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quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Pelos filmes de Gotemburgo:
'Simple Simon'


Chegou à short list para o Oscar para Melhor Filme estrangeiro, mas acabou fora da lista definitiva dos cinco nomeados. Simple Simon (no original I rymden finns inga känslor), do sueco Andreas Ohman, é uma comédia invulgar que toma como protagonista um jovem que sofre do síndroma de Asperger. Vive com Sam, o seu irmão, e dele depende, nos momentos de maior ansiedade procurando contudo refúgio numa “nave espacial”, com tampa de panela, que mora no seu quarto, imaginando-se então em missão algures pelo espaço. O mundo excessivamente arrumado e racional em que caminha o seu quotidiano torna-se a dada altura espaço de convívio impossível para a namorada do irmão que os deixa, do sentido de perda e desorientação de Sam (e da forma como a separação quebrou rotinas) nascendo em Simon a vontade de, não conseguindo convencer a ex-“cunhada” a regressar, encontrar uma nova companheira para o irmão. E nada como um programa científico, para o levar a cabo, pensa...

Luminoso na fotografia, colorido nas imagens, doseando bem os instantes de humor ao longo da narrativa, e suportado depois por uma bela interpretação do protagonista (Bill Skarsgard, irmão de Alexander Skarsgard que conhecemos da série True Blood), Simple Simon é mais um claro exemplo das potencialidades de um novo cinema europeu ao qual não faltam argumentos para chamar a atenção de plateias internacionais. Não só era claro candidato a morar no alinhamento de um festival de cinema por estes lados como, inclusivamente, caberia perfeitamente numa agenda de edição em sala.



Imagens do trailer de Simple Simon.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Pelos filmes de Gotemburgo:
'The Troll Hunter'


O ponto de partida da ideia não mora muito longe do que em tempo vimos em The Blair Witch Project ou, mais recentemente, em Colverfield. The Troll Hunter (no título original Trolljegeren), do norueguês Andre Ovredal é um “mockumentary” que nos apresenta o que supostamente seria a montagem de gravações encontradas e nas quais é reconstituída a tentativa de rodagem de um documentário sobre um caçador de trolls... Estamos algures por uma região montanhosa na Noruega, longe de grandes centros urbanos. Uma equipa de estudantes, com um projecto de cinema em mãos, escolhe um estranho e calado homem como alvo da sua curiosidade, acabando por descobrir que se trata de um caçador de trolls, com ele partindo em missões que uma outra equipa tenta manter em segredo a todo o custo, escondendo da população a existência destes monstros que todos acham não existirem senão em lendas e outras narrativas de ficção.

Se o dispositivo narrativo (e visual) segue o dos que os filmes acima referidos já experimentara, o valor “acrescentado” de Troll Hunter nasce de um permanente cruzar da acção (onde não faltam os inevitáveis arrepios com sons e perseguições no escuro) com instantes de hilariante humor, da soma resutando um filme que mais parece piscar o olho aos códigos da comédia que aos do cinema de terror.



Imagens do trailer de The Troll Hunter.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Pelos filmes de Gotemburgo:
'Limbo'


Limbo, da norueguesa Maria Sodahl, é um filme feito com gente de um país que sabe o que é o frio, rodado em terras de clima quente. Estamos em Trindade e Tobago, algures nos anos 70, seguindo o espaço familiar de um técnico norueguês que ali vive o dia a dia do trabalho de uma companhia petrolífera. Ao cabo de um tempo de vida solitária na região, Daniel recebe finalmente Charlotte, a mulher, e os dois pequenos filhos que a ele assim se juntam para uma nova vida por aquelas latitudes. A descoberta de um affair do marido e a dor que o ciúme e a revolta projectam em Charlotte dão a volta ao seu mundo, das rotinas sociais ao próprio dia a dia familiar.

Limbo é assim mais uma história feita de cenas de uma vida conjugal no patamar da iminente desagregação. A projecção dessa instabilidade num palco tropical, embora vivido por gentes que vêm da Europa do Norte, é contudo um entre os vários argumentos que fazem de Limbo uma bela surpresa. A condução da narrativa, o choque de culturas, a cuidada mise en scène (num belo exemplo do que pode ser uma caracterização de época mais utilitária que formalista) e uma belíssima direcção de fotografia fizeram deste filme norueguês outro dos momentos mais inesquecíveis da edição deste ano do Festival de Gotemburgo.



Imagens do trailer de Limbo.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Pelos filmes de Gotemburgo:
'Upside Down: The Creation Records Story'


Passou pela edição deste ano do festival de Gotemburgo o filme Upside Down – The Creation Records Story, de Danny O’Connor que, como o próprio título sugere, é um olhar histórico sobre a Creation Records, a editora fundada pelo visionário Alan McGee no Reino Unido em meados dos oitentas e que, ao longo dos anos em que se manteve activa, revelou nomes como, por exemplo, os Jesus & Mary Chain, House Of Love, My Bloody Valentine, Ride ou, mais tarde, os Oasis.

Apesar da riqueza inquestionável dos valores musicais em questão (a editora foi mesmo uma das mais interessantes fontes de novidades na pop de finais dos oitentas e inícios dos noventas), o documentário não revela a mesma imaginação que, no seu tempo, fez dos artistas da Creation Records verdadeiras forças motrizes da invenção pop/rock (facção indie) do seu tempo. O filme segue uma lógica “talking heads” e limita-se a entremear entrevistas recentes com nomes ligados às bandas que fizeram a história da editora com imagens de época, entre actuações ao vivo e momentos vividos nos bastidores... É certo que qualquer alma interessada nos caminhos que a melhor pop/rock alternativa da Inglaterra de finais de oitenta e inícios de noventa então revelou vai encontrar aqui argumentos suficientes para que o filme lhes interesse. Pena que não haja muito cinema por estes lados.



Imagens do trailer de Upside Down – The Creation Records Story.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Pelos filmes de Gotemburgo:
'The Mill and The Cross'


O ponto de partida é um quadro de Bruegel. Em concreto uma visão, que data de 1564, onde o pintor evoca uma cena bíblica em contexto de época, transportando um momento do caminho para o Calvário algures para um cenário na Flandres do renascimento. É de um olhar sobre esse quadro, que o realizador descobriu (e por várias vezes revisitou) num museu em Viena, na Áustria, que nasce The Mill and the Cross. A ideia é então simples: a de dar vida a várias entre as figuras que vemos no quadro, o filme, apesar de manter como recorrente o cenário que serve de fundo ao quadro (usando literalmente formas que não confundimos com um olhar sobre o real), procurando espreitar os espaços e hábitos do quotidiano dessas personagens.

Realizado pelo polaco Lech Majewski, The Mill and The Cross é assim um quadro vivo. Feito essencialmente de gente anónima, do moleiro (que vive no moinho que dá título ao filme e domina a paisagem) aos impiedosos elementos de uma milícia que mantém a ordem através de verdadeiro terror, o filme é um interessante exercício visual. Peca contudo quando tenta encontrar uma teia narrativa mais sólida onde, na verdade, bastaria uma representação de figuras e do contexto que as envolve. A presença de três actores nada anónimos (Rutger Hauer, Michael York e Charlotte Rampling) sublinha mais ainda o confronto entre o que era gente anónima no quadro que serve de ponto de partida a todo o filme e uma construção narrativa que na verdade não deixa nunca de ser tão fragmentaria como inconsequente.


Imagem do quadro de Bruegel no qual se baseia o filme The Mill and The Cross.

Vale assim o olhar das imagens, a reconstrução de figuras (com um guarda roupa que não esconde contudo que foi coisa costurada há dias e nem está gasto nem sujo) e um interessante trabalho de som (que não deixa contudo de realçar a falta de uma mais presente banda sonora).



Imagens do trailer de The Mill and The Cross.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Pelos filmes de Gotemburgo:
'Brim'


Brim era a única representação islandesa entre os oito nomeados ao Dragon Award (que distingue o melhor filme nórdico) na 34ª edição do Festival de Gotemburgo. A bordo de um barco de pesca nos mares do Atlântico Norte a vida faz-se rotinas com sabor a frio e humidade, os longos turnos de 16 horas que a pequena tripulação vive (o dono do barco prefere assim reduzir o número de empregados a bordo) sucedendo-se a um ritmo repetitivo, mas em nada minimal.

A última viagem foi assombrada pela morte de um companheiro de trabalho. Em terra vivem-se instantes de escape (um dos pescadores, que já somou medalhas em competição, refugia-se na piscina, outro dá largas ao vício pelo jogo), prepara-se nova partida. A bordo o reencontro junta mais uma personagem, a sobrinha do capitão.


A presença do companheiro que os abandonou ainda é sentida a bordo, o dia a dia sem nada de realmente novo e um quotidiano com horizontes bem menos vastos que os que o mar lhes mostra no convés domina o avançar da campanha. Com um realismo sem corantes nem conservantes, Árni Olafur Asgeirsson mostra nesta sua primeira longa-metragem um espantoso talento que alia a uma capacidade narrativa uma cuidada caracterização das personagens e do espaço onde vivem os seus dias e noites. Há lugar para os sonhos, mas os ritmos da pesca, do trabalho de preparação e armazenamento do peixe, da manutenção e até mesmo a repetição de momentos de lazer (revendo invariavelmente os mesmos filmes) não os deixam ser mais senão isso mesmo. Brim foi mesmo uma das melhores surpresas do festival, revelando um filme que bem que podia descer até estas latitudes...



Imagens do trailer de Brim.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Pelos filmes de Gotemburgo:
'She Monkeys'


O merecido vencedor do Dragon Award principal (ou seja, o que distingue o melhor filme nórdico) na recente edição do Festival de Gotenburgo (Suécia) é um filme que pode ter pela frente um interessante percurso internacional.

Primeira longa-metragem da realizadora Lisa Aschan (nascida em 1978), She Monkeys (no seu título em inglês, apresentando-se originalmente como Apflickorna) é uma história contada e vivida no feminino. Numa pequena comunidade (que imaginamos num subúrbio já com características próximas de um espaço rural) entramos num picadeiro onde treina uma equipa que prepara a sua participação num concurso equestre. Emma apresenta-se e, depois de um teste, é aceite pela instrutora. A sua busca pela perfeição nos movimentos chama desde logo a atenção de Cassandra, uma “líder” (não oficial) da equipa, entre as duas nascendo um jogo de colaboração e competição, de atração e repulsa, que conduzirá toda a narrativa. De resto, o espaço central da história só aceita mais uma protagonista, Sara, na verdade a pequena irmã de Emma que vive encantada por um primo que lhe faz ocasionais sessões de baby sittying.


Com um olhar realista, uma fotografia cuidada e um argumento bem construído, She Monkeys junta os ingredientes do registo coming of age aos da competição por um lugar na equipa que participará num concurso. O talento narrativo de Lisa Aschan e o olhar da câmara da sua directora de fotografia juntam-se a um impressionante trio de jovens actrizes para fazer de She Monkeys um candidato a ser um dos grandes filmes de 2011.