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sexta-feira, maio 30, 2025

Um texto de Thom Yorke

Em vários circuitos "sociais", Thom Yorke tem sido condenado por ter dado concertos em Israel e também, em paralelo, por causa do seu silêncio sobre a situação em Gaza. Resistindo a uma mentalidade que ele próprio define como promotora de um maniqueísmo grosseiro entre "nós e os outros", recusando reacções epidérmicas apenas susceptíveis de criar mais e maior tensão mediática, nessa medida demarcando-se dos "caçadores de bruxas" do mundo virtual, exprimiu-se agora através de um texto publicado no seu Instagram — eis as suas palavras.

Some guy shouting at me from the dark last year when I was picking up a guitar to sing the final song alone in front of 9000 people in Melbourne didn’t really seem like the best moment to discuss the unfolding humanitarian catastrophe in Gaza.

Afterwards I remained in shock that my supposed silence was somehow being taken as complicity, and I struggled to find an adequate way to respond to this and to carry on with the rest of the shows on the tour.

That silence, my attempt to show respect for all those who are suffering and those who have died, and to not trivialize it in a few words, has allowed other opportunistic groups to use intimidation and defamation to fill in the blanks, and I regret giving them this chance. This has had a heavy toll on my mental health.

I would hope that for anyone who has ever listened to a note of the music of my band or any of the music i have created over the years, or looked at the artwork or read any of the lyrics, it would be self-evident that I could not possibly support any form of extremism or dehumanization of others. All i see in a lifetime’s worth of work with my fellow musicians and artists is pushing against such things, trying to create work that goes beyond what it means to be controlled, coerced, threatened, to suffer, to be intimidated .. and instead to encourage critical thinking beyond borders, the commonality of love and experience and free creative expression.

Sounds naff … but true.

For others let me fill in the blanks now, so we’re nice and clear.

I think Netanyahu and his crew of extremists are totally out of control and need to be stopped, and that the international community should put all the pressure it can on them to cease. Their excuse of self-defence has long since worn thin and has been replaced by a transparent desire to take control of Gaza and the West Bank permanently.

I believe this ultra-nationalist administration has hidden itself behind a terrified & grieving people and used them to deflect any criticism, using that fear and grief to further their ultra-nationalist agenda with terrible consequences, as we see now with the horrific blockade of aid to Gaza.

While our lives tick along as normal these endless thousands of innocent human souls are still being expelled from the earth… for what?

At the same time the unquestioning Free Palestine refrain that surrounds us all does not answer the simple question of why the hostages have still not all been returned? For what possible reason?

Why did Hamas choose the truly horrific acts of October 7th? The answer seems obvious, and I believe Hamas chooses too to hide behind the suffering of its people, in an equally cynical fashion for their own purposes.

I also think there is a further and extremely important point to make.

Social media witch-hunts (nothing new) on either side pressurizing artists and whoever they feel like that week to make statements etc do very little except heighten tension, fear and over-simplification of what are complex problems that merit proper face to face debate by people who genuinely wish the killing to stop and an understanding to be found.

This kind of deliberate polarization does not serve our fellow human beings and perpetuates a constant ‘us and them’ mentality. It destroys hope and maintains a sense of isolation, the very things that extremists use to maintain their position. We facilitate their hiding in plain sight if we assume that the extremists and the people they claim to represent are one and the same, indivisible.

If our world is ever able to move on from these dark times and find peace it will only be when we rediscover what we share in common, and the extremists are sent back to sit in the darkness from whence they came.

I sympathize completely with the desire to ‘do something’ when we are witnessing such horrific suffering on our devices every day. It completely makes sense. But I now think it is a dangerous illusion to believe reposting, or one or two line messages are meaningful, especially if it is to condemn your fellow human beings. There are unintended consequences.

It is shouting from the darkness. It is not looking people in the eye when you speak. It is making dangerous assumptions. It is not debate and it is not critical thinking.

Importantly, it is open to online manipulation of all kinds, both mechanistic and political.

What is the alternative? I can’t answer that easily. I do know in communities around the globe this subject is now dangerously toxic and we are in uncharted waters. We need to turn back.

I am sure that, to this point, what I have written here will in no way satisfy those who choose to target myself or those i work with, they will spend time picking holes and looking for reasons to continue, we are an opportunity not to be missed, no doubt, and by either side.

I have written this in the simple hope that i can join with the many millions of others praying for this suffering, isolation and death to stop, praying that we can collectively regain our humanity and dignity and our ability to reach understanding .. that one day soon this darkness will have passed.

Thom Yorke

quarta-feira, janeiro 01, 2025

2024 / 10 álbuns [6]

* THE SMILE, Wall of Eyes

Apetece combinar este álbum com Cutouts, ainda lançado em 2024, e dizer que estamos perante um testemunho exemplar de criatividade. A presença de Thom Yorke e Jonny Greenwood, aliados ao baterista Tom Skinner, poderá fazer pensar numa espécie de Radiohead nas horas vagas... Em boa verdade, The Smile consolidou-se como um exemplo modelar de persistência e rigor, gerando sonoridades (e poesia) capazes de desafiar códigos e cânones — é música sentida, consciente da vulnerabilidade que lhe traz o gosto do efémero, sem alienar o desejo de eternidade.


[ Waxahatchee ] [ Jessica Pratt ] [ Danish String Quartet ] [ Andra Day ] [ Fred Hersch ]
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quarta-feira, janeiro 04, 2023

The Smile, concerto na NPR

[ The Smile ]

Para Bob Boilen, responsável pelos Tiny Desk Concerts, na NPR, este foi o momento mais alto da música de 2022. E compreende-se porquê: a performance de The Smile é um pequeno prodígio de transfiguração de três canções — Pana-vision, The Smoke e Skrting On the Surface — do seu álbum A Light for Attracting Attention: a hiper-sofisticação do trabalho de estúdio dá lugar, aqui, a uma austeridade que, em boa verdade, acaba por reafirmar a vibração poética das composições. Reforçando o entusiasmo de Boilen, digamos que são apenas 15 minutos, mas tanto basta para que estejamos perante um dos grandes concertos (tiny ou não...) do ano.

terça-feira, junho 07, 2022

Radiohead, aliás, The Smile

A confusão justifica-se.
E é especialmente saborosa.
A Light for Attracting Attention apresenta-se como uma nuvem de temas, tecida de coisas materiais e derivações imponderáveis, de imediato fazendo lembrar os Radiohead... E por muito boas razões: Thom Yorke e Jonny Greenwood estão envolvidos neste álbum magnífico, mas a banda dá pelo nome de The Smile.
Ou seja: Yorke e Greenwood aliaram-se Tom Skinner, baterista da banda de jazz britânica Sons of Kemet, para um exercício de revisão da matéria dada + metódica pesquisa. Os resultados constituem, muito simplesmente, um dos grandes acontecimentos da música de 2022.

>>> The Smile: Thin Thing + Free in the Knowledge + We Don't Know What Tomorrow Brings.
 




sexta-feira, janeiro 28, 2022

The Smile (não são os Radiohead)

Não são os Radiohead, mas lá encontramos Thom Yorke e Jonny Greenwood, na companhia de Tom Skinner (do grupo britânico de jazz Sons of Kemet). Assinam como The Smile e têm uma nova canção: faz lembrar os Radiohead, mas não é grave...

sábado, maio 02, 2020

Thom Yorke em "The Tonight Show"

Thom Yorke esteve presente/ausente no programa de Jimmy Fallon, The Tonight Show, para apresentar um novo tema — chama-se Plasticine Figures e talvez possa ser descrito como uma canção de embalar para os tempos que estamos a viver.

sexta-feira, junho 28, 2019

Thom Yorke & Paul Thomas Anderson

Menos de um ano decorrido sobre a sua colaboração com Luca Guadagnino, assinando a banda sonora do filme Suspiria, Thom Yorke volta a associar-se a um cineasta: Paul Thomas Anderson dirigiu um especial de 15 minutos, produzido pela Netflix, para acompanhar o lançamento do novo álbum de Yorke, Anima (o terceiro a solo, depois de The Eraser e Tomorrow's Modern Boxes, respectivamente de 2006 e 2014). Registe-se, desde já, a magnífica fusão de uma musicalidade sempre devedora das electrónicas com um metódico espírito introspectivo — eis o tema Not the News e, em baixo, o trailer do filme de Anderson.



quarta-feira, novembro 21, 2018

"Suspiria", por Thom Yorke

A banda sonora do filme Suspiria, de Luca Guadagnino, é um pequeno grande acontecimento no interior de um filme de inusitada inteligência revivalista (refazendo o clássico homónimo de 1977, realizado por Dario Argento). Trata-se de uma sofisticada e austera criação de Thom Yorke, por assim dizer, confirmando que os membros dos Radiohead se dão bem com as paisagens cinematográficas — recorde-se a longa aliança de Jonny Greenwood com Paul Thomas Anderson [Stereogum].
Recentemente, Yorke esteve nos estúdios da BBC 6 para interpretar alguns temas da sua banda sonora — aqui ficam Suspirium e Unmade.



quarta-feira, setembro 12, 2018

"Suspirium" de "Suspiria"

Suspiria é a nova versão de... Suspiria: o original data de 1977 e tem assinatura de Dario Argento; agora, Luca Guadagnino propõe uma releitura do universo de terror de Argento (anuncia-se como um momento forte desta rentrée), mobilizando um elenco que inclui Dakota Johnson, Tilda Swinton e, last but not least, Ingrid Caven. Mais ainda: para compor a banda sonora convidou Thom Yorke — aqui está um primeiro e belíssimo tema, com o título adequado de Suspirium.

This is a waltz thinking
About our bodies
What they mean
For our salvation
With only the clothes that
We stand up in
Just the ground
On which we stand

Is the darkness
Ours to take?
Bathed in lightness
Bathed in heat

All is well
As long as we keep spinning
Here and now
Desert behind a wall

Only old songs and laughter we do
All forgiven, always and never been true

When I arrive here
You come and find me
Or in a crowd
Be one of them

Are you lonesome
Right beside her
No tomorrow's
At peace

segunda-feira, setembro 29, 2014

Novas edições:
Thom Yorke

“Tomorrow’s Modern Boxes”
ed. Autor
4 / 5

A surpresa começa a ganhar peso de norma na hora de lançar álbuns de nomes de relevância maior no panorama atual da música popular. E poucos dias depois de termos visto os U2 a oferecer, via iTunes, um novo álbum de originais a todos os utilizadores desse serviço da Apple, agora, e também sem qualquer anuncio formal prévio, foi a vez de Thom Yorke  ter apresentado um novo disco de originais da noite para o dia. A grande diferença é que o faz usando um método novo: via BitTorrent, mas a troco de um pagamento.
Com o título Tomorrow’s Modern Boxes, o segundo álbum a solo do vocalista dos Radiohead surge oito anos após The Eraser – o seu primeiro disco em nome próprio – e um ano após a experiência no projeto paralelo Atoms For Peace, que lançou em 2013 o álbum Amok. A edição do novo disco convoca contudo memórias do que houve de pioneiro – e desafiante – em In Rainbows, álbum de 2007 dos Radiohead que teve um primeiro lançamento digital (pedindo a cada um que pagasse o que entendesse, prevendo mesmo o preço zero como viável) antes de ter conhecido, mais tarde, uma edição em suportes físicos mais convencionais.
O disco de aprofunda a sua relação com um labor de fino detalhe nas electrónicas e apresenta oito novos temas entre os quais A Brain In a Bottle, a melhor canção de Thom Yorke (a solo ou em grupo) em largos anos. O disco tem nas memórias de Kid A e Amnesiac importantes pontos de referencia para parte do alinhamento e assinala uma vontade em explorar espaços de composição onde voz e texturas desenham linhas que avançam num regime algo líquido, envolvendo-se num corpo de formas que, mesmo aparentemente turvas num primeiro contacto, se revelam afinal mais claras e consequentes que em outros episódios da obra mais recente do músico. Parte do alinhamento traduz, num outro sentido, preocupações de arrumação ditada pelo ritmo, aproximando-se aí de eventuais heranças do trabalho coletivo via Atoms For Peace. 
Num comunicado que emitiu, juntamente com o produtor Nigel Godrich (que há muito trabalha não apenas com os Radiohead mas também nas experiências a solo do vocalista do grupo), Thom Yorke explicou que este modelo de edição discográfica, que usa uma nova versão do BitTorrent, é assumido como uma experiência para avaliar se “as mecânicas do sistema são algo com que o público em geral possa lidar” acrescentando que, se correr bem, “este poderá ser um meio eficaz para devolver algum do comércio através da Internet às pessoas que criam as obras”, permitindo assim encontrar um modelo que permita ao artista “que faz música, jogos ou quaisquer outros conteúdos digitais vendê-los ele mesmo”. A declaração aponta ainda que este sistema “finta” assim os “auto-eleitos guardiões” e lembra que o mecanismo usado “não requer custos de uploading ou arquivo” e que a rede que assim opera “não só permite o tráfego como ela mesma contém os ficheiros”.
O BitTorrent é um dos mais populares protocolos de partilha de ficheiro peer to peer e tornou-se conhecido na década passada em casos de troca de conteúdos pirateados. É reconhecido como um protocolo que torna mais rápidos os downloads de grandes ficheiros uma vez que usa os vários computadores onde estão alojados como fontes onde são colhidos elementos que depois são agrupados e ordenados no computador que os recebe. Não é a primeira vez que músicos usam o sistema, mas ao associar este modelo de distribuição a um pagamento (sem o qual não se acede aos ficheiros) representa uma novidade. E, como se infere pelas palavras de Thom Yorke, uma declaração de esperança numa nova forma de viabilizar não apenas a venda de músico mas de estabelecimento de uma relação mais direta entre quem faz a música e quem a quer escutar.

Apesar da surpresa que surgiu com a chegada do álbum (e o modo de o vender) a verdade é que nas últimas semanas tinham surgido nas redes sociais várias pistas indicando movimentações possíveis em terreno próximo do vocalista dos Radiohead. O próprio Thom Yorke revelara, esta semana, que os Radiohead estão a terminar uma etapa de gravações de um novo álbum. Tomorrow’s Modern Boxes junta-se assim a títulos recentes de David Bowie, Beyoncé ou U2 que usaram também a surpresa em favor de uma capitalização de atenções, contrariando assim modelos clássicos de marketing.

PS. Este texto é uma versão editada e acrescentada de um outro publicado na edição de 29 de setembro do DN