Na nossa mais recente sessão na FNAC [23 Nov.], percorremos memórias justificadas por algumas reedições musicais (recheadas de inéditos), começando por 1999 (1982), um álbum emblemático de Prince, e passando também pelos universos de David Bowie, George Michael e Leonard Cohen. Eis alguns dos videos apresentados.
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Próxima sessão:
SOUND+VISION Magazine
Rolling Stones: "Let it Bleed", 50 anos
Foi o último álbum dos Rolling Stones em que Brian Jones ainda participou: assinalamos os 50 anos do lançamento de Let it Bleed, evocando os caminhos criativos da banda, em estúdio e em palco.
* FNAC, Chiado — 14 Dezembro (18h30).
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>>> Prince (Little Red Corvette) + David Bowie (Wide Eyed Boy from Freecloud 2019) + George Michael (This Is How (We Want You to Get High)).
A reedição do álbum 1999 (1982), um clássico da discografia de Prince, é pretexto para viajarmos através de memórias musicais (mas também cinematográficas...) que continuam a regressar ao mercado — Leonard Cohen não será esquecido.
Foi a 19 de Outubro de 1979 que surgiu Prince, o segundo álbum de estúdio do príncipe de Minneapolis. Para assinalar a data, os gestores do património do cantor divulgaram um "demo" inédito de I Feel for You, tema desse álbum que, curiosamente, teria maior divulgação na voz de Chaka Khan, num álbum de 1984 cujo título coincide com o da canção [notícia: Rolling Stone].
A gravação, em cassete, terá sido feita em 1978-1979, tinha Prince 20 anos — é um exercício paradoxal de contenção exuberância que vale a pena escutar em paralelo com o registo que está no álbum de Prince e, por fim, a versão de Chaka Khan.
Entre a realidade e a mitologia, Prince e Michael Jackson são dois nomes fundamentais da música popular; ambos completariam 60 anos em 2018 — numa das nossas habituais sessões na FNAC, propomos uma viagem/celebração através de memórias feitas de imagens e sons.
Do cofre de Prince (que teria completado 60 anos a 7 de Junho) continuam a brotar pequenos grandes prodígios. Depois de Nothing Compares 2 U, aí está Mary Don't You Weep, um espiritual que Prince registou em casa, apenas recorrendo a um piano e um microfone — integra um álbum de registos inéditos que surgirá a 21 de Setembro, com toda a objectividade intitulado Piano & A Microphone 1983 [Rolling Stone]. Mary Don't You Weep ouve-se no genérico final do mais recente filme de Spike Lee, BlacKkKlansman, Grande Prémio do último Festival de Cannes.
Apesar de não estarem resolvidas as questões relacionadas com a gestão da herança de Prince, por certo de infinita complexidade jurídica, a sua música permanece como coisa da actualidade. Hoje mesmo, através da divulgação de um inédito: uma gravação de 1984 do seu hit Nothing Compares 2 U (que, como sabemos, se tornaria uma das mais fortes marcas artísticas de Sinéad O'Connor). É certo que, a partir de certa altura, a canção foi presença regular nos concertos de Prince, mas este registo tinha permanecido por divulgar — o respectivo teledisco, particularmente hábil na forma de encenação de uma performance de que não existem imagens, foi montado a partir de arquivos de ensaios de Prince & The Revolution [NPR].
Hannah Reid [foto], Dominic 'Dot' Major e Dan Rothman, isto é, os London Grammar estiveram no Live Lounge da BBC Radio 1 para enfrentar um desafio nada simples: interpretar o clássico Purple Rain, de Prince — prevaleceram rigor e sobriedade.
Os telediscos de Prince continuam a (re)aparecer na Net. E o menos que se pode dizer é que, mesmo não esquecendo o muito que ele resistiu a tal divulgação, a sua circulação apenas tem servido para reafirmar o seu génio. Será que poderia ser de outra maneira?...
Aí estão, então, Batdance e Partyman, ambos da banda sonora do Batman (1989), de Tim Burton, o filme que inaugurou a era moderna do Homem Morcego no cinema. A sua energia funk, encenada através de uma espantosa energia orquestral, corresponde a um tempo de prodigiosa criatividade — mais concretamente, depois de Lovesexy (1988), antes de Graffiti Bridge (1990). Com direcção de Albert Magnoli e coreografia de Barry Lather, os telediscos são também um exemplo modelar de figuração "roubada" à iconografia de Batman — citação e apropriação, eis a questão.
São paradoxais e acidentadas as relações de muitos criadores musicais com a Internet. Prince, por exemplo: é lendária a sua resistência à difusão dos seus registos audiovisuais na Internet, em particular no YouTube. Agora, pouco mais de um ano depois do seu desaparecimento, em paralelo com a reedição do álbum Purple Rain, alguns dos seus telediscos e registos ao vivo voltam a ter vida pública.
Como noticia a NPR, são cinco canções de Purple Rain, precisamente, que renascem nos espaços do YouTube e Vevo. O teledisco de When Doves Cry, por exemplo, foi dirigido pelo próprio Prince e inclui imagens do filme homónimo (Albert Magnoli, 1984).
Quando Prince faleceu (a 21 de Abril de 2016), a reedição de Purple Rain (1984) era um dos muitos projectos em que estava envolvido — Purple Rain [Deluxe Expanded Edition] aí está como assombroso resultado de tal processo: uma antologia CDs + DVD que, para além da remasterização do álbum original, oferece materiais alternativos e canções inéditas (pelo menos em registos oficiais), naquela que é a primeira grande revelação de um "cofre" que, tudo indica, continuará a alimentar muitas edições mais ou menos surpreendentes.
Dito de outro modo: aquilo que foi, na origem, a colecção de canções de um filme, dirigido por Albert Magnoli, em 1984 (com 25 milhões de cópias, continua a ser a sexta banda sonora mais vendida de sempre), renasce agora como um esplendoroso monumento musical — por certo, uma das reedições do ano.
Aqui fica um dos inéditos, The Dance Electric, e um video oficial da NFL, dedicado à espantosa performance de Prince na 41ª edição do Super Bowl, a 4 de Fevereiro de 2007, concluída, justamente, com Purple Rain.
No dia 6 de Maio, o filme Purple Rain, com Prince, foi objecto de uma breve reposição em cinemas de Lisboa e Porto — este texto foi publicado nesse mesmo dia, no Diário de Notícias, com o título 'Quando Prince experimentou o universo cinematográfico'.
Queixamo-nos, por vezes, e com razões muito objectivas, da inércia do mercado cinematográfico face ao imprevisto da actualidade. De facto, podemos imaginar as mais diversas formas de programação apostadas em corresponder aos temas decorrentes das notícias (e não apenas do mundo do cinema). Esta semana temos uma excepção que vale a pena sublinhar: evocando Prince (falecido a 21 de Abril), os cinemas UCI do El Corte Ingles (Lisboa) e Arrábida (Porto) vão exibir amanhã o filme Purple Rain (dia 6: 19h00 e 21h30).
Sem que isso minimize o génio musical de Prince Rogers Nelson (bem pelo contrário... ), talvez seja pedagogicamente útil relembrar que a sua herança cinematográfica está longe de ser brilhante. Ao mesmo tempo, não deixa de ser uma herança sintomática do seu sentido visionário: numa altura de espectacular reconversão dos parâmetros do universo musical, nomeadamente através do aparecimento da MTV (cujas emissões tinham arrancado em Agosto de 1981), Prince foi um dos primeiros — a par de Madonna, David Bowie ou os Rolling Stones — a compreender a importância de uma diversificação visual e mediática em que, obviamente, muito antes do YouTube ou Facebook, o cinema emergia como o território principal.
Purple Rain surgiu, assim, em 1984, como veículo de celebração da imagem de Prince, criador e intérprete de canções. Rezam as crónicas que o conceito foi desenvolvido ao longo da digressão de lançamento do álbum 1999 (o quinto da sua discografia, lançado em 1982), envolvendo a criação de um enredo mais ou menos romanesco, centrado na personagem de Prince (“The Kid”), um músico de Minneapolis, e em particular no seu romance com a cantora Apollonia, nome derivado da própria intérprete, Apollonia Kotero (a que Prince dera a liderança do grupo vocal Apollonia 6, por sua vez uma reinvenção de Vanity 6).
A realização de Alberto Magnoli, também responsável pela história (em colaboração com William Blinn), obedece a uma lógica “descritiva” em que as peripécias do argumento (muito ligeiras, por vezes algo desconexas) são sempre menos importantes do que os momentos especificamente musicais. “The Kid” é, assim, uma figura em permanente deambulação na sua emblemática moto Honda CM400 (modelo lançado em 1981), encarnando uma certa nostalgia cinéfila “on the road” (Easy Rider surgira em 1969) que, em todo o caso, desta vez, se projecta por inteiro na celebração da música.
Purple Rain foi mesmo um caso exemplar de colaboração estratégica dos mercados musical e cinematográfico, já que o filme surgiu nas salas dos EUA a 27 de Julho de 1984, um mês e dois dias depois do lançamento do álbum homónimo. Para a história, Purple Rain ficou como uma primorosa colecção de canções, incluindo o tema-título e ainda, por exemplo, Let’s Go Crazy, When Doves Cry e I Would Die 4 You. Nas salas portuguesas, o filme surgiu em 1985 como Viva a Música! — um título não muito inspirado que, agora, em todo o caso, pode resumir a nossa admiração pela herança de Prince.
A música, a imaginação e o imaginário de Prince serão temas de uma sessão especial do SOUND + VISION Magazine — dia 5 de Maio, 18h30, na FNAC do Chiado.
Não tem a amplitude de alcance de outros serviços, mas apresenta alguns exclusivos como trunfo. Uma boa reflexão sobre as reais potencialidades e futuro do Tidal.
A dimensão jazzística da obra de Prince não foi um mero adorno. Além do mais, sintomaticamente, encontrou ecos muito concretos no trabalho de alguns mestres. No caso de Thieves In the Temple, é Herbie Hancock, em luxuriante companhia — Michael Brecker (saxofones), John Scofield (guitarras), Dave Holland (baixo acústico), Jack DeJohnette (bateria) e Don Alias (percussão) —, que propõe uma primorosa versão que parece ter sido composta directamente para o seu piano. A canção pertence ao álbum Graffiti Bridge (1990), banda sonora do filme com o mesmo título; Hancock inclui a sua versão em The New Standard (1996), ao lado, por exemplo, de Mercy Street (Peter Gabriel), Norwegian Wood (Lennon, McCartney) e All Apologies (Kurt Cobain).
O filme de 1984, que teve um peso marcante na projeção de Prince para um estatuto de estrela global, vai voltar a ser exibido comercialmente entre nós na próxima semana. Purple Rain estará em exibição no dia 6 de maio nos cinemas UCI de Lisboa e Porto, em sessões às 19.00 e 21.30.
Realizado por Albert Magnoli e protagonizado por Prince, o filme apresenta alguns traços autobiográficos do músico que, aqui, fazia a sua estreia no grande ecrã. Prince interpreta a figura de "The Kid”, um jovem talentoso e problemático vocalista de uma banda de Minneapolis.
Grande e comovente homenagem: em concerto no Barclays Center, em Brooklyn, Nova Iorque (23 Abril), Bruce Springsteen e The E Street Band evocaram Prince, numa performance em que, desde a música às luzes do palco, predominou a cor púrpura — eis o registo de Purple Rain, a abrir o espectáculo [a não perder: a magnífica crónica de Caryn Rose, no site da NPR]. Além do mais, no seu site, Bruce oferece o respectivo download.
Porventura uma escolha menos óbvia no catálogo dos experimentais e electrónicos Art of Noise, Kiss surgiu transfigurado numa batida obviamente indissociável do seu novo intérprete: Tom Jones. A proeza, consagrada em single de 1988, afigura-se tanto mais admirável quanto esta era (e é) uma daquelas canções — do álbum Parade (1986) — que podem resumir o génio de composição e voz de Prince. Além do mais, a nova versão foi sustentada por um teledisco de muito simples, e também muito eficaz, energia visual.
Grande dama da soul, Etta James integrou Purple Rain (1984), do álbum homónimo de Prince, naquele que seria o seu penúltimo registo, All the Way (2006) — uma versão capaz de conciliar a fidelidade ao original com as singularidades de uma voz poderosa e inconfundível [registo com montagem de imagens da intérprete].
Génio da história musical das últimas décadas, Prince faleceu no dia 21 de Abril, na sua casa de Chanhassen, Minnesota, cerca de uma semana depois de ter estado internado devido a uma gripe — contava 57 anos.
Filho de Mattie Della, uma cantora de Jazz, e John L. Nelson, pianista e autor de letras para canções, Prince Rogers Nelson foi um criador de muitas influências, capaz de as integrar e reinventar num universo muito próprio e inconfundível. Desde o cruzamento de funk, R&B e pop que encontramos, desde logo, nos primeiros álbuns — Dirty Mind (1980), Controversy (1981), etc. — até ao inclassificável e sedutor ecletismo dos trabalhos mais recentes (terminais?) — HITnRUN Phase One (2015) e HITnRUN Phase Two (2015) —, passando, claro, por momentos tão emblemáticos como Purple Rain (1984), Sign 'O' the Times (1987) ou Diamonds and Pearls (1991).
A sua capacidade de ziguezaguear entre estilos, géneros e instrumentos (era também um guitarrista exímio, um genuíno natural) levou-o também ao cinema, nomeadamente com Purple Rain (1984), de Albert Magnoli, veículo menor para um álbum maior; neste domínio, as suas mais importantes contribuições serão as canções originais de Batman (1989), de Tim Burton, e Girl 6 (1996), brilhante realização de Spike Lee (com Madonna num pequeno papel) que nunca estreou nas salas portuguesas. Em todo o caso, foi Purple Rain que lhe valeu um Oscar (melhor canção), tendo também ganho sete Grammy, o último dos quais em 2008, na categoria de melhor interpretação vocal masculina em R&B, por Future Baby Mama.
Paradoxalmente, este notável músico, cantor e entertainer foi também um resistente a alguns dos vectores mais emblemáticos da sociedade digital, no limite assumindo-se como um céptico da Internet — é, aliás, muito difícil encontrar ficheiros de vários dos seus telediscos, uma vez que ele restrigiu drasticamente a sua difusão. A sua herança teria (ou terá), por certo, um balanço essencial nas memórias que, há poucas semanas, tinha anunciado para publicação em 2017.
Por assumido paradoxo, Prince foi uma pessoa pública que, a certa altura, substituiu o seu nome por um símbolo (designação também de um extraordinário álbum de 1992 cujo primeiro tema se chama, ironicamente, My Name Is Prince), tendo passado mais tarde por um período em que se auto-designava 'The Artist' (assim surgiu identificado numa célebre entrevista com Larry King, a 10 de Dezembro de 1999) ou 'The Artist Formerly Known as Prince' — em qualquer caso, nada disso o destituiu da condição de ícone da realeza musical.