O terceiro álbum, Dodge and Burn, surgiu a 25 de Setembro de 2015, tendo tido uma montra especial com o single de I Feel Love (Every Million Miles): a energia de sempre, porventura com uma Alison Mosshart ainda mais essencial na teatralização do seu som — ei-los em The Late Show, apresentados por Stephen Colbert.
Sea of Cowards, o segundo álbum, foi lançado a 11 de Maio de 2010, precedido de uma apresentação ao vivo, nas instalações da Third Man Records, de Jack White. Talvez por isso, e também pela rapidez do seu registo (cerca de três meses para 15 canções — o alinhamento final inclui apenas 11), há nele uma vivacidade capaz de devolver ao blues rock o seu feeling mais depurado e primtivo. Aqui ficam dois registos: Blue Blood Blues, precisamente da citada apresentação, e o teledisco de Die By the Drop, com direcção de Floria Sigismondi.
The Dead Weather é uma daquelas bandas em que as perfomances ao vivo, muito mais do que uma "reprodução" do que está nas álbuns, adquirem a dimensão de eventos únicos e irrepetíveis. E não necessariamente ligados à pompa dos grandes estádios. Assim aconteceu a 17 de Junho de 2009 num concerto mais ou menos intimista, no Roxy, de Los Angeles. Dois temas para testemunhar tão especial evento: Bone House e Will There Be Enough Water?.
Mais uma vez, a preocupação de combinar o novo trabalho de composição com a evocação de raízes mais ou menos primitivas ficou patente no single de I Cut Like a Buffalo. Assim, o sarcasmo existencial da canção — You know I look like a woman / but I cut like a buffalo — surgia acompnhado por uma versão de um velho e obscuro clássico do psicadelismo dos anos 60: A Child of a Few Hours Is Burning to Death, de The West Coast Pop Art Experimental Band — eis o teledisco do primeiro tema e uma performance ao vivo do segundo.
Aqui, ainda mais do que nos filmes, vejo-me compelido a solicitar a indulgência do leitor: "aquele" disco que outros classificam de incontornável (e não tenho nenhuma razão para duvidar), provavelmente não o ouvi... Em todo o caso, confesso algum cansaço pelo experimentalismo chic que circula um pouco por todo o lado, inevitavelmente favorecido pelos modos virtuais, virtualmente acelerados, de escuta da música.
Por isso também, devo reconhecer, com algum embaraço, mas sem sentimento de culpa, a minha fidelidade aos "velhos" que não páram de nos surpreender (até saíu o 100º álbum oficial de Frank Zappa!). Dito isto, deixo-vos a volatilidade da habitual lista, acompanhada por alguma música com imagens ou, se quiserem jogar com as palavras, alguma música imaginada — Even when the world turns its back on me / That could be a war, but I'm not Joan of Arc...
FADO PORTUGUÊS, Amália Rodrigues
DANCE ME THIS, Frank Zappa
REBEL HEART, Madonna
CREATION, Keith Jarrett
SAVE YOUR BREATH, Kris Davis Infrasound
HONEYMOON, Lana Del Rey
ALGIERS, Algiers
APOCALYPSE, GIRL, Jenny Hval
DODGE AND BURN, The Dead Weather
ABYSS, Chelsea Wolfe
>>> Lana Del Rey (Music To Watch Boys To) + Algiers (Black Eunuch) + The Dead Weather (I Feel Love (Every Million Miles)).
O primeiro álbum, Horehound, chegou a 14 de Julho de 2009, na sequência de três semanas de gravações, em Janeiro desse ano, nos Third Man Studios — uma obra enraizada num assumido primitivismo de garage rock, ao mesmo tempo capaz de transmitir uma sensação de sereno experimentalismo. De novo com assinatura de David Swanson, o teledisco de Will There Be Enough Water?, um blues acústico assinado por Jack White e Dean Fertita, organiza-se como uma homenagem à tradição dos discos de vinyl — declaração ética, filiação estética.
Ainda antes do primeiro álbum, o segundo single de The Dead Weather, editado a 25 de Maio de 2009, reunia duas preciosidades: Treat Me Like Your Mother, magnífico exemplo de uma lógica colectiva de composição [sustentando um bizarro duelo White/Mosshart no teledisco assinado por Jonathan Glazer, o cineasta de Debaixo da Pele], e You Just Can't Win, tema de Van Morrison recriado com contagiante energia por Jack White [video ao vivo].
A história de The Dead Weather começa com outra banda... Por isso, não digam a ninguém, mas permitam-me que proclame, militantemente, que a coisa mais genuína (não digo a "melhor", não quero ofender ninguém) que o rock produziu no século XXI dá pelo nome de The Kills. Que é como quem diz: a aliança entre a americana Alison Mosshart e o britânico Jamie Hince — som agreste, habitado pela mais delicada poesia, tudo imaginado numa austeridade de guitarras capaz de encher pavilhões com o sentimento de uma intimidade à flor da pele.
Abreviando, lembremos que The Kills chegaram a um quarto álbum, o prodigioso Blood Pressures (2011), como quem desemboca num planalto redentor. Não desapareceram, comemoraram mesmo o seu 10º aniversário, mas (ainda) não voltaram a gravar.
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The Dead Weather viria a ser o produto de um belo acaso. Rezam as crónicas que tudo começou com Jack White, centralíssima personagem de toda esta odisseia, a sentir a voz a falhar... Foi em Memphis, Tennessee: o ex-White Stripes estava num concerto com os seus The Raconteurs e, perante as dificuldades, solicitou a Mosshart (The Kills integravam a digressão de The Raconteurs) que desse uma ajuda no tema Steady, As She Goes — na prática, arrancou aí o projecto The Dead Weather.
No começo de 2009, White e Mosshart, com a competente companhia de Dean Fertita (guitarra) e Jack Lawrence (baixo), começaram a gravar nos estúdios Third Man, criados por White em Detroit, Michigan, em 2001. Poderão perguntar: fazer uma música orgulhosamente independente, contaminada pela nostalgia do blues e a vibração do garage rock... sem um baterista? A resposta é simples: reencontrando um velho sonho adolescente, a bateria estava entregue... ao próprio White.
O primeiro single de The Dead Weather, Hang You from the Heavens (Fertita/Mosshart), foi editado a 11 de Março de 2009. Sugere-se que apertem os cintos... Ou talvez não: o respectivo teledisco, assinado por David Swanson, tem por cenário uma cabine para tirar fotografias; o lado B oferecia uma versão do tema de Gary Numan Are 'Friends' Electric? [audio aqui em baixo].