segunda-feira, outubro 14, 2019

"Apocalypse Now" na FNAC

Agradecemos a presença dos que no domingo, dia 13, nos acompanharam na FNAC do Chiado para uma viagem motivada pelos 40 anos de Apocalypse Now e o respectivo restauro em 4K (domingo, dia 20, no CCB). Entre memórias cinematográficas e musicais, eis três dos videos que apresentámos.

SOUND + VISION Magazine
(próxima edição)
MILES DAVIS, JAZZ, POP & ETC.
FNAC / Chiado — 16 Novembro (18h30)

>>> Apocalypse Now (Satisfaction, Rolling Stones) + War, Bruce Springsteen + Orange Crush, R.E.M.





domingo, outubro 13, 2019

Sharon Van Etten — concerto na NPR

O quinto registo de estúdio de Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow, é, por certo, um dos grandes acontecimentos deste ano musical. A cantora de Brooklyn esteve nos estúdios da NPR para um 'Tiny desk concert', interpretando três temas do álbum: Comeback Kid, You Shadow e Seventeen.

António Lobo Antunes
— por Bernard-Henri Lévy

Lisboa, 28 Setembro 2019
A homenagem a António Lobo Antunes, realizada na Fundação Gulbenkian no dia 28 de Setembro, começou com uma notável exposição de Bernard-Henri Lévy. Percorrendo os labirintos de significação gerados pela escrita de Lobo Antunes, o autor de La Pureté Dangereuse falou da voz primordial gerada pelo fluxo das palavras, do labor específico do leitor e, no limite, da omnipresença do Mal — eis o respectivo registo, disponível também nas páginas de La Règle du Jeu.

sábado, outubro 12, 2019

"Apocalypse Now", 40 anos
— SOUND + VISION Magazine [ hoje ]


Apocalypse Now faz 40 anos: regressamos ao clássico de Francis Ford Coppola, um dos títulos mais lendários do "filme-de-guerra" e, em boa verdade, de toda a história do cinema — sem esquecer as canções e os outros filmes.

* FNAC / Chiado — hoje, domingo, 13 Outubro, 18h30.

Robert Forster (1941 - 2019)

Secundário de discreto e fascinante talento, obteve uma nomeação para o Oscar com Jackie Brown: o americano Robert Forster faleceu no dia 11 de Outubro, em Los Angeles, vítima de cancro no cérebro — contava 78 anos.
As gerações mais novas identificam-no, antes do mais, através da personagem do xerife Frank Truman, na série Twin Peaks (2017), de David Lynch, e também da sua participação em Jackie Brown (1997), sob a direcção de Quentin Tarantino (nesse ano, o vencedor do Oscar de actor secundário foi Robin Williams, em O Bom Rebelde). Em qualquer caso, mesmo não esquecendo que grande parte do seu trabalho passou pela televisão, Forster deixou a sua marca em alguns títulos marcantes, a começar por aquele em que se estreou: Reflexos num Olho Dourado (1967), bizarro e fascinante drama vivido em cenário militar, dirigido por John Huston, com Marlon Brando e Elizabeth Taylor nos papéis centrais. Um dos seus poucos papéis como personagem central é também dessa época, em Medium Cool/América, América, para Onde Vais? (1969), de Haskell Wexler, retrato actualíssimo das contradições da prática jornalística e televisiva, centrado na Convenção do Partido Democrata em Chicago, no Verão de 1968.
Como ele próprio reconheceu, o convite de Tarantino para integrar o elenco de Jackie Brown foi decisivo no relançamento da sua carreira. Vimo-lo, por exemplo, em Psico (1998), de Gus Van Sant, Mulholland Drive (2001), também de Lynch, Confiança (2003), de James Foley, ou Os Descendentes (2011), de Alexander Payne. Forster morreu no dia em que se estreou o seu derradeiro filme: El Camino: A Breaking Bad Movie, de Vince Gilligan.

>>> Cena de abertura de Medium Cool + cena de Jackie Brown.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

sexta-feira, outubro 11, 2019

Half Alive, de mão em mão

Os Half Alive — que gostam de se identificar como half.alive — nasceram da amizade e do gosto de experimentação de três amigos de Long Beach, California: Josh Taylor (voz), Brett Kramer (bateria) e J. Tyler Johnson (baixo). O seu álbum de estreia, lançado este Verão, chama-se Now, Not Yet. Cultivando uma pop suave e elegante, contaminada por influências díspares, são também três rapazes empenhados na visualização das suas canções. Exemplo original e sugestivo: a coreografia de muitas mãos que encontramos no teledisco de Breakfast, realizado por Elliott Sellers.

quinta-feira, outubro 10, 2019

Peter Handke, in english
[FNAC, 2011]

Foi no dia 7 de Novembro de 2011, no âmbito das actividades paralelas do LEFFEST: Peter Handke esteve na FNAC do Chiado para uma conversa de cerca de 50 minutos (com Pedro Mexia e eu próprio na moderação) — mesmo com a resistência do escritor alemão a exprimir-se noutra língua (neste caso, o inglês), eis Handke na sua lição de rigor e método.

Nobel da Literatura x 2

Olga Tokarczuk e Peter Handke
[desenhos: Niklas Elmehed / NOBEL]
Não um, mas dois prémios Nobel da Literatura. Corrigindo a "falha" de 2018, motivada por convulsões internas da Academia Sueca, foram hoje divulgados os eleitos:
OLGA TOKARCZUK [2018], escritora polaca distinguida "por uma imaginação narrativa que, com enciclopédia paixão, representa a superação dos limites como uma forma de vida".
PETER HANDKE [2019], autor austríaco, escritor, dramaturgo, argumentista, cineasta, a quem foi reconhecido o poder influência de um "trabalho que, com engenho linguístico, tem explorado as margens e a especificidade da experiência humana".

* * * * *

Lembremos, em particular, o labor cinematográfico de Peter Handke, desde logo como argumentista de Wim Wenders — incluindo o clássico As Asas do Desejo (1987) e o mais recente Os Belos Dias de Aranjuez (2016), este tendo como base a sua peça homónima — e também como singularíssimo realizador, nomeadamente em A Mulher Canhota (1978), a partir do seu romance.
Handke tem sido convidado frequente do LEFFEST, nomeadamente na edição de 2016, por ocasião da passagem da cópia restaurada de A Mulher Canhota — desse ano, eis o registo da sua conversa com Paulo Branco.

The National, "Hey Rosey"

Sharon Eyal, bailarina e coreógrafa israelita, protagoniza o novo teledisco de The National: Hey Rosey é mais um tema do álbum I Am Easy to Find, agora recriado numa envolvente dança urbana e pagã, com realização de Mike Mills.

quarta-feira, outubro 09, 2019

"Joker" ou o retorno do trágico

Do teatro de Shakespeare ao melhor cinema contemporâneo, aprendemos a lidar com as componentes trágicas do destino: “Joker”, prodigioso filme, é um acontecimento fundamental nesse processo narrativo e humano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Outubro).

Somos todos americanos: a agitação mediática em torno da ameaça de contaminação social pela “violência” do filme Joker é um esclarecedor sintoma do infantilismo narrativo em que vivemos. Entenda-se: não se trata de escamotear as tensões que circulam pelo tecido social (americano ou europeu); trata-se, isso sim, de tentar pensar de forma adulta, superando a equação alarmista segundo a qual a agitação nas ruas, benigna ou letal, se combate através da esterilização artística dos filmes (ou de qualquer outra narrativa).
Os exemplos pontuais não “explicam” o que quer que seja, mas ajudam-nos a resistir ao comodismo moralista. Assim, a 30 de Março de 1981, John Hinckley Jr. tentou matar Ronald Reagan, motivado pela ânsia de impressionar Jodie Foster, depois de a ter visto em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Será que alguém, de boa fé, se atreve em 2019 a negar ao filme de Scorsese um lugar fulcral, não apenas na história do cinema, mas na cultura popular do século XX?
E que fazer com o sangue, os gestos apocalípticos e as dores infinitas que circulam pelos textos de Coriolano, Júlio César ou Macbeth? Será que, num misto de candura e estupidez, nos preparamos para enclausurar William Shakespeare num qualquer domínio codificado cuja password só pode ser partilhada por alguns eleitos?
Não esqueço que as questões envolvidas excedem este (ou qualquer outro) filme, não cabendo, nem de longe nem de perto, na brevidade destas linhas. Mas como não reconhecer a cegueira narrativa das nossas sociedades que aceitam (e, mais do que isso, incentivam) o ocultismo barato de Harry Potter como forma de educação das crianças, resistindo a lidar com uma narrativa genuinamente trágica como Joker?
Aliás, em termos culturais e comerciais (é a mesma coisa…), a conjuntura surge ainda mais reveladora. Por um lado, temos assistido à ocupação dos mercados de todo o mundo pelos lugares-comuns dramáticos e técnicos da maioria dos filmes de super-heróis; por outro lado, basta a realização de Todd Phillips arriscar lidar com o imaginário dos mesmos super-heróis, repensando-o e reinventando-o, para que o mais básico gosto do cinema seja posto em causa pela ideologia mediática da vigilância e purificação social.
Sejam quais forem as notícias dos próximos dias, a questão de fundo será sempre outra. A saber: que nos está a acontecer para que as artes específicas das narrativas sejam tratadas como um “produto” cuja legitimidade seria medida pela “influência” que possam ter na vida quotidiana? Mais do que isso: como, porquê e para quê se tenta “explicar” as convulsões mais violentas desse quotidiano a partir das peripécias particulares de uma ou outra narrativa?
Em boa verdade, creio que a questão é infinitamente mais complexa, já que, através da genial composição de Joaquin Phoenix, Joker sabe devolver-nos um tabu contemporâneo. Ou seja: o carácter irredutível de um corpo. Circula por aí a grosseria ideológica de Kim Kardashian e outros “famosos” que celebram o corpo como um banal “gadget” promocional… Proliferam formatos da “reality TV” em que a vida sexual é tratada como uma proeza estatística… Tudo isso se instalou como o novo normal do imaginário do corpo e do desejo. Subitamente, descobrimos Phoenix a representar a estranheza do próprio corpo como elemento identitário e logo soam as trombetas vingativas do cinematograficamente correcto.
Será preciso acrescentar que a América (e o mundo) encontra em Joker um espelho surreal de muitos medos mediáticos ou mediatizados? Não é o Joker de Phillips/Phoenix esse ser solitário cujo desamparo não é estranho à crueldade que transporta? E como olhar as suas contradições sem sentir medo? O mais difícil será reconhecer que ele é o fantasma de cada um de nós — a tragédia nunca foi estranha a algum realismo.

Robbie Robertson: filmes & canções

E reencontramos Robbie Robertson, membro do lendário The Band, esse grupo que sempre foi olhado como um fenómeno algo marginal, mesmo se a sua música pertence ao núcleo mais visceral do rock made in USA — ironia suplementar: Robertson, 76 anos, nasceu no Canadá.
Sinematic, o seu sexto álbum a solo, nasce de uma dupla motivação: por um lado, a renovada colaboração com Martin Scorsese, agora em The Irishman, de tal modo que o tema de abertura, I Hear You Paint Houses, retoma o título do livro de Charles Brandt (em rigor: I Heard You Paint Houses) que serve de base ao filme de Scorsese; por outro lado, a conclusão do documentário auto-biográfico Once Were Brothers: Robbie Robertson and The Band (a segunda faixa do álbum chama-se mesmo Once Were Brothers). O resultado, cruzando folk e country, preserva o saber e o sabor das raízes da mais pura Americana. Exemplo: Let Love Reign, performance registada em The Tonight Show, de Jimmy Fallon.

terça-feira, outubro 08, 2019

Um apocalipse português

Adaptando um conto de Branquinho da Fonseca, Edgar Pêra propõe uma visão que tem qualquer coisa de ficção científica: Caminhos Magnétykos é, afinal, um filme sobre a falsidade nas relações humanas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Outubro).

O novo filme de Edgar Pêra inspira-se em Caminhos Magnéticos, de Branquinho da Fonseca (1905-1974), um dos fundadores da revista Presença, além de figura fundamental na criação e desenvolvimento do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. O cineasta intitulou-o Caminhos Magnétykos — assim mesmo, com assumidos “erros” de escrita. Porquê? Podemos lembrar que Edgar Pêra já explorou os mesmos “desvios” gráficos noutros momentos do seu trabalho. Mas o essencial decorre de outra dimensão. A saber: a afirmação da possibilidade de escrever/filmar o mundo à nossa volta sem obedecer à gramática oficial das narrativas audiovisuais.
Pode dizer-se que o essencial das peripécias da “história” foi preservado. Assim, também no filme se trata de contar a odisseia afectiva e o transe mental de um homem que, no dia do casamento da filha, é levado a repensar toda a sua existência e, em particular, o valor político do seu modo de ser e estar.
Desta vez, a acção passa-se num Portugal pós-25 de Abril cujo eventual realismo surge metodicamente dinamitado (por exemplo, em Lisboa, no rio Tejo, há uma Ponte... 25 de Novembro!) e o próprio anti-herói, de seu nome Raymond (Ramon no original), vem de França — é, aliás, interpretado pelo francês Dominique Pinon, figura “fetiche” do cinema de Jean-Pierre Jeunet.
Provavelmente, Caminhos Magnétykos, tal como, em boa verdade, toda a obra de Edgar Pêra, suscitará um pensamento hesitante: no seu delírio visual e sonoro, será que este é um cinema construído “contra” o espectador? No limite, creio que haverá tantas respostas possíveis quantos os espectadores. Seja como for, importa sublinhar o valor que decorre de tal interrogação: este é um cinema que não desiste de questionar cada indivíduo sobre o que significa, face a um ecrã, ser espectador.
Instrumento fundamental para tal “démarche” ética e estética é a sedutora ambivalência narrativa que percorre todo o filme. Com as suas imagens de cores densas (magnificamente trabalhadas pela direcção fotográfica de Jorge Quintela), Caminhos Magnétykos possui qualquer coisa de vertigem de ficção científica, sugerindo a iminência de algum evento apocalíptico; ao mesmo tempo, tudo isso acontece num espaço e num tempo que não podemos deixar de reconhecer como visceralmente portugueses.
Encontramos, assim, aguerridas caricaturas dos poderes político e económico que, em qualquer caso, não anulam a dimensão utópica que (ainda) move as personagens mais cândidas. Talvez seja esse o tema mais primitivo que contamina todas as experiências formais de Edgar Pêra: para lá da fealdade que parasita muitas relações humanas, talvez ainda haja uma réstea de inocência que podemos preservar. Onde? Na singeleza de alguns gestos, na verdade de alguns olhares. Acreditemos ou não nessa possibilidade, a sua formulação envolve um genuíno desejo de cinema.