sexta-feira, junho 21, 2024

Anouk Aimée: forever Lola

Ela foi Lola, sob o olhar de Jacques Demy, no filme de 1961 que colhia o título no nome da sua personagem. Não foi o seu primeiro filme, mas havia (há) nele um misto de sensualidade romanesca e perturbação trágica que transcende a crueldade do tempo que passa — Anouk Aimée faleceu no dia 18 de junho, contava 92 anos.
 

>>> Unifrance.

terça-feira, junho 18, 2024

John Cale: ilusões POP

Cerca de um ano e meio depois de Misery, aí está o 18º álbum de estúdio de John Cale, ilustrando essa ilusão de óptica transfigurada em celebração que o título condensa com invulgar sabor (e sabedoria): POPtical Illusion. São hinos de desencanto, rasgados por alguns fogachos de alegria — exemplo: How We See the Light.

It's a lot like magic
It's a lot like friendship
It's the best of everything
Everything I've found

Sometimes you learn a thing or two
You learn a lesson
Then in the quiet ways of love
You wasted time

You try to track me down
And how you finally found
The way we heard you
Coming out again

In between the way we see the light
Then we lose our minds and jump the fence
In between the way we see the light
Then we lose our minds and jump the fence

Here goes the better ideas
In the way we saw our lives
Were they more decisive now
Than in a future time?

Can I close another chapter
In the way we run our lives?
More decisive in the future
Or deliberate in the end

In between the way we see the light
(...)

domingo, junho 16, 2024

Inteligência Artificial: a ressaca

[ Rolling Stone ]

Eis uma eloquente ilustração (assinada por Ruzlat/Adobe Stock) com que a revista Rolling Stone dá conta da ressaca, de uma só vez cultural e industrial, que se segue à esquematização "polémica" das questões colocadas pelos mais recentes desenvolvimentos da Inteligência Arificial — um artigo conciso e didáctico, assinado por Miles Klee, para nos ajudar a reflectir sobre uma conjuntura que não pode ser reduzida a jogos florais mais ou menos moralistas: 'Brands Are Beginning to Turn Against AI'.

sábado, junho 15, 2024

SOUND + VISION Magazine
— Eurovisão + Cannes [hoje, 18h30]

Não tendo sido possível realizar esta edição do nosso Magazine na data inicialmente prevista (dia 8), estaremos hoje na FNAC. Como é tradição por esta altura do calendário, partilhamos memórias do Festival da Eurovisão e do Festival de Cannes.

>>> FNAC Chiado — dia 15 de junho (18h30).
* * * * *
>>> The Code, Nemo [vencedor da Eurovisão], versão orquestral.



>>> O palmarés de Cannes [France 24].

quinta-feira, junho 13, 2024

segunda-feira, junho 10, 2024

A dialéctica de Billie Eilish

O terceiro álbum de originais de Billie Eilish, Hit Me Hard and Soft, decorre do percurso de uma dialéctica fascinante: por um lado, promove as inquietações juvenis dos álbuns anteriores a questões prementes e perturbantes; por outro lado, aceita tal desenvolvimento pessoal e artístico através de uma serenidade envolvente. Eis um esclarecedor exemplo: Chihiro.
 

Novas memórias do Cambodja
[CANNES]

Um filme sobre memórias trágicas do povo cambodjano

O cineasta cambodjano Rithy Panh revisita as memórias da ditadura dos Khmers Vermelhos em Rendez-vous com Pol Pot — foi um dos títulos fortes das secções não competitivas de Cannes — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 maio).

Apresentado na secção de ante-estreias de Cannes (que integra a selecção oficial), o filme Rendez-vous avec Pol Pot, de Rithy Panh, “explica-se”, antes de tudo o mais, pelas singularidades dos acontecimentos que relata. Estamos, afinal, perante mais um exemplo modelar do labor de um cineasta cambodjano (nascido em Phnom Penh, em 1964) que fugiu do seu país para França pouco depois dos Khmers Vermelhos chegarem ao poder, tendo construído uma obra empenhada em evocar as formas de repressão e o genocídio perpetrado pelo seu regime.
Com uma filmografia que integra vários títulos especificamente documentais, Rithy Panh faz, desta vez, um “desvio” pela ficção, já que no centro da sua narrativa estão três personagens interpretadas por actores profissionais: uma repórter que conhece bem a história do Cambodja (Irène Jacob), um fotojornalista (Cyril Guei) e um intelectual (Grégoire Colin) que, no princípio, sentiu alguma proximidade com as bases do discurso ideológico dos Khmers Vermelhos.
Começamos por vê-los a chegar ao Cambodja em 1978, convidados para conhecer a “verdade” do país que, entretanto, adoptou a designação de Kampuchea. A figura do intelectual é especialmente significativa, já que foi companheiro de estudos dos novos dirigentes quando estes, ainda jovens, viveram em França, frequentando a Sorbonne. A pouco e pouco, os três vão percebendo os horrores que se escondem por detrás da fachada “democrática” do regime, sendo forçados a avaliar, de forma muito clara, se conseguirão sobreviver, regressar a França e dar conta do que está a acontecer.
Rithy Panh desenvolve uma estrutura de montagem muito simples, mas também muito eficaz na sua lógica informativa e pedagógica, combinando as situações interpretadas pelos seus actores com diversos materiais de arquivo. Mais do que isso, como os Khmers Vermelhos destruíram muitos desses materiais (era um regime violentamente avesso à exposição pelas imagens), o realizador encena algumas situações em que recorre a bonequinhos de barro, retomando um método já presente noutros filmes seus. O artifício da figuração não esquematiza, antes intensifica, a dimensão absolutamente trágica da repressão a que foi sujeito o povo cambodjando — em resumo, eis um dos grandes acontecimentos a marcar, para lá das secções competitivas, o Festival de Cannes.

Coppola refaz o apocalipse
... e mais além [CANNES]

Adam Driver em Megalopolis: em modo utópico

O novo filme de Francis Ford Coppola projecta-nos numa Nova Iorque do futuro, especulando sobre o que poderá ser o momento histórico em que vai nascer uma nova utopia: ao fim de quatro dias de festival, em Cannes, Megalopolis foi um acontecimento solitário e fascinante — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 maio).

O novíssimo filme de Francis Ford Coppola, Megalopolis, revelado na secção competitiva de Cannes, será tudo o que se quiser menos um objecto capaz de gerar consensos. Apesar disso (aliás, precisamente por causa disso), venha ou não a ser premiado pelo júri presidido por Greta Gerwig, não será arriscado supor que tem já um lugar garantido na paisagem mitológica do festival: 2024 ficará como o ano de Megalopolis!
E não é caso para menos. As conhecidas atribulações da sua gestação são apenas uma parte do fenómeno agora revelado, desde logo surpreendente pelos números que envolve: rezam as crónicas que, depois de várias décadas sem conseguir concretizar o projecto, Coppola vendeu grande parte do seu império vinícola (por 500 milhões de dólares) e decidiu avançar para Megalopolis com o seu próprio dinheiro (120 milhões).
Tudo se passa na cidade de Nova Iorque, num futuro indeterminado, embora não muito diferente do nosso presente — Manhattan continua a ser Manhattan. Aliás, o rótulo de “ficção científica” que alguma imprensa colou ao filme é, no mínimo, precipitado. A imagem de uma Nova Iorque que tenta reconstruir-se de um desastre apocalíptico está longe de contribuir para uma qualquer visão dita de “antecipação” — Coppola vai mais além e acrescenta a Megalopolis um subtítulo com tanto de infantil como de filosófico: “Uma fábula”.

Em tom de fábula

Será, por isso, redutor vermos Megalopolis como um espelho surreal dos tempos em que existiu um presidente chamado Donald Trump. A chicana política, a agitação nas ruas, até mesmo a sensação de um mundo que só sabe viver através da sua exposição mediática, tudo isso passa pelo filme. Em qualquer caso, estamos muito longe da vulgaridade “informativa” dos nossos dias em que o cinema parece obrigado a ser um caderno de encargos de “temas” bem cotados na retórica dos jornais televisivos.
A fábula emerge como espelho bizarro do mundo em que vivemos (e vemos filmes), abrindo para uma infinidade de possibilidades utópicas. Utopia será mesmo a palavra chave para descrevermos a personagem de Cesar Catalina (Adam Driver), que, em momento de perversa objectividade, um crítico americano já descreveu como um “avatar” do próprio Coppola: ele é o sonhador que quer reconstruir Nova Iorque em nome da felicidade e da esperança, não por acaso confrontado com o calculismo do mayor Franklin Cicero (Giancarlo Esposito). E se os nomes evocam outros tempos trágicos, eis o que está longe de ser acidental: Nova Iorque é, agora, a Nova Roma.
A classificação de fábula envolve, por isso, um primitivismo narrativo que Coppola assume com desarmante naturalidade, devolvendo ao cinema a possibilidade — e a perturbante liberdade — de ser um arte “naïf”. Nesta perspectiva, podemos ser tentados a olhar para Megalopolis como um descendente directo dos épicos que pontuam toda a história do cinema americano (e, em boa verdade, a própria história dos EUA), desde O Nascimento de uma Nação (1915), de David W. Griffith, até Apocalypse Now (1979), do próprio Coppola. Ainda assim, semelhante genealogia não bastará para dar conta da ousadia criativa de Megalopolis: há nele o gosto de desafiar a lógica figurativa e os modelos narrativos das imagens em movimento que nos coloca em ligação directa com o prazer ilusionista de Georges Méliès, o autor de Viagem à Lua (1902).

No coração do cinema

Gosto de dizer que um grande filme está longe de ser aquele que encontra a sanção positiva, porventura entusiástica, do crítico de cinema. Por mim, e para mim, será antes aquele que coloca o crítico perante a dificuldade de dar conta do que nele acontece — como “descrever” Megalopolis?
Será que estamos perante uma reinvenção das normas clássicas da tragédia? Sim, por certo, pensamos em Shakespeare, com quem aprendemos que “a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem qualquer significado.” Ao mesmo tempo, tudo isso acontece como se estivéssemos numa sala de projecção da Disneylândia em que as possibilidades de figuração no ecrã, com os mais inesperados envolvimentos sonoros, nos levam a perguntar: afinal, que ritual é este?
A certa altura, há mesmo uma figura que sai dos bastidores (entenda-se: uma personagem física, carnal, como num teatro). Transporta um microfone e, durante um breve e indescritível minuto, dialoga com a imagem de Adam Driver no ecrã. Escusado será dizer que este episódio, certamente preparado para a apresentação de Megalopolis em Cannes, não poderá ser reproduzido em “todas” as projecções que o filme terá ao longo dos anos, mas é bem revelador da desconcertante alegria criativa que distingue o jovem Francis Ford Coppola, 85 anos celebrados no passado dia 7 de abril.
Na sua dimensão mais burlesca (que, neste caso, rima com dantesca) encontramos a personagem da jornalista de televisão, especialista das convulsões do mundo da finança, interpretada pela brilhante Aubrey Plaza , mostrando como o espírito de ostentação atrai a mais estúpida irrisão. Para que conste, a personagem chama-se Wow Platinum — o nome é sempre um destino.
Há mais de quarenta anos, depois do impacto de Apocalypse Now, Coppola apostou em revolucionar o modo de pensar e fazer filmes com o genial One from the Heart/Do Fundo do Coração (1981), uma espécie de musical refeito para a idade dos telediscos. Megalopolis é um herdeiro dessa experiência, aliás exibindo a marca (resistente entre todas) da sua própria companhia de produção: American Zoetrope. O crítico pode não saber como se orientar neste labirinto criativo, mas fica uma certeza recheada de comoção: para Coppola, o cinema resiste ao decreto da sua morte.

quinta-feira, maio 30, 2024

Donald Trump culpado

[The Washington Post]

Enfrentando um julgamento que envolvia 34 acusações, Donald Trump foi considerado culpado em todas elas — eis o primeiro balanço dessa decisão apresentado pela CNN.



>>> Julgamento de Donald Trump em Nova Iorque.