terça-feira, dezembro 10, 2019

Garrel filma Garrel

Louis Garrel e Laetitia Casta
Na sua segunda longa-metragem como realizador, Um Homem Fiel, Louis Garrel afirma-se como um delicado observador dos desejos humanos; além do próprio Garrel, o elenco inclui os nomes de Laetitia Casta e Lily-Rose Depp — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 Dezembro).

Seja qual for o seu conhecimento do imenso, contrastado e fascinante património do cinema francês, o leitor conhece o lugar-comum: os franceses seriam especialistas em histórias ligeiras, sentimentais, tendencialmente fúteis, sobre as relações amorosas… Convenhamos que Um Homem Fiel, o novo filme de Louis Garrel, na dupla condição de actor/realizador, se pode prestar ao reforço desse lugar-comum.
Estamos, de facto, perante uma trama minimalista, desconcertante e, em boa verdade, atraindo algum absurdo. Este é o retrato íntimo de um triângulo bizarro, aliás, exemplarmente caracterizado na sinopse oficial do filme: Marianne (Laetitia Casta) deixa o jornalista Abel (Louis Garrel), por Paul o melhor amigo deste, de quem está grávida. Oito anos mais tarde, Paul morre e Abel e Marianne voltam um para o outro. Contudo, esta nova relação vai desencadear ciúmes tanto no filho de Marianne, Joseph, como na irmã mais nova de Paul, Ève (Lily-Rose Depp), a qual tem, desde jovem, uma paixão secreta por Abel.
Que acontece, então? Pois bem, vale a pena não ficarmos pela preguiça das aparências. Importará dizer que o triângulo “amoroso” se vai transfigurando, de facto, num quadrilátero, já que o papel do misterioso e, em alguns aspectos, inquietante Joseph (Joseph Engel) está longe de ser secundário. Sugerindo a Abel que a sua mãe matou Paul, ele vai-se insinuando nas relações entre os adultos como um desconcertante corrector de emoções.
A partir daqui o lugar-comum deixa de funcionar. Na verdade, neste seu segundo trabalho como realizador (assinara Os Dois Amigos, em 2015), Garrel apresenta-se como legítimo, e muito talentoso, herdeiro de uma tradição romanesca (romântica, ma non troppo) apostada em iluminar os movimentos mais misteriosos dos desejos humanos — desejos sexuais, sem dúvida, mas sobretudo desejos de comunicação de uma intimidade com outra intimidade.
Há em Um Homem Fiel uma ambiência peculiar em que os sinais realistas do quotidiano parecem atrair efeitos de sinal contrário, surreais e oníricos. Podemos até sugerir que tal ambiência não será estranha à participação de Jean-Claude Carrière na escrita do argumento, ele que foi fundamental colaborador de alguns títulos de Luis Buñuel (1900-1983), incluindo o prodigioso Belle de Jour (1967), precisamente marcados por esse ziguezague entre o vivido e o sonhado.
Eric Rohmer
Ainda assim, se há modelo francês que podemos evocar a propósito de Um Homem Fiel, creio que o encontramos na obra de Eric Rohmer (1920-2010), autor de filmes como A Minha Noite em Casa de Maud (1969) ou O Raio Verde (1986), em que as relações entre as personagens se vão moldando através de cumplicidades e rupturas que passam sempre pela sedutora vibração das palavras.
Nessa medida, tudo passa também pela qualidade das interpretações, do próprio Garrel, muito para lá de qualquer vedetismo fácil, e também das protagonistas femininas: Laetitia Casta, símbolo de uma fotogenia eminentemente francesa e presença de inusitada subtileza emocional, e Lily-Rose Depp, filha de Johnny Depp e Vanessa Paradis que, decididamente, possui um talento muito pessoal, sem necessidade de cauções paternas. Além do mais, já há algum tempo que não víamos (aliás, ouvíamos) diálogos tão elaborados, enraizados na banalidade do quotidiano e, ao mesmo tempo, mobilizando os mistérios indizíveis dos corpos e das almas.

segunda-feira, dezembro 09, 2019

Rolling Stones: Let it Bleed, 50 anos
— SOUND + VISION Magazine [ 14 Dez. ]


Foi o último álbum dos Rolling Stones em que Brian Jones ainda participou: assinalamos os 50 anos do lançamento de Let it Bleed, evocando os caminhos criativos da banda, em estúdio e em palco — com algumas variações musicais e cinéfilas sobre o tempo em que tudo aconteceu.

* FNAC, Chiado — 14 Dezembro (18h30).

A América de Mark Power

Dentro e fora das cidades, observando as pessoas, deparando com a ausência de pessoas... Mark Power, fotógrafo da agência Magnum, percorreu os EUA ao longo de uma década para dar conta do estado das coisas, visando a produção de um conjunto de seis álbuns sob o título Good Morning, America — o volume um já foi editado e é um invulgar e fascinante acontecimento iconográfico.

domingo, dezembro 08, 2019

No labirinto de Stanley Kubrick

A obra-prima de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados, está de volta em cópia restaurada: 20 anos depois, é também uma redescoberta fascinante do casal Tom Cruise/Nicole Kidman — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Dezembro).

Muitos espectadores terão o filme final de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados, em DVD ou Blu-ray. E não há dúvida que este é um daqueles casos em não podemos deixar de sublinhar a impecável qualidade das respectivas edições. Seja como for, nada pode substituir a vibração, a intensidade e o mistério de De Olhos Bem Fechados no ecrã de uma sala escura. Pois bem, a boa notícia é que a obra-prima de Kubrick está de volta numa reposição em cópia restaurada (que se anuncia, para já, para Lisboa, Porto, Coimbra e Braga).
Assinala-se, assim, uma efeméride. Foi há 20 anos que surgiu o filme que, como titulava a revista Time na sua edição de 5 de Julho de 1999, nos revelava o então casal Tom Cruise/Nicole Kidman para além de todas as imagens conhecidas. Assim mesmo: “Cruise & Kidman como nunca os viram”.


E não era caso para menos. Ao transpor para o presente a trama de uma novela de Arthur Schnitzler publicada em 1926 (Traumnovelle), Kubrick não se limitava a fazer uma “transposição” da Viena do princípio do século para a Nova Iorque da década de 1990. A história de traição e fidelidade vivida pelo Dr. William Harford e a sua mulher Alice (Cruise & Kidman) é, afinal, um eterno conto moral sobre os labirintos do desejo humano.


Filmado em Inglaterra, onde Kubrick viveu desde a rodagem do seu Lolita (1962), De Olhos Bem Fechados é também uma ilustração extrema do invulgar poder de produção do seu autor. De facto, o perfeccionismo do cineasta fez com que a rodagem se estendesse por mais de um ano e meio (entre novembro de 1996 e junho de 1998), além do mais obrigando os protagonistas a alterarem diversos compromissos com outras rodagens. Isto sem esquecer que os trabalhos de cenografia envolveram minuciosas reproduções de algumas ruas de Greenwich Village nos estúdios de Pinewood, nos arredores de Londres.
O processo de conclusão do filme [título original: Eyes Wide Shut] acabaria por desembocar num perturbante desenlace. De facto, foi no dia 1 de Março de 1999 que Kubrick organizou a primeira projecção da montagem final de De Olhos Bem Fechados, convocando o casal de protagonistas e os dirigentes da Warner (estúdio produtor); seis dias mais tarde, sofreu um ataque cardíaco e morreu durante o sono — contava 70 anos.
Há em De Olhos Bem Fechados qualquer coisa de bailado trágico sobre o amor, a sua radiosa possibilidade ou tão só a sua impossibilidade. E a palavra “bailado” está longe de ser banalmente metafórica, já que, tal como em outros momentos emblemáticos da filmografia “kubrickiana”, este é um filme em que a música desempenha um fundamental papel de enquadramento dramático. Entre as composições mais célebres que se escutam em De Olhos Bem Fechados está a Valsa nº 2 da Suite para Orquestra de Variedades composta por Dmitri Shostakovich em 1938 (vulgarizada pela designação de Suite para Orquestra de Jazz). Isto sem esquecer que Baby Did a Bad Bad Thing, canção de Chris Isaak (do álbum Forever Blue, 1995), ficou como emblema erótico do próprio filme.

"A Favorita" vence
Prémios do Cinema Europeu

A 32ª edição dos Prémios do Cinema Europeu, realizada em Berlim, consagrou A Favorita, título que conseguiu mesmo um raro triunfo nas categorias de melhor filme e melhor comédia de 2019. O filme de Yorgos Lanthimos foi ainda distinguido nas categorias de realização, actriz (Olivia Colman), fotografia, montagem, guarda-roupa e caracterização; Antonio Banderas recebeu o prémio de melhor actor por Dor e Glória, de Pedro Almodóvar; o prémio revelação foi para Os Miseráveis, de Ladj Ly — lista integral de nomeações e vencedores no site oficial da Academia do Cinema Europeu.

sábado, dezembro 07, 2019

Ron Leibman (1937 - 2019)

Secundário de metódico talento, o actor americano Ron Leibman faleceu no dia 6 de Dezembro, em Nova Iorque, na sequência de complicações motivadas por uma pneumonia — contava 82 anos.
Entre os momentos altos da sua carreira teatral, destaca-se a composição da personagem de Roy Cohn na peça Anjos na América — com ela ganhou, em 1993, um prémio Tony. Muito conhecido também através da sua participação na série televisiva Friends (1996-2004), teve no cinema uma presença quase sempre discreta, mas plena de versatilidade. Entre os seus papéis mais importantes contam-se as participações em O Grande Golpe (1972), de Peter Yates, Matadouro 5 (1972), de George Roy Hill, Norma Rae (1979), de Martin Ritt, O Grande Zorro (1981), de Peter Medak, O Lado Obscuro da Lei (1996), de Sidney Lumet, Velocidade Pessoal (2002), de Rebecca Miller, e Auto Focus (2002), de Paul Schrader, este comercialmente inédito no mercado português. No seu derradeiro trabalho, deu voz à personagem de Ron Cadillac na série animada para adultos Archer (2013-2016).

>>> Trailer de O Grande Golpe [com o World Trade Center em fase de construção].


>>> Entrega do prémio Tony por Anjos na América.


>>> Trailer da segunda temporada de Archer.


>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

EOB, aliás, Ed O'Brien

Há qualquer coisa de místico a viajar pelas músicas de Ed O'Brien. O guitarrista dos Radiohead anunciou, para 2020, o seu primeiro álbum a solo, utilizando a sigla EOB. Para já, aqui estão dois temas sedutores, Santa Teresa e Brasil, por certo recheados de memórias do tempo em que O'Brien viveu com a família em terras brasileiras.



sexta-feira, dezembro 06, 2019

A IMAGEM: Anton Corbijn, 2019

ANTON CORBIJN
Eva Herzigova
'The Art of Armani' / The Sunday Times, 1 Dez. 2019

Billie Eilish, Xanny

E aqui está mais um magnífico teledisco referente ao álbum When We All Fall Asleep, Where Do We Go?. Desta vez, Billie Eilish assume ela própria a realização para se encenar numa solidão assombrada pela banalização do Xanax, e também o fumo dos outros... Grande canção, além do mais — eis Xanny.

What is it about them?
I must be missing something
They just keep doing nothing
Too intoxicated to be scared
Better off without them
They're nothing but unstable
Bring ashtrays to the table
And that's about the only thing they share

I'm in their second hand smoke
Still just drinking canned coke
I don't need a xanny to feel better
On designated drives home
Only one who's not stoned
Don't give me a xanny now or ever

Waking up at sundown
They're late to every party
Nobody's ever sorry
Too inebriated now to dance
Morning as they come down (come down)
Their pretty heads are hurting (hurting)
They're awfully bad at learning (learning)
Make the same mistakes, blame circumstance

I'm in their second hand smoke
Still just drinking canned coke
I don't need a xanny to feel better
On designated drives home
Only one who's not stoned
Don't give me a xanny now or ever

Please don't try to kiss me on the sidewalk
On your cigarette break
I can't afford to love someone
Who isn't dying by mistake in Silver Lake

What is it about them?
I must be missing something
They just keep doing nothing
Too intoxicated to be scared
Hmm, hmm
Hmm, hmm
Hmm, mmm
Come down, hurting
Learning

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Uma lição jornalística de Nancy Pelosi

Nancy Pelosi
1. A degradação dos padrões jornalísticos não fez desaparecer o próprio jornalismo. O certo é que tal degradação, transversal e multinacional, raras vezes é enfrentada pela própria comunidade jornalística. Como se reafirmar a deontologia e os valores jornalísticos fosse um sinal de enfraquecimento.

2. Felizmente (ou infelizmente), ainda há quem, na classe política, não se deixe submeter à desvergonha do jornalismo fulanizado e provocador, apenas à procura da agitação pela agitação. Aconteceu hoje, quando a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, anunciou a passagem à fase seguinte do processo de destituição de Donald Trump [notícia: DN]. Quando um jornalista lhe perguntou se ela "odeia Trump", Pelosi teve a reacção firme e pedagógica de quem não se submete à obscenidade mediática [video].

3. Nada disto, entenda-se, envolve qualquer desvalorização do papel de informação, investigação e escrutínio que a classe jornalística pode e deve desempenhar (e que, obviamente, em muitos casos, continua a desempenhar). O que está em causa é a resistência a esse comportamento que combina a irresponsabilidade profissional e a vulgaridade humana.

Lautréamont lido por Sollers

FOTO: Franck Ferville
PHILIPPE SOLLERS
Lógica do francês — assim se intitula um filme de G.K. Galabov e Sophie Zhang em que Philippe Sollers define, percorre e celebra a língua francesa como paisagem e instrumento de um desejo de lógica que se materializa através da concisão da matemática. Daí o ziguezague poético, poeticamente inquietante, que nos é proposto: Sollers lê Lautréamont (1846-1970), ao mesmo tempo que as imagens (e os sons) evocam J. Robert Oppenheimer (1904-1967) e a bomba atómica.
Para ver e escutar, porventura também em ziguezague com a leitura do mais recente romance de Sollers, Le Nouveau.

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Emmanuel Macron
e a violência contra as mulheres

1. Na sua edição de 25 de Novembro, o jornal Libération publicou um artigo intitulado: 'No tribunal, Macron escuta uma vítima "sob o domínio" de um marido violento'. O texto relata uma das sessões organizadas pelo Presidente da França, decorrente do seu empenho em reforçar as políticas de combate à violência doméstica. Neste caso, tratou-se de um diálogo realizado numa pequena sala do tribunal de Créteil, na presença de apenas dois jornalistas, garantido à mulher escutada por Emmanuel Macron a não divulgação da sua identidade, sendo apenas referida pelo nome fictício "Hélène".

2. Escusado será sublinhar o valor social e pedagógico da atitude de Macron e a importância da sua cobertura jornalística. O artigo começa, aliás, de uma forma que condensa, com certeiro didactismo, aquilo que está em jogo:

>>> "Ainda tem medo?", pergunta-lhe o presidente. "Sim. Mas quis encontrar-me consigo porque isso pode ajudar outras mulheres".

3. Nada disso, creio, pode ou deve impedir o (re)lançamento de uma reflexão que, a meu ver, está quase sempre ausente dos próprios meios de comunicação. A saber: que discurso (jornalístico, justamente) se constrói a partir de temas como este e situações como a que aqui é noticiada?

4. Veja-se a chamada do artigo disponível na página de entrada do site do Libération [no topo deste post]: na base de uma foto de Macron podemos ler um destaque de maiúsculas brancas em fundo vermelho: "VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES". Aliás, a mesma foto, ainda com mais peso visual, ilustra o próprio texto.


5. Perversamente, poderá perguntar-se: estará o jornal a sugerir que o próprio presidente é, de alguma maneira, protagonista do tema em destaque? Nada disso, como é óbvio. Não se trata de brincar com coisas sérias, apenas de reconhecer um exemplo francamente pouco feliz de aplicação de uma imagem concreta e da sua articulação com as palavras escritas.

6. Qual seria a imagem "ideal" para ilustrar o artigo? Não sei. Nem creio que a pergunta seja pertinente: as infinitas discussões (?) sobre aquilo que o jornalismo poderia ou deveria ser desencadeiam, todos os dias, o mesmo inglório efeito. A saber: recalcar qualquer pensamento construtivo sobre o jornalismo que, realmente, se faz.

7. Este exemplo não põe em causa a pertinência do tema nem a boa fé do Libération. É tão só um sintoma benigno do nosso contexto mediático & global: todos repetimos que "vivemos num mundo de imagens" mas, com perturbante frequência, as imagens são descartadas como coisa banal e inconsequente.