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quarta-feira, agosto 13, 2014

Pelos universos de Anton Corbijn - 3
Quatro telediscos dos Echo & The Bunnymen


Continuamos a visitar memória da obra de Anton Corbijn no espaço dos telediscos, concentrando hoje atenções nos Echo & The Bunnymen, com quem trabalhou entre 1984 e 87.

Apesar de nessa altura ter já assinado telediscos para figuras de notoriedade como David Sylvian ou os Propaganda, foi com os Echo & The Bunnymen que Anton Corbijn desenvolveu um primeiro relacionamento prolongado com um nome de grande visibilidade, com o grupo tendo desenvolvido um trabalho amplo de criação de imagens, tal como depois viria a fazer junto de bandas como os Depeche Mode ou U2.

O primeiro encontro fez-se com Seven Seas, um dos singles extraídos do álbum Ocean Rain. Seguiu-se o inédito Bring on The Dancing Horses, que surgiu numa antologia editada em 1985. E, depois, os dois singles do álbum de 1987 (o último da primeira etapa de vida do grupo). De certa maneira esta relação teve continuação em telediscos criados para os dois álbuns a solo de Ian McCulloch. Os dois primeiros são particularmente brilhantes.

Podem ver aqui o teledisco de Seven Seas.
Aqui está o de Bring on the Dancing Horses.
O teledisco de Lips Like Sugar está aqui.
E aqui o de The Game.

segunda-feira, junho 02, 2014

Novas edições:
Echo & The Bunnymen, Meteorites

Echo & The Bunnymen
“Meteorites”
Caroline International
3 / 5

Foram das primeiras bandas a colocar um ponto final à “serparação” e os três sobreviventes (Pete de Freitas morrera em 1989) voltaram a juntar-se em finais dos noventas. Les Pattinson participou apenas no primeiro álbum pós-reunião, afastando-se em 1998, desde então os Echo & The Bunnymen sendo metade dos originais, mas tendo entretanto realizado um percurso de palcos e discos bem mais longo (não disse melhor). A sua atividade tem sido regular, por vezes mais entre digressões que em estúdio, fazendo o disco que agora editam a soma de seis no período pós-reunião (tinham lançado cinco na primeira etapa, aos quais se junta um, em 1990, mas sem o vocalista Ian McCulloch). Meteorites é na verdade o primeiro álbum que apresentam após um hiato de cinco anos sem novas gravações e chega aos escaparates num mesmo momento em que se assinalam os 30 anos sobre o lançamento de Ocean Rain, a sua obra-prima (e um dos mais belos álbuns dos anos 80). Há muito que o grupo deixou de ser a fonte de grandes canções e ideias com personalidade demarcada que deles fez um dos casos mais notáveis da geração nascida do pós-punk britânico. As marcas de identidade maiores sentem-se ainda na voz inimitável de Ian McCulloch e firme mantém-se a sua posição algures no caminho das heranças tanto de referências pop dos sessentas como da cultura indie (com guitarras na linha da frente) que fez escola na alvorada dos oitentas (e da qual os The Smiths acabariam por ser o expoente máximo). Depois de discos relativamente inconsequentes – o único momento realmente interessante pós-reunião foi mesmo o álbum do reencontro, Evergreen, de 1997 – Meteorites é um disco que, tal como sucedeu com os Duran Duran em All You Need Is Now, encontra uma banda veterana num episódio de reconhecimento dos valores da sua própria obra. Ou seja, é ao olhar para si mesmos que partem para as novas canções, sendo evidentes as relações entre o que aqui nos mostram e os ecos dos álbuns Porcupine (1983) e Ocean Rain (1984), os melhores da sua discografia, de facto. Não se trata de um decalque de ideias ou de uma mera trip nostálgica, mas antes uma focagem da sonoridade no âmago da identidade do som do grupo. E quando as canções estão à altura das heranças que convocam – como em Grapes Upon The Vine ou Lovers on The Run – há uma luz que brilha e tudo faz encaixa. Pena o alinhamento não ser todo ele do mesmo calibre, a moldura e cenografia não resultando da mesma forma quando a pintura é menos inspirada. Mesmo assim, e com alguma boa vontade, talvez esteja aqui o melhor disco dos Echo & The Bunnymen desde 1997.

sábado, maio 24, 2014

30 anos depois.
Echo & The Bunnymen, Seven Seas



Apesar de ainda ativos, os Echo & The Bunnymen ficarão todavia registados na história da pop como uma das mais bem sucedidas (artística e comercialmente) entre as bandas nascidas do pós-punk britânico em finais dos setentas (e com etapa mais significativa da sua obra na primeira metade dos oitentas). Na sua génese está uma força mítica da herança punk de Liverpool, os Crucial Three onde, além de Ian McCulloch (mais tarde o vocalista dos Echo & The Bunnymen) militavam ainda Julian Cope (que partiu para formar os Teardrop Explodes) e Pete Wylie (logo depois nos Wah!). Da separação dos Crucial Three nasceram três bandas que muito contribuíram para a criação de um novo foco de agitação em Liverpool, os Echo & The Bunnymen resultando da reunião de McCulloch com o guitarrista Will Sergeant e, mais tarde, o baixista Les Pattison. Depois de um single de estreia gravado com a ajuda de uma caixa de ritmos, aceitaram o baterista Pete De Freitas na banda e encontraram a formação que caracterizaria a etapa mais criativa da vida do grupo, entre 1980 e 85, na qual se cristalizou um raro casamento entre a herança viva do pós-punk britânico e encantos pelo melodismo e texturas do psicadelismo de finais de 60 (sobretudo convocando aqui os Doors à carteira de memórias).

'Ocean Rain'
Depois de uma bela estreia em Crocodiles (1980) e de sinais de confirmação de visão e ambição no mais duro Heaven Up Here (1981) e de feliz nova aferição de um rumo mais desafiante em Porcupine (1983) apresentam em 1984 o álbum pelo qual sempre serão recordados. Ocean Rain (que a publicidade em 1984 apresentava como “the greatest album ever made”), parte das experiências de construção de uma pop mais sofisticada de Porcupine e avança por terrenos ainda mais convencionais e clássicos nas formas, conciliando a escrita das melhores canções de toda a carreira do grupo com as guitarras com personalidade de Sergeant, sumptuosos arranjos de cordas e um evidente sentido de espaço e drama. Gravado em Paris, completado em Liverpool (depois de esgotado o tempo de estúdio e orçamento previsto), é um dos mais belos álbuns pop de 80, maduro, seguro, capaz de ligar o seu tempo a toda uma série de escolas fundamentais. The Killing Moon é a mais inesquecível das canções dos Echo & The Bunnymen. Silver e Seven Seas (que aqui recordamos) dois exemplos superiores de arte pop. E Nocturnal Me ou Ocean Rain exemplos da filigrana de detalhes que os arranjos e produção deste disco trabalharam com afinco, dele fazendo uma das obras-primas pop de 80.

O disco transporta em si as vivências (na primeira pessoa) do panorama pós-punk britânico, mas olhava mais adiante no mapa de referências, convocando sobretudo ecos dos sessentas, dos Beatles aos Doors e mais além. De certa forma está aqui um dos primeiros sinais de um processo de redescoberta de formas e nomes da pop dos sessentas que, nos anos seguintes, teria expressão evidente em discos de bandas como os Primal Scream ou Stone Roses. 

Este post inclui elementos de um outro, aqui publicado por mim em 2005.