domingo, setembro 06, 2026

Festival de Tribeca
— 25 anos de memórias

O Festival de Tribeca surgiu poucos meses depois dos atentados do 11 de Setembro, apostando na revitalização de uma zona muito específica de Nova Iorque e, mais do que isso, numa celebração da criatividade cinematográfica contra as tragédias da história colectiva. Tribeca 25, documentário de Matt Tyrnauer, apresenta-se como uma memória apaixonada desse processo e, muito particular, do trabalho desenvolvido pelos fundadores do festival, Robert De Niro e Jane Rosenthal.
Eis uma entrevista de De Niro e Rosenthal no programa CBS Sunday Morning; em baixo, o trailer do filme que chega sexta-feira, 11 de setembro, à plataforma Netflix.



sábado, setembro 05, 2026

Beethoven, as três últimas sonatas
— por Mitsuko Uchida

Vinte anos na companhia de Beethoven — ou melhor: prosseguindo e, num certo sentido, perseguindo o fascínio, e também os enigmas, das suas três sonatas finais (Opp. 109, 110, 11). A pianista Mitsuko Uchida gravou-as em 2006, num registo que agora se duplica, transfigurando-se, sempre com chancela da editora Decca.
Compostas entre 1880 e 1822 (Beethoven faleceu a 26 de março de 1827, contava 56 anos), são peças que, para lá do desafio técnico que implicam, investem as matrizes clássicas da "sonata", compelindo-as a existir em diferentes estruturas formais que, em última instância, expõem as intensidades, e também os silêncios, de uma intimidade sem fronteiras. Sublime — um dos grande discos de 2026.

David Lynch / Blue Velvet
* SOUND + VISION Magazine [ hoje, 5 set. ]

O clássico Blue Velvet está a fazer 40 anos — propomos uma viagem através das respectivas memórias, sem esquecer a fascinante diversidade da obra de David Lynch.

>>> FNAC Chiado — 5 setembro (17h00).

sexta-feira, setembro 04, 2026

Robert Kramer
— Portugal revisto por um olhar americano

Robert Kramer (1939-1999)

Em 1998, Sérgio Tréfaut conversou com o cineasta americano Robert Kramer sobre as convulsões do Portugal pós-25 de Abril: Entrevista a Robert Kramer (Filmin) é o precioso registo dessa conversa — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 agosto).

Mais do que nunca, importa valorizar aquilo que nas plataformas de streaming “escapa” às rotinas do mercado, divulgando objectos de evidente importância histórica que nunca tiveram a merecida difusão. É o caso de Entrevista a Robert Kramer, de Sérgio Tréfaut, agora disponível na plataforma Filmin.
A sua duração (35 minutos) poderá fazer pensar que se trata “apenas” de um encontro com aquele que foi um dos nomes marcantes, porventura “o” símbolo maior, da produção independente “made in USA” ao longo das décadas de 1960/70 — é dele o emblemático Milestones (1975), revelado entre nós nos tempos heróicos do Festival da Figueira da Foz [fragmento do filme aqui em baixo].
Na verdade, estamos perante um apêndice do trabalho de pesquisa desenvolvido por Tréfaut durante a preparação da sua longa-metragem Outro País (1999), dedicada, precisamente, a testemunhos de fotógrafos e cineastas estrangeiros (Glauber Rocha, Sebastião Salgado, Thomas Harlan, etc.) que acompanharam os tempos agitados do pós-25 de Abril.
A entrevista foi realizada em Paris, na primavera de 1998 — Kramer faleceu a 10 de novembro do ano seguinte, contava 60 anos. Estivera pela primeira vez em Portugal em meados de 1975, logo após a apresentação de Milestones no Festival de Cannes. Quis conhecer, in loco, a Revolução dos Cravos e, em particular, os movimentos populares de base. Na perspectiva de Kramer, esses movimentos “prolongavam” fenómenos específicos dos EUA que, sobretudo na contestação da guerra do Vietname, se tinham libertado dos clichés da esquerda tradicional (ainda que ele recorde que, na sociedade americana, a noção de “esquerda” está longe de ser um mero decalque das significações da mesma palavra em contexto europeu).
Não admira que o assunto dominante da entrevista seja Cenas da Luta de Classes em Portugal (1977), o filme que acabou por reflectir o modo como Kramer, movido pelo seu desejo utópico, descobriu o nosso país — filme que ele próprio considera “falhado” e, de alguma maneira, incompleto por causa das dificuldades práticas e pessoais de prolongar a sua reflexão. Há no radicalismo de Kramer alguns sinais de desconhecimento do próprio contexto que comenta (a sua desvalorização do trabalho da Cinemateca Portuguesa parece-me francamente mal informada), o que não impede que este seja um documento precioso para revisitarmos um tempo que nem sempre tem sido expurgado dos mais variados maniqueísmos ideológicos.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Os amigos de Mark Zuckerberg

A empresa Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, foi multada em 17,1 mil milhões de dólares. Porquê? E para quê? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 agosto).

A notícia surgiu na quarta-feira [26 agosto] e, de uma maneira ou de outra, não houve órgão de informação que não lhe prestasse a devida atenção. Por vezes, é certo, à notícia não foi reconhecida a suficiente gravidade para se sobrepor ao debate sobre a dramática diferença ontológica entre uma “piscina” e um “poço”... mas, como diria o grande Billy Wilder, “ninguém é perfeito”. Enfim, a favor da sua evidência, a notícia continha um elemento sintomático da bem chamada linguagem fria dos números: 17,1 mil milhões de dólares (contas redondas: 14,7 mil milhões de euros).
De onde vem esse dinheiro? E para onde vai? Pois bem, virá dos cofres da Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, e decorre do facto de tais produtos da empresa de Mark Zuckerberg terem violado as leis que defendem a “privacidade das crianças” e também as que determinam a “proteção dos consumidores”. A decisão resultou de um processo de julgamento requerido por 47 estados dos EUA. Nas palavras de um artigo do New York Times, assinado por Cecilia Kang e Eli Tan, o acordo agora estabelecido “pode representar um ponto de infleção para a indústria das redes sociais que tem frequentemente escapado ao escrutínio regulatório”, em particular em tudo o que envolve o efeito dos seus produtos no comportamento das crianças.
Entenda-se: qualquer construtor de piscinas a que damos o nome de poços, ou poços que parecem piscinas, pode, em nome do sistema legal de uma sociedade, ser acusado e julgado, eventualmente provando-se alguma forma de responsabilidade que não se adequa às regras desse sistema. Não é isso que está em causa. Do mesmo modo, o facto de alguém utilizar o Facebook (não é o meu caso) ou o Instagram (sim, é o meu caso) não significa que seja preciso dividir o mundo em que vivemos entre fenómenos “puros” e ameaças “impuras” — a não ser que passe a fazer sentido colocar em tribunal o proprietário de cada automóvel por estar a contribuir para a poluição do planeta...
Mark Zuckerberg
Talvez que a minha ironia ofenda alguns leitores, e peço desculpa se for esse o caso. Seja como for, serve-me para acrescentar que não encaro a condenação das práticas do império tecnológico criado por Zuckerberg como um fim em si mesmo — muito menos como o encerramento de um problema. Mal ou bem, não me reconheço na ideologia voluntarista dos esforçados analistas do trânsito citadino que, depois de darem conta da “resolução” de um determinado acidente, rematam dizendo que tudo “voltou à normalidade” — sendo a “normalidade” o caos que todos os dias nos penaliza.
O que está em causa é, simplesmente (enfim, de modo tragicamente complexo), uma questão cultural. Dito de outro modo: os valores culturais induzidos pela ideologia “social” de alguns produtos das modernas tecnologias geraram um universo volátil de muitos milhões, não apenas de dólares, mas também de pessoas. O perverso objectivo é fazê-las acreditar que uma ligação iniciada por polegares ao alto se confunde com um imaculado princípio, não apenas de fazer “amigos”, mas também de construir uma genuína relação social — a ponto de ser implicitamente desvalorizado o sistema de relações (verdadeiramente) sociais que podemos estabelecer com quem nos é próximo por motivos familiares, profissionais ou outros.
Em 2010, um filme de génio intitulado A Rede Social, realizado por David Fincher, demonstrou por A+B a falácia conceptual do Facebook. Agora, anuncia-se para outubro a sua “continuação”, O Veredito Social, com assinatura de Aaron Sorkin (argumentista “oscarizado” do filme de Fincher). Nos respectivos cartazes surgem os rostos dos actores — Jesse Eisenberg e Jeremy Strong — que interpretam a personagem de Zuckerberg; as suas frases definem uma cristalina dialéctica de pensamento: primeiro, “não se arranjam 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”; agora, “acabou o tempo de fazermos amigos”.

domingo, agosto 30, 2026

Hector Berlioz por Elina Garanca

Hector Berlioz

D'amour, l'ardente flamme é uma célebre ária da ópera A Danação de Fausto, composta por Hector Berlioz em 1845 — aqui, na imaculada interpretação da mezzo soprano Elina Garanca.
 

sexta-feira, agosto 28, 2026

Um café com Scorsese (pai e filha)

Francesca Scorsese e o seu pai, Martin Scorsese, são os protagonistas de uma campanha de pequenos videos para os cafés Lavazza. As ânsias da cafeína cruzam-se com história de Nova Iorque, tudo temperado pelo bom humor dos protagonistas — eis um desses aromáticos momentos.

A Odisseia, a tradição liberal & etc.
— por Fareed Zakaria

terça-feira, agosto 25, 2026

Taylor Swift no Grammy Museum

Taylor Swift voltou ao Grammy Museum para uma performance integrada num evento de memórias musicais dos últimos 20 anos. Depois de uma conversa sobre a sua carreira, eis os pouco mais de sete minutos em que cantou I Knew It, I Knew You, August e All Too Well — ou como o rigor profissional pode integrar a subtileza das emoções.