sábado, junho 27, 2026

David Hockney — 7 imagens

[ BBC ]

A herança de David Hockney define um capítulo especial na história da pintura. Interessou-se também por outras técnicas, criando uma obra cuja experimentação nunca menosprezou as heranças clássicas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 junho).

Falecido no dia 11 de junho, em Londres (contava 88 anos), David Hockney simboliza, como poucos, uma pintura enraizada num fascinante paradoxo estético e filosófico. Assim, ao longo de mais de seis décadas de trabalho regular, a sua pintura nasceu de muitas e variadas formas de experimentação; ao mesmo tempo, semelhante vocação nunca o fez desistir de modos de figuração (pessoas, animais, paisagens, etc.) que nunca se “diluíram” em qualquer registo abstracto. Mais do que isso, os contrastes da sua obra são indissociáveis de um gosto, ágil e ousado, disponível para as mais variadas técnicas de trabalho. Certamente não por acaso, o seu labor pictórico foi-se cruzando com surpreendentes derivações, da fotografia até à criação de cenários teatrais.
Na impossibilidade de “resumir” tudo isso através de um pequeno conjunto de referências, aqui ficam, de qualquer modo, sete dos seus trabalhos — são testemunhos de uma arte complexa e bem humorada.
1 – MR. AND MRS. CLARK AND PERCY (1971)
Eis aquele que é, seguramente, um dos mais célebres quadros de Hockney. Rezam as crónicas que resultou de um laborioso e demorado trabalho (mais de um ano). O retrato do casal Ossie Clark/Celia Birtwell (ambos designers, ele de moda, ela de têxtil) possui uma imediata sedução realista que acaba por ser “contrariada” pela austeridade das cores e a frieza geométrica da composição.
2 – PORTRAIT OF AN ARTIST – POOL WITH TWO FIGURES (1972)
Este “retrato de um artista” com “duas figuras” (assim informa o título) nasceu, de facto, da proximidade de duas fotografias que Hockney descobriu perdidas no seu estúdio: um homem aparentemente pensativo e uma figura a nadar debaixo de água. O lugar-comum do “pintor de piscinas” nada nos diz sobre a pluralidade da sua obra, mas é verdade que, na década de 1970, piscinas não faltam.
3 – CELIA, LOS ANGELES (1982)
Em poucos meses, ao longo do ano de 1982, Hockney produziu cerca de 150 trabalhos resultantes da montagem de fotografias Polaroid. Na sua respiração cubista, assistimos a uma festiva fragmentação figurativa (que também marcou a sua pintura). A exposição desta série de imagens, ainda em 1982, em Nova Iorque, teve um título esclarecedor: “Desenhando com uma câmara”.
4 – Stanley e Boodgie (1993-95)
Na década de 1990, Stanley e Boodgie, os dois “daschund” de Hockney ocupam um lugar central na sua vida — e também na sua obra, através dos muitos desenhos e pinturas em que surgem entre 1993 e 1995 (editados num álbum de 2011). Como ele dizia, posavam sem drama, com grande disponibilidade, apenas pedindo “amor e comida (não necessariamente por esta ordem)”.
5 – A CLOSER GRAND CANYON (1998)
Porquê um Grand Canyon “mais próximo” (“closer”)? Porque Hockney fez este quadro (de uma série de paisagens) a partir de uma semana de visitas ao local, sentindo que, assim, se sentia “mais próximo” daquele prodígio natural. São, efectivamente, 60 pequenos quadros montados num rectângulo que faz lembrar a largura do CinemaScope — dimensões aproximadas: 2 x 7,5 metros.
6 – AFRICAN VIOLET, MAYFLOWER HOTEL, NEW YORK (2002)
Inspirado por uma exposição de aguarelas chinesas (em Nova Iorque, no Met), Hockney sente-se tentado a uma redescoberta de uma técnica “antiga”, inclusive no seu trajecto pessoal. O resultado permite-lhe reencontrar uma fluidez de formas e cores que correspondem ao que diz ter aprendido com a arte da China. Ou seja, uma fusão de “mãos, olhos e coração”.
7 – UNTITLED Nº 7 / “THE YOSEMITE SUITE” (2012)
Depois da descoberta do iPhone como instrumento de pintura, Hockney vai mais longe, adquirindo um iPad que o fascina pela “ligeireza” com que pode trabalhar cores e formas. Tudo isso acontece em paralelo com várias visitas ao Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia. Dito de outro modo: para ele, como sempre, a vanguarda tecnológica combina bem com a sedução das formas naturais.

sexta-feira, junho 26, 2026

“Isto não é Mick Jagger”

O novo teledisco dos Rolling Stones foi feito por Inteligência Artificial? Digamos antes que é artificial e inteligente — eate texto foi publicado no Diário de Notícias (19 junho).

Se conseguirmos manter alguma lucidez no meio da histeria informativa que nos rodeia, todos os dias sustentada pelo pior que as televisões vão fabricando, convenhamos que não é fácil termos alguma noção consistente sobre o que é (ou pode ser) a utilização desse novo prodígio, fascinante e monstruoso, que é a Inteligência Artificial (IA). Não que possamos, de forma lúcida, precisamente, ignorar os perigos assustadores do seu desenvolvimento. Em qualquer caso, há uma diferença entre informar sobre tais perigos e utilizar a IA como sinónimo de um apocalipse anunciado.
Não quero, com este desabafo, atrair generalizações apocalípticas nem redentoras. Já basta o que basta. Foco-me apenas num acontecimento muito particular: o novo teledisco da canção In the Stars, tema do 25º álbum de estúdio dos Rolling Stones, Foreign Tongues, com lançamento marcado para 10 de julho. E dou-me conta da facilidade com que a sua descrição automática — “um teledisco fabricado pela IA” — tende a circular como uma espécie de rótulo compulsivo.
Enfim, é verdade que vemos Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood a interpretar In the Stars, sendo também verdade o seu contrário: aquilo que vemos não foi filmado com os elementos dos Rolling Stones. Aliás, mesmo descobrindo o teledisco no mais completo desconhecimento sobre a sua produção, rapidamente desembocamos num insólito beco sem saída: quem é este Mick Jagger, com ar e pose da década de 1980... numa canção composta em 2025 ou 2026?


Deparamos, assim, com um curioso bloqueio de linguagem. Dizemos que o teledisco “foi filmado”, mas a própria expressão deixou de ser adequada para lidarmos com objectos como este. Em termos esquemáticos, passámos a viver num universo de imagens em que aquilo que vemos não resulta necessariamente da presença de uma câmara frente a uma determinada acção física e humana.
Que aconteceu, então? Pois bem, o director do teledisco, o francês François Rousselet, começou com uma outra banda, os londrinos Hot Property, filmando-os a interpretar a canção dos Stones. “Emprestaram” os seus corpos à energia de In the Stars — aplicando a gíria tecnológica, foram “stand-ins”. Depois, os rostos jovens de Jagger, Richards e Wood foram “aplicados” nas imagens dos Hot Property — esse trabalho foi executado pela Deep Voodoo, empresa fundada em 2020 por Matt Stone e Trey Parker, criadores da série de animação South Park.
Em termos práticos, não necessariamente técnicos, o processo não será muito diferente daquele que James Cameron utilizou na concepção original, e respectivas derivações, do seu Avatar (2009). Os resultados podem também fazer lembrar as técnicas de “rejuvenecimento” (“de-aging”) que Martin Scorsese usou em O Irlandês, para figurar Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci algumas décadas antes da acção principal do filme; em todo o caso, com uma diferença importante: os intérpretes das personagens foram sempre os próprios actores.
Bem sabemos que há vozes muito respeitáveis (Tom Hanks, Scarlett Johansson, Cate Blanchett, etc.) que em diversos contextos têm denunciado a eventual manipulação industrial de imagens de actores e actrizes através da IA como uma ofensa ao respectivo trabalho e, em rigor, um crime contra a criação artística. Acontece que no exemplo de In the Stars são os próprios artistas a “assinar” a irónica transfiguração das suas imagens — um pouco à maneira de René Magritte quando, há quase um século (1929), pintou um cachimbo com a legenda “Isto não é um cachimbo”.
RENÉ MAGRITTE
A Traição das Imagens
(1929)

quinta-feira, junho 25, 2026

A arte do suspense [Steven Spielberg]

Como nasce o suspense no interior de uma cena de um filme? Eis um belo exemplo de O Dia da Revelação, explicado pelo próprio Steven Spielberg em depoimento para o New York Times. Com uma curiosa rima pessoal — ou seja, a evocação de uma situação premonitória de Duel/Um Assassino pelas Costas (1971).
 

terça-feira, junho 23, 2026

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, 1966

Lançado há 60 anos, o primeiro filme realizado por Mike Nichols é uma referência modelar da história imensa, plena de contrastes, das relações teatro/cinema. A partir da peça de Edward Albee, com o par Elizabeth Taylor/Richard Burton no centro dos acontecimentos (sem esquecer o brilhante contraponto de George Segal e Sandy Dennis), eis um filme cuja teatralidade não é um decalque, antes uma transfiguração do espaço e do tempo cuja energia começa, obviamente, nos diálogos do texto original. A rever, sempre, combatendo a preguiça (ou a banal ignorância) dos que gostam de dizer que os filmes "antigos" estão muito "datados"...

domingo, junho 21, 2026

SOUND + VISION Magazine
[ Junho + Julho ]

[ Jesca Hoop ]

Numa sessão em que evocámos os "nossos" dois Festivais da Primavera — Eurovião + Cannes —, houve lugar para os obrigatórios destaques e também para novas músicas de Laura Misch e Jesca Hoop. Aqui ficam alguns dos videos que partilhámos: Bangaranga, a canção búlgara vencedora da Eurovisão, o trailer de Fatherland, um dos momentos altos na Côte d'Azur, e um dos temas do novo álbum de Jesca Hoop.
A próxima sessão já está marcada:

MILES DAVIS, 100 anos
FNAC Chiado
11 julho





Adult Jazz, 2016

O extraordinário Earrings Off!, dos ingleses Adult Jazz, foi lançado há dez anos — assinalemos a efeméride, celebrando a impossibilidade de os encerrarmos num rótulo definitivo.
 

sábado, junho 20, 2026

Miles Davis, 1991

[ poster de Max Bill ]

Recordemos Summertime, por Miles Davis, no Festival de Montreux de 1991. Ficou como uma das suas performances mais lendárias, e também mais carregada de emoções. Com a orquestra de Quincy Jones, tratou-se de uma evocação/homenagem a partir de temas temas arranjados por Gil Evans. Aconteceu a 8 de julho de 1991; Miles faleceu algumas semanas mais tarde, a 28 de setembro, em Santa Monica, Califórnia — contava 65 anos.
 

Festivais da Primavera
* SOUND + VISION Magazine [hoje, 20 junho]

Depois dos mês de maio de cada ano, um balanço das canções da Eurovisão e dos filmes de Cannes já faz parte da tradição das sessões Sound+Vision — cumpriremos a tradição, recordando imagens e sons que ficam na memória.

>>> FNAC / Chiado — 20 de junho (17h00).

sexta-feira, junho 19, 2026

The Obama Presidential Center foi inaugurado

O projecto cultural do Presidente Barack Obama já foi inaugurado: concebido como um cruzamento de museu, biblioteca e espaço educacional, The Obama Presidential Center surge, agora, na paisagem de Chicago, como prolongamento de uma viagem humanista, política e simbólica, para lá dos oito anos da presidência de Obama.
Os artistas musicais que participaram na festa de abertura (18 junho) reuniram-se, no final, para cantar Higher Ground, um clássico de Stevie Wonder — ele mesmo conduziu as operações, na companhia de Jennifer Hudson, Bruce Springsteen, Eddie Vedder, John Legend, Common e The Roots. Em baixo, fica também um breve video de apresentação do novo centro.
 


Rolling Stones — o podcast

O álbum é, dizem eles, falado em "línguas estrangeiras". Daí a decisão muito lógica: para acompanhar o lançamento de Foreign Tongues (10 julho), os Rolling Stones decidiram criar o seu primeiro podcast. São novas aventuras da terceira idade — começa no dia 25 de junho e já tem trailer.