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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Wish You Were Here — o teledisco

Na história das imagens e dos sons dos Pink Floyd, o filme Pink Floyd: Live at Pompeii (1972) ocupa um lugar central. Filmados por uma equipa dirigida por Adrian Maben, aí descobrimos o quarteto que estava a trabalhar em The Dark Side of the Moon (1973) — Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason — numa extraordinária performance realizada num anfiteatro romano das ruínas de Pompeia... sem espectadores.
Restaurado em 4K, o filme/concerto vai ser reeditado em Blu-ray, com lançamento marcado para 27 de fevereiro. Em paralelo, a banda pôs a circular um outro restauro: o teledisco (se é que na altura a palavra se aplicava...) de Wish You Were Here, tema-título do álbum que surgiria em 1975 — impecável.
 

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Fassbinder
— sonhos e pesadelos do cinema alemão

É bem verdade que o mercado do DVD e do Blu-ray foi sendo esvaziado pela concorrência. Mas não desapareceu: aí está uma caixa de oito filmes de Rainer Werner Fassbinder para podermos rever (ou descobrir) um autor fundamental do cinema da Alemanha — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 dezembro).

Nome fulcral do moderno cinema europeu, o alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) está longe de ser um autor mal conhecido no contexto português. Lembremos o singular fenómeno de culto que, há quase meio século, envolveu o lançamento de O Casamento de Maria Braun, aliás iniciado com a sua consagração com o Grande Prémio da edição de 1979 do Festival Internacional da Figueira da Foz. Seja como for, nada disso invalida a importância, de uma só vez cinéfila e simbólica, de uma edição de filmes de Fassbinder em formato caseiro. Que é como quem diz: uma caixa de oito títulos em Blu-ray, com chancela da Leopardo Filmes.
No actual contexto de diversificação dos circuitos de difusão — das salas tradicionais até às plataformas de “streaming”, passando pelas mais variadas alternativas virtuais — claro que não fará sentido abordar os filmes a partir das características específicas desses mesmos circuitos. Digamos, para simplificar, que uma obra-prima como Lawrence da Arábia foi fabricada em 1962 para ser vista num ecrã gigante, mas não se torna um “mau” filme (longe disso!) no rectângulo minimalista do nosso televisor caseiro...
Seja como for, perante esta edição de Fassbinder, não podemos deixar de sublinhar a sua raridade. Desde logo porque o mercado do DVD se esvaziou de forma inglória. Depois porque o sector de Blu-ray foi objecto de uma delapidação ainda mais cruel, aliás em contraste com outros países que souberam assumir a condição de nicho desse sector, investindo em edições “especializadas” que, de facto, mantêm uma estimulante relação (comercial) com as memórias da história do cinema.
Daí também um sublinhado muito especial para a excelência técnica desta edição. Como se prova, o Blu-ray possui um potencial de (re)valorização das versões originais que está longe de ser banal. E tanto mais que, no domínio particular das imagens, Fassbinder trabalhou com alguns mestres da direção fotográfica, incluindo Jürgen Jürges, Michael Ballhaus e Xaver Schwarzenberger. Para nos ficarmos por um exemplo eloquente, o reencontro com esse filme de uma beleza radical que é Effi Briest envolve uma vibração visual e afectiva que não pode ser dissociada da pureza das imagens a preto e branco assinadas por Dietrich Lohmann, outro raro talento da luz e das cores que fotografou, por exemplo, Hitler: Um Filme da Alemanha, de Hans-Jürgen Syberberg (curiosamente, também uma revelação de 1979 na Figueira da Foz).

Do teatro à ópera

A herança de Fassbinder existe, assim, como uma imensa paisagem de narrativas em que podemos reencontrar o cinema como uma arte de síntese — das suas raízes teatrais até à coexistência com os arroubos da ópera —, sempre marcadas pelas intensidades dos sonhos e pesadelos da história do século XX alemão. Nesta perspectiva, vale a pena formular um voto de optimismo necessariamente moderado: será que a presente edição poderá ser um sinal de “renascimento” de um mercado (DVD + Blu-ray) que não pode ser destruído pela frase tecnocrática segundo a qual “agora, as pessoas só vêem filmes no streaming”?
Escusado será dizer que tal possibilidade está muito longe de se esgotar na obra de Fassbinder — é imensa a lista de títulos e autores susceptíveis de mobilizar os espectadores mais antigos e surpreender os novos cinéfilos. Atrevo-me a pensar no exemplo de Berlin Alexanderplatz (1980), a série televisiva (14 episódios, 15 horas de duração) que Fassbinder realizou a partir do romance de Alfred Döblin... Que bom seria revê-la em Blu-ray!

segunda-feira, novembro 15, 2021

"Escrito no Vento" na Criterion

Para a reedição de Escrito no Vento (1956) em DVD e Blu-ray, a Criterion oferece-nos uma capa que é uma brilhante variação sobre o grafismo e cromatismo dos cartazes da época. A edição da obra-prima de Douglas Sirk permite-nos reencontrar esse universo que os editores definem, não sem alguma ironia, como "expressionismo em Technicolor". Eis um dos cartazes originais e uma breve cena com Rock Hudson e Dorothy Malone.

terça-feira, março 31, 2020

"Western Stars" — o filme

Aos 70 anos, Bruce Springsteen apostou em recriar o seu álbum Western Stars através de um belo concerto que funciona também como uma viagem introspectiva e confessional: o resultado é um filme já disponível em DVD e Blu-ray — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Março).

Nestes tempos tão singulares e dramáticos, o filme Western Stars, de e com Bruce Springsteen, não chegou às salas portuguesas. Mas não por causa da conjuntura pandémica que estamos a viver: a sua edição directa em DVD (e também Blu-ray, aliás numa transcrição de imaculada qualidade) já estava prevista, não se repetindo, assim, o que aconteceu no mercado dos EUA, onde o filme cumpriu uma breve passagem pelo circuito tradicional de exibição (em outubro/novembro de 2019).
Estamos perante um objecto cujo propósito esquemático — registar as canções de um novo álbum — não deixa de ser formalmente sedutor, além de comercialmente atípico. Springsteen apostou em revisitar os temas de Western Stars (o seu 19º álbum de estúdio, lançado em junho do ano passado), num registo que não corresponde à convencional abordagem de um “making of”: por um lado, descobrimo-lo num concerto de características muito especiais, recriando as 13 canções do álbum (desembocando na evocação final de Like a Rhinestone Cowboy, tema clássico de Glen Campbell); por outro lado, há nesta cândida deambulação a vontade explícita de desenhar um esboço auto-biográfico, em particular percorrendo algumas memórias do seu prolongado período de depressão. O facto de Springsteen assinar a realização do filme (partilhada com Thom Zimny, velho amigo e colaborador) é, afinal, um sintoma claro da sua postura confessional.


“Passei 35 anos a tentar aprender como me libertar das componentes destrutivas da minha pessoa”, confessa o autor de Born in the USA, acrescentando: “E ainda tenho dias em que luto com isso.” Pontuando as imagens do filme, tais palavras são, afinal, um eco da singela dimensão confessional que, porventura com alguma surpresa, tínhamos descoberto no livro auto-biográfico Born to Run (edição portuguesa: Elsinore, 2016). Através das histórias que as suas canções têm contado, muitas vezes encenando personagens à procura da sua própria identidade, Springsteen encenava também as angústias e o desejo de redenção do seu destino.
Western Stars é um reflexo vivo de tudo isso, uma verdadeira reinvenção identitária, sustentada por uma magnífica performance ao vivo. Nesta perspectiva, parece existir um efeito de continuidade entre esta experiência cinematográfica e o espectáculo “Springsteen on Broadway”, também ele de características auto-biográficas, que esteve em cena no Walker Kerr Theatre, Nova Iorque, em 2017/18, vindo a ser distinguido com um prémio Tony (o respectivo registo está disponível num álbum homónimo, lançado em finais de 2018).
Tudo se passa no celeiro da quinta de Springsteen, no estado de New Jersey, próximo da cidadezinha de Long Branch, onde ele nasceu há pouco mais de 70 anos (a 23 de setembro de 1949). Em boa verdade, trata-se de um celeiro, também ele atípico, transfigurado em requintada sala de concertos, com uma particularidade que o proprietário destaca com orgulho: a muito bem conservada estrutura de madeira favorece uma sonoridade de rara pureza e envolvimento.
Com o acompanhamento de uma orquestra de 30 elementos (predominam os violinos, tão essenciais ao belo som “sinfónico” do álbum Western Stars), Springsteen lidera um brilhante conjunto de músicos — incluindo a sua mulher, Patti Scialfa, ela própria uma talentosa intérprete de country-rock —, capazes de proporcionar um evento de sofisticada competência profissional sem alienar a sua vibração intimista. O ziguezague entre canções e extractos de filmes de família (incluindo um delicioso momento burlesco na companhia de Scialfa, por certo da época do seu casamento, em 1991) transforma Western Stars num pessoalíssimo bloco-notas, partilhado com o espectador. Fica uma sensação amarga e doce: o filme merecia ser visto no grande ecrã de uma sala escura (até pelas qualidades da direcção fotográfica, assinada por Joe DeSalvo), mas não se pode ter tudo.

quarta-feira, janeiro 22, 2020

Criterion edita "Le Petit Soldat"

É o filme em que Michel Subor diz a Anna Karina que, sendo a fotografia a "verdade", o cinema é a "verdade 24 vezes por segundo"... Produzido em 1963, foi o primeiro trabalho em que Karina foi dirigida por Jean-Luc Godard: uma crónica francesa assombrada pelo uso da tortura durante a Guerra da Argélia. Agora editado em DVD e Blu-ray pela Criterion Collection, Le Petit Soldat (entre nós lançado como O Soldado das Sombras) surge com uma capa belíssima, da autoria de F. Ron Miller, sensível ao espírito de colagem da sua narrativa. Aqui fica um fragmento.

sábado, junho 01, 2019

Rolling Stones — Alemanha, 1998

Tradicionalmente apontado com um momento menor (?) na discografia de The Rolling Stones, o álbum Bridges of Babylon (1997) — que inclui, por exemplo, Anybody Seen My Baby?, Out of Control e Saint of Me — permanece um objecto disponível para algum tipo de (re)descoberta. Isso mesmo poderá acontecer através de Bridges to Bremen, em múltiplas edições (CD + DVD + Blu-ray), anunciado para 21 de Junho.
Bremen adquire aqui protagonismo, uma vez que na base das edições está um concerto no Weserstadion dessa cidade do noroeste da Alemanha, a 2 de Setembro de 1998. Decorria a 'Bridges to Babylon Tour' e, para além do alinhamento principal, naturalmente dominado pelos temas do álbum em promoção, alguns "desvios" invulgares foram pontuando a digressão. É o caso de Like a Rolling Stone, que os Stones tinham integrado nesse notável álbum acústico que é Stripped (1995). Sem esquecer o magnífico teledisco, assinado por Michel Gondry, eis o clássico de Bob Dylan recriado em terras germânicas por Mick Jagger & Cª.

quinta-feira, julho 26, 2018

Kubrick — 90 anos

É apenas uma data, é verdade: Stanley Kubrick nasceu no dia 26 de Julho de 1928 — faria hoje 90 anos (faleceu a 7 de Março de 1999, pouco tempo depois de ter concluído a montagem de De Olhos Bem Fechados). Seja como for, a efeméride é apelativa, quanto mais não seja porque este é também o ano em comemoramos os 50 anos de 2001: Odisseia no Espaço, por certo o seu filme mais famoso, problematizando as relações homem/máquina com uma acutilância a que o presente — o nosso presente — emprestou ainda maior pertinência filosófica. Dir-se-ia que, se é verdade que o século XX foi um tempo de dramática discussão dos limites da dimensão humana, então 2001 é, continua a ser, o filme capaz de nos confrontar com a réstea de utopia que tais limites parecem já não saber integrar.

>>> Documentário sobre a herança de 2001 (produzido pela Warner, em 2007), incluindo na edição do filme em Blu-ray.

sexta-feira, dezembro 15, 2017

O desaparecimento de "Star Wars"

Que está a acontecer com os primeiros filmes da saga "Star Wars", em particular o título fundador, lançado em 1977? Pois bem, num certo sentido, estão a desaparecer: as sucessivas intervenções digitais, apagando ou acrescentando elementos das imagens (e da banda sonora), modificaram muitas cenas das primeiras três longas-metragens (episódios IV, V e VI):
De tal modo que há fãs da saga que, em nome da preservação das características dos originais, se empenham em reconstituir as versões com que os filmes foram lançados nas salas (antes das modificações "impostas" pelas edições em DVD e Blu-ray). O assunto é tanto mais interessante quanto reflecte as perplexidades inerentes a qualquer processo de preservação e restauro do património cinematográfico — neste caso, aliás, com a contribuição contraditória do próprio George Lucas que autorizou tais intervenções depois de, nos anos 80, ter condenado com veemência a "colorização" de clássicos de Hollywood.
O jornal Le Monde fez um esclarecedor ponto da situação — eis o respectivo video, sob o mote: "Porque já não é possível ver a primeira trilogia na sua versão original".

sábado, junho 24, 2017

Rebel Heart Tour — DVD a 15 de Setembro

O DVD da Rebel Heart Tour já tem data de lançamento. Assim, a 15 de Setembro, o registo da digressão de Madonna estará nas lojas, surgindo também em Blu-ray e download digital; ao mesmo tempo, será editado um álbum com 22 canções dos concertos. Co-dirigido por Danny Tull e Nathan Rissman, Madonna: Rebel Heart Tour inclui material de palco e bastidores, no essencial recolhido nos concertos em Sydney, Austrália, em Março de 2016.

>>> Imagens de fundo da canção Rebel Heart, durante a digressão.

domingo, maio 14, 2017

"Rebel Heart Tour" em DVD e Blu-ray

O filme da 'Rebel Heart Tour' vai, finalmente, ser editado em DVD e Blu-ray — Madonna anunciou o respectivo lançamento para o dia 15 de Setembro.
Transmitido em Dezembro de 2016, pela Showtime [trailer], o filme é co-realizado por dois velhos aliados de Madonna, Danny B. Tull and Nathan Rissman, baseando-se, no essencial, nos concertos de Sydney, Austrália, em Março de 2016. Para além dos materiais de bastidores, será possível descobrir, por exemplo, versões acústicas de Like A Prayer, Secret e Don't Tell Me. Em simultâneo, chegará às lojas um CD duplo, com 22 temas da digressão.

sábado, abril 01, 2017

"Blow-Up" na Criterion

Um dos títulos emblemáticos da década de 60 acaba de ser lançado, em DVD e Blu-ray, pela Criterion Collection: Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, ressurge, assim, num novo restauro em 4K, numa edição que inclui um documentário sobre a rodagem, várias entrevistas e um livro com ensaios e materiais de arquivo. Entre as entrevistas, está uma de David Hemmings, em 1977, na televisão canadiana, lembrando o modo insólito como Antonioni o escolheu e também a sua desilusão quando viu o filme pela primeira vez — eis um extracto.

terça-feira, fevereiro 07, 2017

Scorsese, The Band & etc.

Grande concerto, notável filme: A Última Valsa, com Martin Scorsese a filmar a despedida de The Band, tem uma nova edição comemorativa — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Fevereiro), com o título 'Para ver com o som bem alto'.

Quando se estreou o filme A Última Valsa (1978), de Martin Scorsese, sobre o derradeiro concerto do grupo The Band, o cartão de abertura, conciso e desafiante, em austeras letras brancas sobre fundo negro, era capaz de provocar palmas imediatas — nele estava escrito apenas: “Este filme deve ser projectado com o som alto.”
Era o tempo em que o conceito de “filme-concerto” tinha um significado bem diferente e, sobretudo, mais apelativo. Na era pré-MTV, sem os infinitos canais da Internet que hoje utilizamos, o cinema podia ser a principal via de acesso global a um grande acontecimento da música rock — tal acontecera, aliás, poucos anos antes, com Woodstock (1970), o filme de Michael Wadleigh sobre os míticos concertos do Verão de 1969. Agora, podemos rever — ou, por certo, para muitos espectadores, ver pela primeira vez — A Última Valsa através de uma esplendorosa edição em Blu-ray.
[ ROCK AND ROLL GPS ]
Vale a pena, aliás, reconhecer o paradoxo em que passou a existir o Blu-ray: por um lado, e apesar das suas excepcionais qualidades, o formato não conquistou no mercado o lugar de evidência que muitos esperariam; por outro lado, a sua consolidação tem passado cada vez mais pelos clássicos em cópias restauradas.
Assim acontece neste caso, através de um edição comemorativa dos 40 anos do evento retratado — o concerto de despedida de The Band teve lugar no Winterland Ballroom, de São Francisco, a 25 de Novembro de 1976. A caixa, em formato de álbum (lembrando as clássicas dimensões dos discos de vinyl), inclui 4 CD com os sons integrais do concerto e vários ensaios, mais um livro de 74 páginas com preciosa informação escrita e magníficas ilustrações.
Os elementos de The Band — Rick Danko, Levon Helm, Garth Hudson, Richard Manuel e Robbie Robertson — emergem, assim, como polarizadores das virtudes clássicas do rock. E tanto mais quanto a sua despedida foi abençoada pela presença de uma impressionante galeria de notáveis, incluindo Bob Dylan, Eric Clapton, Joni Mitchell, Mavis Staples e Ringo Starr.
Filmando-os num palco revivalista, decorado com enormes candeeiros (do século XIX, dir-se-ia...), Scorsese celebra a energia das suas canções, observando-os como símbolos de um tempo em que a exposição ao público não obedecia à lógica das digressões actuais, preparadas como verdadeiras campanhas “eleitorais”. Cada concerto era vivido como um acontecimento total, um verdadeiro teste à verdade interior da música. Como diz um deles: “A estrada foi a nossa escola. Deu-nos um sentido de sobrevivência.”

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Os Beatles... e o nono dia da semana

Não tinham avisado ninguém, mas quando pisaram o palco instalado no meio do relvado do estádio de Candlestick Park, em São Francisco (Califórnia, EUA), a 29 de agosto de 1966, os Beatles sabiam que aquele era um lugar onde não queriam regressar. Os tempos estavam a mudar. E tanto o seu último álbum – Revolver, editado semanas antes – como o também recente Pet Sounds dos Beach Boys mostravam que o estúdio era agora um espaço com novas possibilidades a explorar para os criadores de música. E, sem vontade em gastar tanto tempo na estrada a repetir canções e cumprir rotinas promocionais, era no estúdio que queriam concentrar as atenções. Nos novos discos, nos novos desafios… Assim sendo, aquele seria um adeus às plateias. Esse fim de uma era foi o começo de uma ideia para que o cinema regressasse ao universo dos Beatles. E depois de uma consulta exaustiva aos arquivos conhecidos e de pedidos para que particulares lhe mostrassem o que para todos nós era até aqui ainda desconhecido, Ron Howard criou o incrível Eight Days A Week, uma viagem através da etapa de vida dos Beatles na qual o palco era a sua casa. É um relato naturalmente pensado para ser contado no tempo e no espaço habituais para uma ida à sala de cinema. E tem em si as personagens, as imagens, as surpresas, os momentos de glória e também os de drama que uma trama ao serviço de uma narrativa cinematográfica pode explorar.

E agora?

E agora chega a hora de levar a experiência para casa. E se a possibilidade de ver e rever, de parar e puxar atrás, é uma das realidades do visionamento caseiro, já a capacidade de juntar algo mais ao filme é também outro argumento que pode valorizar, depois de visto o filme na sala escura, uma nova etapa do nosso relacionamento com a obra, agora em casa… E o disco de extras justifica esta ideia. Há sequências de imagens montadas – criadas durante as mesmas entrevistas que geraram os planos usados no filme – que nos permitem olhares complementares. E ali tanto se fala da história criativa da autoria das canções, como se observa com maior detalhe a génese da banda. Há ainda um lote com uma série de atuações ao vivo de canções que podemos ver na íntegra. E também depoimentos extra entre os quais aprofundamos descobertas feitas em Eight Days a Week… Como nas memórias das passagens pela Austrália e Japão (aqui com um ponto de vista mais vincado sob o mapa político que então acolheu a chegada dos fab four) e as palavras de Ronnie Spector, que recorda como, a pedido dos Beatles, ela os foi “salvar” do cerco das fãs e os levou, sem que ninguém desse por isso, a um diner no Harlem, onde comeram sem que ninguém os incomodasse, vivendo momentos quase incógnitos quando eram as estrelas de que mais se falava naquele momento em Nova Iorque. Este disco extra só por si já justifica a edição em DVD e Blu-Ray… É um pouco como o nono dia, da semana de oito, que Ron Howard tão bem retratou.

quinta-feira, novembro 17, 2016

Para ler: 'Napoleon' de Abel Gance
em edição na era da alta definição


Um dos grandes lançamentos em Blu-ray desta reta final de 2016 devolve aos escaparates o clássico do cinema mudo de Abel Gance sobre Napoleão Bonaparte.

Podem ler aqui a crítica a esta edição publicada no Guardian.

terça-feira, julho 26, 2016

E as nossas salas ignoraram
um belo filme de Jeff Nichols...


E se, depois de histórias enraizadas entre comportamentos de personagens da América profunda, ao quarto filme Jeff Nichols olhasse para outros horizontes e experimentasse, pela primeira vez, uma narrativa numa dimensão diametralmente oposta à das realidades, medos e assombrações de figuras reais com que até aqui estava a construir uma das mais sólidas obras do cinema americano contemporâneo? Foi o que fez em Midnight Special, filme que tem a alma das memórias sci-fi spielberguianas de uns Encontros Imediatos de Terceiro Grau e E.T. - O Extraterrestre, junta uma evidente contaminação X-Files, mas não perde as marcas de identidade do seu cinema. Midnight Special é tudo isto. E é também um belíssimo filme. Pena que, entra a dinâmica bizarra de um mercado de distribuição nacional que muitas vezes não parece ter explicação, tenha ficado de fora do circuito das salas e surja agora, diretamemente, no circuito de home vídeo (em suportes de DVD e Blu-ray e via VOD).

A primeira qualidade de Midnight Special é a forma como Jeff Nichols - autor de Histórias de Caçadeira (2007), Procurem Abrigo (2011) e Fuga (2012) - não cede à vontade do espectador em querer logo saber o que se passa no ecrã. E durante largos minutos somos confrontados com ações e personagens, sem saber bem o que representam face ao jovem protagonista alegadamente raptado. Sabe-se que é o seu pai natural quem o tem em mãos e que, pelos vistos, o rapaz é dotado de raros e estranhos poderes, tanto que para o seu conforto (ou será defesa de quem o tem a seu lado? – não faço spoiler), ele está obrigado a andar de olhos vedados por uns óculos de natação e dorme com grandes auscultadores nos ouvidos. E, nota adicional, parece que só sai de casa durante a noite (ou, pelo menos, parece ter de evitar a luz do dia). No meio de tudo isto há uma estranha seita religiosa que parece ter lançado o aviso sobre o alegado rapto. E em cena entra ainda o FBI e a NSA, porque valores de segurança de dados secretos surgiram entre os sermões dessa seita. Confusos? Sim, também fiquei. Assim como dei por mim agarrado ao ecrã. Num livro seria um verdadeiro page turner...

Jeff Nichols convoca ecos de uma relação com o desconhecido que têm paradigma nos filmes clássicos de ficção científica que Spielberg realizou precisamente em 1977 e 1982. E junta através da personagem interpretada por Adam Driver uma dimensão à la Mulder e Scully, num domínio da investigação oficial que vive duplamente entre a necessidade de apurar factos e uma curiosidade pessoal sobre aqueles que tem na mira do seu estudo. O que faz de Midnight Special um caso “autoral” no universo do cinema de ficção científica atual é a forma como Jeff Nichols ali colocas as suas marcas pessoais. Que passam pelo reencontro do seu cinema com Michael Shannon (o pai do jovem que está no centro da trama), a forma de projetar (uma vez mais) toda a narrativa na América rural do nosso tempo e a estranheza com que caracteriza a seita que desempenha um papel importante no estabelecimento das muitas dúvidas com que o espectador é confrontado no lançamento da narrativa. O resto? Nada como ver o filme. E ter boas surpresas.

sábado, junho 11, 2016

Rolling Stones "stripped"

Em vários formatos, como diz a promoção. Ou seja, CD, DVD, Blu-ray e várias combinações de tais suportes: Totally Stripped relança a lógica de Stripped (1995), álbum em que os Rolling Stones propunham uma depuração de vários temas, despindo-os, de facto, de alguma electricidade, mesmo sem chegarem necessariamente à austeridade acústica — predominavam, tal como agora, as regravações de estúdio ou performances ao vivo. Aqui fica o exemplo exuberante de Miss You.
Em baixo, recorda-se a capa de Stripped e também o extraordinário teledisco da canção de Bob Dylan Like a Rolling Stone, dirigido por Michel Gondry — na discografia dos Stones, era uma das novidades absolutas desse álbum.



sexta-feira, março 25, 2016

"Spectre" em Blu-ray

Tempos houve em que as edições em DVD e, em particular, em Blu-ray se apresentavam, por regra, com uma variedade imensa de extras — a promoção falava mesmo em muitas horas e discos complementares de extras. Isso passou a ser a excepção. E mesmo a edição em Blu-ray de 007 Spectre chega ao mercado com uma modesta meia hora de conteúdos adicionais. Dito isto, importa valorizar o que é proposto: um documentário sobre a execução do fantástico plano de abertura [video] do filme, mostrando em particular os bastidores em que os 1500 figurantes foram vestidos e maquilhados. E deixando uma simpática mensagem de Sam Mendes: em tudo o que podia ser encenado fisicamente, ele dispensou os artifícios digitais. 

quarta-feira, outubro 21, 2015

Regresso a "Regresso ao Futuro" (1/3)

21 de Outubro de 2015 tornou-se um dia mitológico na história do cinema a partir do momento em que Marty McFly (Michael J. Fox), proveniente do ano de 1985, viajava no tempo e "aterrava" nessa data — hoje, portanto.
Aconteceu em Regresso ao Futuro II (1989), de Robert Zemeckis, e por isso o planeta está cheio de comemorações, incluindo edições em Blu-ray e um livro, Back to The Future - The Ultimate Visual History, recheado de documentos sobre os bastidores de rodagem da trilogia Back to the Future. Desse livro, precisamente, podemos conhecer algumas imagens nas páginas da Vanity Fair — memórias de um tempo que desafiou as medidas do tempo cinematográfico.
Michael J. Fox e Christopher Lloyd

sexta-feira, julho 25, 2014

"O Mascarilha" em Blu-ray

É um dos mais brilhantes, sofisticados e inteligentes "blockbusters" dos últimos anos. Penalizado por uma má carreira nos EUA (e também, há que dizê-lo, por alguma imprensa que só reage aos números de bilheteiras...), The Lone Ranger/O Mascarilha (2013), de Gore Verbinski, aí está numa magnífica edição em Blu-ray, integrando alguns extras bem sugestivos sobre as atribulações físicas de regressar ao deserto para, num misto de paixão e ironia, recriar as velhas glórias do Oeste.
Armie Hammer compõe um elegante Mascarilha, enquanto Johnny Depp, no papel do fiel índio Tonto, se excede na capacidade de transfiguração burlesca — em resumo, um filme realmente fiel ao património popular de Hollywood, marginalizado por um contexto em que a visão tecnocrática e simplista dos "efeitos especiais" é mais forte que a inteligência narrativa.

terça-feira, maio 20, 2014

Geração 'beat', versão dieta


A ideia de ver o jovem ator Daniel Radcliffe a vestir a pele de Allen Ginsberg pode, para muitos, ter representado um potencial motivo de interesse de Kill Your Darlings, filme de John Krokidas que teve estreia em Sundance em 2013.

Biopic, na verdade com mais ares de tele-filme que real interesse em explorar outras potencialidades do cinema, Kill Your Darlings recorda o momento em que Ginsberg entra na Columbia University e descobre que o seu caminho não é necessariamente o que é ditado pelas regras “clássicas”. É ali que conhece Lucien Carr (interpretado por Dane DeHaan) e, com ele, descobre as figuras de William Burroughs (numa criação ensopada em trejeitos vocais por Ben Foster, tentando mimetizar aquele que retrata) e Jack Kerouac (Jack Huston). A narrativa acompanha a junção destas almas rebeldes e visionárias, e tem como clímax um crime que terá repercussões nas vidas de todos eles e, inclusivamente, na sua escrita. Na verdade o filme está mais interessado nesse trajeto que nas figuras que ali reune.

Os ingredientes históricos poderiam fazer aqui nascer qualquer coisa que, na verdade, Kill Your Darlings não teve fôlego para criar. Há uns temperos de referências à génese da cultura beat, mas a evolução da trama não junta muito a um relato (já sabido) dos factos. Ginsberg e companhia mereciam melhor cinema.