O compositor Thomas Adès, que aqui se senta ao piano, partilha com o violoncelista Steven Isserlis o protagonismo deste disco, onde interpretam obras de Liszt, Janacék, Fauré, Kurtág e do próprio Adès.
Íamos em 1668 quando Francesco Redi provou que a abiogénse, ou seja, a criação de vida a partir de matéria não viva, afinal não existia. A ideia de algo que surge por “geração espontânea” pode ter sido importante espaço de reflexão noutros tempos, mas na prática a coisa era diferente. E na sua experiência, mostrou como as larvas de moscas não surgiram na carne que tinha em recipientes tapados, porque a tela que os cobria impedia que as moscas lá colocassem os ovos... Ora, se taparmos os ouvidos de um compositor a coisa será semelhante. É claro que não podemos aplicar a mesma lógica da experiência em sentido lato. Mas o que vem ao caso é que a ideia de “geração espontânea” na música, como nas artes em geral, é coisa que, salvo exceções (admito que as haja, que isto de fazer generalizações sem aplicar o método científico dá asneira) não deverá existir. Toda a música (ou quase toda, já que não inventariámos a coisa e não podemos ser assim tão definitivos) provém de uma série de relações que se estabelecem entre o compositor, o seu tempo e lugar, a sua vivência, os materiais (humanos e sonoros) à sua disposição e a forma como ouviu, integrou e assimilou o que de outros escutou. A evolução, como na biologia, tem saltos, que podem ser explicados por mudanças sociais, tecnológicas ou eminentemente estéticas. Mas, quase sempre, o que o compositor escuta acaba por definir o que vai ser, seja por uma lógica de acção por oposição, continuidade ou transformação. O que este novo disco nos mostra, na forma de um sublime recital para violoncelo e piano, é como uma nova peça de Thomas Adès para estes dois instrumentos na verdade não é senão o resultado de uma vivência (e naturais reflexões) do compositor face a obras de outros autores. Assim, o alinhamento – que sugere precisamente essa lógica de recital – passa por peças de Liszt (1811-1886), Janacék (1854-1928), Fauré (1845-1924) e Kurtág (n. 1926), antes de chegar a Lieux Retrouvés, um encontro entre o cromatismo expressivo do violoncelo e a presença também marcante do piano, segundo Thomas Adès (n. 1971). Composta para o violoncelista Steven Irrselis, que partilha precisamente com Adès (piano) este alinhamento, esta obra de 2009 nasce de um relacionamento de Adès com os demais compositores que aqui revisita, a eles juntando-se ainda ecos de uma vivência num presente onde se cruzam ainda espaços da música popular e de uma presença do minimalismo. Porque, ao contrário da carne da experiência de Redi, Adès não vive com telas a tapar-lhe os ouvidos.
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domingo, novembro 25, 2012
Porque somos o que escutámos
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domingo, novembro 11, 2012
A 'tempestade' reinventada
Talvez seja ainda cedo para chamarmos a Thomas Adès o “novo Britten”... É inglês, sim. Tem já duas óperas (absolutamente magníficas), sim. Mas demos-lhe tempo para saber qual será o seu caminho e se, como o seu compatriota, na ópera encontrará um dos mais marcantes dos seus espaços de expressão (sendo que tanto na música orquestral como de câmara Adès tem assinado peças absolutamente espantosas que dele fazem, sem favor, uma das mais interessantes vozes autorais da sua geração)...
Bem distinta da algo satírica Powder Her Face, a segunda ópera de Adès The Tempest é já, seguramente, um dos marcos da música do século XXI, reinventando sob novos ângulos de abordagem, numa música vibrante e atual (mas plena de um sentido “clacissista” herdeiro de importantes ecos de um lirismo de outros tempos), uma antiga peça de William Shakespeare (que o libreto de Meredith Oakes explora, procurando condensar a essência da sua narrativa).
A nova produção de The Tempest, assinada por Robert Lepage, foi ontem transmitida em direto do Met em mais um dos momentos da temporada que, com tecnologia HD, assim chega a salas de todo o mundo (entre nós o Grande Auditório da Gulbenkian). Lepage já assinou por várias ocasiões a peça de Shakespeare e optou por projetar a ação nos espaços de um teatro de ópera (o La Scala , de Milão), sem que tal representasse contudo uma ideia de ópera dentro da ópera. O cruzamento de épocas que a música sugere, sobretudo a assinatura lírica que percorre o segundo e terceiro atos, acaba assim vincado pelas formas da cenografia e dos figurinos, a noção de tempo – e importa não esquecer o texto de Shakespeare na sua origem - diluindo-se assim frente aos nossos olhos.
Simon Keenlyside retomou o papel de Prospero que foi seu quando a ópera estreou em Covent Garden em 2004 (e cuja versão com esse mesmo elenco está editada pela EMI Classics). O exigente papel de Ariel coube a uma magnífica Audrey Luna. Ambos evidenciaram-se num conjunto de grande solidez, sob a direção do próprio Adès, que só mostrou algum desconforto nos breves minutos de uma entrevista ao vivo e em direto a breves instantes de dar início ao terceiro ato.
PS. Eis mais uma produção a justificar, em pleno, oportuno lançamento em Blu-ray.
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sábado, novembro 10, 2012
'The Tempest' hoje na Gulbenkian
A Gulbenkian apresenta hoje pelas 18.00, em direto do Met de Nova Iorque, a transmissão em HD de uma récita da ópera The Tempest, do compositor britânico Thomas Adès. Assinada por Robert Lepage, esta produção conta com vozes como as de Audrey Luna, Isaber Leonard ou Iestyn Davis. A direção de orquestra cabe ao próprio compositor.
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domingo, fevereiro 12, 2012
A Criação, segundo Thomas Adès
Um disco (que junta também um DVD) apresenta-nos o excelente In Seven Days, de Thomas Adès, um concerto para piano e imagens que parte de um trabalho conjunto com Tal Rosner. Gravação pela London Sinfonietta, dirigida pelo próprio compositor, com o pianista Nicolas Hodges como solista.
Sete dias. Ou seja, os dias da criação, segundo o Genesis... E é precisamente desse ponto de partida que o compositor britânico Thomas Adès parte para a construção de um concerto para piano, orquestra e imagens que se afirma claramente já não apenas entre os melhores instantes da sua obra mas representa um momento a reter entre a história da música orquestral do século XXI. A obra (recentemente apresentada na Gulbenkian) é, na verdade, um trabalho conjunto entre Adès e Tal Rosner, que criou as imagens segundo um processo de contínuo diálogo com o compositor. In Seven Days é uma obra com perto de meia hora de duração, dividida em sete partes que seguem o dia a dia da “criação”, do caos original à contemplação final, a estruturação de uma ordem e formas definindo primeiro a separação entre a luz e a escuridão, a separação das águas entre o mar e o céu, o aparecimento da terra (e da vegetação), a formação da Lua e das estrelas e depois a chegada das “criaturas” do mar, do céu e da terra...
A música é um poderoso veículo com poder narrativo que, Adès sabe usar sem que tal implique uma ideia de paisagismo descritivo. Revelando uma escrita que sabe atribuir à orquestra um dinamismo que sugere fluxos, movimentos e volumes, a música em In Seven Days sabe partir do que parece o caos original rumo ao estabelecimento de arrumações dos elementos que definem depois a ordem das coisas. O fulgor do trabalho com metais, a fluidez das cordas e a liberdade que depois o piano desenha conhecem nas imagens de Tal Rosner (que partem da manipulação de fotos de pormenores das duas salas onde a obra foi estreada) uma sugestão de fisicalidade que as materializa, sublinhando a noção de construção de algo que evolui à nossa frente em sete ecrãs (seis rectângulos, o sétimo sendo o conjunto dos seis como um todo).
Já houve quem lhe chamasse o sucessor de Fantasia, o clássico filme da Disney de 1940, certamente pelo trabalho de construção de imagens como complemento direto de peças de música orquestral. In Seven Days é um herdeiro dessa visão, sendo que obras não menos importantes (mas sem a presença de uma orquestra) como o foram um Koyaanisqatsi (filme de Godfrey Reggio com música de Philip Glass) ou a mais recente versão em palco do clássico Quadros Numa Exposição, de Mussorgsky (rebatizado como Pictures Reframed), pelo pianista norueguês Leif Ove Andsnes, com imagens criadas por Robin Rhode são momentos a ter também em conta na história da relação da música com imagens.
A completar o alinhamento, o disco inclui ainda as partes 6 e 7 dos Nancarrow Studies. Um DVD extra junta à gravação áudio a obra (música + imagens) total aqui apresentada.
Imagens de um filme promocional que acompanhou a edição deste disco.
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sexta-feira, janeiro 20, 2012
Viver a história (quando ela contece)
É no mínimo um privilégio podermos assistir à história quando ela acontece frente aos nossos olhos. E se tantas vezes imaginamos como seria ver Mahler a dirigir as suas obras em inícios do século XX ou estar numa plateia quando Liszt nos começou a habituar à ideia de ver um pianista como centro das atenções num serão de música, em janeiro de 2012 temos a oportunidade de contar, pela nossa frente, e ao vivo, com um dos maiores talentos na composição do nosso tempo. Com apenas 31 anos (e no currículo já uma multidão de obras, discos gravados, prémios e elogios), o britânico Thomas Adès é lisboeta ao longo desta e da próxima semana, num pequeno ciclo que a Gulbenkian nos propõe e que culminará com a apresentação de Polaris: Voyage For Orchestra, uma obra co-encomendada pela fundação que o compositor apresentará à frente da Orquestra Gulbenkian nos dias 27 e 28.
Ontem o primeiro concerto com obras e direção de Adès teve (como os demais deste ciclo) o mérito de juntar a sua música à de outros compositores (e outros tempos), mostrando como a história, mesmo quando a aponta noutros sentidos, vive de uma soma de factos que habitam, inevitavelmente, na memória do que acontece hoje e se projeta adiante. Foi por isso curioso que o concerto começasse com três estudos que Adès criou em 2006 tendo por base uma admiração maior pela música de François Couperin (1668-1733), cuja memória visitara já, nos anos 90, em Les Barricades Mystérieuses. Da música de Couperin (cujas marcas são reconhecíveis) Adès parte em busca de novos caminhos que ora descobre em abordagens mais centradas na textura ou na cor, o balanço entre o antigo e o presente, o visitante e o visitado, diluindo-se entre a orquestra (a Chamber Orchestra of Europe) frente aos nossos olhos.
Mais intenso ainda foi o momento em que Adès, já na segunda parte do concerto, deu voz ao seu absolutamente magnífico Concerto para Violino (de 2005). Herança direta das ideias desenvolvidas na sua segunda ópera (The Tempest, que a Gulbenkian apresenta em versão filmada esta segunda-feira), o concerto faz do violino uma voz que caminha o seu trajeto ao lado de uma orquestra que desenha motivos que ganham forma numa dinâmica circular, umas vezes afastando-se noutras aproximando-se da turba que se desenvolve ao seu redor. Há um jogo de contrastes nos sons, na energia, na fragilidade da voz do solista (que contou em cena com um soberbo Pekka Kuusisto) e um sentido de arrumação que é expressão do rigor técnico e da expressão de uma individualidade na composição de Adès.
Um Nuits d’Eté de Berlioz (com segura presença do tenor Toby Spence) e uma viçosa Sinfonia Nº 6 de Sibelius completaram o programa de uma noite que brilhou sobretudo pela oportunidade de nos colocar frente à música do século XXI.
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quinta-feira, janeiro 19, 2012
Thomas Adès em Lisboa
É algo avesso a grandes mediatismos, não é muito dado a entrevistas e, depois de erradamente citado, sendo-lhe atribuídas declarações que nem eram suas, não admira que Thomas Adès não seja uma figura com maior visibilidade no panorama atual da música. Ele é, contudo, um dos mais interessantes compositores do nosso tempo e, sem dúvida, o melhor exemplo de como o trabalho é chave para a definição de um rumo e o talhar de uma identidade entre os músicos da sua geração.
Com apenas 31 anos Thomas Adès é um compositor já com uma considerável obra gravada, sendo mesmo um nome central do catálogo atual da EMI Classics. A Fundação Gulbenkian inicia esta semana um ciclo dedicado à sua música que conta com a sua presença em Lisboa para dirigir uma série de concertos e, inclusivamente, estrear uma obra co-encomendada pela própria Fundação.
O primeiro concerto tem lugar já hoje pelas 21.00 horas. À frente da Chamber Orchestra of Europe, Thomas Adès vai dirigir os seus Three Studies from Couperin e o Concerto para Violino (com Pekka Kuusistu como solista). A noite inclui ainda Nuits d’Eté de Berlioz (contando com a voz de Toby Spence) e a Sinfonia Nº 6 de Sibelius.
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domingo, abril 25, 2010
Como numa nave, pelo espaço...
Voltamos a Thomas Adès, que de ano a ano se afirma como o mais interessante compositor deste início de século. Se em finais de 2009 a gravação da sua segunda ópera, The Tempest, gerou um dos acontecimentos editoriais do ano na área da música clássica, estes primeiros meses de 2010 assistem a mais uma edição imperdível. Novamente pela EMI Classics, um disco junta uma série de obras recentes (e também várias orquestras e maestros). Pela Filarmónica de Berlim, dirigida por Simon Rattle, ouve-se Tevot (a peça que dá título ao disco). A Chamber Orchestra of Europe, dirigida pelo próprio Adès, apresenta o Concerto Para Violino e Three Studies From Couperin. A fechar, e pela National Youth Orchestra of Great Britain, com Paul Daniel, ouvem-se momentos da ópera Powder Her Face.
São tudo obras de 2005 a 2007, traduzindo um reatrato de um presente que afirma em Thomas Adès um dos valores mais seguros e cativantes da música dos nossos dias. Tevot, a obra “central” deste novo disco, representa um reencontro com Rattle e a Filarmónica de Berlim, que há cerca de uma década convocara o compositor britânico para lhe encomendar Asyla, uma peça sinfónica de alma surrealista em vários andamentos (que se tornou numa das referências fundamentais parta Adès). Tevot segue contudo outros caminhos. Obra para orquestra de um andamento único, é uma proposta intensa, que por vezes evoca o romantismo de finais do século XIX (numa escala por vezes quase wagneriana). O título (em hebraico) sugere uma ideia de “arca”… Uma arca que Adès refere como sendo a própria Terra, “uma nave que nos transporta – a nós e a outras espécies – através do espaço e em segurança. É a ideia da nave do mundo”… Tal como Tevot, também o Concerto Para Violino (com o sub-título Concentric Paths) são obras que decorrem das novas visões que a composição de The Tempest trouxe à música de Thomas Adès. O presente, que olha um futuro na história da música, passa definitivamente por aqui.
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