O tema Black Napkins persiste como uma das assinaturas mais lendárias de Frank Zappa, celebração imponente dos estranhos poderes encantatórios, quer dizer, poéticos da sua guitarra eléctrica. É uma memória incontornável do álbum Zoot Allures, lançado há 50 anos, em outubro de 1976. A sua herança será celebrada com uma edição especial, agendada para 4 de dezembro. Além do mais, convém não esquecer que Black Napkins surge recriado uns anos mais tarde, como Pink Napkins, no genial Shut Up 'n Play Yer Guitar (1981) — Black e Pink estão aqui em baixo.
É preciso chamar os bárbaros pelo nome que merecem e, nessa medida, repensar a noção de ordem — eis as palavras cristalinas de Bernard-Henri Lévy, reflectindo sobre a destruição que assolou Paris.
Torna-se necessário, mais do que nunca, repensar a própria ideia de sociedade — a liberdade não é a arbitrariedade nem a gratificação imediata. Também não é a destruição dos lugares que, melhor ou pior, definem a nossa existência (social, justamente). É, ou pode ser, uma ideia, aliás, um sistema de ideias capaz de contribuir para a ordenação das diferenças humanas.
Já conhecíamos Bad Luck Hideaway, como faixa bónus de Foreign Tongues no iTunes. Descobrimos agora, em lyric video, Who You Callin’ Crazy. São sobras do mais recente álbum dos Rolling Stones, a par Where There’s a Will, She Still Comes Around e Human Tide. Belas sobras... é caso para dizer — juntamente com as faixas da edição original farão Foreign Tongues, Loose Lip, a lançar no dia 27 de novembro.
Por vezes para o melhor, muitas vezes para o pior, a maioria das mensagens do mundo político passaram a ser menos transmissões de ideias e mais, muito mais, uma arte videográfica de sensações instantâneas e montagem acelerada, próxima do videoclip musical (além de, quase sempre, explorando durações muito mais curtas).
Assim acontece com os clips de The Lincoln Project, plataforma conservadora inequivocamente anti-Trump que se distingue, de facto, por um trabalho audiovisual de requintada elaboração — eis um dos seus videos mais recentes, sobre as relações Trump/Putin.
Katie Zacharia estabeleceu um recorde de duvidoso mérito, mesmo no interior da administração de Donald Trump. Ou seja, ocupou o cargo de Secretária para a Imprensa da Casa Branca durante... 5 dias! O que, embora de modo insólito, "duplica" a estadia de Anthony Scaramucci (em 2017, de 21 a 31 de julho).
Os ecos de semelhante performance provêm dos lugares mais variados, incluindo The Lincoln Project, projecto criado em 2019 por conservadores moderados, ex-membros do Partido Republicano. O seu lema é: "Estamos aqui para parar Trump, acabar com o MAGA e salvar a América" — eis os comoventes 44 segundos do seu In memorian Katie Zacharia.
Katie Zacharia estabeleceu um novo recorde na administração de Donald Trump: assumiu o cargo de Secretária para a Imprensa na Casa Branca e foi afastada ao fim de 5 dias — eis o eloquente resumo, feito pela CNN, dessa tragédia político-mediática.
Ride Lonesome é o 15º álbum de estúdio de Beck, intimista e austero, porventura na procura de um sentido para um tempo de solidão (escondido por detrás das cortinas da capa).
Ei-lo, na canção-título, mas não solitário, na companhia da Sydney Symphony Orchestra — a preto e branco, para sublinhar que tudo isto provém de um tempo que não se dilui na ligeireza "comunicacional" do nosso presente.
Robert Pattinson: a Reality TV como um filme de terror
Com Robert Pattinson como actor e produtor, Primetime é um filme raro e precioso sobre a monstruosidade existencial da Reality TV — o cinema americano continua atento à degenerescência de algumas zonas do espaço televisivo [este texto foi publicado no Diário de Notícias, 8 outubro).
Ao abordar uma variante da Reality TV, o novo filme protagonizado por Robert Pattinson, Primetime, tem tanto de brilhantismo artístico como de actualidade política. Até porque a proliferação da Reality TV conseguiu uma terrível “proeza” ideológica, obrigando a confundir imagens “naturais” seja de quem for, para mais em contextos de clausura simbólica (Big Brother, etc.), com sinais de uma verdade existencial que, além de não poder ser questionada, justifica todos os excessos anti-humanistas — para reforçar a obscenidade cultural que isso arrasta, diversos modelos de “jornalismo” passaram a integrar as respectivas técnicas.
Lembramo-nos, por isso, de filmes que, ao longo das décadas, têm desmontado as falácias morais e narrativas que encontram no pequeno ecrã um palco perverso. Penso, claro, no valor premonitório de Network/Escândalo na TV (Sidney Lumet, 1976) e no resgate poético de The Truman Show/A Vida em Directo (Peter Weir, 1998). Ou ainda na visão contundente de Reality (Matteo Garrone, 2012). Sem esquecer esse admirável “mea culpa” televisivo que é a série UnREAL (Marti Noxon, 2015-18).
Com o seu quê de ironia macabra, o filme realizado por Lance Oppenheim (com Pattinson envolvido também como coprodutor) “inspira-se em factos verídicos”, ainda que trabalhados em função de uma determinada dramaturgia. Assim, Pattinson interpreta a figura de Chris Hansen, apresentador de To Catch a Predator, programa da NBC transmitido entre 2004 e 2007. Objectivo: apanhar em flagrante homens adultos que tentam envolver menores em actos sexuais.
O dispositivo do programa é o cúmulo da perversidade mediática: utilizando actores adultos, treinados para se darem a conhecer ao telefone como crianças, essas (supostas) crianças atraem os pedófilos às suas casas (forjadas); a certa altura, são recebidos pelo próprio Hansen que, depois de os desmascarar, se apresenta como elemento da NBC, expondo o aparato de câmaras que registou toda a situação e acabando por pedir-lhes que abandonem a casa — no exterior, são de imediato presos por elementos da polícia local. Tudo isso é apresentado com o selo de verdade da Reality TV, incluindo o oportunismo audiovisual a que se dá o nome de “jornalismo de investigação”. Para todos os efeitos, convém referir que Hansen é um jornalista já agraciado com uma dezena de Emmys (embora nenhum por To Catch a Predator).
Que faz, então, um filme como Primetime? Expõe a bizarra cumplicidade entre os monstros retratados e a monstruosidade conceptual da televisão — entenda-se: deste modelo de televisão. Não estamos perante uma vulgar “denúncia” que nomeia as figuras malignas para, depois, se apresentar como uma espécie de observação microscópica, inevitavelmente “objectiva”, dos acontecimentos que encena. Aliás, a direção fotográfica assinada por David Bolen é um factor primordial que contamina toda a ambiência dramática: as imagens apresentam uma textura típica do video (mesmo quando não pertencem ao programa To Catch a Predator) que nos faz sentir no interior de um delirante mundo de espelhos em que as diferenças entre “realidade” e “ficção” foram diluídas na histeria abstracta deste tipo de espectáculo — todas as personagens, encenadores e encenados, são peões do mesmo logro.
A figura chave de tudo isto será o jovem Dan, numa subtil composição de Skyler Gisondo, contratado para representar a vulnerabilidade infantil, sem entender que é a sua própria identidade que está a ser “reconstruída”, em particular por Andie, a maquiavélica produtora que Merritt Weever interpreta, literalmente, com requintes de malvadez. Enfim, não esqueçamos que Robert Pattinson há muito se libertou da herança da saga Twilight, impondo-se aqui num dos melhores momentos da sua carreira, talvez só comparável a Cosmopolis (David Cronenberg, 2012). Uma nota especial para a cantora Phoebe Bridgers, numa das figuras treinadas para dialogar com os pedófilos, trabalho de misteriosa complexidade emocional — tão bom como Lost Weekend, o seu terceiro álbum de estúdio, lançado em agosto.
I. Eis uma questão que não é directamente artística, antes configurando uma tragédia visceralmente industrial.
II. Dito de outro modo: em termos jornalísticos, não se trata de especular sobre os resultados da nova versão (reboot, dizem eles) da série Baywatch, anunciada pela Fox para janeiro de 2027 [trailer]. Trata-se, isso sim, de manifestar, no mínimo, alguma perplexidade pelas rotinas de um sistema de produção que, embora com excepções, continua a eleger as "cópias", "sequelas" & etc. como modelos compulsivos da sua relação com o público em geral.
III. Como se a televisão — e também o cinema, como é óbvio — fosse uma banal máquina de gestão de patentes. Como se, enfim, só fosse possível imaginar os espectadores como consumidores sonâmbulos, sonambulizados pela própria oferta.
É o tema bónus da edição no iTunes do álbum Foreign Tongues, dos Rolling Stones: Bad Luck Hideaway tem agora direito a lyric video — adivinhem quem faz o dueto.