sábado, janeiro 29, 2022

* David Bowie, esse desconhecido
— SOUND + VISION na FNAC [hoje, dia 29]

Nos 75 anos de David Bowie, evocamos o criador de Ziggy Stardust, celebrando os 50 anos da sua primeira performance e dando a ver imagens (e sons!) menos conhecidos — canções, filmes, fotografias...

>>> FNAC, Chiado — hoje, dia 29, 17h00.

sexta-feira, janeiro 28, 2022

Sophie Auster, Let's Get Lost

Fiel às raízes pop do seu universo, Sophie Auster tem uma nova canção: Let's Get Lost é um exercício confessional cujo ritmo não anula, antes reforça, uma pose de melancolia. Fabricado em plena pandemia, via Face Time, com o produtor Nick Block (ela em Nova Iorque, ele em Los Angeles), este é o primeiro tema de um álbum em preparação.

The Smile (não são os Radiohead)

Não são os Radiohead, mas lá encontramos Thom Yorke e Jonny Greenwood, na companhia de Tom Skinner (do grupo britânico de jazz Sons of Kemet). Assinam como The Smile e têm uma nova canção: faz lembrar os Radiohead, mas não é grave...

quarta-feira, janeiro 26, 2022

"A voz humana" [citação]

>>> A voz humana ressoa sempre em direcção a uma outra voz e a partir de uma outra voz, ou então numa outra voz. A sua ressonância sonora é indissociável de um movimento de destino e escuta: mesmo quando falo sozinho e silenciosamente "na minha cabeça" (como julgamos poder dizer), quer dizer, quando penso, ouço uma outra voz na minha voz, ou então ouço a minha voz a ecoar numa outra garganta.

JEAN-LUC NANCY
Éditions Galilée (Paris, 2001)

terça-feira, janeiro 25, 2022

O cinema corpo a corpo

Anamaria Vartolomei: não "todas" as mulheres,
mas a irredutibilidade de uma mulher

Com o filme O Acontecimento, de Audrey Diwan, o cinema francês reencontra uma dimensão eminentemente física da arte de filmar — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 janeiro).

No cinema, e sobre o cinema, circula um discurso normativo que tende a valorizar os filmes apenas em função dos “temas” que abordam, menosprezando as narrativas que, melhor ou pior, trabalham tais “temas”. Na prática, isso envolve uma automática desvalorização do trabalho crítico. Porquê? Porque a crítica, também melhor ou pior, tenta reconhecer e pensar a especificidade narrativa de cada filme.
Aliás, não simplifiquemos. Esta valorização dos “temas” está longe de ser um assunto particular do espaço cinematográfico. Em boa verdade, decorre de uma lógica dominante, por vezes chantagista, de “purificação” das narrativas, lógica que tem vindo a contaminar todas as dinâmicas culturais. Em tempos recentes, entre os seus motores estão as muitas atribulações em torno dos “temas” femininos e afro-americanos, na certeza de que o simples reconhecimento de tal facto continua a desencadear as paixões mais desencontradas.
Lembremos apenas o mais sensato, que é também, a meu ver, o mais produtivo: não se trata (bem pelo contrário!) de desvalorizar a importância política de tais “temas” e, mais do que isso, o seu insubstituível valor em diversas dinâmicas sociais deste nosso século XXI. Trata-se, isso sim, de não ceder ao endeusamento pueril das respectivas narrativas e à automática desresponsabilização dos seus agentes — a não ser que estejamos dispostos a aceitar, por exemplo, que o tratamento do “tema” do adultério pode colocar no mesmo plano a miséria narrativa (entenda-se: as rotinas de imagens e sons) de uma telenovela e os prodígios da escrita de Tolstoi em Anna Karenina.
São questões que, desde o seu triunfo no Festival de Veneza, têm acompanhado o filme francês O Acontecimento (Leão de Ouro em Veneza, há dias estreado em Portugal). Realizado por Audrey Diwan, tendo como base o romance autobiográfico de Annie Ernaux, nele seguimos a experiência dramática de uma jovem que, na França de 1963, em vésperas de entrar para a universidade, engravida e tenta fazer um aborto — na certeza de que, para lá da convulsão emocional da sua situação, pode ir parar à prisão.
Dizer que se trata de um filme “sobre” o aborto é uma preguiçosa facilidade. Desde logo, por uma questão básica de contextualização. A própria realizadora tem tido o cuidado de chamar a atenção para tal facto: “Um aborto clandestino nos anos 1960 nada tem a ver com o que se passa hoje. É de loucos pensar que não sabemos nada desse antigo processo” (entrevista a Rui Pedro Tendinha, publicada no DN, 5 janeiro).
Do mesmo modo, considerar que se trata de um filme sobre a “ilegalidade” do aborto é uma simplificação que o filme combate, ponto por ponto. Claro que o aborto que Anne quer fazer vai contra as regras do mundo em que vive a sua juventude, regras que decorrem não apenas das leis do Estado, mas também, como é óbvio, das normas morais socialmente dominantes. Em qualquer caso, isso não significa que o filme seja uma telenovela sobre uma personagem imaculada contra a “maldade” dos outros. Do ponto de vista político, O Acontecimento é mesmo um filme capaz de encenar o drama de Anne como uma tragédia que circula através de TODOS os discursos sociais, desde o espaço familiar ao exercício da medicina, incluindo o próprio pensamento “interior” de Anne.
Neste tempo dominado pelos rugidos de super-heróis digitais, literalmente sem corpo (ou virtualmente corporizados), a Anne filmada por Diwan é, em tudo e por tudo, uma raridade. E também um prodígio cinematográfico — criado pelos meios de uma narrativa cinematográfica, quero eu dizer.
Em anos recentes, poucas vezes temos podido descobrir algo semelhante, em intensidade e subtileza, à composição de Anne por Anamaria Vartolomei (actriz francesa nascida em 1999, em Bacau, Roménia). A vibração emocional da sua personagem não pode ser desligada da dimensão eminentemente física do seu trabalho, dando-nos a ver uma verdade identitária que, sendo feminina, nada tem a ver com a redução de uma personagem de mulher a símbolo, muito menos bandeira, de “todas” as mulheres — é a sua irredutibilidade que circula pelo filme e, no limite, constrói o filme.
No interior da história do cinema francês, reencontramos, assim, a beleza trémula dos corpos que não podem ser reduzidos a nenhum padrão universal, seja ele de género, social ou político. Há em O Acontecimento o retomar de uma via de expressão que encontra um modelo essencial na filmografia de Maurice Pialat (1925-2003). E, neste caso, confesso que não posso deixar de ceder à tentação simbólica: Sandrine Bonnaire, que aos 16 anos protagonizou o admirável Aos Nossos Amores (1983), de Pialat, surge em O Acontecimento como a mãe de Anne. A história não se repete, mas continua.

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Memórias e utopia de Rodrigo Areias

Acácio de Almeida em Cinema/Vencidos da Vida

Rodrigo Areias percorre momentos emblemáticos da sua filmografia, construindo um filme que celebra o cinema e o desejo de filmar: Vencidos da Vida está nos TVCine — este texto foi publicado no Diário de Notícias (6 janeiro).

De que se faz o território particular de um cineasta? E, sobretudo, como é que esse território se define e auto-define? Ou ainda: como é que o cineasta desenha o seu próprio mapa?
Em boa verdade, a evolução de qualquer filmografia pessoal vai respondendo a tais questões: cada nova obra existe como uma forma de refazer, porventura expandir, negar ou renegar, a paisagem criativa do autor. Por vezes, isso acontece até num tom em que pedagogia rima com ironia — lembro o delicioso exemplo de Entrevista (1987), de Federico Fellini, com o autor de La Dolce Vita a “inventar” uma entrevista com uma equipa da televisão japonesa, num jogo de escondidas em que Fellini brinca com a percepção corrente do seu trabalho. Outras vezes, a memória privada confunde-se com a dramatização da identidade cinematográfica — veja-se o belíssimo JLG por JLG (1994), de Jean-Luc Godard.
Rodrigo Areias apostou num registo bem diferente, encarando a sua memória criativa como um auto-retrato em forma de “puzzle” aberto a inesperadas (re)configurações. O seu filme Vencidos da Vida (TVCine) funciona, assim, como uma colagem de fragmentos de vários títulos da sua filmografia, incluindo Corrente (melhor curta-metragem portuguesa e prémio do público no Curtas Vila do Conde de 2008), Golias (2010), Cinema (2014), Pixel Frio (2018), etc.
Obviamente, o título escolhido está longe de ser indiferente, cruzando simbolicamente o filme com as memórias a Geração de 70 das décadas finais do século XIX português (Antero de Quental, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, etc.). Reunidos regularmente sob a designação de “Vencidos da Vida”, o grupo corporizou um lema enunciado por Eça e evocado nas notas de produção do filme: “Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal íntimo a que aspirava.”
Dir-se-ia que Rodrigo Areias apostou numa sedutora ambivalência: há um saldo de desencanto nas imagens e sons agora coligidos, como se neles houvesse (e há!) um desejo de utopia que a história não cumpriu; ao mesmo tempo, esse desencanto coexiste com uma obstinada alegria de filmar a que, à falta de melhor, daremos o nome de felicidade artística.
Viajamos, assim, por experiências narrativas que vão desde o realismo (quase) expressionista de Corrente até ao ritual intimista de Pixel Frio. De qualquer modo, é a curta-metragem Cinema, protagonizada por uma personalidade maior da história do cinema português — o director de fotografia Acácio de Almeida — que emerge como “guia” de Vencidos da Vida. Aí descobrimos a tristeza das ruínas de uma sala emblemática de Guimarães, o Teatro Jordão (actualmente, em processo de reconstrução). Tudo se passa como se essa consciência amarga da emoção primitiva do cinema se tivesse tornado um bem precioso que importa preservar, não como objecto museológico, antes como visão e atitude que as novas gerações podem (e devem) conhecer.

sábado, janeiro 22, 2022

O céu de Grace Cummings

A australiana Grace Cummings não é estranha às artes do palco e, em particular, ao gosto da performance. Certamente por isso, as canções do seu álbum Storm Queen apelam a uma teatralidade que não exclui, antes reforça, a respectiva carga emocional. Em todo o caso, tudo isso passa pela poesia agreste que a sua voz transporta. Eis uma belíssima ilustração: Heaven.

There's your world we live in
I've just discovered Heaven
Where a man is nothing
And the air is something

See the apple, hanging from the tree
It fades away as you reach for it
There is no God
There is no King
Yet you hear, you hear
A singing

Ave, Ave Maria
Ave, Ave Maria

It looks like Heaven's back
Wearing a ten gallon Stetson hat
Nothing was made for sterner stuff
There's nobody to call your bluff

Nothing's gonna catch fire, it's a pretty green
Diamonds in the water
Floating down the stream
There is no God
There is no Queen
Yet you hear, you hear
A singing

Ave, Ave Maria
Ave, Ave, Maria

sexta-feira, janeiro 21, 2022

Elza Soares (1930-2022)

Na sua história, a saga pessoal de uma mulher capaz de superar a pobreza e os abusos cruza-se com a celebração plural da música, do samba ao hip hop, do funk ao jazz: a cantora brasileira Elza Soares faleceu no dia 20 de janeiro, no Rio de Janeiro, de causas naturais — contava 91 anos.
A partir de 1959, quando ganhou um concurso musical na Rádio Vera Cruz, pôde construir uma carreira fulgurante em que o gosto da experimentação se combina com a energia confessional das canções. O seu legado inclui uma discografia de 34 álbuns — os três derradeiros registos foram A Mulher do Fim do Mundo (2015), Deus É Mulher (2018) e Planeta Fome (2019). Em 2019, nos Prémios do Cinema Brasileiro, recebeu uma das suas derradeiras distinções: a de melhor banda sonora, graças ao documentário My Name Is Now, de Elizabete Martins Campos.

>>> Chega de Saudade (registo da televisão espanhola, 1971) + o álbum A Mulher do Fim do Mundo + trailer de My Name Is Now.






>>> Obituário na Globo.
>>> Elza Soares no Instagram.