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domingo, maio 03, 2026

Um pouco mais de Glass (Philip)

Da nossa sessão na FNAC, dedicada a Philip Glass, eis uma curiosa dicotomia. Ou seja: um extrato do filme de Geoffrey Reggio, Koyaanisqatsi, de 1982, com música de Glass, e o teledisco de Ray of Light, de Madonna, realizado por Jonas Akerlund em 1998.
Ou como a aliança música/imagens se reinventa, neste caso sob o signo de uma velocidade que gera a sua própria estética — para saborear e divertir.



sábado, maio 02, 2026

Philip Glass
SOUND + VISION Magazine [hoje, dia 2]

Celebramos os 50 anos da ópera Einstein on the Beach, ao mesmo tempo evocando a multifacetada obra de Philip Glass — são memórias musicais, teatrais e cinematográficas.

>>> FNAC Chiado — 2 maio (17h00).

domingo, abril 05, 2026

Psycho Suite [Bernard Herrmann]

Hitchcock lembrando que é fundamental ver Psycho desde o começo
[cartaz da campanha de lançamento, em 1960]

No último SOUND + VISION Magazine, dedicado a Alfred Hitchcock, este terá sido um dos dos momentos mais singulares. Ou seja: a Suite de Psycho [Psico, 1960], de Bernard Herrmann, interpretada pela BBC Concert Orchestra, conduzida por Keith Lockhart — foi num concerto dos BBC Proms, no Royal Albert Hall, a 12 de agosto de 2011.

SOUND + VISION Magazine
Próxima edição: 'Os 50 anos de Einstein on the Beach, de Philip Glass'
FNAC Chiado: 2 maio (17h00).

domingo, fevereiro 11, 2024

Philip Glass, ou a solidão do pianista

O gosto pelo piano — da composição à interpretação — levou Philip Glass a publicar, em 1988, o álbum Solo Piano. Agora, aos 87 anos (celebrados no dia 31 de janeiro), editou Philip Glass Solo. Os títulos não carecem de esclarecimentos, prevalecendo o gosto pelas infinitas variações das teclas. Do novo álbum, eis Opening, peça originalmente incluída em Glassworks [capa], datado de 1981.
 

domingo, fevereiro 04, 2024

Philip Glass Solo, 2024

domingo, maio 28, 2017

Uma clarinetista no universo
de Philip Glass


Em 2008 a australiana era ainda para muitos (sobretudo deste lado do mundo) uma ilustre desconhecida quando se apresentou em disco num álbum que juntava uma versão para saxofone solista do Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra de Philip Glass, completando o alinhamento do disco com The Protecting Veil de John Tavener e Where The Bee Dances de Michael Nyman. O talento que ali demonstrava, conciliando um sentido de precisão com as marcas pessoais de uma interpretação que parecia coisa feita sem esforço, natural como a respiração, cativou atenções e desde logo dela fez uma das autoras de uma das mais significativas abordagens à obra de Glass exterior à discografia oficial do compositor cuja obra teve o saxofone como presença determinante sobretudo na obra composta para o ensemble na sua fase minimalista.

É curiosamente de peças de uma etapa em que um sentido mais lírico tomou a alma da composição de Glass que Amy Dickson colhe as peças que chama a um disco que dedica, na íntegra, ao compositor. Editado pela Sony Classical, Glass junta à gravação já célebre do Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra uma breve incursão pela música criada para o filme As Horas de Stephen Daldry – em Morning Phases e Escape – em momentos nos quais o saxofone partilha o protagonismo com o piano. O disco abre com uma leitura (magnífica) de uma versão para saxofone da Sonata para Violino e Piano, retomando ali – mas numa obra que reflete outras demandas de liberdade na música de Glass – um modelo de trabalho semelhante ao aplicado na gravação de 2008, afinal, a peça que abriu (e bem) todo este conjunto de abordagens.

domingo, abril 09, 2017

O piano de Philip Glass
segundo Víkingur Ólafsson


Estreada em disco ainda nos oitentas em Solo Piano, um conjunto de peças que o próprio compositor interpretou, a obra para piano de Philip Glass juntou em quase 30 anos uma multidão de títulos protagonizados por diversos pianistas. O islandês Víkingur Ólafsson está por isso longe de ser um “caso” invulgar pelo facto de assinar um conjunto de interpretações dos livros de “études” de Glass, juntamente com a abertura de Glassworks, num lançamento da Deutsche Grammophon. Um brilhante cunho interpretativo, juntamente com uma ousadia que se expressa na apresentação de algumas “versões” de peças às quais se junta ao piano um quarteto de cordas, faz deste disco um dos que mais se destacam entre o lote já expressivo de abordagens de instrumentistas à obra de Philip Glass.

O projeto centrado na obra de Philip Glass surgiu depois de o pianista ter apresentado estas mesmas peças em digressão, propondo agora em disco pontos de vista interpretativos que esse relacionamento talhado na estrada lhe foi dando nos sucessivos reencontros com estas obras. A sua edição em disco foi pensada para assinalar o 80.º aniversário do compositor.

A versão disponível em plataformas de streaming acrescenta ainda, além das peças instrumentais e dos arranjos com quarteto de cordas, uma outra abordagem (ao Étude No. 9), que junta eletrónicas e que vinca mais ainda o sentido interventivo com o qual o pianista aqui enfrenta este corpo de composições.

 

Formado na Juilliard Scholl em 2008, Víkingur Ólaffson é, aos 32 anos, um nome já reconhecido e premiado na Islândia, representando esta sua estreia na Deustche Grammophon o primeiro passo de uma etapa de maior exposição internacional que o ano vai colocar pela sua frente, estando já agendadas colaborações e atuações com grandes orquestras e salas de primeira linha.

terça-feira, janeiro 31, 2017

Ver + ouvir: Planctus
por Natalie Merchant e Philip Glass



O compositor Philip Glass compôs, em 1997, a canção Planctus, baseada num texto tradicional do século XVII em latim. A canção foi criada para a voz de Natalie Merchant, antiga vocalista dos 10.000 Maniacs. Planctus teve então estreia no Carnegie Hall. O tema conheceu depois nova versão no álbum de 2008 Tara Hugo sings Philip Glass, da cantora Tara Hugo.

Nos 80 anos de Philip Glass

Hoje, no dia em que se celebram os 80 anos de Philip Glass, o Carnegie Hall, em Nova Iorque, a assinala a data com a estreia mundial da sua Sinfonia Nº 11, interpretada pela Bruckner Orchester Linz, sob direção de Dennis Russell Davies, num programa que inclui ainda Days and Nights in Rocinha e Ifé: Three Yorúbá Songs, esta última uma colaboração do compositor com a cantora Angélique Kidjo.

De 1 a 8 de fevereiro o Carolina Performing Arts (UNC Chapel Hill) apresenta "Glass at 80," uma celebração da obra de Glass e do seu impacte na música e na vida intelectual, com um programa que inclui as presenças de colaboradores seus como Lucinda Childs, Laurie Anderson e o Kronos Quartet. Em Nova Iorque, o National Sawdust (Brooklyn) vai ter uma série de programas ao longo do ano sob a desigação Phil@80, que inclui, a 24 de fereveiro, The Complete Piano Etudes por Maki Namekawa. Em Manhattan, o Carnegie Hall (que como acima se refere estreia hoje a Sinfonia nº 11) vai ter Glass na cadeira do compositor ao longo da temporada, anunciando-se atuações com a Pacific Symphony Orchestra (com Anoushka Shankar), da Louisiana Philharmonic, de Nico Muhly, do Philip Glass Ensemble e da American Composers Orchestra.

Em junho o Opera Theater of Saint Louis vai apresentar a estreia americana da ópera The Trial, com encenação de Michael McCarthy, uma produção da Royal Opera de Londres, quando ali foi apresentada em 2014.

Nos discos, para já, e assinalando o 30º aniversário do Concerto para Violino nº 1, a Orange Mountain Music (editora do próprio Glass) edita uma nova gravação com o virtuoso Renaud Capuçon e a the Bruckner Orchester Linz, dirigidos por Dennis Russell Davies.

domingo, abril 03, 2016

Walt Disney, segundo Philip Glass


Usar a ópera como espaço de construção de um retrato, definindo não apenas a figura, mas também o espaço (humano e físico) que a rodeiam, é dispositivo que conta já com 40 anos de vida na obra de Philip Glass. De resto, o seu primeiro conjunto de incursões pelo universo da ópera fez nascer uma trilogia de retratos, juntando ao de Einstein um de Gandhi em Satyagraha (1980) e, pouco depois, um do faraó Akhenatón em Akhnathen. De então para cá assinou ainda retratos para figuras como Galileu Galileu, Kepler, tendo ainda as figuras de Cristóvão Colombo e Ulysses S. Grant como, respetivamente, protagonistas de The Voyage (1990) e Appomattox (2007). Walt Disney é o mais recente destes retratos. The Perfect American tem libreto de Rudy Wurlitzer (que parte do romance de Peter Jungk Der König von America) e encenação de Phelim McDermott e contou nesta sua primeira produção com as vozes de Christopher Purves (Walt Disney), David Pittsinger (Roy) e Donald Kaasch (Dantine), entre outros, frente ao coro e orquestra do Teatro Real de Madrid, dirigidos pelo habitual colaborador Dennis R. Davies.

A ópera mostra-nos Disney como um homem já muito doente que, com a morte pela frente, vive o presente assombrado pelo medo de um futuro em que o seu nome poderá deixar de ser associado à pessoa que ele foi, mas recordado antes pela marca que deixou. Musicalmente o trabalho de composição mantém a busca de relação com um certo lirismo que tem marcado alguma da sua música mais recente (mais na escrita instrumental do que na vocal), não apenas no palco de ópera, mas também nos universos da música de câmara e instrumental.

O maior trunfo desta produção é a encenação (de Phelim McDermott) que explora ideias do cinema de animação em jogos de projeções em ecrãs móveis. The Perfect American, que tinha já conhecido uma primeira edição em DVD e Bly-ray, chega agora a disco num lançamento em dois CD assegurado pela editora do próprio compositor, usando novamente a gravação da produção inicial da ópera. Fazia falta esta edição em CD?

Para quem quer ter a integral das obras do compositor, naturalmente que sim. Porém, despida da brilhante encenação, e longe das obras de teatro musical musicalmente mais entusiasmantes que Philip Glass assinou noutros tempos, acaba por ser um lançamento de necessidade menor (convenhamos que o DVD e Blu-ray já davam, aqui, conta do recado). Com grande parte da sua obra para palco já editada em disco, faltando apenas juntar à discografia algumas das mais recentes óperas de câmara, como The Sound of a Voice (2003) ou The Trial (2014), assim como as duas que criou baseadas em textos de Doris Lessing, ou seja, The Making of the Representative for Planet 8 (1988) e The Marriages between Zones Three, Four, and Five (1997), isto sem esquecer o belíssimo O Corvo Branco (1991), que, sem favor, é mesmo uma das suas melhores óperas, convenhamos que tinha escolhas mais interessantes a fazer na hora de escolher que disco novo poderia lançar pela Orange Mountain Music.

domingo, agosto 16, 2015

E depois... da nona

Philip Glass ultrapassou a “maldição” das nove sinfonias. Pena que a “décima”, que agora surge em disco, seja das menos interessantes da sua obra orquestral.

Beethoven, Schubert, Bruckner, Mahler, Vaughan Williams… Todos eles são compositores cuja obra sinfónica não passou da respetiva “nona” (mesmo tendo alguns deles deixado esboços do que poderia ter sido, depois, a “décima”. É claro que não é regra. E entre os grandes sinfonistas do século XX tanto houve um Sibelius que assinou apenas sete sinfonias, um Henze que fez uma décima ou um Shostakovich que nos deixou quinze. Há uns anos, em conversa com Philip Glass, falámos sobre o que pensava ele dessa barreira das nove sinfonias e de como a poderia – se é que o desejava – ultrapassar. No seu reconhecido bom humor, respondeu que comporia a nona e a décima ao mesmo tempo. E estando uma terminada, a outra estaria igualmente pronta. E assim a “maldição” (o que gerou risos) seria vencida. Tal como a “nona” (uma das suas mais interessantes obras orquestrais recentes), a Sinfonia N.º 10 foi composta por Philip Glass em 2011, com algum trabalho adicional em 2012. Contudo, a sua génese foi bem distinta do que aconteceu no resto de toda a sua obra sinfónica. E na verdade parte até de um trabalho de composição que precede a Sinfonia N.º 9

A música que serve de ponto de partida à Sinfonia N.º 10 corresponde a um conjunto de peças criadas para o Philip Glass Ensemble, pensadas para apresentar na reta final da Expo de Saragoça, em setembro de 2008. Com o título Los Paisages del Rio, era uma obra para teclas, sopros e voz destinada a acompanhar o espetáculo de fogo de artifício que assinalou o encerramento da exposição. E assim foi, nas margens do Ebro, perante 200 mil pessoas. Contudo, achando-a votada a não ter nova vida senão naquele momento, Philip Glass pensou em fixar todo este corpo musical numa sinfonia, exigindo o processo um trabalho de arranjo para a dimensão e variedade de instrumentos de uma orquestra. Ao assumir a direção da Orchestre Française des Jeunes, o maestro Dennis Russel Davies – habitual colaborador do compositor e o grande responsável por tê-lo levado a compor sinfonias – encontrou a orquestra e o lugar para que a Sinfonia N.º 10 ganhasse forma.

A ideia de compor uma sinfonia a partir de matéria prima já existente não era nova para Glass. Basta recordar como as suas sinfonias números 1 e 4 decorrem, respetivamente, da assimilação dos álbuns Low e Heroes, de David Bowie. E com a ópera La Belle et la Bête – uma das que integram uma trilogia que nos anos 90 criou com Cocteau como fonte de inspiração – tinha já mostrado como era viável pensar uma nova dimensão orquestral para material inicialmente pensado para o ensemble.

Esse não é o problema maior que faz contudo da Sinfonia N.º 10 uma das menos estimulantes da obra de Philip Glass. Nem o exultante tom festivo, naturalmente esperado numa música que nasceu para dar vida a uma noite de encerramento de uma grande exposição, é o seu calcanhar de Aquiles. Num momento em que, por uma série de recentes trabalhos de música instrumental, como as partitas interpretadas por Tim Fain já gravadas em disco, e em obras orquestrais recentes como o Concerto para Violino N.º 2 (de 2009), que há poucas semanas conheceu nova e brilhante interpretação em disco por Gidon Kremer – na Deutsche Grammophon – a obra de Glass dá sinais de busca por outras demandas e um novo sentido de lirismo, a Sinfonia N.º 10 é um passo atrás. E parece pouco mais do que uma sucessão de soluções de composição e arranjo para orquestra fechadas em revisitações de modelos já antes experimentados.

Se por um lado a matéria prima original apresentada em Saragoça garantia marcas de identidade com o lugar e a ocasião, o seu upgrade para o desafio sinfónico poucas vezes escapa a uma sensação de inconsequente repetição. E note-se que, falando de Philip Glass, a ideia de repetição não é um argumento “contra”. Pelo contrário. Mas aqui acontece sem aparente busca de um destino ou sentido. Parece uma gestão em continuidade… E não é isso que se espera de um dos maiores compositores do nosso tempo. Que, mesmo não se reconhecendo como um sinfonista, tem na sua obra orquestral alguns momentos de excelência e visão. Nada como voltar a escutar as duas sinfonias baseadas em álbuns de Bowie, a colossal e ecuménica Sinfonia N.º 5, assim como os sinais de demanda materializados nas números 7 e 8, além dos que definiram mesmo novos horizontes na já aqui recordada número 9. Ficamos à espera de melhores ares por uma eventual número 11 que, mais anos menos ano, deverá surgir (Glass já afirmou que não chegaria às 15 de Shostakovich, mas uma décima primeira ainda está dentro do intervalo de possibilidades).

Não há contudo aqui razões para pessimismos. De resto, mesmo sem traduzir ecos dos espaços onde tem lançado os caminhos de algumas das suas mais interessantes composições recentes, a Concert Overture que conclui o alinhamento do disco dá-nos o melhor instante desta nova edição da Orange Mountain Music. Composta para assinalar os 200 anos da guerra anglo-americana de 1812, e estreada em concertos em Baltimore e Toronto nos quais foi também apresentada a célebre Abertura 1812 de Tchaikovsky – criada para evocar outro facto do mesmo ano, nesse caso a resistência russa ao avanço das tropas de Napoleão – é uma pequena peça igualmente celebratória, igualmente focada em modelos que recordam outras etapas na obra de Glass, mas decididamente mais entusiasmante e cativante que a sinfonia que pouco faz pela música criada para aquela noite em Saragoça e que, no contexto original, deve ter sido bem mais saborosa de escutar.

domingo, junho 28, 2015

Philip Glass, colheitas de 80


Através do catálogo da Music on Vinyl a obra de Philip Glass tem vindo a conhecer novos lançamentos em LP, ora apresentando neste formato registos antes apenas disponíveis em CD – como foi o caso das sinfonias Low e Heroes – ora reeditando alguns títulos que, na origem, chegaram a ter primeira vida em vinil, como o foi já o caso do álbum Solo Piano, um primeiro registo de peças de música instrumental que Glass apresentou originalmente em finais dos anos 80. Hoje focamos atenções em outros dois títulos que, tal como esse álbum de 1989, correspondem a uma etapa de ligação editorial do compositor com a editora CBS e que acolheu as suas primeiras experiências concebidas para o formato (leia-se tempo de duração do LP).

Esse é especificamente o caso de Glassworks, o primeiro esforço de composição de Philip Glass pensado em concerto para edição em disco e que foi, em 1982, a primeira gravação inédita que fez editar pela CBS (que antes havia reeditado Einstein on The Beach, originalmente um lançamento da Tomato Records).

Glassworks é um conjunto de seis peças que traduz, no quadro evolutivo da obra de Glass, o momento em que surge. Contextualizando vale a pena lembrar que tinha feito uma primeira abordagem a formas mais clássicas de orquestrar e utilizar o canto lírico em Satyagraha, encontrara (depois de North Star e Koyaanisqatsi) um espaço regular de trabalho no cinema e tinha no seu ensemble, com o qual começava a tocar mais vezes e em mais cidades, a sua principal plataforma de relacionamento das plateias que encaravam o seu nome como uma das revelações daquele tempo (apesar de ter obra desde meados dos anos 60).

As peças que gravou em Grassworks exploram precisamente a presença das características instrumentais e vocais do ensemble, num conjunto de peças que se relacionam em três pares: duas protagonizadas pelo piano, duas de profunda melancolia, duas de vibrante pulsão rítmica conduzida pelas electrónicas. Ao mesmo tempo Glass assimilava das experiências minimalistas dos anos 60 e 70 algumas características, delas partindo rumo à definição de uma nova linguagem que valorizava o uso da repetição e não escondia o encantamento pelos arpejos.

Glassworks é por isso o ponto de afirmação de um novo patamar, do qual evoluiriam muitas das ideias que ganharam forma noutras composições dos anos 80, entre elas a peça musical The Photographer, estreada na Holanda nesse mesmo ano.

Baseada na vida do pioneiro da fotografia Eadweard Muybridge (1830-1904), The Photographer assinala um momento de transição entre as heranças minimalistas, que entretanto moldara também a novas formas na música de Koyaanisqatsi, cruzando-as com as novas demandas entretanto reveladas no álbum de 1982, sobretudo evidentes em A Gentleman’s Honor, cuja versão cantada representa por sua vez um primeiro sinal de outra busca que, pouco depois o conduziria ao ciclo Songs From Liquid Days. Do conjunto de músicos que participaram na gravação de The Photographer será curioso referir que incluía, como maestrina do grupo de cordas, a hoje aclamada Marin Alsop (que entretanto, e à frente da Bournemouth Symphony, lançou já música de Glass pela Naxos).

Glassworks e The Photographer regressam com estas edições em vinil não apenas ao formato de LP (que conheceram nas suas vidas originais, respetivamente em 1982 e 83), mas também recuperam as suas capas originais, bem mais apelativas e marcantes que os booklets uniformes das edições mid price que nos últimos anos habitavam nos escaparates como únicos espaços de contacto com estas marcantes peças da obra de Philip Glass criadas no momento em que o mundo o começava a descobrir e aclamar como um dos grandes compositores de finais do século XX.

Este texto foi originalmente publicado na Máquina de Escrever

segunda-feira, novembro 24, 2014

Discos: os lançamentos desta semana


Hoje chega às lojas (mais as virtuais que as reais, é verdade) um novo disco de David Sylvian. Com o título There’s a light that enters houses with no other house in sight o disco não representa ainda o sucessor de Manafon, traduzindo na verdade mais um esforço coletivo projetado numa obra de grande fôlego na qual Sylvian colabora com o poeta Franz Wright, e conta ainda com contribuições de Christian Fennesz e John Tilbury. O disco surge em três versões, a primeira das quais (acompanhado por um livro) já entretanto esgotada, restando assim o mais “convencional” digipack e o lançamento digital.

Também hoje é lançada uma versão “definitiva” do álbum de estreia dos Frankie Goes To Hollywood. Lançado há 30 anos, Welcome To The Pleasuredome é evocado agora na caixa antológica Inside The Pleasuredome, uma reedição em vinil do álbum original, numa nova prensagem apresentada juntamente com ilustrações criadas por Lo Cole, que assinou as imagens da capa original. A caixa inclui ainda um conjunto de três discos em 10” com remisturas inéditas de Relax, Two Tribes e The Power of Love, juntamente com temas existentes no álbum. Há um livro de 48 páginas com imagens alusivas ao disco, textos de Paul Morrissey e fotos de John Stoddart e Peter Ashworth. Há ainda um DVD com os telediscos da época e misturas em 5.1 dos singles e faixas do álbum, e uma cassete de 90 minutos com remisturas de Relax, um flipbook com uma animação rara e um cartão de acesso a ficheiros em alta resolução destes conteúdos.

Terceira grande chamada de atenção desta semana para uma gravação integral dos Études para piano de Philip Glass, em interpretações de Maki Namekawa. Lançamento assegurado pela Orange Mountain Music, a editora do próprio compositor.

Também esta semana:

Work in Progress – Outtakes 1963 é mais uma coleção de gravações de estúdio dos Beatles em 1963 (e mais um lançamento que surge pela passagem ao domínio público dos materiais desta fase da carreira dos fab four). Dos Beatles surge ainda uma reedição em vinil das históricas antologias “vermelha” e “azul” assim como de 1 e Love.

Também esta semana são editadas as caixas The Velvet Underground (que junta em seis discos materiais alusivos ao terceiro álbum dos Velvet Underground), Love Has Many Faces: A Quartet, A Ballet Waiting To Be Danced, de Joni Mitchell, Cream 1966-1972 (dos Cream, naturalmente, com reedições em vinil) e The Polydor Years, que junta em CD e DVD parte da obra dos Moody Blues.

No departamento das reedições há que assinalar a chegada de um convite ao reencontro com a obra dos Jesus Jones, surgindo os seus discos de estúdio em versões com um CD que corresponde aos discos originais mais alguns temas adicionais, aos quais se junta um outro CD com temas de singles e máxis e ainda um DVD (com telediscos e atuações em televisões e em concerto) como extra. Os Public Enemy reeditam o clássico It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back.

Entre nós chega às lojas uma edição que assinala os 20 anos de Viagens, álbum de estreia de Pedro Abrunhosa com os Bandemónio.

A caixa Original Album Series dedicada a Shirley Bassey junta os seus álbuns Something, Something Else, I Capricorn, And I Love You So e Never Never Never. Surge também uma caixa idêntica com cinco álbuns de Sheena Easton.

Nos terrenos do jazz destaca-se Hamburg 72, de Keith Jarrett (com Charlie Haden e Paul Motian).

Na área da música contemporânea apresenta-se uma edição que junta obras para percussão de Karlheinz Stockhausen. Sob o título Complete Early Percussion Works é um lançamento da Mode.

Outros lançamentos:
Bruce Springsteen – Winterlan 15th December 1978
dEUS – Selected Songs 1994-2014
Echo & The Bunnymen – Porcupine (hardback vinil)
Echo & The Bunnymen – Live In London
Fatboy Slim – The Sets (live at SMS)
Faust - Just
Gotan Project – Club Secreto
I Am Kloot – From Here To There
James Brown – The Singles Collection 1958-62
Kelis – Live in London
Nick Drake – A Treasury (vinil)
Visage – Fade to Grey (orchestral) (single)
Vários – Saint Etienne Presents Songs for a London Winter

Esta é uma seleção pessoal de alguns dos lançamentos desta semana.

sábado, setembro 20, 2014

Em busca da música do século XXI (1)


Este texto é um excerto de um artigo sobre cinco compositores do nosso tempo originalmente publicado no suplemento Q do Diário de Notícias com o título 'Para descobrir a música do século XXI'.

As fronteiras que em tempos poderiam existir entre os espaços da música clássica e dos universos pop/rock começaram a conhecer grandes rombos em parcerias que juntavam visões de ambos os lados do que, para alguns, podia ser um muro. Mais que as visões de revisitação de Bach ou Debussy pelas electrónicas de, respetivamente, Wendy Carlos e Isao Tomita, ou as experiências de convivência da música dos Deep Purple com a presença de uma orquestra sinfónica, houve diálogos mais profundos estabelecidos quando Pierre Boulez gravou um disco com Frank Zappa, quando Philip Glass criou ciclos de canções com Suzanne Vega, David Byrne ou Leonard Cohen ou quando John Tavener compôs uma peça vocal expressamente pensada para a voz de Björk. Em todos os casos houve sempre em cena pelo menos dois nomes, uns com historial feito em terreno pop/rock, outros em espaços da música erudita. O novo século nasce contudo com uma nova geração de compositores para quem as noções de barreiras não existem, com casos até de figuras com carreira na pop (como Damon Albarn, os The Knife ou Rufus Wainwright a aventurar-se no espaço da ópera). Não é inédita a atitude, e basta recordarmos como Gershwin integrou o jazz ou Bernstein o fez com a música da Broadway e outras formas populares americanas, para termos a noção de que fazer música sem barreiras não é uma invenção do século XXI. O que é talvez do século XXI é a tomada de consciência de que esta pode mesmo ser uma ética a definir uma nova forma mais frequente de estar na música. De resto, em entrevista recente ao DN, o compositor Max Richter descrevia mesmo a música do século XXI como sendo aquela em que “a tendência dominante é a ideia das tradições musicais se interpenetrarem e das fronteiras ficaram difusas”. 

Max Richter é um bom exemplo de uma atitude que passa também por outros compositores que, aos poucos, estão a definir o que é, afinal, a música do século XXI. Se a ele juntarmos os nomes de Richard Reed Parry (que integra os Arcade Fire), Johnny Greenwood (dos Radiohead), Bryce Dessner (dos The National) ou Nico Muhly, encontramos uma mão-cheia de figuras que, já com peças editadas em disco, revelam uma obra em que heranças e experiências na pop se cruzam com instrumentos, grupos e formas da clássica. Para lá dos cânones, uma nova música nasce por ali...

(continua)

PS. A imagem que ilustra este post é um momento da ópera 'Tomorrow in a Year' dos The Knife

quinta-feira, setembro 11, 2014

Para ler: Steve Reich e Philip Glass
reunidos num palco em Brooklyn

É um dos acontecimentos musicais do ano e envolve uma série de espetáculos a realizar no palco da Brooklyn Academy of Music. Após anos e anos de caminhos separados - e ocasionalmente palavras menos "entusiasmadas", Steve Reich e Philip Glass voltaram a apresentar um programa conjunto, que cruza obras dos dois compositores. O primeiro concerto teve lugar ontem.

Leia aqui o que diz o New York Times.

domingo, setembro 07, 2014

A Berlim de Bowie
segundo Philip Glass


Depois de ter lançado uma nova gravação da Low Symphony (que na verdade é também a Sinfonia Nº 1 de Phip Glass), a Orange Mountain Music apresenta agora um novo registo de uma outra obra sinfónica de Glass baseada na música de David Bowie. Este texto integra parte de um artigo originalmente publicado no DN com o título 'Fase berlinense de Bowie inspira discos de jazz e de música sinfónica'.

Com uma obra discográfica que assinalou este ano os 40 anos de vida, David Bowie somou já vários episódios marcantes e influentes. E se foi com Ziggy Stardust (em 1972) que a sua carreira ganhou solidez e dimensão global foi um pouco mais tarde, com uma sucessão de discos que tiveram a cidade de Berlim como casa que o músico assinalou os momentos mais revolucionários da sua discografia. Depois de uma fase atormentada em Los Angeles, em Berlim Ocidental Bowie viveu um tempo de paz, os berlinenses, mesmo que o reconhecendo, aceitando-o como um dos seus, deixando-o viver o dia a dia quase como um anónimo. Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979) – aos quais podemos juntar o álbum ao vivo Stage (1978) – definiram um momento de grande visão que conciliou as guitarras e as heranças do rock com a descoberta de electrónicas e, sobretudo nos discos de 1977, juntou a escrita de canções à criação de uma série de temas instrumentais nos quais, com a ajuda de Brian Eno, Bowie assinou olhares sobre a vida urbana do seu tempo e, em particular, a cidade de Berlim.

Foi precisamente junto dos instrumentais de Low que, em 1992, Philip Glass encontrou a matéria prima da qual partiu para criar uma primeira sinfonia. O compositor recordou, nas notas que acompanharam em 93 a primeira gravação da Low Symphony, que o primeiro álbum que Bowie havia editado em 1977 usava técnicas que eram semelhantes a procedimentos então usados por compositores na área da música experimental, o que fez com que o disco não esgotasse a sua capacidade em cativar ouvintes apenas entre os que seguiam a música pop. Partindo dos instrumentais Subterraneans, Some Are e Warszawa, Bowie definiu os três andamentos da sinfonia. “Tratei os temas como se fossem meus e deixei que as transformações seguissem a minha inclinação composicional quando possível”, obtendo no final o que considerou como “uma real colaboração” entre a sua música e a de Bowie e Eno, como ele mesmo explicou no booklet da edição pela Point Music, que apresentava uma interpretação Apela Brooklyn Philharmonic Orchestra, dirigida por Dennis Russel Davies. Quatro anos depois, e com uma nova coreografia de Twyla Tharp por objetivo, Glass regressaria a Bowie, partido de seis momentos do álbum Heroes para, sob uma lógica semelhante, criar aquela que então se apresentou como a sua quarta sinfonia.

Este ano estas duas sinfonias regressam a disco. O maestro Dennis Russel Davies surge agora à frente da Sinfonieorchester Basel (que dirige desde 2009), apresentando pela Orange Mountain Music (editora do próprio Philip Glass), novas gravações da Symphony Nº 1 – Low e Symphony Nº 4 – Heroes, o díptico criado sobre a música de Bowie. Vale a pena lembrar que estas abordagens não esgotam as ligações de Glass às esferas e figuras da música popular, que podemos reconhecer também em ciclos de canções como Songs From Liquid Days (com Suzanne Vega, David Byrne, Laurie Anderson ou Paul Simon) e Book of Longing (com Leonard Cohen) ou em colaborações com Aphex Twin ou os S’Express.

A Heroes Symphony tinha já conhecido duas gravações no passado, uma pela Bournemouth Symphony Orchestra, dirigida por Marin Alsop (editada pela Naxos) e outra pela American Composers Orchestra, sob direção do maestro Dennis Russel Davies, talvez o maior especialista na música orquestral de Philip Glass. Esta nova gravação coloca o mesmo Russel Davies ao comando de uma orquestra, mas desta vez frente à Sinfonieorchester Basel, com a qual tinha já gravado a Low Symphony.

Ao passo que na sinfonia criada em torno de Low encontramos um conjunto de três reflexões que Glass faz nascer sobre elementos de três temas instrumentais de Bowie, na sinfonia centrada em Heroes o diálogo com o material musical de Bowie mantém em alguns momentos um relacionamento mais próximo do disco original, seguindo naturalmente depois os destinos de uma demanda pessoal que tem o álbum de 1977 como ponto de partida. A estrutura da sinfonia é também diferente, dividida em seis andamentos, cada qual tendo uma faixa de Heroes como ponto de partida, nem todas elas contudo temas instrumentais. Um dos seis temas sobre os quais Glass criou a sinfonia data das mesmas sessões em que foi gravado o álbum, mas surgiu apenas mais tarde como faixa extra numa reedição em 1991, vindo depois a integrar também o alinhamento da antologia de instrumentais All Saints.



Como complemento a este texto (e ao que se segue num link) vale a pena recordar este diálogo entre Philip Glass e David Bowie, por ocasião da apresentação da Low Symphony, em inícios dos anos 90. É o que acontece quando dois seres maiores reconhecem que se escutaram mutuamente, da música de um tendo nascido, aqui e ali, reflexões que os conduziram a novas ideias.

Podem recordar aqui o que escrevi em maio sobre a Low Symphony, editada este ano também pela Orange Mountain Music.

sábado, julho 26, 2014

Música para um homem do futuro


Esta semana os Pet Shop Boys apresentaram no Royal Albert Hall uma biografia musical de Alan Turing, integrada na programação dos Proms. Este texto é uma versão alargada de um artigo publicado na edição de 25 de julho do DN.

Uma biografia musical com a figura de Alan Turing como protagonista apresentada esta semana representou um dos momentos altos da programação dos Proms, série de concertos que anualmente ocupam uma etapa da programação de verão de concertos de música clássica Londres (tendo o Royal Albert Hall como o seu principal palco). Com o título A Man From The Future, o musical tem como autores os Pet Shop Boys e assinala mais um momento de cruzamento de experiências entre formas habitualmente mais habitadas pela música clássica com figuras com carreira sobretudo feita nos domínios da música popular, juntando-se assim a óperas recentes de nomes como os The Knife, Damon Albarn (a solo ou com Jamie Hewlett), Herbert ou Rufus Wainwright.

Célebre por ter decifrado códigos encriptados dos alemães durante a II Guerra Mundial, o matemático Alan Turing (1912-1954) ficou também na história como vítima de um tempo em que a homossexualidade era criminalizada no Reino Unido, tendo sido sujeito a castração química como alternativa à prisão na sequência de um processo judicial que o acusou de indecência em 1952. Gordon Brown concedeu-lhe um pedido póstumo de desculpa em 2009, ao que se seguiu, já em finais de 2013, um perdão assinado por Isabel II.

Os Pet Shop Boys, que ao longo da sua carreira criaram já dois musicais, uma banda sonora alternativa para o filme mudo Couraçado Potemkin de Sergei Eisenstein e assinaram a música de um bailado, tomaram consciência da história de Turing nos anos 80, através da peça de teatro Breaking the Code. O interesse foi reativado em 2011 por um documentário televisivo, que os levou à biografia Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges.

The Man From The Future, que se apresenta como uma biografia musical em oito partes para orquestra, electrónicas, coro e narrador, nasceu de uma colaboração com este seu biógrafo, que contactaram e que colaborou na escrita do libreto. O perdão real para Turing levou-os a reescrever o final da obra, refletindo o final da peça (sob um aparato musical épico) que Turing foi uma exceção e que há ainda muitos outros condenados, alguns ainda vivos, à espera de igual pedido de desculpa.

A BBC (que programa e transmite os Proms) resolveu incluir este trabalho dos Pet Shop Boys como um dos Late Night Proms deste ano, sendo que não é a primeira vez que há músicos vindos de terrenos pop/rock a surgir no programa (essa estreia coube, em 1970, aos Soft Machine – estando documentada em álbum ao vivo editado em 1988). Além do musical sobre Turing, o ‘Prom’ dos Pet Shop Boys juntou ainda quatro canções suas (Vocal, Love is a Catastrophe, Later Tonight e Rent) em arranjos orquestrais de Angelo Badalamenti, na voz de Chrissie Hynde e a interpretação da abertura de Performance, o espetáculo que levaram em digressão em 1991.

Alan Turing
Se mediaticamente Alan Turing é lembrado por ter decifrar códigos durante a II Guerra Mundial – facto que parece estar no centro das atenções de The Imitation Game filme de Morton Tyldum e protagonizado por Benedict Cumberbatch que terá estreia em outubro no festival de Londres - o trabalho deste matemático britânico na verdade teve uma importância profunda na teoria da computação e inteligência artificial. O seu trabalho na descodificação de códigos dos alemães valeu de Churchill um elogio que nele apontou um dos mais importantes contributos individuais para a vitória aliada. Depois da guerra desenvolveu importante trabalho científico no National Physical Laboratory, tomando depois um lugar na Universidade de Manchester. Menos de dois anos depois do julgamento que o obrigou a uma castração química (sob acusação de homossexualidade), Turing morreu em 1954, com apenas 41 anos (por envenenamento com cianeto), não sendo unânime que se tenha tratado de um suicídio. Desde 1966 é anualmente entregue o Turing Prize para assinalar contribuições técnicas e teóricas na ciência da computação.


Quando a música lembra homens da ciência

A biografia musical de Alan Turing apresentada esta semana em Londres pelos Pet Shop Boys é mais um exemplo de atenção de peças musicais que tomam figuras da ciência e o seu trabalho como inspiração. Aqui ficam mais alguns exemplos:

Philip Glass. Einstein on The Beach é um dos exemplos de obras do compositor norte-americano que tomam uma figura da ciência por protagonista. Estreada em 1976 esta ópera é uma referencia na história da música do século XX. Mais recentemente Glass dedicou também óperas a figuras como Johannes Kepler e Galileu Galilei. Respetivamente ligadas a estes dois últimos, as óperas Kepler e Galileu Galilei foram já editadas em disco (Kepler tendo conhecido também lançamento em DVD).

John Adams. À exceção de A Flowering Tree, as óperas já apresentadas por John Adams têm focado factos e figuras reais do século XX, como a visita de Nixon à China em 1972 ou o assalto ao navio Achille Lauro na década de 80. Em Dr. Atomic (estreada em 2005) evocou a figura de Oppenheimer numa narrativa que tinha por cenário a base de El Alamo na véspera do primeiro teste nuclear.

The Knife. A dupla sueca The Knife iniciou a sua carreira na pop electrónica. No seu álbum mais recente apresentaram uma faceta ativista focada em questões como a identidade de género ou a divisão mais justa da riqueza. Em Tomorrow In a Year (2010) experimentaram o espaço da ópera tendo então focado a vida e o pensamento de Darwin.

Kraftwerk. A música pop já passou muitas vezes por figuras da ciência. Einstein, por exemplo, foi abordado pelos Landscape em Einstein a Go Go e os Big Audio Dinamyte em E=mc2. Em Radioactivity (1975), tema-título do álbum que sucedeu ao historicamente marcante Autobahn, os Kraftwerk citam as figuras de Pierre e Marie Curie.

domingo, maio 25, 2014

Bowie como mote para uma sinfonia


Foi em 1992 que Philip Glass recebeu o primeiro pedido para que compusesse uma sinfonia. Por essa altura era já um compositor globalmente reconhecido, com uma série de óperas inclusivamente gravadas em disco, peças como Music in 12 Parts, Einstein on the Beach ou Music in Similar Motion entendidas como bases de uma nova linguagem (da qual entretanto se afastara, evoluindo), bandas sonoras de filmes como Koyaanisquatsi ou Mishima transformadas em casos de culto e álbuns como Glassworks ou Songs From Liquid Days mostrando como um compositor de finais do século XX se adaptava também aos formatos “clássicos” da música gravada. Dizia-lhe então o maestro Dennis Russel Davies (que se transformaria num dos seus maiores colaboradores) que não ia deixar que Glass fosse um “daqueles compositores de ópera que nunca fizeram uma sinfonia”. A encomenda surgiu da parte da Brooklyn Philharmonic Orchestra, e levou Glass a procurar um caminho novo para a sua música orquestral. Encontrou o mote num álbum histórico de David Bowie: Low, um disco (de 1977) criado numa parceria com Brian Eno, encontrando ali Glass métodos de pensamento semelhantes aos que reconhecia em vanguardas da composição daquele tempo. Originalmente apresentada como Low Symphony, é uma obra em três andamentos, cada qual baseado num tema do álbum (um deles, na verdade, editado como extra numa reedição de 1991). O material musical de Bowie e Eno é claro ponto de partida, mas é da visão de Glass que emerge uma abordagem orquestral que acabaria por abrir horizontes a uma série de novas experiências que depois realizou em experiências sinfónicas subsequentes. 

Originalmente gravada na altura pela orquestra que assegurou a encomenda (em edição pela Phillips), a sinfonia – que agora se apresenta como Symphony No. 1 – conhece agora a sua primeira gravação ao vivo (o disco que até aqui existia nascera de registo em estúdio, obrigando cada naipe e secção da orquestra a gravar em separado, sob um ‘clic’ de guia a garantir a precisão dos tempos). Novamente sob a batuta de Dennis Russel Davies, mas agora com a Sinfonieorchester Basel, a primeira sinfonia de Glass respira novamente numa abordagem clara e luminosa, servindo uma vez mais de importante farol para um processo de diálogo entre as esferas da música pop e as da música erudita, que há muito tem em Philip Glass um dos seus mais ecléticos representantes.

quarta-feira, maio 21, 2014

Para ler: festival junta Philip Glass e Steve Reich

Acabo de publicar na edição online do DN uma notícia que dá conta de um festival em Nova Iorque (em concreto na Brooklyn Academy of Music) que assinala os 50 anos da editora Nonesuch e que vai juntar em palco os dois compositores ainda este ano.

"Os concertos conjuntos de Glass e Reich decorrem ente os dias 9 e 11 de setembro. No primeiro dia serão apresentadas as obras Four Organs e Music For 18 Musicians de Steve Reich e as duas primeiras partes de Music in 12 Parts, o segmento "Cologne" da ópera the CIVIL warS e uma cena (o funeral de Amenofis III) de Akhnathen, de Glass. Dia 10 é a vez de Drumming e, novamente, Four Organs, de Reich. De Glass nesse dia ouvir-se-á Music In Similar Motion e excertos de Einstein On The Beach, Koyaanisquatsi (o longo The Gird), In The Upper Room, Powaqqatsi e The Photographer. Dia 11 o programa conjunto termina com Clapping Music, Sextet e WTC 9/11 de Reich e Music In Similar Motion, a Sinfonia Nº 1 (em versão transcrita para o ensemble) e excertos de Einstein On The Beach e
Glassworks, de Glass."

Podem ler aqui a notícia completa.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Einstein esteve ontem em Paris

Foi há 38 anos. Mas ao contrário de outras óperas, até mais antigas, quando Einstein on The Beach regressa ao palco respeita a visão integrada do compositor Philip Glass, na sua relação com o trabalho de encenação e conceção visual de Robert Wilson e a coreografia de Lucinda Childs. De resto, quando os aplausos de um Theatre du Chateler inteiro sublinharam uma interpretação fenomenal da ópera que fez de Philip Glass um nome maior, a presença dos três criadores em palco, entre cantores e bailarinos, deixou claro que este é um trabalho que não se esgota na música e na palavra. É um corpo total que podemos rever com novas vozes, músicos e figuras em cena, mas que mantém a integridade de uma ideia que, nos anos 70, ajudou a mudar a história do teatro musical.

O Theatre du Chatelet levou a cena uma reposição de Einstein on The Beach. E ontem as câmaras instaladas na sala levaram o que ali acontecia a ecrãs do mundo inteiro, em direto (e em alta definição). O registo desta performance, que ganha ainda maior importância uma vez que nunca foi editado em suporte de vídeo um registo integral de Einstein on The Beach, está agora disponível por algumas semanas no site Culturebox. Pede tempo (são cerca de quatro horas e meia). Mas vale a pena ver.

Podem ver aqui esta performance de Einstein on The Beach.