quinta-feira, fevereiro 26, 2026

O Holocausto revisto através de 33 imagens

Uma das 33 fotografias obtidas, clandestinamente, no Gueto de Varsóvia

A vida e a morte no Gueto de Varsóvia, durante a Segunda Guerra Mundial, tem um novo e precioso testemunho no filme 33 Fotos do Gueto. Realizado por Jan Czarlewski, francês de ascendência polaca, está disponível na HBO Max — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 fevereiro).

A banalização das imagens, em especial no espaço televisivo, favorece uma relação indiferente com o património fotográfico — as fotografias são tratadas apenas como sinais “pitorescos” de um passado reduzido a estereótipos. Assim se esquece esse poder vital que transforma uma fotografia num insubstituível elemento histórico, garantindo, face a um determinado facto, que “isto aconteceu” (como lembrava Roland Barthes no seu livro A Câmara Clara). Exemplo notável desse poder é o documentário 33 Fotos do Gueto, de Jan Czarlewski, francês de ascendência polaca, que pode ser descoberto na plataforma HBO Max.
As 33 imagens que o título refere testemunham a vida e a morte no interior do Gueto de Varsóvia. Não são fotografias “oficiais” — são mesmo as únicas fotografias conhecidas daquele gueto que não foram obtidas por elementos do exército nazi. A Polónia, convém lembrar, foi o primeiro país invadido pelos alemães, a 1 de setembro de 1939, desencadeando a Segunda Guerra Mundial. O Gueto de Varsóvia foi estabelecido em novembro de 1940, encerrando quase meio milhão de judeus numa área de pouco mais de três quilómetros quadrados, com escassos alimentos e crescentes problemas de saúde — era o primeiro sinal do Holocausto.
A partir do verão de 1942, sob o pretexto de “recolocação” da população judaica em áreas mais a leste, cerca de metade dessa população começou a ser enviada para o campo de extremínio de Treblinka. No começo de 1943, os habitantes que restavam revoltaram-se (construindo bunkers, conseguindo obter armas, explosivos, etc.) num processo que ficou para a história como a maior acção de resistência dos judeus durante a guerra. Ao longo do mês de abril, durante os confrontos com os soldados alemães, seriam mortos mais de 50 mil judeus, até que, em maio, o comando nazi ordenou a destruição total do gueto.
A descoberta das imagens começou em 2022, nos arquivos do Museu do Holocausto, em Washington. Encontravam-se aí doze fotografias do Gueto de Varsóvia que teriam sido obtidas, clandestinamente, por um bombeiro de nome Zbigniew Grzywaczewski. Uma pesquisa junto dos seus descendentes levou à descoberta de mais algumas fotografias num rolo esquecido numa arrumação. Na prática, eram o resultado da coragem de Grzywaczewski, afinal um amador da arte fotográfica. Ao participar no combate aos fogos postos pelos alemães para fazer sair os judeus dos seus esconderijos, ele teve a frieza necessária para ir fotografando aquilo que observava, legando-nos um testemunho precioso sobre uma violência que era, afinal, um prenúncio do extermínio perpetrado nos campos de concentração.
Através de uma minuciosa análise conduzida por especialistas da iconografia da Segunda Guerra Mundial, com a participação do filho de Grzywaczewski, o filme de Czarlewski é mais do que um inventário de imagens. Assistimos mesmo a uma verdadeira “reconversão” visual das acções que as fotos retratam, revisitando os locais em que foram obtidas — o passado existe, afinal, literalmente, como uma memória inscrita nos lugares do presente.

O valor das memórias

O Museu do Holocausto, sem o qual não teria sido possível concretizar um projecto como 33 Fotos do Gueto, não pode ser dissociado de um acontecimento cinematográfico que, há mais de três décadas, marcou o cinema de Hollywood. Na verdade, o filme A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, desempenhou um papel fulcral no reforço do conhecimento da Solução Final organizada pelos nazis e, em particular, na sistematização das suas memórias.
Há mesmo uma entrevista com uma sobrevivente do gueto, utilizada no documentário, que faz parte da coleção de testemunhos registados pela Fundação Shoah, fundada por Spielberg em 1994, agora integrada na Universidade da Califórnia do Sul. Estamos perante um exemplo modelar de uma entidade em que o espírito cinéfilo se combina com a exigência, prática, ética e política, de preservar e enaltecer o valor das memórias.

Laufey canta Joni Mitchell

Incluída no álbum Clouds (1969), o segundo da discografia de Joni Mitchell, a canção Both Sides Now é um desafio para qualquer intérprete. Aí está a islandesa Laufey a mostrar que é possível revisitá-la sem atitudes banalmente copistas, sabendo preservar o seu espírito poético e também o seu delicado simbolismo — aconteceu no Piano Room da BBC2, com a BBC Concert Orchestra.
 

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Madonna + Dolce & Gabbana + Mert Alas

O anúncio de um novo perfume Dolce & Gabbana, protagonizado por Madonna, com realização da dupla Mert Alas, é um breve e sofisticado exercício iconográfico que, certamente não por acaso, remete para memórias da obra videográfica da Material Girl — reveja-se, por exemplo, o teledisco de Take a Bow (1994). E também não será indiferente o facto de a banda sonora ser feita com a canção italiana La Bambola, um sucesso mítico de 1968, recriada por Madonna.
 

The Good Ones, The Kills

No espaço restrito do Studio UGO, eis uma performance de The Kills. Foi há 20 anos — a canção The Good Ones pertencia ao alinhamento de No Wow, o segundo álbum de Alison Mosshart e Jamie Hince lançado em 2005. Comoventes solidões.
 

Susan Sontag
— elogio do silêncio e dos livros

[Foto reproduzida no documentário A Propósito de Susan Sontag (2014)]

Há quase meio século, Jonathan Cott entrevistou Susan Sontag, mas o texto não foi publicado na íntegra. Aí está Susan Sontag – A Entrevista Completa da Rolling Stone para nos ajudar a redescobrir um pensamento que recusa opor “alta” e “baixa” cultura — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 fevereiro).

O chamado “livro-entrevista” é um género capaz de produzir resultados magníficos — entrevistador e entrevistado encontram-se para um diálogo mais ou menos prolongado, dando origem a umas centenas de páginas em que a investigação jornalística vai sendo pontuada pelas singularidades de um auto-retrato. O livro Susan Sontag – A Entrevista Completa da Rolling Stone, de Jonathan Cott, poderá ser “arrumado” na prateleira desse género, mas, em boa verdade, não decorre das suas regras.
Esta “entrevista completa”, realizada ao longo de vários meses, em Nova Iorque e Paris, estava para ser apenas isso mesmo — uma entrevista para a Rolling Stone. Foi publicada na edição nº 301 da revista, a 4 de outubro de 1979. Com um grande plano de Jimmy Buffet na capa (tinha acabado de sair o seu álbum Volcano), Sontag era um dos destaques, a par de David Bowie e os álbuns “Trilogia de Berlim” (o último, Lodger, surgira poucos meses antes), mas o registo proposto por Cott era enorme (em livro, são cerca de 150 páginas) e não “cabia” numa edição normal da Rolling Stone. O texto publicado correspondia a um terço da conversa com Sontag. A versão integral foi finalmente conhecida em 2013, numa edição com chancela da Yale University Press — é essa versão, um texto precioso a meio caminho entre a confissão e a digressão filosófica, por vezes com sofisticado humor, que chega agora ao mercado português (ed. Quetzal, tradução de José Lima).
A dimensão confessional não será estranha ao facto de Sontag e Cott se conhecerem há muito tempo. Ele mesmo o recorda no prefácio: “Conheci Susan Sontag no início da década de 1960, quando ela dava aulas, e eu estudava, na Universidade Columbia.” Ainda assim, o que faz com que a primeira parte da entrevista possua uma especial componente introspectiva, com o seu quê de didáctico, está longe de ser estranho ao facto de a escrita de Sontag estar a passar por um período de reconversão em tudo e por tudo ligado à sua saúde. Semelhante postura intelectual gerara mesmo, em 1978, o livro A Doença como Metáfora (ed. Quetzal, tradução de José Lima). Como recorda Cott: “Susan tinha sido sujeita a uma cirurgia e a tratamentos de um cancro da mama entre 1974 e 1977, e essa experiência fora o catalisador que a levara à escrita desse livro.”
Sontag rejeita o vício social (ou anti-social) de viver a doença através do assombramento de uma “culpa” que, à maneira de um “talk-show” televisivo, se exibe perante os outros: “Senti o mais intenso tipo de pânico animal. Mas vivi também momentos de euforia, de tremenda intensidade. (...) Não quero dizer com isto que foi uma experiência positiva, o que seria de mau gosto, mas é certo que teve um lado positivo” (Sontag morreu em 2004, contava a 71 anos).
A certa altura, a conversa abre-se para uma fascinante ramificação de temas e ideias, sempre pontuada pela resistência a qualquer oposição entre “alta” e “baixa” cultura, afinal uma questão nuclear em todo o universo de Sontag: “A mim, parece-me bastante claro que o rock and roll é o maior movimento da música popular que jamais existiu.” O que, entenda-se, envolve também uma resistência ao niilismo que, quase meio século depois desta entrevista, se tornou uma poderosa ideologia mediática: “A nossa sociedade está baseada no niilismo — a televisão é niilismo. Quer dizer, o niilismo não é nenhuma invenção modernista de artistas de vanguarda. Está no cerne da nossa cultura.”
Escusado será dizer que, com Sontag, a palavra “cultura” não se confunde com um panteão de obras “obrigatórias”, porque é sempre um sistema de valores. Não há “uma” cultura, mas uma pluralidade de culturas, não poucas vezes inconciliáveis. A abordagem da fotografia por Sontag, ela que publicara os seus Ensaios sob Fotografia em 1977 (ed. Quetzal, tradução de José Afonso Furtado), é particularmente elucidativa sobre a sua relação com a verdade e a mentira, aliás, a falsidade. O que, além do mais, implicando o lugar social de cada pessoa, se cristaliza num projecto individual. Com uma recomendação a ter em conta: “Temos de criar o nosso próprio espaço — um espaço onde haja muito silêncio e muitos livros.”

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Bob Dylan, Bootleg nº 18

As gravações "perdidas" de Bob Dylan são um galáxia sem fim... Assim é o volume 18 da série, a comprovar de forma exuberante a riqueza do património do compositor de The Times They Are A-Changin'. Como diz o título — Bootleg Series Volume 18: Through The Open Window, 1956-1963 —, esta é uma edição que nos faz revisitar os anos de transição, 1950/60, quando Dylan inventariava referências da tradição folk, ao mesmo tempo que definia as componentes específicas de uma identidade criativa que nunca se encerrou na solução preguiçosa da imitação mais ou menos nostálgica.
Com edições em vários formatos, a mais abrangente tem 8 CD com um total de 139 faixas, incluindo 48 gravações inéditas, sendo acompanhada por um livro com notas de Sean Wilentz e cerca de uma centena de raridades fotográficas.
Eis um tema tradicional, Man of Constant Sorrow, no registo de um ensaio de 1961, em Nova Iorque — seria integrado no alinhamento de Bob Dylan, primeiro álbum de estúdio lançado há 64 anos, mais precisamente a 19 de março de 1962.
 

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Com saudades de Fellini

Giulietta Masina e Marcello Mastroianni, Ginger e Fred (1986)

Federico Fellini alertou-nos para a destruição televisiva da cultura cinematográfica: aconteceu há 50 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 janeiro).

Quando vemos a política tratada como um combate de boxe, com os políticos a serem classificados por pontos, como se fossem pugilistas, pensar a televisão é uma tarefa cada vez mais premente — pensar, sobretudo, o poder multifacetado da cultura televisiva, poder para o qual existimos de forma mais ou menos incauta, mas compulsiva.
Que acontece quando usamos a “liberdade” delegada pelo comando televisivo, o aparelhinho com que, supostamente, controlamos o universo das nossas imagens? Aproprio-me da palavra “aparelhinho”, dita por Federico Fellini (1920-1993): “Creio que esse aparelhinho fez crescer uma vaga de espectadores impacientes, indiferentes, distraídos, vagamente racistas... porque o aparelhinho é como um pelotão de execução que apaga rostos e palavras.”
Disponíveis no YouTube, são frases ditas por Fellini numa entrevista de televisão, em meados da década de 1970. Aliás, o realizador de Oito e Meio (1963) ironizava o facto de estar ali, numa conversa sobre a “crise do cinema”, a falar para espectadores que “talvez já tenham mudado de canal com aquele aparelhinho”. Estava (e está) a acontecer algo que transcende qualquer elemento meramente técnico. Isto porque triunfou a “incapacidade de prestar um mínimo de atenção a quem está a falar, incapacidade de deixar-se seduzir e encantar-se com uma história. O cinema tinha qualquer coisa de sugestão hipnótica, ritualista, qualquer coisa de religioso. (...) Olhava-se para a sala ainda iluminada, reconheciam-se os amigos, depois a luz apagava-se, aparecia o ecrã — e começava a revelação, a mensagem. Era um ritual antiquíssimo, cujas formas e modos foram mudando, mas era sempre assim: estava-se ali para escutar.”


Que resta dessa capacidade de escuta? “O que me parece é que, agora, tudo isso foi completamente destruído, essa atitude já não existe. A maquineta que usamos é uma espécie de laser que cancela e apaga. A partir do momento em que a ‘coisa’ já não apresenta um gancho sensacionalista, salta-se rapidamente de um filme para um jogo de futebol, de um jogo de futebol para um concurso, de um concurso para um anúncio de fraldas. Esta maneira de escutar quem fala parece-me infame.”
A revisitação de palavras como estas é tanto mais pedagógica quando pode ajudar os mais relutantes a reconhecer que pensar o peso decisivo do espaço televisivo em todos os comportamentos humanos, da percepção da política ao conhecimento das actividades artísticas (sobretudo quando essas actividades são tratadas como um resto dispensável), não é um assunto banalmente teórico — trata-se, isso sim, de uma questão inscrita no dia a dia de todos os cidadãos. Fellini vai mais longe e lembra o dever de “testemunhar”.
O que, entenda-se, não será o mesmo que escolher “fidelidades” no espectro político: “Pode não se seguir uma ideologia, não se sentir alinhado com nenhuma das partes, mas existe a obrigação de promover um conhecimento consciente do que está a acontecer — creio que é um dever de todos.”
A perturbante actualidade deste testemunho está para lá da nostalgia. Nele encontramos sinais de uma visão crítica (no que a crítica tem de mais produtivo e construtivo) que atravessou toda a década de 1970, com Robert Rossellini a chamar a atenção para a urgência de um debate “no seio das televisões europeias” sobre “a missão da televisão” (num artigo de 1972) ou Jean-Luc Godard a interrogar, de forma pioneira, os perversos poderes de formatação do espaço familiar que a televisão estava a adquirir (em 1975, no filme Número Dois).
Um pouco mais tarde, em 1986, Fellini realizaria Ginger e Fred, sobre o desastre expressivo e cultural que a televisão ia consumando no seu país. Com Giulietta Masina e Marcello Mastroianni, era o retrato amargo e doce de um velho par de dançarinos que imitavam as glórias passadas de Fred Astaire e Ginger Rogers. Ao serem “transferidos” do palco para o ecrã televisivo, o pitoresco cruel com que eram apresentados fazia parte da tragédia de uma cultura popular a ser assassinada em directo.

domingo, fevereiro 22, 2026

sábado, fevereiro 21, 2026

PVA, trip hop & etc.

Ella Harris (voz, teclas, percussão), Josh Baxter (voz, teclas) e Louis Satchell (bateria) formam os PVA, fundados em Londres, em 2017, tendo-se estreado nos álbuns com Blush (2022). Vogam num labirinto de punk mais ou menos dançável, sempre abençoado pelos espíritos do trip hop, com electrónicas q.b. — talvez se reconheçam mesmo numa herança em que a elegância dos Massive Attack se cruza com a crueza dos sons de Tricky...
Surge agora o seu segundo álbum, No More Like This, em que contam com a colaboração de Ruby Kyriaki (violino). Estamos perante uma proeza tanto mais assinalável quanto as derivações experimentais não põem a em causa a consistência poética de canções assombradas por uma rudeza existencial que a fisicalidade da capa espelha de forma muito directa — a espantosa fotografia é da autoria de Jak Payne.
Eis duas vias possíveis para uma bela descoberta: o teledisco de Enough e uma performance de Send.



quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Valor Sentimental
— a magia do cinema está nos rostos

Renate Reinsve: a actriz e as suas máscaras

Premiado no Festival de Cannes, com nove nomeações para os Oscars, Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, propõe um retrato familiar que é também uma visão dos bastidores do cinema. Com uma coleção de notáveis intérpretes (este texto foi publicado no Diário de Notícias (29 janeiro).

Distinguido em Cannes com o Grande Prémio (segundo na hierarquia do palmarés do festival), agora lançado nas salas portuguesas, Valor Sentimental surge na corrida para os Oscars numa posição invejável. Com nove nomeações, a realização do norueguês Joachim Trier integra os candidatos a melhor filme e melhor filme internacional — não é uma situação inédita, mas não deixa de ser uma proeza a registar. Talvez ainda mais surpreendente, e também pouco frequente, são as suas quatro nomeações para prémios de interpretação: Renate Reinsve, para melhor actriz, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleas, ambas na categoria de melhor actriz secundária, e Stellan Skarsgård, para melhor actor secundário.
Joachim Trier
Os Oscars, ou apenas as suas nomeações, não serão uma lista “científica” para justificar, nem sequer para descrever, as qualidades de um determinado filme. Seja como for, este destaque para os actores — sobretudo para as actrizes — não podia ser mais revelador do efeito mágico de um elenco realmente excepcional. Com alguma ironia, apetece dizer que o talento acumulado nesse elenco seria suficiente para fazer um filme a que, no limite, bastariam os grandes planos dos rostos.
Claro que um actor não se resume a um rosto “expressivo”. Mesmo quando um filme aposta nos grandes planos como figura nuclear da sua narrativa — veja-se a admirável primeira longa-metragem de Kristen Stewart, A Cronologia da Água, estreada a semana passada —, os movimentos dos corpos e as singularidades dos cenários estão longe de ser indiferentes para os resultados finais. Dito isto, importa sublinhar algo de mais complexo e envolvente: se a questão da performance dos actores é tão decisiva na dramaturgia de Valor Sentimental, isso decorre também do facto de estarmos perante um filme sobre... actores. Ou mais exactamente: sobre a procura de uma actriz.
Quem procura uma actriz é um cineasta, precisamente, chamado Gustav Borg (Skarsgård). O filme que está a preparar, para lá dos problemas de financiamento, reflecte histórias familiares traumáticas, enraizadas em memórias da Segunda Guerra Mundial. Borg tem duas filhas, Nora (Reinsve) e Agnes (Lilleas). Nora é actriz e seria a escolha “natural” para o papel central, mas as tensões entre pai e filha levarão Borg a convidar uma actriz americana, Rachel Kemp (Fanning), de algum modo fazendo reaparecer aquelas memórias que todos parecem querer contornar...
Por vezes, Trier não resiste a fazer uma cena “simbólica” mais ou menos dispensável para expor uma determinada mudança no curso da acção; outras vezes, acrescenta canções na banda sonora cujo efeito tem algo de redundante — eram, aliás, problemas que marcavam o seu filme anterior, A Pior Pessoa do Mundo (2021), também protagonizado por Renate Reinsve, ainda que Valor Sentimental me pareça francamente mais consistente. O seu tema fulcral será, afinal, a pertença de cada ser humano a um determinado lugar.

A casa e o mundo

O lugar decisivo de Valor Sentimental é, assim, a casa de família que funciona como um refúgio ambíguo, uma espécie de gruta secreta, ainda que exposta à luz do mundo exterior, recheada de tudo aquilo que as personagens partilham, mesmo (ou sobretudo) quando resistem a dizê-lo. Aliás, essa casa mobiliza tanto mais a curiosidade do espectador quanto, nas suas formas insólitas (tropicais?), parece existir como uma entidade que recusa diluir-se na paisagem urbana.
Fundamental é, por isso, o modo como todas as acções do filme estão pontuadas por uma teatralidade que nasce do modo como cada personagem tenta, muitas vezes, mascarar-se perante a personagem que tem à sua frente. Fará mesmo sentido dizer que o confronto de Borg e Nora se decidirá (ou não) quando pai e filha arriscarem retirar as suas máscaras... Com uma nuance que a realização de Trier sabe explorar com assinalável pudor: cada uma dessas máscaras já contém uma dimensão vital da própria verdade.