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quinta-feira, novembro 28, 2013

Em conversa: Sérgio Godinho (3 / 3)

Foto: Filipe Ferreira / cedida pela Universal
Continuamos a publicação da versão integral de uma entrevista com Sérgio Godinho a propósito do lançamento, esta semana, do disco Caríssimas Canções. A entrevista serviu de base ao artigo ‘As Canções dos Outros Segundo Sérgio Godinho’, publicado na edição de 24 de novembro do DN.

Em Caríssimas Canções canta os outros. E como reage quando os outros o cantam a si?
Interessa-me imenso isso. Uma canção é um objeto plástico que tem de ser reinventado. Até eu próprio já reinterpretei canções minhas com outros arranjos muito diferentes consoante as épocas. O Irmão do Meio é a prova provada dessas canções cantadas pelos outros.

Quando surge uma versão nova de um tema seu o que faz?
Tento ouvir... Umas vezes gosto mesmo, outras são um bocado estranhas. Mas só o facto de se ir aos repertórios é muito interessante. Agora, por exemplo, na Voz e a Guitarra II, a Márcia canta o Ás Vezes o Amor de uma maneira muito adequada.

Houve alguma versão que o surpreendesse?
Aí fui colaborador, mas posso apontar as versões dos Clã. O Espectáculo, por exemplo, nunca o tinha cantado assim e, de resto, passei também a cantar assim. Passámos a tocar essa versão mais roqueira. Essas versões dos Clã foram uma enorme surpresa para mim, e depois entrei no mesmo barco. Mas tem havido mais casos. Como o Camané a cantar o Emboscadas, que foi até uma sugestão minha.

Este disco e o espetáculo sublinham afinidades com músicos que o tem acompanhado de 1998 para cá.
O Nuno Rafael toca comigo desde o início do século, e dito assim até parece mais pomposo. Ele entretanto cruza-se no Lupa, onde se conheceram, e depois nos Humanos, com o Hélder e a Manuela. Estes dois cruzo-me eu com eles no Afinidades ainda no século passado (risos)... E entretanto fiz canções com o Hélder, como o Sopro do Coração. Neste disco dos Clã em que eles estão a trabalhar há três canções com música do Hélder e letra minha. E tudo isto cria uma dinâmica que é já de um... clã. São cumplicidades que já não se têm de explicar. São amizades, são vidas... E isso é muito bom. Gosto de conhecer pessoas novas mas também gosto de reencontra as que já não são tão novas como isso.

Além da colaboração com Bernardo Sassetti, no seu último disco levou a Minta para o seu universo.
A colaboração com o Sassetti deu uma canção mesmo especial. A Francisca Cortesão está ligada a’O Mútuo Consentimento. Eu tinha ouvido o original que ela tinha em inglês... Porque ela compõe em inglês, sabe-se lá porquê, como eu mesmo lhe digo a ela. E numa noite comecei a encontrar um caminho ali em português e ela não estava nada à espera.

Este disco entra num momento de pausa. Quando é que surge o instante em que sente que está na hora de fazer um novo disco de estúdio?
Neste momento não está nada programado, até porque nunca tive prazos nos contratos. Mas o que estou a fazer neste momento, e que teve uns hiatos por causa deste projeto, é que estou a escrever contos, que quero que saiam para o ano. Acho que esta a ficar consistente. Há um primeiro conto que foi publicado na biblioteca digital do DN, que se chama Notas Soltas da Corda e do Carrasco. Ainda estou embrenhado nisso. São contos que não são muito longos mas que são muito burilados. Não é uma coisa levezinha, sem desprimor para ninguém. O meu fito para o ano é este livro. Embora admita para o ano possa estar a pensar em canções e voltar a esse universo. Isto para mim é recorrente. Alternar naturalmente os universos. Não procuro. Mas são ímpetos e tenho a necessidade disso. O livro de poesia foi uma coisa que me ocupou a cabeça durante três meses.

O clima em que o país vive estimula a escrita?
Não. Não quero ser dominado por isso. Há reflexos disso sempre na criação. Mas não quero dominado por isso, porque acho que isso é afunilar aquilo que nós, criadores de um modo geral, temos para oferecer. Temos de construir o nosso universo e estimular as pessoas com ele. Não podemos ficar afunilados. Pode e deve falar-se disso e até se deve. Mas não é só isso... Senão acabamos nas mãos deles. Eu não gosto daquela coisa do eu e eles e nós e eles. Mas há um eles, apesar de tudo. Eles estão-nos a lixar. Agora nós somos parte do problema. E somos parte da solução? Ai somos também!

Sente que as pessoas esperam de si uma voz crítica, nem que seja para dizer o que diz depois d'Os Vampiros no disco?
Sim... Mas também sinto que tenho muita canção que já existe e está na memória ativa das pessoas. E que acaba por servir vários propósitos. O Que Força É Essa, que abre o meu primeiro LP, Os Sobreviventes, é tocada e cantada, assim como outras canções. Não é preciso estar sempre a mostrar algo de novo quando se pode jogar com todo este acervo.

E sente que algumas continuam com um sentido de atualidade?
As minhas canções têm várias vertentes e algumas são um bocado intemporais e que são mais filosóficas. Qual é a atualidade do Espalhem a Notícia? É o que cada pessoa sente num dado momento. Agora há coisas que têm consonâncias pessoais e sociais na vida das pessoas e isso é bom.

O que sente quando vê as multidões a cantar a Grândola de José Afonso em situações de protesto?
É muito interessante, embora também se esgote depois de um certo tempo. Se fosse oficializada para interromper sempre os senhores do poder perderia a sua eficácia. Mas foi bem jogado na altura e achei interessante. Sobretudo porque foi uma certa presença cívica. Assim como o Acordai do Lopes Graça. São intervenções cívicas interessantes. É agarrar no nosso património e senti-lo atual.

Algumas destas canções, que nasceram no espetáculo, continuarão a ter vida em palco?
Não pensei nisso. Mas acho que este arranjo dos Vampiros poderá perdurar. O resto não sei.

quarta-feira, novembro 27, 2013

Em conversa: Sérgio Godinho (2 / 2)

Foto: José Mendes / cedida pela Universal

Continuamos a publicação da versão integral de uma entrevista com Sérgio Godinho a propósito do lançamento, esta semana, do disco Caríssimas Canções. A entrevista serviu de base ao artigo ‘As Canções dos Outros Segundo Sérgio Godinho’, publicado na edição de 24 de novembro do DN.

Quando sentiu que as canções que estavam a trabalhar para os espetáculos começavam a ser suas?
Essa apropriação tem que existir e foi um dos grandes gozos disto. Pisar territórios estranhos e fazê-los nossos. Na verdade muitas destas canções já tinha cantado para mim, nem que na casa de banho. Muitas estavam na minha memória, como a do Bob Dylan ou o Volver a Los 17 da Violeta Parra, que venero e que ouvi pela primeira vez pelo Milton e a Mercedes Sosa. É uma canção pujante de lirismo. Estão na minha memória ativa. No espetáculos havia outras em que tinha de ler as letras, como o caso da Geni e o Zepelim, que é muito intrincada. É uma canção genial, uma das mais violentas que conheço. A maneira como a narrativa se resolve é terrível...

Podia ser uma personagem das suas canções...
Sim... Já me perguntaram, sobre estas canções, de quais tenho inveja de não ter sido eu a compor: acho que gostava de ter composto esta. Mas desde cedo senti que as canções me pertenciam. A escolha das canções que pus no palco também tinha a ver com o sentir que as podia cantar. O Le Pornographe do Brassens seria muito especifica na voz dele. As pessoas estão habituadas a associar a minha voz com o meu universo criativo, mas de facto sinto-me bem dentro de outros géneros. O Rapaz da Camisola Verde é um fado que tratamos quase como uma marcha, é excelente. As pessoas diziam “o quê? Pedro Homem de Melo, Frei Hermano da Câmara?... Mas depois aquilo flui de uma maneira magnífica. Houve aqui coisas leves e coisas pesadas. Houve retratos. O Conversa de Botequim de Noel Rosa é um retrato primoroso do imaginário carioca (foi escrita nos anos 30). O Rosa é um bocado o pai do Chico Buarque e de muitos outros.

Há aqui nomes que o acompanham como referência estrutural desde sempre...
Estas canções têm muito lastro, já vivem há muito tempo comigo. E no concerto tinha também quatro canções minhas que eram confrontos com outros universos... Tinha o Dias Consecutivos, que fiz com o Bernardo Sassetti. E até acabava no Acesso Bloqueado, para voltar a Portugal e ao momento presente. Mas no disco não fazia sentido, que o seu propósito era o de mostrar material alheio. A única canção que está é a que abre o CD, que é o Última Sessão. Algumas não ficaram porque nenhum dos takes da Casa da Música ou CCB eram completamente satisfatórios para todos e não queríamos estar a fazer overdubs, queríamos que a coisa fosse assim mesmo autêntica.

Sentiu um reencontro c trabalho que vez em rádio, que tinha também a ver com a recolha de canções?
Com o Baú e os Reis do Vinil. Não anda longe, de facto. Faz parte dessa minha memória ativa e do prazer de partilhar. Esses programas de rádio são avôs deste projeto. Não tinha pensado nisso mas faz sentido. Nessa altura já explicava as origens das canções, as histórias à sua volta, as idiossincrasias. Foi um percursor deste processo. Na pesquisa que, semana a semana, fui fazendo para o livro ia descobrindo coisas que eu nem sabia, ou que já não ouvia há muito tempo.

Como fazia a investigação?
Internet, e às vezes livros... E havia coisas que já sabia e queria confirmar. Num ou outro até de viva voz, como o caso do Vendaval. Quem me contou a origem da canção foi o David Ferreira, que é uma enciclopédia. Mas são aventuras quem me descentram das minhas canções e do meu universo. Mas, e como dizia nos concertos, nem andei muito longe de Portugal. O Les Vieux, no fim de contas, fala da solidão dos velhos que neste país são confrontados com todos estes salários, estas pensões miseráveis que estão a ser reduzidas. No fim não estamos muito longe. Estamos sempre a falar, de maneiras diversas, da sensibilidade das pessoas, da realidade, do mais político, do mais social, do mais íntimo.

Sendo que é n'Os vampiros que explicita mais claramente essa ponte com o presente.
Sim. É uma metáfora muito poderosa.

(continua)

terça-feira, novembro 26, 2013

Em conversa: Sérgio Godinho (1 / 3)

Foto: João Messias / cedida pela Universal
Iniciamos hoje a publicação da versão integral de uma entrevista com Sérgio Godinho a propósito do lançamento, esta semana, do disco Caríssimas Canções. A entrevista serviu de base ao artigo ‘As Canções dos Outros Segundo Sérgio Godinho’, publicado na edição de 24 de novembro do DN.

Sendo autor, cantou raras vezes canções de outros em disco.
Na discografia de estúdio há de facto muito poucos casos. Há o Namoro, o Carteiro, as Endeixas a Barbara Escrava... São casos muito pontuais mesmo.

Mas em palco sempre gostou de cantar versões.
Não só gostei como no Rivolitz, na parte do Ritz Clube, canto Bob Dylan, Serge Gainsbourg e Zeca Afonso. Em espectáculos mais fora do baralho sempre fiz isso. Há um que nunca esteve em disco, o Troca por Troca que fiz no Jardim de Inverno, tinha muito repertório e inclusivamente cantava aí o Sunny Afternoon que agora está não no CD, mas no DVD. De facto sempre gostei de cantar as canções dos outros. Esta altura foi uma ocasião de outro que se proporcionou a partir de outras.

Há contudo textos que surgiram primeiro. Este foi um projeto que nasceu das palavras para os sons…
Isto foi uma espécie de ciclo que se completou. Começou por 40 crónicas que fiz no Expresso. Lembrei-me do número 40 porque era a efeméride dos 40 anos de canções. E falar das canções dos outros foi sempre uma coisa que me apaixonou. Essa partilha com amigos... Nem é preciso músico para se fazer essa partilha. Mas aqui era sistematizar e dar a ler mais que o quem muita gente saberia. Depois houve o livro, muito cuidado e bonito, com ilustrações do Nuno Saraiva. E na altura da iniciativa anual do CCB, a Carta Branca, os programadores que tinham lido o livro perguntaram se queria dar corpo aquilo, e meter aquilo em palco. E saltei em cima da proposta. Porque pareceu um caminho natural e apetecia-me cantar aquele material alheio. Não todas as canções, porque não me sentiria confortável a cantar algumas...

Como a do Klaus Nomi, por exemplo, sobre a qual escreveu…
Sim, ou Sea Song do Robert Wyatt... Há canções que são tão específicas que não podia interpretar pela minha voz. Mas podia ter uma versatilidade de interpretação em canções que me deram gozo, que seriam desafiantes para mim. O disco é uma consequência dos espetáculos do CCB e Casa da Musuca. Depois já fizemos outros. Senti que tinha de encontrar um caminho instrumental para que estas não fossem covers de bar...

Tinham de encontrar um corpo comum?
Tinhamos de encontrar um corpo mas que ao mesmo tempo fosse algo com muito poucos músicos, mais descarnado e que desse a essência das canções.

Fez algo semelhante em tempos no Instituto Franco Português, de onde nasceria o disco Escritor de Canções.
Embora aí fosse mais monocolor em termos de instrumentação. Com o Nuno Rafael começamos a pensar numa coisa mais crua, menos vestida...

Um pouco como se fosse uma lógica de música de câmara...
Sim, sim... Tinha vontade de trabalhar outra vez com o Hélder [Gonçalves]. Pusemos-lhe essa hipótese e a Manuela entrou naturalmente. Ela tem muita vontade de sair do seu “poleiro” de protagonista vocal dos Clã. Toca vários instrumentos, respira música por todos os poros, faz segundas vozes... E em palco de facto brilha de uma maneira especial. Depois cada caso foi um caso. Houve canções em que nos aproximamos do propósito e do som inicial, como é o caso dos Doors ou do Elvis. Mas há outras versões como o Vendaval ou o Sampa, em que mudamos os tempos e a colocação das frases fica alterada... Há canções que são muito diferentes do original nos arranjos. Outras muito próximas, como no Heartbreak Hotel. E aí, no final, até faço uma coisa ligeiramente humorística que é cantar um pouco à Elvis Presley.

Como faz também, com o Tony de Matos…
Sim, mas só no fim. Eu canto ao contrário do Tony de Matos, sempre por baixo, de maneira serena. Ele é uma coisa única. Se fosse na Argentina seria um tanguista. No fim até dizia em palco que tinha prometido não cantar à Tony de matos mas que aquilo tinha sido um deslize. Este espetáculo tinha muita conversa... Há alguns casos nos quais leio um bocado da crónica dentro da canção. Nos Doors também faço um bocadinho isso. Mas não faria sentido mostrar mais no disco. O caso d’Os Vampiros é uma versão que não tem nada a ver com a versão original, maravilhosa, do Zeca. A importância da canção continua a existir, até porque até digo que está terrivelmente atual.

Com uma canção de outro tempo procura assim uma mensagem para o presente?
E era um dos momentos altos dos concertos. Até plasticamente, porque a iluminação muda. Aí queria uma versão mais dura, mais rasgada. Parece estar com um peso sempre presente... Houve muito trabalho, mas também muita inspiração. E aqui estou a falar deles os três.

(continua)

segunda-feira, novembro 25, 2013

Novas edições:
Sérgio Godinho, Caríssimas Canções

Sérgio Godinho
“Caríssimas Canções”
Mercury / Universal
4 / 5

Sendo essencialmente um autor, raras foram as vezes em que Sérgio Godinho levou aos seus discos as canções dos outros. E na sua discografia de estúdio contam-se apenas três exemplos em mais de 40 anos de lançamentos, com O Namoro de Fausto, as Endechas a Bárbara Escrava de Camões segundo José Afonso e O Carteiro do Conjunto António Mafra. Em palco abre contudo horizontes a outros universos, e o disco ao vivo de finais dos noventas, Rivolitz, mostra mesmo instantes em que avançou pelas memórias de Dylan, de Gainsbourg e, uma vez mais, José Afonso. As Caríssimas Canções, que agora surgem num disco, chegam contudo como consequência de um projeto maior que definiu um ciclo que assim se conclui. Tudo partiu de um desafio para a escrita de crónicas (escolheu escrever 40), que depois levou a livro e, mais tarde, ao palco. O álbum traduz as gravações das noites passadas nos palcos do CCB (Lisboa) e Casa da Música (Porto) onde estas versões se fizeram ouvir pela primeira vez. Conhecedor de uma velha máxima (sua) que diz “cuidado com as imitações”, Sérgio fez questão de procurar um patamar comum de entendimento entre canções que vinham de autores, géneros e épocas diferentes. Chamou Nuno Rafael (com quem trabalha regularmente desde o álbum Lupa, do ano 2000) e a dupla dos Clã Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves (com quem assinou o marcante espetáculo Afinidades que nasceu na Expo 98 e chegou a disco em 2001). E juntos encontraram um caminho numa lógica “de câmara”, do pouco fazendo muito, trabalhando arranjos contidos, embora versáteis, não apagando nunca a essência da alma de cada canção mas permitindo que a voz de Sérgio Godinho as fizesse, no fim, claramente suas. São particularmente felizes os instantes em que recria Geni e o Zepelim de Chico Buarque (originalmente nascida para a Ópera do Malandro), Vendaval de Tony de Matos ou o Rapaz da Camisola Verde, de Frei Hermano da Câmara (que surge na forma de uma marcha, sublinhando do uma relação antiga de Godinho com a música popular portuguesa). Por aqui encontramos ainda originais de Noel Rosa, Violeta Parra, Caetano Veloso, Pixinguinha ou Jacques Brel. Há uma abordagem tensa, atual (e consequente) aos Vampiros de José Afonso. Há flirts bem conseguidos com a memória de Elvis e dos Rolling Stones e outros, menos felizes, com os Beatles e os Doors. No fundo partilham-se gostos, memórias, experiências e até histórias. Cruzam-se afinidades. Mas, no fim, e apesar de isto estar tudo ligado, as versões são claramente de autor. E nem que por um disco, estas canções são agora de Sérgio, do Nuno, do Hélder e da Manuela.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Novas edições:
B Fachada, Minta e João Correia,
Os Sobreviventes


B Fachada, Minta e João Correia 
“Os Sobreviventes” 
dist. Mbari 
4 / 5

Antecedido por um EP em 1971, que lhe serviu de cartão-de-visita, o álbum Os Sobreviventes assinalou em 1972 a estreia em álbum de Sérgio Godinho. Gravado em França, no Chateau d’Hérouville e contando, entre outras, com a colaboração de José Mário Branco (em cujo álbum de estreia Sérgio Godinho também havia colaborado, entre ambos de resto sendo partilhadas duas visões distintas para O Charlatão), Os Sobreviventes afirmou desde logo a visão de uma voz autoral. Mas, por determinante que seja o ponto de vista sobre o tempo político vivido no país (cantado à distância, já que o músico se encontrava exilado desde finais dos anos 60), Os Sobreviventes está longe de se esgotar no espaço da canção política. Pelo contrário, é um disco que desde logo lança bem claras as quatro grandes linhas que ainda hoje comandam a sua escrita, juntando às canções com ângulo mais político outras que falam de amor, que descrevem figuras e figurões e ainda outras essencialmente vivenciais. Quarenta anos depois, é curioso notar a atualidade de alguns olhares mais críticos que Godinho ali registou, pelo que o reencontro reinventado com estas canções por B Fachada, Minta e João Correia não se limita a ser uma evocação da memória da história da nossa música, mas também uma forma de, com palavras antigas, agir nos tempos modernos. Esta é contudo uma história que não nasce aqui. B Fachada já cantara Sérgio Godinho numa canção sua e chegou a levá-lo ao palco. E Minta colaborou no mais recente álbum do músico. Agora, depois do desafio lançado, os três propõem uma visão pessoal sobre o alinhamento de Os Sobreviventes, que assim reinventam de fio a pavio. Tal como era “livre” na forma de abordar vários caminhos musicais possíveis há 40 anos (caminhando entre o relacionamento mais íntimo da voz e das cordas de uma guitarra no Romance de Um Dia Na Estrada à assimilação de ecos da cultura rock em Maré Alta), Os Sobreviventes de 2012 é novamente um desafio às formas e normas. As canções são escutadas e transformadas, moldadas a novos olhares, do exercício da reinterpretação nascendo um ponto de vista criado a três (se bem que sob um protagonismo maior de B Fachada). Sem fazer dos originais um santo de altar nem da linguagem musical de Sérgio Godinho na época um cânone, este regresso a’Os Sobreviventes volta a sublinhar princípios que conduziram a construção do álbum editado em 1972 mas firma uma visão que faz dele uma peça também de 2012 e que não depende apenas do elemento memória para justificar a sua pertinência.

domingo, dezembro 18, 2011

Sérgio Godinho: 40 anos de canções (4)


Um olhar pela história da discografia de Sérgio Godinho, caminhando através de 40 anos de canções, desde o EP de estreia em 1971 ao mais recente álbum editado já este ano. Esta é a quarta parte de um texto originalmente publicado no caderno Q., do Diário de Notícias, a 4 de Novembro deste ano.

Uma das primeiras figuras de ficção criadas pelas canções de Sérgio Godinho nasceu para um disco de José Mário Branco. Este tinha já uma música, para a qual pensou uma letra que reflectia sobre o etado do país em inícios dos anos 70. Chamou-lhe O Charlatão e, depois de gravada uma versão original no álbum Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades, o próprio Sérgio Godinho regista uma leitura sua, no seu álbum de estreia. Com o tempo surgirão outras, não menos marcantes. Como a Etelvina (do álbum À Queima Roupa, de 1974), “que era da rua como outros são do campo” e que a “sua cama era um caixote sem paredes nem tampo”. Mais que uma história, muitas vezes Sérgio Godinho procura momentos narrativos onde aprofunda, sobretudo, a caracterização de personagens. Como acontece com esta Etelvina, figura dura, moldada pela vida da rua, mas nem por isso sem fragilidades (que confessa quando canta “eu vivo sozinha à noite / a dormir à beira rio / acocorada com frio / à noite, à noite”... A Etelvina será mesmo uma das mais fortes entre as figuras criadas nessa etapa da sua obra, reaparecendo mais tarde em O Porto Aqui Tão Perto e sendo, de certa forma, o modelo que inspira a Alice, no País dos Matraquilhos (do álbum Aos Amores, de 1989). Aí há uma pequena mulidão de personagens, desde uma mãe que é prostituta - “mãe fora (em que avenida?) / olhos que a perseguem, pagam, comem” - um irmão a fazer o serviço militar “puxando às armas brilhos”, uma mulher mais velha, que tem uma relação não exactamente explícita com a protagonista - “Leonor / libertada da prisão há meses / dizem que é por amor / que olha por Alice, às vezes”... E, claro, a Alice...

'Kilas O Mau da Fita', single (1981)
Fazendo um percurso através de uma vasta galeria de personagens, a obra de Sérgio Godinho revela ainda um saltimbanco que recorda o que se passou em Os Demónios de Alcácer Quibir (1976) ou a Rita (personagem do filme Kilas, o Mau da Fita, realizado por José Fonseca e Costa, interpretada no cinema por Lia Gama), cuja história Sérgio Godinho canta, falando no feminino (em concreto na Balada da Rita). Com cortante humor apresenta, em Arranja-me Um Emprego, a história de um jovem que começa de manso, pedindo trabalho, mas acaba por mostrar outra face uma vez no poder. Referindo que “greves era só / das seis e meia às sete / em frente a um cacetete” e que “primeiro de Maio / só de quinze em quinze anos”.

Mais assombrado é o retrato que encontramos em Perdida em Não Sei que Sonho (do álbum Salão de Festas, de 1984). Tudo começa por um olhar que vê alguém, “um dia à tarde / perdida em não sei que sonho” e quem depois, se reconhece a mesma figura numa notícia de jornal onde se lê “jovem drogada hoje quis / fugir a um mundo enfadonho / de seu nome Beatriz / perdida em não sei que sonho / saltou da ponte para o rio e morreu”. Terrível é também a narrativa que ouvimos em Pequenos Delírios Domésticos, que acompanhamos em patamares de progressiva loucura até ao momento em que diz “mata-ratos e cicuta / tomarás em quantidade / a hora do telejornal / era o momento ideal / tanta guerra e tanta fome / e o meu crimezinho incólume”.

Herdeira dessas histórias é agora a mulher de que se fala em A Vida Sobrasselente, que encontramos no disco de 2011. “Mulher famosa / na imprensa rosa / revisitada permanentemente”, lança a canção, aprofundando o retrato ao contar que “encontrou vida / sobresselente / nas imediações da vida verdadeira / e dessa maneira / adormeceu / pensando estar ainda acordada / que nada / fazia prever um novo pesadelo / arrumados que estavam / o fogo e o gelo”.

'Canto da Boca' (1980)
Sérgio Godinho saiu de Portugal ainda antes de fazer das canções o centro de gravidade da sua vontade de comunicar. A distância porém não o impediu de, pela canção, revisitar o Porto (onde nasceu, em 1945) em Porto Porto, onde qual faz um percurso à distância pelos espaços e vivências da cidade, vincando as experiências na primeira pessoa quando aí lembra, por exemplo, as adeptas do Salgueiros (clube cujo estádio morava perto da casa dos seus pais). Em 1981 uma continuação da história chega em O Porto Aqur Tão Perto. No mesmo álbum (ou seja, de Canto da Boca) mora também É Terça-feira, canção originalmente criada para a banda sonora de Kilas, O Mau da Fita onde se traça um olhar sobre a feira da Ladra onde; não apenas aos sábados, mas também às terças, ali surgem pessoas que vão “vender / juras falsas / amarguras / ilusões / trapos e cacos / e contradições”. Este é assim um retrato de Lisboa, cidade que é desde há longos anos a “casa” de Sérgio Godinho que a voltou a cantar em 1986 em Lisboa Que Amanhece, canção que mais recemente, por ocasião do álbum O Irmão do Meio, conheceu nova versão, em dueto com Caetano Veloso.

A música mora entre as memórias mais remotas de Sérgio Godinho. Dos discos dos pais recorda gravações de Sinatra, Glenn Miller, Moloudji, Patachou, Charles Trenet... A determinante etapa de formação de gostos que chega nos dias de juventude levou-o depois, por um lado, aos nomes da linha da frente da nova música pop/rock, dos Beatles aos Rolling Stones, sem esquecer os Kinks (38). Por outro é por essa altura que descobre João Gilberto e Tom Jobim. E não muito depois José Afonso, outra das referências maiores da sua vivência musical. Com Jacques Brel aprendeu a expressividade poética. Com Georges Brassens a “carpintaria”, termo que gosta de aplicar a uma forma como entende o trabalho, atento, de jogos de palavras e sons. Com Dylan, por seu lado, descobre novas soluções. José Mário Branco e Luís Cília são figuras que conhece em Paris, o primeiro convidando-o a trabalhar nos seus discos, retibuindo o gesto logo depois.

'Pré-Histórias' (1973)
Sérgio Godinho já tinha escrito canções antes de começar a trabalhar no seu álbum de estreia. A estreia terá acontecido ao som de O Largo do Breu, que recentemente recuperou para tocar ao vivo... Para o seu primeiro disco seguiu por caminhos com alguma familiaridade para com os de outros novos trovadores do seu tempo. Uma relação mais próxima com a música popular portuguesa começa a ganhar forma clara em Pré-Histórias, alargando horizontes num processo de progressivas conquistas que avançou nos discos seguintes. Pano Crú (em cujo alinhamento encontramos o clássico Primeiro Dia) corresponde a um momento de franca evolução no departamento das formas, a relação entre instrumentos procurando soluções mais elaboradas. Carlos Zíngaro assina um dos arranjos e, pela primeira vez, entra em cena uma secção se sopros.

Outro importante momento de viragem chega em Canto da Boca, onde pela primeira vez entra em cena João Paulo Esteves da Silva e toda uma vivência jazzística que alarga horizontes à música de Sérgio Godinho. António Emiliano (e um trabalho com novos teclados) chega em Na Vida Real (1986). Aos Amores (1989) e Tinta Permanente (1993) seguem caminhos mais “clássicos”, a grande revolução chegando em Domingo No Mundo (1997), onde participam músicos de escola pop/rock. O disco seguinte, Lupa, representa um momento significativo de mudança, criando uma nova ideia de banda (com importante presença de Nuno Rafael) que desde então serve de suporte aos discos e concertos de Sérgio Godinho, a nova linguagem aí ensaiada projectando-se depois em Ligação Directa e no novo disco recentemente editado. Se é seu ou não o Elixir da eterna juventude (como cantou no álbum Tinta Permanente), a verdade é que, 40 anos depois do seu primeiro disco, o álbum Mútuo Consentimento confirma a rara vitalidade de uma linguagem criativa e de uma voz ainda activa. Em 1993 essa incursão por terrenos vocais semelhentes aos do rap fala na verdade, e com sentido de humor sobre o o envelhecimento (“estou velho / dói-me o joelho / dói-me parte do antebraço”). E a dada a altura diz-nos a canção que “Misticismo agora à parte / envelhecer é uma arte / "arte-nova", "arte-final" / Numa luta desigual”. O romance já conta 40 anos de estrada e sem problemas de expressão... Mas não termina aqui.

sábado, dezembro 17, 2011

Sérgio Godinho: 40 anos de canções (3)


Um olhar pela história da discografia de Sérgio Godinho, caminhando através de 40 anos de canções, desde o EP de estreia em 1971 ao mais recente álbum editado já este ano. Esta é a terceira parte de um texto originalmente publicado no caderno Q., do Diário de Notícias, a 4 de Novembro deste ano.

A canção política teve mais vincada presença na sua obra entre 1974 e 76. Mas não desapareceu nunca dos seus discos posteriores. Logo em Pano Cru (1977) essa mesma consciência interventiva marca posição no Homem Fantasma, com uma dimensão mais de crítica social, em Venho Aqui Falar, comentando o momento presente ou Lá Isso É, onde diz que “há partidos de direita que põem sempre a bola ao centro / mas quem os melhor fintar / é que vai marcar o tento”. Em Campolide (1978) aletra para Cuidado, onde se fala de caciques locais (“lá na terra havia um homem que mandava / toda a gente, um por um, pôr-se na bicha / e votar nele e se votassem lá lhes dava / um bacalhau, um pão-de-ló, uma salsicha”). Já Joguei Boxe, Já Toquei Bateria dá por sua vez conta, já em 1981, de um tempo de uma certa “normalização” da vida em Portugal, como que deixando para trás o entusiasmo ainda recentemente vivido. Esse é um momento sobre o qual, atento, reflecte ainda em Não Te Deixes Assim Vestir (1983), onde nos diz: Ai, Portugal / dar-te conselhos é bem pouco original / (mas) se realmente não quiseres querer-te mal / olha p´ra ti, ó Portugal / e não te deixes assim vestir”.

'Domingo no Mundo' (1997)
Entre a sua produção mais recente contam-se vários exemplos de canções de evidente texto político, desviando o gume da crítica dos espaços talvez mais ideológicos de outros tempos, mas não deixando de olhar as realidades do dia-a-dia do país em que vivemos. Domingo No Mundo, tema-título do seu álbum de 1997, foca em concreto a exploração do trabalho infantil, relatando que “na fábrica de fogo de artifício / houve, dizem, fogo posto / e um menino sonha a noite inteira / que perdeu no escuro o rosto”.

Em Não Respire, do mesmo álbum, aborda-se o drama do consumo das drogas duras. Numa canção que usa como dispositivo de construção do refrão o jogo de palavras que nos acompanha sempre que tiramos uma radiografia (não respire/pode respirar), o verdadeiro foco das atenções centra-se em versos que cantam que “Liberdade é só nome de avenida / longe fica o rio da impossível partida / um barco trancado na minha veia / e braços como aranhas enredados na teia”, concluindo depois que “sou só carne e osso / belo dueto / vou doar à pátria o coração e o esqueleto”.

Não menos “política” é a forma como se alerta contra a ignorância, o preconceito e a intolerância ao encarar a sida. “Desarmem o preconceito”, lê Sérgio Godinho num registo spoken word em As Armas do Amor, uma canção que assinalou o seu reencontro criativo com José Mário Branco em 1997, onde diz ainda: “o preconceito não tem estado civil / é casado com a morte / divorciado da vida / é viúvo de si mesmo / é solteiro e por junto separado / suicida”. Esta ideia de leitura, reforçando o peso das palavras, ganhou forma inclusivamente no modo como levou depois esta canção a palco, de papéis nas mãos, folheando-os, verso a verso, rasgando cada uma das páginas mal terminava a sua leitura.

Em Maçã com Bicho, do álbum Lupa (2000), critica os modelos vigentes das praxes académicas, onde questiona “é rastejando que se ascende aos tectos?”. No mesmo disco tece uma sátira às visitas oficiais dos políticos em Bem-vindo Senhor Presidente, em cujo refrão se escura “Bem-vindo senhor presidente do consenso capicua / sente sente / va! Aqui no sofá / a casa é sua! / um café? Cerveja já não há! / a casa é sua / vou buscar a vassoura e a pá / a casa é sua / e um banco corrido para estes senhores / Como é que se chamam? / Ah, acessores”. Com humor olha depois para o Portugal do nosso tempo ao dizer que “só neste país / é que se diz / só neste país”, refrão de uma canção originalmente nascida para a peça de teatro Portugal, Uma Comédia Musical e que depois teve nova versão (com o título Só Neste País) no álbum Ligação Directa, de 2006.

Já no novo Mútuo Consentimento, mesmo não focando nenhuma das canções do alinhamento num olhar estritamente político, não deixa de marcar, com algum humor, sinais do tempo que vivemos ao referir, em O Acesso Bloqueado, o “défice descontrolado” ou o “crédito mal-aparado”.

O passar dos anos não foi nunca sinónimo de um apagar de memórias destas canções. E até mesmo temas com mais vincada ligação a outros tempos políticos conheceram , ao longo dos tempos, janelas de (re)encontro com outras gerações. O “clássico” Liberdade marcou assim presença em vários alinhamentos de concertos, surgindo até em gravações ao vivo como foram os casos de Rivolitz (1998) ou 9 e Meia no Maria Matos (2008). Nesta mesma digressão, que se seguiu ao lançamento de Ligação Directa, A Democraica ou Arranja-me Um Emprego voltavam a entrar em cena. Por sua vez, mais pela relação instrumental (ligada às guitarras eléctricas) que a uma qualquer agenda temática, O Charlatão e Etelvina regressaram aos palcos depois de Domingo no Mundo.

'Pano Cru' (1977)
O amor não era o destino mais visitado pelos primeiros discos de Sérgio Godinho, mas foi desde sempre um dos temas centrais da sua obra. Eram “relativamente poucas as suas canções de temática amorosa” até 1977, como recorda Arnaldo Saraiva no livro que então dedicou às canções de Sérgio Godinho. Eram, da obra até então editada (ou seja, os álbuns entre Os Sobreviventes, de 1972 e Pano Crú, de 1977), “menos de um quarto da sua produção, ou seja, cerca de uma dúzia”. O autor verifica então uma atitude algo diferente da mais comum em muitos outros autores da canção moderna, reparando que, nas canções de amor de Sérgio Godinho “o amor não é um valor absoluto ou separado que resolva todos os problemas da existência – antes é um valor que só é possível obter ou realizar quando se têm ou querem outros valores”. O mesmo autor sublinha que, nestas canções, o amor é algo que exige esforço, luta e coragem, que tem de enfrentar contradições, que não é apenas motivo de alegria (mas também motor de dor, de angústia), que “exige discrição, pudor, naturalidade” e que, a finalizar, “não pede um tom pessimista, nem sublime, nem grave, nem solene – pode pedir até um tom jocoso, irónico simples, escarninho”. A sua visão do amor é, acrescenta ainda, “realista, profana e anti-religiosa” e repara que a sua concepção de amor “é coerente com a sua concepção da mulher, que põe em plano igual ao do homem”.

Entre as mais célebres das suas trovas de amor conta-se Mudemos de Assunto (do alinhamento de Campolide, álbum de 1978). Fala da separação, do fim do amor, espaço a que regressa em várias outras canções, aqui referindo a “tempestade, o que se teve de comum”, que é “aquilo que separa depois / e os barcos passam a ser um e um / onde uma vez quiseram ser quase dois”.

'Aos Amores' (1989)
Várias histórias de amor cruzam o alinhamento de Corresponências, disco de 1983 que nasce de uma série de parcerias com músicos brasileiros como Chico Buarque, Milton Nascimento, Novelli ou Ivan Lins. A face A do álbum de 1989 Aos Amores (que corresponde à primeira metade do seu alinhamento na versão em CD) apresenta também uma série de narrativas onde o amor é verbo conjugado. E numa delas, Que Lástima, Querida Fátima, apresenta-se a canção como tempo para devolver o sorriso a alguém que o perdeu em crise de amores. “Está combinado, esta canção vai durar só três minutos / de maneira que, vá lá / olhos enxutos”, canta, falando a canção não do amor ou da sua perda, mas de como ela mesma pode ajudar alguém a reencontrar um caminho.

E são muitas as reflexões sobre o amor nos seus discos mais recentes. Em Lupa (do ano 2000), por exemplo, retrata em Dancemos no Mundo uma história de amor separada pela fronteira política de dois países. “Isto é como tudo / não há-de ser nada / a minha namorada / é tudo que eu queira / mas vive para lá da fronteira // Separam-nos cordas / separam-nos credos / e creio que medos / e creio que leis / nos colam à pele papéis”, lança a canção, o desejo transcendo depois essa barreira física quando canta “Eu só queria dançar contigo / sem corpo visível / dançar como amigo / se fosse possível / dois pares de sapatos / levantando o pó / dançar como amigo só”.

Em 2006 Ligação Directa faz do amor um dos temas centrais de uma nova colecção de canções de Sérgio Godinho. O álbum abre inclusivamente com duas canções com a palavra amor no título. A Deusa do Amor e Às Vezes o Amor. Também o novo disco canta um “amor à primeira vista” em Intermitentemente ou o “agitar” da solidão no tema-título.

(continua)

domingo, dezembro 11, 2011

Sérgio Godinho: 40 anos de canções (2)



Um olhar pela história da discografia de Sérgio Godinho, caminhando através de 40 anos de canções, desde o EP de estreia em 1971 ao mais recente álbum editado já este ano. Esta é a segunda parte de um texto originalmente publicado no caderno Q., do Diário de Notícias, a 4 de Novembro deste ano.

Gravado em plena “primavera marcelista”, o primeiro disco de Sérgio Godinho nasceu contudo longe de Portugal. Tinha rumado à Suíça, para estudar psicologia, com Piaget. Mas sentiu outro chamamento e, como diria Jack Kerouac, partiu estrada fora. Passaria pela Holanda, pelo Brasil e mais tarde pelo Canadá (de onde regressaria em 1974, já depois da revolução), mas a mais importante das etapas criativas nessa fase da sua vida ganhou forma em Paris. Antes trabalhara num barco, na cidade viveu depois como veilleur de nuit, mais tarde integrando o elenco do musical Hair... E foi nos arredores da capital francesa, no Chateau d'Herouville, os mesmos estúdios onde os Rolling Stones ou Elton John gravariam discos por essa altura e onde José Mário Branco tinha registado o seu álbum de estreia Mudam-se Os Tempos, Mudam-se as Vontades (lançado em 1971) que nasceu Os Sobreviventes.

Convém antes de mais caracterizar o tempo político e social que assiste ao nascimento destas canções para compreender que força era essa que em si transportavam. O mapa nacional vivia assombrado pela Guerra Colonial, destino que Sérgio Godinho evitou ao sair do país. Por cá tinha ainda assistido à crise académica de 1962 e, já em Paris, ao Maio de 68 (que se revelaria marcante na sua formação pessoal). Uma nova ideia da canção como forma de expressar descontentamento e comentar o quotidiano não só marcava o terreno junto de grandes autores franceses (e recorde-se que foi em francês que Sérgio Godinho, que tocava piano e guitarra desde pequeno, começou a compor) mas também de novas vozes que em Bob Dylan encontravam um farol de ideias entusiasmantes.

'Romance de um dia na estrada' (1971)
O disco de estreia de Sérgio Godinho chegou a Portugal ainda em 1971 através, primeiro, das quatro canções editadas no EP Romance de Um Dia Na Estada (que a este tema juntava A Linda Joana, O Charlatão e Aeiou). O álbum veio pouco depois, já em 1972. Mas como então sucedia a tantos outros nomes de música feita com palavras incómodas para o regime, era coisa que se vendia às escondidas, disfarçadamente. Pedindo por vezes um nome diferente na loja, mas levando afinal o disco certo para casa. Isto porque, não bastasse a sua ligação a outros músicos que entretanto conhecera em Paris, entre os temas de Os Sobreviventes passava já uma evidente relação crítica para com o Portugal de então.

Essa consciência política não era contudo coisa recente, remontando mesmo aos dias em que ainda residia, com a família, no Porto. Atento, mas não necessariamente alinhado. “Pela minha parte eu era mais um observador crítico e um colaborador ocasional em coisas que me faziam sentido”, explicou em palavras reproduzidas em Cantores de Abril, livro de Eduardo M. Raposo (ed. Colibri, 2000). O autor acrescenta que “se na Faculdade de Economia do Porto estava já ligado a pessoas que eram contra o regime, essa ligação continua na Suíça, aqui com pessoas que estavam em circunstâncias semelhantes às suas, com as mesmas ideias, embora uns mais alinhados que outros”. Mas, e adverte no mesmo livro o músico, Sérgio Godinho definia-se como “um tipo com curiosidades”, ou “um beatnik, de certo modo, que passava pelo universo estrito da política e também, por outro lado, procurava outros sabores em realidades diferentes, mais vivenciais”.

Fruto desta consciência, e através das canções de Os Sobreviventes nascia assim, logo aos primeiros passos, a identificação de Sérgio Godinho como uma voz crítica do regime. Em Que Força é Essa observava as condições de trabalho de quem dava “muita força p'ra pouco dinheiro”. Por seu lado, em Maré Alta cantava: “aprende a nadar companheiro / que a maré se val levantar” clamando depois que “a Liberdade está a passar por aqui”. Como que sublinhando um tempo de oportunidade para fazer a mudança sonhada. Que parecia não estar já muito longe.

'Liberdade' (1974)
É natural que, em 1974, o discurso político, que fazia muitas das conversas do dia-a-dia de tantos portugueses, ganhasse expressão mais visível na música, não apenas de Sérgio Godinho mas de tantos outros nomes que representavam então a linha da frente de uma nova canção popular. É do álbum que editou esse ano o clássico Liberdade, que muitos conhecem como “a paz. o pão, a habitação, saúde, educação” que vive a urgência de um tempo de transformações, reconhecendo que “só há liberdade a sério quando houver / liberdade de mudar e decidir / quando pertencer ao povo o que o povo produzir”. Ou seja, traduzindo num plano concreto todo o sentido do poder de uma palavra. Liberdade.

Dos ecos directos do tempo presente o álbum À Queima Roupa fala ainda da tomada da terra pelas cooperativas em Pontos nos Is. Todavia, e apesar de celebrar o clima de mudança que o país vivia, as canções mostravam uma personalidade com sentido realista e atento. Em O Meu Compadre, alterta mesmo “vamos vamos / tomar cuidado / com promessas assinadas / em papel molhado”... E em Sul Norte Campo Cidade (do álbum de 1976 De Pequenino Se Torce o Destino) tece uma reflexão sobre a forma como o país se dividia então politicamente a Norte e a Sul.

As canções de À Queima Roupa, juntamente com outras de discos anteriores (como O Charlatão ou Maré Alta) tornam-se presença em várias das sessões de Canto Livre que caracterizam o novo Portugal musical pós-revolução. “Estas duas palavras traduziam a nova situação em que se encontravam os cantores de intervenção. O canto que tinha passado a fazer-se era um canto livre. Depois, haveria tempo para lhe aplicar outros qualificativos, de acordo com o seu grau de ligação ao projecto revolucionário”, descreve José Jorge Letria em A Canção Política em Portugal (ed. Ulmeiro, 2ª edição de 1999). Os “cantos livres” começaram por se realizar semanalmente, às sextas-feiras, no Teatro São Luiz, em Lisboa. Por ali passavam os nomes que davam voz a uma etapa em que a canção política fazia o protagonismo do cenário do Portugal musical de então. A eles juntaram-se ainda nomes vindos de outras paragens, como Pi de la Serra, Maria del Mar Bonet, Luis Llach... Como recorda ainda o livro A Canção Política em Portugal, houve então pedidos de colectividades e associações para levar esta ideia a outros pontos do país. Tanto que a expressão canto livre acabou mesmo por ser “quase um sinónimo de Abril” e “o nome de uma plataforma cultural que passou a agrupar” poetas, cantores, actores e músicos.

'A Boca do Lobo' (1975)
Pelo país, nessas sessões, umas mais bem organizadas que outras, Sérgio Godinho cantava essencialmente as canções de À Queima Roupa, mas também o Charlatão, Maré Alta ou Que Força É Essa... Cantava muitas vezes Pode Alguém Ser Quem Não É, Barnabé e mudava de registo com A Noite Passada. Recorda estas e outras sessões como sendo “muito precárias”. Eram chamados por comissões de trabalhadores, sociedades recreativas, associações de moradores... Socorriam-se uns aos outros, quando eram mais que um, ajudando-se entre si como suporte instrumental uns dos outros... Sérgio Godinho reconhece ter uma grande memória dessas sessões, mas delas nunca saía totalmente satisfeito (no plano musical e performativo, entenda-se).

Como tantos outros que haviam criticado e, cada qual à sua maneira, combatido o regime anterior, Sérgio Godinho vivia assim, activamente os tempos de mudança. Tal como então o fizeram José Mário Branco (através do GAC), Jorge Palma ou Paco Bandeira, participou (como autor) com uma canção no fortemente politizado Festival da Canção de 1975. Ali levou, na voz de Carlos Carvalheiro, A Boca do Lobo, onde se escutava “Anda aí, como se previa, a CIA / quem é que não desconfia”.

(continua)

sábado, dezembro 10, 2011

Sérgio Godinho: 40 anos de canções (1)



Um olhar pela história da discografia de Sérgio Godinho, caminhando através de 40 anos de canções, desde o EP de estreia em 1971 ao mais recente álbum editado já este ano. Esta é a primeira parte de um texto originalmente publicado no caderno Q., do Diário de Notícias, a 4 de Novembro deste ano.

Quando, de ano a ano, se fala da eventualidade da atribuição de um Nobel da Literatura a Bob Dylan (e porque não a Leonard Cohen ?), as opiniões divergem, estando longe de ser pacífico (não confundir com unânime) o reconhecimento da escrita de letras de canções como uma forma poética que possa ser tida em conta como literatura... Deixando esse debate nobiliário para uma outra ocasião, o certo é que também entre nós podemos procurar obras musicais onde faça sentido a identificação de uma relação com a palavra que transcenda os patamares mais habitualmente visitados pelos letristas. E se há obra onde essa relação vai bem mais longe que o habitual a de Sérgio Godinho é exemplo a ter em conta.

“Ler Sérgio Godinho não é o mesmo que ouvi-lo. Em primeiro lugar, ele produz fundamentalmente para o sentido do ouvido, não para o sentido da vista – e a própria linguagem verbal se encarrega de o dizer, com as suas sonoridades densas, as suas rimas, sua fluência, sua oralidade, suas repetições”, defende Arnaldo Saraiva em Canções de Sérgio Godinho (livro publicado em 1977 pela Assírio & Alvim). E aí lembra ainda que “Sérgio Godinho é seguramente em Portugal o cantor popular cujas letras no geral resistem melhor à separação da música”. Qualifica-o inclusivamente como o “melhor letrista” de canções portuguesas, “poeta de qualidade equivalente à de um Brassens, de um Caetano Veloso e, não tenhamos medo de o dizer, poeta de maior qualidade do que muitos que andam pelas antologias da velha e da novíssima poesia portuguesa e pelas salas das universidades”.

2011assinala os seus 40 anos de discos Na verdade já havia títulos com a participação de Sérgio Godinho antes desse 1971 que assitiu ao lançamento do EP (5) Romance de Um Dia Na Estrada (oficialmente o seu primeiro disco a solo), que antecedeu a edição de Os Sobreviventes, o seu primeiro álbum, editado já em 1972. Em 1969 tinha já colaborado no EP Seis Cantigas de Amigo, de José Mário Branco. E se quisermos recuar ao seu “primeiro” disco de facto, teremos de regressar ao Porto, aos seus dias de estudante de piano, num disco de 78 rotações gravado na Ideal Rádio como presente de aniversário para a sua mãe, em 1955. Bem antes das canções, portanto. O assinalar desta data redonda fez-se recentemente com um novo disco de originais ao qual chamou Mútuo Consentimento. É um disco que, mesmo revelando abertura à comunicação com formas musicais do presente (no plano da composição e arranjos, sobretudo nas colaborações com Bernardo Sassetti, António Serginho e Noiserv), não deixa de ser mais um episódio de continuidade na construção de uma discografia da qual é em tudo um pleno herdeiro.

“A música é tamanha, cabe em qualquer medida”, canta Sérgio Godinho logo nos primeiros instantes de Mão na Música, a canção que abre o alinhamento deste seu 17º álbum de originais). Mais que apenas uma canção (onde usa mais a fala que o canto, recurso já antes visitado em temas como O Elixir da Eterna Juventude ou As Armas do Amor), esta é uma reflexão sobre a música por quem a faz há já várias décadas. “A música não tem explicações / a dar a si mesma / Isso explica tudo”, conta-nos mais adiante. É quase uma síntese não apenas de uma maneira de estar na música, mas sobretudo de como a música deu (e ainda dá) sentido a uma voz que é, reconhecidamente, uma das mais marcantes de toda a história da música portuguesa. A música, diz-nos ainda a canção “não tem barreiras”, “referenda a liberdade”, “mede-se com caneta e gravador”. E “faz aos poemas / aquilo que os poemas / quiseram fazer dela: render-se / E aos outros propõe: / rendam-se / Tréguas e batalhas / sem ordem de aviso”.

'Os Sobreviventes' (1972)
Desde cedo a obra de Sérgio Godinho aponta quatro grandes núcleos em torno dos quais nascem muitas das suas canções. De resto, logo no seu álbum Os Sobreviventes encontramos logo exemplos desses quatro caminhos. Canções vivenciais como são os casos do Romance de um dia na estrada, Descansa a Cabeça (estalajadeira) e Farto de Voar. Histórias de amor, como escutamos em Paula. Primeiros retratos de figuras (e figurões), como é o caso do Charlatão. E ainda temas com um teor contestatário e crítico como recordamos em Que Força é Essa, Que Bom que É ou Senhor Marquês.

A visibilidade que algumas dessas suas canções de alma política mais evidente ganharam, sobretudo nos dias imediatamente posteriores aos da revolução, juntaram-no a outras vozes que, então cantavam um tempo de mudança que de vivia em Portugal (alguns já com obra anterior a 74, outros somente revelados depois do 25 de Abril). E foi talvez pelos ecos do impacte de canções como Liberdade, Que Força É Essa ou tantas outras focadas no Portugal de então, que o músico ganhou um rótulo de cantor de intervenção. Descrição de vistas algo curtas perante os mais largos horizontes de uma obra que em nada se esgota na canção política (por muito importante que tenha sido a sua contribuição para o espaço da canção de protesto, sobretudo nos anos 70). O próprio Sérgio Godinho sente essa como uma designação “redutora”. E, como explica em Canto de Intervenção, o historiador Eduardo M. Barroso (ed. Biblioteca Museu República e Resistência, 2000), o músico “nunca respondeu muito por essa designação”. Na mesma página o próprio Sérgio Godinho acrescenta que “canções que são reflexões filosóficas, vivenciais, sobre a maneira de estar, sobre o amor, sobre a sociedade” representam mais o espectro que lhe “interessa tocar”. Ainda sobre a relação com o espaço da música de intervenção lembra a propósito um tempo “quando se começou a arrumar os cantores na prateleira, numa altura em que era como se do Zeca só se conhecesse a Grândola”.

(continua)

sexta-feira, novembro 25, 2011

Uma noite em Lisboa:
Sérgio no Coliseu, Panda no Lux


Não é fácil escolher... Se a Cinemateca propõe um encontro "kubrickiano", dois palcos de Lisboa fazem-nos hoje querer ser um pouco como o Santo António. Ou seja, estar em dois lugares ao mesmo tempo. E porquê?...

Ao Coliseu dos Recreios, pelas 21.30, Sérgio Godinho leva as canções de Mútuo Consentimento agora já nas suas formas finais (depois de há largos meses as termos escutado, como rascunhos, na Culturgest). A seu lado, além dos já habituais Assessores, estará ainda a Roda de Choro de Lisboa, que colabora num dos temas do novo álbum.

Por seu lado, Panda Bear, desta vez acompanhado por Sonic Boom (ex-Spacemen 3), apresenta-se no palco do Lux, a partir das 23.00. Ao concerto segue-se um DJ set de Ricardo Villalobos... Panda Bear e Sonic Boom levam, depois, a 4 de Dezembro, a sua actuação conjunta à Casa da Música, no Porto.



Imagens do teledisco que acompanha o tema Acesso Bloqueado, do alinhamento do álbum Mútuo Consentimento, de Sérgio Godinho

segunda-feira, setembro 12, 2011

Novas edições:
Sérgio Godinho, Mútuo Consentimento


Sérgio Godinho 
"Mútuo Consentimento" 
Universal 
4 / 5 

São 40 os anos de canções gravadas em disco (em nome próprio) que Sérgio Godinho celebra este ano. Na verdade já tinha discos gravados antes do EP Romance de um dia na Estrada que, em 1971, fazia de cartão de visita ao álbum Os Sobreviventes que chegaria só meses depois, em 1972. Já havia, por exemplo, uma colaboração com José Mário Branco no EP Seis Cantigas de Amigo, de 1969. Bom, e se na verdade quisermos o “primeiro” de Sérgio Godinho, então teremos de regressar ao Porto, aos seus dias de estudante de piano, num disco de 78 rotações gravado na Ideal Rádio como presente de aniversário para a sua mãe, em 1955... Mas agora, 40 anos depois do EP que assinalou o início de uma história em seu nome anos depois, em tempo de assinalar um número “redondo” (redondo pelo zero, que o quatro o não é, mas a convenção existe e respeitemo-la), Sérgio Godinho opta por dizer “estou cá” em vez do “andei por aí”. Que é como quem diz, prefere editar um novo álbum de originais em vez de lançar nova antologia ou qualquer outra ideia essencialmente conduzida pela memória. E a verdade é que Mútuo Consentimento, o seu novo álbum de originais é, mais que tudo, um claro depoimento de vitalidade criativa e interpretativa de um veterano que prefere viver o presente em lugar das nostalgias que tantas vezes caracterizam opções editoriais em carreiras com mais que uns dois ou três palmos de mãos de anos de vida.
Foi em 1997, com o soberbo (mas hoje algo injustamente esquecido) Domingo no Mundo, que Sérgio Godinho encontrou novos caminhos para a sua música. Não apenas no momento da descoberta de uma parceria com Nuno Rafael (que com os anos se aprofundou) mas na capacidade em entender quão importante para a renovação de uma linguagem musical pode ser o diálogo. E em Domingo no Mundo encetou uma nova política de abertura a novas colaborações que entretanto ganharam corpo não apenas nos dois títulos de originais subsequentes – Lupa (de 2000) e Ligação Directa (2006) – mas igualmente em parcerias que ganharam forma em discos como Afinidades (em 2001, com os Clã) ou O Irmão do Meio (2003, entre uma multidão de parceiros, de Caetano Veloso a David Fonseca, de Carlos do Carmo a Camané). Mútuo Consentimento é como que o verdadeiro sucessor de Domingo no Mundo, no sentido em que representa novo espaço aberto a várias intervenções, a espantosa valsa assombrada assinada por Bernardo Sassetti em Dias Consecutivos ou o arranjo luminoso de António Serginho em A Invenção da Roda mostrando duas frestas entre as muitas janelas abertas a novas ideias que o disco propõe. O disco abre com Mão na Música, um olhar poético, falado, que no fundo reflecte sobre esta arte essencialmente abstracta onde contudo podemos encontrar sentidos e ideias. E é dessa reflecção que parte um disco que ora comenta o presente em Acesso Bloqueado, ora reencontra um interesse antigo pelos diálogos entre a tradição popular e a pulsão da música urbana em Vai Lá! De paisagens variadas, em canções de “carpintaria cuidada”, entre arranjos de horizontes largos e uma linguagem profundamente pessoal, Mútuo Consentimento é como aqueles álbuns confiantes e seguros do valor da expressão clara de uma identidade como Dylan assinou em Modern Times, McCartney em Chaos and Creation In The Backyard. Os rascunhos que ouvimos há meses na Culturgest viraram Tinta Permanente. E vieram para ficar.