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domingo, dezembro 20, 2020

10 álbuns de 2020 [2]

Víkingur Ólafsson

Um sereno desafio, monumental na sua serenidade: o pianista islandês Víkingur Ólafsson faz um álbum com peças de Jean-Philippe Rameau (1683-1764) e Claude Debussy (1862 - 1918), não tanto para propor uma "antologia" francesa, antes para experimentar e, de algum modo, fixar aquilo que os torna cúmplices de uma mesma arte de questionamento dos poderes e limites da própria melodia. O resultado é uma prodigiosa aventura técnica e criativa — de Debussy, eis La fille aux cheveux de lin, Preludes Op.1, Nº.8.



* * * * *

[ 1. Fiona Apple ]

quarta-feira, maio 07, 2014

Uma ocasião em que a pop citou Debussy


O segundo single ligado ao álbum Introspective apresentou a primeira experiência dos Pet Shop Boys com uma orquestra. De certa forma inspirado por memórias de abordagens do japonês Tomita à música de Debussy, Left To My Own Devices (1988) assinalou ainda um episódio de colaboração com o produtor Trevor Horn. E representou mais um êxito maior à escala global.

Além dos Pet Shop Boys, a "vida" de Debussy entre espaços da música pop passou já por discos de nomes como os de Marc Almond ou The Art of Noise.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Os melhores discos de 2012 (N.G.)

É uma tradição que o Sound + Vision respeita anualmente. E a partir de hoje as listas dos melhores do ano vão surgir por aqui. Começamos pelos discos que mais marcaram um ano de muitas (e boas) edições discográficas. E os melhores são...

Depois da promessa sugerida no impressionante Learning, em 2012 Mike Hardeas confirmou em Put Your Back N2 It a visão e a personalidade de um autor que se encontrou a si mesmo num espaço pleno de verdade e personalidade. Sem perder as características, temas e demandas, a voz criativa do seu projeto Perfect Genius avançou e, para lá das fronteiras lo-fi, encontrou outra nitidez, fazendo deste seu segundo álbum o “grande” acontecimento discográfico pop/rock (e cercanias) do ano. Um ano que mostrou, sobretudo, interessantes casos de cruzamentos de linguagens, em discos que, aos poucos, definem o início do século XXI como um tempo de diálogos e cruzamentos. Vejam-se os casos de Gold Dust, onde Tori Amos revisita com um a orquestra as canções de 20 anos de discos e nelas encontra novos pontos de vista. Ou Rework onde, sob curadoria de Beck, uma série de músicos (de Amon Tobin a Johann Johansson) procuram olhares pessoais sobre momentos marcantes da obra de Philip Glass. Ou ainda Dr. Dee, onde Damon Albarn (depois da experiência de Monkey: Journey To The West), regressa ao espaço da ópera contemporânea, desta vez assinando aqui o seu primeiro disco a solo. Do balanço do ano destaque-se ainda a proeminência de Frank Ocean e Miguel, novas vozes que definitivamente se afirmam no espaço do R&B, também aqui em franco diálogo com outras referências (em ambos morando aquele olhar transversal que fez a diferença para Prince nos anos 80). De 2012 ficam ainda as memórias do melhor álbum dos Pet Shop Boys desde os dias de Behaviour, a “estreia” (sim, porque já tinha editado antes sob outro nome) de Lana del Rey – que criou uma “estrela” nos moldes dos tempos dos ícones de outrora -, das melhores electrónicas que ouvimos ao longo do ano em Fin de John Talabot e o belíssimo regresso (agora a solo) do ex-Blue Nile Paul Buchanan. A história discográfica do melhor do ano podia ainda juntar nomes como os de Patti Smith, St. Etienne, Andrew Bird, David Byrne com St Vincent, Brian Eno, Ombre, Grizzly Bear, Lemonade, Jack White, Beach House, Leonard Cohen ou Matthew Dear. Mas um Top 10 é um Top 10 e, assim sendo, aqui fica...

1. Perfume Genius, ‘Put Your Back N2 It’ (Matador Records)
2. Tori Amos, ‘Gold Dust’ (Deutsche Grammophon)
3. Pet Shop Boys, ‘Elysium’ (Parlophone)
4. Philip Glass, ‘Rework’ (Orange Mountain Music)
5. Frank Ocean, ‘Channel Orange’ (Def Jam)
6. Miguel, ‘Kaleidoscope Dream’ (Epic Records)
7. Lana del Rey, ‘Born To Die’ (Universal)
8. Damon Albarn, ‘Dr Dee’ (EMI Music)
9. John Talabot, ‘Fin’ (Permanent Vacation)
10. Paul Buchanan, ‘Mid Air’ (Essential Newsroom)

Nacional

Tirando o álbum da Sétima Legião, que é uma antologia de ‘memórias’, é curioso reparar que o melhor do ano editorial português ficou por conta de editoras independentes, acentuando uma tendência que se vem a acentuar nos anos mais recentes. Do panorama destaca-se claramente a estreia em álbum de Moullinex, um dos rostos centrais do catálogo da editora Discotexas, com um disco onde promove um franco (e compensador) diálogo entre a música de dança e o formato da canção, num espaço onde o presente sabe escutar ecos e grandes lições do disco sound, da soul, do funk e da pop. Sem dúvida, a grande surpresa do ano. A memória, além das canções da Sétima Legião (que viram a sua obra ser editada em formato remasterizado, mas ainda sem o tratamento arquivístico que justificava), mora ainda na abordagem de B Fachada, Minta e João Correia ao alinhamento do clássico Os Sobreviventes de Sérgio Godinho. O aprumar da visão de Norberto Lobo (cada vez mais um nome maior no panorama local), o encontro dos The Gift com o piano como voz maior na composição e os diálogos entre a raiz e a modernidade, em sede açoriana, pelo projeto O Experimentar são ainda notas maiores num ano onde convém ainda reter as propostas de DJ Ride, Gaiteiros de Lisboa e o coletivo Orelha Negra.(*)

1. Moullinex, ‘Flora’ (Discotexas)
2. Sétima Legião, ‘Memória’ (EMI Music)
3. B Fachada + Minta + João Correia ‘Os Sobreviventes’ (Mbari)
4. Norberto Lobo, ‘Mel Azul’ (Mbari)
5. The Gift, ‘Primavera’ (La Folie)
6. O Experimentar, ‘Sagrado e Profano’ (O Experimentar)
7. DJ Ride, ‘Life in Loops’ (Optimus Discos)8. Orelha Negra, ‘Orelha Negra’ (VC)
9. B Fachada, ‘Criôlo’ (Mbari)
10. Gaiteiros de Lisboa, 'Avis Rara' (D'Euridice)

Clássica

25 anos depois da sua estreia, a ópera Nixon In China regressou este ano aos palcos e, numa espantosa produção do Met, confirmou essa obra de John Adams como uma das peças maiores da história deste espaço de criação musical (dela falaremos na tabela dos melhores DVD e Blu-ray do ano). Mas de John Adams o ano recorda mais que apenas essa nova vida para a sua obra-prima. E o igualmente fundamental Harmonielehre, de quem havia uma gravação dos anos 80 dirigida por Edo de Waart, conheceu nova gravação, pela mesma San Francisco Symphony, numa direção de Michael Tison Thomas que se destacou claramente como o mais vibrante instante musical do ano discográfico nos domínios da música clássica. Do ano editorial destaca-se ainda a estreia em disco de Out Of Nowhere e Nyx, de Esa Pekka Salonen, parecendo cada vez mais certo que, se perdemos um maestro tão presente em palcos e gravações, passámos a contar com mais um valor maior no panorama da composição do século XXI. Tudo isto num mesmo ano em que Max Richer mostrou como uma editora (neste caso, a Deutsche Grammophon) pode ser também catalisadora de novas visões, ao propor um olhar diferente pelas Quatro Estações de Vivaldi no mais recente volume da série Re-Composed. Em tempo de assinalar os seus 75 anos, Philip Glass estreou duas sinfonias, tendo editado uma gravação da sua empolgante “nona” logo no início do ano. O melhor de 2012 passou ainda por obras para piano de Debussy por Alexei Lubimov e pela abordagem aos concertos para piano de Shostakovich por Menlikov. Simon Rattle gravou uma arrebatadora visão “completa” da nona de Bruckner e Gardiner completou o ciclo de gravações da obra orquestral de Brahms com um belíssimo Ein Deutsches Requiem. Notas ainda para Wagner’s Dream, editado ainda em vida de Jonathan Harvey e o inteligente programa, ao estilo de um recital, de Adès e Isserlis para, de obras de outros compositores, chegar aos Lieux Retrouvèes do primeiro.

1. John Adams, ‘Harmonielehre’ M. Tilson Thomas / San Francisco Symphony (SFS Media)
2. Esa Pekka Salonnen, ‘Out of Nowhere’ Salonen / Finnish Radio Symphony Orchestra (Deutsche Grammophone)
3. Claude Debussy, ‘Preludes’ – Alexei Lubimov (ECM)
4. Max Richter, ‘Recomposed – Vivaldi Four Seasons’, Daniel Hope
5. Philip Glass, ‘Symphony N. 9’ – Bruckner Orchester Linz
6. Anton Bruckner, Symphony N. 9’ – Simon Rattle / Berliner Philharmoniker
7. Thomas Adès ‘Lieux Retrouvées’ – T. Adès + S. Isserlis (Hyperion)
8. Johannes Brahms, ‘Ein Deutsches Requiem’ – J Eliot Gardiner / Orch Revolutionarie et Romantique
9. Dmitri Shostakovich, ‘Piano Concertos’ A. Menlikov / Mahler Chamber Orchestra, dir. Teodor Currentzis (Harmonia Mundi)
10. Jonathan Harvey, ‘Wagner’s Dream’ dir. Martyn Brabbis (Cypress)

(*) Uma lista originalmente publicada incluía o disco a solo de Manuel Fúria, que na verdade só será publicado em 2013.

sábado, agosto 25, 2012

Debussy, a olhar para o século XXI

Esta semana assinalaram-se os 150 anos sobre o nascimento de Claude Debussy. Foi dia 22 para sermos mais precisos. Este texto foi publicado na edição de 11 de agosto do suplemento Q. do DN com o título 'Quando a música de Debussy foi metáfora para um fim de século'

Se a obra de Claude Debussy foi fundamental para definir os caminhos que a música tomaria no século XX, porque não evocar semelhante visão (e espírito visionário) numa altura em que os calendários colocavam a pouca distância a chegada do século XXI? Não que os Art Of Noise se imaginassem, como Debussy o foi, capazes de encontrar na sua obra motivos igualmente marcantes para sugerir a passagem do século (nomes como os Radiohead, Björk ou Sigur Rós pareciam, na altura, mais capazes de transformar semelhante sonho em realidade), mas porque citando Debussy lembravam como há mais que uma mudança de datas a ter em conta quando de uma época passamos para a seguinte.

É a voz do ator John Hurt quem nos conduz nesta visita a memórias de Claude Debussy que, em 1999 o quarteto britânico registou no álbum a que chamou muito simplesmente The Seduction of Claude Debussy. Conta-nos o narrador, logo nos primeiros instantes, que “quando Debussy morreu, a 25 de março de 1918, Paris estava a ser bombardeada pelos alemães. E estava a chover”... Ao longo do disco vamos encontrando, sem uma lógica narrativa necessariamente cronológica, ecos de memórias e factos da vida e marcas da personalidade do compositor. Mas, mais que um biopic sob a forma de uma mão cheia de composições feitas de eletrónicas, cenografias meticulosamente elaboradas e palavras, The Seduction of Claude Debussy é, na essência, uma metáfora sobre a passagem de século, recordando como, cem anos antes, também os sonhos e as dúvidas se acotovelavam a caminho de mais um 31 de dezembro. Mais uma ideia de percurso temático que um recriar da noção do modelo conceptual (que teve maior expressão em várias obras pop/rock nos anos 70) o álbum dos The Art of Noise recupera o sentido agit prop que caracterizara as primeiras afirmações da alma da banda e da própria editora à qual nascia associada, jogando com palavras e frases lapidares, todavia aqui diluídas no texto que escutamos na voz do narrador. A música cita elementos de obras de Debussy e do próprio passado dos Art of Noise, ao mesmo tempo que desenha, quadro após quadro, uma visão que passa pelo drum'n'bass, o downtempo, as estéticas ambient e mesmo a ecos da música pop. A voz da cantora lírica Sally Bradshaw partilha os momentos de protagonismo vocal com a postura mais pop de Donna Lewis ou o rap de Rakim (que faz rimas de palavras de Baudelaire).

Esta não era a primeira vez que os universos da pop e da música clássica dialogavam com semelhante profundidade (não falamos, portanto, das mais banais versões orquestrais de canções pop/rock, tantas que as houve ao longo da história e sem quaisquer expressões de novas ideias em qualquer dos dois universos). E basta recordar peças históricas como o foram as abordagens eletrónicas a composições de nomes como Bach, Haendel ou Beethoven por Wendy Carlos em finais dos anos 60 - que podemos ouvir em Switched on Bach (1968) ou The Well-Tempered Synthesiser (1969) - , o álbum que Frank Zappa gravou em 1979 com o compositor e maestro Pierre Boulez, os diálogos de heranças do canto lírico com a pop de um Klaus Nomi, a visão pop (mais caricata que consequente) de Malcolm McLaren sobre árias de óperas célebres no álbum Fans (1985), as colaborações de Phlilip Glass com nomes como os de Paul Simon, David Byrne ou Suzanne Vega em Songs From Liquid Days (1986), o entusiasmo com que uma série de músicos de correntes eletrónicas responderam ao apelo para participarem no álbum de reconstruções remisturadas de obras de Steve Reich e a nova composição que este estreará brevemente inspirada pela música dos Radiohead ou a presença de fantasmas da música dos tempos da corte de Luis XIV no álbum The Versailles Sessions de Murcof (2008) para repararmos que a aventura dos The Art of Noise estava longe de ser coisa invulgar ou mesmo inédita. A música de Claude Debussy já havia sido inclusivamente visitada pela pop quando, no alinhamento do álbum de 1991 Tenement Symphony, o cantor britânico Marc Almond integra uma breve citação às Trois Chansons de Bilitis (um ciclo de canções que Debussy compôs em 1897 a partir de três dos poemas eróticos publicados três anos antes por Pierre Louys).

Uma das mais inventivas forças da pop britânica dos anos 80, os Art Of Noise (cujo nome alude a um histórico ensaio do futurista Luigi Russolo) tinham cativado originalmente atenções através de uma música feita de colagens, ideias, palavras de ordem e recontextualização de fragmentos, e um mais evidente interesse pela construção de temas instrumentais e a utilização da voz fora das fronteiras tradicionais do canto, com obra-prima registada no visionário Who's Afraid of The Art of Noise. Lançado em 1984, o álbum afirmava-se ainda como um rosto da voz revolucionária que então ganhava forma através da ZTT Records (a mesma editora que por essa altura ganhava fama e somava êxitos com os Frankie Goes To Hollywood). Depois de uma etapa de mais evidentes flirts com os formatos da canção pop – durante o qual geraram temas de sucesso maior como Peter Gunn, Paranoimia ou uma versão de Kiss, de Prince, com a colaboração vocal de Tom Jones – e de uma outra fase, mais discreta, em inícios dos anos 90, em território ambient, os Art of Noise tinham feito silêncio. Que voltaram a interromper apenas em 1999 quando – numa nova formação, juntando os esforços de Anne Dudley, Trevor Horn, Paul Morley e Lol Creme – apresentaram o disco que evocava a figura de Debussy como amante de gatos, narcisista, estrela do seu tempo e inventor do século XX. De então para cá a obra do grupo juntou mais títulos à sua discografia, todos eles contudo juntando ora peças de arquivo ou gravações históricas em antologias claramente destinadas aos aficionados da sua muito peculiar forma de entender uma certa arte de fazer pop.

Debussy
O álbum de 1999 no qual os Art of Noise evocaram Debussy é talvez a mais evidente das expressões da memória do compositor nos espaços da cultura popular. A história do cinema revelou contudo frequentes momentos onde Debussy surge ora como representação de um tempo, força motriz de uma visão ou, simplesmente, compositor de obras inevitavelmente marcantes. Basta recordarmos o momento da Expiação (2007) de Joe Wright em que se escuta Clair de Lune, na presença de uma gravação de Après un Rêve no Vale Abraão (1993) de Manoel de Oliveira ou de Arabesque No 1 na cena do jantar em Os Pássaros de Alfred Hitchcock para evocarmos três das muitas representações possíveis da música de Debussy no grande ecrã. A figura do próprio Debussy foi revisitada por Ken Russell em Monitor (com o sub-título Impressions of the French Composer, um tele-filme rodado para a BBC em 1965 no qual Oliver Reed veste a pele do compositor.

domingo, agosto 19, 2012

Quando Debussy passou por Abbey Road


Um panorama (bem representativo) da obra para piano de Debussy, em interpretações de Walter Giesekinggravadas em Abbey Road, nos anos 50. Reedição remasterizada em SACD pela EMI Classics.

Entre as várias edições discográficas que assinalam a passagem dos 150 anos sobre o nascimento de Claude Debussy (a 22 de agosto de 1862) há naturalmente, além de um sem fim de novas gravações, espaço para a recuperação de memórias. E entre as propostas surge Debussy - Complete Piano Works,  coleção “definitiva” que junta as gravações de peças do compositor pelo pianista Walter Gieseking, remasterizadas nos estúdios Abbey Road a partir dos masters originais. Na sua maioria, as peças aqui reunidas resultam de sessões de gravação ali realizadas entre 1953 e 54, originalmente lançadas em formato de álbum, mas já com edições anteriores em CD. Esta caixa de quatro discos aposta contudo no formato SACD e nas potencialidades audiófilas do formato, devidamente trabalhadas no processo de remasterização por uma equipa de quatro técnicos do estúdio londrino.

Nascido em França, o alemão Walter Gieseking (1895-1965) é reconhecido como um dos grandes intérpretes da obra para piano de Debussy e Ravel (e também de Mozart). Viveu as duas guerras, a primeira tocando numa banda militar, a segunda valendo-lhe críticas posteriores de um eventual relacionamento com o poder nazi, que em 1947 acabariam desmontadas pelos americanos, permitindo-lhe o retomar a sua atividade. Era célebre a sua memória e a forma como conseguia decorar uma partitura em pouco tempo. Nestas gravações ouvimo-lo a percorrer quase toda a obra para piano de Debussy, a seleção que a EMI Classics recupera passando inevitavelmente pelos dois livros de prelúdios, os Études, as séries Images e Estampes, algumas peças pequenas e transcrições.

domingo, agosto 12, 2012

Retratos de Debussy

A poucos dias de se assinalarem os 150 anos do nascimento do compositor, uma caixa de 18 CD, lançada pela Deutsche Grammophon, propõe um panorama da sua obra através de uma série de gravações do arquivo da editora.

O modelo tem sido aplicado pela Deutsche Grammophon nas mais recentes grandes efemérides. Numa caixa, com mais ou menos discos (em função do volume da obra e da força da sua herança), recolhem-se as peças mais representativas do compositor que se evoca, para cada uma escolhendo uma gravação do catálogo da editora. Arrumam-se as obras, peças orquestrais para um lado, instrumentais para outro, câmara para ali, vocal para acoli, ópera ou música coral (quando as há) mais adiante... Com Messiaen, em 2008, a verdade é que a Deutsche Grammophon assim criou uma das mais valiosas coleções de referência sobre um dos compositores mais marcantes e interessantes do século XX. Depois, com Mahler apresentou-se um mapa panorâmico, segundo abordagens diferentes (a EMI Classics lançou igualmente uma caixa bem recomendável por essa altura). Agora, com Debussy, o formato repete-se, entre a seleção surgindo escolhas que, inevitavelmente, deixam importantes gravações de fora. Há quem goste mais de umas, quem prefira outras. Escolhas são sempre escolhas. O certo sendo que, entre opções melhores e outras eventualmente nem por isso, o modelo destas caixas serve, mais que uma visão antológica, o eventual impulso de descoberta em tempos de mediatização maior de uma obra (as efemérides têm esse hábito)... E, convenhamos que, no registo da coisa panorâmica, sempre ficamos assim mais bem servidos que com aqueles álbuns com cara de ‘best of’, a tentar apertar em um ou 2 CD pequenas coleções de excertos ao velho estilo das “melodias de sempre”...

Não vamos aqui discutir a seleção das gravações. Porque é preciso ter um conhecimento mais profundo e global do acervo de registos que, pela história da Deutsche Grammophon, Phillips e outras etiquetas eventualmente disponíveis a quem decidiu as escolhas, permite criar um olhar desta amplitude sobre a obra de Claude Debussy. O certo é que contamos aqui com alguns episódios claramente dignos de morar numa escolha deste calibre. Obras orquestrais por Pierre Boulez, com a Orquestra de Cleveland. Os Études para piano por Mitsuko Uchida. Os dois “livros” de Prelúdios por Krystian Zimerman. Uma sonata pela dupla Argerich/Maisky. Outra, com assinatura Dumay/Maria João Pires. A ópera Pelléas et Mélisande numa direção de Claudio Abbado, com as vozes de Ewing, Le Roux, Ludwig ou van Dam, o Konzertvereinigung Wiener Staatsopernchor e a Filarmónica de Viena... Entre a multidão de lançamentos que assinalam a efeméride (a 22 de agosto), esta Debussy Edition é uma proposta de revisão ampla e cuidada. A melhor? A melhor é sempre a que nasce da escolha individual das gravações, ao gosto de quem as ouve e seguindo a relevância histórica e interpretativa de cada um. Uma antologia nunca é, apesar do cliché, um “melhor de”. É antes um “retrato de”. E como retrato, cumpre o papel de nos dar uma visão informada sobre uma obra central no processo de invenção da modernidade.


Três dos discos que a nova caixa revisita. No primeiro, algumas obras orquestrais em gravações da Orquestra de Cleveland, sob direção de Boulez (edição original de 1995). No segundo, os Études, por Mitsuko Uchida (1989). No terceiro, a ópera Pélleas et Melissande, por Abbado (1992).

domingo, agosto 05, 2012

Para ouvir a cor em Debussy


Os prelúdios de Debussy e duas transcrições de outras obras suas para dois pianos em gravação protagonizada pelo pianista russo Alexei Lubimov. Edição pela ECM.

Num ano em que se assinalam os 150 anos do nascimento de Claude Debussy (1862-1918) as edições de novas gravações de obras suas começam a avolumar-se. E entre os títulos que mais se destacam conta-se este álbum duplo no qual o pianista russo Alexei Lubimov interpreta não apenas os dois livros de Prelúdios, mas também transcrições para dois pianos de outras obras (sendo aí acompanhado por Alexei Zuev). Os dois “livros” de Prelúdios de Claude Debussy são uma das suas mais importantes obras para piano, tendo encetado aquele que muitas vezes é descrito como o período final da sua obra. Com um sentido de liberdade interna (em contraste, por exemplo, com os conjuntos de prelúdios em tempos assinados por nomes como Bach ou Chopin), os dois conjuntos de doze peças que constituem este corpo surgiram num relativamente curto intervalo de tempo, os primeiros doze entre dezembro de 1909 e fevereiro de 1910, os restantes entre finais de 1912 e abril de 1913. Mais que a demanda de espaços de relacionamento interno ou lançamento de uma qualquer ideia (Debussy gostava inclusivamente que os pianistas pudessem escolher quais desejavam interpretar e a ordem com que o poderiam de fazer), são pequenas manifestações de uma linguagem já profundamente pessoal, decididamente marcante e influente, acrescentando novas ideias a uma obra pianística que conheceria ainda importante contribuição dos Études, que comporia em 1915.

Nesta gravação, realizada numa igreja belga (em Leut) o pianista Alexei Lubimov procurou reencontrar o som idealizado na época por Debussy, tentando assim recriar a riqueza do cromatismo desta música. Conta para isso com a contribuição de um Steinway de 1913 e um Bechstein de 1925 (Debussy tinha um Bechstein de parede no seu estúdio). Juntando aos dois livros de Prelúdios a transcrição para dois pianos de Três Nocturnos (assinada em 1909 por Ravel) ou a do próprio Debussy para Prélude à l'après-midi d'un Faune, Lubimov dá-nos um dos mais recomendáveis entre os muitos títulos que este ano vão celebrar a memória do compositor francês.

domingo, novembro 20, 2011

Visões para orquestra


Sexto volume de um percurso através da obra orquestral de Claude Debussy pela Orquestra de Lyon, sob a direcção de Jun Märkl. Edição pela Naxos. 

Um dos inventores da música do século XX,. Claude Debussy (1862-1918) assinou importante obra para orquestra, em volume todavia inferior ao extenso conjunto de peças para piano (que ganham preponderância na sua agenda de trabalhos depois de 1900) ou de composições para voz (mais de 80 canções e uma ópera, estas com maior representação no século XIX). Com expressão maior muitas vezes reconhecida em La Mer (de 1905), a obra orquestral de Debussy conhece cedo as marcas de transgressão regras que definiu a sua música, a sua visão de cor, ritmo e mesmo de forma ganhando visibilidade logo em composições como o célebre Prelude à L’Aprés-Midi d’un Faune, de 1894. Neste sexto volume de peças orquestrais o maestro Jan Märkl (antigo aluno de nomes como Celibidache, Ozawa e Bernstein) percorre caminhos que nos fazem passar por vários períodos da obra do compositor.

A belíssima Suite Bergamasque (publicada em 1905), que traduz um sentido de nostalgia fin de siècle, abre um alinhamento que termina com a única tentativa do compositor pelos caminhos sinfónicos na Sinfonia em Si Menor, de 1880. Entre estas obras encontramos aida a Petite Suite, de 1889, Printemps, de 1887 (mas revisto em 1912) e En Blanc et Noir, numa orquestração estreada em 2004 (assinada por Robin Holloway), a partir de uma partitura para dois pianos que data de 1915.