segunda-feira, outubro 22, 2018

Sophie Auster em tom mexicano

Um regresso que se saúda: Sophie Auster continua a explorar as delícias clássicas da pop, temperando-as com desvios mais ou menos desconcertantes. Assim acontece com o seu novo single, Mexico, em tom... mexicano — antecipando um novo álbum, Next Time, eis um saboroso exercício de ironia e auto-ironia, complementado por teledisco no mesmo registo.

domingo, outubro 21, 2018

Moda com o título "Persona"

"Persona". Não o filme de Ingmar Bergman, datado de 1966, mas um portfolio do italiano Eugenio Intini para a revista Collectible Dry — um jogo feliz entre o uno e o plural, a evidência e o mistério.

O regresso de Glenn Close

Regresso? Em boa verdade, Glenn Close nunca desapareceu do mapa. O certo é que com a sua performance em A Mulher ela pode chegar às nomeações dos próximos Oscars — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Outubro).

A vida dos filmes, e através dos filmes, pode ser francamente insólita. Glenn Close, por exemplo. Actriz americana de enorme talento, conhecida e reconhecida desde que integrou o elenco de Os Amigos de Alex (1983), de Lawrence Kasdan, é muitas vezes citada como protagonista de uma consagração eternamente adiada. De tal modo que já obteve seis nomeações para Oscars de interpretação — incluindo por Atracção Fatal (1987) e Ligações Perigosas (1988), por certo os seus filmes mais famosos —, mas nunca ganhou.
Reencontramo-la, agora, a interpretar a personagem central de A Mulher, co-produção Suécia/Reino Unido/EUA com realização do sueco Björn Runge. Lançado há mais de um ano no Festival de Toronto, o filme só chegou às salas dos EUA em Agosto de 2018, estando agora a ser lançado em muitos países (incluindo Portugal, com estreia agenda para quinta-feira). De tal modo que se especula sobre a possibilidade de Glenn Close obter, pelo menos, uma sétima nomeação para um Oscar. Será uma forma de redescoberta, justificada e calorosa, embora seja forçoso reconhecer que A Mulher (título original: The Wife) se fica pelos limites de uma eficácia dramática típica de muitos telefilmes de produção corrente.
Glenn Close interpreta a mulher de um escritor (Jonathan Pryce) que, um belo dia, recebe um telefonema a informá-lo que foi galardoado com o Nobel da literatura... Digamos, para simplificar, que a viagem do casal a Estocolmo, para receber o prémio, irá funcionar como um processo de inesperada e violenta revelação de segredos incrustados numa longa vida comum.
O trabalho de Runge nunca ultrapassa as matrizes mais convencionais, padecendo mesmo de uma psicologia “demonstrativa” de algum modo reforçada pela utilização retórica dos flashbacks. O melhor de A Mulher está, sem dúvida, no seu elenco, importando referir as passagens de testemunho que aqui se consumam: por um lado, a personagem do filho do casal está a cargo de Max Irons, filho dos actores Jeremy Irons e Sinéad Cusack; por outro lado, nas cenas do passado, a mulher é interpretada por Annie Starke, filha da própria Glenn Close e do produtor John H. Starke.

SOUND + VISION Magazine
— algumas imagens [20 Out.]

Na sessão do nosso SOUND + VISION Magazine (dia 20 / FNAC Chiado), partilhámos algumas memórias eloquentes sobre o constante (e fascinante) movimento de criação/recriação, quer no cinema, quer na música — aqui ficam, em jeito de pequeno balanço, algumas das imagens (e sons) presentes na sessão.

>>> The Thing: primeiro, o título de 1951 produzido por Howard Hawks, com realização de Christian Nyby; depois, o filme de 1982, assinado por John Carpenter.




>>> Fever, clássico do R&B, composto pela dupla Eddie Cooley/Otis Blackwell: começamos por escutar a versão original, interpretada em 1956 por Little Willie John; segue-se uma interpretação de Peggy Lee, em 1965, no Andy Wlliams Show, e o teledisco de Madonna, assinado por Stéphane Sednaoui, versão incluída no álbum Erotica (1992).






>>> The Man Who Sold the World , canção do álbum homónimo de David Bowie, o terceiro de estúdio da sua discografia, lançado em 1970 — depois do original, surge uma performance do próprio Bowie, com Klaus Nomi, em 1979, no programa Saturday Night Live (NBC); por fim, temos a versão dos Nirvana, no MTV Unplugged (18 Novembro 1993).





sábado, outubro 20, 2018

Das estrelas clássicas até Lady Gaga
— SOUND + VISION Magazine [hoje]

A estreia de Assim Nasce uma Estrela, com Lady Gaga e Bradley Cooper, é pretexto para uma viagem pelos clássicos que inspiram os modernos — propomos uma revisitação de algumas memórias cinematográficas e musicais.

* FNAC / Chiado: hoje, 20 de Outubro, 18h30

sexta-feira, outubro 19, 2018

"Trump é fascista?"

Quem formula a pergunta é o New York Times. Mais concretamente, Jason Stanley, professor da Universidade de Yale, que há muitos anos se dedica ao estudo do(s) fascismo(s), tendo recentemente lançado o livro How Fascism Works — The Politics of Us and Them. Num video breve, de depurada concisão, Stanley desmonta os mecanismos de funcionamento da ideologia fascista, da mitologia fundadora à relação com a imprensa — eis um exemplo modelar de jornalismo, ao serviço do pensamento democrático.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Kirill Gernstein: Liszt & etc.

[FOTO: Marco Borggreve]
KIRILL GERNSTEIN
* Fundação Gulbenkian [16. Out., 20h00]

* Franz Liszt
Estudo de execução transcendental n.º 7, Eroica
* Ludwig van Beethoven
Variações e Fuga sobre um tema da Heroica, em Mi bemol maior, op. 35
* Leoš Janáček
Sonata 1.X.1905
* Franz Liszt
Funérailles (Harmonies Poétiques et Religieuses n.º 7)
* Claude Debussy
Les Soirs illuminés par l’ardeur du charbon
* Komitas
Duas Danças Arménias: Shushiki / Unabi
* Maurice Ravel
Le Tombeau de Couperin

Pela segunda vez, o pianista russo Kirill Gernstein apresentou-se no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian. Desta vez, para um concerto de invulgar pluralidade de referências, em qualquer caso envolvendo obras compostas num arco temporal de pouco mais de cem anos, entre o começo do século XIX (Beethoven) e os tempos do primeiro conflito mundial (as peças de Debussy e Ravel).
Liszt serviu de porta de entrada em cada uma das partes, por assim dizer, sinalizando um sentido de reconversão de matrizes clássicas, ou melhor, de ruptura com algum passado — por alguma razão, Gernstein achou por bem "ligar" a performance de Liszt e Beethoven e, depois, na segunda parte, as peças do arménio Komitas e do francês Ravel.
Dir-se-ia que, através de uma versatilidade que nunca exclui a atenção às mais delicadas nuances emocionais da música, Gernstein quis celebrar a energia de obras ligadas a épocas de grandes convulsões históricas — "tempos de agitação social e política", tal como se escreve no seu site — e o modo como nelas, e através delas, foram desafiados muitos cânones do próprio labor do intérprete face ao seu teclado. O resultado teve o seu quê de pedagogia, no sentido mais libertador que a palavra possa envolver.

* * * * *

>>> Com um ensemble do Berklee College of Music, de Boston, Kirill Gernstein interpreta a Rhapsody in Blue, de George Gershwin (versão original de 1924, para banda de jazz).

Quem se lembra de Steve McQueen?

Memórias de outros tempos de Hollywood: no filme Bullitt, lançado há 50 anos, Steve McQueen protagonizou uma célebre e sofisticada perseguição de automóveis — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Outubro).

Recentemente, a propósito da estreia de uma nova (e muito pouco interessante) versão cinematográfica de Papillon, o nome de Steve McQueen foi evocado, ma non troppo. Assim, por um lado, citou-se o Papillon original, produção de 1973, dirigida por Franklin J. Schaffner, com McQueen e Dustin Hoffman nos papéis de Henri “Papillon” Charrière e Louis Dega, respectivamente; por outro lado, dir-se-ia que McQueen (falecido em 1980, contava 50 anos) já não conta para o imaginário cinematográfico do século XXI.
Há algo de desconcertante neste apagamento de memórias, mas também de muito típico do esvaziamento actual dos valores clássicos da cinefilia. Entenda-se: o que acontece excede qualquer jogo floral sobre os filmes “bons” e “maus” do passado. A celebração do puro espectáculo — de que McQueen foi, justamente, um símbolo exemplar — passou a ser dominada por fenómenos efémeros de marketing em que os “efeitos especiais” são celebrados como se fossem o destino obrigatório do cinema, no limite dispensando a verdade (visceral e insubstituível) do actor.
Ao contrário de outras efemérides, não se espera, por isso, especial agitação mediática pelo facto de o filme Bullitt, outro dos momentos fulcrais da carreira de McQueen, ter tido a sua estreia há 50 anos (a 17 de Outubro de 1968, nos EUA). Enfim, não quero assumir-me como viciado em efemérides... Bem pelo contrário. Mas é um facto que esse desencantado policial passado na cidade de São Francisco entrou para a história como um momento fundador de um modelo particular de encenação das perseguições de automóveis.


Escusado será dizer que a perseguição de Bullitt — com McQueen ao volante de um Ford Mustang GT — foi mil vezes copiada e, convenhamos, quase sempre em tom menor. Uma das excepções pode ser vista em Os Incorruptíveis contra a Droga, realizado por William Friedkin três anos mais tarde, com Gene Hackman e Roy Scheider nos papéis centrais.
Seja como for, a vibração dessa sequência está longe de se resumir a uma proeza técnica de rally... Estamos perante um modelo de espectáculo que nasce, não da simulação digital do que quer que seja, mas sim da verdade material de tudo aquilo: os corpos, os carros, as ruas.
Nesta perspectiva, Bullitt pertence a uma conjuntura industrial e simbólica em que, mesmo através da maior sofisticação técnica, Hollywood privilegiava a dimensão humana das suas histórias. Lembrar Steve McQueen é também reconhecer que ele não pertence à galeria de super-heróis da Marvel e da DC Comics. Nostalgia? Apenas gosto pela pluralidade da história do cinema, das histórias de que se fazem os filmes.

Jacques Monory (1924 - 2018)

Pintor muito marcado pela imagem cinematográfica, o francês Jacques Monory faleceu no dia 17 de Outubro, em Paris — contava 94 anos.
Tendo exposto pela primeira vez em 1952, em Paris, na Galeria Drouant-David, Monory integrou  nas suas composições muitos elementos da Pop Art americana, ao mesmo tempo afirmando-se como um dos artistas nucleares da chamada figuração narrativa (a que também está ligado, por exemplo, o espanhol Eduardo Arroyo, falecido a 14 de Outubro, contava 81 anos).
Trabalhando obsessivamente sobre a cor azul, os seus quadros apropriavam-se de elementos cinéfilos (do género noir, por exemplo) ou da iconografia da sociedade de consumo para construir cenas em que os sinais da vida colectiva oscilam da citação ambígua até ao puro pesadelo. Não por acaso, ao longo dos anos 70, a sua obra foi objecto de interesse para os Cahiers du Cinéma, ajudando a discutir as condições de sobrevivência da memória histórica dos filmes face à sua instrumentalização por linguagens da publicidade e do marketing. Para além de instituições como o Centro Pompidou ou o Museu de Arte Moderna (Paris), Monory está presente na Colecção Berardo, com a tela Velvet Jungle nº10 / 1.
[ 1976 ]
La Terrasse nº 8 (1989)
Tanatorolls (1986)
Velvet Jungle nº 10 / 1 (1970)

>>> Fragmento de uma conversa com Henri François Debailleux.


>>> Obituário no jornal Le Monde.
>>> Jacques Monory na Galeria Richard Taittinger.
>>> Entrevista na France Culture.
>>> Site oficial de Jacques Monory.

quarta-feira, outubro 17, 2018

Hollywood, drama e melodrama

É a quarta vez que o cinema americano conta esta história: Assim Nasce uma Estrela prova que é possível recriar memórias, agora através de um par tão inesperado como brilhante: Bradley Cooper e Lady Gaga — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Outubro).

Não é todos os dias que deparamos com um actor famoso, capaz de arriscar num filme que parece contrariar a sua mais forte imagem pública e, mais do que isso, assumindo (em estreia pessoal absoluta!) a realização desse filme.
Acontece agora com Bradley Cooper: através de Assim Nasce uma Estrela, ele consegue provar que sabe construir uma narrativa de serena consistência clássica. E como a sua personagem é uma vedeta musical, ficamos também a saber que ele sabe cantar. Mais do que isso: promovendo outra estreia, a de Lady Gaga como actriz, descobrimos também que a cantora de Born This Way ou Sexxx Dreams é uma talentosa intérprete dramática.
Não era simples, de facto, trabalhar no coração de Hollywood e contar a história de uma mulher que, como diz o título, se torna uma estrela, para tal contando com um veterano do espectáculo, fortemente dependente do álcool, que por ela se apaixona. Convenhamos que num panorama em que os super-heróis (Marvel & DC Comics) detêm todos os poderes de produção, recuperar esta história clássica estava longe de ser uma opção “natural”. Porque se trata, realmente, de uma recuperação: Assim Nasce uma Estrela retoma uma linha de argumento já experimentada em três épocas bem diferentes, em títulos produzidos em 1937, 1954 e 1976.
De que se trata, então? Um filme musical? Em boa verdade, não. Trata-se, isso sim, de um filme em que as canções surgem como elementos fundamentais da relação de conhecimento, trabalho e amor que se estabelece entre Jackson Maine (Cooper) e Ally (Gaga): ele, um cantor consagrado que vai escondendo do público o seu alcoolismo; ela, uma cantora e compositora que sobrevive como empregada de um restaurante, cantando por vezes num bar de travestis... Do seu encontro casual nasce um genuíno melodrama.
Melodrama? A palavra tornou-se suspeita para muitos espectadores, em grande parte por efeito de uma cultura audiovisual (de raiz televisiva e novelesca) que ignora a pluralidade histórica do cinema. De facto, na sua raiz mais pura, o melodrama é um género sem nada de pitoresco ou superficial: no seu seio deparamos com a complexidade das relações humanas e, mais do que isso, com a (im)possibilidade de cada ser cumprir aquilo que imagina ser o seu destino. Tudo isso, muitas vezes, precisamente, envolvido com as matérias musicais.
É o que aqui acontece. Cooper teve o cuidado de rodar as cenas com canções em ambientes tão realistas quanto possível (incluindo o festival inglês de Glastonbury e o Shrine Auditorium, em Los Angeles). Mais do que isso: o elaborado trabalho de montagem reforça o facto de tais canções não “interromperem” a história de Jackson e Ally, funcionando antes como momentos que reforçam, sublinham ou transfiguram os seus afectos e emoções — nesse aspecto, o tema Shallow surge exemplarmente encenado.
Que podemos esperar do impacto de Assim Nasce uma Estrela? Será que voltaremos a especular sobre o possível “retorno” do musical, mesmo não esquecendo que estamos antes perante um drama com música?
Não creio que essa seja a questão mais pertinente. Acima de tudo, a feliz aliança artística Bradley Cooper/Lady Gaga vem provar que é possível fazer filmes com raízes em modelos do imaginário popular, sem ceder às facilidades de uma produção instalada nas rotinas de géneros dependentes da banal ostentação de efeitos especiais. Nesta perspectiva, Assim Nasce uma Estrela é um digno herdeiro das memórias dos seus antepassados — trata-se, afinal, de contar uma “velha” história, repensando-a para o presente.

St. Vincent e o piano de Thomas Bartlett

Prodigiosa reinvenção de Masseduction, o novo álbum de St. Vincent, Masseducation, é também uma celebração de novas alianças entre piano e voz. O tema Savior pode servir de exemplo modelar — ei-lo, ao vivo, em Los Angeles [The Belasco] com Annie Clark na companhia de Thomas Bartlett [só disponível no YouTube].

terça-feira, outubro 16, 2018

"Furacão Leslie levou ministros de Costa"

"Durante a passagem do furacão Leslie, as televisões entraram em competição para ver quem tinha a repórter mais desgrenhada pelo vento..." — preciosas informações, objectivas e pedagógicas, sobre o país real na edição de hoje do Portugalex.