sábado, agosto 24, 2019

John Berger — ver e escrever

[The New Yorker]
Escritor, ensaísta, argumentista de cinema, o inglês John Berger (1926-2017) deixou uma obra tão vasta quanto multifacetada que mantém a sua pertinência argumentativa e, em particular, a actualidade política e simbólica. Dois livros recentemente surgidos no mercado português atestam essa vitalidade.

Understanding a Photograph, a edição mais antiga, publicada em 2013, com chancela da Penguin, é uma antologia de textos escritos a partir dos anos 60, com duas vertentes fundamentais: por um lado, o lançamento das bases de um pensamento dialéctico sobre a existência material e social das fotografias, tendo como grandes referências inspiradoras os trabalhos de Roland Barthes e Susan Sontag; por outro lado, a prospecção crítica da obra de vários fotógrafos, de Henri Cartier-Bresson a Sebastião Salgado (neste caso, através de um diálogo-entrevista-ensaio). A destacar: o prodigioso texto sobre as aparências — intitulado 'Appearances', justamente —, datado de 1982.

A outra edição, Um Sétimo Homem, é uma tradução portuguesa, da responsabilidade de Jorge Leandro Rosa (também autor do posfácio), e chegou às livrarias através da Antígona.
Encontramos o mesmo labor de percepção e questionamento do mundo e das suas imagens, com a particularidade de essas imagens integrarem a própria dinâmica narrativa do livro: estamos perante um trabalho desenvolvido nos primeiros anos da década de 70 (a edição original surgiu em 1975), com a prosa de Berger e as fotografias do suíço Jean Mohr (1925-2018) a testemunharem as convulsões dos movimentos de migrantes no interior do continente europeu.
Escusado será dizer que somos levados a estabelecer imediatas ligações com o nosso presente, mas o valor do livro não se pode medir porque qualquer simbolismo "premonitório". Acima de tudo, aquilo que encontramos em Um Sétimo Homem é a discussão/experimentação de uma linguagem plural, capaz de integrar, por exemplo, a deambulação romanesca a par do testemunho fotográfico. À sua maneira, esta é também uma crítica contundente — neste caso, actualíssima — da ilusão mediática, muito televisiva, segundo a qual "gravar" o mundo em imagens desemboca na revelação (?) de um sentido único, unívoco e inquestionável.

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Vale a pena lembrar que John Berger é autor de Ways of Seeing (edição portuguesa: Modos de Ver, Antígona), livro clássico sobre o lugar das imagens nas sociedades contemporâneas e, nessa medida, o seu papel como matéria do próprio real, muito para além de qualquer noção simplista de "reprodução".
Este sim, é um livro de uma admirável presciência: publicado em 1972, a inteligência e agilidade das suas reflexões mantêm uma actualidade perturbante, no limite levando-nos a perguntar como é que a nossa visão das "coisas-enquanto-imagens" desempenha um papel fulcral na interiorização da nossa identidade e também no sistema de relações que estabelecemos com os outros.
Aliás, Ways of Seeing é uma obra tanto mais sedutora quanto, na sua origem, está uma série homónima, de quatro episódios de 30 minutos, produzida pela BBC e emitida pela primeira vez também em 1972 — é possível vê-la por inteiro na Net; eis o primeiro episódio.


>>> Entrevista a John Berger, por Kate Kellaway (The Observer, 30 Out. 2016).

sexta-feira, agosto 23, 2019

"Grace" faz 25 anos

O álbum Grace, de Jeff Buckley, foi lançado a 23 de Agosto de 1994 — faz hoje 25 anos.
É um daqueles objectos que entrou na história de forma discreta para, com o passar dos anos, se impor como um clássico absoluto. Razões para tal trajecto? Uma, entre muitas: a sua resistência a qualquer classificação de "género", proeza tanto mais dramática quanto Grace foi o único álbum que Buckley concluiu durante a sua curta existência — faleceu em 1997, contava 30 anos [Rolling Stone].
No seu misto de transparência e mistério, Buckley encarna, de uma só vez, o cantor introspectivo e o actor de todas as máscaras, porventura uma das derradeiras encarnações românticas que a história do rock ainda soube gerar. Eis três temas de Grace, para que não nos esqueçamos:
Last Goodbye, composição do próprio Buckley;
Hallelujah, o clássico de Leonard Cohen;
Grace, de Buckley, em colaboração com o guitarrista Gary Lucas.





A colecção de Sandy Schreier

O senso comum ensina-nos que a perfeição é inatingível. Em qualquer caso, esta notícia da Vogue não é sobre o senso comum — assim, a colecção da americana Sandy Schreier, historiadora e coleccionadora de moda, vai ser tema de uma exposição no Anna Wintour Costume Center do MET, Nova Iorque. Digamos, para simplificar, que as imagens envolvem uma moral perturbante: a abstracção que os modelos inanimados emprestam a estes vestidos é um sinal cruel, mas redentor, da imperfeição do humano.

Lana Del Rey: um video, duas canções

O sexto álbum de estúdio de Lana Del Rey (30 Agosto) apresenta-se com um título delicioso a cujas ressonâncias simbólicas, brevemente, nos deveremos dedicar: Norman Fucking Rockwell!.
Para já, digamos apenas que tem sido promovido através de cenários e imagens de espírito made in California, transportando um romantismo paradoxal, tecido de ternura e cepticismo. Com uma novidade insólita, e tanto mais quanto tem mesmo qualquer coisa de único. Ou seja: um video que não é exactamente o teledisco de uma canção, mas de duas... Ou serão dois telediscos irmanados no mesmo video... Enfim, o que mais conta é a sinceridade festiva do empreendimento, "colando" os dois temas no mesmo acontecimento audiovisual — eis o trailer do álbum e, em baixo, Fuck It I Love You & The Greatest.



quinta-feira, agosto 22, 2019

Os cães não fumam, mas...

São imagens que vêm da Nova Zelândia, da responsabilidade da Quitline, entidade de apoio aos cidadãos que querem deixar de fumar. No seu mais recente video, concebido pela agência YoungShand (Auckland), os protagonistas são um homem e o seu cão — e a história não é o que parece...

Gomez — memórias com 20 anos

Liquid Skin foi o segundo álbum dos ingleses Gomez, lançado em 1999, cerca de um ano após o impacto de Bring it On. Duas décadas depois, uma edição especial, incluindo vários demos e registos inéditos, serve para revisitarmos este rock agreste e poético, na maior parte dos temas materializado na inconfundível voz rouca de Ben Ottewell. Aqui ficam duas memórias: primeiro, o tema Revolutionary Kind, remasterizado; depois o demo de Throwin' Myself Away.



Donna Tartt — do livro ao filme

The Goldfinch (2013), de Donna Tartt, é um daqueles livros que transcende, tende mesmo a ridicularizar, qualquer "resumo" que dele possamos tentar [edição portuguesa: O Pintassilgo, Editorial Presença].
Claro que podemos arriscar uma sinopse em registo mais ou menos policial: Theodore Decker, adolescente de Nova Iorque, sobrevive a um acto terrorista no Metropolitan Museum; por um lado, a sua mãe morre; por outro lado, no momento da tragédia, ele está a contemplar um pequeno quadro, uma obra-prima da pintura holandesa — 'O Pintassilgo', de Carel Fabritius (1622-1654) — que irá assombrar toda a sua existência...
As oito centenas de páginas que se seguem estão muito para além da história do acidentado trajecto do fascinante quadro de Fabritius. Ou melhor: através desse trajecto, assistimos à lancinante exposição da aventura de Theodore, perdido e achado, na procura de estabilizar uma identidade que, em boa verdade, talvez só possa existir como incessante demanda da verdade e da beleza.
Nos mais diversos momentos públicos, Donna Tartt sempre deu conta do seu fascínio pela escrita de Charles Dickens (1812-1870), pela sua capacidade de lidar com o labirinto humano, sem o padronizar, respeitando-o em todas as suas maravilhas, fantasmas e contradições. E não é caso para menos: The Goldfinch é o mais "dickensiano" dos romances e, por certo, uma das obras-primas da literatura do século XXI.
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Como "transpor" um livro destes para cinema? Diria que é uma sedutora e ciclópica tarefa, porventura impossível de consumar... O certo é que o filme está pronto, com realização de John Crowley e Ansel Elgort a interpretar a personagem de Theodore. Terá a sua estreia mundial a 5 de Setembro, no Festival de Toronto, começando depois a surgir nos mercados internacionais [Portugal: 12 Setembro]. Eis o trailer.

quarta-feira, agosto 21, 2019

Stallone vs. Stallone

Adicionar legenda
Lançado em 1982, o primeiro filme de Sylvester Stallone como Rambo chamava-se First Blood, expressão que na sua literalidade ("primeiro sangue") designava a responsabilidade de quem, num confronto violento, desencadeava as hostilidades. Em Portugal, surgiu como A Fúria do Herói, mas em vários mercados o nome Rambo foi adoptado como título, nalguns casos com adendas (p. ex.: Rambo: Programado para Matar, no Brasil; Rambo: Primera Sangre, no México).
Seja como for, não cedamos à facilidade caricatural. Que é como quem diz: no seu esquematismo dramático, A Fúria do Herói, dirigido pelo canadiano Ted Kotcheff, era um objecto tão interessante quanto sintomático, apostado em lidar com as feridas simbólicas do Vietnam num registo que devolvesse as memórias da guerra ao imaginário das clássicas aventuras de guerra. Nele encontrávamos o desenvolvimento de um conceito tradicional de herói, agora já sem transcendência, que Stallone encarnara também, de forma modelar, no primeiro Rocky (1976), com argumento de sua autoria.
Aliás, em 1978, na tripla condição de actor-argumentista-realizador, o próprio Stallone concretizara uma exemplar derivação de tudo isso em Paradise Alley (título português: O Beco do Paraíso), filme infelizmente muito esquecido sobre os bastidores dos combates de "wrestling" na Hell's Kitchen, na década de 1940, exibindo um nostálgico look de série B consagrado no notável trabalho de direcção fotográfica do húngaro László Kovács (o mesmo de Easy Rider, Lua de Papel ou New York, New York, respectivamente de Dennis Hopper, Peter Bogdanovich e Martin Scorsese).
Enfim, tudo isto para dizer que, como bem sabemos, a carreira de Stallone, ainda que pontuada por alguns títulos magníficos — lembremos Copland - Zona Exclusiva (1997), de James Mangold — foi sendo marcada por sucessivas variações de Rocky Balboa e John Rambo, quase sempre de patética imaginação (Creed: O Legado de Rocky, lançado em 2015, é a excepção que confirma a regra).
No caso de Rambo, tivemos Rambo II - A Vingança do Herói (1985), Rambo III (1988) e John Rambo (2008). Como continuar a renovar (?) a "franchise", quase quarenta anos depois do original? Pois bem, aí está a resposta, agora transformando o "primeiro sangue" em "último": Rambo: Last Blood chegará às salas de todo o mundo ao longo dos meses de Setembro/Outubro (26 de Setembro no mercado português, com o título Rambo - A Última Batalha). Vale a pena conhecer o trailer: é um exemplo esclarecedor do modo como a indexação comercial de um produto pode apoiar-se na infinita repetição dos seus clichés... Assim o filme desminta os nossos pressentimentos.

Madison Cunningham na primeira pessoa

Love, Lose, Remember, lançado em 2017, foi o primeiro EP da americana Madison Cunningham — californiana, nascida na região de Orange County, tinha 20 anos. Entre as suas inspirações, ela própria identificava: The Beatles, Joni Mitchell, Jeff Buckley, Nick Drake, Bob Dylan...
Enfim, não se pode dizer que Cunningham quisesse simplificar o seu destino artístico. O certo é que, dois anos depois, o álbum de estreia — Who Are You Now — é uma das mais sedutoras premieres deste ano musical, cruzando influências muito diversas, da folk ao jazz, sem qualquer ostentação formal, antes no sentido de uma afirmação genuinamente pessoal.
Será preciso voltarmos a Who Are You Now. Para já, observemos como a singularidade artística de Madison Cunningham se pode escutar através de algumas imaculadas versões de três canções admiráveis, envolvendo os mais delicados desafios de interpretação:
In My Life, The Beatles;
No Surprises, Radiohead;
Poses, Rufus Wainwright.





terça-feira, agosto 20, 2019

Tarantino — entre 1969 e 2019


Com o novo filme de Quentin Tarantino, Era uma Vez em Hollywood, reencontramos o poder primitivo da fábula: ao revisitarmos o ano de 1969, somos levados a perguntar o que significa, para o nosso presente, a própria noção de cinefilia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Agosto).

O domínio do mercado cinematográfico pelos super-heróis da Marvel e DC Comics tem conseguido levar muitos espectadores jovens a acreditar numa mentira obscena: no cinema americano só se fabricariam objectos escapistas, adequados ao consumo ruidoso de pipocas.
Talvez por isso, na Net, em alguns espaços da imprensa internacional, deparamos com uma visão caricatural do novo filme de Quentin Tarantino, Era uma Vez em Hollywood, e em particular das suas memórias de 1969. Estaríamos perante uma colecção de piadas sobre um tempo de comédias grosseiras e “westerns” decadentes — Leonardo DiCaprio interpreta um actor de séries televisivas de cowboys —, apesar de tudo celebrando a idade de ouro de Hollywood...
Idade de ouro? Em nome da mais básica objectividade, importa recordar que a acção de Era uma Vez em Hollywood se situa numa trágica “terra de ninguém” da indústria audiovisual da Califórnia. Em finais da década de 60, a decomposição das estruturas tradicionais dos grandes estúdios, a par da concorrência brutal da televisão, gerava um espaço de profunda angústia criativa em que tudo ameaçava decompor-se, mesmo se é verdade que, pelo paradoxo inerente a qualquer crise, tudo parecia possível.
Não é por acaso que Tarantino elabora a sua prodigiosa teia narrativa a partir da figura de Sharon Tate, interpretada com terno mimetismo por Margot Robbie. Assassinada nesse ano pela seita de Charles Manson, Tate ficou, afinal, como dramática encarnação de um impossível retorno aos padrões de representação e glamour das estrelas clássicas.
1969 é mesmo um momento emblemático de desagregação ideológica do “western”, género que, como bem sabemos, se confundia com uma mitologia redentora da própria nação — e não serão necessárias grandes demonstrações sociológicas para reconhecer que tal desagregação não pode ser dissociada do desenvolvimento da guerra do Vietname.
Foi o ano de A Quadrilha Selvagem, de Sam Peckinpah, encenando a fronteira com o México como cenário da morte brutal, em sentido literal e figurado, dos padrões clássicos de heroísmo. Foi também o ano de Easy Rider, com Peter Fonda e Dennis Hopper, aventura “on the road” em que os novos cavaleiros, em motos reluzentes, deparavam com o vazio existencial que o próprio cartaz do filme identificava: “Um homem partiu à procura da América e não conseguiu encontrá-la em nenhum lugar...”
Simbólico entre todos os títulos de 1969, O Cowboy da Meia-Noite, de John Schlesinger, mimava um modelo tradicional de “western”, agora em gélidos cenários da grande metrópole nova-iorquina: Jon Voight é uma personagem anacrónica do mundo dos cowboys (vinha do Texas...) que, através do seu envolvimento com o vagabundo interpretado por Dustin Hoffman, descobre que o mito dera lugar aos rituais de uma teatralidade fúnebre.
Tarantino filma essa conjuntura com o carinho de um verdadeiro cinéfilo, capaz de reconhecer as contradições de um tempo em que, para o melhor e para o pior, se decidiu muito do futuro do cinema (porventura até aos dias de hoje). Através das muitas fachadas de salas que pontuam as imagens, surgem mesmo referências a títulos tão marginais e esquecidos como The Night They Raided Minsky’s, comédia muito amarga sobre os bastidores do teatro, assinada por William Friedkin (que quatro anos mais tarde realizaria O Exorcista); por involuntária, mas reveladora, ironia o seu título português foi Os Bons Velhos Tempos.
Nada disto envolve qualquer revivalismo. O cineasta de Pulp Fiction (1994) e Os Oito Odiados (2015) não reduz o passado a uma terra perdida nas brumas de uma nostalgia exangue. Daí que Era uma Vez em Hollywood envolva um tão especial desafio ao espectador: o regresso ao passado só adquire pleno sentido através da sua ambígua duplicação no presente. Será preciso sublinhar que a personagem de DiCaprio se distingue por uma imaculada amizade com o seu duplo (das cenas de acção), interpretado por Brad Pitt? O “era uma vez” do título significa isso mesmo: a fábula duplica a imaginação do presente. Se ainda tivermos imaginação e gosto de contar histórias.

segunda-feira, agosto 19, 2019

Sleater-Kinney, opus 9

Corin Tucker, Janet Weiss e Carrie Brownstein — quem é quem na capa de The Center Won't Hold? Digamos que a imagem de marca do nono álbum de estúdio das Sleater-Kinney está concebida para gerar, justamente, essa ideia de cumplicidade construída em torno de uma poética visceralmente punk.
Já conhecíamos a canção (e o fabuloso teledisco) de Hurry on Home. É altura de acrescentar que este conjunto de onze temas confirma a contagiante exuberância de um entendimento de uma herança musical que recusa qualquer "modernismo" gratuito, o que não exclui a alegria de um permanente experimentalismo. Uma maneira sugestiva de resumir a questão seria dizer que as três mulheres de Olympia, capital do estado de Washington, se movem na mesma paisagem que, em anos recentes, ganhou nova energia pública através do trabalho exemplar de St. Vincent... Voilà: convém relembrar que Annie Clark, aliás St. Vincent, é a produtora de The Center Won't Hold.

>>> Teledisco/lyric video de LOVE.


>>> Site oficial das Sleater-Kinney.

domingo, agosto 18, 2019

Uma comédia sexual feminina?

Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever
Foi em 1999 que se estreou American Pie, objecto de desastrosa mediocridade cinematográfica que criou um “estilo” de representação da juventude baseado num único pressuposto dramático: a adolescência seria apenas um acidente sexualmente burlesco que se resume no facto de as respectivas personagens serem ou não serem virgens... Em Portugal, num gesto de sagaz objectividade, o filme foi mesmo lançado com o subtítulo “A Primeira Vez”.
Vinte anos depois, há que reconhecer que a moda não desarma: Booksmart, estreia na realização da actriz Olivia Wilde, é a “enésima” variação sobre o tema. Dito de outro modo: onde antes encontrávamos rapazes a especular sobre o modo de atrair raparigas, agora a acção centra-se em raparigas atraídas por... rapazes e raparigas.
Dir-se-ia que encontramos aqui um sintoma das convulsões do movimento #MeToo, em particular da revalorização de histórias de mulheres concebidas e assinadas por mulheres. Em todo o caso, creio que tal perspectiva tende a gerar um equívoco ainda maior: mesmo não ignorando os seus impasses, contradições e silêncios, o fenómeno #MeToo é demasiado sério, e de inegável importância social, para que o confundamos com as proezas de um filme como Booksmart.
Desgraçadamente, a questão é muito mais simples: estamos apenas perante um exemplo de chocante mediocridade cinematografica. O subtítulo português ajuda à festa, procurando reforçar a “ironia” do original. Assim, “booksmart” designa alguém que cultiva o gosto dos livros, nessa medida “armando-se em esperto(a)”... Daí a adenda que o filme recebeu no nosso mercado: Inteligentes e Rebeldes.
Não estamos, realmente, no reino da subtileza. Assumindo-se como comédia sexual feminina, porventura feminista (?), Booksmart dá-nos conta das atribulações de Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein) em vésperas da cerimónia de encerramento do curso liceal, já vislumbrando a sua vida universitária... Num misto de desilusão e culpa, descobrem que talvez não tenham sabido desfrutar dos prazeres da adolescência em que todos os colegas se especializaram...
O cliché não podia ser mais claro: quem lê livros, coitado(a), não sabe nada dos sabores da vida vivida... O resultado é uma antologia de piadas de sorumbático humor, com a breve excepção de uma sequência onírica, executada, em animação, com duas bonecas Barbie que, ao espelho, avaliam as componentes sexuais da representação do seu próprio corpo... Podia ser uma outra maneira de lidar com a pesada herança de American Pie, mas tal sequência não passa de uma excepção. Em última instância, este é um filme que parece assombrado por aquela incómoda tristeza de nem sequer acreditar no humor que tenta transmitir.