terça-feira, novembro 03, 2026

O filmes não são "gravados"
— ou a ditadura da linguagem das telenovelas

Livremente inspirado em factos reais
Operação TAP: o primeiro filme da Netflix
em Portugal já está em gravações 

[ título de comunicado para a imprensa sobre Operação TAP ]


1. O que choca não é a miséria dos filmes. Neste caso, aliás, trata-se de um filme que ainda só existe como projecto e não se duvida que haja razões parar aguardar um resultado, no mínimo, interessante.

2. O que choca é a miséria cognitiva da linguagem — e a sua absoluta ignorância do cinema como história e património.

3. Ignorância de quem faz os filmes? Não, ignorância de quem os divulga e promove, ou seja, as gloriosas agências de "comunicação" em que, salvo raras excepções, deparamos todos os dias com um apoteótico desconhecimento da identidade cultural das matérias que tratam.

4. Sobre essas agências não diríamos, por certo, que "mastigam" informação — seria grosseiro e ofensivo para o trabalho dos repectivos profissionais. Pois bem, é altura de lembrar que os filmes não se "gravam" — são objectos que se filmam. Durante acontecimentos a que damos o nome de filmagens ou rodagens.

5. "Gravar" como algo que implica a participação de determinados profissionais (técnicos, actores, etc.) é uma vulgaridade técnica e artística que pertence à linguagem das telenovelas, essa praga narrativa que, ao longo de quase meio século, tem contribuído para a consolidação de um público que, de facto, desconhece em absoluto as singularidades do cinema (pior um pouco: um público condicionado pela avassaladora mediocridade "social" de influencers e respectivas reencarnações, desconhecedores da riqueza e complexidade de tudo aquilo que abordam sem um mínimo de contenção e pudor).

6. Não se espera que um simples filme, seja ele qual for, possa libertar-nos de tal praga — era preciso uma reconversão, não apenas de mentalidades, mas de todo um sistema de produção que está tragicamente parasitado pelos valores industriais e narrativos das novelas, para mais com a proteção das mais medíocres formas de jornalismo.

7. Em todo o caso, para quem lida com matérias do chamado audiovisual seria de esperar que, no mínimo, conhecesse as singularidades das linguagens que aplica. É uma questão cultural de fundo. E para evitar as visões piedosas, convém lembrar que cada vez que um de nós, seja quem for, usa a palavra "cultura", isso não significa que estejamos a falar do mesmo — a cultura é sempre uma guerra de linguagens.

segunda-feira, novembro 02, 2026

Simone de Beauvoir, o existencialismo e Deus

Sartre e Beauvoir
Numa entrevista de 1959, Simone de Beauvoir fala da atitude existencialista perante a questão de Deus, afinal falando de uma consciência que resiste à abstração das ideias e dos gestos humanos, incluindo algumas referências subtis a O Ser e o Nada, de Sartre — meia dúzia de preciosos minutos.

Alanis Morissette, Rest

Publicada em 2021, Rest é uma canção de Alanis Morissette agora relançada em single. Trata-se de uma uma versão de contagiante energia, num espectáculo em Londres, com a participação do coro Trans Voices.
 

domingo, novembro 01, 2026

Edvard Grieg por Vladimir Feltsman

[ Wikipedia ]

As Peças Líricas do compositor norueguês Edvard Grieg, publicadas entre 1867 e 1901, constituem uma referência nuclear de um espírito romântico que, com o passar do tempo, transcendeu qualquer nomenclatura tradicional ou enquadramento académica. Interpretadas pelo pianista russo-americano Vladimir Felstman, surgem agora num triplo CD (Nimbus) que ficará, por certo, como uma das grandes edições de 2026 — eis um exemplo do lirismo que nos enlaça [Livro 2, Op. 38: VIII. Canon. Allegretto con moto].
 

O Homem que Veio do Espaço, 50 anos

Foi há meio século. Entre as efemérides cinematográficas deste ano, The Man Who Fell to Earth/O Homem que Veio do Espaço (1976), de Nicolad Roeg, é, por certo, um dos exemplos mais desconcertantes. Pela encenção quase kitsch da visita de um alien humanóide ao planeta Terra e também pelo facto de David Bowie, no papel central, ter encontrado aqui uma pose e uma matriz que pontuaram diversos aspectos da sua carreira posterior.
No Reino Unido, vai ser reposto em cópias restauradas, assinalando 50 anoa de um projecto que acabou por ter influências marcantes em diversas experiências de ficção cientítica — será que Portugal também está na lista desta reposiões?

sábado, outubro 31, 2026

Bryan Adams vs. Donald Trump

Quando um ícone do rock'n'roll que desfruta de uma audiência planetária utiliza o seu poder comunicacional para dar conta dos abusos de poder de Donald Trump, importa dizer que há, continua a haver, uma cultura popular que não desiste de apontar, com serenidade e veemência, as monstruosidades que circulam por algumas linguagens políticas.
Aí está Bryan Adams a lembrar que o seu país, o Canadá, não é nem será o 51º estado dos EUA — a canção chama-se 51st. State e faz parte do alinhamento do seu novo álbum, How's It Goin' (6 novembro).
 

Mathieu Roger-Lacan — o desejo da escrita

Como chegámos a um ponto em que a agilidade da fala passou a existir através de uma assustadora decomposição da escrita? Que é feito do desejo de escrever?
Mathieu Roger-Lacan coloca essas questões de forma directa e construtiva, a propósito do seu livro Une Langue à Soi — questão francesa, questão universal (no programa Quotidien, de Yann Barthès, no canal TMC).

sexta-feira, outubro 30, 2026

Duran Duran, Notorious faz 40 anos
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje, 31 out.]

Com o álbum Notorious a celebrar 40 anos, revisitamos a história dos ingleses Duran Duran, banda lendária do pop rock que também escreveu uma canção para James Bond.

> FNAC Chiado, 31 outubro (hoje, 17h00).

Na companhia de Michel Foucault

Michel Foucault, le Philosophe et le Poisson Rouge (2024)

No centenário do nascimento de Michel Foucault, a sua herança parece tão longe, mas está aqui tão perto — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 outubro).

O filósofo francês Michel Foucault nasceu há 100 anos, mais precisamente no dia 15 de outubro de 1926. A sua herança, imensa e multifacetada, aberta a continuadas releituras e pensamentos, talvez se possa “resumir” no título do primeiro volume da sua História da Sexualidade. Ou seja: A Vontade de Saber (ed. Relógio D’Água, 1994, tradução de Pedro Tamen). Não exactamente a duplicação de um saber que pudesse estar solidificado nos anais milenares da história, antes um saber que se agita com as convulsões dessa história — um saber que acaba por fazer e refazer a própria noção de história, modificando os parâmetros do “homem”, porventura abalando as certezas da sua definição.
As Meninas (1656)

Lembrando um dos seus textos mais célebres — o capítulo de abertura de As Palavras e as Coisas (Edições 70, 2022, tradução de António Ramos Rosa) —, aí encontramos uma reflexão actualíssima sobre os poderes e limites do gesto artístico. Através de uma detalhada e obsessiva contemplação de As Meninas, o quadro de 1656 em que Diego Velázquez retrata a famíla do rei Flipe IV de Espanha (com o pintor a imiscuir-se na cena), Foucault revê o compromisso, explícito ou não, da arte com o poder, nessa medida abrindo uma nova reflexão, sobretudo uma reflexão diferente, em torno da noção de humanismo.
Numa entrevista com Madeleine Chapsal, publicada na revista La Quinzaine Littéraire, a 16 de maio de 1966 (o ano de publicação de As Palavras e as Coisas), esclarece a sua resistência ao humanismo vigente (hoje, talvez pudéssemos dizer: televisivo). São deles estas palavras: “Aquilo que me irrita no humanismo é que passou a ser a tela atrás da qual se refugia o pensamento mais reaccionário onde se formam alianças monstruosas e impensáveis.” Foucault aponta mesmo o “coração humano” como uma abstração, enquanto o labor da sua “geração” (a palavra é dele) “quer ligar o homem à sua ciência, às suas descobertas, ao seu mundo, que é concreto.”
Recentemente, descobri um filme magnífico sobre Foucault, capaz de construir de forma breve (52 minutos) um retrato que nos abre muitas e sedutoras perspectivas para percorrermos a sua obra. Produzido pela empresa Les Nouveaux Jours Productions, de Nantes, realizado por Lise Baron, intitula-se Michel Foucault, le Philosophe et le Poisson Rouge (2024), foi difundido pelo canal France 5, integrando também o catálogo de France Télévisions. O título remete para um episódio da infância de Foucault, em 1932, ao observar os peixinhos vermelhos do aquário que existe em sua casa: “Como eu gostava de ser um peixe, só por cinco minutos, só para saber como é que ele pensa.”
Aliás, ainda que respeitando a sua lógica documental, o filme arrisca usar fragmentos de desenhos animados para “reconstituir” alguns episódios da vida de Foucault, nomeadamente a viagem de 1975 ao Vale da Morte, na Califórnia, em que se conjugaram a reflexão filosófica e o LSD. Afinal de contas, a sua obra suscita, não apenas uma antologia de imagens (e há documentos preciosos sobre as causas, desde logo no ensino francês, que Foucault abraçou), mas um pensamento ousado sobre o uso das imagens — questão, ontem como hoje, igualmente pertinente em televisão ou cinema.
Evocando os dramáticos tempos finais de Foucault (morreu, vítima de sida, no dia 25 de junho de 1984), a voz off do documentário de Lise Baron formula, mais do que um epitáfio, os termos de uma genuína pedagogia da existência: “Talvez seja assim que morre um filósofo, tendo aprendido a nadar noutras águas, forjando a pouco e pouco um outro corpo, um outro destino, alargando sempre os limites da sua própria verdade.”

segunda-feira, outubro 26, 2026

Back to Black, 20 anos

Back to Black, segundo e último álbum de estúdio de Amy Winehouse (1983-2011), está a fazer 20 anos, ressurgindo numa edição muito especial — são três CD, incluindo demos inéditos, lados B e um concerto de 2007 no Paradiso de Amsterdão. Recordemos o tema-título, em Glastonbury, também em 2007.