sexta-feira, outubro 02, 2026

Patient Zero, o video

Eis uma curiosa coincidência. A saber: em paralelo com a estreia de Digger, de Alejandro G. Iñárritu, surge o teledisco de Patient Zero, de Taylor Swift (também realizadora) — são, de facto, dois trabalhos singulares que, através das suas diferenças, espelham o imenso talento de um director de fotografia: Emmanuel Lubezki (n. 1964). Com Taylor Swift, para encenar a sua farsa de amor e traição, estão Dakota Johnson e Colin Farrell.

Alexandre Desplat compôs a música de O Veredicto Social

O novo filme de Aaron Sorkin, The Social Reckoning (O Veredicto Social, 8 outubro) tem música original do grande Alexandre Desplat. Eis o tema-título, além do mais com uma prodigioa apresentação gráfica.
 

Phoebe Bridgers / Nirvana

Phoebe Bridgers tem um novo álbum, Lost Weekend. De qualquer modo, há pouco mais de um mês, na sua passagem pelos estúdios da BBC Radio 1, aconteceu um momento muito especial com uma imaculada memória rock: Lithium, clássico dos Nirvana, aqui com a guitarra de Christian Lee Hutson.
 

quinta-feira, outubro 01, 2026

O cão de Brad Pitt merece um Oscar

Brad Pitt reaparece em Heart of the Beast como intérprete de um veterano que, na solidão das paisagens do Alaska, procura reencontrar alguma harmonia. Nos desafios que enfrenta, conta com o seu cão como único aliado — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 setembro).

As ruidosas tropelias dos super-heróis da Marvel & afins têm contribuído para que as novas gerações de espectadores percam o gosto da aventura. Dito de outro modo: têm favorecido a confusão do espírito aventureiro com a acumulação de efeitos visuais em que, cena sim, cena não, há pelo menos um planeta a explodir... Pior um pouco: a banalização dos olhares vai a par de um apagamento das memórias clássicas da aventura. Heart of the Beast - Heróis Inseparáveis não conseguirá, por certo, livrar-nos de tal tormento, nem ficará nos anais da história do cinema como uma obra-prima. O seu mérito é simples e, nestes tempos de alienação narrativa, pedagógico. A saber: a aventura recupera algo da sua dimensão humana.
Humana e canina, convém acrescentar. Esta é a história de James Belmont, veterano das Forças Especiais que vive a sua reforma numa gloriosa solidão partilhada... com Odin, o seu cão. Viajando numa avioneta, procura refúgio (e mais solidão) na monumental paisagem do Alaska, aliás filmada com a atenção e a elegância que lhe conferem o valor de uma verdadeira personagem. A aventura será menos a da conquista de um cenário acolhedor e mais, muito mais, o confronto com a crueldade que a natureza pode conter.
David Ayer, o realizador, reencontra Brad Pitt (com quem já rodara o filme de guerra Fúria, 2014) para concretizar uma odisseia de pura resistência que se revela, em última instância, uma história de cumplicidade, dedicação e fidelidade entre James e Odin. Daí uma dimensão cada vez menos frequente no cinema (dito) de acção. Chamemos-lhe a atenção à duração dos gestos — da metódica construção de um acampamento até à travessia de um tronco de árvore sobre águas turbulentas, Heart of the Beast é um filme que, nos melhores momentos, sabe valorizar os detalhes desses gestos, valorizando também os seus intérpretes.
Brad Pitt volta a dar mostras de um sofisticado minimalismo emocional, por vezes comovente, na relação com Odin. Quanto a Odin, o seu tratamento cinematográfico é o de uma genuína personagem — como se fosse um secundário a merecer atenção para os Oscars. Isto porque, mesmo através dos obrigatórios momentos de humor, Ayer sabe que a tradição do conto de aventuras envolve a capacidade de conferir a mesma importância narrativa aos humanos e aos animais — a herança de Walt Disney assim o diz.

O terror que vem dos ecrãs
[Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma]

Gillian Anderson e Hannah Eibinder (em fundo): ficção ou realidade?

Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma foi uma das revelações do último Festival de Cannes: com elementos do género de terror, a realizadora Jane Shoebrun propõe uma sofisticada reflexão sobre o poder dos ecrãs e das suas imagens — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 setembro).

Revelado na secção “Un Certain Regard” do último Festival de Cannes, Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma, escrito e realizado por Jane Schoenbrun (nascida em Nova Iorque, em 1987), tem um não sei quê de objecto de culto. Eis um filme de singulares relações com o género de terror que, na sua ousadia, corre o risco de afastar os espectadores viciados em maniqueísmos de “gosto”: os anti-terror limitar-se-ão a confirmar o seu pessimismo; os fanáticos poderão dizer que as regras não são estas...
Resta saber se conseguimos envolver-nos com o filme evitando tais maniqueísmos. Mesmo com imagens típicas do terror contemporâneo (incluindo algumas situações salpicadas de abundante tinta vermelha), talvez nem sequer faça muito sentido olharmos o filme apenas como uma variação sobre as regras, sobretudo os lugares-comuns, do actual género de terror. Para percorrermos a sua sedutora estranheza, valerá a pena pensá-lo para lá do próprio género.
Este é, afinal, um filme sobre um filme (de terror). Esquematizando, começamos por conhecer Kris Williams (Hannah Eibinder), cineasta de sensibilidade queer, obcecada por Camp Miasma, filme de terror que viu ainda criança e de que está empenhada em concretizar uma sequela. Ao visitar a actriz que, muito jovem, protagonizou o filme, de seu nome Billy Presley (Gillian Anderson, numa composição que transfigura a sua pose cerebral na série Ficheiros Secretos), Kris depara-se com memórias que, num certo sentido, “duplicam” a sua visão de Camp Miasma — até porque Billy vive nos cenários em que o filme foi rodado, cenários em que o assassino do próprio filme parece sobreviver...
Parece confuso. E é, de facto. Entenda-se: não pelas peripécias da história do filme (ou do filme dentro do filme), antes porque o que está em jogo é, em última instância, o efeito de Camp Miasma na visão e, mais do que isso, nas visões que assombram Billy e Kris — tais visões irão contaminar o seu diálogo, a sua aproximação intelectual e, por fim, os seus desejos sexuais. Aquilo que interessa a argumentista/realizadora é a relação das personagens com o que vêem no ecrã, a ponto de a vida ficcionada se transfigurar em vida vivida.
Nesta perspectiva, Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma assume-se como um verdadeiro ensaio, de uma só vez racional e paródico, sobre uma tragédia dos nossos dias. A saber: a dependência das imagens — e, mais especificamente, dos ecrãs — como entidades perversas, por vezes aterrorizantes, que determinam todas as relações humanas, das trocas quotidianas à entrega sexual, passando, claro, pelo estatuto social do cinema.

Um novo crepúsculo

Schoenburn não esconde que há uma genuína dimensão de tese no seu filme, integrando inequívocas citações visuais de filmes como Psico (Alfred Hitchcock, 1960) ou Videodrome (David Cronenberg, 1983) — são referências que, escusado será sublinhá-lo, também escapam às rotinas do cinema de terror. Sem esquecer que há um paralelo explícito entre o abandono de Billy naquele cenário soturno e a solidão da personagem de Gloria Swanson no clássico Sunset Boulevard/Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950), ela que surgia como símbolo terminal do classicismo de Hollywood.
Ainda segundo Schoenburn, convém acrescentar que Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma conclui uma trilogia sobre ecrãs (“Screen Trilogy”) iniciada com as suas duas primeiras longas-metragens: We're All Going to the World's Fair (2021, passou no MotelX desse ano) e I Saw the TV Glow (2024) — o primeiro retratando o pesadelo de uma adolescente que corresponde a um apelo funesto do seu computador: o segundo centrado num rapaz e uma rapariga, estudantes, que viverão para sempre assombrados por uma série televisiva descoberta na adolescência. Estamos perante contos morais sobre o poder maligno que pode habitar os ecrãs que consumimos — nas nossas sociedades “liberais”, o assunto é tabu, mas é aí que reside o verdadeiro terror.

The Rolling Stones, Mr. Charm

Alexander Skarsgård lidera um elenco em que também encontramos o nome de Sara Sampaio, todos sob a direção nervosa e concisa de Henry Scholfield. A meio caminho entre um musical country e uma versão kitsch de Tarantino, aí está Mr. Charm, o novo teledisco dos Rolling Stones.
 

sábado, setembro 26, 2026

Marina Vlady (1938 - 2026)

Deux ou Trois Choses que Je Sais d'Elle (1967)

Morreu Marina Vlady, actriz discreta, de presença tão luminosa quanto enigmática, cujo período de maior glória terá sido a década de 1960. Foi nesses anos que ganhou o prémio de melhor actriz, em Cannes, com O Leito Conjugal (1963), de Marco Ferreri, tendo aido também dirigida por Orson Welles e Jean-Luc Godard, respectivamente em As Badaladas da Meia-Noite (1965) e Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela (1967). Eis o trailer do filme de Godard, apelando a um valor que, ontem como hoje, a barbárie cultural continua a menosprezar. A saber: o silêncio.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Taylor Swift, Patient Zero

The Life of a Showgirl tem uma sequela... Taylor Swift decidiu fazer um encore, devidamente apelidado de The Life of a Showgirl: The Encore. O primeira novidade, Patient Zero, aí está: um amargo e doce conto moral sobre as atribulações de uma paixão que e desmoronou — pop, bien sûr.

quarta-feira, setembro 23, 2026

John Coltrane, 100 anos

[ Wikipedia ]

John Coltrane nasceu no dia 23 de setembro de 1926 — faz hoje 100 anos. Apesar da sua vida breve (faleceu no dia 17 de julho de 1967, contava 40 anos), o seu legado envolve, não apenas momentos emblemáticos da história do jazz, mas também uma ideia de liberdade criativa que faz com que cada um desses momentos não se esgote num "movimento" ou numa "tendência", antes celebrando uma permanente travessia das fronteiras imaginárias de qualquer prática artística.
Escutemos o seu saxofone num concerto na Bélgica, em 1965, com este alinhamento: Vigil, Naima e My Favorite Things — com ele estão McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria).