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sexta-feira, fevereiro 05, 2021

Miley Cyrus: três canções na NPR

A depuração pode ser um belo trunfo musical. Está a acontecer com Miley Cyrus que, em particular em alguns formatos de concerto tem surgido com uma contenção paradoxal: menor agressividade instrumental, maior e melhor protagonismo de uma voz que está a evoluir de modo requintado.
Agora, voltou a dar provas dessa evolução num contexto muito particular: os "Tiny Desk (Home) Concerts" da NPR — com uma curiosa, também ela depurada, alternativa ao tradicional cenário da redacção da rádio pública americana.
São três canções: primeiro, uma versão de Fade Into You, do álbum So Tonight That I Might See, dos Mazzy Star (1993); depois, Golden G-String e Prisoner, de Plastic Hearts, o sétimo álbum de estúdio de Cyrus, lançado em novembro de 2020.


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>>> Fade Into You, pelos Mazzy Star (registo de 1994).


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>>> Site oficial de Miley Cyrus.

terça-feira, outubro 27, 2020

Miley Cyrus "vs" Pearl Jam

Sem ofensa — e se Miley Cyrus fosse, antes de tudo o mais, uma invulgar intérprete de "covers"? Seja qual for a resposta, importa escutar as suas recriações nas chamadas Backyard Sessions da MTV (com o canal da música, pelo menos por alguns momentos, a distanciar-se dos horrores da "reality TV" e do divertimento acéfalo). Eis uma esclarecedora ilustração do seu poder de transfiguração face às canções de outros: Just Breathe, tema do álbum Backspacer (2009), dos Pearl Jam, até agora "impossível" de imaginar de outro modo que não fosse na voz de Eddie Vedder.

segunda-feira, outubro 05, 2020

Miley Cyrus recria clássico dos Blondie

Mesmo com pandemia, o Festival IHeart Radio, promovido pelo serviço de streaming homónimo, celebrou o seu 10º aniversário com a energia que a tradição impõe. Para a história, fica a participação de Miley Cyrus, recriando Heart of Glass, clássico dos Blondie.

segunda-feira, junho 29, 2020

Miley Cyrus canta "Help!"

A comunidade Global Citizen organizou um grande evento, realmente global — 'Global Goal: Unite for Our Future — The Concert' —, em que a chamada de atenção para alguns dos temas fracturantes do presente & futuro do planeta foi pontuada por várias performances musicais. Para a história, fica a espectacular versão de um clássico dos Beatles, Help!, por Miley Cyrus, especialmente dedicado aos investigadores do COVID-19. Foi em Pasadena, California, no Rose Bowl Stadium — vazio.

domingo, abril 26, 2020

Brad Pitt e Miley Cyrus no SNL

Brad Pitt abriu a edição (caseira) de Saturday Night Live com uma notável imitação de Anthony Fauci, o médico imunologista que tem sido figura central na "task force" da Casa Branca para enfrentar o COVID-19; depois, Pitt apresentou Miley Cyrus a cantar o clássico Wish You Were Here, do álbum homónimo dos Pink Floyd, lançado em 1975 — dois belos momentos de televisão.



quinta-feira, outubro 24, 2013

Angel Haze reinventa Miley Cyrus

Decididamente, Miley Cyrus merece que a sua música seja escutada para além das não muito felizes atribulações com as imagens que tem protagonizado... A prova aí está, com uma versão de Wrecking Ball que, por assim dizer, nos revela a crueza oculta da canção — a admirável alternativa acústica é-nos proposta por Angel Haze, uma menina do hip-hop que assim confirma as suas capacidades de reinvenção.

domingo, outubro 13, 2013

Miley Cyrus contra Madonna

Será que podemos reduzir a música de Miley Cyrus às suas atribulações iconográficas? Claro que não. Muito provavelmente, as suas canções merecem mais atenção (e, sobretudo, outro tipo de atenção) do que aquela que a sua grosseira gestão de imagem tem suscitado. Nas páginas da Rolling Stone, Jon Dolan resume tal conjuntura de forma sugestiva, considerando que o seu quarto álbum de estúdio, Bangerz, pode ser visto/ouvido como "o som de Hannah Montana a virar para Miami Vice".
Apesar disso (ou precisamente por causa disso), importa perguntar o que a máquina promocional de Miley Cyrus está a fazer de todo um complexo sistema de imagens & linguagens que, ao longo das últimas três décadas, tendo em Madonna uma referência charneira, soube desmontar as convenções associadas à representação do feminino — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Setembro), com o título 'Madonna não tem culpa'.

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Vivemos um tempo pueril em que basta Miley Cyrus fazer um teledisco (Wrecking Ball) a lamber repetidas vezes um microfone (sic) para haver uma multidão a elogiar a sua “sensualidade”, outra a berrar contra o “escândalo”... É certo que um simples olhar de Greta Garbo pode envolver uma intensidade erótica capaz de anular toda a iconografia de Cyrus, mas a menina de 20 anos não tem culpa da ignorância cinéfila em que nos mergulharam.
Em defesa de Cyrus, há que reconhecer que ela é um peão de um sistema de marketing obviamente empenhado em superar a sua imagem infantil ligada à personagem de Hannah Montana. Mas o reconhecimento dessa dependência pode arrastar um moralismo que gostaria de não favorecer: o de exaltar a verdade “artística” contra a “perversão” do mercado. Bem pelo contrário, nada da cultura pop (a começar pela música) é estranho à dinâmica e, importa também dizê-lo, à criatividade do mercado.
Acontece que, no plano formal, Cyrus é um resto patético de todo um processo de reconversão simbólica do factor feminino iniciado, dez anos antes de ela ter nascido, por uma senhora chamada Madonna que não pode ser responsabilizada pelos disparates em que as suas discípulas se envolvem. Como Camille Paglia já explicou num artigo na Time (27 Agosto), cruelmente intitulado “Miley, volta para a escola”, Madonna trabalhava a partir de uma noção de transgressão que era (e é) indissociável da sua formação religiosa e do seu universo estético. Cyrus limita-se a funcionar como signo impessoal de uma lógica de “provocação” que nem sequer sustenta o confronto com a elegância formal de um qualquer anúncio de marcas como a Chanel ou Calvin Klein. Em última instância, os criativos (?) ao serviço de Cyrus apenas vêem nela as potencialidades daquilo a que chamam um “produto”.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Miley Cyrus vista por Sinead O'Connor

Miley Cyrus vive os dramas próprios de um processo de crescimento. Algumas peripécias recentes, como a sua participação nos prémios MTV e o teledisco da canção Wrecking Ball, mostram que ela (ou quem a aconselha) está a cair no erro mais pueril de uma estrela pós-adolescente: o de confundir a vulgaridade "erótica" com o desafio às regras do próprio espectáculo e, por extensão, da sociedade que o gera — num artigo de crua concisão, na revista Time, Camille Paglia já desmontou tudo isso, contrapondo-lhe o trajecto modelar de Madonna e lembrando que a transgressão, além da sua complexidade conceptual ou iconográfica, dá muito trabalho.
A revista Rolling Stone — que dá capa a Miley Cyrus na edição com data de 10 de Outubro — divulga agora mais uma peça importante para relativizar o fenómeno Miley Cyrus e, acima de tudo, expor a sua futilidade intrínseca. Trata-se de uma tomada de posição de Sinead O'Connor, em forma de carta aberta. Há uma motivação específica para a intervenção pública de O'Connor: Cyrus declarou que o seu teledisco foi inspirado no de O'Connor para a canção Nothing Compares 2 U (um original de Prince que ela gravou em 1990).
No essencial, O'Connor vem dizer à sua assumida discípula que tem de saber evitar que o negócio da música a "transforme numa prostituta", apontando o equívoco central da sua pose: "NÃO se trata, de modo ALGUM, de um reforço do teu poder ou de qualquer outra jovem fazer passar a mensagem segundo a qual deves ser avaliada (inclusive por ti própria) mais pelo teu apelo sexual do que pelo teu óbvio talento."
O'Connor + Cyrus (BBC)
Lembremos apenas que a apropriação criativa das imagens, quer dizer, a sua metódica reinvenção, não é exactamente o mesmo que "copiar" um grande plano do rosto... Para ver e repensar as diferenças, aqui ficam os telediscos de Nothing Compares 2 U e Wrecking Ball.




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>>> Sobre o livro Glittering Images (2012), de Camille Paglia.
>>> Entrevista com Lucy O'Brien (autora do livro Madonna - Like an Icon).
>>> Imagens e transgressão a propósito de Richard Avedon.

segunda-feira, setembro 09, 2013

A nudez de Miley Cyrus

I. Miley Cyrus tem graça... No sentido em que se empenha em ser engraçada. Faz lembrar o belo aforismo popular que nos garante que mais vale cair em graça do que ser engraçado. Há mesmo qualquer coisa de tocante na ânsia com que vai avisando o planeta de que cresceu, descobriu que não são as cegonhas que trazem os bebés, enfim, já nada tem a ver com a "Hanna Montana" que lhe deu fama nos tempos, afinal tão próximos, do seu trabalho nas produções Disney. Podemos mesmo aplicar-lhe a ternura gélida com que Roland Barthes se referiu, uma vez, às fotonovelas (esse antepassado "literário" das telenovelas): sa bêtise me touche...

II. Nos seus radiosos 20 anos, Miley Cyrus pensa (ou foi levada a pensar) que, neste devastado séc. XXI, habitado pela obscenidade gratuita e quotidiana de todos os excessos, a nudez poderá ser o cúmulo da invenção e o êxtase da provocação... Está bem acompanhada, como sabemos, já que há todo um estilo jornalístico (?) sem fronteiras, enraizado no imaginário do "escândalo", capaz de considerar a exposição de um mamilo um acontecimento que põe em causa a estabilidade deste mundo e do outro — e não estou a caricaturar, como é óbvio.

III. Assim, não lhe terá bastado a caricata encenação em bikini cor de pele (!) nos Prémios MTV, para mais sujeitando-se à condição de desastrada caricatura da energia criativa de Madonna. Aparentemente, também não lhe deram a ler ou não deu grande importância ao notável texto de Camille Paglia, na revista Time, falando do carácter "atroz" da sua performance e lembrando-lhe que, para lá da excelência artística, a formação católica da Material Girl lhe conferiu um genuíno "sentido de transgressão" — logo no título, com a contundência esquecida da pedagogia, Paglia aconselhava Miley Cyrus a "voltar para a escola".

IV. Agora, Miley Cyrus surge no teledisco de Wrecking Ball, realizado por Terry Richardson, e o menos que se pode dizer é que ela consegue a proeza pouco invejável — leia-se: profundamente reaccionária — de anular várias décadas de reinvenção e libertação iconográfica dos corpos (muito para além da afirmação do feminino), propondo uma farsa "erótica" em que, através da nudez reticente de um banal anúncio de gel de banho, ficamos a saber que as suas gloriosas provocações "adultas" se esgotam em cavalgar uma bola gigante de demolição ou, proeza transcendente, lamber (sic) um martelo de metal...


V. O problema não está (nunca esteve!) nos centímetros de pele que se mostram ou ocultam. Embora a questão suscite a gargalhada paternalista de alguns dos nossos comentadores políticos, são as narrativas que configuram, distinguem e fazem partilhar as visões do mundo — umas vezes gerando cumplicidades, outra instalando clivagens. E, pelo menos no caso de Wrecking Ball, Miley Cyrus celebra-se como figura patética, pateticamente "juvenil", de um conto pueril de desastrada cenografia, grosseiro simbolismo e incipiente montagem. A escola (e as suas memórias) é, de facto, uma boa sugestão: os meninos e as meninas precisam de aprender que express yourself dá muito trabalho.

sábado, agosto 31, 2013

Miley Cyrus e o caso Bruma

Miley Cyrus de biquini na MTV... Bruma, jogador do Sporting, envolvido num emaranhado labirinto (pouco) futebolístico... Ou como está abalada a percepção mediática e, sobretudo, televisiva da "juventude" — esta crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (30 Agosto), com o título 'Miley Cyrus e Bruma'.

1. Na sua performance nos prémios MTV, Miley Cyrus usou um biquini cor de pele, protagonizando uma coreografia recheada de sugestões sexuais. Tanto bastou para que, nos EUA, se ouvissem algumas vozes chocadas pelo facto de descobrirem que, afinal, a “Hanna Montana” dos estúdios Disney não vai ficar adolescente para sempre... Curiosamente, não se pode dizer que as televisões (pelo menos deste lado do Atlântico) tenham ficado muito comovidas com a ocorrência. O sintoma é claro: a MTV, hoje em dia uma paisagem ocupada pelas desgraças da “reality TV”, não possui, nem de longe nem de perto, o carisma e a inteligência artística de outros tempos. Além do mais, se se trata de desafiar os padrões correntes de figuração dos mais jovens, e da arte de o fazer com a devida ironia, valerá a pena regressar às origens: reveja-se Madonna na primeira edição dos mesmos prémios MTV, vestida de noiva, a interpretar Like a Virgin e avaliem-se as diferenças...


Foi em 1984, faltavam apenas oito anos para que Miley Cyrus nascesse.

2. É verdade que, felizmente, já ouvimos alguns comentadores do futebol chamar a atenção para a desagradável dimensão mediática que adquiriu o caso Bruma (e a sua eventual saída do Sporting): temos assistido a um folhetim “telenovelesco” que, para além das razões que possam assistir a cada uma das entidades envolvidas, tende a favorecer uma visão instrumental, pontuada por cifrões e milhões, das qualidades dos mais jovens. Creio que as televisões deviam reflectir um pouco sobre essa facilidade com que, muito para além dos programas desportivos, se constroem ídolos “juvenis” cuja imagem se vai esgotando nas riquezas que acumulam. E não se julgue que se trata de discutir a legitimidade dos seus ganhos. Trata-se, isso sim, de perguntar que sentido faz reduzir a juventude à miragem de exuberantes performances financeiras, afinal raríssimas. Bruma, convém lembrar, não é veterano de coisa nenhuma e, com os seus 18 anos, ainda é mais novo que Miley Cyrus.