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segunda-feira, janeiro 17, 2022

10 filmes de 2021 [10]


Danielle Arbid

"Desde o mês de setembro do ano passado, não fiz outra coisa senão esperar por um homem..." — o romance de Annie Ernaux expõe o feminino como território de uma multitude de desejos que não se aquieta em nenhuma identidade, combate ou militância: "apenas" um radicalismo sem contraponto. São raros os filmes que saibam encenar a carnalidade de tudo isso sem excluir, antes parecendo intensificar, uma verdade abstracta, sem sujeito nem objecto. É isso que Danielle Arbid consegue, contando com uma actriz mais além de qualquer matriz conhecida: Laetitia Dosch.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time / 3 - Being the Ricardos / 4 - Spencer / 5 - Funeral de Estado /

sábado, janeiro 15, 2022

10 álbuns de 2021 [10]

Billie Eilish

2021 foi o ano em que, a 18 de dezembro, Billie Eilish celebrou o seu 20º aniversário. Happier Than Ever surgiu a 30 de julho, afirmando uma identidade criativa a que não é estranha a serena resistência aos estereótipos "juvenis" que continuam a dominar a paisagem mediática global. Sempre com a preciosa colaboração do irmão, Finneas O'Connell (que em outubro lançaria o seu primeiro álbum a solo, Optimist), Billie é detentora de uma vibração pop que se amplia e transfigura no fluxo de um dizer/cantar que, na prática, a distingue de todos os fenómenos da mesma faixa etária. De facto, não a vemos — nem escutamos — como protótipo de uma qualquer idade, antes como expressão de uma verdade musical sem idade. Eis a faixa-título, espelho crítico de qualquer noção pitoresca de "felicidade", em performance em The Tonight Show, de Jimmy Fallon.


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sexta-feira, janeiro 14, 2022

10 filmes de 2021 [9]


Paul Schrader

Algumas das forças mais poderosas do mercado bem tentam desviar-nos da verdade original do cinema — personagens & actores. O certo é que a resistência envolve nomes como Paul Schrader, senhor de uma excelência narrativa que, neste caso, cruza o retrato de uma solidão radical (a do "contador" de cartas) com o espírito desencantado de uma parábola em que reconhecemos sinais, dores e traumas da história recente da América — com Oscar Isaac, um dos maiores actores deste tempo, a provar que o seu trabalho em Star Wars não passa de uma pobre figuração.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time / 3 - Being the Ricardos / 4 - Spencer / 5 - Funeral de Estado /

quarta-feira, janeiro 12, 2022

10 álbuns de 2021 [9]

BadBadNotGood

Leland Whitty + Chester Hansen + Al Sow: os canadianos BadBadNotGood renovam o seu gosto primitivo por um jazz improvisado que, em qualquer caso, não tem nada de banalmente nostálgico, já que se mantém disponível para as contaminações mais diversas, do R&B ao hip hop. Congregando músicos de muitas origens, incluindo o compositor brasileiro Arthur Verocai, este quinto álbum da discografia da banda é uma colecção de aventuras livres e contagiantes — ex.: Beside April.


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terça-feira, janeiro 11, 2022

10 filmes de 2021 [8]


Jane Campion

Se necessitásemos do mais sugestivo paradoxo para resumir o ano de 2021, ele aí está: eis, por um lado, um "western" capaz de evocar o capítulo de ambíguo revivalismo que, nas décadas de 60/70, foi gerado pelos estúdios clássicos de Hollywood; ao mesmo tempo, por outro lado, no panorama da produção do ano, este é um dos trunfos fortes de uma plataforma de streaming (Netflix). Com a singularidade suplementar de ser uma realização de uma mulher neozelandesa. O resultado, de cristalina perversidade (se tal é possível), possui a atracção de um circuito de intensidades pontuado por um enigmático erotismo.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time / 3 - Being the Ricardos / 4 - Spencer / 5 - Funeral de Estado /

segunda-feira, janeiro 10, 2022

10 álbuns de 2021 [8]

Lee Ranaldo

Tal como Thurston Moore, outro músico ex-Sonic Youth, Lee Ranaldo mantém uma actividade em que o primitivismo noise se cruza com muitas derivas experimentais e poéticas. O seu breve In Virus Times (22 minutos) assume-se como objecto de tempos pandémicos, apresentando-se como uma sinfonia de contenção, contemplação e libertação: contenção da frieza do tempo, contemplação dos gestos criativos, libertação das linguagens. Em quatro andamentos, devidamente numerados — eis a Part 3.


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domingo, janeiro 09, 2022

10 filmes de 2021 [7]


Nanni Moretti

Há um desespero artístico que atravessa esta paisagem cinematográfica em que vivemos, ou nos obrigam a viver: perante as agressões estéticas dos super-heróis, onde está a dimensão social do cinema? Pois bem, Nanni Moretti não desiste. E resiste: o seu Tre Piani é um legítimo e vrilhante herdeiro da mais depurada tradição social do cinema clássico italiano, dando-nos a ver um mundo de muitas clivagens familiares, afectivas e comunitárias. Tudo isso sem ceder a estereótipos (tele)novelescos, respeitando a irredutibilidade de cada personagem — até ás últimas consequências.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time / 3 - Being the Ricardos / 4 - Spencer / 5 - Funeral de Estado /

10 álbuns de 2021 [7]

Marisa Monte

Passaram-se dez anos desde O Que Você Quer Saber de Verdade, com o segundo álbum dos Tribalistas pelo meio (2017). O certo é que a música de Marisa Monte não se define pelas alternâncias temporais, antes através da persistência de uma atitude criativa em que as marcas do samba são apenas um detalhe de algo mais essencial. A saber: uma pose romanesca em que o gosto introspectivo não exclui, antes convoca, uma delicada poética descritiva, não poucas vezes reavaliando os sentidos de cada identidade — eis Totalmente Seu.
 

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sexta-feira, janeiro 07, 2022

10 filmes de 2021 [6]


Paul Thomas Anderson

Regresso às origens. Não apenas pelas memórias mais ou menos auto-biográficas de San Fernando Valley, zona onde Paul Thomas Anderson cresceu e continua a habitar. Também pelo reencontro com uma depuração clássica que começa na elaborada complexidade das personagens, passando, obviamente, pela naturalidade visceral dos actores (nada a ver, entenda-se, com o degradado naturalismo em que vivemos, nem com qualquer noção pueril de improvisação). Neste romance juvenil que ainda acredita em algum romantismo redentor, cabe aos intérpretes, justamente, pontuar o envolvimento emocional do espectador: Alana Haim e Cooper Hoffman são as revelações do ano.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time / 3 - Being the Ricardos / 4 - Spencer / 5 - Funeral de Estado

quarta-feira, janeiro 05, 2022

10 álbuns de 2021 [6]

Jonny Greenwood

Para Jonny Greenwood, 2021 foi também um extraordinário ano cinematográfico, compondo música para O Poder do Cão, Licorice Pizza e Spencer. Se dúvidas houvesse sobre a sua singularidade e autonomia enquanto autor de bandas sonoras (não uma mera "derivação" dos Radiohead), a pluralidade de registos do seu trabalho é esclarecedora. O caso de Spencer é tanto mais fascinante quanto a sua música, entre a austeridade clássica e alguns momentos de vibração rock, se adequa, ponto por ponto, à deambulação emocional da princesa filmada por Pablo Larraín — a começar pelo princípio, ou seja, este Arrival.
 

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terça-feira, janeiro 04, 2022

10 filmes de 2021 [5]


Sergei Loznitsa

Proeza rara no universo documental: recolher os documentos de outros para elaborar um novo discurso sobre a sua linguagem — há uma experiência do mesmo teor em Autobiografia de Nicolae Ceausescu (2010), de Andrei Ujica, centrado na herança social e simbólica do ditador romeno. Loznitsa expõe o sistema comunista a partir das cerimónias, rituais e discursos que, em março de 1953, encenaram a morte de outro ditador, Josef Estaline, expondo um modus operandi em que a noção de "povo" envolve, de uma só vez, a manipulação política e a chantagem moral. O cinema reafirma-se, assim, não apenas como linguagem com imagens, mas também espelho crítico das próprias imagens.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time / 3 - Being the Ricardos / 4 - Spencer

segunda-feira, janeiro 03, 2022

10 álbuns de 2021 [5]

Emily D'Angelo

Enargeia: palavra do grego antigo que envolve uma ideia de vibração que se concretiza em algo de eminentemente visual... Já consagrada no circuito das mais importantes, e também mais simbólicas, salas internacionais, Emily D'Angelo, canadiana de ascendência italiana (n. 1994), vai protagonizar, por certo, um capítulo muito especial da história das mezzo sopranos. Há no seu álbum de estreia um misto de delicadeza e intensidade que se conjuga, por inteiro, no feminino, cantando temas de quatro compositoras: uma do século XII, a abadessa alemã Hildegard von Bingen (1098-1179) e três americanas contemporâneas, Sarah Kirkland Snider (n. 1973), Missy Mazzoli (n. 1980) e Hildur Gudnadóttir (n. 1982), esta última vencedora de um Oscar pela banda sonora de Joker (2019) — puro encantamento, aqui exemplificado por The Lotus Eaters, de Snider.
 

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10 filmes de 2021 [4]


Pablo Larraín

Spencer. Ou seja: o apelido de antes de tudo acontecer. Ou ainda: Pablo Larraín encara a história pública e mitológica da Princesa Diana (1961-1997) como um território de narrativas que importa devolver a uma identidade original, não tanto esquecida, mas reescrita em nome da lenda mediática (se é que os media ainda possuem capacidade e talento para serem dignos da vocação literária...). Kristen Stewart, como nunca a vimos, expõe essa solidão primordial de quem, literalmente, já não sabe ler o mapa que lhe entregaram — há uma beleza radical nesta afirmação de um corpo, uma voz e todos os silêncios a que tem direito.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time / 3 - Being the Ricardos

10 álbuns de 2021 [4]

Floating Points, Pharoah Sanders & The London Symphony Orchestra

Do mais improvável dos encontros nasce a beleza austera do mais depurado dos álbuns: Floating Points (nome artístico do britânico Sam Shepherd, produtor da área electrónica) compôs uma obra (sinfonia?) em nove movimentos, integrando o saxofone do veterano americano Pharoah Sanders (colaborou com John Coltrane nos anos 60!). A sua ambição (sinfónica, justamente) acabou por envolver a London Symphony Orchestra, de tudo isso resultando uma textura de ambiências (palavra equívoca...) que, em boa verdade, possui o poder encantatório de uma longa frase musical — surreal, mas transparente.
 

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1 - Théotime Langlois de Swarte e Tanguy de Williencourt / 2 - Sarah Mary Chadwick / 3 - Elizabeth King

domingo, janeiro 02, 2022

10 filmes de 2021 [3]


Aaron Sorkin

Na convivência cúmplice, por vezes perversa, muitas vezes cúmplice & perversa, de "cinema" e "televisão", o filme de Aaron Sorkin investe — e, no limite, inverte — o cliché que trata a ficção como o "contrário" da vida vivida. Nesta evocação do trabalho de Lucille Ball (Nicole Kidman, um prodígio de composição) na série I Love Lucy (1951-57), é-nos mostrado como qualquer fronteira é pura convenção, iluminando a mais inesperada demanda: estando ou não sob o olhar das câmaras, Lucille Ball ama a verdade. Há uma comovente solidão num filme como Being the Ricardos: trata-se de incrustar no território mediático a exigência heróica de alguma forma de verdade.
 

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1 - West Side Story / 2 - Time

sábado, janeiro 01, 2022

10 álbuns de 2021 [3]

Elizabeth King

Nascida em Grenada, Mississipi, Elizabeth King foi uma voz popular do gospel, entre 1970 e 1973, integrando o grupo The Gospel Souls. Depois, retirou-se para tratar dos seus 15 filhos, continuando a cantar na igreja e num programa semanal de rádio dedicado ao gospel. Até que em 2019 a Bible & Tire Recording, de Memphis, editou Elizabeth King and The Gospel Souls, uma antologia de singles lançados na década de 70. Daí surgiu o convite para, aos 77 anos, gravar o seu primeiro álbum — é a estreia do ano e este o seu tema-título.
 

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1 - Théotime Langlois de Swarte e Tanguy de Williencourt / 2 - Sarah Mary Chadwick

sexta-feira, dezembro 31, 2021

10 filmes de 2021 [2]


Garrett Bradley

Acontecimento raro, prodígio narrativo: para dar conta — documentar é a palavra certa — da odisseia de uma mulher que tenta por todos os meios obter a redução da pena de prisão do marido (60 anos, por ter participado num assalto a um banco), Garrett Bradley utiliza os registos em video da sua protagonista, organizando uma viagem que tem tanto de exercício intimista como de metódica problematização dos mecanismos da lei. Muito para lá de qualquer cliché televisivo, obviamente alheio às estratégias do "escândalo" e do "choque", eis um objecto que exalta os valores de um genuíno gosto documental.
 

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1 - West Side Story

quarta-feira, dezembro 29, 2021

10 álbuns de 2021 [2]

Sarah Mary Chadwick

Notícias da Austrália: sediada em Melbourne, Sarah Mary Chadwick apostou em depurar a sua identidade pop/rock, até nada mais restar a não ser a precisão austera de um piano e a prodigiosa energia dramática da sua voz. Gerado por múltiplos traumas e perdas na sua vida pessoal, Me and Ennui Are Friends, Baby — o título tem qualquer coisa de programa romanesco, porventura terapêutico — possui o radicalismo de uma aventura confessional, sem nunca ceder a qualquer exibicionismo (de quem canta) ou atrair a facilidade voyeurista (de quem escuta). Triste. Encantatório. Libertador. Eis um título emblemático: Full Mood.
 

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1 - Théotime Langlois de Swarte e Tanguy de Williencourt

segunda-feira, dezembro 27, 2021

10 filmes de 2021 [1]


Steven Spielberg

Um musical gerado num contexto industrial dominado e, em muitos aspectos, atrofiado pelos super-heróis da Marvel e afins? É verdade. E, para mais, um musical apostado em reavivar a mágoa romântica do original de Leonard Bernstein/Stephen Sondheim, estreado na Broadway em 1957 (importa relembrar que o filme de Spielberg não é um remake do filme de 1961, assinado pela dupla Robert Wise/Jerome Robbins). Verdadeiro ovni de 2021, nele encontramos a energia de um cinema sem barreiras formais, ligando a música com o fresco social, as atribulações do quotidiano com a parábola política e, por fim, o melodrama com a tragédia — sem igual, isto é, literalmente, um objecto de esplendorosa solidão criativa.
 

domingo, dezembro 26, 2021

10 álbuns de 2021 [1]

Théotime Langlois de Swarte e Tanguy de Williencourt

Um violinista, Théotime Langlois de Swarte, e um pianista, Tanguy de Williencourt, protagonizam uma aposta invulgar: revisitar o lendário concerto de 1907, organizado por Marcel Proust para os seus amigos. O resultado é, de facto, um "concerto reencontrado", até porque os instrumentos usados são preciosidades que nos projectam na enigmática transparência do tempo: um Stradivarius de 1708 e um piano Erard de 1891. Reynaldo Hahn, Frédéric Chopin e, sobretudo, Gabriel Fauré são alguns dos compositores convocados para uma experiência fascinante e paradoxal, numa palavra, intemporal — este é um registo de Proust, Le Concert Retrouvé, em Paris, no Musée de la Musique, com realização de Julien Cadilhac.