quinta-feira, agosto 16, 2018

Morgana King (1930 - 2018)

Cantora de jazz a que o cinema trouxe popularidade, a americana Morgan King faleceu em Palm Springs, California, contava 87 anos — a sua morte ocorreu a 22 de Março, mas apenas foi conhecida em meados de Agosto, na sequência de um texto colocado por um amigo no Facebook.
De seu nome verdadeiro Maria Grazia Morgana Messina, nasceu em Pleasantville, Nova Iorque, de pais originários da Sicília. Começou a sua carreira aos 16 anos, num nightclub de Greenwich Village. Com uma carreira multifacetada nos palcos e na televisão, senhora de uma voz de surpreendente maleabilidade, gravou mais de três dezenas de álbuns. Em qualquer caso, foram os dois primeiros títulos da saga O Padrinho (1972 e 1974), de Francis Ford Coppola, que a tornaram um rosto internacional: Morgana King interpretava Carmela Corleone, a mulher de Don Vito Corleone (Marlon Brando).

>>> Registo televisivo dos anos 60, interpretando Walk on By + cena de O Padrinho.




>>> Obituário em The Washington Post.

Madonna, 60 anos

Somos também as imagens em que nos reconhecemos. Uma vez, algures nos anos 90, várias personalidades foram convidadas a escolher para a revista Photo uma fotografia sua de que gostassem particularmente — uma espécie de ambíguo auto-retrato, obtido por um grande fotógrafo. Madonna escolheu esta, assinada pelo seu amigo Herb Ritts (1952-2002). Será, por isso, humildemente, uma boa imagem para abrir este texto, publicado no Diário de Notícias (5 Agosto) com o título 'Ser ou não ser Madonna'.
Quem é, afinal, a “Material Girl” que marca a história moderna da música pop e, mais do que isso, a evolução das formas e conceitos do mundo do espectáculo? Hoje, 16 de Agosto de 2018, dia em que Madonna celebra 60 anos, uma certeza permanece e renova-se: o seu universo de imagens e sons continua a desafiar certezas e ideias feitas.

Há poucas semanas, o Centro Pediátrico da Fundação Raising Malawi comemorou um ano de existência. Nos primeiros seis meses, nele se realizaram mais de duzentas intervenções cirúrgicas, tendo a unidade de cuidados intensivos tratado cerca de meia centena de pacientes. Em actividade há mais de uma década, a fundação nasceu com o objectivo de assistir as crianças daquele país do sudeste africano cujos pais morreram de sida (mais de um milhão de crianças do Malawi perderam o pai ou mãe devido à doença). Para além do seu hospital pediátrico, construído de raiz, a fundação mantém centros de acolhimento para os órfãos, tendo também ajudado a desenvolver uma rede escolar que integra cerca de dez mil crianças, metade das quais do género feminino.
Todos sabemos que Madonna esteve no centro de uma recente polémica sobre um conjunto de lugares de estacionamento para automóveis junto da sua casa em Lisboa. Atrevo-me a supor que nem todos saberão que a Fundação Raising Malawi foi criada por Madonna, em 2006.
Receio que tal discrepância informativa seja mais reveladora das nossas vivências mediáticas e do nosso imaginário social do que, propriamente, da personalidade e do trabalho de Madonna. Em qualquer caso, permito-me sugerir que sigamos o voto de Charles Baudelaire quando exaltava a possibilidade de a crítica ser “parcial, apaixonada e política” — celebremos apenas a criadora de Material Girl e o seu 60º aniversário (nasceu a 16 de Agosto de 1958, em Bay City, no estado do Michigan).

“Como uma virgem”

Em boa verdade, a questão da identidade — entre o ser e o parecer — sempre foi matéria visceral do trabalho criativo de Madonna. E convém não sermos cínicos, ou apenas distraídos: a pedra de toque de tal questão é a sexualidade.
Estamos a falar, afinal, da mulher que se transformou em ícone global da cultura pop através de canções como Like a Virgin (1984), confessando ao seu amante que ele a fez sentir “como uma virgem / tocada pela primeira vez”. De facto, era também uma nova forma de romantismo, descomplexado e irónico, já que nos versos que nunca são citados ela acrescentava que tal acontece “quando o teu coração bate / junto ao meu”.
Material Girl
Mas o romantismo, nostálgico ou apenas evocativo, não basta para caracterizar a sexualidade no universo de Madonna. E, se outras razões não houvesse, o livro que lançou em 1992 — com o título Sex — seria suficiente para nos recordar que não estamos exactamente perante uma brincadeira de crianças. Porquê? Porque o que aí encontramos está muito longe de se poder reduzir a uma colecção de “nus artísticos”... Aliás, sublinhando o radicalismo do empreendimento, ela foi clara no seu agradecimento ao fotógrafo do livro: “Acima de tudo, obrigado a Steven Meisel por não ter medo quando eu tive.”
Medo? É verdade: o sexo faz medo. E talvez seja essa a contradição visceral do universo criativo de Madonna: por um lado, ela é a expressão directa, desassombrada e festiva de um tempo em que encaramos a instrumentalização da sexualidade (veja-se a colecção quotidiana de horrores do Big Brother televisivo e seus derivados) como coisa indiferente, em relação à qual só podemos ser superiores; por outro lado, desde a sua elaborada iconografia até às palavras das canções, Madonna desmonta tudo isso enquanto criadora de ficções enredadas no medo de ser ou não ser.
A paisagem musical de Madonna evoluiu mesmo no sentido de uma crescente pessoalização do seu trabalho. Claro que há imagens que, literalmente, fizeram história, sobretudo nos tempos heróicos da MTV — lembremos a “duplicação” de Marilyn Monroe no teledisco de Material Girl (1985), a encenação de Express Yourself (1989) em cenários que citam o clássico Metropolis (1927), de Fritz Lang, ou a coreografia de Vogue (1990), cruzando elementos do classicismo de Hollywood e da cultura gay. Ao mesmo tempo, as canções vão contando uma história de assumida ambiguidade: a vedeta planetária reflecte sobre os limites da sua própria celebridade.

“A minha religião”

O álbum Ray of Light (1998), porventura o objecto mais perfeito da sua discografia, é exemplar desse processo de crescente introspecção, por vezes marcado por pontuações de cristalino dramatismo. Lembremos, em particular, o tema de abertura, Drowned World/Substitute for Love. Reflectindo a sua consagração como estrela global, Madonna canta versos de inequívoco desencanto. Por exemplo (numa tradução apenas tão literal quanto possível): “Viajei à volta do mundo / À procura de uma casa / Descobri-me em salas cheias / Sentido-me tão só”.
No teledisco dessa canção, Madonna encenava mesmo os sinais mais evidentes do seu desgaste, surgindo como uma estrela perseguida por um bando de “paparazzi”. Em fuga dos flashes das máquinas fotográficas, viamo-la circular como uma sonâmbula por uma festa, no final regressando a casa, acolhendo nos seus braços uma menina. Os dois versos finais sobrepunham-se a um grande plano de Madonna a abraçar a criança. No primeiro, “agora, descobri que mudei de ideias”, mantinha os olhos fechados; abria-os e declamava o segundo verso, directamente para a câmara: “Esta é a minha religião” — o teledisco surgiu no Verão de 1998, menos de dois anos depois do nascimento de Lourdes Maria, primeira filha de Madonna.
Ray of Light integra, aliás, uma canção dedicada à filha, Little Star, e uma outra, Mer Girl, cujo negrume não poderá deixar de surpreender todos aqueles que encaram o universo pop como uma colecção de futilidades escapistas. Para além da sua rarefeita ambiência instrumental e da ousadia da sua estrutura (quase em “spoken word”), Mer Girl tem qualquer coisa de balada de filme de terror, assombrada pelas memórias trágicas da mãe, falecida aos 30 anos, vítima de cancro, alguns meses antes de Madonna completar 6 anos: “Fugi da minha casa que já não me contém / Do homem que não consigo conservar / Da minha mãe que me assombra, embora já tenha partido / Da minha filha que nunca dorme / Fugi do ruído e do silêncio / E do movimento das ruas.”
Muito marcado pela ligação criativa com o músico e produtor inglês William Orbit, Ray of Light ilustra um momento altamente sofisticado de experimentação, ao mesmo tempo funcionando como uma espécie de revisão de um trajecto de quinze anos (o primeiro álbum, intitulado apenas Madonna, surgira em 1983) que valeu a Madonna o título simbólico de “Rainha da Pop”. No limite, Ray of Light parece prenunciar aquele que continua a ser o álbum mais pessoal, e também mais confessional, de Madonna: American Life (2003).

“O Sonho Americano”

Madonna nunca abandonou o seu país, mas é um facto que, a certa altura, algo se quebrou na sua relação com os EUA, algo que está sinalizado de forma muito crua no álbum American Life. O tema-título tornou-se mesmo uma bandeira paradoxal do seu cepticismo enquanto cidadã. Num teledisco de ambiência surreal, a canção apresentava-se transfigurada em cruel passagem de modelos, parodiando o militarismo mais desenfreado. Na altura, a acesa polémica que suscitou foi perversamente empolada pela invasão do Iraque, ordenada por George W. Bush: Madonna optou por fazer uma declaração, sustentando a legitimidade artística do teledisco, reiterando também o seu respeito pelos soldados norte-americanos; em última instância, preferiu retirar o teledisco de circulação — em qualquer caso, American Life, por certo uma das obras-primas da sua videografia, é de fácil acesso no YouTube.


Dir-se-ia que American Life foi o terceiro capítulo de um processo de crescente afastamento simbólico entre Madonna e o imaginário (ou a imaginação) do seu próprio país. O primeiro está ligado à publicação do livro Sex e ao lançamento simultâneo do álbum Erotica (1992). O segundo, por mais desconcertante que isso possa parecer, terá sido o filme musical Evita (1996), dirigido por Alan Parker: vencedora de um Globo de Ouro pela sua composição de Eva Perón, Madonna ficou de fora das nomeações para os Oscars, uma ausência que foi lida por muitos (porventura a começar pela própria Madonna) como um gesto de marginalização por parte da comunidade de Hollywood.
Estranhamente, ou talvez não, as três canções que abrem o álbum parecem organizar-se como outros tantos contos morais sobre esse distanciamento. Mesmo ignorando a contundência visual do respectivo teledisco, American Life tem qualquer coisa de rap desafiador e contundente: “Quero exprimir o meu extremado ponto de vista / Não sou cristã, não sou judia / Estou apenas a viver o Sonho Americano / E acabo de descobrir que nada é o que parece.” Segue-se um tema chamado Hollywood em que, com agudo sarcasmo, a cantora se pergunta “como é que pode ser mau, quando parece tão bom?”. Enfim, em terceiro lugar, deparamos com a calculada irrisão de uma canção que se chama I’m So Stupid: “Sou tão estúpida / Porque me habituei a viver / Num sonho confuso / Costumando acreditar / Nas imagens bonitas / Que me rodeavam.”

“Eu sou assim”

Depois de experiência tão confessional, há qualquer coisa de bizarro no facto de o álbum seguinte, lançado em 2005, se ter chamado Confessions on a Dance Floor. Também aqui a ambiguidade era procurada. Temas como Hung Up ou Get Together envolvem claros sinais de retorno à música de dança das décadas de 70/80 (Hung Up integra mesmo um sample de uma canção dos Abba). Mais para o final, volta a emergir um discurso de intransigente individualismo. Em Like it or not, a mensagem não podia ser mais clara: “Eu sou assim / Podem gostar ou não / Podem amar-me ou deixar-me.”
Há, talvez, outra maneira de dizer isto. E leva-nos ao cerne daquilo que é, ou pode ser, a exposição pública de uma pessoa cuja identidade se exprime (e reinventa) através de uma obra imensa. A saber: ser uma entidade reconhecível no mundo inteiro, por outras palavras, ser um verdadeiro ícone do espectáculo, não é coisa que se possa sustentar através de uma mera atitude confessional.
Confessar pode ser também uma forma de ocultação: é escolher uma atitude, uma encenação, uma pose (“strike a pose” é o seu lema em Vogue), valorizando-as em detrimento de outras soluções — como numa infinita transfiguração teatral.
Justify My Love
Camille Paglia disse-o de forma especialmente incisiva num célebre e polémico artigo publicado no New York Times (14 Dez. 1990), reagindo ao facto de a MTV ter recusado passar Justify My Love, por certo um dos telediscos mais explicitamente sexuais de toda a obra de Madonna: “O feminismo americano contemporâneo, que começou por rejeitar Freud devido ao seu alegado sexismo, acabou por se afastar das ideias de ambiguidade, contradição, conflito e ambivalência. (…) Madonna tem uma visão muito mais profunda do sexo que as feministas. Ela vê tanto a animalidade como o artifício. Mudando de estilo de guarda-roupa e cor de cabelo praticamente uma vez por mês, Madonna encarna os eternos valores da beleza e do prazer. O feminismo diz: ‘Abaixo as máscaras.’ Madonna diz que nós não somos nada a não ser máscaras.”
Enfim, lembremos apenas que não estamos a falar de uma estrela instantânea, muito menos efémera. Os números não falam por si, mas estão longe de ser banais: treze álbuns de estúdio, sete dezenas de telediscos, uma filmografia de mais de vinte títulos e dez das mais elaboradas e complexas digressões internacionais, de “The Virgin Tour” (1985) a “Rebel Heart Tour” (2015-16), algumas delas, como a “Drowned World Tour” (2001), verdadeiramente revolucionárias em termos cenográficos e técnicos. Convenhamos que não é pouco. E que aquilo que está em jogo não se confunde com um problema de estacionamento.

* * * * *
LIKE A VIRGIN — Foi Steven Meisel, futuro colaborador do livro Sex, que fotografou Madonna para a capa do seu segundo álbum de estúdio. O jogo simbólico não podia ser mais linear e desconcertante: a lingerie, interior por definição, passava a ser guarda-roupa exterior — estava-se em finais de 1984 e Madonna virava a iconografia pop, literalmente, do avesso.

AMERICAN LIFE — Chegava-se a 2003 e Madonna procurava uma nova imagem, capaz de provocar uma ideia radical de transfiguração. Com a colaboração do fotógrafo Craig McDean, reencenou-se como uma derivação feminina da imagem mais clássica de Che Guevara. Através de canções de irónico confessionalismo, a personagem mítica desmontava o seu próprio mito.

MDNA — Em 2012, no 12º álbum de estúdio, Madonna decidiu violentar a sua própria assinatura. O título evoca a sigla de uma droga (MDMA), sugere a estrutura molecular DNA e funciona como uma condensação das letras do seu nome. Onde estava, então, Madonna? Quase indecifrável para além de um vidro martelado — a fotografia tem assinatura da dupla Mert Alas/Marcus Piggott.

* * * * *
DESESPERADAMENTE PROCURANDO SUSANA — A imagem “fundadora” de Madonna passou também por este filme de Susan Seidelman lançado em 1985, entre os álbuns Like a Virgin (1984) e True Blue (1986). Também com Rosanna Arquette como protagonista, trata-se de uma comédia romântica plena de ironia, uma aventura novaiorquina que ficou como marca exemplar de um tempo de transformação de usos e costumes.

NA CAMA COM MADONNA — Lançado em 1991, o retrato íntimo da “Blond Ambition Tour” (1990) constitui um marco na história do documentário musical. Através da hábil realização de Alek Keshishian, Madonna encena um jogo de máscaras em que todos são testados perante o olhar frio das câmaras. Warren Beatty, com quem Madonna tinha uma relação, é uma das “vítimas” mais célebres.

W. E. — Com data de 2011, este é um título exemplar na carreira de Madonna como realizadora de cinema (já tinha assinado, em 2008, Sujidade & Sabedoria). Revisitando a história da renúncia de Eduardo VIII ao trono britânico, por amor de Wallis Simpson, o filme decompõe, de forma subtil, os clichés românticos da memória. Por indiferença ou preconceito, não se estreou em muitos países (incluindo Portugal) [trailer].


* * * * *
SEX — O livro de 1992 é um jogo calculado de palavras e fotografias, discutindo as relações entre “amor” e “sexo”. Consciente das fronteiras do projecto, Madonna ironiza na apresentação: “É ridículo, nada neste livro é verdade — inventei tudo.” Para além da autora, omnipresente, estão nas imagens personalidades como a actriz Isabella Rossellini, a modelo Naomi Campbell e o rapper Vanilla Ice.

CRUCIFIXO — Entre as múltiplas e sofisticadas variações sobre as suas raízes católicas, Madonna propôs esta crucificação simbólica nos concertos da “Confessions Tour” (2003), interpretando Live to Tell, do álbum True Blue (1986), uma das mais belas canções de toda a sua carreira. Com uma verdade muito feminina: “Um homem é capaz de dizer mil mentiras / Aprendi bem a minha lição.”

I have a tale to tell
Sometimes it gets so hard
To hide it well
I was not ready for the fall
Too blind to see the writing on the wall

A man can tell a thousand lies
I've learned my lesson well
Hope I live to tell
The secret I have learned
'Til then
It will burn inside of me

I know where beauty lives
I've seen it once
I know the warmth she gives
The light that you could never see
It shines inside
You can't take that from me

A man can tell a thousand lies
I've learned my lesson well
Hope I live to tell
The secret I have learned
'Til then
It will burn inside of me

The truth is never far behind
You kept it hidden well
If I live to tell
The secret I knew then
Will I ever have the chance again

If I ran away
I'd never have the strength
To go very far
How would they hear
The beating of my heart
Will it grow cold (will it grow cold?)
The secret that I hide
Will I grow old
How will they hear
When will they learn
How will they know

A man can tell a thousand lies
I've learned my lesson well
Hope I live to tell
The secret I have learned
'Til then
It will burn inside of me

The truth is never far behind
You kept it hidden well
If I live to tell
The secret I knew then
Will I ever have the chance again

A man can tell a thousand lies
I've learned my lesson well
Hope I live to tell
The secret I have learned
'Til then
It will burn inside of me


>>> Site oficial de Madonna.

quarta-feira, agosto 15, 2018

Fotografias de Arles

Mesmo de pernas para o ar, sabemos que aquele cão foi fotografado por William Wegman... Assim é, de facto: o trabalho de Wegman é um dos destaques dos Encontros de Fotografia de Arles (a decorrer até 23 de Setembro). Assinalando a sua presença no evento, a agência Magnum organizou uma pequena antologia das imagens que levou a Arles, incluindo algumas com assinatura de Rene Burri e Raymond Depardon — vale a pena descobrir o respectivo portfolio.
RENE BURRI
Copacabana, Rio de Janeiro
1958
RAYMOND DEPARDON
Campanha de Richard Nixon / Sioux City, Iowa
1968

terça-feira, agosto 14, 2018

Judy Collins, made in USA

Uma boa notícia: Judy Collins, a lendária cantora de Who Knows Where the Time Goes (1968) ou Bread and Roses (1976), está de volta. Em boa verdade, ela nunca abandonou o seu trabalho, sempre tocado pela herança folk, sempre ligado a um sentido genuinamente social da música e das suas performances. A sua nova canção, Dreamers, aí está: um hino materno e intimista sobre uma América onde muitos procuraram "democracia e esperança" e agora apenas encontram "esperança".

This land was made by dreamers, and children of those dreamers
We came here for democracy and hope
Now all we have is hope.

Eis o teledisco de Dreamers — uma bela apresentação da canção, incluindo palavras de Collins, está na NPR.

segunda-feira, agosto 13, 2018

A implosão do mercado cinematográfico

No primeiro semestre de 2018, a frequência das salas escuras baixou — mas o número de filmes estreados aumentou... Assistimos, assim, a uma lenta implosão do nercado. Este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Agosto), com o título 'Num cinema perto de si...'.

Sou dos que pensam que a reflexão sobre a cultura cinematográfica chegou, em Portugal, a um dos seus pontos mais baixos. O assunto é suficientemente complexo para, pelo menos, evitarmos a estupidez ancestral dos que gostam de proclamar que quando a “crítica” dá cinco estrelas a um filme, optam por não ver — começando por Apocalypse Now, imagine-se a ignorância dessas pessoas...
Enfim, é uma caricatura. Lembremos apenas que há questões sérias e graves envolvidas — desde o poder mediático e social de outros modelos narrativos (com inevitável destaque para a formatação telenovelesca) até às formas agressivas do populismo jornalístico (muito ligado, precisamente, ao imaginário da telenovela e dos “famosos”).
O problema, repare-se, não pode ser fulanizado (seja para que lado for). Não se trata de demonizar Tom Cruise porque consegue algumas centenas de milhares de espectadores — aliás, Missão Impossível: Fallout é, por certo, um dos grandes espectáculos do ano. O problema é a marginalidade estrutural e simbólica em que vive todo um importante sector do mercado. Um exemplo apenas: Happy End, de Michael Haneke [trailer].


É um dos meus “5 estrelas” absoluto? Sim, é verdade. Mas faço questão em sublinhar que sou o primeiro a reconhecer (e celebrar) o facto de o trabalho de Haneke sobre a Europa dos refugiados ser visceralmente discutível, quer dizer, capaz de suscitar a inteligência de pontos de vista divergentes. A questão que se coloca é de outra natureza. A saber: como é que o mercado e, com ele, o espaço mediático promovem a reflexão sobre um filme tão complexo e actual como Happy End?
Insisto: as questões envolvidas são muitas, incluindo o facto de os sistemas “alternativos” de difusão (plataformas de aluguer, “streaming”, etc.) atraírem cada vez mais consumidores — todos nós, claro. Deixo apenas uma nota sobre uma estatística que não tem sido muito referida.
Assim, há poucas semanas, soube-se que os números oficiais registam uma baixa significativa de frequência das salas: no primeiro semestre de 2018, os 6,5 milhões de espectadores nas salas escuras correspondem a uma quebra de 17% em relação a igual período do ano passado. Em todo o caso, importa perguntar: ao mesmo tempo, a oferta aumentou ou diminuiu?
Pois bem, aumentou: no primeiro semestre deste ano estrearam-se em Portugal 195 filmes (contra 176 em igual período de 2017). Na prática, uma média superior a um título por dia — isto num país em que a média de frequência das salas por cada cidadão é pouco mais de um filme... por ano.
Dá que pensar esta inadequação entre oferta e procura. Na prática, os filmes têm um tempo de exibição cada vez mais curto, favorecendo o seu banal desconhecimento. Outro exemplo... Não é verdade que, num país de raízes católicas como o nosso, muitos de nós somos sensíveis aos temas da fé e, mais do que isso, à valorização da dimensão espiritual da vida humana? Neste contexto, qual o impacto de No Coração da Escuridão, de Paul Schrader, um filme [trailer] gerado na convulsão dessas questões? Quantos espectadores souberam, efectivamente, da sua estreia? Qualquer resposta envolve factores de natureza económica e cultural. E não se trata de favorecer as velhas e pueris dicotomias: é preciso pensar o mercado como factor cultural, por excelência.

V. S. Naipaul (1932 - 2018)

>>> Um homem de negócios é alguém que compra por dez e fica feliz por conseguir obter doze. A outra espécie de homem compra por dez, vê a coisa subir até dezoito e não faz nada. Fica à espera que chegue aos vinte. A beleza dos números. Quando cai outra vez para dez fica à espera que volte aos dezoito. Quando cai para dois fica à espera que volte aos dez. Enfim, a coisa volta lá. Mas ele gastou um quarto da sua vida. E tudo aquilo que extraiu do seu dinheiro foi uma pequena excitação matemática.

V. S. NAIPAUL
in A Curva do Rio

Britânico de origem indiana, nascido na antiga colónia britânica Trinidad e Tobago, o escritor V. S. Naipaul faleceu na sua casa, em Londres, no dia 11 de Agosto — contava 85 anos.
Num Estado Livre, romance tripartido envolvendo cenários da Índia, EUA e África, pode simbolizar o seu universo tecido de muitas referências geográficas e culturais, marcado pelas heranças plurais e contraditórias do colonialismo, problematizando sempre as questões decorrentes do desejo individual de liberdade — com ele, ganhou o Booker Prize de 1971. Uma Casa para Mr. Biswas (1961), O Enigma da Chegada (1987) e A Curva do Rio (1979) são alguns dos seus títulos mais conhecidos. Escreveu também diversos volumes de não-ficção como, por exemplo, Para além da Crença (1998) ou A Máscara de África (2010). A Academia Sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel, em 2001, apontando-o como discípulo de Joseph Conrad: "Naipaul é herdeiro de Conrad como analista dos destinos dos impérios, em sentido moral: daquilo que fazem aos seres humanos. A sua autoridade como narrador está enraizada na memória daquilo que outros esqueceram, a história dos vencidos."
De todos os romances de Naipaul o único adaptado ao cinema foi o primeiro que escreveu: The Mystic Masseur (1959), um retrato cómico dos tempos que antecederam a independência de Trinidad e Tobago — a versão cinematográfica foi realizada por Ismail Merchant, em 2001, tendo-se estreado em Portugal com o título O Massagista.

>>> Entrevista com Charlie Rose, em 1999, por ocasião da publicação de Between Father and Son: Family Letters + trailer de O Massagista + discurso de agradecimento do Nobel (10-12-2001).






>>> Obituário no jornal The Guardian.

domingo, agosto 12, 2018

Contra os intelectuais

Foto: JL
1. Bem sabemos que um dos desportos culturais de maior sucesso em Portugal é o ódio aos intelectuais — estar contra os intelectuais é mesmo uma ideologia poderosíssima. Entenda-se: não é apenas uma questão fulanizada, já que através dos ataques pessoais aquilo que se visa é a própria existência de uma determinada vida intelectual.

2. Insisto: uma determinada vida intelectual. De facto, há uma outra vida intelectual que se tornou dominante. Chama-se futebol e surge todos os dias enquadrada por um avassalador aparato intelectual — desde os milhões que ganha Cristiano Ronaldo até ao sistema de dois ou três centrais, tudo é tratado como sendo imbuído de uma transcendência unilateral, unívoca e inquestionável.

3. Daí que não se possa considerar uma surpresa a exploração de um lema (?) como aquele que esta fotografia testemunha. Transformar o conceito de "rebeldia intelectual" em expressão de sustentação de uma hipótese de guarda-roupa não passa de um sintoma pontual de um estado de coisas muito mais geral — em boa verdade, reduz-se o trabalho intelectual a uma pose que, literal e simbolicamente, permite fazer montra.

sexta-feira, agosto 10, 2018

St. Vincent na PBS

O festival Austin City Limits continua a merecer a atenção da PBS. Este ano, entre as propostas da televisão pública americana, inclui-se um especial de uma hora com St. Vincent, a emitir a 7 de Outubro. Para já, numa espécie de single de antecipação, podemos ver e ouvir uma fabulosa interpretação de New York — um pouco menos de 3 minutos, 5 estrelas.

À espera de Spike Lee

Spike Lee é o rosto na capa da edição da revista Time com data de 20 de Agosto. Em foco está o seu prodigioso filme BlacKkKlansman, centrado na experiência surreal e verídica do detective Ron Stallworth, um afro-americano oficial de polícia no estado do Colorado, que em 1978 conseguiu infiltrar-se na rede racista do Ku Klux Klan... Foi, em Maio, um dos acontecimentos maiores de Cannes.
Através de uma elaborada estrutura narrativa, desembocando na América de Trump (e, mais concretamente, no comício de supremacistas brancos, em Charlottesville, Virgínia, faz agora um ano), Lee acrescenta mais um capítulo fundamental à sua obra, expondo as formas de discriminação racial e, por isso mesmo, questionando o imaginário social americano. Assinado por Rembert Browne, incluindo declarações de Lee, o artigo da Time é uma peça de exemplar utilidade na contextualização artística e política de BlacKkKlansman.
Agendado para 6 de Setembro nas salas portuguesas, BlacKkKlansman é, desde já, um dos momentos incontornáveis deste ano cinematográfico, desafiando, inclusive, os valores dominantes de um mercado que quase desistiu de produzir ideias para lançar filmes que não encaixem nas matrizes de produção de "blockbusters" e afins — eis o trailer.

quinta-feira, agosto 09, 2018

Richard H. Kline (1926 - 2018)

Os filmes Camelot e King Kong valeram-lhe nomeações para os Oscars: o director de fotografia americano Richard H. Klein faleceu no dia 7 de Agosto, em Los Angeles — contava 91 anos.
Filho de um pioneiro na fotografia no cinema mudo, Benjamin H. Kline (1894–1974), começou nos anos 60, em televisão. Entre os primeiros títulos de cinema que o distinguiram, incluem-se, para além de Camelot (1967), de Joshua Logan, O Estrangulador de Boston (1968), de Richard Fleischer, e A Ameaça de Andrómeda (1971), de Robert Wise. Fleischer foi um dos realizadores com quem mais trabalhou, nomeadamente na criação da ambiência apocalíptica de À Beira do Fim (1973), com Charlton Heston. Além de King Kong (1976), de John Guillermin, entre os seus títulos mais importantes incluem-se A Fúria (1978), de Brian De Palma, Star Trek/O Caminho das Estrelas (1979), de novo com Wise, Noites Escaldantes (1981), longa-metragem de estreia de Lawrence Kasdan, e O Último Fôlego (1983), de Jim McBride, remake de O Acossado (1959), de Jean-Luc Godard, com Richard Gere e Valérie Kaprisky. Em 2006, a American Society of Cinematographers consagrou-o com um prémio de carreira.

>>> Trailer de À Beira do Fim + uma cena de King Kong.




>>> Obituário no Variety.
>>> Biografia comentada na American Society of Cinematographers.