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segunda-feira, agosto 25, 2008

67 fotografias de Pequim

Victoria Mitchell, atleta da Austrália, apresentou-se na prova de 3000 metros obstáculos, em Pequim, em deliciosa pose carregada de cores e símbolos. Esta é uma das 67 imagens dos fotógrafos da revista Sports Illustrated coligidas pela Time — um espectacular balanço visual dos 29º Jogos Olímpicos que vale a pena descobrir.

Audrey Hepburn era chinesa?

Como foi amplamente noticiado, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim uma criança cantou uma Ode à China em playback. Vale a pena regressar ao assunto, interrogando algumas formas automáticas de "politização" com que podemos deparar na Internet — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 de Agosto).

Entre as imagens ultimamente mais comentadas estão a que nos chegaram de Pequim, no dia 8 de Agosto, da abertura dos Jogos Olímpicos. Nelas surgiu a encantadora Lin Miaoke (9 anos) que cantou uma Ode à China. Aliás, ela não cantou, fez playback: a voz pertencia, de facto, a outra criança, Yang Peiyi (7 anos). Para a organização, a primeira tinha uma imagem mais adequada e, daí, a opção pelo playback.
Na imprensa de todo o mundo, com mais ou menos ironia, por vezes com alguma desilusão, a “troca” foi amplamente referida, embora sem empolar a sua dimensão muito particular. Não tem sido assim na Internet e, mais especificamente, no espaço dos blogs. Para muito boa gente, de todos os cantos do planeta, Lion Miaoke e Yang Peiyi foram mesmo as pobres vítimas dos métodos de uma terrível ditadura.
Confesso que não tenho gosto nenhum em brincar com as mais delicadas questões políticas e culturais. Assim, parece-me vergonhosamente gratuito, seja sob que pretexto for, reduzir a história secular do povo chinês e, em particular, as suas contribuições artísticas (incluindo, claro, no cinema contemporâneo) à imagem de um “rebanho” humano. Do mesmo modo, sou sensível à delicada questão da defesa dos direitos humanos na China (e, em particular, no Tibete), embora isso não me pareça legitimar uma visão de tão fascinante país a um governo “mau” de um lado e um povo “silencioso” do outro.
Não estou a caricaturar, pela simples razão de que é essa lógica grosseira que podemos encontrar em muitos espaços da Internet. Assim, insisto, o episódio de Pequim foi frequentemente referido a partir de um agressivo maniqueísmo: fazer playback seria o equi-valente dos mais tenebrosos métodos de repressão política.
Na verdade, as formas de ignorância favorecidas, e muito amplia-das, pela Internet podem ser assustadoras (sem que isso, obviamente, nos faça renegar as maravilhas da World Wide Web). Neste caso, estamos perante uma visão tão redutora, para além de moralista, que dispensa o conhecimento de toda a história do género musical ao longo do século XX, em particular na produção dos grandes estúdios de Hollywood. Basta ver o clássico Serenata à Chuva (1952) para ficar a saber que o playback, com todas as suas ambivalências técnicas e humanas, foi um elemento constituinte da própria gestação do musical.
Claro que ninguém quer menorizar a verdade artística de um corpo que canta com... a sua própria voz. Que diabo! Não vamos passar a dizer que Maria Callas, coitada, até tentava cantar... Acontece que os exemplos de play-back são desconcertantemente frequentes na história do espectáculo musical. Há mesmo o caso limite da cantora Marni Nixon que se “especializou” em tais tarefas. Entre os seus muitos e notáveis playbacks estão os de Natalie Wood, em West Side Story (1961), e Audrey Hepburn [foto em cima], em My Fair Lady (1964).
Lembram-se de My Fair Lady, a genial adaptação musical do Pigmalião, de Bernard Shaw, realizada por George Cukor? Tendo em conta que My Fair Lady, ainda por cima, ganhou oito Óscares (incluindo melhor filme), será que podemos deduzir que a democracia americana já foi uma sangrenta ditadura? Ou andamos todos enganados e, afinal, Audrey Hepburn era chinesa?

domingo, agosto 24, 2008

Londres - Pequim - Londres

Há casos perdidos. E, por vezes, importa reconhecer a derrota de to-dos nós face ao peso, ao hábito e ao simplismo do lugar-comum. E o lugar-comum televisivo é que escutar deixou de ser importante. E em vez da escuta temos o ruído.
Na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos, fazia-se zapping entre a RTP2 e o EuroSport e... Eu sei, eu sei: não tenho gosto nenhum em favorecer esse outro lugar-comum segundo o qual nas televisões é tudo "igual", e tudo igualmente "mau". E também sou sensível ao facto de não devermos menosprezar o esforço e o empenho daqueles canais em nos proporcionar tão magno es-pectáculo. Mas, que raio... já ninguém escuta?
Vêem-se atletas a entrar e uma voz diz-nos que os atletas estão a entrar... Vêem-se cantores a cantar e uma voz esclarece-nos que temos cantores a cantar... Vê-se fogo de artifício e uma voz informa-nos dessa imensa supresa que é o facto de estarmos a ver... fogo de artifício!!! Tudo isto significa medo. Medo de quê? Medo de deixar o acontecimento... acontecer. E de escutar, isto é, de saber aplicar o nosso próprio silêncio face à eloquência desse mesmo acontecimento.
Dito isto, registe-se o mais óbvio: para além do tenso pano de fundo político (que ninguém pretende esquecer nem simpli-ficar), a energia desportiva, devidamente combinada com os poderes do es-pectáculo, fizeram de Pequim 2008 um evento de enorme ressonância universal — a cerimónia de encerramento foi mais uma exemplar mise en scène de tal espírito. Fica, assim, o renovado apelo do desporto como factor criativo e "catalizador para a mudança". Esta expressão pertence a Sebastian Coe, antigo atleta e presidente do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de 2012 — vale a pena ler o seu artigo, hoje publicado no jornal The Observer.
A 30ª Olimpíada da era moderna inicia-se em Londres, a 27 de Julho de 2012.

sábado, agosto 23, 2008

Olímpicos: ganhar e perder

Que fazem as televisões quando fabricam campeões "antecipados"? — eis uma pergunta cuja pertinência tem sido reforçada por alguns comporta-mentos mediáticos durante os Jogos Olímpicos de Pequim. Este texto foi escrito no dia do anúncio da demissão de Vicente Moura do cargo de presidente do Comité Olímpico de Portugal (terça-feira, 19) e publicado no Diário de Notícias (sexta-feira, 22), com o título 'Infantilismo olímpico'.

Analisa-se muito pouco a responsabilidade das televisões na criação de determinadas expectativas colectivas, em particular na área do desporto. Nos Jogos Olímpicos, por exemplo.
Não tenho problemas em acreditar que a maioria dos jornalistas das nossas televisões são pessoas sensatas e pragmáticas que sabem que, para um país de tão frágeis estruturas desportivas como Portugal, as vitórias olímpicas são sempre absolutas excepções. E, no entanto, qual tem sido o tom dominante dos noticiários? Em boa verdade, resume-se em dois tópicos. Primeiro: quantas medalhas podemos ganhar? Segundo: com a acumulação de derrotas, quantas medalhas ainda podemos ganhar?
Escrevo este texto na manhã de terça-feira, pouco depois de ter tomado conhecimento da comunicação de Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico de Portugal, esclarecendo que não se vai recandidatar ao cargo. Porquê? Por causa da “desilusão” face aos resultados obtidos. Na verdade, vejo na candura de Vicente Moura um cruel sinal dos nossos tempos televisivos: no plano simbólico, ele é uma vítima incauta do triunfalismo irrealista com que o desporto passou a ser mediaticamente enquadrado. Nem mesmo os nossos governantes tentam contrariar tamanho infantilismo: no dia 14, Laurentino Dias (secretário de Estado do Desporto) veio mesmo dizer que esperava que a primeira semana dos Jogos fosse já “de grandes resultados”... mas ainda faltava uma semana!
Bizarro país desportivo, sem dúvida. Luís Filipe Scolari cometeu a proeza de não alterar minima-mente as estruturas da selecção portuguesa de futebol (em particular na articulação com as camadas mais jovens), acumulou sucessivos e previsíveis desaires desportivos (Euro 2004, Mundial 2006 e Euro 2008), acabando por ficar como o herói que encheu as janelas de bandeirinhas a apodrecer... Agora, até temos o impecável Francis Obikwelu a penitenciar-se: “Agradeço a todos, porque estiveram a ver-me na televisão, e peço desculpa. Eu estou a ganhar dinheiro porque o povo português está a pagar para eu estar aqui e não consegui chegar à final.” Deixe-se disso, Francis, foi bom vê-lo correr e não tem que pedir desculpa só porque os outros (também) são muito bons.

sexta-feira, agosto 22, 2008

A propósito de um blog do Porto (cont.)

LUIS BUÑUEL Belle de Jour (1967)

Há dias, escrevi aqui um post sobre os modos de leitura/avaliação/discussão dos sinais, informações e imagens que nos chegam dos Jogos Olímpicos de Pequim. Era também uma reacção a uma referência a um texto meu num post, assinado por Tiago Ramalho, do blog de um grupo de alunos da Faculdade de Direito do Porto, Sociedade de Debates. Era ainda uma forma de diversificar uma reflexão, que aqui tenho desenvolvido, sobre algumas formas de violência na esfera bloguista.

Agora, nesse mesmo blog, outro dos seus autores, que assina MJ, vem fazer-se eco do meu texto, convocando para a respectiva leitura o próprio Tiago Ramalho.

Creio que vale a pena prosseguir a troca de ideias.

> IDEIAS - Desde logo, importa referir a observação de MJ sobre a origem do próprio comentário: “É pena que não tenha sido pelos melhores motivos nem com o conteúdo que eu desejaria.” De facto, gostaria de sublinhar exactamente o contrário: independentemente de estarmos mais ou menos de acordo seja sobre que tema for, o blog Sociedade de Debates é um espaço interessantíssimo de ideias e confronto de ideias. É mesmo uma clara excepção.
Não exagero se disser que 99 % dos comentários que se podem encontrar na esfera bloguista são de uma indigência atroz (“oi meu, fui ver o filme Y; porreiro, fixe, posta qualquer coisa...”), além de que pelo menos 98% se refere aos escritos e ideias dos outros praticando a mentira, a difamação e o insulto — não exagero, insisto, nem pretendo ser brando em tal apreciação: a qualidade do(s) debate(s) é simplesmente catastrófica.

> CONTRADITÓRIO - Depois, creio também que podemos reflectir um pouco sobre o que seja o confronto de ideias e o muito propalado “contraditório”. Na verdade, importa lidar com o facto de, não apenas nos blogs, mas no próprio tecido social, prevalecer uma noção muito... "bloguística" da gestão desse chamado contraditório. Num dos comentários ao post de MJ, há mesmo um dos autores da Sociedade de Debates, que assina Hugo e cita estas linhas minhas:

"Se é verdade que todos temos direito ao labor e ao produto da nossa subjectividade, não é menos verdade que tal só pode acontecer a partir da definição de um espaço de alguma objectividade processual a partir do qual possamos pensar, partilhar e confrontar pensamentos."

Depois, Hugo conclui:

A parte do "confronto de pensamentos" é "aberrante" num blog sem a possibilidade de comentários...

Enfim, com ou sem aspas, continuo a considerar que a palavra “aberrante” não é uma grande proeza de reflexão... E permitam-me o desabafo: tenho a noção muito clara de que as minhas ideias são discutíveis, porventura inconsistentes, por certo não universais, mas ser classificado de “aberrante” não é muito motivador para dialogar com os outros.

Serenamente — preferindo não classificar o outro (seja ele quem for) de forma demasiado expeditiva —, podemos lembrar:

1 – que os blogs “abertos” são quase invariavelmente dominados pelos discursos mais simplistas e agressivos (remeto para o que escrevi na alínea anterior) — aliás, numa reacção ao post de MJ, respondendo a Hugo, Tiago Ramalho reconhece isso mesmo quando especula sobre o que será “(...)ter todos os dias uns tipozinhos a virem incomodar, sem qualquer intuito de discutir a temática.”

2 – que o Sound + Vision não foi concebido como um blog “aberto”, mas sim um espaço de características eminentemente jornalísticas — certamente com as marcas muito subjectivas dos seus autores — cuja lógica editorial, de facto, não inclui um ping pong constante com os seus visitantes;

3 – que consideramos que essa lógica não corresponde a nenhuma atitude “aberrante” face a esses mesmos visitantes, mas sim à definição legítima de um sistema de regras que, naturalmente, qualquer um pode rejeitar (e nunca mais nos visitar);

4 – que o Sound + Vision possui um mail através do qual recebemos sugestões, ideias e reparos críticos (alguns por nós publicados);

5 – que o simples facto de estarmos aqui (vocês desse lado e nós deste) a expor as nossas concordâncias e diferenças significa que o modelo é possível e viável — e que, acima de tudo, nada nos obriga a considerar como boas e enriquecedoras as regras dominantes da esfera bloguista apenas porque são... dominantes.

6 – que a acumulação de muitos conceitos minoritários (do Sound + Vision, da Sociedade de Debates, etc., etc.) pode contribuir para a criação de novas dinâmicas de confronto de ideias em que se exija — a nós e aos outros — mais do que classificar o outro como “aberrante”...

> CHINA – Não deixa de ser curioso, e por certo revelador, que esta nossa reflexão cruzada passe, não apenas pelos Jogos Olímpicos, mas sobretudo por essa entidade imensa, imen-samente plural e contraditória, impossível de reduzir a qualquer maniqueísmo social, político ou ético, que dá pelo nome de China.
O meu somos todos chineses — que, modestamente, tentava retomar uma fórmula de Eduardo Lourenço na sua fascinante reflexão sobre a globalização cultural: "somos todos americanos" — era uma maneira de tentar sugerir o facto de o nosso presente e, por certo, muito do nosso futuro passarem pelo presente e pelo futuro da China.
Permito-me, por isso, citar um outro post que escrevi já depois do anterior sobre a Sociedade de Debates e que tem a ver com o facto de a pequena cantora da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos ter feito playback. De facto, passou pela esfera bloguista uma onda de “denúncia”: tal playback seria a prova real de que a China é uma terrível ditadura!!!
Não quero simplificar seja o que for. E, ainda que de forma linear, resumo algo que já escrevi anteriormente:
1 – há uma urgência global, e globalmente política, de confrontar o governo chinês com as questões incontornáveis dos direitos humanos e, em particular, com a situação no Tibete.
2 – é impossível e, sobretudo, não tem qualquer consistência histórica e argumentativa reduzir a sinais maniqueístas (por exemplo: um playback...) um povo e um país onde confluem muitos séculos de história; acima de tudo, é absurdo confundir a vitalidade imensa, por certo imensamente contraditória, de milhares de milhões de chineses com as medidas concretas do seu Governo (por mais discutíveis que possam ser).
O meu post era, justamente, sobre essa desproporção argumentativa.

Agradeço a MJ a possibilidade de ter relançado estas ideias. O vosso blog é um dos poucos que faz a diferença — não precisamos de estar de acordo para reconhecer isso e para continuarmos a praticar esse exercício, hoje em dia tão vilipendiado, que dá pelo nome de pensar.

quarta-feira, agosto 13, 2008

História(s) de Yang Peiyi e Lin Miaoke

Vivemos num mundo em que muito boa gente passou a considerar que só é bom cidadão quem for... "polícia"! Daí as práticas de "denúncia" — e histérica dramatização — a pretexto das coisas mais lineares.
O exemplo mais recente tem a ver com o facto de, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, a pequena Lin Miaoke [9 anos, em cima à direita], que interpretou uma ode à China, se ter limitado a fazer playback — a verdadeira voz pertencia a Yang Peiyi [7 anos, imagem da esquerda].
De facto, há quem se mostre chocado pela troca e pelas suas razões (segundo a organização, a melhor solução era "combinar" a voz de uma e a imagem de outra), choque esse que é perfeitamente legítimo e compreensível — sabemos que o conflito entre o visual e a identidade atravessa, hoje em dia, muitas formas da vida social. O que é espantoso é que isso sirva como "prova" da repressão do regime chinês e de todo um rol de horrores em que China e governo chinês, cidadãos chineses e forças políticas da China, tudo se confunde num caldeirão de monstros.
Há, por certo, razões muito humanas e humanitárias para confrontar a administração chinesa com algumas formas de tratamento da oposição política e, em particular, com o delicadíssimo problema da defesa dos direitos humanos — neste blog, à nossa modesta escala, tem-se procurado não simplificar o que está em jogo. Mas chega a ser delirante o modo como se tenta transfigurar um evento tão particular e específico numa espécie de filtro mágico para compreender "toda" a China — uma vez mais, a generalização caricata funciona como promoção da ignorância.
Vindo dos EUA, alguns dos protestos são desastradamente anedóticos, quanto mais não seja porque revelam um ingénuo desconhecimento dos mecanismos do espectáculo do seu próprio país. Será que os autores de tal protesto sabem da existência de um um objecto como My Fair Lady, de George Cukor, por mero acaso distinguido com oito Oscars, incluindo o de melhor filme de 1964... E será que sabem que a radiosa protagonista, Audrey Hepburn, cantava todas as suas canções... em playback [voz de Marni Nixon]? Será que nunca viram uma obra-prima como Serenata à Chuva (1952) onde, por coincidência, se evoca o playback como técnica estruturante do próprio espectáculo musical?
Repare-se: não se trata de "defender" o playback como uma nova verdade absoluta. Trata-se, isso sim, de relembrar o simples facto de o universo do entertainment não ser feito de verdades absolutas. E que o olhar "policial" não é necessariamente o melhor para fruir a pluralidade do mundo.
Já agora, para não nos ficarmos pelo silêncio, lembremos Audrey Hepburn (e Marni Nixon!) em My Fair Lady — talvez Cukor fosse chinês...

terça-feira, agosto 12, 2008

Zhang Yimou: espectáculo de síntese

Gong Li e Zhang Yimou
— rodagem de A Maldição da Flor Dourada (2006)

À concepção e realização das cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim está ligado Zhang Yimou, nome emblemático do moderno cinema chinês — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 de Agosto), com o título 'O espectáculo de Zhang Yimou'.


A prodigiosa cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim resultou de um extraordinário labor colectivo, envolvendo milhares de pessoas. Em todo o caso, não deixa de ser desconcertante que, pelo menos até agora, se tenha falado pouco dos seus dois directores: o coreógrafo Zhang Jigang (criador internacionalmente prestigiado, várias vezes premiado, não apenas na China, mas também no Japão e nos EUA) e o realizador de cinema Zhang Yimou.
Valerá a pena evocar a personalidade de Zhang Yimou (n. 1951), porventura ainda o mais conhecido dos cineastas chineses, quanto mais não seja porque a transmissão televisiva reflectiu uma curiosa colagem a linguagens e modelos narrativos de raiz cinematográfica. Sobretudo nos quadros que integravam muitas figuras humanas alinhadas em xadrez (por exemplo, o número de percussão, logo a abrir a cerimónia), sentiu-se um jogo de variações de escalas, do grande plano ao plano muito geral, com claras raízes fílmicas.
Terá sido em 2002, com o filme Herói, que o nome de Zhang Yimou entrou definitivamente nos grandes circuitos internacionais. Evocando as lutas pelo poder no tempo do primeiro imperador da China, Herói era um épico próximo da tradição ocidental, em particular das superproduções de Hollywood, para mais com um elenco que incluía alguns dos mais populares actores chineses junto dos espectadores estrangeiros (com destaque para Jet Li, vedeta de muitas aventuras de artes marciais). O filme conseguiu alguns fundamentais apoios da distribuição americana, desde a Miramax (nas salas dos EUA) até à 20th Century Fox (em vários outros países), acabando por obter uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Depois de Herói, O Segredo dos Punhais Voadores (2004) e A Maldição da Flor Dourada (2006) impuseram Zhang Yimou como símbolo de uma dupla estratégia de espectáculo: por um lado, o seu trabalho manifesta uma especial predilecção pelas memórias primitivas da China, nelas encontrando sempre, directa ou metaforicamente, sinais do confronto entre o velho e o novo; por outro lado, os meios grandiosos e a imponência física de muitas sequências dos seus filmes permitem-lhe jogar num terreno tradicionalmente dominado pelos americanos.
Mas não foi sempre assim. Antes destes títulos mais conhecidos, Zhang Yimou (que começou como director de fotografia) assinou cerca de uma dezena de filmes que, de facto, ajudaram a mudar a paisagem da produção chinesa. Ele integrou a chamada “Quinta Geração” (a que também pertence, por exemplo, Chen Kaige, autor de Adeus, Minha Concubina), grupo que abriu novos caminhos temáticos, estéticos e também comerciais ao cinema chinês. A primeira longa-metragem de Zhang Yimou, Milho Vermelho, vencedora do Urso de Ouro do Festival de Berlim de 1988, revelou mesmo aquela que se viria a transformar na estrela mais internacional da China: a actriz Gong Li.
A dupla Zhang Jigang/Zhang Yimou tem também a seu cargo a cerimónia de encerramento das Olimpíadas (dia 24). Tendo em conta o fulgor da abertura, podemos apostar que vamos assistir a mais uma aposta arriscada na síntese de diversas formas de expressão: teatro e bailado, televisão e cinema.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Faculdade de Direito do Porto:
algumas ideias

Decididamente, vale mesmo a pena continuar a debater algumas ideias em torno do estado actual dos blogs, da informação que neles circula e do modo como circula, dos pontos de vista que se explicitam ou dos que se dão como antecipadamente explicitados (ver 'Violência dos blogs'). O pretexto é um post do blog Sociedade de Debates ("um projecto de alunos da Faculdade de Direito da Universidade do Porto unidos pelas suas constantes divergências, e que procuram através do debate não chegar a conclusão nenhuma").

Num post intitulado 'Foguetes e bailarinas', Tiago Ramalho tece algumas considerações sobre a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Creio que o resumo correcto será este: o autor do post considera que o espectáculo — que cita, ironicamente, como "maravilhosa cerimónia" e "magna encenação" — foi apenas uma manobra de diversão para esconder algumas realidades mais cruas do regime chinês ("censura, julgamentos (?) sumários, condições desumanas de trabalho"). Conclui Tiago Ramalho, ainda com ironia: "Bem, enquanto houver festa a gente entretém-se, dança e aproveita. E esquece os problemas da vida. Como a China o sabe; como os convivas o fazem por ignorar."

Pelo meio, o autor do post é mais explícito em relação ao facto de, segundo ele, a cerimónia ter enganado muitas pessoas ou, pior do que isso, ter sido recebida com falsidade por alguns desses "convivas". E escreve: "Pior não é que o vulgo espectador se deslumbre; o mais aberrante é que um cronista de jornal de referência o afirme (como João Lopes no DN), já para não referir os doutos jornalistas desportivos."

Confesso que não gosto de ver nenhum grupo ("jornalistas", "estudantes", seja quem for) mencionado como um colectivo esquemático e forçosamente homogéneo — penso, assim, que os jornalistas desportivos não são uma "casta" e que, como em todas as profissões, há pessoas com muitas e significativas diferenças entre si. Mas permito-me ser mais pessoal e recordar na íntegra a crónica que escrevi no Diário de Notícias (9 de Agosto) sobre a abertura dos Jogos Olímpicos. Dizia assim:

A notícia, incontestavelmente objectiva, é esta: as televisões portuguesas podem mobilizar-se, em uníssono, para fazer directos com o major Valentim Loureiro a sair do tribunal... mas não por causa da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos. Mundo global? Sim, mas tudo o que fique para além de Gondomar é demasiado complicado.
A questão não é anedótica. Nem pode ser entendida como um prurido crítico. É bem certo que os críticos têm as costas largas e continuam a servir de bode expiatório a todos os discursos que não querem pensar o nosso presente. Mas como contornar a importância simbólica de um evento que, entre nós, se ficou pelo espaço minoritário da RTP2? Louve-se, ao menos, a existência de tal espaço, na certeza de que o peso relativamente discreto que o acontecimento adquiriu nas televisões portuguesas reflecte uma cultura desportiva & informativa dominada pelo futebol (cujas delícias, como é óbvio, não estão em causa), pelas suas histórias e personagens.
Para os chineses, o momento não tinha mesmo nada de anedótico. Tratava-se de marcar pontos numa arena (televisiva) realmente global. E se os valores de síntese são marcantes nessa arena, então importa dizer que raras vezes se terá assistido a um espectáculo que, com tão elaborada precisão formal, combinasse referências tão paradoxais: as coreografias tradicionais e as suas reinvenções modernas, as memórias iconográficas e a tecnologia futurista.
Sabemos que tudo isto acontece num contexto em que o confronto da China com as razões dos direitos humanos existe (e deve, imperiosamente, continuar). Mas será que nos vamos dar ao luxo de ser apenas “panfletários”?
Porventura herdando o papel aglutinador da cultura americana no século XX, a China veio mostrar-nos que, na nossa fragilizada aldeia global, o espectáculo pode ser um primeiro traço de união. Seria demasiado fácil ignorar, simplificar ou difamar tanta beleza e tamanha energia. Seria, além do mais, um erro político. Afinal de contas, somos todos chineses.


Não tenho a pretensão de ter a "razão" do meu lado. Não espero que Tiago Ramalho "coincida" com os meus pontos de vista. O certo é que o meu texto — classificado sumariamente de "aberrante" sem sequer ter direito a uma palavra citada — procurava pelo menos não escamotear três vectores temáticos, a meu ver importantes neste contexto:
1 - a relação contraditória das televisões portuguesas com os acontecimentos globais;
2 - o significado simbólico dos Jogos (e da cerimónia em particular) para os cidadãos anónimos chineses;
3 - a importância política de saber lidar com os prazeres próprios do espectáculo sem deixar, neste caso tão particular, de confrontar a China com questões polémicas da sua governação que têm marcado a agenda política internacional.

Aliás, neste último aspecto, o texto lembrava, explicitamente, que o confronto da China com as razões dos direitos humanos existe — e acrescentava uma opinião, também ela política, considerando que esse confronto deve, imperiosamente, continuar (o autor do post não tem, obviamente, obrigação de conhecer tudo o que escrevo, mas permito-me recordar que, depois da publicação deste texto, já voltei a escrever, neste mesmo blog, sobre os actuais modos de percepção mediática da China — post: 'China ou a febre da (des)informação'.)

Que fazer? Por um lado, é inevitável relembrar que, neste registo, nenhum diálogo é possível: ninguém gosta de ver o seu trabalho classificado de "aberrante" e, já agora, se alguém o fizer que, pelo menos, não o reduza ao silêncio, escamoteando as suas matérias. Por outro lado, talvez seja oportuno insistir na noção muito simples — mas também muito firme — de que só faz sentido utilizar os espaços públicos (os blogs, por exemplo) para confrontar as ideias dos outros se nos quisermos colocar para além da alusão simplista e anedótica.

Se é verdade que todos temos direito ao labor e ao produto da nossa subjectividade, não é menos verdade que tal só pode acontecer a partir da definição de um espaço de alguma objectividade processual a partir do qual possamos pensar, partilhar e confrontar pensamentos.

domingo, agosto 10, 2008

China ou a febre da (des)informação

BASQUETEBOL: China - EUA

Vivemos num país dominado por febres sasonais de (des)in-formação. Nos últimos dias, parece que, à parte umas escaramuças sem importância na Geórgia (onde?...), o mundo está suspenso dos assaltos a bancos, casas e velhinhos que ocorrem no nosso lusitano recanto... Ironia? Ma non troppo.
Recorde-se, por exemplo, o mais recente relatório da Direcção-Geral dos Recursos Florestais: é certo que estamos longe da catástrofe de 2005, mas será que o cidadão comum tem noção de que os 4685 hectares ardidos entre 1 de Janeiro e 15 de Julho significam uma aumento de 52 % em relação a idêntico período do ano passado? Será que estamos genericamente informados sobre tal situação? Tenho dúvidas. A histeria de outras ocasiões deu lugar a um silêncio tecido de indiferença. E, pelo menos para quem vê sobretudo televisão, não há dúvida que os dramas de Cristiano Ronaldo são incomparavelmente mais preocupantes para os destinos da humanidade...
Em boa verdade, estamos perante um dos efeitos mais correntes do modelo dominante de jornalismo: é importante, ou "faz-se" importante, aquilo em torno qual se pode criar um qualquer efeito de choque, imediatista e maniqueísta.
Está a acontecer algo do género com a percepção de um país tão rico, complexo e fascinante como a China e, em particular, com a problematização da questão dos direitos humanos. Questão grave, delicada, impossível de ser compreendida de forma ligeira ou anedótica (que o diga Steven Spielberg). O certo é que isso não impediu que se tenha instalado uma espécie de nevoeiro ideológico — jornalístico e muito bloguístico — que "obriga" a classificar tudo o que nos chega dos Jogos Olímpicos de Pequim como manifestação de uma "imperfeição" política que devemos rasurar do mapa. No seu simplismo, tal atitude leva a considerar que a abertura dos Jogos até terá sido impressionante, mas os "tipos" não respeitam os direitos humanos... Provavelmente, por altura da guerra do Vietname (se é que já tinham nascido), tão heróicos vingadores deixaram de ver filmes produzidos em Hollywood...
Na sua dimensão caricatural, tais peripécias confrontam-nos com duas ilusões particularmente gravosas. A primeira é de natureza histórica e política, até porque a questão dos direitos humanos — e, em particular, o destino do Tibete — envolve valores muito sérios e inalienáveis. Ou seja: trata-se de saber que inteligência e agilidade teremos para lidar com os sinais imensos, plurais e contraditórios de um país, a China, que é um parceiro vital do futuro de todo o planeta, sem encerrar as nossas atitudes (e, por certo, as atitudes dos chineses) numa dicotomia paternalista em que nós, "ocidentais", seríamos os detentores de uma verdade única e unívoca.
A segunda é mais especificamente mediática e condensa-se numa interrogação angustiada: como manter o espírito aberto vivendo num mundo de (des)informação que, todos os dias, fabrica conflitos esquemáticos e pueris, em tudo e por tudo simplificadores da imensa complexidade de qualquer relação humana, seja entre indivíduos, seja entre Estados?
Aqui e agora, o castastrofismo é o estilo mais forte no jornalismo, sobretudo o jornalismo de raiz televisiva. Pensar para além das suas simplificações abusivas é uma tarefa de todos os dias. Neste caso, por respeito dos cidadãos chineses, mas também da mais básica inteligência de cada um de nós — tão longe, tão perto.

sexta-feira, agosto 08, 2008

Primeiras imagens de Pequim

Esta é apenas uma das dezenas de imagens da cerimónia de hoje, disponibilizadas pelo site oficial dos Jogos Olímpicos de Pequim. Porventura podemos ler nela um sintoma paradoxal da conjuntura global em que o evento ocorre: por um lado, uma muito mediática politização dos Jogos, inevitavelmente permeáveis a todos os discursos, dos mais esquemáticos ou "panfletários" aos mais sérios e fundamentados (lembremos o abandono da função de consultor artístico, por parte de Steven Spielberg, e as questões levantadas pela interdição de determinadas zonas da Internet); por outro lado, um poder de celebração que, de facto, para além de todas as diferenças ou tensões, nos remete para o espectáculo como factor efectivo de união. Nesse aspecto, importa dizer que a cerimónia de Pequim foi um prodígio: tradição histórica e vanguardismo tecnológico combinaram-se de forma absolutamente contagiante, numa síntese que mobilizou escrita e televisão, teatro e cinema.

sábado, agosto 02, 2008

Mais Internet para os Jogos Olímpicos

Estes são os polícias-mascote do Departamento de Vigilância da Internet da China: Jingjing e Chacha. Há poucos dias, os jornalistas que começaram a chegar a Pequim para a cobertura dos Jogos Olímpicos deram conta da sua acção: muitos sites permaneciam inacessíveis nos computadores do centro de imprensa. Agora, a situação evoluíu. Alguns sites até aí bloqueados — nomeadamente a Amnistia Internacional e os Repórteres sem Fronteiras — passaram a estar acessíveis. Outros — por exemplo, do grupo espiritual Falun Gong e de algumas entidades tibetanas — permanecem indisponíveis.
Pode dizer-se que a situação é uma espécie de work in progress, uma vez que, como refere The New York Times, dois grupos, um da organização dos Jogos, outro do Comité Olímpico Internacional, trabalham para discutir a possibilidade de abertura de outros sites, "um por um". Foi neste contexto que o Presidente da China, Hu Jintao, veio pedir aos media estrangeiros para não "politizar os Jogos". Tarefa difícil num mundo de circulação global da informação em que a China ocupa um tão importante lugar nos destinos de toda a humanidade. À distância (à nossa tão grande distância), talvez seja pedagógico recordar que nenhum visão a "preto-e-branco" nos ajudará a compreender a complexidade do que está em jogo.

>>> Sugestão de leitura em The New York Times: o artigo de Howard W. French, 'Despite Flaws, Rights in China Have Expanded'.

quinta-feira, julho 31, 2008

As Olimpíadas com (pouca) Internet

A lista é impressionante. Eis três exemplos:
> Tibete
> Amnistia Internacional
Estes são alguns dos sites que os jornalistas encontraram bloquea-dos no principal centro de imprensa dos Jogos Olímpicos de Pequim. A primeira pergunta que se coloca é esta: o que é que o Comité Olímpico (não) fez para contrariar este estado de coisas? Mas é uma pergunta que não deveremos transformar numa dessas gritarias "pró & contra" que, hoje em dia, condensam a visão democrática dominante nas televisões (claro que a ausência de democracia seria terrivelmente pior, mas a democracia é isso mesmo: a insatisfação do pensamento, o pensamento da insatisfação). Além do mais, convém não banalizar nem menosprezar o esforço, a entrega e as muitas formas de trabalho associadas aos Jogos e, seja como for, ao seu poder de celebração colectiva.
Acontece, assim, este paradoxo: na idade das comunicações ins-tantâneas, globais e globalizadas, as Olimpíadas, por definição uma expressão nobre da própria globalização, são vividas a partir da ocultação de uma parte do mundo. Vamos ver, Huan Huan. E ler. E escutar.