sábado, maio 02, 2026

Philip Glass
SOUND + VISION Magazine [hoje, dia 2]

Celebramos os 50 anos da ópera Einstein on the Beach, ao mesmo tempo evocando a multifacetada obra de Philip Glass — são memórias musicais, teatrais e cinematográficas.

>>> FNAC Chiado — 2 maio (17h00).

sexta-feira, maio 01, 2026

O Massacre de Gilles de Rais no YouTube

O Massacre de Gilles de Rais, de Juan Branco, está no YouTube. Filme de produção marginal, quanto mais não seja pela sua austeridade, prossegue, assim, a sua saga colocando-se no centro da corrente (de imagens e sons) em que vivemos — eis o link.
 

sexta-feira, abril 24, 2026

Piotr Anderszewski toca Brahms

[ Gramophone ]

O pianista polaco Piotr Anderszewski encara as últimas composições de Johannes Brahms como acontecimentos que desafiam as certezas das estruturas e as nuances das melodias. Aí está a magnífica ilustração disso mesmo com Brahms: Late Piano Works [Warner] — das 6 Peças para Piano, Op. 118, eis o No. 2, Intermezzo.

segunda-feira, abril 20, 2026

Morreu Nathalie Baye,
actriz tão talentosa quanto discreta

[ Libération, 20 abril ]

Actriz francesa de notável subtileza e versatilidade, Nathalie Baye trabalhou sob a direção de François Truffaut, Jean-Luc Godard e Steven Spielberg. Faleceu em Paris, contava 77 anos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 abril).

A actriz francesa Nathalie Baye faleceu em Paris, na sexta-feira, dia 17 — contava 77 anos. A notícia foi divulgada pela sua filha, Laura Smet, também actriz, nascida da sua relação com Johnny Hallyday.
A sua formação artística foi fortemente influenciada pelos pais, Claude Baye and Denise Coustet, ambos pintores. Estudou bailado e, em boa verdade, a representação acabou por surgir como uma segunda opção que, em pouco tempo, se tornaria uma escolha irreversível — primeiro nos palcos, depois nos filmes. Começou por se desatacar em A Noite Americana (1973), de François Truffaut, um retrato dos bastidores da produção de um filme — Bayer surgia como a assistente do realizador, interpretado pelo próprio Truffaut.
O seu imenso talento foi-se afirmando através de papéis com componentes dramáticas muito contrastadas, fazendo valer a sua subtileza e versatilidade. Em termos mediáticos, manteve-se como uma figura relativamente discreta, embora muito conhecida e respeitada, como o provam os quatro Césares que ganhou. Eis cinco momentos emblemáticos da sua filmografia de mais uma centena de títulos.

A VIDA ÍNTIMA DE UM CASAL (1974)
Primeiro grande papel dramático de Nathalie Baye, contracenando com Philippe Léotard (na altura seu companheiro). Sob a direção de Maurice Pialat, somos projectados num universo familiar contaminado pela morte iminente da mãe da personagem de Léotard — exemplo extremo e fascinante de um realismo radical, sem tréguas.


O QUARTO VERDE (1978)
De novo sob a direção de François Truffaut, e também com Truffaut no papel central, Nathalie Baye interpreta uma figura incauta que descobre um homem que construiu um verdadeiro templo de adoração da sua falecida mulher — são fantasmas de vida, morte e desejo tratados numa “mise en scène” de infinito pudor, com a música sinfónica de Maurice Jaubert.


SALVE-SE QUEM PUDER (1980)
A partir de uma pequena galeria de personagens envolvidas em frágeis laços familiares e profissionais, Jean-Luc Godard assinava um filme genuinamente revolucionário, tanto pela visão depurada de novas relações humanas, como pela reinvenção das relações tradicionais entre imagem e som. Nathalie Baye arrebatou aqui o seu primeiro César, contracenando com Jacques Dutronc e Isabelle Huppert.


APANHA-ME SE PUDERES (2002)
A par de outras actrizes francesas, como Catherine Deneuve ou Isabelle Huppert, Nathalie Baye nunca "conquistou” Hollywood, mas bastaria este filme de Steven Spielberg para recordarmos o capítulo americano da sua carreira. Baye assume a personagem da mãe de um lendário vigarista, interpretado por Leonardo DiCaprio, num registo em que a crueza do drama se cruza com o absurdo do burlesco.


LAURENCE PARA SEMPRE (2012)
Foi um título decisivo na projeção internacional do jovem realizador canadiano Xavier Dolan (então com 23 anos). No seu centro descobrimos a personagem de Laurence, interpretado por Melvil Poupaud, protagonista de uma existência capaz de desafiar os padrões tradicionais da sexualidade — e também do romantismo. Nathalie Baye interpreta a mãe de Laurence.

domingo, abril 19, 2026

Madonna, I Feel So Free

Com lançamento agendado para 3 de julho, o novo álbumn de Madonna, Confessions II, já tem um single: I Feel So Free. Neste mundo material, eis que reencontramos a celebração imaterial da dança — passado e futuro enlaçados no presente.
 

sábado, abril 18, 2026

Falar [citação]

>>> ... falar é produzir um produto que vai ser oferecido num mercado...

Antenne 2
02/12/1982

sexta-feira, abril 17, 2026

Coachella, The Strokes

Com um novo álbum para ser lançado em junho, The Strokes estiveram em Coachella — eis a canção The Adults Are Talking, do álbum The New Abnormal (2020).
 

Avé Maria do cinema

Ryan Gosling a viver o seu "encontro imediato do terceiro grau"

Subitamente, voltamos a acreditar no poder encantatório das aventuras de ficção científica. O filme Projecto Hail Mary centra-se numa missão para salvar o planeta Terra, com um herói, interpretado por Ryan Gosling, que é um astronauta relutante — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 março).

Que memórias guardamos dos filmes de super-heróis em que a Terra está à beira da destruição, sendo necessário chamar algum herói (super, naturalmente) para garantir que o planeta ficará disponível para as obrigatórias sequelas? São memórias saturadas de muitas coisas a explodir, acompanhadas por sons ensurdecedores... Será possível partir de uma situação semelhante, recuperar o espírito clássico da ficção científica e, já agora, também o gosto de contar histórias fantásticas? A resposta é afirmativa: aí está o delicioso, inesperadamente poético, Projecto Hail Mary, com Ryan Gosling enredado em múltiplas atribulações para... salvar o planeta Terra!
Pensamos em 2001: Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) e na saga dos astronautas a caminho de Júpiter. Somos também levados a evocar o clima de inquietação da tripulação de Alien – O 8º Passageiro (o primeiro da série, realizado por Ridley Scott em 1979). Acontece que a personagem de Ryland Grace, o astronauta interpretado por um Ryand Gosling de sofisticado minimalismo, segue também numa nave, mas não se recorda da sua missão. Literalmente: vêmo-lo a acordar de um sono induzido e muito prolongado (a longa barba é um sinal esclarecedor), não sabendo o que está ali a fazer, tanto mais que já não tem ninguém para o ajudar (os dois companheiros de viagem estão mortos).
A enumeração de tais peripécias (com a prudência necessária para não impedir o prazer da descoberta por parte do leitor/espectador) está longe de ser suficiente para sugerir o clima narrativo de Projecto Hail Mary. Digamos que o nosso frágil herói é um astronauta relutante: as suas qualidades científicas fizeram com que fosse mobilizado para investigar umas misteriosas partículas cósmicas que estão a destruir lentamente o Sol... logo, a prazo, ameaçando a sobrevivência dos terráqueos. Digamos também que, na sua saga pelo infinito das galáxias, irá ter um “encontro imediato do terceiro grau” (a memória cinéfila é inevitável) com um alienígena cujo planeta enfrenta o mesmíssimo problema — para selar a sua colaboração, baptiza-o com um nome carinhoso: Rocky.
Nada disto é suficiente para dar conta do peculiar e fascinante ambiente em que tudo acontece — até porque, no limite, esta é mesmo uma história da procura de um ambiente para sobreviver. Convocando diversas matrizes da ficção científica — a começar, claro, pela dimensão mitológica da viagem, como no filme de Kubrick: “...mais além, o infinito” —, Projecto Hail Mary distingue-se pela sensualidade formal de uma verdadeira fábula.
A sucessão dos acontecimentos rege-se, assim, por uma lógica temporal bem diferente das normas correntes da ficção científica. O que mais conta é o tempo, ou melhor, a duração das acções do protagonista, em crescente cumplicidade com o seu Rocky. A consolidação dessa cumplicidade acontece, aliás, a partir de uma série de situações de delicadas emoções em que o astronauta Grace e o “alien” Rocky conseguem, cruzando tecnologia e intuição, construir uma inusitada linguagem de comunicação.

Nostalgia do sagrado

Responsáveis pela produção dos filmes de animação de Homem-Aranha: No Universo Aranha (o primeiro surgiu em 2018), Phil Lord e Christopher Miller, os dois realizadores de Projeto Hail Mary, conceberam uma aventura “à moda antiga” que se enraíza na criação de um universo alternativo, tanto em termos dramáticos como visuais — o ponto de partida, convém recordar, é o romance homónimo de Andy Weir (Ballantine Books, 2021). Este é mesmo um filme cuja complexidade técnica de fabricação não tem nada de ostensivo, já que, das texturas da direção fotográfica de Greig Fraser até à notável música original de Daniel Pemberton, prevalece o gosto ancestral do espectáculo, dos seus rituais celebrativos (agora com o complemento do gigantismo dos ecrãs IMAX).
A maravilha de tudo isto envolve uma dimensão redentora — entenda-se: dimensão humana e cinematográfica — tocada pela nostalgia do sagrado. Atentemos, por isso, no apelido feminino de Ryland (Grace = graça). E lembremos que, sem escândalo, o filme poderia ter sido lançado com a tradução literal do seu título original: “Projecto Avé Maria”.

segunda-feira, abril 13, 2026

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL,
ou os artifícios da inteligência

Charlton Heston em Os Dez Mandamentos (1956): isto não é o Big Brother

A Inteligência Artificial exige um pouco mais do que o infantilismo dos “prós & contras”, exige pensamento — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 março).
 
Também em torno das múltiplas e perturbantes questões suscitadas pela Inteligência Artificial (IA) já se instalou o habitual coro de lugares-comuns mediáticos. De tal modo que, em muitos espaços de informação, a extrema complexidade de tudo aquilo que está em jogo tende a ser reduzida a uma dicotomia apaziguadora: a IA é um perigo, mas importa usá-la com critérios úteis e transparentes. Tal dicotomia pode, seguramente, ajudar-nos a pensar esse futuro imponderável que, como podemos confirmar, já faz parte do nosso presente. Resta saber se, ao ficarmos pelo suave pânico de tal duplicidade, não estamos apenas a cultivar mais uma forma de sonambulismo crítico.
Simplificando (e simplificando muito), talvez possamos dizer que a proliferação da IA nos recoloca perante um imbróglio ancestral que tanto pode ser meramente prático como desesperadamente filosófico. Ou seja: onde está a verdade? Mais do que isso: sei (sabemos) dizê-la, ou devo (devemos) duvidar sistematicamente da possibilidade da sua formulação?
Em boa verdade (a expressão surge agora contaminada por uma inesperada perversidade), a formulação da verdade passou a ser enquadrada por novos valores (ou pela falta deles) a partir do momento, há pouco mais de duas décadas, em que a Reality TV — propulsionada por esse escândalo televisivo que é, e continua a ser, o Big Brother — se instalou no dia a dia das nossas sociedades. A verdade ou, mais especificamente, o conceito de verdade foi aniquilado como dispositivo de coerência e diálogo social, sendo reduzido a um artifício mediático, infinitamente reproduzido, que se afirma como espelho irrisório da nossa dimensão humana. A verdade transforma-se num pormenor descartável desde que o espectáculo não tenha fim.
O que, bem entendido, acaba por minar esse outro valor, também ele genuinamente primitivo, que é o espectáculo. Há 70 anos, a travessia o Mar Vermelho pelo povo hebreu, liderado por Moisés, era filmada por Cecil B. de Mille com uma inteligência enraizada nos artifícios do cinema que se definia, justamente, a partir do corte que o espectáculo instalava no quotidiano: saía-se da sala de cinema e o filme (Os Dez Mandamentos, 1956) não continuava no exterior. Agora, a Reality TV é simultaneamente interior e exterior, confunde-se com o quotidiano.
No começo deste ano, num artigo publicado na revista Time (5 janeiro), Klaus Schwab escrevia sobre “as frágeis fundações da Idade da Inteligência”, sublinhando com pedagógica contundência os muitos perigos que enfrentamos, mas evitando alimentar o infantilismo televisivo dos “prós & contras”. Embora correndo o risco de simplificar o seu pensamento, traduzo apenas estas breves linhas: “A verdade e a confiança são muitas vezes tratadas como virtudes, mas funcionam como condições: são pré-requisitos para sociedades coerentes, instituições funcionais e sistemas internacionais estáveis. Sem eles, mesmo as tecnologias mais avançadas não conseguem gerar progresso; sem eles, o debate democrático torna-se impossível; sem eles, a vida social e económica vai perdendo lentamente o tecido das suas conexões.”
Por cruel ironia, no nosso mundo saturado de circuitos de informação, a noção de conexão perdeu valor humano, sendo substituída pelo fluxo avassalador de “likes” e outras comunicações sem conteúdo. Aliás, o seu conteúdo esgota-se na banal certeza de que o fluxo não foi interrompido. No limite mais obsceno de tudo isto, o Big Brother até já foi promovido com a palavra “revolução”, o que, numa sociedade como a nossa, deveria, no mínimo, ser motivo de alguma paragem para reflexão. Não foi.