), Jackson proclama sem equívocos a necessidade de superar a visão do mundo através da mera inventariação das "raças":

See, it's not about races, just places, faces
Where your blood comes from is where your space is
I've seen the bright get duller
I'm not going to spend my life being a color
_____

Lorena Turner, fotógrafa e professora de Nova Iorque, interessou-se pelo facto de a condição de imitador de Michael Jackson ser, nos EUA, não apenas uma forma de culto, mas um espaço profissional com muitos e dedicados representantes. As suas imagens estão coligidas num livro actualmente em pré-venda, a ser editado em Maio, com o título linear e eloquente The Michael Jacksons — são fotografias de 35 imitadores profissionais de Michael Jackson que, no limite, definem uma sub-cultura em espectacular desenvolvimento. Como se o voto de Jackson tivesse abençoado aqueles que, com qualquer cor de pele, reproduzem e reinventam a sua arte de muitas contaminações estéticas — são também gestos de um luto pudico, de paradoxal alegria.

sábado, dezembro 07, 2013

Michael Jackson no espelho

Man in the Mirror é uma das obras-primas de Michael Jackson, para mais atravessada pelo tema fulcral da duplicidade da imagem e do ser, formulando a hipótese de uma transformação radical: I'm starting with the man in the mirror / I'm asking him to change his ways... Escrita por Glen Ballard e Siedah Garrett, com produção de Quincy Jones e do próprio Jackson, a canção foi lançada em single há quase um quarto de século (9 Jan. 1988), pertencendo ao álbum Bad (1987). O respectivo teledisco é uma das mais elaboradas metáforas ecuménicas e pacifistas de Jackson. Vale a pena revê-lo.


Pois bem, agora começou a circular na Net um registo autónomo da voz de Jackson em Man in the Mirror (ex.: Consequence of Sound). Dir-se-ia que a ambivalência emocional do tema se multiplica num exercício vampiresco em que o cantor parece entregar-se a um jogo perverso de auto-devoração do seu som. A montagem das imagens é banalmente "ilustrativa", mas este grau zero de Man in the Mirror, de tão depurado e intenso, merecia, no mínimo, um novo single.

sábado, dezembro 01, 2012

'Thriller': 30 anos depois

Passaram esta semana 30 anos sobre a edição de Thriller, o álbum de Michael jackson editado a 30 de novembro de 1982 e que mudaria o cenário da música pop e o estatuto do cantor. Este texto é uma versão editada de um outro publicado ontem na edição online do DN.

Há muitos anos que Michel Jackson era uma voz sobejamente (re)conhecia. Não só pelo trabalho nos Jackson 5 em inícios dos anos 70 como por uma carreira a solo também encetada nesses dias em que foi uma das grandes vozes de uma nova geração de figuras reveladas pela Motwon. Mas em 1979, sob a produção de Quincy Jones, o álbum Off The Wall, que assimilava ideias entre o disco sound e a pop para propor novas formas de encarar as heranças do rhythm’n’blues, lançava novas ideias. Ideias que ganhariam forma maior (e definitiva) em Thriller, disco que Michael Jackson editou a 30 de novembro de 1982. Faz esta semana 30 anos.

Reduzi-lo à ideia de “álbum mais vendido da história” é reparar apenas nos números feitos por um disco que, na verdade, foi muito longe tanto no plano artístico como no espaço social no qual agiu de forma marcante, contribuindo para um progressivo esbatimento entre lógicas de separação pela cor da pele que, hoje parecendo coisa meio troglodita, eram ainda bem visíveis em muitos lugares em inícios da década de 80 e mais ainda tanto nos espaços de decisão e poder da época. Ao “coroar-se” rei da pop (OK, é estatuto que o marketing dele inventaria anos depois, mas assenta-lhe tão bem quanto a icónica luva que então usava), Michael Jacskon mostrou que um negro podia ser mais que apenas uma referencia de popularidade. Podia ser um ícone. E se era preto ou branco, como ele mesmo cantaria anos depois, isso não importava. Ou começava a deixar de importar.

Thriller representou o aperfeiçoar de uma visão pop que resulta da confluência de uma série de referencias e raízes, não apenas nos espaços da chamada música negra, mas entre o panorama pop da época. Contém uma invulgar coleção de canções irrepreensíveis, de Billie Jean a Beat It, de Wanna Be Startin’ Something ao tema-título e um dos dois duetos que na altura Michael Jackson gravou com Paul McCartney. E, apesar das experiências feitas nos dias de Off The Wall, é aqui que a relação de Michael Jackson com o teledisco se aprofunda, daí resultando episódios inesquecíveis como o foram os que vimos ao som de Billie Jean (caminhando naquela rua em que as pedras do chão se acendem passo a passo), Beat It (numa alusão ao clássico West Side Story) ou, naturalmente, Thriller, o filme de Michael Landis que mudou a história do teledisco.


Capas de três dos singles extraídos do alinhamento de Thriller. As capas de Billie Jean e Beat It correspondem às edições portuguesas. Wanna Be Startin' Somethin' não teve lançamento em single em Portugal.

Imagens do teledisco de Billie Jean

quarta-feira, outubro 10, 2012

'Hey Jude': o mais lido (neste estudo)


A canção de 1968 dos Beatles Hey Jude foi dada como sendo a que mais vezes foi já referida na literatura, diz um estudo publicado no site Small Demons, que a refere em 55 títulos de ficção e ensaio. Aqui fica o top 20 das canções mais vezes referidas em textos publicados em livro, segundo esse mesmo estudo. A lista mostra contudo um universo que se limita a edições em língua inglesa. Tem assim alguma curiosidade. Mas não é coisa para encarar com o peso de uma análise mais profunda à forma como a literatura cita (e recorre) hoje aos universos da música.

1. The Beatles – 'Hey Jude'
2. Elvis Presley – 'Heartbreak Hotel'
3. Led Zeppelin – 'Stairway To Heaven'
4. USA For Africa – 'We Are The World'
5. ABBA – 'Dancing Queen'
6. Carl Perkins – 'Blue Suede Shoes'
7. The Beatles – 'Lucy In The Sky With Diamonds'
8. The Beatles – 'Eleanor Rigby'
9. Nirvana – 'Smells Like Teen Spirit'
10. Queen – 'Bohemian Rhapsody'
11. Los Del Rio – 'The Macarena'
12. Michael Jackson – 'Beat it'
13. Creedence Clearwater Revival – 'Proud Mary'
14. OneRepublic – 'Apologize'
15. The Beatles – 'I Want To Hold Your Hand'
16. The Beatles – 'Strawberry Fields Forever'
17. 'Lili Marleen' (first recorded by Lale Andersen)
18. Michael Jackson – 'Beat It'
19. Bob Dylan – 'Like A Rolling Stone'
20. Rolling Stones – '(I Can't Get No) Satisfaction'

sexta-feira, setembro 28, 2012

Reedições:
Michael Jackson, Bad 25


Michael Jackson 
“Bad 25” 
Epic / Sony Music 
3 / 5

A 31 de agosto de 1987 Michael Jackson apresentava, sob expectativa global, o sucessor de Thriller. Editado cinco anos antes, o disco tinha-se transformado no álbum com maiores vendas da história e transportado o músico para bem lá do patamar de reconhecimento já expressivo, mas ainda não tão ostensivamente presente, que a carreira a solo e com os irmãos nos anos 70 (e em particular Off The Wall) lhe garantiam antes desse marco histórico de 1982. Bad tomava as sugestões de Thriller para seguir caminhos pop, mantendo firme uma relação com as fundações rhythm’n’blues fundadoras da sua linguagem. Lançava pistas swing beat que o músico aprofundaria pouco depois. E concluía com uma mão cheia de canções – que acabaram transformadas quase todas em singles de sucesso mundial – uma trilogia trabalhada em conjunto com o produtor Quincy Jones. Agora, no momento em que se assinalam os 25 anos da edição de Bad, uma edição especial celebra a sua memória acrescentando ao alinhamento do disco original uma série de gravações que permitem um retrato alargado do período no qual Michael Jackson trabalhou neste seu álbum. Há aqui uma série de maquetes, ainda longe do que poderiam ser as suas expressões finais, mas na verdade muito aquém dos mínimos olímpicos que lhes garantiriam um lugar no alinhamento do álbum. Recuperam-se os inéditos (também da época) já revelados numa reedição anterior do álbum. Juntam-se versões em francês e espanhol de I Just Can’t Stop Loving You e duas absolutamente dispensáveis remisturas atuais de Bad e Speed Demon, respetivamente envolvendo a colaboração da dupla Afrojack e Pitbull e, depois, Nero. Pena que a edição comemorativa disponibilizada entre nós não seja a que traz consigo o único “extra” verdadeiramente cativante: um DVD com o registo de um concerto da digressão que se seguiu ao lançamento do álbum.

sexta-feira, agosto 31, 2012

Nos 25 anos de 'Bad'


30 de agosto de 1987, hora do jantar, mais coisa menos coisa... Estava então em Filadélfia. A cidade preparava iniciativas para assinalar os 200 anos da constituição. Esperava-se (chegaria daí a um mês) pelo regresso aos pequenos ecrãs de Star Trek, no primeiro episódio da Next Generation, que iniciaria uma vida de sete anos no pequeno ecrã em finais de setembro. Contavam-se os dias para o concerto dos U2 (e compravam-se já os bilhetes para a visita dos Depeche Mode, daí a alguns meses, para atuarem igualmente no Spectrum)... Mas naquela noite o protagonisra e centro das atenções era outro. Com um teledisco criado por Martin Scorsese, que mais parecia um pequeno filme, Michael Jackson surgia nos pequenos ecrãs de televisão ao som de uma nova canção. É claro que algum tempo tinha sido editado Farewell My Summer Love, o álbum com inéditos recuperados do seu tempo na Motown e pelo caminho Michael tinha-se reunido aos irmãos para um último disco dos Jacksons... Mas anunciava-se o lançamento do seu primeiro álbum desde Thriller. Tal como a canção que Scorsese levara ao teledisco que a TV mostrou em prime time, o álbum chamar-se-ia Bad... E no dia seguinte, 31 de agosto (faz hoje 25 anos) poucos eram os que no metro, à hora de regressar a casa ao fim de dia, não levavam consigo um embrulho com o formato de um álbum de vinil...

Juntamente com Off The Wall (1979) e Thriller (1982), Bad completou então uma trilogia na obra de Michael Jackson que, com a produção (e visão) de Quincy Jones, o elevou de promissora voz de sucesso nos espaços do rhythm’n’blues e dele fez a maior estrela global da música pop. Há alguns dias Christopher Nolan sugeria, a caminho da estreia do seu mais recente Batman, que raras são as trilogias em que o terceiro capítulo gera algo de mais marcante (ou consegue mesmo ser melhor) que os dois anteriores... E basta lembrarmo-nos de A Guerra das Estrelas ou Indiana Jones para lhe darmos razão (até o terceiro O Senhor dos Anéis, que foi o que brilhou nos Oscares corresponde à regra: o primeiro é o melhor da série). Mais distante dos caminhos soul e de genética assimilada do funk de Off The Wall, Bad de facto segue em frente segundo a opção pop que Thriller vincou. Mas em nada é um baixar de braços, uma vez que não só junta mais uma mão cheia de magníficas canções, como indicia caminhos futuros (escute-se Speed Demon ou Another Part of Me e reconheça-se um interesse que o conduziria ao swing beat que afloraria mais evidente em Dangerous). Em Bad abre espaço a uma sequência instrumental de alma jazzy... Já em Dirty Diana ensaia um diálogo com guitarras rock que retomaria em Black or White (não sendo, contudo, a sua zona de conforto). Mas é claro que Smooth Criminal é uma sequela de Wanna Be Sartin’ Something e baladas como Liberian Girl e I Just Can’t Stop Loving You seguem os mesmos caminhos das que escutávamos em Thriller.

Como nos conta Quincy Jones nos extras de uma reedição de Bad, o disco nasceu de um dueto com Prince que foi idealizado, tentado, mas não se concretizou... Mais sorte teve o produtor quando “arrancou” Scorsese da sala de montagem onde estava a trabalhar em A Cor do Dinheiro, dizendo-lhe que precisava dele por quatro dias, levando-o para Nova Iorque para realizar o teledisco.

Longe de ser o álbum mais-do-mesmo que muitos ali teimam em ouvir, Bad é o espaço de confirmação da opção pop que o disco de 1982 lançara. Vale a pena reouvi-lo e reconhecer aqui um dos títulos (no seu todo) mais importantes da obra de Michael Jacskon... E, já agora, ficamos à espera do filme Bad 25 que Spike Lee hoje estreia em Veneza.


Imagens de algumas das capas que ajudaram a fazer a história de Bad a 45 rotações. É que, entre I Just Can’t Stop Loving You (editado ainda antes do lançamento do álbum, em julho de 1987) e Speed Demon (um 'promo' que chegou ao formato a 45 rotações em outubro de 1989), foram ao todo 10 os temas de Bad com edição em single. Do alinhamento original do vinil (o CD juntava Leave me Alone, da banda sonora do filme Moonwalker, como extra), só Just Good Friends ficou por editar a 45 rpm.

sexta-feira, abril 13, 2012

A 45 minutos do centro de Paris

Fotos: N.G.

A Disneyland Paris celebra esta semana os seus 20 anos. O parque temático, que mora a pouco mais de uns 45 minutos (em viagem de comboio suburbano) do centro de Paris, recebeu já 250 milhões de visitantes e conta com um total de 15 mil funcionários para que, todos os dias, as atrações, restaurantes, lojas e desfiles sejam uma realidade.

Entre as atrações que o parque propõe diariamente contra-se a exibição (em sessões contínuas) do filme de Francis Ford Coppola Captain Eo, um musical com tempero de ficção-científica criado para a imagem do protagonista: nada mais nada menos senão Michael Jackson. Com produção de George Lucas, o filme foi criado em meados dos anos 80 sob a vontade de explorar as tecnologias 3D disponíveis nesse tempo, a projeção fazendo-se numa sala que acrescenta às sugestões de tridimensionalidade uma série de solavancos e trepidação (daí a expressão 4D por vezes usada). Com 17 minutos de duração, Captain Eo não se afasta muito do registo narrativo que acompanhou alguns dos telediscos mais longos de Michael Jackson. O músico interpreta aqui o papel do protagonista, que navega pela galáxia numa pequena nave que tem por tripulação uma série de extra-terrestres mais com ar de peluches que podemos encontrar em lojas de brinquedos que os que muitas vezes vemos no cinema de ficção-científica. Um confronto com a má da fita, a Supreme Leader (interpretada por Angelica Houston) resolve-se ao som de We Are Here To Change The World, um inédito criado para o filme. Nos momentos finais ouve-se Another Part Of Me, canção que surgiria em 1987 no alinhamento do álbum Bad.


Três imagens de pormenor da Discoveryland, uma das “terras” que fazem o mundo que podemos visitar na Disneyland Paris. A primeira imagem apresenta um edifício que acolhe uma viagem virtual ao universo, com Buzz Lightyear (de Toy Story). A segunda é um olhar próximo sobre um dos carrocéis mais célebres do parque. E a terceira um modelo de um caça dos rebeldes em A Guerra das Estrelas, junto a um edifício onde, a bordo de um simulador de voo, podemos sobrevoar elementos do universo desse mundo de ficção criado por George Lucas.

segunda-feira, junho 27, 2011

O blusão de Michael Jackson


Mais um objecto usado por uma grande estrela que atinge, em leilão, um preço astronómico — depois de um vestido de Marilyn Monroe, também o blusão de Michael Jackson no teledisco de Thriller foi vendido por um valor espectacular: 1,8 milhões de dólares (quase 1,3 milhões de euros). Como noticia a CNN, não se esperava que a venda pudesse ir além dos 400 mil dólares.
Esta inflação fala-nos, afinal, de quê? Do continuado papel mitológico de alguns eleitos (da música, do cinema, etc.) em quem delegamos uma espécie de nostalgia de grandiosidade e pureza? Sim, por certo. Além do mais, não haveria cultura popular sem alguma dessa nostalgia, sobretudo a que nos faz resistir à banalidade, à indiferença ou à simples mediocridade que, todos os dias, reconhecemos.
Mas há aqui também um sintoma muito do nosso tempo, indissociável dos valores da "fama" que dominam o nosso imaginário. Dir-se-ia que não nos basta o blusão do vampiro (aliás, lobisomem) Michael no fabuloso teledisco dirigido, em 1983, por John Landis. Precisamos de uma explicitação quantificada e quantificável desse valor. A partir de agora, o blusão não deixará de ser o vermelho do sangue, mas trará sempre agarrada uma etiqueta com um preço — o mercado é um estado de alma.

terça-feira, março 29, 2011

Nos bastidores de 'Thriller'

Um livro com 200 páginas de fotos, na sua maioria inéditas, revela agora os bastidores da criação de Thriller, o teledisco de John Landis que acompanhou o tema-título do álbum de 1982 de Michael Jackson. O livro revela as fotos tiradas durante a rodagem do teledisco por Douglas Kierkland, um dos dois jornalistas que tiveram acesso total aos espaços onde o pequeno filme então nasceu. Com o título The Making of "Thriller": 4 Days/1983, o livro é editado pela Filipacchi Publishing.

sexta-feira, julho 30, 2010

Michael Jackson: álbum de inéditos em Novembro

Janet e Michael
1972

FOTO Rolling Stone
[Getty Images Michael Ochs Archive]

É uma notícia exclusiva da Rolling Stone: no mês de Novembro, será lançado um álbum com 10 temas inéditos de Michael Jackson. Mais do que isso: o novo álbum (ainda sem título) será o primeiro de um projecto de edições de inéditos — Michael deixou mais de uma centena de canções completas —, projecto acordado entre os herdeiros de Jackson e a Sony Music, visando um total de 10 novos álbuns num período de sete anos.

sexta-feira, junho 25, 2010

A morte, provavelmente

Michael Jackson morreu a 25 de Junho de 2009. Um ano depois, que herança fica? Do que nos lembramos? E, sobretudo: como lembramos? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 de Junho), com o título 'A morte fica-lhe tão bem'.

É bem verdade que, muito por culpa da miséria televisiva que nos rodeia, passámos a comemorar efemérides por tudo e por nada. Como se a celebração automática das datas nos pusesse em contacto com uma essência intocada pelas atribulações do tempo que passa. Afinal de contas, essa “transcendência” pitoresca faz parte da paisagem quotidiana e as festas impostas pelo calendário cumprem a missão piedosa de nos alhear de uma das nossas maiores tragédias existenciais: a de vivermos numa cultura que promove a proliferação festiva de memórias, mas favorece a indiferenciação do esquecimento.
Há, por isso, uma ironia inevitável (e inevitavelmente saborosa) quando nos mobilizamos para assinalar... o primeiro ano da morte de Michael Jackson! E é pena que os detractores oficiais tenham desaparecido de cena, infelizmente confirmando a pacata mediocridade dos seus pontos de vista sobre o criador de Thriller. De facto, os muitos discursos moralistas (se é que o puro insulto tem alguma moral) sobre a identidade “falsa” de Jackson, nomeadamente sobre a cor da sua pele, nunca conseguiram entender que a vulnerabilidade física e simbólica foi uma componente essencial do seu labor.
Há ainda outra maneira de dizer isso mesmo: Jackson é um dos criadores contemporâneos por cuja obra perpassa uma energia vital que, numa lógica de perversas contaminações, não se opõe à nitidez branca da morte (e que a brancura se confunda, aqui, com a nitidez, eis o que, por certo, é esclarecedor sobre este nosso lugar em que o evocamos). No limite, a morte não passa de um gimmick das paisagens criativas de Jackson, um abismo sem nome alegremente convocado em nome do espectáculo e dos seus valores comunitários. Há muitas décadas que isso tem um nome: cultura pop. E como ele fez questão em cantar, pode ser preta ou branca. É igual.

Um ano depois...


Um ano depois... They Don’t Care About Us, single de 1996 (na verdade o quarto single extraído de HIStory, lançado no ano anterior). Para acabar com o mito que conta (por quem o conta, claro… ) que não houve mais grandes canções depois de Thriller…


Michael Jackson
‘They Don’t Care About Us’ (1996)

terça-feira, dezembro 29, 2009

Michael Jackson: o luto digital

This Is It, a canção de Michael Jackson (1958-2009) que deu o título a uma série de espectáculos nunca consumados — e também ao filme sobre os respectivos ensaios —, já tem teledisco. É seu autor Spike Lee e a respectiva divulgação começou por se fazer no site da empresa produtora do cineasta, 40 Acres and a Mule Filmworks. Verdadeiro álbum de memórias, o teledisco cruza as memórias das origens da família Jackson em Gary, Indiana, com fotografias, momentos de palco e tributos de fãs, tudo transfigurado por algumas subtis formas de manipulação digital, em particular na relação das imagens com os respectivos fundos — é um breve e sóbrio exercício de luto que, adequadamente, prolonga a energia iconográfica do universo de Michael Jackson.