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sexta-feira, outubro 04, 2013
Ainda pelas ruas de Cracóvia
Voltamos a caminhar entre as ruas de Cracóvia, hoje entre os espaços da cidade antiga, outrora fechada entre muralhas. Ali mergulha-se no tempo, aquelas paredes tendo sobrevivido à destruição que se abateu sobre muitas outras cidades polacas no final da II Guerra Mundial.
quinta-feira, outubro 03, 2013
No centro de Cracóvia
A praça central de Cracóvia é um dos espaços mais impressionantes da cidade. Remonta ao século XIII, ocupando já então um espaço central na cidade muralhada. Tem perto de 40 mil metros quadrados de área e é a praça medieval maior que se conhece hoje numa cidade europeia. Há várias igrejas ao seu redor, inúmeros restaurantes e bares na sua base. O centro do espaço é dominado pelo Sukiennice, um mercado que data do século XV.
quarta-feira, outubro 02, 2013
Um castelo em Cracóvia
Três olhares hoje sobre o castelo Wawel, um edifício que na verdade representa várias etapas distintas de construção, e cujas estruturas mais antigas remontam ao século XIV. Residência real, o castelo foi edificado fora do centro da cidade, junto às margens do rio Vístula, numa zona elevada que acolheu habitações desde os tempos do Paleolítico. O facto de apresentar construções de etapas distintas atribui ao castelo uma variedade invulgar de formas, cruzando estilos arquitetónicos num conjunto que acaba por expressar uma personalidade muito peculiar.
terça-feira, outubro 01, 2013
Pelas ruas de Cracóvia
Fundada no ano 700 nas margens do rio Vístula, a cidade de Cracóvia, no Sul da Polónia, é uma das mais importantes capitais turísticas do país. Com um centro histórico registado em 1978 pela UNESCO, a cidade sobreviveu à II Guerra Mundial, pelo que, ao contrário de Varsóvia, onde a esmagadora parte dos seus edifícios “históricos” não são senão réplicas recentes dos originais, aqui a memória mora entre as paredes, estátuas e ruas...
terça-feira, setembro 10, 2013
Como falar das memórias de Auschwitz (parte 7)
| Fotos: N.G. |
Uma “máquina de morte”, é como Pery Broad, funcionário da secção política do campo, descreve Auscwitz-Birkenau no seu relato (publicado no mesmo livro), quando se refere às alterações postas em prática em 1943. “A construção de quatro novos crematórios foi acelerada” e dois deles “tinham câmaras de gás subterrâneas e em cada um cerca de quatro mil pessoas podiam ser mortas ao mesmo tempo”, diz, referindo-se aos crematórios 2 e 3 situados ao fundo da alameda em frente à entrada de Birkenau na qual seria construída uma linha de caminho de ferro em 1944. Os crematórios 4 e 5 “tinham câmaras de gás divididas em três secções construídas nos pisos térreos”. Em “cada uma destas fábricas de morte havia uma sala imensa onde os ‘evacuados’ tinham de se despir” (23). Segundo o seu relato, a equipa de construção do campo estava tão orgulhosa dos seus feitos que tinha mesmo fotografias dos crematórios no edifício central “para que todos pudessem ver”.
Auschwitz atingiu a sua capacidade máxima de extermínio na primavera de 1944, com “grandes comboios vindos da Hungria a chegar incessantemente”. É por esta altura que é construído o ramal de caminho de ferro que passou a permitir aos comboios entrar diretamente em Birkenau. Eram ao todo três linhas, o que “permitia descarregar um comboio ao mesmo tempo que outro chegava”. Broad relata que cerca de dez mil pessoas chegavam ali todos os dias, que a percentagem dos que estavam condenados à “detenção especial” [o termo sonderbehanlung então usado, em lugar da ação especial] era “especialmente alto nestes transportes” e que “muitos enlouqueciam com sede e depressão mental durante a viagem”. Pery Broad diz ainda que a reputação de Auschwitz era já conhecida além do campo por essa altura. Pelo que “não se podiam contar mais histórias às pessoas que, apertadas em vagões de gado, reparavam na placa com o nome Auschwitz na estação de comboio pela qual tinham passado” (24). As semanas em que decorreu “a ação húngara” corresponderam, nas palavras deste relato, ao “clímax mais louco”, mas representaram também um “ponto de viragem na história do campo de extermínio”. Broad sabia que os alemães estavam a recuar em territórios ocupados e diz que esse “não era já um tempo em que prisioneiros olhassem de forma desencorajada o seu futuro”, uma vez que sabiam que o dia da sua libertação já não estava assim tão distante, “e essa convicção” dava-lhes nova “força”(25).
Ao mesmo tempo este funcionário do campo diz que os SS começavam a ter “ligeiras” dúvidas “quando acabavam de comer os seus figos gregos ou salsichas húngaras”. Começaram “até a ser mais simpáticos com os prisioneiros, “mas não podiam desfazer o que tinha sido feito”.
Os documentos sobre “tratamentos especiais” foram retirados dos dossiers. O mesmo, revela Percy, começou a acontecer em escritórios centrais em Berlim, em relatórios que mencionavam castigos por chicoteamento.
Auscwitz-Birkenau tinha entre os detidos cerca de 16 mil prisioneiros de etnia cigana que residiam numa zona confinada do perímetro do campo. A ordem para o seu extermínio (26) foi apontada para julho de 1944. “Mas alguns dos oficiais das SS estavam fartos da ação com os ciganos. Muitos encontraram conhecidos das suas cidades e não conseguiam compreender porque é que soldados de confiança tinham de ser detidos, não por terem cometido crimes, mas pela sua raça”, recorda.
Este “desconforto” a que Pery Broad se refere não desapareceu com a libertação do campo em janeiro de 1947. E ainda hoje aqueles que nele fazem o dia a dia sentem a carga das pesadas memórias de horror que aquelas paredes, arames e ruas fazem ressoar. O diretor Andrezej Kacorzyk mora, com a família, a cerca de 10 quilómetros do campo. “Vivo focado no trabalho”, confessa. Nos seminários, nos participantes... “Mas depois de um mês a ver o arame farpado, pessoas a chorar, isto desperta emoções”, reconhece.
A chegada e partida da camionetas com visitantes (na sua maioria vindos de Cracóvia) é constante. Há um pequeno café. E as livrarias vendem sobretudo publicações lançadas pelo próprio museu (algumas delas disponíveis até em português). Se me é permitido relatar um detalhe da minha experiência, posso dizer que entre o grupo com que ia, de carro, se falara muito a caminho de Auschwitz. Mas o silêncio foi total na viagem de regresso.
23 in 'KL Auschwitz Seen By The SS', pág 104, pág. 136
24 ibidem, pág 137
25 ibidem, pág 138
26 ibidem, pág 140
segunda-feira, setembro 09, 2013
Como falar das memórias de Auschwitz (6)
Continuamos a publicação de um texto sobre o Museu de Auschwitz-Bierkenau, que visitei recentemente e que foi originalmente publicado no suplemento Q. do DN sob o título ‘Como dar vida às memórias num antigo campo de morte’.
O ponto de vista dos alemães em Auschwitz não é só um dos novos focos da primeira parte da nova exposição permanente a inaugurar daqui a cinco anos. As memórias de alguns oficiais, contadas na primeira pessoa, fazem as páginas de Auschwitz Seen By The SS um entre os muitos títulos já publicados pelo próprio museu.
Johann Paul Kremer (18), um dos réus do julgamento da guarnição de Auschwitz (que decorreu em Cracóvia em 1947), revela naquelas páginas as memórias dos anos em que foi destacado para o campo. Médico e docente universitário, recebeu a 29 de agosto de 1942 uma ordem para substituir um cirurgião em Auschwitz, que havia adoecido. A 30 de agosto partiu de Praga pouco depois das oito da manhã e chegou ao campo ao final da tarde, relatando no seu diário uma situação de quarentena em Auschwitz, com inúmeros casos de tifo, malária e desinteria. Recebeu uma “ordem secreta” do médico da guarnição do campo e instalou-se no quarto 26 das instalações das Waffen SS. Estava calor, relata. No dia 31 foi vacinado contra o tifo e tirou uma foto para o cartão de identidade do campo. Bebia água engarrafada (que lhe era servida gratuitamente) e, como descreve, jantou bem: “fígados de pato com tomate recheado e salada” (19). Dois dias depois de chegar ao campo encomendou a Berlim um boné de oficial das SS, um cinturão para espada e braçadeiras. E nessa tarde assistiu à desinfestação de um bloco contra piolhos.
A 2 de setembro, quatro dias depois de chegar a Auschwitz, assistiu a uma primeira “ação especial”. 957 judeus provenientes do campo de Drancy, em França, tinham chegado nesse dia e deles apenas 12 homens e 27 mulheres deram entrada no campo, os restantes tendo sido gaseados. Os dados sobre transportes que acompanham, em notas de rodapé, o diário de Kremer, são retirados do Kallendarium der Ereignisse im Konzentrationeslager Auschwitz-Birkenau coligido por Danuta Czech (20). Os “assassínios em massa”, como descreveria mais tarde perante o tribunal, decorriam, em pequenas casas situadas perto de Birkenau (vermelha e branca), no meio de um bosque, a que os SS chamavam bunkers. “Todos os médicos do campo em serviço faziam turnos para participar nos gaseamentos, que eram designados como sonderaktion” [daí a expressão “ação especial”]. O papel de Kremer nos gaseamentos “consistia em estar disponível junto do bunker”, com máscaras de oxigénio nas mãos, para “reanimar os homens das SS encarregados de fazer os gaseamentos, no caso de algum deles sucumbir aos fumos venenosos” (21).
Os relatos no diário de Kremer sucedem-se nos dias seguintes. A 5 de setembro assiste a mais duas “ações especiais”, recebendo por isso ração especial de um quarto de litro de vodca, cinco cigarros, 100 gramas de salsicha e pão. Nessa manhã no campo de mulheres foram gaseadas pessoas a que chamavam moslems, ou seja, seres humanos num estado de debilidade física tal que não pareciam mais senão um esqueleto vivo. “O horror dos horrores”, descreve no diário, referindo o momento da morte de cerca de 800 mulheres. Em julho de 1947, num interrogatório formal, Kremer descreveria detalhadamente o sucedido:
“A ação do gaseamento de mulheres do campo feminino foi particularmente desagradável. (...) Lembro-me de participar no gaseamento destas mulheres à luz do dia. Não sou capaz de precisar quão numeroso seria o grupo. Quando cheguei ao bunker elas estavam sentadas, vestidas, no chão. Como as roupas que tinham eram roupas usadas do campo, não foram levadas para as barracas vestiário e despiram-se ao relento. Pude deduzir, pelo comportamento destas mulheres, que elas sabiam o que as esperava. Imploraram aos homens das SS que as deixassem viver, choraram, mas todas elas foram levadas para a câmara de gás e depois gaseadas. Sendo um anatomista tinha visto muitos horrores e corpos, mas o que vi não pode ser comparado com nada que tenha visto antes.”
No dia seguinte ao gaseamento destas 800 mulheres magras como esqueletos, o diário expressa um contraste ao observar o que chegava à mesa dos oficiais do campo num “excelente jantar de domingo” com “sopa de tomate, meio frango com batatas e couve roxa” e, para sobremesa, “magnífico gelado de baunilha”.
Pelo diário e testemunho de Kremer que o livro recorda, o médico das SS refere ainda a forma como recolhia entre os prisioneiros “material do fígado humano, baço e pâncreas” e também “piolhos das pessoas infetadas com tifo” para as suas investigações, que manteve em paralelo às rotinas e turnos do campo (22). Kremer estava interessado em “compreender as alterações no corpo humano como resultado da fome”. Em Auschwitz foi-lhe autorizada a recolha de “material fresco” dos prisioneiros que eram mortos com injeções de fenol. “Para escolher os especímenes que servissem” visitava o Bloco 28, onde os prisioneiros doentes iam para serem examinados. Os médicos que os observavam decidiam depois “tendo em consideração as hipóteses de recuperação” dos doentes “se deveriam ser tratados no hospital” ou “serem liquidados”. Os que eram colocados neste último grupo “eram levados pelos ordenanças das SS”. Os médicos das SS “designavam para liquidação os prisioneiros cujo diagnóstico fosse exaustão corporal generalizada”. Kremer relata que costumava observar estes pacientes e, se algum deles chamasse o seu interesse, pedia ao ordenança para que o avisasse quando fosse a sua execução “com uma injeção”. Na hora determinada para a execução os prisioneiros eram levados para o mesmo bloco, mas para salas no lado oposto do corredor face àquela onde tinham sido examinados. Eram deitados nas mesas de dissecação ainda vivos, relata o médico, que então os entrevistava, perguntando-lhes assuntos que “interessavam” à sua investigação, como por exemplo “que peso tinham antes de terem sido detidos, quanto peso tinham perdido desde então, se tomavam medicamentos, etc...”. E depois de colhida a informação “um ordenança aproximava-se do paciente e matava-o com uma injeção de fenol na região do coração”. Tanto quanto confessou saber, Kremer acredita que apenas foi usado fenol neste tipo de execuções. E ao tribunal disse que ele mesmo nunca ministrou nenhuma injeção letal.
Ao todo Kremer assistiu a 13 “ações especiais” e a uma série de execuções e castigos até ao dia em que foi transferido de Auschwitz, a 31 de outubro de 1942, muito antes do período da história do campo que corresponde ao maior volume de gaseamentos, entre 1943 e 44.
18 Paul Johann Kremer - Doutor em Medicina, docente na universidade de Munique, inscreveu-se no NASDAP (partido nazi) em 1932 e nas SS em 35. Esteve em Auschwitz entre 30 de agosto de 1940 e 17 de novembro de 42. Foi condenado à morte no julgamento dos elementos da guarnição das SS em Auschwitz-Birkenau em 22 de dezembro de 1947, mas pela idade acabou libertado dez anos depois, em janeiro de 58. Teve novo processo ao regressar à Alemanha. Foi-lhe retirado o doutoramento em Medicina
O ponto de vista dos alemães em Auschwitz não é só um dos novos focos da primeira parte da nova exposição permanente a inaugurar daqui a cinco anos. As memórias de alguns oficiais, contadas na primeira pessoa, fazem as páginas de Auschwitz Seen By The SS um entre os muitos títulos já publicados pelo próprio museu.
Johann Paul Kremer (18), um dos réus do julgamento da guarnição de Auschwitz (que decorreu em Cracóvia em 1947), revela naquelas páginas as memórias dos anos em que foi destacado para o campo. Médico e docente universitário, recebeu a 29 de agosto de 1942 uma ordem para substituir um cirurgião em Auschwitz, que havia adoecido. A 30 de agosto partiu de Praga pouco depois das oito da manhã e chegou ao campo ao final da tarde, relatando no seu diário uma situação de quarentena em Auschwitz, com inúmeros casos de tifo, malária e desinteria. Recebeu uma “ordem secreta” do médico da guarnição do campo e instalou-se no quarto 26 das instalações das Waffen SS. Estava calor, relata. No dia 31 foi vacinado contra o tifo e tirou uma foto para o cartão de identidade do campo. Bebia água engarrafada (que lhe era servida gratuitamente) e, como descreve, jantou bem: “fígados de pato com tomate recheado e salada” (19). Dois dias depois de chegar ao campo encomendou a Berlim um boné de oficial das SS, um cinturão para espada e braçadeiras. E nessa tarde assistiu à desinfestação de um bloco contra piolhos.
A 2 de setembro, quatro dias depois de chegar a Auschwitz, assistiu a uma primeira “ação especial”. 957 judeus provenientes do campo de Drancy, em França, tinham chegado nesse dia e deles apenas 12 homens e 27 mulheres deram entrada no campo, os restantes tendo sido gaseados. Os dados sobre transportes que acompanham, em notas de rodapé, o diário de Kremer, são retirados do Kallendarium der Ereignisse im Konzentrationeslager Auschwitz-Birkenau coligido por Danuta Czech (20). Os “assassínios em massa”, como descreveria mais tarde perante o tribunal, decorriam, em pequenas casas situadas perto de Birkenau (vermelha e branca), no meio de um bosque, a que os SS chamavam bunkers. “Todos os médicos do campo em serviço faziam turnos para participar nos gaseamentos, que eram designados como sonderaktion” [daí a expressão “ação especial”]. O papel de Kremer nos gaseamentos “consistia em estar disponível junto do bunker”, com máscaras de oxigénio nas mãos, para “reanimar os homens das SS encarregados de fazer os gaseamentos, no caso de algum deles sucumbir aos fumos venenosos” (21).
Os relatos no diário de Kremer sucedem-se nos dias seguintes. A 5 de setembro assiste a mais duas “ações especiais”, recebendo por isso ração especial de um quarto de litro de vodca, cinco cigarros, 100 gramas de salsicha e pão. Nessa manhã no campo de mulheres foram gaseadas pessoas a que chamavam moslems, ou seja, seres humanos num estado de debilidade física tal que não pareciam mais senão um esqueleto vivo. “O horror dos horrores”, descreve no diário, referindo o momento da morte de cerca de 800 mulheres. Em julho de 1947, num interrogatório formal, Kremer descreveria detalhadamente o sucedido:
“A ação do gaseamento de mulheres do campo feminino foi particularmente desagradável. (...) Lembro-me de participar no gaseamento destas mulheres à luz do dia. Não sou capaz de precisar quão numeroso seria o grupo. Quando cheguei ao bunker elas estavam sentadas, vestidas, no chão. Como as roupas que tinham eram roupas usadas do campo, não foram levadas para as barracas vestiário e despiram-se ao relento. Pude deduzir, pelo comportamento destas mulheres, que elas sabiam o que as esperava. Imploraram aos homens das SS que as deixassem viver, choraram, mas todas elas foram levadas para a câmara de gás e depois gaseadas. Sendo um anatomista tinha visto muitos horrores e corpos, mas o que vi não pode ser comparado com nada que tenha visto antes.”
No dia seguinte ao gaseamento destas 800 mulheres magras como esqueletos, o diário expressa um contraste ao observar o que chegava à mesa dos oficiais do campo num “excelente jantar de domingo” com “sopa de tomate, meio frango com batatas e couve roxa” e, para sobremesa, “magnífico gelado de baunilha”.
Pelo diário e testemunho de Kremer que o livro recorda, o médico das SS refere ainda a forma como recolhia entre os prisioneiros “material do fígado humano, baço e pâncreas” e também “piolhos das pessoas infetadas com tifo” para as suas investigações, que manteve em paralelo às rotinas e turnos do campo (22). Kremer estava interessado em “compreender as alterações no corpo humano como resultado da fome”. Em Auschwitz foi-lhe autorizada a recolha de “material fresco” dos prisioneiros que eram mortos com injeções de fenol. “Para escolher os especímenes que servissem” visitava o Bloco 28, onde os prisioneiros doentes iam para serem examinados. Os médicos que os observavam decidiam depois “tendo em consideração as hipóteses de recuperação” dos doentes “se deveriam ser tratados no hospital” ou “serem liquidados”. Os que eram colocados neste último grupo “eram levados pelos ordenanças das SS”. Os médicos das SS “designavam para liquidação os prisioneiros cujo diagnóstico fosse exaustão corporal generalizada”. Kremer relata que costumava observar estes pacientes e, se algum deles chamasse o seu interesse, pedia ao ordenança para que o avisasse quando fosse a sua execução “com uma injeção”. Na hora determinada para a execução os prisioneiros eram levados para o mesmo bloco, mas para salas no lado oposto do corredor face àquela onde tinham sido examinados. Eram deitados nas mesas de dissecação ainda vivos, relata o médico, que então os entrevistava, perguntando-lhes assuntos que “interessavam” à sua investigação, como por exemplo “que peso tinham antes de terem sido detidos, quanto peso tinham perdido desde então, se tomavam medicamentos, etc...”. E depois de colhida a informação “um ordenança aproximava-se do paciente e matava-o com uma injeção de fenol na região do coração”. Tanto quanto confessou saber, Kremer acredita que apenas foi usado fenol neste tipo de execuções. E ao tribunal disse que ele mesmo nunca ministrou nenhuma injeção letal.
Ao todo Kremer assistiu a 13 “ações especiais” e a uma série de execuções e castigos até ao dia em que foi transferido de Auschwitz, a 31 de outubro de 1942, muito antes do período da história do campo que corresponde ao maior volume de gaseamentos, entre 1943 e 44.
18 Paul Johann Kremer - Doutor em Medicina, docente na universidade de Munique, inscreveu-se no NASDAP (partido nazi) em 1932 e nas SS em 35. Esteve em Auschwitz entre 30 de agosto de 1940 e 17 de novembro de 42. Foi condenado à morte no julgamento dos elementos da guarnição das SS em Auschwitz-Birkenau em 22 de dezembro de 1947, mas pela idade acabou libertado dez anos depois, em janeiro de 58. Teve novo processo ao regressar à Alemanha. Foi-lhe retirado o doutoramento em Medicina
19 in 'KL Auschwitz Seen By The SS', pág 104, pág. 160
20 ibidem, pág 162
21 ibidem
22 ibidem, pág 167
sexta-feira, setembro 06, 2013
Como falar das memórias de Auschwitz (5)
| Fotos: N.G. |
Continuamos a publicação de um texto sobre o Museu de Auschwitz-Bierkenau, que visitei recentemente e que foi originalmente publicado no suplemento Q. do DN sob o título ‘Como dar vida às memórias num antigo campo de morte’.
Em 2010 o campo recebeu um número recorde de visitantes na ordem dos 1,43 milhões, 72 por cento dos quais jovens. Os polacos respeitam a maior fatia de visitantes, com 446 300 pessoas em 2012, o que corresponde a 31 por cento do total. Por nacionalidades os maiores grupos de visitantes estrangeiros chegaram do Reino Unido (142 200), Estados Enidos (96 900), Itália (84 500), Alemanha (74 500) e Israel (68 000). De Portugal chegaram 10 200 visitantes a Auschwitz no ano passado.
Segundo um levantamento efetuado pelo departamento educativo do museu, a maioria dos visitantes chegam ali com o conhecimento da história do campo como a principal razão pela visita (33,2 por cento). Outras razões levantadas são a memória das vítimas (19,6%), a vontade de prestar homenagem aos que ali morreram (13,7%) ou a simples curiosidade (12,6%). Cerca de 1,2 por cento visitam o campo por motivos religiosos, igual quantidade fazendo-o em busca da identidade das suas próprias raízes (17).
Há trabalhos a decorrer nos arquivos, não apenas na sua manutenção e restauro, mas na contínua recolha de objetos (muitas vezes através de familiares de antigos prisioneiros) e na inventariação exaustiva dos materiais. Em 2012, por exemplo, foi feito um catálogo de centenas de objetos ligados à guarnição das SS em Auschwitz.
A digitalização de materiais do arquivo e um dos trabalhos continuados do museu. O digital repository somava já, em finais do ano passado, mais de um milhão de entradas. As mais recentes adições representam documentos ligados ao campo cigano, ficheiros pessoais dos prisioneiros soviéticos e também aos movimentos de resistência que foram nascendo no campo.
Os números das colecções são impressionantes. 110 000 sapatos, 3800 malas (2100 das quais com os nomes dos seus donos), mais de 12 000 pratos e panelas, 470 próteses, 350 uniformes usados pelos prisioneiros (conhecidos como as “riscas”), duas toneladas de cabelo cortado a mulheres deportadas e cerca de 5500 obras de arte, duas mil das quais criadas por prisioneiros.
Já o arquivo tem cerca de 250 metros de prateleiras com documentos arquivados. Estão ali, entre outros, 39 mil negativos de fotografias de prisioneiros recém-chegados, cópias de 200 fotos tiradas por elementos das SS em Birkenau durante a deportação dos judeus húngaros em 1944, outras tiradas ilegalmente por elementos dos sonderkommando nas imediações dos crematórios em Birkenau, 2500 fotos de família levadas por deportados, 500 fotos do campo tiradas no tempo em que esteve ativo.
Uma das principais funções do museu está focada no relacionamento com os seus antigos prisioneiros. Os arquivos procuram juntar toda a informação possível sobre quem ali passou. E mediante carta ou email, há funcionários preparados para responder – de acordo com os registos disponíveis – a quem procura informação sobre os que ali estiveram detidos.
O museu apoia, acompanha e acolhe vários projetos de investigação, muitos dos quais geraram entretanto publicações lançadas em edição própria, como é o caso de um percurso histórico da vida no campo assinado ainda nos anos 50 por Danuta Cezch. Nos últimos anos o museu apoiou e acompanhou investigações históricas visando o cálculo do número de mortos no campo, relatórios das fugas, a história dos movimentos de resistência que ali eclodiram e nas suas periferias, a análise das propriedades das vítimas, as experiências médicas que ali aconteceram, os destinos de vários grupos de detidos e os percursos biográficos de algumas das vítimas. O resultado de muitos dos trabalhos de investigação em Auschwitz está reunido em Auschwitz 1940-1945: central Issues in the History of the Camp, extenso retrato publicado em cinco volumes.
17 Números oficiais apresentados nas páginas do 'Sprawozdanie Report' de 2012
quinta-feira, setembro 05, 2013
Como falar das memórias de Auschwitz (4)
| Fotos: N.G. |
[ Parte 1 ] [ Parte 2 ] [ Parte 3 ]
No Bloco 27 abriu, no passado mês de junho, uma exposição diferente, que contudo acrescenta uma outra leitura ao que a visita nos proporciona, valendo-se sobretudo de imagens e de sons. Sob o título SHOAH in Block 27 at the Auschwitz-Birkenau State Museum, a exposição nasceu de uma parceria entre o Museu de Auscwitz-Birkenau e o Yad Vasehm (13). Numa primeira sala começamos por recordar a vida. A vida de comunidades judaicas por toda a Europa, antes da guerra, em filmes que mostram cenas do quotidiano, projetadas por todas as paredes à nossa volta. Entramos depois numa outra divisão, dominada por uma fila de ecrãs suspensos do teto e por baterias de altifalantes, aos pares, ao seu lado. E ali vemos e ouvimos figuras da hierarquia nazi, como Hitler ou Göring, em discursos que deixam clara a ideologia antissemita que estaria pouco depois na base da “solução final”. Logo a seguir uma terceira sala mostra-nos duas fotos. Numa delas um instantâneo da chegada de húngaros a Birkenau em 1944 já aqui recordada. Na parede oposta, um olhar sobre o campo nos dias de hoje. E na grande parede que as duas outras une está um gigantesco mapa da Europa, onde se assinalam todos os locais onde o Holocausto aconteceu, dos Einsatzgruppen (14) na Ucrânia aos campos da morte na Polónia... Relatos de sobreviventes, em vídeo, ocupam a sala seguinte antes de uma outra onde, a um metro do chão, representações de desenhos de crianças de Theresienstadt (15) recordam os mais pequenos que ali depois morreram. No final do percurso, um gigantesco livro, do tamanho de uma sala, junta os nomes de todos os que morreram.
“Esta é uma exposição muito importante para nós”, explica Andrezej Kacorzyk, da direção do museu (16). “Fisicamente está localizada entre as exposições nacionais. Fala dos judeus durante a segunda guerra mas não apenas de Auschwitz, referindo outros campos e locais onde pessoas foram mortas”, acrescenta, admitindo que a vê como parte da exposição principal que se pode visitar nos blocos 4, 5, 6 e 11. “Não é uma exposição de dados, mas antes mais emocional. Que faz pensar no que está por detrás das imagens. Vemos as imagens, os filmes, ouvimos os testemunhos, as vozes das crianças. Mas pelas janelas vemos as vedações, o arame farpado, as barracas... Sabemos que estamos em Auschwitz”, sublinha. Andrezej Kacorzyk revela então que está a ser repensada a museologia de Auschwitz. Haverá um novo centro para visitantes ao lado do campo principal e um centro para a educação. Mas reconhece: “Precisamos sobretudo de uma nova exposição principal”. A que está patente, lembra o diretor, vem de 1954 e é uma das exposições mais antigas na Polónia. “Foi criada quando todos conheciam a guerra e muitos dos primeiros visitantes do museu foram mesmo sobreviventes da guerra”. Mas entretanto “passaram 60 anos” e muitos dos que ali vão hoje “não conhecem as imagens e as suas relações”.
Esta renovação é para Andrezej Kacorzyk a “missão mais importante neste momento” para o museu. A primeira parte da nova exposição surgirá em 2018, seguindo-se uma segunda em 2020 e uma terceira em 2022. A primeira vai mostrar Auschwitz como uma instituição nazi, com os seus diferentes departamentos e pessoas. A segunda apresentará Auschwitz “como um campo de morte e o Holocausto dos judeus estará no centro desta parte”. A terceira abordará o campo de concentração “do ponto de vista das vítimas e com testemunhos seus”. Entretanto, e já em 2014 vão ser reabertos os blocos 2 e 3, “que foram preservados e recuperados com fundos da União Europeia”. Estes dois blocos serão mostrados sem qualquer exposição, revelando antes como eram na sua origem. Além da recuperação dos blocos 2 e 3, o museu terminou recentemente a restauração de cinco barracas de madeira em Birkenau e tem trabalhado na preservação das ruínas das câmaras de gás e crematórios.
13 Yad Vashem – Museu dedicado à memória do Holocausto em Jerusalém (Israel).
14 Einsatzgruppen- Esquadrões de morte das SS, foram responsáveis pelas primeiras mortes em massa, por fuzilamento.
15 Theresienstadt – Campo de concentração nazi na cidade de Terezin, na atual República Checa. Muitos artistas foram ali encarcerados.
16 Frases de entrevista presencial realizada a 30 de junho deste ano, no museu de Auschwitz-Birkenau.
quarta-feira, setembro 04, 2013
Como falar das memórias de Auschwitz (3)
Continuamos a publicação de um texto sobre o Museu de Auschwitz-Bierkenau, que visitei recentemente e que foi originalmente publicado no suplemento Q. do DN sob o título ‘Como dar vida às memórias num antigo campo de morte’.
[ Parte 1 ] [ Parte 2 ]
A história do horror que se viveu em Auschwitz já passou pelo cinema, pela literatura, pela banda desenhada, pelas artes plásticas e pela música. Representações que nunca substituirão necessariamente o valor da memória que ganha ainda maior intensidade quando se está ali mesmo, onde tudo aconteceu. Por isso mesmo, ideia de criar ali um museu surgiu pouco depois do fim da guerra, levantada por uma série de antigos prisioneiros. Logo que lhes foi possível regressaram ao local do campo para proteger os edifícios que haviam sobrevivido e as ruínas. Por essa altura ali chegavam multidões em busca do paradeiro de entes queridos, para rezar e recordar as vítimas.
A exposição inaugural foi preparada com a ajuda de antigos prisioneiros e abriu as portas a 14 de junho de 1947 (precisamente sete anos depois da data do primeiro transporte de presos), perante cerca de 50 mil pessoas.
O Parlamento polaco designou nessa altura o museu como tendo a missão de salvaguardar o antigo campo, os seus edifícios e ambientes, juntar provas do que ali ocorreu, sujeitando-as a “um escrutínio científico” e tornando-as disponíveis para o público (11). Mas desde o início a expressão “museu” dividiu opiniões, havendo quem preferisse ver Auschwitz como um cemitério, um lugar de memórias, um monumento, havendo quem prefira até ver o que ali existe desde então como um memorial.
Cobrindo 191 hectares, o museu inclui os espaços de Auschwitz 1 e Birkenau, incluindo estruturas que foram desmanteladas entre finais de 1944 e inícios de 45 (muitas da barracas de madeira em Birkenau foram destruídas depois da libertação). Com entrada gratuita, o museu apresenta em Auschwitz 1 uma exposição que data dos anos 50, e que então substituiu a que ali foi originalmente apresentada em 1947. Esse projeto de musealização, ainda hoje visitável, criou um circuito dentro de alguns dos barracões onde viviam os prisioneiros. Ali nos é contado o papel de Auschwitz na história da II Guerra Mundial e da chamada “solução final”(12). Entrando e caminhando entre os barracões recordam-se imagens, números e documentos. E materializa-se a dimensão do horror numa sala onde vemos mais de três toneladas de cabelo retirado às vitimas depois de gaseadas. Noutras salas do mesmo bloco há pilhas e pilhas de sapatos que deportados deixaram nas salas dos crematórios, as malas que tinham consigo levado nos comboios (muitas delas com os nomes dos seus donos), panelas, pratos, próteses, escovas de barbear...
Já em Birkenau, apesar de um memorial junto aos crematórios 2 e 3 e de uma pequena exposição na “sauna” (como era designado o local onde os prisioneiros tomavam banho), resolveu deixar-se o campo como uma memória o mais exata possível daquilo que foi quando esteve operacional. Em 2005 além do espaço confinado pelo arame farpado, Birkenau juntou à área musealizada as duas célebres primeiras câmaras de gás (a casa branca e a casa vermelha) e a plataforma onde os comboios largavam os prisioneiros (antes do ramal que entrava no campo, construído apenas em 1944).
11 in 'Auschwitz Bierkenau – The Past and The Present', pág 13
12 Solução final – Expressão usada para definir o plano de extermínio da população judaica pela Alemanha nazi. A decisão de avançar para este plano terá tido tomada numa conferência em Wansee (em Berlim) e janeiro de 1942.
terça-feira, setembro 03, 2013
Como falar das memórias de Auschwitz (2)
| Fotos: N.G. |
Ao contrário de outros campos montados para por em prática a chamada “solução final”, Auschwitz era um complexo que transcendia as meras funções de extermínio de outros campos como Treblinka, Sobibor ou Belzec (1). O campo original, conhecido como Auschwitz 1, foi criado em 1940 nas imediações da pequena cidade de Oswiecim, numa zona pantanosa entre os rios Vístula e Sola (um afluente do primeiro). Começou por surgir como campo de concentração para presos políticos polacos, edificando-se o projeto inicial com base em barracas de um antigo campo militar que ali existira. Auschwitz 1 inclui 28 blocos, alguns deles com funções específicas de hospital ou mesmo de prisão dentro da prisão (nas caves do Bloco 11, num dos extremos do campo, havia celas para castigos e ali foram realizadas as primeiras experiências com o gás Zyklon B (2) que mais tarde seria usado nas câmaras de gás). Havia ainda uma cozinha para os prisioneiros, uma zona de castigos públicos e uma área, logo à entrada, onde frequentemente havia uma pequena orquestra recrutada entre os detidos, conta-nos o guia. Um muro de tijolos impedia que alguém de fora pudesse olhar para dentro do campo. O perímetro era ainda limitado por duas filas de arame farpado eletrificado, separadas por um espaço com gravilha que era conhecido como a zona neutra. Quem pisasse essa zona neutra seria imediatamente abatido pelos guardas nas torres de vigia. Ao todo eram entre 20 e 25 mil os detidos neste campo, todos eles ali chegados pelo portão sobre o qual se pode ler a inscrição de evidente mau gosto Arbeit macht frei (que podemos ler como “O trabalho liberta”) (3), placa que ainda há poucos anos fez notícia depois de roubada (e entretanto recuperada).
O primeiro transporte de prisioneiros chegou ali a 14 de junho de 1940. Eram 728 polacos, incluindo um número reduzido de judeus. Entre este dia e o da sua libertação, a burocracia do campo registou a entrada de cerca de 405 mil prisioneiros, 270 mil dos quais eram homens.
A partir de 19 de junho as populações da área começaram a ser levadas para outros locais. Toda a população judaica da região foi deslocada para os guetos nas cidades mais próximas (só em Oswiecim eram sete mil pessoas). Já tendo em conta eventuais planos de alargamento do campo e a necessidade de manter afastada a população local são então destruídas oito aldeias e demolidos mais de cem edifícios (4).
A 6 de julho é assinalada a primeira fuga com sucesso do campo. Tadeusz Wiejowski será assim um entre os cerca de 150 que conseguirão concretizar fugas entre o mais de um milhão de deportados que chegarão ali e a Birkenau (que surgira mais tarde). A maior parte das tentativas terminaram contudo com finais diferentes, com os fugitivos baleados na perseguição ou mortos depois de novamente capturados. As fugas bem-sucedidas eram contudo má notícia para quem ficava no campo. Veja-se o caso de uma represália (a 23 de abril de 1941) na qual o comandante do campo Rudolf Höss sentenciou à morte pela fome dez prisioneiros na sequência de uma outra fuga.
A 1 de março de 1941, pouco mais de um ano depois de ele mesmo ter escolhido o local, Heinrich Himmler (o Reichsführer, líder máximo das SS) faz uma inspeção a Auschwitz e dá as primeiras ordens para a criação de programas de trabalho dos detidos em fábricas alemãs nas imediações. Surge aqui a base de um vasto sistema de campos-satélite de trabalho que fazem também parte da história de Auschwitz.
1941 é também o ano que marca o início da utilização do gás Zyklon B em execuções em massa. A primeira ocorre a 3 de setembro, com 600 prisioneiros soviéticos e 250 polacos. Durante o outono desse ano a câmara de gás adjacente ao campo (conhecida como crematório 1 e a única intacta e visitável nos dias de hoje) começa a funcionar regularmente.
Birkenau surgiu entre 1941 e 42 a cerca de seis quilómetros de Auschwitz 1 e é de uma dimensão absolutamente colossal, encerrando entre o arame farpado cerca de 30 mil mulheres e entre 50 e 60 mil homens (5). Os barracões onde viviam eram, na sua maioria, “estábulos de madeira sem janelas ou casas de tijolos primitivas”, como recorda quem ali viveu. O campo estava dividido em sectores. O sector 1, para as mulheres, ficava do lado esquerdo do portão principal (onde em 1944 entraria a linha de caminho de ferro). O sector 2 era o masculino, dividido em seis zonas. Havia um terceiro sector em construção quando o campo foi subitamente evacuado a 17 de janeiro de 1945.
As condições de vida no campo de Birkenau eram consideravelmente piores que em Auschwitz, “onde eram já suficientemente más”, descreve o antigo funcionário do campo Pery Broad (6) em Auschwitz Seen By The SS, um livro que guarda memórias de oficiais da guarnição das SS no campo. Os pés “afundavam-se num chão peganhento a cada passo que se dava e mal havia água para as pessoas se lavarem”. Nos barracões as pessoas dormiam apinhadas, seis por cada cama, em estruturas de madeira em três andares e muitas delas sem colchões de palha (7). A taxa de mortalidade por doença era, por isso, enorme.
Segundo recorda o livro Auschwitz Bierkenau – The Past and The Present, data de 29 de julho de 1942 a primeira chegada de informação aos aliados, vinda de uma fonte alemã, daquilo que estava a acontecer em Auschwitz. O industrial Edward Schulte informa que Himmler esteve no campo a assistir à execução de 499 judeus com Zyklon B no Bloco 2. Esta foi, sublinha o livro, a primeira informação, veiculada por um alemão, das mortes em câmaras de gás no campo. Mas desde 1940 havia já entre os aliados conhecimento do que ali acontecia, em informações que, relata este livro, chegavam a Londres através do Governo polaco exilado, que tinha ligações próximas com a resistência.
O extermínio em massa chega com o início de 1942. Em março chega a Birkenau um primeiro transporte de 69 mil judeus franceses e 27 mil da Eslováquia. As primeiras duas mil mulheres chegam a 26 de março. E entre março e junho desse ano duas câmaras de gás na forma de casas de campo funcionam nas imediações de Birkenau. Em maio começam as deportações de 300 mil judeus oriundos da Polónia, e de 23 mil da Alemanha e Áustria. A primeira “seleção” (na qual se decida na hora quem ficava detido no campo e quem era enviado, logo a seguir, para as câmaras de gás) decorreu a 4 de maio de 1942. Chegarão depois transportes de 60 mil judeus holandeses (a partir de julho de 42), 25 mil belgas e 10 mil jugoslavos (agosto de 42), 46 mil do protetorado da Boémia e Morávia (outubro de 42), 7 mil da Noruega (dezembro de 42), 55 mil gregos (março de 43), 7500 italianos (outubro de 43) e 438 mil húngaros (maio de 44) (8). Em 1943 é estabelecido em Birkenau uma zona para os prisioneiros ciganos. Entre março e junho desse ano os quatro crematórios principais (cada qual associado a câmaras de gás) começam a funcionar dentro do perímetro de Birkenau.
As execuções em massa de judeus chegam ao fim em novembro de 1944. A última execução de prisioneiros data de 6 de janeiro de 1945, num enforcamento público de quatro mulheres envolvidas na preparação do motim do sonderkommando (9) poucas semanas antes. Nesse mesmo dia foram executados 70 polacos sentenciados por tribunais sumários.
A 17 de janeiro de 1945, já com a certeza da aproximação dos soviéticos, são iniciadas as marchas da morte, com a evacuação de cerca de 60 mil prisioneiros do campo. Entre os dias 21 e 26 os alemães destroem as câmaras de gás de Birkenau. E a 27 de janeiro unidades do exército soviético libertam o campo.
Ao todo estimam-se em 1,3 milhões de pessoas o número de deportados para Auschwitz, sendo de aproximadamente 1,1 milhões o números de mortes no campo. Entre as vítimas um milhão foram judeus, aos quais se somam entre 70 e 75 mil polacos, 21 mil ciganos e 14 mil prisioneiros de guerra soviéticos. 15 mil pessoas de outros grupos terão conhecido idêntico fim (10).
Apesar destes números gigantescos, apenas cerca de 405 mil pessoas foram registadas pelos serviços do campo, admitidas assim como prisioneiros. Entre os números registados contam-se 200 judeus, 160 mil presos políticos, 21 mil presos “associais” (entre os quais os de etnia cigana), 12 mil prisioneiros de guerra soviéticos, 11 mil prisioneiros “correcionais” (detidos por faltas de disciplina no trabalho). Sem especificar números precisos, um texto oficial recente do Museu de Auschwitz Birkenau assinala ainda que em Auschwitz havia ali pessoas que haviam sido detidas pela Gestapo na região, criminosos (sobretudo de origem alemã, muitas vezes usados como auxiliares disciplinares das SS), testemunhas de jeová e homossexuais.
1 - Treblinka, Sobibor e Bergen Belsen – Campos de extermínio nazi, praticamente não tinham barracões para prisioneiros, sendo essencialmente dedicados ao gaseamento em massa dos que para ali eram enviados. Treblinka, a Norte de Varsóvia, esteve ativo entre julho de 1942 e outubro de 1943, crendo-se que tenham ali morrido entre 800 mil e mais de um milhão de pessoas, sobretudo judeus e de etnia cigana. Sobibor, na fronteira leste polaca, operou entre maio de 1942 e outubro de 1943. As estimativas apontam para 200 a 250 mil mortos. Belzec, também na fronteira leste polaca, mas mais a sul, foi o primeiro campo construído para funções de extermínio. Operou entre março e dezembro de 1942, calculando-se que tenham ali morrido de 430 a 500 mil pessoas. Todos estes campos foram destruídos, havendo monumentos pela memória das vítimas nos locais onde existiram.
2 Zyklon B – Era na verdade um pesticida com base em ácido prússico, um estabilizador e bromoacetato de etilo, usado como odor de alerta para a sua presença. O gás libertado por este composto foi usado nas câmaras de gás de Auschwitz e também dos campos deMajdanek e Sachsenhausen, mas não teve aplicação em outros campos de extermínio.
3 ‘Arbeit macht frei’ - Expressão alemã que podemos traduzir como “o trabalho liberta”, esteve inscrita na porta de campos de concentração como o de Auschwitz 1, Sachsenhausen, Dachau ou Theresienstadt. A placa de Auschwitz foi roubada em 2009 mas recuperada pela polícia. A placa original está hoje no museu de Auschwitz, e sobre o portão encontramos agora uma réplica.
4 in 'Auschwitz Bierkenau – The Past and The Present', pág 30
5 in 'KL Auschwitz Seen By The SS', pág 104
6 Pery Broad – Inscreveu-se na juventude hitleriana em 1931 e como voluntário para as SS em 41. Em abril de 42 foi colocado em como guarda em Auschwitz e, depois, na secção política do campo. Detido pelos ingleses em 1945, foi libertado em 47. Nesse ano foi julgado na sequência das investigações em Auschwitz, e sentenciado a quatro anos anos.
7 in 'KL Auschwitz Seen By The SS', pág 105
8 Números oficiais emitidos pelo museu, apresentados em 'Auschwitz Bierkenau – The Past and The Present', págs 30 e 31
9 Sonderkommando – unidades de presos que tratavam diretamente das operações de extremínio.
10 Números oficiais emitidos pelo museu, apresentados em 'Auschwitz Bierkenau – The Past and The Present', pág 12
domingo, setembro 01, 2013
Como falar das memórias de Auschwitz (1)
| Fotos: N.G. |
Iniciamos hoje a publicação de um texto sobre o Museu de Auschwitz-Bierkenau, que visitei recentemente e que foi originalmente publicado no suplemento Q. do DN sob o título ‘Como dar vida às memórias num antigo campo de morte’.
Estou entre linhas de caminho de ferro. Ao fundo, a silhueta do portão de Auschwitz –Birkenau que tantas vezes tinha já visto em filmes e documentários televisivos. De um lado e de outro uma imensidão de espaço, algumas barracas sobrevivendo, o espaço do que foi um gigantesco campo de concentração estando hoje quase reduzido a chaminés geometricamente ordenadas numa grelha que, como as demais estruturas daquele lugar, mostram uma atenta e cuidada planificação. Caminho na direcção oposta à do portão, seguindo ao lado de uma das linhas de caminho de ferro. A dada altura, junto a um vagão semelhante aos que transportavam muitos dos que aqui chegaram entre 1942 e 1944, na sua maioria judeus provenientes de vários Estados europeus então sob ocupação alemã, um grupo de jovens estudantes israelitas, alguns com a bandeira do seu país pelas costas em jeito de capa, juntam-se em círculo, sentados, em silêncio. São perto de duas dezenas. Uma fração entre os cerca de 30 mil jovens israelitas que, todos os anos, visitam a Polónia para conhecer os locais associados à história do Holocausto.
Continuo a caminhar, pelo lado esquerdo da linha. Recordo-me então de uma foto de 1944, tirada por um oficial das SS por ocasião da chegada de um comboio de judeus húngaros a Birkenau. Ali reconhecera a mesma linha de caminho de ferro e até mesmo um barracão que mora ao seu lado, junto ao que era então a entrada do campo feminino. Nessa imagem que vira num dos barracões de Auschwitz 1, um grupo caminhava no mesmo sentido em que que eu agora me deslocava, na direção oposta à do portão, rumo (literalmente) a um fim de linha. Eu ali estava numa cinzenta manhã deste verão de 2013, ciente do que ali se passara... Mas eles, algures em 1944, podiam não imaginar aonde se dirigiam. Como nos é recordado pelos guias que acompanham as visitas que fazemos a Auschwitz e Birkenau, foi no verão de 1944 que o campo funcionou na sua capacidade máxima, levando para as câmaras de gás centenas de milhares de judeus húngaros. Chegavam de comboio, sujeitando-se a uma primeira arrumação que separava homens para um lado e mulheres e crianças para o outro. Depois, sob a orientação de médicos das SS, procedia-se à seleção. Ou seja, aqueles que estavam capacitados para trabalhar seriam admitidos no campo. Os restantes, incluindo os menores de 16 anos e idosos, seguiam diretamente para as câmaras de gás, a sua passagem pelo campo muitas vezes não chegando a duas horas. Era para onde aquela multidão da foto caminhava...
Chego ao fim da linha. Um monumento assinala as centenas de milhares que aqui perderam as vidas. De um lado e de outro os restos dos crematórios 2 e 3 (com as respetivas câmaras de gás), destruídos pouco antes da libertação do campo. Mas as suas cicatrizes estão visíveis nas fundações que agora estão a céu aberto. E as ruínas ainda resistem tantos anos depois.
(continua)
sexta-feira, julho 19, 2013
Pelas ruas de Varsóvia
Ainda a caminhar pelas ruas da "cidade velha", toda ela reconstruída depois do final da II Guerra Mundial. As esculturas são também, todas elas, recentes. Embora algumas recuperando, tal como os edifícios, linhas com história.
quinta-feira, julho 18, 2013
Entre a pintura e a realidade
Caminhamos hoje por uma das artérias centrais da chamada “cidade velha” em Varsóvia. Une o velho palácio a uma zona mais moderna da cidade (onde se instalaram edifícios oficiais durante o regime comunista) e alberga essencialmente universidades e uma sucessão de lojas e restaurantes. A rua, como tantas da capital polaca, foi reconstruída depois da guerra e tudo o que ali vemos são edifícios posteriores a 1945, apesar de representarem formas de arquitetura antiga. A reconstrução desta rua foi possível graças a pinturas do século XVIII que a mostravam no seu esplendor de então.
Foram quadros como este, de Bernardo Bellotto (sobrinho de Canaletto), que permitiram a reconstrução desta zona da cidade de Varsóvia.
Foram quadros como este, de Bernardo Bellotto (sobrinho de Canaletto), que permitiram a reconstrução desta zona da cidade de Varsóvia.
quarta-feira, julho 17, 2013
Nas ruas da "cidade velha"
Voltamos hoje a caminhar por entre as ruas da chamada “cidade velha” em Varsóvia. Velha na história e nas memórias que o traçado das ruas sugere. Até porque, arrazada em 1944, esta zona da cidade foi toda ela reconstruída. Os edifícios que vemos, apesae de evocarem memórias da arquitetura urbana do centro da Europa dos séculos XVIII e XIX, são contudo posteriores a 1945.
terça-feira, julho 16, 2013
Pelas ruas de Praga (a de Varsóvia)
Continuamos a caminhar pelas ruas do bairro Praga, na margem direita do Vístula, em Varsóvia. Hoje reparando em pequenos detalhes que se cruzam pela nossa frente numa caminhada sem rumo definido através de ruas que sobreviveram à II Guerra Mundial e pelas quais surgiram entretanto novas gerações de edifícios, pinturas murais e estátuas. A terceira imagem representa um conjunto num pequeno parque no centro do bairro, que celebra a tradição local dos músicos de rua.
É pelas ruas deste bairro que encontramos alguns dos edifícios mais antigos de Varsóvia. Mas a modernidade mora já também por ali.
segunda-feira, julho 15, 2013
Pelas ruas de Praga (mas em Varsóvia)...
Vamos caminhar entre ruas do bairro Praga, na margem direita do Vístula, em Varsóvia e que, como já aqui contamos, foi “poupado” à devastação que arrazou 80 por cento da cidade no momento da retirada dos alemães em 1944 porque ali estava, à espera, o exército vermelho. O bairro é por isso um dos raros espaços preservados da velha Varsóvia, aos edifícios da época tendo o tempo juntado depois outros construídos durante o regime comunista e até os mais recentes, posteriores a 1989. Estas imagens levam-nos por um dos muitos edifícios do bairro Praga onde a memória anterior a 1939 está ainda viva nas paredes.
Como em tantos outros bairros menos “favorecidos”, Praga viveu uma época de rendas baixas e marginalidade. E tal como no Village em Nova Iorque ou em algumas zonas de Berlim, ali começaram a chegar artistas e novos inquilinos (com mais ideias que recheio na carteira). Esta parede pintada é apenas uma entre as muitas expressões de uma nova vida que entretanto ali começou a brotar.
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