terça-feira, junho 19, 2018

Martin Bregman (1926 - 2018)

Produtor americano muito ligado à carreira de Al Pacino, Martin Bregman faleceu no dia 16 de Junho, em Nova Iorque, vítima de hemorragia cerebral — contava 92 anos.
Depois de ter trabalhado no sector imobiliário, começou a representar diversos actores, incluindo Al Pacino, Barbra Streisand e Bette Midler. Foi com Serpico (1973), de Sidney Lumet, baseado numa personagem verídica da polícia de Nova Iorque, que Bregman se estreou como produtor, oferecendo o papel principal a Pacino — Bregman descobrira-o, poucos anos antes, numa produção off-Broadway, tendo-lhe conseguido o seu primeiro papel importante em cinema no filme Pânico em Needle Park (1971), de Jerry Schatzberg.
Com uma relação especial com Pacino e Lumet, produziu também Um Dia de Cão (1975), exemplo maior de um realismo à flor da pele, indissociável das convulsões sociais e simbólicas da década de 70 [trailer]. Scarface (1983), de Brian De Palma, Perigosa Sedução (1989), de Harold Becker, e Perseguido pelo Passado (1993), de novo de De Palma, todos eles com Pacino, são outros momentos marcantes da sua filmografia. Com Um Dia de Cão obteve a sua única nomeação para um Oscar (melhor filme).


>>> Obituário no New York Times.

segunda-feira, junho 18, 2018

Beyoncé + Jay-Z

Demonstração de poder, sem dúvida. Poder mediático e figurativo, numa palavra, simbólico: Beyoncé e Jay-Z encenam-se no Museu do Louvre a cantar APESHIT. Não há visitantes, apenas os figurantes/bailarinos da sua teatralidade. Talvez seja essa a forma limite, perversamente utópica, de poder contemporâneo — obrigar os consumidores a desertar.
A canção, escrita e produzida com Pharrell Williams, é o cartão de visita de um álbum surpresa: Everything Is Love. Com assinatura conjugal: The Carters.

Eva, aliás, Isabelle Huppert

Eva é mais um encontro magnífico entre Isabelle Huppert e o realizador Benoît Jacquot — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Junho), com o título 'Entre masculino e feminino'.

Há poucas semanas, o site IndieWire dava notícia de um “estudo” empenhado em provar uma bizarra correspondência: os filmes da saga Star Wars que dão mais tempo às personagens femininas seriam os que tinham obtido maiores receitas nas salas dos EUA. A demonstração era involuntariamente ridícula, já que a simples relativização da inflação permite perceber que o primeiro título, lançado em 1977 e considerado o de menor “exposição” feminina é, de longe, o que vendeu mais bilhetes. Mas o mais grave decorria da grosseira aritmética proposta: a figuração do feminino seria sancionada pelos movimentos do dinheiro.
Isto para dizer que Eva, o novo e magnífico filme de Benoît Jacquot, nunca encaixará em qualquer cálculo do género. Ainda bem, digo eu. Em primeiro lugar, porque ainda há filmes que é possível descobrir sem sermos agredidos por uma visão economicista do cinema que reduz toda e qualquer forma de criatividade a contas de “milhões” (ou proezas de “efeitos especiais”). Depois, porque a personagem interpretada por Isabelle Huppert resiste a ser reduzida a qualquer padrão dramático pueril e purificador.
Conhecemos o pano de fundo mediático sobre os abusos cometidos por alguns homens contra algumas mulheres — e nada pode minimizar a importância da identificação dos crimes cometidos e da sua exemplar punição. Em todo o caso, o que quase todos os militantismos ignoram é o facto de ficções como Eva, centrada no fascínio de um homem (Gaspard Ulliel) por uma prostituta (Huppert), funcionarem como espelho amargo de um logro partilhado por masculino e feminino. A saber: Jacquot, autor de filmes belíssimos como As Asas da Pomba (1981), Adolphe (2002) ou Adeus, Minha Rainha (2012), continua a ser um observador terno e cruel do desejo e suas ilusões, do desejo como ilusão.

domingo, junho 17, 2018

A IMAGEM: Steven Klein, 2018

STEVEN KLEIN
Ace
2018

Mensagens televisivas [citação]

>>> Que misteriosa energia imperscrutável faz com que quando se quer utilizar a televisão para fazer passar uma mensagem, a única coisa que passa é, finalmente, a própria televisão?

La Démocratie Virtuelle

* Bergman + Bernstein
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [dia 24]


[NOVA DATA: inicialmente prevista para o dia 30, esta sessão terá lugar no dia 24]


Cinema e música cruzam-se nas celebrações do centenário de Ingmar Bergman e Leonard Bernstein, ambos nascidos em 1918 — propomos uma viagem, com imagens e sons, pelas suas obras fascinantes.

* FNAC (Chiado) — 24 Junho, 18h30

Bruno de Carvalho não está
num filme de Manoel de Oliveira...

I. Cada vez que vejo Bruno de Carvalho na televisão, numa conferência de imprensa, não penso em futebol. Penso nas vozes, ora indignadas, ora chocarreiras, dos que dizem que os filmes de Manoel de Oliveira são feitos de longos planos fixos de 10 minutos (antes do digital, era a duração máxima de uma bobine de película...), alguns deles garantindo tal "verdade" ao mesmo tempo que proclamam que nunca viram tais filmes.

II. Onde estão essas vozes para comentar os longos planos fixos (10, 15, 20 minutos...) que são difundidos nos pequenos ecrãs quando Bruno de Carvalho dá uma conferência de imprensa? Aliás, ele está longe de ser o único protagonista de tal fenómeno. Qualquer personalidade do mundo do futebol parece ter o direito (automático, indiscutível, irrevogável) de ocupar esses ecrãs ao longo de infinitas horas, não poucas vezes interpretando os tais planos fixos.

III. Como espectador, confesso que já nem compreendo o que se diz e repete, repete, repete... como assunto futebolístico. Mas uma coisa é certa: se os ecrãs privilegiam tais matérias, isso decorre do facto de a elas atribuírem o valor de uma ideia de futebol.

IV. Que ideia é essa? Em boa verdade, é uma ideia cultural, poderosa como mais nenhuma outra. Ou não é verdade que, através do futebol, somos todos os dias confrontados com os méritos da vocação, os meandros da justiça e os valores da portugalidade?

V. No limite, o futebol tornou-se mesmo o único discurso cultural que tem à sua disposição todo o espaço audiovisual — entenda-se: social — para circular como princípio compulsivo da nossa identidade colectiva. O que, bem entendido, não nos garante que haja muitos novos espectadores, disponíveis e sem preconceitos, para ver, realmente ver, os filmes de Manoel de Oliveira.

sábado, junho 16, 2018

Bayona (não) é herdeiro de Spielberg (2/2)

Longe vão os tempos da criatividade de Steven Spielberg em Parque Jurássico: a nova sequela tem muito barulho para nada — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Junho), com o título 'Um circo audiovisual'.

[ 1 ]

A decomposição de alguns modelos de espectáculo cinematográfico detecta-se em todos os pormenores. Assim, por exemplo, o título português de Jurassic World: Fallen Kingdom. De facto, Mundo Jurássico: Reino Caído acaba por ser uma tradução tão “literal” que consegue apagar a sugestão de um reino em processo de queda. Foi mesmo dispensada a expressão mais apelativa: “A queda de um reino”.
Olhamos para as mais de duas horas em que o filme se arrasta, multiplicando ruídos e esgares dos dinossauros, e ficamos enredados na pergunta: afinal, qual é a aventura que nos querem vender?
Como numa psicanálise em que alguém, perversamente, deixou aberta a porta do consultório, o filme acaba por desmontar-se através de uma cena involuntariamente ridícula. Assistimos, assim, a um leilão em que os proprietários dos dinossauros vendem cada um dos seus monstros, devidamente licitados por homens de negócios e políticos provenientes de todo o mundo (com russos e diversas figuras asiáticas para reforçar a “actualidade”). Dir-se-ia que os criadores do filme podiam integrar a plateia de compradores: a única coisa que os interessa é organizar um catálogo de monstros para exibição gratuita num circo audiovisual sem ideias dramáticas.
Numa das poucas cenas com algum sentido do espaço vemos Chris Pratt e Bryce Dallas Howard a extrair sangue de um bicho encerrado numa gaiola gigante... E um dos segredos da história é o facto de a manipulação genética ter concebido um novo monstro... Como é que recebemos essa cena e tal segredo? Pois bem, com o tédio de quem já tinha sido “informado” da sua existência pelo trailer do filme... Moral da história: espera-se que o espectador seja uma marioneta sem sensibilidade, limitando-se a ir ao cinema para “descobrir” aquilo que já sabe.

quinta-feira, junho 14, 2018

A IMAGEM: Sarah Moon, 2018

SARAH MOON
Luping Wang [Armani]
2018

O Mundial por Sergey Ponomarev

Praça Manezhnaya, Moscovo, 13 Junho
Já distinguido com um prémio Pulitzer, pelo seu trabalho sobre os refugiados na Europa, o fotógrafo russo Sergey Ponomarev está a acompanhar o Mundial de Futebol para o diário francês Libération — alguns sugestivos instantâneos para lá dos fragmentos mais ou menos acelerados que predominam nas televisões.
Moscovo, 13 Junho

Fritz Lang na televisão

Gloria Grahame e Glenn Ford
Fritz Lang a passar nos TVCine: uma belíssima (re)descoberta — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Junho), com o título 'O Bem e o Mal segundo Fritz Lang'.

Será um efeito de (de)formação profissional, mas sempre que revejo um filme tão admirável como Desejo Humano (1954), de Fritz Lang, não posso deixar de pensar no velho preconceito que tende a menosprezar o cinema rodado em imagens a preto e branco. Bem sabemos que as raízes de tal preconceito estão, em grande parte, no triunfo de um certo novo-riquismo cultural há várias décadas favorecido pelo advento da televisão a cores. Em todo o caso, como é possível que se tenha instalado como coisa “natural” a ignorância de uma boa metade (ou mais) da história do cinema?
Desejo Humano está a passar nos canais TVCine, além do mais numa cópia que preserva a sofisticada direcção fotográfica de Burnett Guffey, de alguma maneira reflectindo as memórias “expressionistas” dos filmes que Lang dirigira na Alemanha (com inevitável destaque para Metropolis e M – Matou, respectivamente em 1927 e 1931).
Adaptando a um contexto americano o romance La Bête Humaine, de Émile Zola (que em 1938 estivera na base do clássico francês A Fera Humana, de Jean Renoir, com Jean Gabin), Desejo Humano tem chancela da Columbia Pictures, podendo exemplificar uma certa produção média com que, na altura, Hollywood ia cruzando as regras do filme negro com as nuances do melodrama.
Escusado será dizer que o trabalho de Lang é tudo menos mediano. E tanto mais quanto a precisão realista do detalhe coexiste com uma concepção abstracta da narrativa, desembocando numa desencantada parábola filosófica sobre a fragilidade do Bem e a omnipresença do Mal. Ou ainda: esta é uma história sobre as componentes malignas do desejo (o adjectivo “humano” do título é quase uma redundância), numa paisagem de paixões e traições em que o romantismo surge amaldiçoado pela mais descarnada pulsão de morte.
Simplificando (e simplificando muito...), digamos que esta começa por ser a história de um par interpretado por Gloria Grahame e Broderick Crawford: na sequência da perda do seu emprego nos comboios, movido pela cegueira do ciúme, ele mata um homem; o crime acontece num comboio em que também viaja um dos seus companheiros de trabalho, Glenn Ford — através do seu envolvimento com a mulher, ele será uma ambígua testemunha do ocorrido...
Provavelmente, nas mãos de um cineasta vulgar, este seria apenas um enigma mais ou menos policial sobre a exposição pública de um crime. Encenada por Lang, estamos perante uma tragédia íntima sobre a muito humana desumanidade do desejo, pontuada pelas infinitas nuances das imagens a preto e branco.

Dumbo + Disney + Tim Burton

Apostados em revitalizar "em imagem real" (e muito efeitos digitais...) alguns dos seus títulos clássicos, os estúdios Disney têm já agendada, para Março de 2019, uma nova versão de Dumbo, 78 anos passados sobre o desenho animado original. O primeiro trailer é uma pequena proeza de sedução — pormenor a ter em conta: a realização tem assinatura de Tim Burton. Aqui ficam as novas imagens, logo seguidas do trailer do filme de 1941.



quarta-feira, junho 13, 2018

Bayona (não) é herdeiro de Spielberg (1/2)

Longe vão os tempos da criatividade de Steven Spielberg em Parque Jurássico: a nova sequela tem muito barulho para nada — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Junho), com o título 'Dinossauros estão politicamente correctos'.

Já lá vai um quarto de século. Foi em 1993 que Steven Spielberg, inspirando-se num livro de Michael Crichton, dirigiu o admirável Parque Jurássico (no mesmo ano lançou A Lista de Schindler). Para além da revolução nos efeitos especiais que o filme liderou (os dinossauros pareciam mesmo carnais...), o essencial passava pelo relançamento de uma velha mitologia literária e filosófica. A saber: quando os seres humanos tentam sobrepor-se às leis da natureza, gerando vida através de manipulações tecnológicas, até que ponto não é a própria identidade humana que está ameaçada?
Entretanto, uma série de prolongamentos da saga original gerou aquilo que os tesoureiros da indústria, secundados pelos profissionais de marketing, tanto gostam: uma “franchise”. De tal modo que o novo Mundo Jurássico: Reino Caído é já o quinto título da série, com a novidade de ter a realização assinada por um espanhol, J. A. Bayona.
Novidade muito relativa, entenda-se. Isto porque depois do segundo filme, O Mundo Perdido (1997), também dirigido por Spielberg, tão bom ou melhor que o primeiro, assistiu-se ao consumar dessa maldição que tem assombrado muitas “franchises”: em vez de se procurarem histórias realmente originais, com personagens consistentes, entrega-se tudo ou quase tudo às equipas de efeitos especiais... Os resultados serão tecnicamente sofisticados, mas falta-lhes sentido de aventura e, no limite, dimensão humana.
Dir-se-ia que o espírito politicamente correcto deste quinto filme até poderia ter servido para curiosas variações dramáticas. De facto, já não se trata de lidar com as ameaças inerentes à “recriação” dos dinossauros. Agora, os dinossauros são um dado adquirido, sendo fundamental defendê-los da ameaça de um vulcão e, mais do que isso, da avareza de investidores e corporações que neles vêm apenas uma fonte de lucro para actividades mais ou menos lúdicas (ou até para novas formas de guerra).
Podemos admirar os peculiares talentos de Bayona, responsável por títulos como O Impossível (2012), sobre o tsunami de 2004 na Tailândia, ou Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016), um conto fantástico baseado numa obra de Patrick Ness. O certo é que, neste caso, predomina a “obrigação” de acumular cenas que rentabilizem os dinossauros digitais, numa lógica de monótona repetição que, em última instância, se desinteressa pelas singularidades das personagens. Decididamente, o que faz o grande espectáculo não é a mera acumulação de meios, mas o gosto de contar histórias.

David Douglas Duncan (1916 - 2018)

David Douglas Duncan fotografado por Joe McNally
Notável fotógrafo de contextos de guerra, o americano David Douglas Duncan faleceu no dia 7 de Junho em Grasse, França — contava 102 anos.
Natural de Kansas City, foi no jornal The Kansas City Star que começou a sua carreira de fotojornalista. Fotografou momentos emblemáticos da Segunda Guerra Mundial, incluindo a cerimónia de rendição oficial do Japão, mas seriam sobretudo as suas imagens da Guerra da Coreia que consolidaram o seu prestígio, definindo-o como um notável observador dos conflitos militares através das nuances individuais. Especialmente célebre é a sua foto do marine cap. Francis 'Ike' Fenton, na Coreia, em 1950, ao ser informado de que a sua companhia está quase sem munições — o rosto de Fenton está na capa de My 20th Century, um dos seus livros mais célebres.
Colaborou frequentemente com a Life e o National Geographic Magazine. Esteve também no Vietname, tendo publicado dois livros que reflectiam a sua crescente discordância do envolvimento militar dos EUA: I Protest! (1968) e War Without Heroes (1970). Vários outros volumes ilustram a sua amizade com Pablo Picasso — entre eles está Picasso & Lump: A Dachshund's Odyssey (2006), centrado no basset do pintor.

Cerimónia de rendição do Japão, 2 Setembro 1945
Marines no Vietname, 8 Fevereiro 1968
[Arcade Publishing, 2015]
Picasso e Lump, 1957
>>> Obituário no New York Times.

O regresso dos Spiritualized

Digamos, para simplificar, que é preciso conhecer os Spiritualized para compreender de forma concisa (entenda-se: sensorial) porque é que o rock é essa música de matrizes aparentemente rudimentares, e vocação intransigentemente eléctrica, sempre em conflito com os seus próprios padrões criativos.
Liderados por Jason Pierce (n. 1962), ciclicamente reencarnado como J. Spaceman, são autores de Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997), um desses álbuns capaz de nos convencer que a máxima apoteose de palco pode coincidir com o mais belo e descarnado intimismo. E não gravavam desde Sweet Heart Sweet Light, já lá vão seis anos.
Dado a divagações mais ou menos cósmicas, discretamente esotéricas, Pierce/Spaceman já tinha avisado que, a haver um álbum, seria o derradeiro. Será? Evitemos os vícios do jornalismo determinista — atentemos no presente. Seja o que for, esse novo álbum, nº 8 dos Spiritualized, existe, chama-se And Nothing Hurt e deverá chegar às lojas no dia 7 de Setembro. Entre as duas canções já divulgadas [NPR], aí está a primeira com teledisco, dirigido por Juliette Larthe, protagonizado pelo chefe astronauta destes voos interglácticos — chama-se I'm Your Man e justifica que desliguemos telemóveis, alarmes, micro-ondas e outros inimigos do rock...