domingo, novembro 01, 2026

O Homem que Veio do Espaço, 50 anos

Foi há meio século. Etre as efemérides cinematográficas deste ano, The Man Who Fell to Earth/O Homem que Veio do Espaço (1976), de Nicolad Roeg, é, por certo, um dos exemplos mais desconcertantes. Pela encenção quase kitsch da visita de um alien humanóide ao planeta Terra e também pelo facto de David Bowie, no papel central, ter encontrado aqui uma pose e uma matriz que pontuaram diversos aspectos da sua carreira posterior. No Reino Unido, vai ser reposto em cópias restauradas, assinalando 50 anoa de um projecto que acabou por ter influências marcantes em diversas experiências e ficção cientítica — será que Portugal também está na lista desta reposiões?

sábado, outubro 31, 2026

Bryan Adams vs. Donald Trump

Quando um ícone do rock'n'roll que desfruta de uma audiência planetária utiliza o seu poder comunicacional para dar conta dos abusos de poder de Donald Trump, importa dizer que há, continua a haver, uma cultura popular que não desiste de apontar, com serenidade e veemência, as monstruosidades que circulam por algumas linguagens políticas.
Aí está Bryan Adams a lembrar que o seu país, o Canadá, não é nem será o 51º estado dos EUA — a canção chama-se 51st. State e faz parte do alinhamento do seu novo álbum, How's It Goin' (6 novembro).
 

Mathieu Roger-Lacan — o desejo da escrita

Como chegámos a um ponto em que a agilidade da fala passou a existir através de uma assustadora decomposição da escrita? Que é feito do desejo de escrever?
Mathieu Roger-Lacan coloca essas questões de forma directa e construtiva, a propósito do seu livro Une Langue à Soi — questão francesa, questão universal (no programa Quotidien, de Yann Barthès, no canal TMC).

sexta-feira, outubro 30, 2026

Duran Duran, Notorious faz 40 anos
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje, 31 out.]

Com o álbum Notorious a celebrar 40 anos, revisitamos a história dos ingleses Duran Duran, banda lendária do pop rock que também escreveu uma canção para James Bond.

> FNAC Chiado, 31 outubro (hoje, 17h00).

Na companhia de Michel Foucault

Michel Foucault, le Philosophe et le Poisson Rouge (2024)

No centenário do nascimento de Michel Foucault, a sua herança parece tão longe, mas está aqui tão perto — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 outubro).

O filósofo francês Michel Foucault nasceu há 100 anos, mais precisamente no dia 15 de outubro de 1926. A sua herança, imensa e multifacetada, aberta a continuadas releituras e pensamentos, talvez se possa “resumir” no título do primeiro volume da sua História da Sexualidade. Ou seja: A Vontade de Saber (ed. Relógio D’Água, 1994, tradução de Pedro Tamen). Não exactamente a duplicação de um saber que pudesse estar solidificado nos anais milenares da história, antes um saber que se agita com as convulsões dessa história — um saber que acaba por fazer e refazer a própria noção de história, modificando os parâmetros do “homem”, porventura abalando as certezas da sua definição.
As Meninas (1656)

Lembrando um dos seus textos mais célebres — o capítulo de abertura de As Palavras e as Coisas (Edições 70, 2022, tradução de António Ramos Rosa) —, aí encontramos uma reflexão actualíssima sobre os poderes e limites do gesto artístico. Através de uma detalhada e obsessiva contemplação de As Meninas, o quadro de 1656 em que Diego Velázquez retrata a famíla do rei Flipe IV de Espanha (com o pintor a imiscuir-se na cena), Foucault revê o compromisso, explícito ou não, da arte com o poder, nessa medida abrindo uma nova reflexão, sobretudo uma reflexão diferente, em torno da noção de humanismo.
Numa entrevista com Madeleine Chapsal, publicada na revista La Quinzaine Littéraire, a 16 de maio de 1966 (o ano de publicação de As Palavras e as Coisas), esclarece a sua resistência ao humanismo vigente (hoje, talvez pudéssemos dizer: televisivo). São deles estas palavras: “Aquilo que me irrita no humanismo é que passou a ser a tela atrás da qual se refugia o pensamento mais reaccionário onde se formam alianças monstruosas e impensáveis.” Foucault aponta mesmo o “coração humano” como uma abstração, enquanto o labor da sua “geração” (a palavra é dele) “quer ligar o homem à sua ciência, às suas descobertas, ao seu mundo, que é concreto.”
Recentemente, descobri um filme magnífico sobre Foucault, capaz de construir de forma breve (52 minutos) um retrato que nos abre muitas e sedutoras perspectivas para percorrermos a sua obra. Produzido pela empresa Les Nouveaux Jours Productions, de Nantes, realizado por Lise Baron, intitula-se Michel Foucault, le Philosophe et le Poisson Rouge (2024), foi difundido pelo canal France 5, integrando também o catálogo de France Télévisions. O título remete para um episódio da infância de Foucault, em 1932, ao observar os peixinhos vermelhos do aquário que existe em sua casa: “Como eu gostava de ser um peixe, só por cinco minutos, só para saber como é que ele pensa.”
Aliás, ainda que respeitando a sua lógica documental, o filme arrisca usar fragmentos de desenhos animados para “reconstituir” alguns episódios da vida de Foucault, nomeadamente a viagem de 1975 ao Vale da Morte, na Califórnia, em que se conjugaram a reflexão filosófica e o LSD. Afinal de contas, a sua obra suscita, não apenas uma antologia de imagens (e há documentos preciosos sobre as causas, desde logo no ensino francês, que Foucault abraçou), mas um pensamento ousado sobre o uso das imagens — questão, ontem como hoje, igualmente pertinente em televisão ou cinema.
Evocando os dramáticos tempos finais de Foucault (morreu, vítima de sida, no dia 25 de junho de 1984), a voz off do documentário de Lise Baron formula, mais do que um epitáfio, os termos de uma genuína pedagogia da existência: “Talvez seja assim que morre um filósofo, tendo aprendido a nadar noutras águas, forjando a pouco e pouco um outro corpo, um outro destino, alargando sempre os limites da sua própria verdade.”

segunda-feira, outubro 26, 2026

Back to Black, 20 anos

Back to Black, segundo e último álbum de estúdio de Amy Winehouse (1983-2011), está a fazer 20 anos, ressurgindo numa edição muito especial — são três CD, incluindo demos inéditos, lados B e um concerto de 2007 no Paradiso de Amsterdão. Recordemos o tema-título, em Glastonbury, também em 2007.

quinta-feira, outubro 22, 2026

In memoriam, Eva Marie Saint

Marlon Brando e Eva Marie Saint: memórias de 1954

Revemos uma cena de Há Lodo no Cais e redescobrimos a grandeza de dois intérpretes, Marlon Brando e Eva Marie Saint — este texto foi publicado no Diário de Notícias, três dias depois do falecimento de Eva Marie Saint, com o título 'Num jardim de Hoboken'.

Será que o leitor se lembra da cena da luva no filme On the Waterfront/ Há Lodo no Cais (1954), de Elia Kazan? Não, não estou a fazer um teste cinéfilo, quanto mais não seja porque, ao contrário do que dizem alguns estafados lugares-comuns, a cinefilia nada tem que ver com a mera acumulação, muito menos com a ostentação, de um “saber” feito de títulos e datas, nomes disto e daquilo... Acontece que cada um de nós, enquanto espectador, possui uma história pessoal (que é também uma demanda cultural) que distingue a nossa visão da visão de qualquer outra pessoa. Entenda-se: não é “melhor” nem “pior”. Apenas nos ajuda a perceber um pouco do desenvolvimento e da consolidação dessa história, desde logo em função da idade de cada um — e, em particular, da época em que cada um começou a ver filmes.
Não direi que é uma questão de geração (aliás, a palavra “geração” tende a atrair generalizações totalmente disparatadas), mas há espectadores com quem já tive o gosto de partilhar uma mesma admiração pela dita “cena da luva”. Simplificando, temos Marlon Brando no papel de Terry Malloy, ex-pugilista que trabalha nas docas de Hoboken, New Jersey. E temos também Edie Doyle, interpretada por Eva Marie Saint, uma jovem da mesma zona que, por vezes, parece querer disfarçar a sua presença com a própria timidez.
Simplificando ainda mais: o filme faz-nos perceber que existe uma atração mútua entre Terry e Edie, em boa verdade uma pudica aproximação. Na sua primeira conversa, deambulam por um jardim de Hoboken. Está frio e Terry diz: “Não tem que ter medo de mim, não lhe vou morder.” Terry quer saber se o colégio religioso que ela frequenta faz com que Edie queira ser freira... Ao responder, Edie tira um par de luvas do bolso do sobretudo, mas deixa cair uma delas. Terry apanha a luva, mas não a devolve: senta-se num baloiço que há no jardim e vai falando enquanto enfia a mão esquerda na luva de Edie...


A cena é maravilhosa, não apenas por causa da luva, mas também através dela e da sua manipulação por Terry — manipulação que apenas podemos classificar como temperada por uma ternura que está para lá de qualquer palavra. Aliás, os gestos hesitantes de Edie permitem perceber que ela não sabe muito bem se deve ou não pedir a devolução da luva. Um pouco mais à frente, pensando em tempos de juventude, Terry diz que, provavelmente, ela não se lembra dele. Responde Edie: “Lembrei-me logo no primeiro momento em que o vi”.
Tanto bastaria para admirarmos a delicadeza da encenação e, em particular, os afectos que contaminam cada instante do que nos é mostrado. Seja como for, sabemos um pouco mais sobre o que ficou filmado — e eternizado. É o próprio realizador quem nos ajuda. Na verdade, a queda da luva não estava prevista. Kazan esteve quase para parar a filmagem e pedir uma nova “take”, mas conteve-se quando viu que Brando transformava o incidente num precioso detalhe anímico, capaz de enriquecer toda a situação — e acrescentava que esse era também um sinal da grandeza artística e humana do actor. Sem esquecer que Eva Marie Saint respondeu, transformando a sua hesitação, enquanto actriz, num suplemento emocional da própria personagem.
Marlon Brando e Eva Marie Saint ganharam Oscares (actor e actriz secundária), com Há Lodo no Cais a arrebatar um total de oito estatuetas douradas referentes à produção de 1954, incluindo melhor filme e melhor realização. Eva Marie Saint morreu na [passada] quinta-feira, 6 de outubro — contava 102 anos.

terça-feira, outubro 20, 2026

Zoot Allures, de Frank Zappa, faz 50 anos

[ Wikipedia ]

O tema Black Napkins persiste como uma das assinaturas mais lendárias de Frank Zappa, celebração imponente dos estranhos poderes encantatórios, quer dizer, poéticos da sua guitarra eléctrica. É uma memória incontornável do álbum Zoot Allures, lançado há 50 anos, em outubro de 1976. A sua herança será celebrada com uma edição especial, agendada para 4 de dezembro. Além do mais, convém não esquecer que Black Napkins surge recriado uns anos mais tarde, como Pink Napkins, no genial Shut Up 'n Play Yer Guitar (1981) — Black e Pink estão aqui em baixo.



Desgosto francês [Bernard-Henri Lévy]

É preciso chamar os bárbaros pelo nome que merecem e, nessa medida, repensar a noção de ordem — eis as palavras cristalinas de Bernard-Henri Lévy, reflectindo sobre a destruição que assolou Paris.
Torna-se necessário, mais do que nunca, repensar a própria ideia de sociedade — a liberdade não é a arbitrariedade nem a gratificação imediata. Também não é a destruição dos lugares que, melhor ou pior, definem a nossa existência (social, justamente). É, ou pode ser, uma ideia, aliás, um sistema de ideias capaz de contribuir para a ordenação das diferenças humanas.

The Rolling Stones, Who You Callin' Crazy?

Já conhecíamos Bad Luck Hideaway, como faixa bónus de Foreign Tongues no iTunes. Descobrimos agora, em lyric video, Who You Callin’ Crazy. São sobras do mais recente álbum dos Rolling Stones, a par Where There’s a Will, She Still Comes Around e Human Tide. Belas sobras... é caso para dizer — juntamente com as faixas da edição original farão Foreign Tongues, Loose Lip, a lançar no dia 27 de novembro.