sábado, fevereiro 16, 2019

À espera dos Oscars
— SOUND + VISION Magazine [24 Fev.]

Pela 91ª vez, Hollywood vai atribuir os seus lendários prémios: à espera dos Oscars, comentamos o panorama dos nomeados, revisitando também algumas memórias da história das estatuetas douradas — será poucas horas antes da cerimónia de Los Angeles (madrugada de 24 para 25).

* FNAC / Chiado: 24 Fevereiro (18h30)

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Maggie Rogers recria Whitney Houston

É uma das genuínas revelações de 2019: Maggie Rogers, com o seu álbum de estreia intitulado Heard It in a Past Life. Vale a pena escutá-la a mostrar como se pode fazer uma nova versão de uma canção clássica — I Wanna Dance with Somebody (1987), de Whitney Houston —, sendo fiel ao original e, ao mesmo tempo, inscrevendo uma marca muito pessoal nos resultados.
Eis a recriação (acústica!) de Rogers, em gravação efectuada num programa da rádio canadiana, The Strombo Show, de George Stroumboulopoulos; em baixo, a fundamental memória.



quinta-feira, fevereiro 14, 2019

Ellen Page — contra a cultura do sofrimento

Ellen Page esteve há dias em The Late Show. A nova série The Umbrella Academy (Netflix) era o pretexto do encontro com Stephen Colbert, mas a conversa acabou por ficar marcada pelo tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Page soube sustentar um discurso, de uma só vez emocionado e conciso, sobre a ideologia da administração Trump, as posições do vice-presidente Mike Pence e o modo como tais posições decorrem de uma postura cultural enraizada no ódio da diferença, procurando o sofrimento do outro — vale a pena ver e ouvir.

Weezer: memórias dos A-ha

O 12º álbum de estúdio dos americanos Weezer (o quinto auto-titulado) não é, convenhamos, um dos momentos mais requintados da sua discografia. Não pelo facto de propor "apenas" uma colecção de novas versões de temas que marcaram a carreira dos intérpretes originais (Tears for Fears, Eurythmics, Miachel Jackson, etc.). Antes porque tal opção se distingue por uma equívoca "fidelidade", tão versátil quanto frustrante.
Há coisas muito menos interessantes, é verdade. O certo é que, até mesmo quando recriam (?) um teledisco emblemático, os Weezer parecem satisfazer-se com o mais básico efeito copista, numa espécie de pós-modernismo simplista que poderia ostentar o subtítulo: covers for dummies.
Aqui fica a esforçada recuperação de Take on Me, dos noruegueses A-ha, um hino pop (com profusão de sintetizadores) do ano de 1984 cujo teledisco, apesar dos recursos digitais, exibe de modo esquemático aquilo que, no original [em baixo], era genuinamente criativo e exuberante.



A IMAGEM: Patrick Zachmann, 2018

PATRICK ZACHMAN
Novas escavações em Pompeia, Itália
Magnum, Outubro 2018

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

#MeToo [citação]

>>> (...) que o amor se sinta feliz de dizer "mulher" sem ser alvo da cólera de #MeToo; que se sinta feliz de dizer "homem" sem que se oiça berrar #MeTooToo.

BERNARD-HENRI LÉVY
Bloco-notas, 7 Jan. 2019

O Rato Mickey não entra em “Avatar”

Pixar, Marvel e Lucasfilm são estúdios de sucesso que passaram a pertencer ao império Disney; tal como, a partir de agora, a 20th Century Fox — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Fevereiro).

Que há de comum entre clássicos como O Pecado Mora ao Lado (1955), com Marilyn Monroe, ou o lendário Música no Coração (1965) e sucessos do século XXI como os novos episódios de Star Wars ou o recente Bohemian Rhapsody, evocando Freddie Mercury? Pois bem, todos têm chancela da 20th Century Fox, um dos nomes emblemáticos da história e da mitologia dos grandes estúdios de Hollywood.
E se o logotipo da Fox passasse a integrar o castelo de fantasia dos estúdios fundados por Walt Disney? Eis uma especulação provavelmente absurda, mas com forte motivação simbólica. Acontece que, em meados de 2018, o império Disney adquiriu a Fox por 71,3 mil milhões de dólares (cerca de 63 mil milhões de euros), sendo o final deste mês de Fevereiro apontado como data de integração de um estúdio no outro.
Na prática, o lendário clube dos “Big Six” de Hollywood vai ficar reduzido: os grandes estúdios (“majors”) passarão a ser apenas cinco (Paramount, Warner, Universal, Columbia e Disney). Mas o que está em jogo excede, e muito, o simbolismo histórico de tão excelsa galeria. Desde logo porque este processo de integração envolve muitas promoções, despromoções e despedimentos (segundo a imprensa especializada de Hollywood, há 4000 trabalhadores de diversos sectores da Fox que receiam perder os empregos); depois porque ninguém sabe como a Disney irá gerir o imenso e valiosíssimo património da Fox.
Uma coisa é certa: da produção à difusão, as dinâmicas internas da indústria de Hollywood vão mudar. E não apenas porque, por exemplo, projectos como as quatro sequelas de Avatar em que James Cameron está a trabalhar (com lançamentos agendados até 2015) foram gerados na Fox. O Rato Mickey não será integrado nos respectivos elencos, mas as suas formas de promoção e distribuição vão, por certo, ser repensadas.
A surpresa de tudo isto é muito relativa. Na verdade, as estratégias artísticas, tecnológicas e comerciais da Disney já pouco ou nada têm que ver com os conceitos em que foram gerados clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões (1937) ou Bambi (1942). Nos últimos anos, o estúdio dilatou o seu poder económico, global, por excelência, através da aquisição de três outros estúdios: Pixar (pioneiro na animação digital), Marvel Entertainment (produtor dos maiores sucessos na área dos super-heróis) e Lucasfilm (a casa original de George Lucas e da saga Star Wars).
Ponto fulcral em tudo isto: a Disney está há dois anos a preparar o lançamento da sua plataforma de streaming, denominada Disney+. Com abertura prevista para o próximo mês de Setembro, nos EUA, a Disney+ assume-se como concorrente directa da Netflix, ao mesmo tempo reforçando a presença da Hulu (de que a Disney, através da aquisição da Fox, passou a deter 60%). Resta saber se os responsáveis por todas estas mudanças, a começar por Bob Iger (presidente da Walt Disney Company), possuem ideias criativas que acompanhem o seu inquestionável talento de gestores.

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Maggie Rogers, opus 1

The next best thing?...
Maggie Rogers é uma daquelas revelações cuja frescura nasce de uma obstinada ligação a um passado cuja vitalidade se afirma sempre em linguagem do presente. Dito de outro modo: uma sensibilidade pop, rigorosa e depurada, aliada a um elaborado gosto coreográfico das canções, sem esquecer a concisão do fraseado, o peso específico de cada palavra.
Nasceu a 25 de Abril de 1994, em Easton, Maryland, e tornou-se conhecida através de Now That the Light Is Fading (2017), EP que incluía o hit Alaska, celebrizado graças a Pharrell Williams (que o incluiu numa master class na Universidade de Nova Iorque). Lança agora o primeiro álbum, Heard It in a Past Life, uma colecção de 12 temas cristalinos, desenhando um presente carregado de futuro — eis os telediscos de Alaska e Fallingwater, e ainda Light On, num registo de La Blogothèque, em Paris.






>>> Site oficial de Maggie Rogers.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

João César Monteiro — a memória dos filmes

O ciclo ‘Viva João César Monteiro’ permite-nos reencontrar a obra de um cineasta capaz de desafiar convenções e ideias feitas: começou no Porto, prolongando-se por Braga, Lisboa, Coimbra e Setúbal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Fevereiro).

Será que um dos problemas do cinema português é a sua ausência da memória colectiva dos portugueses? A pergunta pode atrair respostas muito contrastadas, porventura contraditórias. Mas todos estaremos de acordo sobre a necessidade de preservar essa memória. Aí está uma iniciativa que tenta corresponder a tal necessidade. Organizado pela Medeia Filmes e a Leopardo Filmes, o ciclo ‘Viva João César Monteiro’ é isso mesmo que está na sua designação: uma celebração da obra de um cineasta que marcou de forma indelével, não apenas a história do cinema português, mas os modos de pensar as suas grandezas e misérias.
O pretexto do evento é uma efeméride: falecido em 2003, João César Monteiro teria feito 80 anos no passado dia 2. O ciclo arrancou no dia 5 na cidade do Porto (Rivoli e Campo Alegre, dias 5 e 6). Segue-se Braga (Theatro Circo, dias 11 e 17), Lisboa (Monumental, 17 a 20), Coimbra (Teatro Académico Gil Vicente, 18) e Setúbal (Auditório Charlot, 21, 22 e 28; 1 de Março).
Conhecida a dimensão provocatória da obra do cineasta e também a sua vocação de polemista (foi, além do mais, um talentoso crítico de cinema), será salutar evitarmos qualquer processo de canonização dos seus filmes. Acima de tudo, importa contrariar um efeito de consagração que nos empurre para uma beatitude sem alma. Veja-se o que aconteceu em torno da figura de Manoel de Oliveira: depois de décadas de repúdio militante de muitos dos seus filmes, numa atitude quase sempre enraizada no desconhecimento dos próprios filmes, o seu falecimento, em 2015, desencadeou um generalizado processo de consagração como “mestre” que, no mínimo, soa a falso.
Ora, justiça seja feita, João César Monteiro nunca foi artista de suscitar unanimidades. Como é normal acontecer com os autores que têm a coragem de desafiar os limites da expressão cinematográfica, há vários dos seus filmes que nem sempre foram recebidos de forma entusiástica (incluindo pelo autor deste artigo).
Dito de outro modo: importa regressar ao convívio com o seu trabalho e percorrer os ziguezagues de uma trajectória que talvez se possa definir, globalmente, pela defesa de um realismo interior ao próprio cinema. Nada a ver com o naturalismo mediático que hoje prolifera, mais ou menos sustentado pelo pobre imediatismo dos telemóveis e as montagens aceleradas que proliferam na Internet. Nada disso. Antes um realismo que nasce da paixão pelo cinema como lugar de invenção de uma outra dimensão humana, talvez poética, sem dúvida inimiga da futilidade moral e do pensamento seguidista.
A exigência ética e estética do labor de João César Monteiro terá tido a sua expressão mais célebre no filme Branca de Neve (2000), adaptação “selvagem” de uma obra do escritor suíço Robert Walser (1878-1956). Como é sabido, a apresentação do texto de Walser aconteceu, na sua quase totalidade, sobre o ecrã a negro (tendo o filme a duração de 75 minutos). Permito-me relembrar que, na altura da estreia, escrevi que, desse modo, o filme “cria um maniqueísmo formal que ao fim de cinco minutos se torna redundante e previsível, isto é, que acaba por se atolar no seu próprio academismo.”
Apesar disso (ou precisamente por causa disso), importa acrescentar que o formalismo fácil de Branca de Neve nasce de uma revolta artística que, mais do que nunca, importa reconhecer e, pedagogicamente, compreender: trata-se de questionar o triunfo quotidiano de imagens (e sons!) convencionais e redundantes que, em última instância, menosprezam a inteligência do próprio espectador.
Curiosamente, em alguns momentos emblemáticos, através dos sinais dessa revolta, João César Monteiro lidou com uma questão que, com o passar dos anos, se tornou inerente a muito do cinema mais interessante que se vai fazendo nas mais diversas geografias e culturas. Que questão é essa? Pois bem, a discussão sempre em aberto das diferenças entre “documentário” e “ficção”, acrescida da permanente possibilidade de contaminação criativa das respectivas linguagens.
Três exemplos podem ajudar-nos a situar tal questão:
— SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1969). É o primeiro título da filmografia do realizador e, a meu ver, um dos mais depurados objectos que ele criou. Encontramos, aqui, a fragilidade de um típico home movie sobre a poetisa e o seu espaço familiar, fragilidade que se transfigura em verdade dos instantes e dos gestos — completamente realista, insolitamente cósmico.


— VEREDAS (1978). Historicamente, é muitas vezes citado como um “descendente” do admirável Trás-os-Montes, realizado dois anos antes por António Reis e Margarida Cordeiro. Haverá alguma justificação para isso, quanto mais não seja porque ambos os filmes ilustram um período de grande (e fascinante!) convulsão da produção portuguesa. Seja como for, João César Monteiro procura algo de muito particular: trata-se de reencenar o património lendário do país para expor uma violência interior que, simbolicamente, nos remete para o nosso presente — cinema político, no sentido mais radical que a designação pode envolver.
— RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (1989). Tal como em alguns filmes posteriores (incluindo o derradeiro Vai e Vem, de 2003), João César Monteiro assume-se como actor principal, criando uma personagem (João de Deus) que é, de uma só vez, uma projecção sarcástica do seu cepticismo existencial e um ser tendencialmente burlesco que se dá bem com o olhar clínico da câmara de filmar. Por alguma razão perpassa aqui uma sugestão de cumplicidade com a figuração vampiresca do clássico Nosferatu (1922), de F. W. Murnau. Talvez que João César tenha sido um criador que viveu o cinema como supremo gesto de vida, isto é, empreendimento capaz de integrar o silêncio da morte. Estranhamente ou não, isso confere aos seus filmes, mesmo os menos conseguidos, uma alegria alheia ao jogo medíocre dos nossos cinismos.

25 canções de Madonna

Na sua série 'Deep Cuts', a Apple Music acaba de propor uma lista dedicada a Madonna. São 25 canções de diversos álbuns, de Like a Prayer (1989) a Rebel Heart (2015), passando por antologias como Something to Remember (1995) ou Celebration (2009).
Evitando o espírito convencional de um "best of", trata-se de reunir uma série de referências que ficaram mais ou menos secundarizadas pelo sucesso de outros temas incluídos nos mesmos registos. Exemplos significativos: Act of Contrition, um exercício confessional de ousada estrutura, última faixa de Like a Prayer; Sky Fits Heaven, uma delicada deambulação poética do álbum Ray of Light (1998); ou ainda o belíssimo X-Static Process desse álbum assombroso, quase sempre esquecido, que é American Life (2003) — eis X-Static Process num registo da MTV, em 2003.

domingo, fevereiro 10, 2019

A agenda política dos Pet Shop Boys

O tema não está na moda. Que tema? A apropriação artística do discurso político. Porquê? Porque tendemos a confundir os gestos políticos com a ocupação da paisagem televisiva por soundbytes mais ou menos efémeros.
Pois bem, Agenda, o novo EP dos Pet Shop Boys reflecte, precisamente, a agenda política de quem sempre concebeu o trabalho musical como um exercício de uma só vez lírico e pedagógico que, embora evitando encerrar-se num discurso panfletário, não abdica de olhar o mundo à sua volta. Neil Tennant e Chris Lowe oferecem-nos assim, quatro canções ("três satíricas e uma muito triste", no dizer de Tennant) que inventariam temas trágicos do nosso viver e, sobretudo do nosso mal viver. A saber:
Give Stupidity A Chance, sobre a mediocridade de alguns líderes políticos;
On Social Media, expondo as simulações e ilusões da sociedade em rede;
What Are We Going To Do About The Rich, denunciando a associação do dinheiro à insensibilidade humana;
The Forgotten Child, observando o vulnerável lugar da infância num mundo sem compaixão.
Aqui estão as novas canções (que não farão parte do álbum que o duo prepara para o Outono), devidamente ilustradas pela concisão das suas palavras.








>>> Site oficial dos Pet Shop Boys.

Albert Finney (1936 - 2019)

Com a morte de Albert Finney (dia 7 de Fevereiro, em Londres, contava 82 anos), desaparece um dos nomes maiores do moderno cinema britânico — membro da Royal Shakespeare Company, a sua sofisticada formação teatral transfigurou-se em filmes marcantes, quer britânicos, quer americanos, incluindo Charlie Bubbles/Um Homem e a sua História (1968), única produção cinematográfica que dirigiu.
Celebrizado por Tom Jones (1960), adaptação picaresca do romance de Henry Fielding por Tony Richardson, participou das convulsões da "nova vaga" britânica, distinguindo-se através de uma versatilidade enraizada numa capacidade invulgar de expor as mais secretas nuances emocionais do comportamento humano.
Ei-lo em cinco momentos modelares da sua trajectória artística.

>>> Sábado à Noite, Domingo de Manhã (1960), de Karel Reisz

>>> Ao Cair da Noite (1964), de Karel Reisz

>>> Charlie Bubbles/Um Homem e a sua História (1968), de Albert Finney

>>> Debaixo do Vulcão (1984), de John Huston

>>> Erin Brockovich (2000), de Steven Soderbergh

>>> Obituário no jornal The Guardian.