terça-feira, agosto 18, 2026

Ellis Ludwig-Leone, Noturno

Compositor, cantor e líder da banda San Fermin, de Brooklyn, Ellis Ludwig-Leone (n. 1989) é um caso sério de talento e versatilidade. Embora correndo o risco do esquematismo, a sua criatividade oscila entre a transparência clássica e a mais pura energia pop. Recentemente, divulgou algumas novas composições de sua autoria — eis um belíssimo Noturno.

domingo, agosto 16, 2026

Jon Batiste, Black Mozart

Depois de Beethoven Blues (2024), Jon Batiste propõe agora um Black Mozart. Que é como quem diz: uma revisitação de temas de W. A. Mozart, recriados a partir de uma experiência pianística que integra jazz, blues e gospel. O alinhamento abre com Facile-Batiste, inspirado na Sonata para Piano Nº 16 — ou como o classicismo é sempre uma arte do presente.

Troye Sivan & Nicole Kidman

Nicole Kidman trabalhou com Troye Sivan no filme Boy Erased (2018), entre nós lançado com o subtítulo O Rapaz que Sou, uma proeza do actor Joel Edgerton que, além de integrar o elenco, assumia com notável precisão a realização de uma história baseada em factos verídicos: um casal (interpretado por Kidman e Russell Crowe) enviava o filho (Lucas Hedges) para uma "terapia de conversão" concebida por uma igreja apostada em "corrigir" a homossexualidade dos mais jovens...
Agora, para o belíssimo teledisco de She's the Best, Troye convidou Nicole — é a primeira canção do álbum homónimo, a ser lançado em outubro.
 

sábado, agosto 15, 2026

Slavoj Zizek — conhecer o nosso "interior"?

Rick Beato, first person

De vez em quando, é preciso parar para denunciar o misto de ignorância factual e agressão emocional que circula pela Net, alimentando a sua própria impunidade. De vez em quando, é mesmo necessário mostrar que ser social envolve um trabalho árduo de respeito, e auto-respeito, que as novas formas de "comunicação" acelerada desconhecem.
Por isso mesmo, veja-se e escute-se este video de Rick Beato — músico, guitarrista, professor com uma notável presença no YouTube —, tendo como ponto de partida um comentário anónimo (enfim, disfarçado num pesudónimo indecifrável) sobre a seriedade do seu labor. Pedagógico e libertador.

quarta-feira, agosto 12, 2026

Blake Watt, Opus 1

Se é verdade que filho de peixe(s) sabe nadar, então será forçoso começar por referir que o jovem Blake Watt (25 anos) é filho de Tracey Thorn e Ben Watt, o par que conhecemos, musicalmente, como Everything but the Girl. Sem menosprezar o efeito retro de tal filiação, descobrimo-lo agora com um álbum de estreia que, com evidente aplicação e contida sofisticação, não receia enfrentar a herança nostálgica de uma pop de suave romantismo. Chama-se Family Stereo e o tema-título tem este teledisco, muito british, em que o cantor contracena com Ingo Dierkschnieder, sob a direção de Sebastiano O’Grady.

Pat Metheny, Bright Size Life

[ Wikipedia ]

O guitarrista e compositor americano Pat Metheny faz hoje 72 anos (nasceu a 12 de agosto de 1954, na cidade de Lee's Summit, Missouri). Celebremos a data recordando que este é também o ano em que o seu álbum de estreia, Bright Size Life (ECM), perfaz meio século — eis a faixa nº 4, Missouri Uncompromised.

David Lynch / Blue Velvet
* SOUND + VISION Magazine [5 set.]

O clássico Blue Velvet está a fazer 40 anos — propomos uma viagem através das respectivas memórias, sem esquecer a fascinante diversidade da obra de David Lynch.

>>> FNAC Chiado — 5 setembro (17h00).

O cinema é feito de palavras, bronze e mármore

Filmar a Grécia através das memórias de Sophia

O filme Sophia Setembro de 1963 refaz uma viagem de Sophia de Mello Breyner Andresen à Grécia. É também uma reinvenção só possível em cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (31 julho).

Com a estreia do documentário Sophia Setembro de 1963, com chancela da produtora e distribuidora The Stone and the Plot, reencontramos matéria preciosa, sóbria e subtil, capaz de nos levar a repensar essa arte por vezes tão maltratada, sobretudo desaprendida, que definimos através do verbo “documentar”. Em boa verdade, vivemos enquadrados pelo misto de aceleração e banalização das imagens que tomou o poder em quase todos os territórios do espaço televisivo. Que poder? O de contribuir para reforçar (entenda-se: enfraquecer) uma sociedade em que somos convidados a não olhar, não pensar e, pior um pouco, evitar parar um instante para que algo aconteça na nossa relação com as coisas do mundo.
Não foi isso que Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi fazer à Grécia, em 1963, na companhia de Agustina Bessa-Luís e o marido Alberto Luís. Talvez que a pergunta inicial formulada pelos realizadores de Sophia Setembro de 1963 — Hugo Pereira e Vanessa Duarte — tenha sido a mais rudimentar: como dar conta dessa viagem através dos meios específicos do cinema? Digamos que rapidamente foram excluídas duas hipóteses tradicionais: este não é um documentário conduzido por uma voz off entregue à “descrição” do que estamos a ver, como também não se trata de um exercício de acumulação de materiais de arquivo. Claro que poderiam ser vias igualmente criativas (a história do cinema assim o confirma), mas o que aqui acontece é bem diferente.
Enfim, em off escutamos até duas vozes: os autores assumem-se como intérpretes da própria diferença cronológica e existencial que acaba por ser o motor do seu trabalho. Assim o dizem: “2023 não se parece nada com 1963”. Ou ainda, ligando as palavras do diário de Sophia durante a sua viagem com o presente da viagem que sustenta o filme: “14 de setembro. Os gregos são os únicos homens que mostraram os corpos sem os deformar. Porque neles os corpos não são signo de outra coisa. Os corpos têm uma divindade que lhes é própria, que lhes é não transcendente, mas imanente.” E um pouco mais à frente: “Os materiais dos gregos são o mármore, o bronze e a palavra, os materiais que resistem ao tempo. Neles, o imediato e a transcendência estão unidos.”
Perante as ruínas da Acrópole, Sophia escreve e o filme vai citando: “Mesmo quebrado, tudo é perfeito.” E a voz feminina do filme acrescenta que é isso que ela vai “escrever amanhã, antes de deixar Atenas.” O amanhã de Sophia transfigura-se no presente do filme, tudo em nome da palavra que resistiu — como se fosse mármore ou bronze. Aliás, o ziguezague narrativo, tocado por uma inusitada sensualidade formal, prosseguirá, agora com a voz masculina, lembrando que “já depois desse amanhã”, três anos após a Revolução dos Cravos, numa declaração para uma câmara da RTP, ela disse: “A realidade não cumpriu aquilo que eu esperava.”
Eis o ponto de fuga, de uma só vez formal e filosófico, de Sophia Setembro de 1963: procurar aquilo que na realidade de 2023 se pode “sobrepor” à realidade de 1963 — por exemplo, parar nos lugares em que Sophia parou, encenar uma pose semelhante à que ela fez para uma fotografia ou recolher também pedrinhas do fundo do mar. Não por banal efeito de repetição, antes para cumprir a utopia do próprio cinema. Que utopia? Aquela que André Bazin referia, citado por Godard, ao dizer que “o cinema substitui ao nosso olhar um mundo que se ajusta aos nossos desejos.” Daí que, no seu “suspense” paradoxal, porque realista, este seja um filme de contida alegria fantasista. Daí também a moral da história: “Na nossa fantasia, ela ficou na Grécia.”