quinta-feira, fevereiro 12, 2026

O som e a fúria de Kristen Stewart

Thora Birch e Imogen Poots: um filme visceralmente feminino

A estreia de Kristen Stewart na realização é um acontecimento realmente fora de série: A Cronologia da Água adapta um livro autobiográfico de Lidia Yuknavitch, recriando os prodígios de um cinema intimista, à flor da pele — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 janeiro).

Uma semana depois da estreia de A Grande Eleanor, primeira longa-metragem de Scarlett Johansson, eis que chega às salas o primeiro filme de fundo de outra actriz, Kristen Stewart (nascida em Los Angeles, em 1990). Chama-se A Cronologia da Água e o menos que se pode dizer é que estamos perante uma proeza narrativa de rara delicadeza emocional.
Stewart escreveu o seu argumento a partir do livro homónimo de Lidia Yuknavitch (nascida em São Francisco, em 1963), publicado em 2011, uma memória autobiográfica que parte dos muitos, e muito cruéis, episódios de abuso sexual de que Lidia foi alvo por parte do pai. A autora viveu a infância e a adolescência num espaço familiar dominado pelo autoritarismo paterno, com uma mãe que não conseguiu vencer o medo e uma irmã mais velha, Claudia, que se libertou mais cedo do que Lidia.
Não se trata, longe disso, de relançar o cliché dramático da vítima que encontra a “redenção” num processo militante de libertação. Stewart assina um filme visceralmente feminino, sem que nada no seu trabalho procure a facilidade de um discurso “militante”, supostamente universal. À maneira dos grandes melodramas clássicos centrados em admiráveis figuras femininas (poderíamos citar a inspiração moral de George Cukor ou Vincente Minnelli), este é um mergulho radical num universo de sofrimento que nunca se desfaz numa generalização abstracta.
Durante muito tempo, Lidia deambula como uma marioneta dos seus próprios traumas. O sexo vivido como um eterno assombramento daquelas memórias, a par do consumo de álcool, vai estilhaçando a sua personalidade. Tudo se passa como se o “eu” fosse uma coleção de ruínas impossíveis de reconstruir — a electrizante montagem do filme é um espelho formal disso mesmo. O que ela nunca perde é o gosto da natação, ou melhor, a paixão da água — a água como matéria íntima, sensual, literalmente imersiva, que a salva do vazio total. Nesta perspectiva, a “cronologia” a que o título se refere envolve o desejo de uma paradoxal libertação. É ela que o diz: “Estou a aprender a viver em terra.”
Como é que Stewart encena tudo isto? À flor da pele. Quase não há planos gerais (das paisagens, das casas ou até mesmo de cada divisão dessas casas), já que tudo acontece em grande plano, em imagens de uma beleza crua, registadas com a clássica película de 16mm, numa prodigiosa direção fotográfica de Corey C. Waters.
A presença obsessiva dos rostos, a liquidez dos olhos, os cabelos desgrenhados, as lágrimas (ou as gotas da piscina) que deslizam na pele, o vermelho do sangue, uma pupila a encher o ecrã... Tudo nos fala de um carrossel de dores interiores que o corpo, através de uma poesia trágica, torna exteriores — o cinema renasce, assim, como coisa quase palpável.

A herança de Faulkner

Escusado será dizer que A Cronologia da Água existe também como uma bênção para os seus intérpretes. No papel de Lidia, a composição de Imogen Poots possui a harmonia secreta de uma dádiva como há muito não víamos num ecrã de cinema — a sua ausência na temporada de prémios que está a decorrer (que, provavelmente, se repetirá nas nomeações para os Oscars) tem qualquer coisa de escandaloso. No papel de Claudia reencontramos a notável Thora Birch (que descobrimos em 1999, em Beleza Americana, de Sam Mendes) e há ainda a inusitada mas brilhante composição de Jim Belushi na personagem do escritor Ken Kesey (autor de Voando sobre um Ninho de Cucos cujas aulas, na Universidade de Oregon, foram frequentadas por Lidia).
Porque é que Lidia começou a escrever? Como ela diz a Kesey, para se aproximar de William Faulkner e escrever o “seu” O Som e a Fúria. A ambição, mesmo utópica, define um desejo radical de celebração do gesto artístico que, por fim, encontra a sua correspondência formal na realização de Kristen Stewart. Não para “reproduzir” a vida, antes criando uma experiência visual e sonora que, fazendo da estética um acto de amor, se enreda com tudo o que foi vivido. E tudo o que não será possível esquecer.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Taxi Driver: 50 anos
* SOUND + VISION Magazine (14 jan.)

Taxi Driver, filme-culto de Martin Scorsese, está a fazer 50 anos. No nosso próximo Magazine, na FNAC, propomo-nos recordar Robert De Niro, a música de Bernard Herrmann e toda uma época gloriosa do cinema americano.

>>> FNAC Chiado, dia 14 fevereiro (17h00).

A IMAGEM: Geof Kern, 2016

GEOF KERN
Blue Skies
2016

Jessie Buckley canta Sinead O'Connor

Jessie Buckley / ELLE

Jessie Buckley é uma força da natureza — descubram-na em Hamnet, o filme que lhe vai dar um merecido Oscar... O seu talento exprime-se também no canto, como podemos ouvir e ver nesta homenagem a Sinead O'Connor, em 2023, produzida pela RTÉ (Rádio Televisão da Irlanda) — a sua versão de Troy é notável.
 

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Bad Bunny: 13 minutos no Super Bowl

Bad Bunny

O facto de Donald Trump ter condenado o espectáculo de Bad Bunny no Super Bowl (8 fev.) não basta para o transformar num acontecimento. O que se passa é diferente, e não podemos perder a perspectiva que nos faz compreender a respectiva diferença. A saber: face a qualquer acontecimento que adquire o essencial da sua projeção social (e, neste caso, também política) através dos ecrãs televisivos, Trump "emerge" numa postura de juiz cuja autoridade, supostamente, anula todas as diferenças do mundo que ele não tolera. Ora, justamente, acontece que Bad Bunny celebrou uma América (no duplo sentido de nação e continente) de múltiplas e festivas diferenças — vale a pena ver os 13 minutos da sua performance.

A segunda morte de Hollywood

A possível aquisição dos estúdios Warner pela Netflix está longe de ser uma mera questão de tesouraria. O que está em jogo envolve, por um lado, o mais nobre património de Hollywood e, por outro lado, a boa (ou muito má...) coexistência das plataformas com o circuito clássico das salas de cinema — este texto foi publicado na revista Metropolis (dezembro 2025).

Al Jolson no primeiro filme sonoro, The Jazz Singer. James Cagney, Paul Muni e as histórias de gangsters. Looney Tunes, emblema universal dos desenhos animados. Casablanca. Um Eléctrico Chamado Desejo. My Fair Lady. Bonnie e Clyde. A Laranja Mecânica. O Exorcista. Quase toda a filmografia de Clint Eastwood. O Batman de Tim Burton. O Batman de Matt Reeves... E também o filme-acontecimento de 2025, Batalha Atrás de Batalha...
A lista nem chega a ser um resumo — trata-se apenas de uma gota de água do imenso oceano artístico e industrial que é a história dos estúdios Warner Bros., fundados há mais de um século (4 de abril de 1923) por Harry, Albert, Sam e Jack Warner.
Nostalgia? Longe disso: antes uma avalanche de perturbantes interrogações sobre o presente e o futuro dos filmes. Dito de outro modo: o anúncio, a 5 de dezembro, da aquisição da Warner pela Netflix caíu como uma bomba, não apenas em todas as frentes da produção dos EUA, mas, sem exagero, a nível global. Alguns dias depois, para baralhar ainda mais a situação, a Paramount veio dizer que prepara uma oferta hostil...
Trata-se de um negócio de 83 mil milhões de dólares, quer dizer, 71,27 mil milhões de euros. A sua conclusão legal exigirá um mínimo de 12 meses, dependendo da aprovação das entidades reguladoras, Seja como for, do lado europeu, a UNIC (União Internacional de Cinemas), através da sua CEO, Laura Houlgatte, não podia ser mais contundente: “Se um estúdio desaparece, isso significa inevitavelmente que as salas vão ter menos filmes para exibir às suas audiências, provocando uma redução de receitas, encerramentos de cinemas e perdas de postos de trabalho na indústria.”
Entretanto, nas páginas da Variety, o crítico Owen Gleiberman reflecte as inquietações de muitas personalidades e organizações de Hollywood, escrevendo um artigo intitulado: “A Netflix está a tentar comprar a Warner Bros. ou destruí-la?”
São conhecidas as muitas resistências da Netflix em relação ao circuito clássico das salas (gerando, por exemplo, uma tensão permanente com o Festival de Cannes e as entidades francesas de distribuição/exibição). As suas práticas continuam a desafiar o sistema de Hollywood que, em boa verdade, tem vivido o último meio século sob o efeito de diversas ameaças estruturais.
Algo morreu desse sistema quando, em 1975, Tubarão (grande filme... não é isso que está em causa) inaugurou a idade dos “blockbusters”, alterando de forma drástica o funcionamento do mercado global. Agora, o gigante do streaming corre o risco de entrar para a história como o carrasco de tal sistema, arrastando consigo muitas empresas de todo o planeta. Que será de nós, espectadores? A expressão “ir ao cinema” vai desaparecer do nosso vocabulário?

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Anna Calvi + Iggy Pop

A inglesa Anna Calvi tem um novo EP, Is This All There Is?, com lançamento agendado para 20 de março. São quatro temas, com colaborações de luxo: Iggy Pop, Perfume Genius, Laurie Anderson e Matt Berninger. Eis o teledisco de God’s Lonely Man, com Iggy Pop — a realização é de Luigi Calabrese.
 

Taylor Swift, Opalite

Na companhia de um elenco de vedetas, incluindo Graham Norton, Cillian Murphy e Domhnall Gleeson, Taylor Swift protagoniza e realiza o teledisco de Opalite, o segundo de temas do seu álbum The Life of a Showgirl. Recuperando sinais da iconografia da década de 1990 (a começar pelo anúncio televisivo de uma poção mágica...), eis uma celebração festiva de uma cultura pop em que a tradição persiste como matéria ambígua, porque sujeita a permanentes transfigurações formais e simbólicas — com permanente sentido de auto-ironia.
 

sábado, fevereiro 07, 2026

Inteligência Artificial, ou uma história antiga

[ Pascaline ]

De que falamos quando falamos de Inteligência Artificial? Independentemente dos futuros, redentores ou demoníacos, para que a IA nos convoca, falamos (devemos falar) de uma história longa, não linear, impossível de conhecer através dos determinismos que pululam no território mediático em que, de uma maneira ou de outra, circulamos. Lembremos, por isso, o génio de Blaise Pascal (1623-1662).

Em 1642, Blaise Pascal tinha 19 anos e preocupava-se com o labor intenso e cansativo do pai enquanto responsável pelos tribunais fiscais (“Cours des Aides”) da cidade de Rouen, na Normandia — as contas que o seu trabalho exigia eram demoradas e complexas, podendo atrair erros que, mesmo por mera distração, viciavam de modo comprometedor a contabilidade oficial. Para ajudar o pai, Pascal criou um dispositivo mecânico, uma espécie de caixa metálica com um sistema de rodas dentadas, de nome Pascaline, que entrou para a história como uma dupla revolução: foi um objecto pioneiro na história das máquinas de calcular e, em boa verdade, ilustra uma genuína aplicação de Inteligência Artificial (IA), como tal surgindo inscrito nas “timelines” da sua história. Para nos recordar, assim, uma verdade rudimentar: as questões que enfrentamos, em particular as que cruzam “arte” e “ciência”, não nasceram quando demos conta da sua existência.
 
* * * * *
* Este fragmento pertence a um texto publicado na edição nº 5 da revista gray-film, dirigida por José Machado. É uma publicação de acesso gratuito, disponível na plataforma Issuu.

Macy Gray na BBC

Saudades de Macy Gray? Ei-la, há dias, no Piano Room da BBC2 — este tema irresistível, I Try, uma peça exemplar de R&B, foi o single de maior impacto do seu álbum de estreia, On How Life Is. Quando? Em 1999!