Agora que os estúdios Warner e Paramount foram comprado pela Skydance, surgem as interrogações sobre a futura gestão da sua fabulosa herança industrial e artística — este texto foi publicado na edição de novembro da revista Metropolis.
De onde vem o clássico Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille? Ou, já agora, a versão de 1923, ainda no período mudo, que DeMille também realizou? E quais as origens de produção de Wings (1927), primeiro título consagrado com o Oscar de melhor filme? E O Padrinho (I, II e III)? E Os Salteadores da Arca Perdida (1981)? E todas as missões impossíveis de Tom Cruise?
Mesma questão para The Jazz Singer (1927), pioneiro da chegada do som às salas de cinema. E também para uma longa lista de clássicos que inclui Casablanca (1942), Um Eléctrico Chamado Desejo (1951), Fúria de Viver (1955) e o primeiro Batman (1989) da nova era de super-heróis. Ou ainda Matrix (1999), Mystic River (2003) e, em boa verdade, quase toda a filmografia de Clint Eastwood. Sem esquecer os dois títulos de Joker, lançados em 2019 e 2024.
As respostas são simples. Se as nossas memórias falharem, podemos encontrá-las nos livros ou na infinita galáxia da Internet: no primeiro grupo estão produções da Paramount Pictures, no segundo da Warner Bros. O que suscita uma observação cândida que, paradoxalmente ou não, atrai alguma perversidade: agora que a Paramount (que já existia como Paramount Skydance) e a Warner passaram a integrar a Skydance Corporation, as suas designações oficiais desapareceram. Como? Assim o decidiu David Ellison, patrão da Skydance, que pagou 110 mil milhões de dólares (contas redondas: 99 mil milhões de euros) para consolidar a fusão dos dois estúdios.
Tudo começou com uma hipótese de negócio — a aquisição da Warner pela Netflix — que, sintomaticamente, suscitou muitos protestos e resistências na comunidade de Hollywood. Resumindo: ao longo de mais de um ano, com árduas análises das nuances financeiras de tal compra e especulações pouco optimistas sobre a preservação da identidade artística de cada estúdio, o imbróglio manteve-se até que a Skydance apareceu numa das esquinas do negócio, acabando por prevalecer na sua solução.
O que, convenhamos, abre um leque de interrogações que estão para lá do nome das “coisas”. Ou melhor, até que ponto (e, sobretudo, de que maneira) esse nome vai corresponder a uma visão que saiba, não apenas preservar, mas sobretudo valorizar um património de múltiplas preciosidades? Será que, um dia destes, as novas cópias de Laranja Mecânica (1971), “por acaso” um filme Warner, vão abrir com o logotipo da Skydance? Os novos espectadores ainda terão alguma memória para poderem entender o que é, e de onde vem, o filme que estão a descobrir? Com um misto de angústia e tristeza, vamos sentir ainda mais a falta de Stanley Kubrick.









