sexta-feira, junho 26, 2026

“Isto não é Mick Jagger”

O novo teledisco dos Rolling Stones foi feito por Inteligência Artificial? Digamos antes que é artificial e inteligente — eate texto foi publicado no Diário de Notícias (19 junho).

Se conseguirmos manter alguma lucidez no meio da histeria informativa que nos rodeia, todos os dias sustentada pelo pior que as televisões vão fabricando, convenhamos que não é fácil termos alguma noção consistente sobre o que é (ou pode ser) a utilização desse novo prodígio, fascinante e monstruoso, que é a Inteligência Artificial (IA). Não que possamos, de forma lúcida, precisamente, ignorar os perigos assustadores do seu desenvolvimento. Em qualquer caso, há uma diferença entre informar sobre tais perigos e utilizar a IA como sinónimo de um apocalipse anunciado.
Não quero, com este desabafo, atrair generalizações apocalípticas nem redentoras. Já basta o que basta. Foco-me apenas num acontecimento muito particular: o novo teledisco da canção In the Stars, tema do 25º álbum de estúdio dos Rolling Stones, Foreign Tongues, com lançamento marcado para 10 de julho. E dou-me conta da facilidade com que a sua descrição automática — “um teledisco fabricado pela IA” — tende a circular como uma espécie de rótulo compulsivo.
Enfim, é verdade que vemos Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood a interpretar In the Stars, sendo também verdade o seu contrário: aquilo que vemos não foi filmado com os elementos dos Rolling Stones. Aliás, mesmo descobrindo o teledisco no mais completo desconhecimento sobre a sua produção, rapidamente desembocamos num insólito beco sem saída: quem é este Mick Jagger, com ar e pose da década de 1980... numa canção composta em 2025 ou 2026?


Deparamos, assim, com um curioso bloqueio de linguagem. Dizemos que o teledisco “foi filmado”, mas a própria expressão deixou de ser adequada para lidarmos com objectos como este. Em termos esquemáticos, passámos a viver num universo de imagens em que aquilo que vemos não resulta necessariamente da presença de uma câmara frente a uma determinada acção física e humana.
Que aconteceu, então? Pois bem, o director do teledisco, o francês François Rousselet, começou com uma outra banda, os londrinos Hot Property, filmando-os a interpretar a canção dos Stones. “Emprestaram” os seus corpos à energia de In the Stars — aplicando a gíria tecnológica, foram “stand-ins”. Depois, os rostos jovens de Jagger, Richards e Wood foram “aplicados” nas imagens dos Hot Property — esse trabalho foi executado pela Deep Voodoo, empresa fundada em 2020 por Matt Stone e Trey Parker, criadores da série de animação South Park.
Em termos práticos, não necessariamente técnicos, o processo não será muito diferente daquele que James Cameron utilizou na concepção original, e respectivas derivações, do seu Avatar (2009). Os resultados podem também fazer lembrar as técnicas de “rejuvenecimento” (“de-aging”) que Martin Scorsese usou em O Irlandês, para figurar Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci algumas décadas antes da acção principal do filme; em todo o caso, com uma diferença importante: os intérpretes das personagens foram sempre os próprios actores.
Bem sabemos que há vozes muito respeitáveis (Tom Hanks, Scarlett Johansson, Cate Blanchett, etc.) que em diversos contextos têm denunciado a eventual manipulação industrial de imagens de actores e actrizes através da IA como uma ofensa ao respectivo trabalho e, em rigor, um crime contra a criação artística. Acontece que no exemplo de In the Stars são os próprios artistas a “assinar” a irónica transfiguração das suas imagens — um pouco à maneira de René Magritte quando, há quase um século (1929), pintou um cachimbo com a legenda “Isto não é um cachimbo”.
RENÉ MAGRITTE
A Traição das Imagens
(1929)

quinta-feira, junho 25, 2026

A arte do suspense [Steven Spielberg]

Como nasce o suspense no interior de uma cena de um filme? Eis um belo exemplo de O Dia da Revelação, explicado pelo próprio Steven Spielberg em depoimento para o New York Times. Com uma curiosa rima pessoal — ou seja, a evocação de uma situação premonitória de Duel/Um Assassino pelas Costas (1971).
 

terça-feira, junho 23, 2026

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, 1966

Lançado há 60 anos, o primeiro filme realizado por Mike Nichols é uma referência modelar da história imensa, plena de contrastes, das relações teatro/cinema. A partir da peça de Edward Albee, com o par Elizabeth Taylor/Richard Burton no centro dos acontecimentos (sem esquecer o brilhante contraponto de George Segal e Sandy Dennis), eis um filme cuja teatralidade não é um decalque, antes uma transfiguração do espaço e do tempo cuja energia começa, obviamente, nos diálogos do texto original. A rever, sempre, combatendo a preguiça (ou a banal ignorância) dos que gostam de dizer que os filmes "antigos" estão muito "datados"...

domingo, junho 21, 2026

SOUND + VISION Magazine
[ Junho + Julho ]

[ Jesca Hoop ]

Numa sessão em que evocámos os "nossos" dois Festivais da Primavera — Eurovião + Cannes —, houve lugar para os obrigatórios destaques e também para novas músicas de Laura Misch e Jesca Hoop. Aqui ficam alguns dos videos que partilhámos: Bangaranga, a canção búlgara vencedora da Eurovisão, o trailer de Fatherland, um dos momentos altos na Côte d'Azur, e um dos temas do novo álbum de Jesca Hoop.
A próxima sessão já está marcada:

MILES DAVIS, 100 anos
FNAC Chiado
11 julho





Adult Jazz, 2016

O extraordinário Earrings Off!, dos ingleses Adult Jazz, foi lançado há dez anos — assinalemos a efeméride, celebrando a impossibilidade de os encerrarmos num rótulo definitivo.
 

sábado, junho 20, 2026

Miles Davis, 1991

[ poster de Max Bill ]

Recordemos Summertime, por Miles Davis, no Festival de Montreux de 1991. Ficou como uma das suas performances mais lendárias, e também mais carregada de emoções. Com a orquestra de Quincy Jones, tratou-se de uma evocação/homenagem a partir de temas temas arranjados por Gil Evans. Aconteceu a 8 de julho de 1991; Miles faleceu algumas semanas mais tarde, a 28 de setembro, em Santa Monica, Califórnia — contava 65 anos.
 

Festivais da Primavera
* SOUND + VISION Magazine [hoje, 20 junho]

Depois dos mês de maio de cada ano, um balanço das canções da Eurovisão e dos filmes de Cannes já faz parte da tradição das sessões Sound+Vision — cumpriremos a tradição, recordando imagens e sons que ficam na memória.

>>> FNAC / Chiado — 20 de junho (17h00).

sexta-feira, junho 19, 2026

The Obama Presidential Center foi inaugurado

O projecto cultural do Presidente Barack Obama já foi inaugurado: concebido como um cruzamento de museu, biblioteca e espaço educacional, The Obama Presidential Center surge, agora, na paisagem de Chicago, como prolongamento de uma viagem humanista, política e simbólica, para lá dos oito anos da presidência de Obama.
Os artistas musicais que participaram na festa de abertura (18 junho) reuniram-se, no final, para cantar Higher Ground, um clássico de Stevie Wonder — ele mesmo conduziu as operações, na companhia de Jennifer Hudson, Bruce Springsteen, Eddie Vedder, John Legend, Common e The Roots. Em baixo, fica também um breve video de apresentação do novo centro.
 


Rolling Stones — o podcast

O álbum é, dizem eles, falado em "línguas estrangeiras". Daí a decisão muito lógica: para acompanhar o lançamento de Foreign Tongues (10 julho), os Rolling Stones decidiram criar o seu primeiro podcast. São novas aventuras da terceira idade — começa no dia 25 de junho e já tem trailer.
 

quinta-feira, junho 18, 2026

Toy Story 5: a canção de Jessie

I Knew It, I Knew You, a canção de Taylor Swift para a banda sonora de Toy Story 5 surge como uma peça indissociável da afirmação da personagem de Jessie, uma cowgirl com a voz de Joan Cusack, como a verdadeira figura central do novo filme com chancela da Pixar — daí o teledisco feito a partir de imagens de Jessie ao longo das aventuras dos filmes anteriores, com Swift a reencontrar a energia das suas raízes country.