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quinta-feira, novembro 28, 2019

A futilidade do IMDb
contra Martin Scorsese

1. As recentes opiniões expressas por Martin Scorsese sobre os filmes do chamado MCU (Marvel Cinematic Universe) são tudo menos irresponsáveis. Decorrem, aliás, de um profundo amor pelo cinema. O que ele discute está muito para além de qualquer guerra de polegares ao alto para esgotar os filmes num conflito de "bons" e "maus"... No limite, trata-se de reflectir sobre o poder devastador que os filmes da Marvel passaram a ter nos mercados de todo o mundo, chamando a atenção para a perda cultural e económica (sublinho: económica) que será o eventual esvaziamento dos valores narrativos e de consumo (sublinho: consumo) enraizados em mais de um século de história do cinema.

2. Já sabíamos que o IMDb funciona como megafone promocional dos filmes da Marvel e, de um modo geral, de todos os modelos que, com resultados melhores ou piores, estão associados ao mercado dos super-heróis. Como se isso não bastasse, agora, o site dá-se ao luxo de descontextualizar e manipular as declarações de Scorsese para as reduzir a um esquematismo estúpido e, pior um pouco, para sugerir que podemos encontrar uma avalanche de pontos comuns entre os seus filmes e os filmes do MCU.

3. A provocação pueril do IMDb vai ao ponto de argumentar (?) que, entre outras "semelhanças", o facto de as técnicas de rejuvenescimento digital dos actores terem sido previamente usadas no MCU transforma O Irlandês numa variação de matrizes... da Marvel. É como se se dissesse que todos os filmes a preto branco são descendentes directos de Citizen Kane! Só vendo (e escutando) é possível acreditar que a futilidade "informativa" tenha chegado a este cinismo — brincar com coisas sérias passou a ser a lei da cultura mediática dominante.

terça-feira, agosto 06, 2019

Billie Eilish — elogio da estranheza

O álbum de estreia de Billie Eilish, When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, já nos tinha alertado para a singularidade, fascínio e inquietação dos seus 17 anos. Estamos, afinal, perante uma pessoa cuja identificação poderá ser resumida assim: "Ela é tão Gen Z que faz com que os de vinte e poucos anos pareçam antigos. Nunca comprou um CD. Diz coisas como 'Nunca vou ter 27 anos — é demasiado velho.' É também, provavelmente, a única estrela pop que ainda consulta um pediatra."
As palavras são de Josh Eells e pertencem ao seu magnífico artigo publicado na edição de Agosto da Rolling Stone'Billie Eilish e o triunfo da estranheza' (ou do "estranho", já que a palavra utilizada é weird e não weirdness) —, dando conta do seu dia a dia, entre o espaço familiar e as performances públicas.
Assumindo a nobre tradição do jornalismo americano dedicado às convulsões da cultura popular (de que a Rolling Stone continua a ser uma referência incontornável), a escrits de Eells encontra uma correspondência essencial no portfolio assinado por Petra Collins. As imagens de Eilish expõe, assim, as ambivalências, porventura as contradições, de um modo de ser artista em que a intensidade da comunicação coexiste com a estranheza (a palavra regressa...) de uma nova arqueologia da adolescência e da idade adulta.
Que vemos, por exemplo, na espantosa fotografia da capa? A pose nonchalante da estrela ou o símbolo de uma juventude à procura de um sentido para a sua história mirabolante? A tristeza vulnerável do olhar vale mais, ou vale menos, que o marketing dos ténis? E as mãos? Escondem o sexo ou proclamam que já não há nada para descobrir? — a ler, sem dúvida, até porque sentimos no encontro de Eells e Eilish (incluindo a sua espantosa família) um raro fluxo de ternura.

>>> Dois videos da Rolling Stone: sobre a sessão fotográfica da capa e respondendo ao questionário 'The First Time'.




>>> You Should See Me in a Crown — performance ao vivo.


>>> Billie Eilish no arquivo da Rolling Stone.

sábado, abril 20, 2019

Notre Dame ou os dias da Europa

Perante as imagens de destruição da Notre Dame de Paris, todos evocamos a grandeza histórica da nossa Europa. Será que isso basta para sermos realmente europeus? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Abril), com o título 'A Europa do nosso descontentamento'.

Contemplo as imagens de destruição da Notre Dame de Paris. Nos jornais e televisões, nos noticiários televisivos, o fogo acorda em nós a certeza amarga de uma impotência que importa superar, quanto mais não seja porque sabemos que o fazer da história é um infinito labor de construção e reconstrução, perdição e esperança.
Sinto-me, por isso, próximo de todos os discursos que apontam Notre Dame como símbolo de uma entidade em que, subitamente, para além de todas as crises, todos nos reconhecemos. A saber: esse lugar geográfico e mítico a que damos o nome de Europa.
Ao mesmo tempo, a sensação de comunhão face à vulnerabilidade da Notre Dame acorda em mim um outro sentimento que, mal ou bem, é também uma forma de pensamento. Que acontece (que está a acontecer) quando necessitamos de imagens trágicas como as que nos chegam de Paris para nos afirmarmos europeus?
DN (16-04-19)
Não quero encerrar a questão em generalizações automáticas, dessas que podem funcionar meia dúzia de dias nas manchetes televisivas para depois se desvanecerem numa agonia silenciosa de esquecimento. Ainda assim, pergunto-me se esta comunhão não envolve os valores (ou a falta deles) do mais corrente niilismo. Como se os contrastes, porventura as contradições, que todos sentimos — entre a utopia europeia e a sua vivência política — necessitassem de imagens cruas de destruição ou morte para a Europa reaparecer à tona do nosso oceano de diferenças.
Para nos ficarmos pelas imagens, precisamente, lembremos que vivemos numa Europa cujo espaço televisivo está todos os dias contaminado pela miséria conceptual e moral da “reality TV” e seus derivados. A formatação obscena dos comportamentos humanos promovida pela “reality TV” (com especial evidência para a coisificação sexual de homens e mulheres) transformou-se mesmo num elemento corrente de muitos modelos de comunicação televisiva — ou, como dirão os “especialistas”, um formato.
Não vejo, não escuto os protagonistas da cena política a defender uma ideia primordial de Europa face a essa metódica irrisão dos laços humanos e da mais nobre noção de humanismo. Vejo, isso sim, e escuto-os, a dar conta da tristeza radical com que contemplam as imagens de Notre Dame.
No meu recanto individual, partilho tal tristeza e acredito que os projectos de reconstrução se vão consumar, superando a destruição física e renovando o nosso amor por aquela igreja e o seu tocante simbolismo. Pergunto-me apenas se (e como) é possível termos mais Europa nos outros dias, aqueles em que o fogo não nos alerta para a ancestral excelência da nossa identidade colectiva.

quinta-feira, setembro 20, 2012

"Morangos com Açúcar": o casting

Todos os dias encontramos nas televisões personagens muito sérias e preocupadas, defendendo a "juventude", a "educação" e os "valores" que transmitimos às novas gerações... Um mistério que está por esclarecer é o facto de a esmagadora maioria dessas personagens darem mostras de uma demissão (cultural e parental) que as leva a omitir a mais discreta referência às próprias televisões como factor de (des)educação.
Seria interessante, por exemplo, saber o que pensam deste anúncio, para um casting, inserido num site de Morangos com Açúcar. Mesmo não discutindo a estética de anúncio de shampoo de quinta ordem, vale a pena fazer click e perceber que os candidatos são convidados a responder a cinco perguntas. A primeira tem a ver com a percepção que o próprio tem da imagem que dá para os seus amigos. As quatro opções de resposta envolvem uma profundidade filosófica que vale a pena registar: "Sou o centro das atenções / Divertido / Calado / Chato."
Em todo o caso, será a pergunta nº 3 que nos projecta num imenso e fascinante domínio transcendental. Assim:


Aqui está, então, como se consagraa a mui nobre arte de representar. Gil Vicente? Molière? Tennessee Williams?... Nada disso. Procura-se apenas quem encaixe nas categorias do "arrumadinho", do "atrevido" ou da mais procurada, isto é, "bué de bem disposto".
É com isto que se está a construir um frondoso imaginário "juvenil". Quando é que os nossos agitados comentadores de política começam a perceber que estão a passar ao lado dos temas que, realmente, convocam a sua inteligência?

segunda-feira, março 21, 2011

"New York Times"... para além do papel


Todos sabemos que o futuro dos jornais vai passar... para além do papel. Em boa verdade, isso já está acontecer. O certo é que ninguém tem muitas certezas sobre o modo como os jornais poderão converter-se aos formatos da Net. Acima de tudo, a pergunta impõe-se: como é que o próprio objecto jornal, mesmo virtual (sobretudo virtual), irá ser pago? Questão tanto mais delicada quanto a cultura do "livre" acesso, para além dos muitos equívocos culturais que vai gerando, criou também uma vasta franja de consumidores que confunde o "gratuito" com uma noção automática de "liberdade" de informação.
O New York Times, título de referência da nobreza jornalística, ensaia agora um passo decisivo. Ou que se pretende decisivo. Assim, a partir de 28 de Março, inicia-se a época das assinaturas digitais — para telemóvel, para iPad e seus derivados ou ainda permitindo um acesso ilimitado através de qualquer dispositivo. Esta última alternativa, naturalmente a mais dispendiosa, custa 35 dólares (cerca de 25 euros) todas as quatro semanas.
O futuro da imprensa é já hoje. Ou a partir do dia 28.

>>> O novo plano de assinaturas do NYT.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

"Don't ask, don't tell": uma história americana

Cartoon de CHAN LOWE
Sun Sentinel (Florida)

Numa altura em que (com ou sem WikiLeaks) muitos discursos nos querem fazer ver a América como um bloco imóvel e maligno, importa sublinhar a notícia de uma recente votação (63 votos contra 33) no Senado norte-americano: assim, foi decidido pôr fim à legislação que impedia que aqueles que demonstrassem "uma propensão para tentar praticar ou envolver-se em actos homossexuais" prestassem serviço nas forças armadas dos EUA [ver, em baixo, video da CNN].
Celebrando o facto de gays e lésbicas já "não terem que se esconder", o Presidente Barack Obama resumiu o valor simbólico da decisão, lembrando: "A luta pelos direitos civis — uma luta que continua — já não precisará de incluir este."
Na prática, mesmo se os efeitos da medida só serão sensíveis daqui a alguns meses, termina assim uma atitude de ocultação e silêncio que ficou resumida na célebre expressão por que era conhecida a legislação agora anulada: "Don't ask, don't tell" (à letra: "Não perguntes, não digas"). É uma história americana que, em última instância, transcende qualquer fronteira nacional. Em boa verdade, esse é um desafio de muitas das convulsões do mundo contemporâneo: o de nos fazer viver, e pensar o nosso viver, para além do conceito clássico de nação. E também para além de qualquer visão formatada da sexualidade — aliás, das sexualidades.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Século XXI — ser ou não ser (2/2)


Na sua edição de 5 de Dezembro, a revista "Notícias Magazine", do Diário de Notícias, foi dedicada às ideias que dominaram a primeira década do século XXI, organizadas a partir de nove temas: Ambiente / Crise / Redes Sociais / Mulher / Justiça / Eu / Terrorismo / Genoma — esta é a segunda parte do texto que escrevi, para ilustrar o tema "Eu", com o título 'Depois do apocalipse'.

[ 1 ] Veja-se como a mais banal “personalização” e, sobretudo, os seus excessos e disparates foram promovidos à condição de espelho da democracia. Desde logo, online. A blogosfera, porventura a mais contraditória e fascinante invenção da celebração contemporânea do “Eu”, é também um dos espaços mais corrompidos pela confusão entre os confrontos da comunicação e a obscenidade dos conflitos: mentir, difamar e insultar o(s) outro(s) é mesmo frequentemente celebrado como apoteose do diálogo democrático. Faça-se um blog sem comentários e aguardem-se as reacções: haverá sempre quem, ofendido em nome do “transparência” da Internet, garanta que a democracia não está a ser devidamente satisfeita.
Há um preço radical que vamos pagando com tudo isto, e por tudo isto: é o da trágica decomposição da Política como espelho nobre das nossas diferenças, e também da nossa capacidade de diálogo. As esmagadoras percentagens de abstencionistas nos actos eleitorais são disso o sinal mais evidente, tristemente recalcado por quase todos actores da vida política (e também, claro, pelo reaccionarismo filosófico das televisões, apenas empenhadas em gerir a sua realidade alternativa). Neste mundo saturado de ilusões de oportunidades para dizermos “eu” e proclamarmos a nossa “individualidade”, tornou-se cada vez mais problemático fazer passar o valor mais clássico, e também mais visceral, da política: Nós.
No século XX, “freudiano”, aprendemos essa lição difícil, e dificilmente sensual, de que todas as ideias passam pelo corpo. Mesmo, ou sobretudo, quando, de acordo com a hipótese formulada por Roland Barthes [foto], o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu. Neste nosso presente de infinitas redes de comunicação, o corpo reduziu-se a um “objecto” mutável, tão importante e tão irrisório para a obrigatória personalização como o telemóvel ou o Facebook.
Porventura não por acaso, em 1999, portanto nas vésperas do século XXI, um filme de David Fincher, Clube de Combate (baseado no livro homónimo de Chuck Palahniuk), legou-nos um herói emblemático deste apocalipse identitário: Tyler Durden (interpretado por Brad Pitt) é esse jovem sem juventude que promove combates em que a única regra é... não haver regras. Se for caso disso, até à morte dos lutadores. Porquê? Por nada. A não ser, talvez, a transparência gélida de uma nova religião sem deuses. É ele que o diz: “Só podemos ressuscitar depois do desastre.”
Ainda assim, na sua fúria destrutiva, Tyler Durden conserva a paixão da palavra poética. É um herói do nosso presente, mas com raízes num tempo primitivo, clássico e político. Será que nos vamos esquecer desse tempo em que havia amigos sem estar online? Era um tempo em que outro poeta, Herberto Helder, escrevia: “Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.”

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Século XXI — ser ou não ser (1/2)

De uma representação de Hamlet, pela Saratoga Shakespeare Company

Na sua edição de 5 de Dezembro, a revista "Notícias Magazine", do Diário de Notícias, foi dedicada às ideias que dominaram a primeira década do século XXI, organizadas a partir de nove temas: Ambiente / Crise / Redes Sociais / Mulher / Justiça / Eu / Terrorismo / Genoma — esta é a primeira parte do texto que escrevi, para ilustrar o tema "Eu", com o título 'Depois do apocalipse'.

A 15 de Maio de 1871, numa célebre carta ao seu amigo Paul Demeny, o francês Arthur Rimbaud condensou a sua solidão criativa numa expressão que se transformaria numa espécie de lema existencial para o homem do século XX: “Eu é um outro.”
De que falava, afinal, o poeta? Celebrando a necessidade de lidar com “todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura”, Rimbaud atribuía ao poeta (“Poeta”) um radical programa de sofrimento: “Inefável tortura em que ele tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que entre todos se transforma no grande doente, no grande criminoso, no grande maldito — e no supremo Sábio.”
No século XXI, já não há poetas malditos. Nem solidões radicais. Mas temos o Facebook e a sua estonteante glória: mais de 500 milhões de pessoas inscritas numa rede de “amigos” (espantosa banalização de uma palavra que já teve o valor sagrado de uma raridade) que lhes garante que o seu “eu” está sempre em ligação com algum “outro”.
Na página de entrada do Facebook , um austero mapa do mundo, habitado por uma série de rudimentares figurinhas humanas, sugere infinitas ligações entre as suas personagens. Qual a distância entre o estudante universitário de Harvard, fechado no quarto, e o pastor errante na imensidão das planícies da Mongólia? Entre o esquimó recolhido no seu iglô e o africano à procura do último santuário dos elefantes? Nenhuma… Click! E estamos do outro lado do planeta! Ou, pelo menos, protagonizamos a ilusão de viajar num mapa virtual.
Acabou-se, assim, a angústia do “ser ou não ser” do Príncipe da Dinamarca: o outro é, agora, apenas uma variante electrónica do meu eu. Entrámos na idade do narcisismo sem culpa. E se alguém evocar as lições cruéis de Sigmund Freud (ele que trabalhou a difícil herança de Rimbaud, enfrentando os medos e fantasmas do nosso século XX), corre o risco de passar por estúpido e pretensioso. Ou apenas de cometer o pecado de estar offline. Nas auto-estradas da informação, Shakespeare [imagem] viu-se coagido a mudar de emprego: estar ou não estar online, eis a questão.
Não admira que, socialmente, nos ofereçam todos os dias os mais variados privilégios desse “abre-te Sésamo!” contemporâneo que é a personalização. Tudo, mas mesmo tudo, passou a ser personalizado: os gadgets do automóvel, o desenho da mobília, as compras do supermercado... O telemóvel, essa pedra preciosa da comunicação, instalou-se no nosso quotidiano como o objecto supremo da personalização. E tanto mais quanto, todos os dias, alguma marca nos lança à cara mais uma promoção que garante mais possibilidades de ligação por melhor preço.
A tragédia íntima do nosso viver futurista desenha-se aí: somos educados apenas para desejar cada vez mais circuitos de informação, mas já quase não se pensa que informação circula e, sobretudo, o que fazemos com ela. O adolescente online faz mesmo gala em coleccionar mais faixas de música do que aquelas que a sua existência mortal alguma vez lhe permitirá escutar. Isto para já não falarmos do facto de os ruídos das linguagens dominantes (a começar pela publicidade televisiva) nos terem feito esquecer que saber escutar é uma arte eminentemente humana, sem a qual nenhuma partilha é possível.

[continua]

domingo, agosto 01, 2010

Música coral para o século XXI

Um compositor do século XXI. É assim que podemos começar por apresentar o norte-americano Eric Whitacre (n. 1970), autor sobretudo de música coral cuja obra começa a ganhar grande visibilidade, quer através das formas mais “clássicas” de trabalho (ou seja, dos palcos dos concertos aos discos), quer explorando ferramentas de comunicação do nosso tempo (a Internet, em concreto o “coro virtual” que criou no YouTube). No ano em que acaba de assinar um acordo de exclusividade (como intérprete) com a Decca Classics, prometendo um primeiro disco – com o título Light & Gold – para o mês de Outubro, acaba de ver uma série de obras corais gravada pela Naxos neste Choral Music, contando com o coro Elora Festival Singers (de Toronto), dirigido por Noel Edison, ocasionalmente chamando a cena o pianista Leslie De’Ath e a percussionista Carol Bauman.

Natural de Reno, no Nevada, Eric Whitcare iniciou os seus estudos na universidade local, completando-os mais tarde na Julliard School, onde teve entre os professores a figura de John Corigliano. Em disco estreou-se em 1997, a sua discografia até ao momento tendo em Cloudburst (Hyperion, 2006) o seu maior triunfo, valendo-lhe não apenas vendas monumentais, como inclusivamente a nomeação para um Grammy. Choral Music recolhe uma série de pequenas peças de música coral, cada qual nascendo da relação com as palavras de um poema. “Como copositor de música coral a minha primeira responsabilidade é para com o poema”, começa por explicar numa nota que inclui no booklet. Revela então que, quando aborda um poema, começa primeiro por tentar compreender o seu sentido. E, depois, procura, como literalmente justifical silenciar-se a si mesmo, “em busca das notas que estão já escondidas entre as palavras do poeta”. Nesta edição da Naxos, entre os dez poemas que transformou em obras de música coral encontramos palavras assinadas por nomes como Octavio Paz ou e.e. cummings).

É frequente vermos os nomes de Arvo Pärt ou John Tavener (ambos com importante relação com a música coral nas respectivas obras) apontados como primeiras referências para localizar os caminhos pelos quais segue a música de Eric Whitacre (e a contracapa desta edição da Naxos não é excepção). Há algumas afinidades, é certo. Tal como em alguma da música de Pärt, Whitcare revela um focar dos intreresses na exploração da sonoridade e, consequentemente, numa ideia de experiência da música como um todo para o ouvinte , secundarizando contudo outros elementos. Como explica Tim Sharp no booklet, a melodia, “âncora convencional para a maioria das composições” não é “um tópico em consideração nesta música”. A sonoridade é encontrada na soma das vozes presentes, das suas diferenças (do timbre à entoação) acabando por ganhar forma uma música que, feita de discretas texturas, acaba assim, por fazer da reunião das mais pequenas subtiliezas a sua força.



Imagens de uma interpretação de Lux Aurumque, uma das obras que ouvimos neste novo disco, contudo aqui numa interpretação pelo coro virtual que o compositor criou no YouTube. São 200 vozes, cada uma gravada em sua casa, frente ao computador, aqui virtualmente arrumadas num ensemble maior.