domingo, agosto 23, 2026

A Piscina
— o erotismo já não é o que era

Romy Schneider, memórias de 1969

A Piscina (1969) entrou na história do cinema francês com o rótulo de “erotismo” colado às suas peripécias, e também às imagens de Romy Schneider e Alain Delon, o seu par central. Podemos redescobri-lo agora numa cópia restaurada em 4K — este texto foi pubvlicado no Diário de Notícias (17 agosto).

Clássico do erotismo cinematográfico? Quer queiramos, quer não, a reposição de A Piscina, de Jacques Deray — a partir de quinta-feira [dia 20], em cópia restaurada em 4K —, atrai esse rótulo cujas raízes estão, como é óbvio, no impacto original do filme. Corria o ano de 1969 e convenhamos que “erotismo”, mais do que uma classificação gráfica ou um género dramático, era um curioso sintoma de uma longa e multifacetada, por vezes contraditória, reconversão das formas de tratamento e figuração das relações sexuais.
No cinema francês, desde logo. A Piscina reunia duas estrelas a que, por razões iconográficas ou estratégias promocionais, se colava um outro rótulo que, no espaço da actual imprensa dos “famosos” e respectivas novelas, perdeu o seu carácter genuíno. Dito de outro modo: Romy Schneider e Alain Delon eram sexy. Perante semelhante par, a expressão sex appeal não tinha nada de gratuito. A sua reunião em A Piscina era celebrada na cena de abertura através da vibração sensual dos corpos das respectivas personagens (Marianne e Jean-Paul), vibração agora incompreensível para quem tenha o olhar formatado pela redução da sexualidade a uma mera performance (à maneira do Big Brother televisivo). Tal dimensão surgia perversamente reforçada por uma memória privada que o marketing da época não deixou de rentabilizar: Delon/Schneider tinham vivido uma relação apaixonada (1958-64) que emprestava ao filme de Deray a simbologia cinéfila de uma desencantada nostalgia.


Um fenómeno social

Que restava, então, das ilusões libertárias dos anos 60? Para nos ficarmos pelo negrume de algumas referências lendárias, valerá a pena lembrar que 1969 viria a ser pontuado por acontecimentos tão perturbantes como o assassinato de Sharon Tate, a morte de um espectador no concerto dos Rolling Stones em Altamonte ou ainda, no campo do cinema, o lançamento de Easy Rider, epopeia redentora que se transfigurava em tragédia sem remissão. Era um labirinto de sentimentos e emoções que justificava, de facto, o adjectivo transversal, isto é, transcendendo usos e costumes nacionais, em particular através do poder cultural do cinema (hoje irrelevante, quando comparado com essa época). Em Portugal, A Piscina estreou-se ainda em 1969 e foi também um verdadeiro fenómeno social — vale a pena lembrar tal fenómeno, quanto mais não seja para contrariar os discursos políticos que consideram que rasurar os contrastes culturais pré-1974 é uma boa maneira de conhecer e compreender a ditadura em que vivemos.
Num livro lançado em 1990 — L’Écran de l’Amour (ed. Plon, Paris) —, a jornalista e escritora Martine Boyer reconstitui com especial detalhe as convulsões desse período, condensadas no subtítulo “Cinema, erotismo e pornografia – 1960-1980". Foi uma época em que se discutiram intensamente, e não apenas no cinema, as relações entre “amor” e “sexualidade”. São, ou foram, relações balizadas por duas componentes: primeiro, o amor como evento “impossível de representar”; depois, a força de uma vontade (plena de ilusões, entenda-se) segundo a qual o “sexo” seria a única componente “capaz de mostrar um pouco do amor”.
Com o seu título didáctico e poético, L’Écran de l’ Amour propunha também um sugestivo inventário para percebermos que se tratava, não de uma questão panfletária, “masculina” ou “feminina”, mas de um painel de narrativas muito distintas em que, conscientemente ou não, ecoavam novas formas de descrição e representação de ambos os sexos. Assim, num anexo final, Boyer apresenta uma cuidadosa cronologia de títulos que nos leva recordar que 1969 foi também o ano de uma comédia tão disparatada como Erotissimo (lançada entre nós, em 1970, com o delicioso título Confidencialíssimo), ou ainda do sublime Une Femme Douce/Uma Mulher Meiga, cuja cena de nu de Dominique Sanda foi mais comentada do que a adaptação de Dostoievsky realizada por Robert Bresson.

Erótico, ma non troppo

Jacques Deray não era um autor — não o era, pelo menos, de acordo com os valores da Nova Vaga que se tinham cristalizado na chamada “política dos autores”. Em boa verdade, em 1969, depois das certezas estilhaçadas pelas convulsões de Maio de 68, a própria expressão “Nova Vaga” já só fazia sentido como tique nostálgico sem qualquer significado “militante”, ainda menos "panfletário”. Tudo estava extremado, de tal modo que enquanto Jean-Luc Godard mergulhava na sua fascinante “fase militante”, François Truffaut reavivava o romantismo clássico com A Sereia do Mississipi, filme mágico sobre as componentes malignas do amor. Rezam as crónicas que, por essa altura, Godard e Truffat zangaram-se... Deray distinguia-se pela eficácia das suas variações sobre modelos populares do cinema (numa altura em que, entre comédia e drama, o conceito de género cinematográfico era ainda um vector importante, tanto em termos industriais como comerciais). Para nos ficarmos por dois exemplos esclarecedores, lembremos a sua versatilidade através do thriller Sinfonia para um Massacre (1963) e, logo após A Piscina, Borsalino (1970), um retrato irónico do mundo do crime, de novo com Delon, agora a repartir o protagonismo com Jean-Paul Belmondo. Em A Piscina, a noção de que se trata do retrato íntimo (“erótico”, precisamente) do par central será, no mínimo, insuficiente. Isto porque o cenário paradisíaco em que os descobrimos, numa casa de um amigo perto de Saint-Tropez, não exclui, antes parece intensificar, o tédio das personagens. Em vez da celebração de uma paixão sem entraves, de alguma maneira exponenciada pela beleza do cenário natural, Marianne e Jean-Paul parecem “recorrer” ao sexo como um jogo de adiamento da saída daquele cenário a que, afinal, conscientemente, não pertencem.
Daí que, muito ao contrário do que proclama a imprensa dos “famosos” (que mede a “sensualidade” pelos centímetros de pele nua), a erotização dos tempos vividos em A Piscina seja menos uma questão de performances “corporais” e mais, muito mais, uma rede de olhares. Tudo isso irá intensificar-se quando chega Harry (Maurice Ronet), ex-namorado de Marianne que, para surpresa de Jean-Paul, com ele preserva diversas formas de cumplicidade. O que cada um vê, ou não vê, em cada um dos outros define um labirinto com o seu quê de opressivo, até porque Harry vem acompanhado da filha, Pénélope (Jane Birkin, três anos depois da sua “revelação” em Blow-up, de Michelangelo Antonioni), figura com tanto de neutralidade angelical como de sugestão sexual.

A ordem do mundo

Pénélope pertence a uma categoria de personagens do cinema da época em que a identidade feminina se diz menos através de uma qualquer “generalização” sexual, ainda menos de género, existindo como ponto de fuga dos desejos que cada um experimenta (ou julga experimentar). Lembremos as interpretações de Catherine Deneuve e Julie Christie, respectivamente em Belle de Jour (1967), de Luis Buñuel, e Petulia (1968), de Richard Lester — que o filme de Buñuel tenha sido escrito por Jean-Claude Carrière, que também participa no argumento de A Piscina, eis uma coincidência, no mínimo, interessante.
Jean-Paul é o que mais claramente nomeia a raiva de viver dentro de todo aquele ambiente de equívoco liberalismo moral. Por uma perversa mistura de piedade e cinismo, Harry parece ser o primeiro a detectar a profundidade do seu mal-estar. Será mesmo Harry que, na presença de Pénélope, lhe vai dizer a frase que poderia conter a moral desta história, mas que acaba por não chegar para anular a tragédia em que A Piscina se vai transformar: “Muda os teus desejos, em vez de quereres mudar a ordem do mundo”.
Quase seis décadas depois da sua estreia, A Piscina possui esse poder enigmático, com o seu quê de encantatório, de nos devolver as convulsões de um tempo em que cada um, homem ou mulher, não sabe muito bem o que fazer com o seu “eu”. Tal como neste nosso angustiado presente? Talvez. Em qualquer caso, Deray opta por uma sobriedade que, evitando simbolismos fáceis ou sublinhados redundantes, tem também o mérito de não procurar fazer uma “tese”. Trata-se de contemplar um universo a desmoronar-se a partir do interior, afinal questionando-se sobre se o amor ainda é possível.

David Lynch / Blue Velvet
* SOUND + VISION Magazine [5 set.]

O clássico Blue Velvet está a fazer 40 anos — propomos uma viagem através das respectivas memórias, sem esquecer a fascinante diversidade da obra de David Lynch.

>>> FNAC Chiado — 5 setembro (17h00).

sábado, agosto 22, 2026

Elanor Moss, The Knife, The Needle

Intimismo? Acústico? Convenhamos que, por vezes, a junção deste substantivo e deste adjectivo apenas serve para rotular empreendimentos do mais absurdo convencionalismo. Registemos, para já, a diferença: no caso de Elanor Moss estamos perante um talento genuíno, fascinante.
As suas canções, tão cruas quanto encantadas (encantatórias será a palavra exacta), acontecem como discretas aventuras emocionais que parecem ter sido recuperadas e, mais do que isso, reorganizadas por uma mente racional habitada por uma infinita compaixão — Fixer é o tema de abertura do seu álbum de estreia, The Knife, The Needle, além do mais encenado num teledisco de plano-sequência, com enquadramento fixo... mas em movimento...
 

terça-feira, agosto 18, 2026

Ellis Ludwig-Leone, Noturno

Compositor, cantor e líder da banda San Fermin, de Brooklyn, Ellis Ludwig-Leone (n. 1989) é um caso sério de talento e versatilidade. Embora correndo o risco do esquematismo, a sua criatividade oscila entre a transparência clássica e a mais pura energia pop. Recentemente, divulgou algumas novas composições de sua autoria — eis um belíssimo Noturno.

domingo, agosto 16, 2026

Jon Batiste, Black Mozart

Depois de Beethoven Blues (2024), Jon Batiste propõe agora um Black Mozart. Que é como quem diz: uma revisitação de temas de W. A. Mozart, recriados a partir de uma experiência pianística que integra jazz, blues e gospel. O alinhamento abre com Facile-Batiste, inspirado na Sonata para Piano Nº 16 — ou como o classicismo é sempre uma arte do presente.

Troye Sivan & Nicole Kidman

Nicole Kidman trabalhou com Troye Sivan no filme Boy Erased (2018), entre nós lançado com o subtítulo O Rapaz que Sou, uma proeza do actor Joel Edgerton que, além de integrar o elenco, assumia com notável precisão a realização de uma história baseada em factos verídicos: um casal (interpretado por Kidman e Russell Crowe) enviava o filho (Lucas Hedges) para uma "terapia de conversão" concebida por uma igreja apostada em "corrigir" a homossexualidade dos mais jovens...
Agora, para o belíssimo teledisco de She's the Best, Troye convidou Nicole — é a primeira canção do álbum homónimo, a ser lançado em outubro.
 

sábado, agosto 15, 2026

Slavoj Zizek — conhecer o nosso "interior"?

Rick Beato, first person

De vez em quando, é preciso parar para denunciar o misto de ignorância factual e agressão emocional que circula pela Net, alimentando a sua própria impunidade. De vez em quando, é mesmo necessário mostrar que ser social envolve um trabalho árduo de respeito, e auto-respeito, que as novas formas de "comunicação" acelerada desconhecem.
Por isso mesmo, veja-se e escute-se este video de Rick Beato — músico, guitarrista, professor com uma notável presença no YouTube —, tendo como ponto de partida um comentário anónimo (enfim, disfarçado num pesudónimo indecifrável) sobre a seriedade do seu labor. Pedagógico e libertador.

quarta-feira, agosto 12, 2026

Blake Watt, Opus 1

Se é verdade que filho de peixe(s) sabe nadar, então será forçoso começar por referir que o jovem Blake Watt (25 anos) é filho de Tracey Thorn e Ben Watt, o par que conhecemos, musicalmente, como Everything but the Girl. Sem menosprezar o efeito retro de tal filiação, descobrimo-lo agora com um álbum de estreia que, com evidente aplicação e contida sofisticação, não receia enfrentar a herança nostálgica de uma pop de suave romantismo. Chama-se Family Stereo e o tema-título tem este teledisco, muito british, em que o cantor contracena com Ingo Dierkschnieder, sob a direção de Sebastiano O’Grady.