Vinte anos na companhia de Beethoven — ou melhor: prosseguindo e, num certo sentido, perseguindo o fascínio, e também os enigmas, das suas três sonatas finais (Opp. 109, 110, 11). A pianista Mitsuko Uchida gravou-as em 2006, num registo que agora se duplica, transfigurando-se, sempre com chancela da editora Decca.
Compostas entre 1780 e 1822 (Beethoven faleceu a 26 de março de 1827, contava 56 anos), são peças que, para lá do desafio técnico que implicam, investem as matrizes clássicas da "sonata", compelindo-as a existir em diferentes estruturas formais que, em última instância, expõem as intensidades, e também os silêncios, de uma intimidade sem fronteiras. Sublime — um dos grande discos de 2026.
D'amour, l'ardente flamme é uma célebre ária da ópera A Danação de Fausto, composta por Hector Berlioz em 1845 — aqui, na imaculada interpretação da mezzo soprano Elina Garanca.
Compositor, cantor e líder da banda San Fermin, de Brooklyn, Ellis Ludwig-Leone (n. 1989) é um caso sério de talento e versatilidade. Embora correndo o risco do esquematismo, a sua criatividade oscila entre a transparência clássica e a mais pura energia pop. Recentemente, divulgou algumas novas composições de sua autoria — eis um belíssimo Noturno.
O pianista polaco Piotr Anderszewski encara as últimas composições de Johannes Brahms como acontecimentos que desafiam as certezas das estruturas e as nuances das melodias. Aí está a magnífica ilustração disso mesmo com Brahms: Late Piano Works [Warner] — das 6 Peças para Piano, Op. 118, eis o No. 2, Intermezzo.
Porquê New Vienna? Porque já existia um Vienna Concert, gravado em 1991 e editado, também pela ECM, em 1992. Foi gravado em 2016, na Musikverein, e ilustra o génio de um pianista que, partindo das liberdades do improviso jazzístico (lembremos o emblemático Facing You, 1971), foi protagonizando uma trajectória em que a atração do chamado domínio clássico aconteceu, não exactamente como um salto qualitativo, antes como a abertura de uma fronteira em que as formas de comunicação musical vão diluindo as matrizes tradicionais de indexação cultural (ouça-se Carl Philipp Emanuel Bach’s Württemberg Sonatas, gravação de 1994 editada em 2023). O aparecimento de New Vienna corresponde também a uma forma de resistência, já que Jarrett não desistiu de organizar e dar a ouvir os seus registos, apesar dos efeitos dos dois AVC que sofreu em 2018, obrigando-o a caminhar com uma bengala e impossibilitando o uso da mão esquerda. Depois do Bordeaux Concert (2022), também da digressão de 2016, o lançamento de New Vienna serviu para comemorar o 80º aniversário de Jarrett (nascido a 8 de maio de 1945 em Allentown, Pensilvânia), levando-nos a redescobrir a amplitude dos seus dotes e a magia da relação solitária com o piano — se é necessário haver um álbum a que damos a designação de "disco do ano", será este.
Eis um laço artístico e simbólico que importava redescobrir e, mais do que isso, dar a ouvir: na sua depurada beleza, os 18 Nocturnos compostos pelo irlandês John Field (1782-1837) foram uma inspiração e, por assim dizer, uma premonição essencial para os 21 Nocturnos de Frédéric Chopin (1810-1849). Revisitadas por Alice Sara Ott, por certo uma das mais sofsticadas pianistas da actualidade (entenda-se: de uma sofisticação de absoluta sobriedade), as 18 peças conseguem a proeza de nos colocar num tempo de fascinantes ambivalência artísticas, até porque a Deutsche Grammophon encenou algumas delas em telediscos de inequívoco gosto pop — eis o Nº 14.
Será possível tocar a Water Music, de George Frideric Handel em guitarra? Eis a pergunta multifacetada (irónica e técnica, numa palavra, filosófica) de Rick Beato — é um dos seus videos mais recentes, como sempre lembrando-nos que escutar música é também abrir o espírito e dispensar as certezas definitivas.
Por certo "acelerando" a velocidade a que, tradicionalmente, é interpretado o Prelúdio em Dó Maior, BWV 846, o piano de Alice Sara Ott leva-nos a reencontrar Bach através de uma memória ambivalente do cravo — arriscado e fascinante.
Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit ['O tempo de Deus é o melhor dos tempos'], BWV 106, é uma cantata de Bach, composta em 1707-08, de que existem diversas versões, incluindo para piano a quatro mãos. Num dos seus videos mais breves, mas também mais eloquentes, Rick Beato propõe uma breve digressão sobre os nossos modos de (des)conhecimento da música. Em boa verdade, como ele próprio reconhece, fá-lo sobretudo para poder partilhar a cantata — vale a pena seguir a sua cristalina exposição e, claro, escutar silenciosamente os prodígios de Bach.
Composto por Franz Schubert em 1823, a partir de 20 poemas de Wilhelm Müller, Die Schöne Müllerin [A Bela Moleira] é, por certo, um dos mais célebres ciclos de canções de toda a história da música. Entre as suas múltiplas gravações, a do tenor inglês Ian Bostridge com a pianista japonesa Mitsuko Uchida distingue-se entre as mais admiráveis — lançada há 20 anos, existe no catálogo Warner com selo EMI Classics.
>>> Bostridge + Uchida: Die Schöne Müllerin em palco.
Será aquilo que podemos chamar "obra-testamento", mesmo que a designação seja apenas um efeito dramático da biografia do autor: as Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss (1864-1949), compostas em 1948, constituem um desafio sempre renovado a qualquer soprano — e tanto mais quanto a sua energia terminal se confunde, dir-se-ia serenamente, com a aceitação da morte.
Com chancela da editora Alpha, a lituana Asmik Grigorian apresenta agora a sua prodigiosa versão, transfigurando a tristeza das canções em pura contemplação espiritual. Aliás, versões, plural, já que se trata de revisitar a obra-prima de Strauss no arranjo canónico com orquestra e também na versão para piano.
Eis um breve video de apresentação do novo álbum e, em baixo, uma performance de 2023, em que Asmik Grigorian é acompanhada pela orquestra da Accademia Nazionale di Santa Cecilia, conduzida por Antonio Pappano — a gravação, feita em Roma, data de 14 de abril de 2023.
Se há milagres na história da música, este é um deles: a gravação das Variações Goldberg, de Bach, por Glenn Gould. Foi há 70 anos — eis a respectiva ária.
Nascido em 1994, em Seul, Seong-Jin Cho foi o primeiro sul-coreano a vencer o Concurso Internacional de Piano Frédéric Chopin, em 2015. De então para cá, os seus concertos, a par de um frondosa discografia com chancela da Deutsche Grammophon (além de Chopin, também Handel, Brahms, Schubert, etc.), transformaram-no numa referência incontornável da arte pianística contemporânea. O seu álbum mais recente é dedicado a composições de Maurice Ravel (1875-1937) e corresponde a uma estreia pessoal: pela primeira vez, Seong-Jin Cho grava uma obra completa de solos para piano.
>>>Jeux d'eau + uma breve apresentação de Ravel pelo próprio pianista.
Não será uma profecia. Digamos apenas que não é grande risco dizer que a alemã Isabel Schicketanz se vai transformar numa das vozes mais celebradas da cena musical e, em particular, da música barroca. Nascida em 1989 na cidade de Cottbus, revela-se no seu álbum de estreia — Seelentrost ("Consolo da alma"), ed. Perfect Noise — uma cantora soprano de mágica subtileza expressiva.
Trata-se, além do mais, da celebração de um compositor barroco pré-Bach, Heinrich Schütz, a par de alguns outros seus contemporâneos, a provar que mesmo as referências canónicas não estão encerradas em performances ou modelos definitivos. Citemos, por isso, as palavras entusiásticas de James Manheim no All Music: "Esta é uma edição que arrisca com ousadia num novo território, iluminando-o com brilhantismo."
>>>Ich steh in Angst und Pein, de Heinrich Schütz.
>>>Salve Mi Jesu, de Christoph Bernhard (1628-1692).
Figura fetiche do actual panorama europeu da música clássica, o pianista francês Alexandre Kantorow apresenta um belíssimo álbum dedicado a Brahms e Schubert — Brahms Schubert [BIS] —, incluindo cinco canções de Schubert transcritas por Liszt. Eis o primeiro andamento, Allegro, da sonata nº 1 de Brahms.
Jovem talento da China, a pianista Yang Liu celebra o gosto do austríaco Franz Schubert (1797-1828) pela música de dança. Com chancela da Naxos, o álbum (lançado em 2022) resulta da sua ligação à Steinway, tocando num piano actual e num pianoforte (cópia de um modelo da década de 1820) — eis 2 Danças Germânicas, D. 841.
Com atraso em relação ao evento — foi no dia 3 de agosto, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian —, mas na certeza de que este é um lugar que não depende de uma colagem mecânica aos acontecimentos: integrado no programa do Jazz em Agosto, o concerto de Sylvie Courvoisier e Cory Smythe, dois pianos tendo como base A Sagração da Primavera, bailado de Igor Stravinsky datada de 1913, foi uma dessas experiências capaz de nos fazer sentir o génio criativo do jazz, ao mesmo tempo sem nos enredar num qualquer sermão "demonstrativo" sobre a "actualização" dos clássicos ou a "transfiguração" dos modernos.
Formada em música clássica no Conservatório de Lausanne, Courvoisier, em particular, encarará a herança (realmente) revolucionária de Stravinsky como uma matéria capaz de suscitar um metódico trabalho de reinvenção. Seja como for, ela não foi a "protagonista", já que Smythe esteve longe de se reduzir a um "acompanhante". Sob o signo de Stravinsky, o diálogo dos dois pianos funciona mesmo como uma celebração paradoxal, por assim dizer entre o caos que o improviso pode atrair e a solidez estrutural de um jazz cujo sabor vanguardista se confunde, afinal, com uma postura eminentemente... clássica — 60 minutos de maravilha, com alguns espectadores irrequietos a quem faltou a serenidade, que ninguém levaria a mal, de abandonarem a sala.
>>> Stravinsky, A Sagração da Primavera — Sinfónica de Londres, maestro Leonardo Bernstein (1966).
>>> Courvoisier, vencedora do Prémio Alemão de Jazz/Piano (2022), na respectiva cerimónia (17 abril 2022).
Digamos, para simplificar, que este é um dos quatro ou cinco álbuns realmente prodigiosos que pudemos colher entre as edições de 2023. Lembrando o seu desejo "antigo" de interpretar e gravar as Variações Goldberg, o pianista islandês Víkingur Ólafsson sublinha a maravlhosa "contradição" de Bach:
>>> Quando escrevemos e falamos sobre as Variações Goldberg, temos tendência a focar-nos no Bach pensador profundo, empenhado artesão e arquitecto musical visionário. Mas quando tocamos e escutamos as Variações Goldberg, não podemos deixar de reparar que estamos também na companhia do Bach mestre da improvisação, alegre, por vezes arrebatado — Bach, no seu tempo o maior virtuoso do teclado.
Raras vezes o adjectivo intemporal se terá aplicado com tão grande justeza a uma música que, afinal, em boa verdade, nos reconcilia com a fugacidade do tempo — e das suas sempre imperfeitas medidas.
Depois dos dois ataques cardíacos que sofreu em 2018, Keith Jarrett deixou de tocar, está mesmo impossibilitado de usar a mão esquerda no seu piano. É uma condição que ele vive, paradoxalmente ou não, numa intimidade feliz com a música — a conversa com Rick Beato, reproduzida aqui em baixo, é esclarecedora e emocionalmente contagiante.
Entretanto, a ECM tem promovido o relançamento de alguns títulos emblemáticos da sua discografia, incluindo o registo triplo que reúne os lendários concertos de Bremen e Lausanne, em 1973. O álbum Carl Philipp Emanuel Bach foi uma novidade absoluta e, no seu misto de precisão e liberdade, merece, neste balanço de 2023, o epíteto de disco do ano.
Trata-se, de facto, de uma gravação que permaneceu inédita, apesar de ter sido realizada há quase três décadas — aconteceu em maio de 1994, no espaço caseiro do próprio Jarrett, Cavelight Studio. As célebres Württemberg Sonatas surgem, assim, como matéria de um verdadeiro renascimento, de uma só vez técnico e sensual, intimista e universal. Ou como ele disse: “Ouvi as sonatas tocadas por cravistas e senti que havia espaço para uma versão de piano" — eis o primeiro movimento, Moderato, da Sonata nº 1.
Nascida em Paris, em 1988, Camille Thomas é um dos nomes emblemáticos da actual aristocracia do violocenlo. Como ela escreve nas notas deste maravilhoso álbum triplo, "Chopin é, desde sempre, uma inspiração e uma consolação, como um amigo íntimo que partilha a minha vida." Aqui encontramos uma homenagem a um criador (1810-1849) que, "ainda que tenha composto essencialmente para piano", deixou um legado que apela às transcrições para violoncelo, a começar por aquelas que foram feitas pelo seu amigo Auguste Franchomme (1808-1884) — sem esquecer o tema Jane B, de Serge Gainsbourg, cantado por Jane Birkin no álbum Jane Birkin/Serge Gainsbourg (1969), tradicionalmente identificado como Je t'aime... moi non plus, agora reinterpretado com a própria Jane Birkin.
Aqui ficam Jane B, com Julian Brocal no piano, e o movimento IV - Finale. Allegretto, do Trio para Piano em Fá Menor, Op.8, com Daniel Hope (violino) e Julien Brocal (piano).