terça-feira, junho 25, 2019

A Lua na cultura popular
— SOUND + VISION Magazine [ 29 Junho ]

Da música ao cinema, passando pela literatura, a Lua pertence ao imaginário popular: em vésperas de se completarem 50 anos sobre o primeiro desembarque lunar [Apollo 11], propomos uma revisitação multifacetada da história da Lua através de filmes, canções & etc.

* FNAC, Chiado — 29 Junho (18h30).

segunda-feira, junho 24, 2019

Rolling Stones em Chicago

O regresso à normalidade — eis uma frase tele-radiofónica que costuma servir, por exemplo, para esclarecer que os adeptos de duas claques futebolísticas pararam com actos mais violentos e estão apenas a insultar-se... Não será bem a mesma coisa, mas está tudo normal com os Rolling Stones. Que é como quem diz: depois dos problemas cardíacos de Mick Jagger, a banda regressou aos concertos da digressão 'No Filter', apresentando-se no dia 21 no Soldier Field, em Chicago — a avaliar por este video oficial, valeu a pena.


>>> Crónica de Jeff Johnson no Chicago Sun-Times.

domingo, junho 23, 2019

30 anos de Batman

Foi a 23 de Junho de 1989 que Batman, de Tim Burton, teve a sua estreia oficial nos ecrãs dos EUA — faz hoje 30 anos.
Não era a primeira derivação cinematográfica do Homem-Morcego — para além de alguns "serials" de finais dos anos 40, existia um Batman, lançado em 1966, retomando o modelo da série televisiva do começo da década de 60, protagonizada por Adam West e Burt Ward (respectivamente como Batman e Robin). Em qualquer caso, o filme de Burton ficou como um momento decisivo na idade moderna dos super-heróis em cinema, por assim dizer sistematizando as hipóteses de espectáculo abertas pelo Superman (1978), de Richard Donner, com Christopher Reeve no papel central.
Três décadas depois, o mínimo que se pode dizer é que a síndrome Marvel mudou por completo a paisagem do género, quase sempre impondo uma lógica tecnicista em que a ostentação dos efeitos especiais banaliza as singularidades das personagens e, em última instância, menospreza os actores.
Devido a vários problemas conceptuais, em particular nos modos de utilização da música, o próprio Burton nunca se mostrou muito satisfeito com o filme que realizou. Uma coisa é certa: este é uma genuína narrativa de personagens em que o trabalho específico dos seus intérpretes desempenha uma função insubstituível — repare-se, aliás, no pormenor sintomático e delicioso de Jack Nicholson (Joker), então em momento alto de popularidade, ter a primazia nos cartazes, surgindo Michael Keaton, o "actor-herói", em segundo lugar.
Eis o trailer original e Batdance, uma das canções de Prince para a banda sonora.



Ed Sheeran ou a prisão virtual

Cross Me é uma canção do inglês Ed Sheeran que irá integrar o seu quarto álbum de estúdio, No.6 Collaborations Project (lançamento a 12 Julho). O respectivo teledisco, assinado pelo americano Ryan Staake, constitui um esclarecedor exemplo, de uma só vez fascinante e frustrante, de uma cultura de redundante apropriação formal, hoje em dia dominante, que tem em Sheeran um dos seus símbolos mais reveladores.
Por um lado, esta é uma música festiva, nascida da síntese intelectual de "todas" as referências disponíveis em décadas de pop rock, quase sempre fundidas (e simplificadas) através de mecanismos de rap; por outro lado, o seu cruzamento com os mais modernos e sofisticados recursos tecnológicos participa ainda do mesmo impulso festivo, mas acontece através de um metódico esvaziamento temático que, ironicamente ou não, já se libertou até das mais angustiadas perversões niilistas.
Observe-se o surpreendente labor de Staake. Mais do que explorar, uma vez mais, as possibilidades da figuração virtual, o teledisco encena a sua própria produção, de acordo com uma lógica que conhecemos bem desde a modernidade cinematográfica, especialmente através dos mecanismos brechtianos retomados por vários autores das novas vagas (exemplo possível: Uma Mulher É uma Mulher, realizado por Jean-Luc Godard em 1961).
Ao mesmo tempo, semelhante labor decorre apenas da consciência (?) da duplicidade que se coloca em cena — é essa, aliás, a "moral" da sequência final, com a intérprete assombrada pelas imagens do próprio Sheeran. Estranhamente, todo esse dispositivo inverte a noção corrente segundo a qual os aparatos virtuais correspondem — e, de alguma maneira, induzem — uma radiosa liberdade criativa. Em boa verdade, Cross Me parece esgotar-se na descrição de um sistema de aprisionamento técnico e formal em que, porventura de modo incauto, os criadores se encerraram.

sexta-feira, junho 21, 2019

Onde estão os espectadores de cinema?

Vasco Santana e Beatriz Costa
A CANÇÃO DE LISBOA (1933)
Os números oficiais do mercado cinematográfico apontam para uma realidade dramática: a base tradicional de espectadores está em decomposição. Neste contexto, o cinema português é uma parte importante, mas que não pode ser desligada do todo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Junho).

Segundo os números oficiais do Instituto do Cinema e do Audiovisual, no primeiro fim de semana de exibição (6/9 Junho), o filme X-Men: Fénix Negra foi visto por 32.714 espectadores. No mesmo período, Foxtrot, de Samuel Maoz, estreado na mesma data, atraiu 307 espectadores.
Panorama contraditório: um “blockbuster” rotineiro face a Foxtrot, retrato das nuances da identidade israelita que me parece um dos três ou quatro melhores filmes este ano lançados entre nós. Mas não se trata, aqui, de especular sobre o “gosto” (questão cuja complexidade educacional e política não cabe nestas linhas). Acontece que, na sociedade portuguesa, se instalou a noção pueril segundo a qual as estatísticas nos dão a conhecer as “opções” de fundo dos espectadores de cinema.
Vale a pena um simples exercício aritmético. Assim, X-Men esteve em 78 ecrãs, num total de 1230 sessões — quer isto dizer que conseguiu uma média de 26 espectadores por sessão. Foxtrot estreou-se numa única sala e teve 12 sessões — resultado: 25 espectadores por sessão. Conclusão linear: em termos proporcionais, os dois filmes tiveram um comportamento comercial idêntico.
Os mais poderosos discursos económicos reduzem a cultura cinematográfica à identificação das “escolhas” dos espectadores: onde os números forem mais elevados, aí está o “segredo” do mercado! Seria curioso exibir X-Men num único ecrã e lançar Foxtrot em 78 salas... E depois refazer as contas.
Ironizo, sim, ma non troppo. Resisto a números deslocados de qualquer contexto, ignorando a história cultural e comercial (é a mesma coisa) do cinema em Portugal. Partamos de uma evidência crua: para o desejável bom funcionamento do mercado cinematográfico, os números de X-Men e Foxtrot são fraquíssimos.
Resisto também a qualquer reflexão que pretenda encontrar soluções parcelares. Que soluções? Por exemplo, procurando a “recuperação” de espectadores para os filmes portugueses. Não discuto a boa fé de quem procura tais soluções, mas duvido da respectiva pertinência. A nossa incapacidade para, pelo menos, identificar o que está em jogo tem antecedentes muito antigos, a começar pela ilusão de que houve um período paradisíaco de sucesso do cinema português, marcado pelas “tradicionais” comédias com Vasco Santana, Beatriz Costa e António Silva.
Num livro intitulado O Cinema Português Nunca Existiu (ed. CTT), João Bénard da Costa escalpelizou tal equívoco, recordando que a chamada “idade de ouro” do cinema português (1931-54), “quando os filmes portugueses seriam a árvore das patacas”, não passa de um logro. “Nada mais falso”, escreve ele, analisando em particular a falência das Produções Lopes Ribeiro, lançadas com O Pai Tirano (1941). O livro foi editado em 1996, Bénard da Costa é por todos reconhecido como um pensador nuclear na história do cinema em Portugal, mas a simples inventariação de dados objectivos continua a ser substituída por um utopismo fácil, sem pensamento.
Aos números citados, podemos contrapor exemplos pontuais de performances comerciais de excepção (incluindo de algumas produções portuguesas). Mas nada disso nos garante uma resposta operativa à angústia central: onde estão, para onde vão, os espectadores de cinema?
O frágil mercado português vive, e vive mal, através dos modelos dominantes do comércio americano (o que, entenda-se, não exclui a celebração da excelência de muitas zonas do cinema dos EUA). Um sintoma drástico de tal processo é o desmantelamento da rede de salas tradicionais e o triunfo de uma cultura de multiplexes em que a relação de cada espectador com cada filme já (quase) nada tem a ver com qualquer valor cinéfilo.
Resta saber se, na nossa minúscula escala, podemos e sabemos sobreviver enredados no risco de implosão em que Hollywood passou a existir, promovendo os “blockbusters” a matriz compulsiva de produção, promoção e difusão. E quando escrevo a palavra “implosão” não a utilizo em função de qualquer especificidade crítica. A possibilidade de, a prazo, Hollywood entrar num processo de decomposição estrutural foi tema de uma conversa promovida pela Escola de Cinema da Universidade da Califórnia, já lá vão seis anos (12 de Junho de 2013). Não creio que a actual conjuntura internacional desminta essa possibilidade. Em qualquer caso, registe-se que quem lançou o alerta se chama Steven Spielberg.

A IMAGEM: Alas & Piggott, 2019

MERT ALAS & MARCUS PIGGOTT
Kate Moss
Armani (Outono/Inverno, 2019)

quinta-feira, junho 20, 2019

Na solidão de Sharon Van Etten

Mais um teledisco do álbum Remind Me Tomorrow: Sharon Van Etten expõe, agora, o labor requerido pelo impulso amoroso, num teledisco em que a solidão criativa se diz através da austeridade da arquitectura — é, além do mais, um dos grandes discos de 2019.

Yes there were japes recalling the years of lost paths
As you open the door and told me how you love me so much
The resistence to feelings was something that you've put down before
But keep quiet of it, as you could not face it anymore

Too much has changed, I can't let you walk in in the night
I wish away my love, leave with the dawn
Acting as if all the pain in the world was my fault
Leave me here, my love, don't say goodbye

No one's easy to love
Don't look back, my dear, don't be surprised
No one's easy to love
Don't look back, my dear, just say you tried

There was a question you asked: is your father a man?
No, but I think you should do ask of yourself the same
What is the difference between now and then I'm not sure
Prove me wrong, my dear, don't say I lied

No one's easy to love
[...]

quarta-feira, junho 19, 2019

"West Side Story", 2020

Um cartaz meramente indicativo e uma foto de rodagem — faltam 18 meses para a chegada do novo West Side Story, assinado por Steven Spielberg (em baixo, o trailer do original, uma produção de 1961 realizada por Jerome Robbins e Robert Wise).


terça-feira, junho 18, 2019

Orson Welles ou a arte de desenhar

O autor de O Mundo a Seus Pés deixou um legado impressionante de desenhos e pinturas. O crítico irlandês Mark Cousins teve acesso ao seu espólio, com ele construindo um fascinante retrato que é também um belíssimo exercício cinéfilo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Junho).

Que bom saber que (ainda) há quem cultive um gosto do cinema que não cedeu à vertigem do marketing e, em particular, não esquece que os filmes têm uma história longa, complexa e fascinante. O crítico irlandês Mark Cousins, por exemplo, é um protagonista desse gosto, continuando o seu paciente trabalho de revisitação de filmes e cineastas. Assim acontece no magnífico Os Olhos de Orson Welles (que foi, em 2018, um dos grandes acontecimentos da secção de Clássicos do Festival de Cannes).
Orson Welles
É provável que o leitor conheça a monumental História do Cinema: Uma Odisseia, obra de cerca de 15 horas em que Cousins retraça a evolução da criação cinematográfica, do período mudo às mais recentes convulsões tecnológicas (entre nós disponível em DVD, ed. Midas). Os Olhos de Orson Welles aplica uma estratégia semelhante. Trata-se de revisitar os marcos emblemáticos de um determinado universo — afinal de contas, Welles é autor de clássicos como O Mundo a Seus Pés (1941), A Sede do Mal (1958) ou O Processo (1962) —, ao mesmo tempo mostrando e demonstrando que, num certo sentido, continua tudo por descobrir.
Acontece que, graças à colaboração de Beatrice Welles, filha do cineasta, Cousins teve acesso a uma colecção imensa de desenhos e pinturas que Welles foi produzindo ao longo da sua vida profissional e, em boa verdade, privada. Do simples esboço a lápis aos tratamentos mais elaborados, Welles não só “antecipou” personagens, guarda-roupa e cenários dos seus filmes como foi criando imagens resultantes da observação dos lugares por onde passava e até mesmo dos espectáculos a que assistia.
O resultado é um belíssimo exercício cinéfilo. Dir-se-ia um documentário capaz de integrar as nuances de um ensaio crítico e as perplexidades de uma demanda filosófica. Isto porque, além do mais, Cousins organiza Os Olhos de Orson Welles, não como uma “descrição”, antes em forma de carta dirigida... ao próprio Welles: “Será que os teus esboços, caro Orson, revelam o teu inconsciente?”