Mostrar mensagens com a etiqueta Victor Kissine. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Victor Kissine. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Os melhores discos de 2013 (N. G.)



Juntar num mesmo disco um manifesto político e uma perspetiva musical que olha em frente, desafiando (em vez da mais habitual cenografia voz e guitarra tantas vezes usada quando se pretende debater causas). Foi o que fizeram os suecos The Knife. Sucessor de Silent Shout (2006) e nascido na sequência de uma experiência nos palcos da ópera com Tomorrow In A Year, o álbum Shaking The Habitual mostrou por um lado uma alma interventiva com vontade de discutir questões de género, de igualdade de oportunidades ou de uma mais justa distribuição de riqueza (juntando mesmo uma BD para levar o debate a um patamar artístico e político ainda mais completo) e, por outro, uma abordagem à composição com vontade de olhar adiante na utilização das electrónicas, experimentando mesmo uma certa aspereza e angulosidades num quadro de ideias que faz deste um dos discos mais visionários do nosso tempo. A vontade de procurar novos caminhos habita também o álbum Matangi de M.I.A.. O reencontro de Nick Cave com os Bad Seeds deu-lhe o seu melhor disco de sempre. O regresso de David Bowie foi um dos casos maiores do ano. Os diálogos de John Grant com as electrónicas confirmaram as promessas do álbum de estreia a solo. E, com nova alma (ler ânimo) os Arcade Fire voltaram a ser entusiasmantes. Breve retrato de um ano que teve discos dos These New Puritans, James Blake, Kanye West e Disclosure (reativando ecos da deep house) entre os seus melhores. Além destes dez títulos o melhor de 2013 no departamento pop/rock e periferias passa ainda por discos de nomes como Mark Eitzel, Darkside, Pet Shop Boys, Julianna Barwick, Alela Diane, Major Lazer, Justin Timberlake, Julian Cope, Vampire Weekend e Elvis Costello com os The Roots.

1. The Knife, Shaking The Habitual (Rabid)
2. M.I.A., Matangi (Interscope)
3. Nick Cave & The Bad Seeds, Push The Sky Away (Bad Seeds, Ltd.)
4. John Grant, Pale Green Ghosts (Bella Union)
5. David Bowie, The Next Day (ISO Records)
6. Arcade Fire, Reflektor (Merge)
7. These New Purtitans, Field of Reeds (Infectious Music)
8. James Blake, Overgrown (Polydor)
9. Kanye West, Yeezus (Roc-A-Fella)
10. Disclosure, Settle (Island)


Canção do ano


A 8 de janeiro o mundo acordava com uma nova canção de David Bowie, a sua primeira nova canção em dez anos. Com uma carga de memórias, transportando-nos para os dias em que viveu em Berlim, Where Are We Now foi o cartão de visita perfeito para o álbum que chegaria dois meses depois. Outra das grandes surpresas do ano chegou com David Sylvian, que editou em formato de single (num vinil de dez polegadas e lançamento digital) o tema Do You Know Me Now?, onde retomou as linhas mais clássicas de composição que lhe deram em Secrets Of The Beehive (1987) a sua obra-prima em disco. Entre as grandes canções do ano está John Grant e também Nick Cave, com Jubilee Street, o momento maio do alinhamento do álbum que lançou logo no início do ano. Ecos do psicadelismo dos sessentas iluminam San Francisco, o tema que anunciou a chegada do segundo álbum dos Foxygen. E em Love Is A Bourgeois Construct reencontramos o charme e a perspicácia do melhor da obra dos Pet Shop Boys num tema que usa elementos de uma composição de Michael Nyman que, por sua vez, cita Henry Purcell. Entre os melhores do ano estão ainda temas do projeto Major Lazer (com a voz de Ezra Koenig, dos Vampire Weekend), da dupla alemã Coma, de uma colaboração de Blixa Bargeld com Teho Teardo e uma outra de Elvis Costello com os The Roots. Arcade Fire, Franz Ferdinand, CocoRosie, El Perro del Mar, Seoul ou o regresso dos Pixies contam-se ainda entre os momentos melhores de 2013.

1. David Bowie, Where Are We Now? (Iso)
2. David Sylvian, Do You Know Me Now? (Samadhi Sound)
3. John Grant, GMF (Bella Union)
4. Nick Cave & The Bad Seeds, Jubilee Street (Bad Seeds Ltd.)
5. Foxygen, San Francisco (Jagjaguwar)
6. Pet Shop Boys, Love Is a Bourgeois Construct (X2)
7. Major Lazer, Jessica (Secretly Canadian)
8. Coma, Les Dilletantes (Kompakt)
9. Blixa Bargeld + Teho Teardo, Mi Scusi (Specula Records)
10. Elvis Costello + The Roots, Cinco Minutos Con Vos (Blue Note)


Arquivo / reedições


Os cinco álbuns que Scott Walker editou entre 1967 e 1970, entre os quais encontramos nove versões sublimes de canções de Jacques Brel, surgiram este ano reunidos numa caixa. Não trazia temas extra, mas o som remasterizado e um booklet com um completo ensaio que serve de exemplo ao que deve ser o trabalho de escrita para servir uma reedição. Entre os muitos discos que, ao longo do ano, reativaram registos de arquivo contam-se novas incursões pelos catálogos de nomes como os de Nick Drake ou The Velvet Underground. Houve edições expandidas de importantes títulos de nomes como os House of Love, Postal Service, Teardrop Explodes, Tears For Fears ou Electronic. Dos Beatles continuam a chegar surpresas: primeiro na forma de um segundo volume de sessões na BBC, depois através de uma coleção de gravações ainda inéditas de 1963, lançadas para já apenas em suporte digital.

1. Scott Walker, Scott – The Collection 1967 – 1970 (Mercury)
2. Nick Drake, Tuckbox (Island)
3. The House Of Love, The House Of Love – 3CD Deluxe Edition (Cherry Red)
4. Postal Service, Give It Up – 10th Anniversary Edition (Sub Pop)
5. The Beatles, Beatles Bootlegs 1963 (Apple Records)
6. The Velvet Underground, White Light White Heat – Super Deluxe (Verve)
7. Teardrop Explodes, Wilder – Deluxe Edition (Mercury)
8. Tears For Fears, The Hurting – CD + DVD Box Set (Mercury)
9. Electronic, ElectronicSpecial Edition (EMI)
10. The Beatles, The Beatles At The BBC – Vol 2 (Apple Records)


Clássica


Between Two Waves não corresponde à primeira edição em disco de obras do compositor contemporâneo russo Victor Kissine, mas representou o primeiro momento de protagonismo maior da sua obra até ao momento, numa ediçãoo pela ECM que contou com a contribuição de Gidon Kremer e dos músicos da sua Kremerata Baltica. Transportando ecos de memórias de juventude (da cidade de São Petesburgo – então Leninegrado – onde viveu e das águas do rio Neva em particular) o disco representou mais um exemplo claro de uma atenção sábia de Manfred Eicher (e da sua ECM) pelo espaço musical que nasce de filhos da antiga URSS. O ano “clássico” vincou a presença de John Adams entre os nomes de referência da sua geração junto das programações das orquestras e de quem as edita. Trouxe belíssimas gravações de obras recentes de John Corrigliano, Philip Glass e Dutilleux. Juntou novas abordagens de grande nível a Poulenc, Shostakovich (com a integral de Petrenko a caminho de se completar) ou Stravinsky (no ano do centenário d’A Sagração da Primavera). A Deutsche Grammophon juntou as suas gravações de obras de Henze numa só caixa. E Daniel Hope celebrou a música do nosso tempo no mais interessante dos seus discos temáticos. 

1. Victor Kissine, Between Two Waves (ECM)
2. John Adams – P. Oundjian / Royal Scottish Nat. Orch., Harmonielehre + Doctor Atomic Symphony (Chandos)
3. John Corrigliano – D.A. Miller / Albany Symphony, Conjurer (Naxos)
4. Francis Poulenc - P. Jaarvi / Orch. de Paris, Stabat Mater (Deutsche Grammophon)
5. Hans W. Henze, The Complete Deutsche Grammophon Recordings (Deutsche Grammophon)
6. Pierre Dutilleux, B Hanningan + A. Kartunen / Orch. Phil. De Radio France, Correspondences (Deutsche Grammophon)
7. Dmitri Shostakovich – V. Petrenko / Royal Liverpool S. Orch, Symphony 4 (Naxos)
8. Daniel Hope, Spheres (Deutsche Grammophon)
9. Philip Glass, Visitors (Orange Mountain Music)
10. Igor Stravinsky - S. Rattle / Berliner Phil., Le Sacre du Printemps (EMI Classics)

PS. A produção nacional surgirá numa lista a publicar ainda esta semana. Esta é a lista "definitiva" (se é que isso existe) deste ano. A que apresentei na Radar já tem umas semanas e entretanto foi ligeiramente alterada. 

domingo, agosto 11, 2013

Para descobrir Victor Kissine (1)

Este texto é parte de um artigo originalmente publicado na edição de 6 de julho do suplemento Q, do DN, com o título 'O valor da memória e do silêncio, segundo Victor Kissine", a propósito da edição, pela ECM, do disco 'Between Two Waves'.

Entre as muitas “narrativas” que nos tem dado a escutar desde que foi fundado em 1969 pelo alemão Manfred Eicher, o catálogo da ECM tem-nos permitido acompanhar os caminhos pós-"soviéticos” de compositores nascidos ou crescidos na URSS. E podemos citar nomes como os de Arvo Pärt (nascido na Estónia), Valentin Silvestrov (na Ucrânia) ou Giya Kanchelli (Geórgia) para termos uma expressão deste quadro com um primeiro lote de figuras absolutamente marcantes no panorama atual da composição. Mas a estes quatro nomes devemos juntar mais um: Victor Kissine, que nasceu em Sampetersburgo (então Leninegrado) em 1953 e, tal como Pärt (que desde 1980 vive em Berlim), há muito deixou a cidade e o país, residindo com a família na Bélgica.

O seu nome dá, desde logo, conta de uma afirmação de oposição ao regime que corria entre a sua família. “Chamo-me Victor porque nasci dez dias depois da morte de Estaline. E o meu avô, que era filólogo e muito conhecido em Sampetersburgo, quis assim celebrar esse acontecimento com um nome que significa a vitória”, explica, colocando assim primeiras coordenadas que acabariam por definir também o seu lugar no mapa político e cultural da cidade. E na Leninegrado dos tempos da URSS, onde reconhecia uma “vida intelectual muito própria”, Kissine identifica três modos “de sobreviver e tentar manter uma certa liberdade” para os compositores. “Os compositores podiam viver jogando as regras do jogo, e havia quem o aceitasse. Não os podemos julgar... Depois, e essa era o que acontecia com a maior parte dos casos, havia aqueles que tentavam um equilíbrio entre as suas demandas criativas pessoais e as condições totalitárias que todos eram obrigados a aceitar, mesmo tendo uma vida social que não procurava entrar no jogo”. Mas havia “uma terceira maneira de estar, com um comportamento de oposição face ao regime, a que se chamava na cidade como 'emigração interior'. Era uma espécie de isolamento intelectual, e aí escolhia-se viver na obscuridade, não participar de todo até mesmo na vida social”. Este era, conforme confessa, o tipo de comportamento próprio de intelectuais da cidade que faziam o círculo de amigos do seu avô e do seu pai. O compositor define o poeta e ensaísta Joseph Brodsky como “o exemplo mais flagrante desse tipo de comportamento”, lembrando que “chegou a estar preso pela simples razão de não participar na vida social”. Brodsky era poeta, “mas não tinha essa confirmação oficial no passaporte nem pertencia ao sindicato dos escritores”, recorda ao lembrar uma das figuras que para si mais representam as memórias que tem da cidade e que, de certa forma, agora evoca em Between Two Waves.

Dos tempos do regime comunista, que correspondem ao momento em que encetou a sua carreira, Victor Kissine reconhece por um lado as memórias de uma educação musical “muito sólida”, que durou dez anos. Mas lembra que “num regime totalitário todos estão envolvidos num contexto político”. Nessa altura havia um grupo de compositores que eram descritos como “não conformistas” e, sublinha, “malvistos pelo regime”, sendo a sua música “praticamente invisível”. Cita o caso de Arvo Pärt, que, “a partir do momento em que encontrou o seu estilo tintinabuli (que é como quem diz a partir de 1977 ou 78), entrou nesse círculo”. Entre esse grupo cita também Alfred Schnittke ou Sofia Gubaidulina. E havia mais, acrescenta, “mas não tão conhecidos no Ocidente”. Muitos deles, “para sobreviver, trabalhavam em cinema”. O próprio Shostakovich tinha composto música para cinema. E ele mesmo acabou por também escolher esse caminho. “Se o meu nome era um pouco reconhecido na URSS foi porque fiz alguma música para cinema e sem usar qualquer pseudónimo”, explica. “Mas fazia-o como Alfred Schnittke, ou seja, de uma maneira séria.” Até porque, acrescenta, trabalhou “com realizadores bem interessantes” no início da sua carreira. Ao fazer música para cinema teve também “a oportunidade para trabalhar com boas e grandes orquestras, o que nem sempre acontece no ocidente, porque é caro. Mas não era assim nos dias da URSS porque o cinema era considerado como o meio de propaganda mais importante. Não se contavam tostões. E havia meios”. Todavia, diz que “era possível expressar a personalidade nas bandas sonoras até um certo limite, até mesmo o bailado era muito censurado”. Kissine confirma que “praticamente todos os espectáculos” que fez “foram malvistos pela censura e até mesmo censurados” e que “o mesmo aconteceu com alguns filmes”.

Tudo muda, assim, quando se muda para o Ocidente já depois da Perestroika. “Quando vivia na URSS fazia uma música autónoma que guardava para mim e compunha para cinema para viver”, descreve. Daí em diante passou assim a fazer fazer das suas coisas “mais privadas algo menos privado”. Durante os anos 90 compôs essencialmente música de câmara, algo que lhe “faltara na URSS, onde tinha feito sobretudo música orquestral”. Com o tempo alargou horizontes. E chegou agora a um momento na sua vida em que volta a refletir sobre a cidade onde nasceu e cresceu. “É uma cidade muito particular”, descreve. “Muito bela, inteligente, forte. Há uma cidade real. Mas também uma imagem de memória que é influenciada por tudo o que foi escrito, pelas palavras dos grandes poetas. E essa cidade imaginária é a que está sempre comigo.” Kissine crê assim que há nas peças que apresenta em Between Two Waves “um reflexo muito evidente desta admiração, deste amor”, mas por aquilo que diz ser “uma cidade imaginária”. É, como reconhece, “a Sampetersburgo de Brodsky, de Gogol... Uma cidade que podemos apreciar quando estamos fora, quando não vivemos nela”.

(continua)