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domingo, outubro 12, 2014

Uma ponte entre os Radiohead
e a música de Steve Reich

Ao contrário de Philip Glass, que desde inícios dos anos 80 estabeleceu várias pontes com figuras do universo da música pop/rock e suas periferias – trabalhando, entre tantos outros, com nomes como os de David Byrne, Suzanne Vega, Marisa Monte, Aphex Twin ou Leonard Cohen, tendo mesmo criado das sinfonias com álbuns de David Bowie como ponto de partida – Steve Reich não tinha até aqui experimentado esse tipo de diálogos. A sua música, é verdade, há muito que é citada entre as principais fontes de inspiração de muitos músicos de gerações mais jovens – particularmente nomes nas áreas da música electrónica -, tendo mesmo surgido em 1999 um álbum de remisturas juntando contribuições de Howie B, os Coldcut ou DJ Spooky, a que chamaram Reich Remixed (o título não deixa dúvidas, tratando-se de uma coleção de abordagens, via remistura, a composições de Steve Reich).

Mas há encontros que servem como momentos de charneira em tantas carreiras e situações. E, quando em 2010, Steve Reich viu Johnny Greenwood a atuar num festival em Cracóvia, interpretando o seu Electric Counterpoint, a ligação entre ambos estabeleceu-se, criando no compositor norte-americano o desejo de conhecer a música dos Radiohead, banda na qual Greenwood é guitarrista. Reich conhecia Greenwood pelo seu trabalho para cinema, imaginando-o um herdeiro de Messiaen. A obra dos Radiohead chegou assim como uma descoberta. E dessa experiência nasceu o estímulo que mais tarde, sob encomenda do coletivo Alarm Will Sound, gerou um trabalho de “rescrita” de duas canções do grupo inglês: Everything in it’s Right Place, do álbum de 2000 Kid A e Jigsaw Falling Into Place, de In Rainbows, de 2007. Radio Rewrite é assim um exercício de descoberta de uma voz com uma personalidade clara (e uma sonoridade claramente ligada a um certo conjunto de instrumentos, que aqui convoca) sobre os caminhos possíveis de encontrar através de duas canções de berço pop/rock. Ecos das canções, sobretudo elementos das linhas melódicas renascem assim diluídas num corpo novo, surpreendente, com aquele valor de soma de experiências que podemos imaginar segundo a velha máxima que diz que quem conta acrescenta um ponto. E mesmo sendo aqui e ali claras as raízes desta “rescrita”, no fim estamos claramente em território Reichiano.

O álbum agora editado, no qual os Alarm Will Sound registam a estreia em disco de Radio Rewrite, junta ainda uma interpretação de Johnny Greenwood de Electric Counterpoint e uma de Piano Counterpoint por Vicky Shaw, do coletivo Bang on a Can All Stars. O ciclo “counterpoint” surgiu sob uma ideia de juntar um solista a faixas pré-gravadas, multiplicando assim a sua presenta no corpo musical da peça. Electric Counterpoint teve na origem uma leitura por Pat Metheney e teve estreia em disco em 1989. Já Piano Counterpoint não é senão uma transcrição de Six Pianos, apresentando pré-gravadas quatro das partituras para piano, juntando a quinta e sexta numa só, que se entrega assim a um virtuoso do piano. Convenhamos que em conjunto o disco nos dá interessantes olhares sobre a música de Reich e, entre Radio Rewrite e Electric Counterpoint fixa uma ponte para com a música e os músicos dos Radiohead. Será ponte a continuara explorar?

quarta-feira, outubro 01, 2014

Os Radiohead, segundo Steve Reich


Foi hoje editado o álbum Radio Rewrite, de Steve Reich, que apresenta como peça central a primeira gravação dessa obra que nasce de uma abordagem do compositor a Everything in Its Right Place e Jigsaw Falling into Place, duas canções dos Radiohead.

O disco, lançado pela Nonesuch, inclui ainda novas gravações das obras de Steve Reich Electric Counterpoint (1987) e Piano Counterpoint (esta última uma transcrição de Six Pianos). Estas duas obras são respetivamente interpretadas por Johnny Greenwood (dos Radiohead) e Vicky Chow (que integra o coletivo Bang on a Can All-Stars).

quinta-feira, setembro 11, 2014

Para ler: Steve Reich e Philip Glass
reunidos num palco em Brooklyn

É um dos acontecimentos musicais do ano e envolve uma série de espetáculos a realizar no palco da Brooklyn Academy of Music. Após anos e anos de caminhos separados - e ocasionalmente palavras menos "entusiasmadas", Steve Reich e Philip Glass voltaram a apresentar um programa conjunto, que cruza obras dos dois compositores. O primeiro concerto teve lugar ontem.

Leia aqui o que diz o New York Times.

quarta-feira, maio 21, 2014

Para ler: festival junta Philip Glass e Steve Reich

Acabo de publicar na edição online do DN uma notícia que dá conta de um festival em Nova Iorque (em concreto na Brooklyn Academy of Music) que assinala os 50 anos da editora Nonesuch e que vai juntar em palco os dois compositores ainda este ano.

"Os concertos conjuntos de Glass e Reich decorrem ente os dias 9 e 11 de setembro. No primeiro dia serão apresentadas as obras Four Organs e Music For 18 Musicians de Steve Reich e as duas primeiras partes de Music in 12 Parts, o segmento "Cologne" da ópera the CIVIL warS e uma cena (o funeral de Amenofis III) de Akhnathen, de Glass. Dia 10 é a vez de Drumming e, novamente, Four Organs, de Reich. De Glass nesse dia ouvir-se-á Music In Similar Motion e excertos de Einstein On The Beach, Koyaanisquatsi (o longo The Gird), In The Upper Room, Powaqqatsi e The Photographer. Dia 11 o programa conjunto termina com Clapping Music, Sextet e WTC 9/11 de Reich e Music In Similar Motion, a Sinfonia Nº 1 (em versão transcrita para o ensemble) e excertos de Einstein On The Beach e
Glassworks, de Glass."

Podem ler aqui a notícia completa.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Em conversa: Adrian Utley

Esta é a entrevista com Adrian Utley (que é um dos elementos dos Portishead), que serviu de base ao artigo 'Uma multidão para abordar uma obra de Terry Riley' publicada na edição de 18 dwe dezembro do DN.

Adrian Utley
Já tinha o universo dos compositores minimalistas entre os que lhe interessavam antes desta abordagem a In C de Terry Riley? 
Fui apresentado a este compositor e a esta peça em específico. Mas já foi há algum tempo, até porque esta é uma obra a que se chega naturalmente quando se investiga sobre música. Conhecia também aquela sua outra obra mais caleidoscópica, o A Rainbow In Curved Air, pelos mesmos motivos. Toquei o In C com uns amigos... Gostei... E gostei mais a tocar e compreendi-a mais ao tocá-la que quando a ouvira antes. Tornou-se mais interessante, acho. Entendi então que o que não gostava na peça era a disparidade de instrumentos. Era uma peça escrita, mas preferia escutá-la com instrumentos semelhantes entre si e sem sobressaltos. Pensei que seria assim bom fazê-la com guitarras.  

Focando a sonoridade?
Sim, foi exatamente o que fizemos e já a tocámos assim várias vezes. Tenho andado um pouco por aí, em vários lugares, a apresentar esta peça, tocando-a com músicos convidados onde quer que vá. É interessante e muda sempre a cada vez que a tocamos.

Porque são pouco representadas as guitarras na música [erudita] contemporânea?
Não sei porque não se usam mais as guitarras.

Porque optou então por abordar In C com guitarras? 
Aqui foi pelo som e por características específicas da relação que os músicos têm com as guitarras quando tocam juntos. Que na verdade não é muito diferente da que têm outros instrumentistas quando tocam juntos. Gosto do som das guitarras juntas, de muitas guitarras juntas. Não há, na verdade, muita escrita para guitarras. E uma grande influência aqui será certamente o Glenn Branca. Trabalhei com ele uma vez e acho-o espantoso. Nos últimos tempos tenho tocado alguma da música coral de Arvo Pärt com guitarras... E funciona. Tocamos o Fratres, é belíssima. Na verdade precisam,os de umas 30 a 40 guitarras para que funcione. Mas fizemo-lo com um coro. Interessa-me a textura e as potencialidades das guitarras... Gosto do som de muitas guitarras juntas de um modo não agressivo. É interessante também a forma como interagimos, até porque estamos mais habituados a jamming que a tocar peças escritas numa partitura. Não quero generalizar mas é assim muitos de nós aprendemos a tocar guitarras: tocando juntos e tirando ideias uns dos outros. É bom ter a estrutura fixa de uma peça escrita, mas ao mesmo tempo a liberdade para ir em frente, para avançar.

A obra é escrita, de facto, mas com um certo grau de liberdade deixado a quem interpreta... 
Nas instruções de Terry Riley fica logo bem claro que podemos avançar na peça quando o entendermos. Não há um momento para entrar nem um ritmo. Pode ser acelerado ou mais lento. Pode haver acontecimentos polirrítmicos. Podemos mudar oitavas, velocidade... Podemos avançar quando quisermos. Podemos estar independentes dos outros ou estar com os outros... E não se pode controlar...

Os compositores minimalistas são para si uma influência? 
São influentes sim, e noto-o ainda mais hoje em dia. Tenho trabalhado com o Will Gregory, dos Goldfrapp há já uns 25 anos. Ele tem uma formação mais profunda que eu, mas discutimos sistemas musicais. E eles são muito influentes em mim. Fazem-se pensar como hoje penso. Hoje vejo o Music For 18 Musicians do Steve Reich como sendo uma obra fantástica, mas quando a ouvi pela primeira vez não aguentei mais de metade... Não aguentei a repetição, mas hoje vejo-a como sendo a sua obra-prima. Já toquei Electric Counterpoint com o Aphex Twin num festival com Steve Reich.

Conhecia a orquestra com quem tocou antes de chegar a Lisboa?
Não sei quem são, porque foram os promotores quem os reuniu. É assim que costumo fazer. Já o fizemos na Polónia, em Birmingham... Eles já receberam a música e já a conhecem. Hoje vamos ensaiar. Não aconteceu nunca eles não conseguirem fazê-lo. Temos um núcleo de músicos mais fixo, que só usamos quando tocamos em Inglaterra.

sábado, outubro 26, 2013

DocLisboa 2013: dia 3


La Monte Young, Terry Riley, Steve Reich e Philip Glass num mesmo documentário? Ainda por cima juntando Gavin Bryars, Meredith Monk e John Cage? Mais ainda: com Pauline Oliveros e Ritchie Hawtin?... Fosse um filme sobre gastronomia e seria a lista perfeita de ingredientes. Porém, e uma hora e meia depois, o soufflé não só acaba sem sabor como se desmorona e implode sobre si mesmo. Afinal nada ali aconteceu.

Passa hoje no DocLisboa o filme Les Couleurs du Prisme, La Mécanique du Temps (Culturgest 21.45, repete dia 31 às 16.15), que Jacqueline Caux apresenta como uma viagem muito pessoal através das vivências (e certamente dos gostos e referências) de Daniel Caux, desaparecido em 2008. Se o ponto de partida é uma homenagem, procurando reencontrar figuras e músicas que moldaram não só um gosto pessoal, mas toda uma forma de entender os caminhos que a música contemporânea tomou na segunda metade do século XX, afastando-se do serialismo e do que se chega aqui a falar como quase uma profecia do serialismo idealizado por Schoenberg, a verdade é que o filme desemboca numa experiência fragmentada, faltando-lhe o fio condutor que tudo pudesse unir e, afinal, fazer mais coesa experiência comum.

Voltamos à casa partida. Os ingredientes estão lá todos. A determinante visão de John Cage. A forma como a busca de uma nova forma de entender a música (com a repetição e a assimilação de ideias escutadas na tradição indiana) a definir os caminhos que conduziriam ao minimalismo com Young e Riley, mais tarde Reich e, alargando horizontes para lá do seu território de origem, Glass. Depois o modo como as mesmas experiências nos anos 60 conduziram ora a um trabalho de exploração vocal com Monk ora em confrontos com formas e heranças da tradição clássica europeia em Bryars (podia ter-se falado também de Pärt ou Nyman). E, no fim, a forma como, sobretudo Glass e Reich alimentaram as ideias que conduzem muitas expressões do techno do nosso tempo.

Há até momentos brilhantes, como aqueles em que La Monte Young canta, para demonstrar uma das suas ideias, Terry Riley toca ao piano ou Glass ensaia uma obra recente de música de câmara. Mas ao filme falta não só uma mais clara expressão da voz autoral que decide este percurso (que mesmo assim, convenhamos, está longe de ser original e só fica coisa clara ao ler o que a realizadora escreve no site) e confira ao todo um fio condutor que não seja apenas apreendido por quem já sabe da lição. Além disso, uma melhor direção de fotografia e, sobretudo, melhor captação de som, teriam ajudado. E muito. É pena.

sábado, dezembro 08, 2012

A arte de re-compor (parte 2)

Uma das mais estimulantes séries de lançamentos discográficos do nosso tempo está a mostrar de forma bem clara que a velha noção de frontera entre géneros musicais está tão derrubada como o Muro de Berlim. Este texto é parte de um artigo publicado na edição de 24 de novembro de 2012 do suplemento Q. do com o título ‘Quando a música do pasado ajuda a inventar a música do futuro.

Há seis anos a editora Deutsche Grammophon abriu e colocou os seus arquivos de gravações de música clássica à disposição de músicos na área das novas eletrónicas. As gravações eram assim a matéria prima, podendo os músicos recorrer a técnicas de sampling e de remistura, havendo liberdade para explorar formas e até juntar novos elementos sonoros. A relação de alguns compositores do nosso tempo com as máquinas e formas musicais mais frequentes na música de dança eletrónica atual não é propriamente uma novidade. Tanto Steve Reich como Philip Glass já tiveram obras suas remisturadas por outros músicos. Mas as premissas da série lançada pela DG não eram exatamente as de desafiar os músicos convidados a remisturar as gravações, mas antes, dar largas a experiências de “recomposição”.

O primeiro volume, editado em 2006, teve o finlandês Jimi Tenor como protagonista. E tomou como matéria prima para a sua coleção de re-composições obras como Music For Mallet Instruments e Six Pianos, de Steve Reich, Wing on Wing de Esa Pekka Salonen, Vexations, versões 1 e 2 de Erik Satie ou Déserts e Ionisation, de Edgar Varèse. O músico justificou as escolhas: “Os trabalhos românticos e clássicos não serviam muito a ideia. Os arranjos são muito densos e quando a orquestra toca junta há sempre muita reverberação natural no som. Soa de forma fabulosa nas gravações originais, mas fica algo distante neste contexto. Acabei por usar mais gravações feitas com microfones mais perto dos instrumentos. O que deixou de fora muitas gravações de orquestras sinfónicas”, lê-se no booklet do disco. Entre as obras que aborda surge Deserts, de Varèse, compositor que em tempos afirmou que desejava “instrumentos obedientes” ao seu “pensamento e capricho”, acrescentando que esperava ainda pela, “sua contribuição para todo um novo mundo de sons insuspeitos, que atribuam a si mesmos as exigências “do seu “ritmo interior” (como se lê no booklet). E, como tão bem referem Russell Haswell e Florian Hecker no booklet desta edição, os instrumentos usados neste volume inaugural da série fazem eco desses desejos do compositor.

O alemão Matthias Arfmann (na foto que abre o post), cuja obra se centra nos espaços do hip hop, do reggae e dub, foi o convidado para criar o volume 2 desta serie. “Uma das características centrais do dub é a transformação do som original de uma gravação de forma a tornar-se quase irreconhecível, assim como implica a uma redução significativa do material musical ao essencial”, explica o booklet do CD, justificando a lógica de abordagem. Repetindo o modelo do disco de Jimi Tenor, Arfmann apresentou uma coleção de re-composições sobre gravações de obras como a Sinfonia Nº 9 de Antonin Dvorák, a Moldávia, de Bedrich Smetana, a Sinfonia Nº 8 de Franz Schubert ou Marte, da suite Os Planetas, de Gustav Holst. Ao contrário do disco de Jimi Tenor, onde a seleção de obras (centrando olhares no século XX) definiu um ponto de vista, o volume de Arfmann limita-se a vestir as peças selecionadas segundo uma abordagem de género, representando o menos interessante dos títulos já editados.


As capas dos volumes um e dois desta série da Deutsche Grammophon, respetivamente assinados por Jimi Tenor e Mathias Arfman.

(continua)

sábado, fevereiro 25, 2012

Nos 75 anos de Philip Glass (1)


Iniciamos hoje a publicação integral de um extenso texto sobre o compositor Philip Glass publicado no suplemento Q. do Diário de Notícias, assinalando os seus 75 anos. O texto, com o título 'Acordar cedo e trabalhar todo o dia é o segredo de Philip Glass' foi publicado a 28 de janeiro.

Não é fácil encontrar aquele instante na vida de um músico em que se abre um caminho que o leva depois numa viagem tão pessoal que se torna referência e a história reconhece. As aulas em Paris, nos anos 60, com Nadia Boulanger (1) terão sido marcantes. A descoberta da música indiana ao lado de Ravi Shankar (2), em 1965, terá sido reveladora e determinante para o lançar de uma linguagem pessoal. Mas Philip Glass não seria certamente o mesmo homem disposto a ser desafiado (e a fazer da sua visão um desafio) se não tivesse como pai o dono de uma loja de discos com um hábito pouco vulgar. Com vontade de compreender o porquê do insucesso dos discos que não vendia, levava para casa as gravações dessas obras que, depois, escutava com atenção para entender o que de “errado” nelas havia. Aquela música (talvez invulgar para alguns, mas banda sonora caseira para o jovem Philip Glass) representou eventualmente um universo de revelações.

Numa entrevista mais tarde publicada em livro, Philip Glass recorda esses dias de descobertas invulgares. “O meu pai era um autodidata. E foi parar a este negócio mais ou menos por acaso. Gostava muito de música e começou a levar para casa os discos que não vendia na loja. ( ) Houve uma sonata para violoncelo de Shostakovich que alguém gravou ( ). Ele queria saber porque é que as pessoas não compravam o disco ( ) Ouviu-o vezes sem conta e acabou a gostar da música. ( ) A sua coleção de discos era muito estranha. Não tinha as sinfonias de Beethoven porque esses eram os discos que se vendiam bem. A literatura standard não era a que tínhamos em casa. Tínhamos coisas estranhas. Compositores americanos como Foote (3)... Uma das primeiras gravações de Gottschalk (4). Tinha também música para piano de Debussy que não se vendia muito bem nos anos 40. Depois mudou-se para os LP e foi uma inundação de música.” (5).

Mais de 60 anos depois já ninguém imagina que alguém possa ter uma pequena loja de discos generalista como negócio. Mas houvesse hoje um dono de uma eventual loja que procurasse fazer, como o pai de Philip Glass, uma escuta aos discos que não vende, neles não encontraria certamente os títulos do filho do lojista de Baltimore. Depois de uma etapa de vida precária (chegou a trabalhar como taxista e como canalizador em Nova Iorque, montou a dada altura uma empresa de mudanças com Steve Reich (6) e só depois dos 41 anos conseguiu passar a viver definitivamente da sua música), Philip Glass tornou-se não apenas um dos mais célebres compositores do nosso tempo como é certamente um dos que mais discos vende pelo mundo fora. Um pouco por acaso tornou-se um compositor de ópera (uma delas, O Corvo Branco, é cantada em português e estreou-se em Lisboa em finais da Expo 98). Tem nove sinfonias estreadas (e se se confirmar o que em tempos me contou, a décima já estará composta) (7). São inúmeras as obras orquestrais que vai compondo em resposta a solicitações. Tem peças para piano que ainda hoje apresenta em recitais. Uma multidão de bandas sonoras (já com três nomeações para os Óscares, nenhuma delas ainda transformada em estatueta). Assinou colaborações com nomes que vão de David Byrne e Paul Simon a Marisa Monte ou Mick Jagger, criou duas sinfonias baseadas em discos de David Bowie, deu recitais com Patti Smith... Quando, no documentário de Scott Hicks, Glass: a Portrait of Philip in 12 Parts, lhe perguntam se tem um segredo, a resposta é simples e direta: acordar cedo e trabalhar o dia inteiro.
  
1 - Nadia Boulanger (1887-1979) Compositora e professora francesa, ensinou muitos dos grandes compositores, maestros e instrumentistas do século XX. Além de Philip Glass foram seus alunos, entre outros, Aaron Copland, Quincy Jones, Astor Piazzolla, Elliott Carter, Egberto Gismonti, John Eliot Gardiner ou Michel Legrand. 
2 – Ravi Shankar (n. 1920) Um dos nomes maiores da música indiana. Em 1965 trabalhou com Philip Glass na banda sonora de Chappaqua. Em 1990 os caminhos dos dois músicos voltaram a cruzar-se no álbum conjunto Passages. 
3 - Arthur Foote (1853-1917) Compositor norte-americano, integrava o grupo dos 'Seis de Boston'. 
4 – Louis Moreau Gottschalk (1829-1869) Compositor norte-americano e virtuoso do piano. 
5 – in Talking Music, de William Duckworth, Schriummer Books, 1995, p 323 
6 – Steve Reich (n. 1936) Tal como Philip Glass foi um dos principais rostos do minimalismo norte-americano, apresentando obras determinantes para a afirmação do género entre 1965 e 1976. 
7 – in DN, 23 de Junho de 2007

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Steve Reich reescreve Radiohead


Mais uma colaboração entre os universos da música clássica e os da cultura popular ganha forma. Steve Reich vai criar uma peça tendo por base dois temas dos Radiohead. Com o título Radiohead Rewrite, a peça vai ter como ponto de partida os temas Everything In It’s Right Place e Jigsaw Falling Into Place, ambos incluídos no alinhamento de Kid A, álbum editado no ano 2000. O interesse de Reich pela música dos Radiohead surgiu em 2011 na sequência de uma atuação de Johnny Greenwood num festival na Polónia no qual o músico dos Radiohead interpretou Electric Counterpoint, do compositor norte-americano. A estreia de Radiohead terá lugar no quadro da programação do Southbank Centre, em Londres, em 2013. Caberá à London Sinfonietta a estreia desta obra.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Os melhores discos de 2011


N.G.:

Pop/rock: Um ano de muitos discos (como tantos outros), mas com uma ideia dominante que ajudará, um dia, a memória a evocar 2011 segundo uma série de títulos, nomes e... um som. Com genética primordial no dubstep, uma relação com a canção, ferramentas electrónicas e um trabalho atento a filigranas de discretos acontecimentos, 2011 teve em nomes como James Blake, Nicholas Jaar, Jamie Woon ou Jai Paul alguns dos seus mais importantes embaixadores. O primeiro, que fora já uma das mais sérias promessas de 2010 confirmou em pleno as expectativas num álbum absolutamente notável que podemos entender como paradigma desta forma de fazer música. Apesar de ter já editado um primeiro disco em 2008, o nova iorquino Son Lux fez de We Are Rising o mais interessante dos momentos menos mediatizados do ano, num álbum criado em apenas 28 dias que serve, de certa forma, para dar continuidade a uma visão que busca caminhos novos além dos horizontes da pop, tal e qual o fez Sufjan Stevens em The Age of Adz. PJ Harvey, sob minimalismo de recursos, mas profundamente expressiva no retrato que traça da Inglaterra de hoje fez de Let England Shake o melhor dos discos de uma das mais impressionantes discografias do nosso tempo. Pela lista surgem ainda as canções de travo retro de John Maus, o regresso eloquente e gourmet de Kate Bush, o paisagismo ambiental de Julianna Barwick, as belíssimas canções de Bon Iver, a pop elegante de Destroyer, o encontro iluminado de Mimi Goese com Ben Neill ou as visões cénica e texturalmente ricas de Nicholas Jaar. O ano destacou ainda discos de uns Sound of Arrows, Cat’s Eyes, Alex Turner, David Lynch, Björk ou John Vanderslice. Mas um top 10 é um top 10...

1 . James Blake, James Blake
2 . Son Lux, We Are Rising
3. PJ Harvey. Let England Shake
4. John Maus, We Must Become The Pityless Consors of Ourselves
5. Kate Bush, 50 Words For Snow
6. Julianna Barwick, The Magic Place
7. Bon Iver, Bon Iver
8. Destroyer, Kaputt
9. Mimi Goese + Ben Neill, Songs for Persephone
10. Nicholas Jaar, Space Is Only Noise


Música portuguesa: Há muito que a música eléctrica portuguesa não escutava um disco assim. Intenso e diferente. E tudo sob um mínimo de recursos. Ana Deus e Alexandre Soares juntaram-se como Osso Vaidoso, a voz tendo por principal companhia uma guitarra eléctrica, as canções mostrando como com pouco se faz muito, às palavras sendo concedido um protagonismo que a tudo dá sentido. O ano teve uma vez mais em B Fachada um dos seus momentos de referencia, desta vez num disco que colocou o piano como principal elemento ao serviço da composição. Destaque-se ainda a confirmação das boas ideias pop de uns Capitães da Areia e a forma como Sérgio Godinho optou por celebrar os 40 anos de carreira com um disco de originais.

1 . Osso Vaidoso, Animal
2 . B Fachada, B Fachada
3 . Capitães da Areia, O Verão Eterno
4 . Sérgio Godinho, Mútuo Consentimento
5. You Can’t Win Charlie Brown, Chromatic
6. The Gift, Explode
7. Tiago Sousa, Walden Pond’s Monk
8. Aquaparque, Pintura Moderna
9. Amália Rodrigues, Amália Canta David
10. Joana Sá, Through This Looking Glass


Clássica: Depois de um 2010 que teve em Mahler um dos compositores mais presentes nos escaparates dos novos lançamentos, 2011 viu numa gravação da Sinfonia Nº 2 do grande sinfonista austríaco o seu melhor momento. A gravação, pela London Philharmonic Orchestra, é dirigida pelo jovem maestro russo Jurowski e revela tanto uma capacidade em explorar toda a melancolia que a música transporta como o sublinhar dos instantes exultantes que vincam a noção de ressurreição que afinal a caracteriza. Destaque maior ainda para um olhar sobre o 11 de Setembro por Steve Reich, numa obra que explora princípios que o compositor lançara há anos em Different Trains. Da multidão de discos lançados a assinalar o ano Liszt vale a pena reter a gravação dos seus dois concertos para piano, com Barenboim (solista) e Bloulez (maestro), acompanhados pela Staatskapelle Berlin. De um ano de muitos lançamentos na área da música clássica referências ainda à continuação de ciclos dedicados a Shostakovich e Sibelius, respectivamente por Petrenko e Inkinen, um Berlioz na voz de Von Otter e à presença da música do século XXI em gravações de obras de Adams, Denehy, Muhly e Bryars.

1. Jurowski / London Phil Orchestra – Mahler, Symphony N. 2
2. Steve Reich / Kronos Quartet – Reich, WTC 9 / 11
3. Baremboim + Boulez / Staatskapelle Berlin – Lizst, The Piano Concertos
4. Petrenko / Liverpool Phil Orchestra – Shostakovich, Symphonies 6 & 12
5. Von Otter + Tamestit, Minkowski / Les Musiciens du Louvre - Berlioz, Les Nuits d’Eté
6. Adams / International Contemporary Ensemble – Adams, Son of Chamber Symphony
7. van Raat + Nederlands Radio Ch. Philharmonic / Tausk – Bryars, The Piano Concerto
8. Upshaw + Lionáird, Pierson / Crash Ensemble - Denehy, Gra Agus Brás
9. Gould + Collon / Aurora Orchestra - Muhly, Seeing is Believing
10. Inkinen / New Zeland Symphony Orch – Sibelius .- Symphonies 6 & 7 + Finlandia


J.L.: 

Insólita paisagem, esta a que a digitalização conduziu a música: tudo coexiste, tudo colide, cada gesto é contaminação de outro, deixou de haver “linha da frente”. É num contexto assim que, creio, pode fazer sentido não esquecer o mais ousado dos mais jovens, de seu nome Miles Davis. Além do mais, temos o fado. Parafraseando os actores do programa de humor da RTP1, Estado de Graça, este é o tempo de uma histeria em que os fadistas brotam das pedras da calçada... Será que vamos perder tudo nas soluções mais fáceis do marketing e na banalização gerada pelo rótulo da “world music”? Fiquemo-nos pelas coisas certas: Cuca Roseta está aí e com ela, através do seu prodigioso álbum de estreia, mantemo-nos ligados à terra.

CUCA ROSETA, Cuca Roseta
LIVE IN EUROPE 1967/THE BOOTLEG SERIES VOL. 1, Miles Davis
BLOOD PRESSURES, The Kills
WE ARE RISING, Son Lux
RIO, Keith Jarrett
THE KING OF LIMBS, Radiohead
WHOKILL, tUnE-YarDs
SUPER HEAVY, Super Heavy
4, Beyoncé
ANNA CALVI, Anna Calvi

domingo, outubro 02, 2011

Pelo mundo de Steve Reich


Obras de Steve Reich em nova gravação pelo London Steve Reich Ensemble. Entre o alinhamento a estreia de Piano Counterpoint e uma nova gravação de Different Trains. Edição pela EMI Classics.

Não é uma extensão londrina do ensemble que, há largos anos, se responsabilizou pela exposição em primeira mão de muitas das obras do compositor. Mas é na verdade um grupo londrino que, sob a autorização de Steve Reich, dedica muito do seu trabalho à interpretação da sua música. Em 2007, pela CPO, o London Steve Reich Ensemble tinha já editado em disco uma série de gravações, entre as quais Piano Phase e o clássico Sextet. Agora, novo conjunto de gravações surgem no catálogo da EMI.

A peça central deste novo disco do London Steve Reich Ensemble é Different Trains, uma das primeiras peças com eventual leitura política da obra do compositor norte-americano. Peça de 1988 (premiada com um Grammy em 1990), Different Trains junta o trabalho de um quarteto de cordas a registos gravados em fita. Different Trains evoca memórias dos tempos da II Guerra Mundial, cruzando o universo particular de Steve Reich com factos do mundo real. Em concreto, estabelece um paralelo entre as viagens de comboio que o compositor então fazia entre as costas Leste e Oeste (num movimento pendular entre pais recentemente separados) e as que, ao mesmo tempo, mas na Europa, levavam milhares de pessoas para os campos de extermínio da Alemanha nazi. Usando entrevistas (captadas tanto na Europa como na América) como matéria prima (num processo em tudo semelhante ao que recentemente nos deu uma obra evocativa dos dez anos do 11 de Setembro), Steve Reich parte das palavras e dos seus sons para, através de diálogos com os instrumentos, criar uma obra que em tudo amplifica o sentido das memórias que convoca, gerando um momento que, em parte nascido de uma experiência particular, na verdade acaba por traduzir ecos de factos que são do conhecimento global. Esta não é contudo a primeira vez que Different Trains surge em disco, sendo de assinalar a memória da gravação (de estreia) que o compositor registou com o Kronos Quartet em disco lançado pela Nonesuch em 1990. De então para cá esta mesma obra teve outras leituras em disco pelo Smith Quartet (Signum, 2005), por músicos da Orchestre Nationale de Lyon (Naïve, 2008) ou pelo Duke Quartet (Decca, 2008).

Como complemento, o alinhamento do disco inclui ainda uma leitura do Triple Quartet e a estreia em disco de Piano Counterpoint (um novo arranjo criado a partir do célebre Six Pianos).

domingo, setembro 11, 2011

A visão de Steve Reich


Uma peça de Steve Reich que evoca os dez anos do 11 de Setembro de 2001, surge aqui em gravação pelo Kronos Quartet. A WTC 9/11 juntam-se ainda as mais canónicas Mallet Music e Dance Patterns. A edição é assegurada pela Nonesuch Records. 

Não é a primeira vez que Steve Reiche reflecte, através da música, sobre os grandes acontecimentos no mundo ao seu redor. Fê-lo, por exemplo, em Different Trains, obra que cruzava memórias dos dias em que viajava de comboio entre pais separados, da costa Leste para a Costa Oeste, numa mesma altura em que, no Leste europeu, muitos outros da sua idade eram conduzidos, a bordo de outros comboios, diferentes, das suas casas para os campos de extermínio. Mais tarde, através de Three Tales, construiu um tríptico em torno de grandes calamidades criadas pelo avanço da ciência, passando pelo desastre do grande dirigível Hidenburg, as experiências atómicas no atol de Biklini ou a clonagem que gerou a ovelha dolly... Mais recente são as chamadas Daniel Variations, obra que homenageava a figura de Daniel Pearl, jornalista americano morto por terroristas em 2002... Não é por isso surpresa total a presença de uma obra que evoca o 11 de Setembro de 2001 na sua carteira de novos trabalhos. Encomendada por uma série de instituições, entre as quais o Barbican Centre, o Carnegie Hall, a Philharmonic Society of Orange County ou o National Endowment for The Arts, WTC 9/11 foi estreada em Março deste ano pelo Kronos Quartet, que agora surge na sua primeira gravação em disco. Com perto de 15 minutos de duração, a peça junta ao quarteto de cordas uma série de registos vocais, entre sons captados no próprio dia 11 de Setembro de 2001 e outros, resultantes de entrevistas gravadas pelo próprio compositor em 2010. Memórias reais, palavras, expressões, definem o tutano das memórias que a música envolve, ora imitando as falas ora encontrando o cenário que as arruma. De certa forma Steve Reich encontra aqui um patamar de absoluta maturidade de uma linguagem que começou a dar primeiros passos em peças de manipulação vocal em meados dos anos 60 e, mais tarde, assimilou as gravações de voz humana entre um quadro instrumental variado. WTC 9/11 é uma das mais interessantes das composições mais recentes de Steve Reich e mais uma expressão de uma capacidade da arte em reflectir o mundo presente, real e concreto que nos envolve. O disco nasceu com uma polémica lançada em seu redor por causa de uma capa original, que mostrava as Torres Gémeas durante o ataque... Retirada essa capa, o disco apresenta-se agora com a imagem que abre este post.

sexta-feira, julho 29, 2011

New York Counterpoint
de Steve Reich (1985)


Nova iorquino de berço, Steve Reich ainda hoje faz o seu dia a dia de trabalho na baixa de Manhattan. A cidade onde sempre trabalhou (e nem sempre como músico) foi por si celebrada numa peça criada para clarinete e fita magnética em 1985. New York Counterpoint apresenta o registo pré-gravado de dez pistas, sobre o qual uma 11ª é interpretada ao vivo.

sábado, outubro 23, 2010

De um telefonema ao pulitzer


Acaba de ter edição, através da Nonesuch, o Double Sextet de Steve Reich, a peça que valeu ao compositor norte-americano o Pulitzer no ano passado. A gravação é feita pelo ensemble Eight Blackbird, para quem a obra foi originalmente composta. O disco junta ao alinhamento 2X5, numa interpretação pelos Bang-On-A-Can.

A história de Double Sextet começa, como o próprio Steve Reich recorda em entrevista no booklet desta edição, com um um telefonema. Uma amiga perguntava-lhe se Steve poderia compor uma peça para o Eight Blackbird… Uma flauta, um clarinete, piano, percussão, violino e violoncelo… “Bom, eu não trabalho para instrumentos um a um, mas sim com pares e múltiplos de instrumentos identicos para que possa ter os cânones em uníssono que são o centro da minha música desde It’s Gonna Rain, em 1965”, respondeu o compositor… Mas, lembrando-se de Different Trains, onde usava gravações sobre preformance em tempo real, perguntou se o grupo não se importaria de gravar uma parte da obra, tocando depois, ao vivo, sobre essa gravação… Nasceu assim um sexteto “duplo” que conheceu estreia em 2008 na Universidade da Virginia e que acabaria por valer a Steve Reich um dos mais importantes prémios atribuídos aos músicos americanos e que, no passado, já distingiu, entre outros, figuras como Aaron Copland, Charles Ives, John Adams e, recentemente, David Lang (um dos fundadores do colectivo Bang-O-A-Can).