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terça-feira, janeiro 13, 2026

50 anos de Station to Station [1/3]

Décimo álbum de estúdio de David Bowie (1947-2016), Station to Station (1976) está a fazer 50 anos. Indissociável das memórias de um período de violenta dependência de drogas, sobretudo de cocaína, nele se consuma uma significativa viragem musical — simplificando, um distanciamento das sonoridades soul e R&B de Young Americans (1975), abrindo caminhos para as electrónicas e, sobretudo, o espírito experimental de Low (1977), indissociável da colaboração com Brian Eno. Eis o tema-título, no ano 2000, em Glastonbury.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Brian Eno — elogio da arte

Brian Eno escreveu um livro sobre aquilo que a arte é, o que faz e nos faz fazer. Em nome de quê? Da nossa civilização — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 novembro).

O triunfo de uma cultura televisiva enraizada na “novelização” da política tem promovido (e, mais do que isso, consolidado) um jornalismo superficial, tendencialmente moralista, que reduz as manifestações artísticas a banais ferramentas de alguma “mensagem”. Nesse universo mediático feito de imagens aceleradas e ideias maniqueístas, o jornalista, agora vestido de “especialista”, funciona como promotor da formatação da própria criação artística: cada filme, livro, música ou pintura apenas serviria para “ilustrar” alguma urgência sancionada pelo politicamente correcto. A arte deixou de ser encarada e vivida como um acontecimento particular que nos convoca para uma experiência única e insubstituível, ficando reduzida a uma coleção de “sermões” que nos ajudam a permanecer na crista da onda mediática. No limite, tentarão convencer-nos que Persona (1966), de Ingmar Bergman, não é uma genial exploração das fronteiras emocionais e humanas do próprio cinema, mas apenas um panfleto que antecipa as legítimas lutas do movimento #MeToo...
Decididamente, o inglês Brian Eno não pertence a esse universo. De tal modo que acaba de publicar um insólito livrinho de pouco mais de uma centena de páginas — What art does (ed. Faber & Faber, Londres, 2025) —, tanto mais insólito quanto se apresenta com uma garbosa capa dura, à maneira de um grande álbum de pintura. Trata-se, em qualquer caso, de uma edição profusamente ilustrada, com desenhos da neerlandesa Bette A., também romancista e professora de arte.
Seguindo a proposta do título, podemos perguntar “o que faz a arte”. Aliás, não se trata de perguntar, não há ponto de interrogação: o título existe como o reconhecimento de que a arte faz alguma coisa, ou melhor alguma coisa acontece na arte e, em cada um de nós, através da arte. Daí, sem dúvida, a humildade, não apenas descritiva, mas prospectiva, do subtítulo: “Uma teoria inacabada”.
Se a teoria não vai nem pretende chegar a um fim, pelo menos sabemos ou podemos saber por onde começar. Ora, como recorda Brian Eno, há coisas que fazemos, que não podemos deixar de fazer, para nos mantermos vivos. Exemplos? “Comer alimentos, beber líquidos, usar roupas, ganhar dinheiro, comunicarmos uns com os outros.” Mas há também coisas que fazemos, mesmo não sendo compelidos a fazê-las: “compor poemas, arranjar flores, misturar cores, dançar, tocar bateria...”
Ou ainda: um objecto artístico é “algo que procura despertar alguns sentimentos” (e talvez que, pelo menos neste caso, a palavra “sentimentos” não esgote a pluralidade do original “feelings”). O que nos abre muitas portas para aquilo a que poderemos dar o nome de vida emocional. A esse propósito, Brian Eno cita algumas palavras concisas de Mark Solms, neuro-psicólogo sul africano: “As emoções desempenham um papel fundamental na sobrevivência.”
O livro evolui como uma antologia de muitas perguntas e algumas respostas, pensamentos, desenhos, frases breves que têm qualquer coisa de panfletos emocionais. Mais um exemplo: “A arte é o sítio onde partilhamos sonhos (e pesadelos)”. Ou ainda: “Art shepherds change”, para o qual proponho a tradução muito livre de “A arte é como um pastor de mudança”.
As propostas de reflexão de Brian Eno, não sendo separáveis de outros dos seus escritos, pertencem também ao universo imenso e fascinante em que existe a sua música. E escusado será lembrar que, além de obras emblemáticas como Another Green World (1975) ou Lux (2012), os seus caminhos musicais envolvem a produção de álbuns de artistas como David Bowie, Talking Heads, U2 ou os portugueses The Gift (no magnífico Altar, lançado em 2017). Acima de tudo, há nele a consciência prática e pedagógica de um mestre (pastor, por que não?) que resiste à instrumentalização mediática da arte e dos artistas. Ou seja: "A civilização é a imaginação partilhada.”

>>> Everything Merges With The Night [álbum: Another Green World].
 

segunda-feira, julho 29, 2019

Brian Eno: música lunar

Título emblemático na discografia de Brian Eno, Apollo: Atmospheres and Soundtracks foi editado em 1983 como banda sonora de um filme de Al Reinert elaborado a partir de materiais de arquivo da NASA sobre as missões Apollo — inicialmente previsto como Apollo, o filme só surgiria em 1989 com o título For All Mankind.
Digamos que se tratou de uma confluência de memórias e criatividade (ainda) enraizada numa visão utópica da conquista do espaço e, em particular, no indizível fascínio de chegar à Lua. Agora que se assinalam os 50 anos dessa chegada — com a Apollo 11, a 20 de Julho de 1969 —, o álbum de Brian Eno reapareceu remasterizado numa extended edition, convocando-nos para a redescoberta daquela que foi também uma extraordinária aventura musical.
Eis dois videos esclarecedores: primeiro, um pequeno filme de Grant Armour sobre a gestação de Apollo: Atmospheres and Soundtracks, com a participação de Brian Eno e os seus dois cúmplices, o irmão Roger Eno e Daniel Lanois; depois, o tema An Ending (Ascent).



domingo, maio 28, 2017

Brian Eno juntou-se aos The Gift
para cantar “Love Without Violins”



O produtor e músico Brian Eno juntou-se em palco aos The Gift durante o concerto que a banda deu esta semana na sala londrina Bush Hall para ali cantar em conjunto com Sónia Tavares o tema Love Without Violins, que foi o single de apresentação do recentemente editado Altar.

A digressão internacional de apresentação do disco, depois das passagens pelo The Great Escape em Brighton e o Bush Hall de Londres dirige-se para a Maschinenhaus em Berlim, onde atuam a 30 de maio. Os The Gift estarão depois em Nova Iorque a 24 de junho. Este concerto está incluído na programação do Summer Stage, em pleno Central Park.

sábado, outubro 01, 2016

The Gift / Brian Eno — o teledisco

Já conhecíamos o primeiro single do novo álbum de The Gift, Love Without Violins, com Brian Eno na produção e misturas a cargo de Flood [a edição está agendada para 2017]. Chega agora o respectivo teledisco: um exercício barroco, paradoxalmente austero, em que Sónia Tavares assume a condição de líder cantante de uma performance cujo ponto de fuga é a reconversão do corpo em novas formas e diferentes narrativas — brilhante!

segunda-feira, setembro 19, 2016

The Gift — primeira canção com Brian Eno

Love Without Violins é o primeiro single do novo álbum de The Gift, agendado para 2017. Com Brian Eno associado à respectiva produção, o menos que se pode dizer é que nele descobrimos uma sonoridade com óbvias raízes no património da banda de Alcobaça, mas apontando para novas e surpreendentes paisagens — escutemos, à espera do próximo capítulo...

sexta-feira, dezembro 05, 2014

Reedições:
Brian Eno

“Nerve Net – Expanded Edition”
All Saints
4 / 5

Entre os álbuns que eternamente ficaram na gaveta – porque nunca terminados ou arquivados antes de editados por desejo do artista – contam-se títulos quase com dimensão mítica como Toy de David Bowie, Songs of Ascent dos U2 ou Reportage dos Duran Duran. Sabemos que eventualmente há tesouros escondidos que depois emergem, como sucedeu com o Black Album de Prince ou My Sweetheart The Drunk, de Jeff Buckley (cujas sessões incompletas tiveram lançamento póstumo). Outros ganham vida em caminhos alternativos, como Get back dos Beatles que desaguou em Let It Be ou Technopop dos Kraftwerk que deu lugar a Electric Café. Ou, como Smile dos Beach Boys, acabam regravados anos depois e, assim “oficialmente” editados. Sim, porque em muitos casos houve bootlegs pelo caminho. Entre os tesouros arquivados estava, até aqui, My Squelchy Life, álbum vocal a solo no qual Brian Eno trabalhava em inícios dos anos 90 e que, depois de uma série de registos instrumentais, seria assim o sucessor de Before and After Science (1977). Depois de uma recente colaboração com John Cale (no sublime Wrong Way Up, de 1990) e com mais um episódio histórico na produção assinado ao lado dos U2 em Achtung Baby, Brian Eno tinha My Squelchy Life na agenda. Mas, fruto de um desentendimento com a editora sobre datas de lançamento, o disco acabaria por ficar na gaveta, em seu lugar avançando o projeto seguinte, Nerve Net, um álbum pensado para explorar as emergentes formas rítmicas ligadas à música electrónica. Entre composições algo próximas da forma da canção e peças instrumentais, a voz surgindo ora mais falada que cantada, muitas vezes não procurando mais que vocalizações de sons, os temas de Nerve Net mostraram em Brian Eno uma figura atenta à evolução das formas musicais. Profundamente cinematográfico (no modo de desenhar ambientes e sugerir mesmo cenografias), Nerve Net vive para além das demandas ambientais de Eno mas também não representa a descendência direta do seu percurso pop/rock vocal (que teria de esperar por um sucessor até que em 2005 foi editado Another Day on Earth). Disco único e marcante, no qual colabora pontualmente Robert Fripp, Nerve Net é um dos quatro álbuns de Brian Eno que acabam de conhecer reedição, apresentando o disco de extras nada mais nada menos que o até aqui “perdido” My Squelchy Life... Não há tesouro que acabe eternamente esquecido!

quinta-feira, dezembro 04, 2014

Para ouvir: pela música de Brian Eno



Um percurso construído a partir de reedições de discos de Brian Eno originalmente publicados nos anos 90. Com assinatura de Clark, esta "mistura" inclui elementos de Nerve Net, The Shutov Assembly, Neroli e The Drop.

quarta-feira, dezembro 03, 2014

Discos: as edições desta semana




Há um verdadeiro festim de edições de discos ao vivo a chegar esta semana aos escaparates das novidades. Além dos álbuns de John Grant com a BBC Philharmonic Orchestra – Live In Concert – e de Björk – Biophilia – de que já aqui falámos nos dois últimos dias, foram lançados esta semana os discos Live In Dublin de Leonard Cohen (que inclui 3CD e um DVD), Winterland Night 1978 de Bruce Springsteen (triplo CD), The 1972 Broadcast dos Crosby Stills Nash & Young, Live In Orlando 1989 dos R.E.M., Through Yellow Curtains de Joni Mitchell (com gravações de finais dos anos 60), Chicago 1992 dos Pearl Jam, Twenty Thousand Roads de Emmylou Harris e Live at The Sands do Rat Pack.

O departamento das grandes antologias também vibra nesta altura do ano. E há edições em versões económicas e nem por isso e em todas as frentes. Os Wilco editam a caixa Alpha Mike Foxtroot: Rare Tracks 1994-2014 em caixa e, ao mesmo tempo, a versão compactada What’s Your 20?. A obra de Donna Summer é recuperada na caixa The CD Collection e em várias reedições avulsas. Há uma nova integral em álbum de Simon & Garfunkel sob o título The Complete Album Collection. Peter Hammil lança a caixa ...All That Might Have Been. De Serge Gainsbourg e Jane Birkin surge Jane + Serge 1973. Dos Blondie há uma caixa em vinil com os LPs do grupo.

Em formato ‘best of’ mais “clássico” há que ter atenção para com o Best Of (literalmente) dos The Czars, a banda onde em tempos militava John Grant.

Há ainda mais espaços para a memória no plano das reedições. Brian Eno lança versões expandidas de alguns dos seus álbuns dos anos 80: Nerve Net, Neroli, The Drop e The Shutov Assembly. E dos Pixies chega a muito esperada edição alargada do seu álbum de 1989: Doolittle 25, com lados B, sessões na rádio e maquetes, entre os extras. 

Nos terrenos da música contemporânea há notar a chegada, via Naxos, de gravações de Beltane Fire de Peter Maxwell Davies e Airline Icarus de Brian Current, assim como uma interpretação, por Tom Winpenny (organista) de La Nativité du Seigneur, de Messiaen. 

Entre novidades, mais algumas antologias e reedições, há ainda a assinalar:
Boris Blank - Electrified
Future Sound of London – Environments 2 (agora em vinil)
Klaus Schulze – Schulze Boot Vol 1 – Stars are Burning
Mark Kozelek – Sings Christmas Carols
Mogwai – Industry 3 Fitness Industry 1 EP
She + Him – Classics

terça-feira, julho 29, 2014

Meio ano pop/rock arrumado em duas listas

Aos seis meses vividos de 2014 fazem-se contas aos discos. E esta semana, nos Discos Voadores, apresentei listas de dez álbuns e dez canções (departamento pop/rock e periferias) que juntam o que de melhor escutei por aí. Aqui ficam, agora devidamente arrumadas.

10 ÁLBUNS

1 Beck – Morning Phase
2 St Vincent – St Vincent
3 Owen Pallett – In Conflict
4 Neneh Cherry – Blank Project
5 Damon Albarn – Everyday Robots
6 Brian Eno + Karl Hyde – Someday World
7 The Notwist – Close To The Glass
8 Dean Wareham – Dean Wareham
9 Tori Amos – Unrepentant Geraldines
10 Teleman – Breakfast

10 CANÇÕES

1 St Vincent – Prince Johnny
2 Owen Pallett – Fong For Five & Six
3 Teleman – Steam Train Girl
4 Beck Wave
5 Alexis Turner – Closer To The Elderly
6 Fujyia & Myiagi – Flaws
7 CEO – Wonderland
8 Trust – Are We Arc?
9 Dean Wareham – The Dancer Disappears
10 Angel Olsen – Hi-Five


E UMA CANÇÃO PARA O VERÃO...
Silva (ft. Fernanda Takai) – Okinawa

segunda-feira, julho 21, 2014

Três meses, três discos (pop/rock)


Depois da relativa dieta que vivemos nos três primeiros meses de 2014, o segundo trimestre do ano foi farto em grandes edições discográficas. E a ter de destacar três, apontaria desde logo In Conflict, álbum de Owen Pallett no qual o músico canadiano alarga horizontes e integra as eletrónicas concebendo um disco que representa o seu melhor momento até à data. Depois teremos de passar pelo belíssimo World Peace Is None Of Your Business, o primeiro álbum de inéditos que Morrissey grava depois de editada a autobriografia (lançada internacionalmente em 2013 e com edição local prevista para o fim do ano). E ainda Someday World, magnífico exemplo de domínio sobre a canção pop por Brian Eno, devidamente acompanhado por Karl Hyde, dos Underworld.

A lista dos bons discos da colheita pop/rock internacional deste trimestre não pode contudo deixar de referir o álbum ao vivo dos LCD Soundystem (apenas disponível em lançamento digital e em vinil) e os novos discos de nomes como os de Tori Amos, Eels, Fujyia & Myiagi, Silva ou os Teleman.

quinta-feira, junho 19, 2014

Novas edições:
Brian Eno + Karl Hyde, Someday World

Brian Eno + Karl Hyde
“Someday World”
Warp
4 / 5

Os quatro álbuns pop/rock que Brian Eno lançou a solo entre 1973 e 77, depois de ter abandonado os Roxy Music, são das mais belas coleções de canções que a década de 70 nos deu a ouvir. A descoberta de novos caminhos para a música, que encontrou depois do eureka “achado” em Discreet Music (1975) e desenvolveu sobretudo a partir do histórico Music For Airports (1978) levou a sua obra em nome próprio numa demanda pelos sentidos e expressões de uma noção de música “ambiente”. A canção não saiu contudo do seu léxico, mas durante anos trabalhou-a sobretudo na cadeira da produção ao lado de nomes como David Bowie, os Talking Heads e, mais tarde, U2. Projetou um reencontro com a pop na alvorada dos noventas em My Squelchy Life, álbum que acabou por nunca editar – em seu lugar surgindo antes Nerve Net, em 1992 – acabando por editar apenas em 2005 um verdadeiro sucessor para o álbum vocal Before & After Science (de 77) com o magnífico Another Day On Earth. Se em nome próprio a obra “pop” de Brian Eno é apenas um fragmento (mas claramente gourmet) da sua bem extensa discografia, a verdade é que o seu trabalho com canções tem conhecido episódios igualmente excecionais em discos de colaboração. E basta recordar experiências conjuntas como Wrong Way Up (com John Cale, em 1990) ou Everything That Happens Will Happen Today (com David Byrne, em 2008) para verificar que a verve pop de Eno continua vibrante, que é de travo clássico e capaz de verdadeiros momentos de pura excelência. E eis senão chega mais um belo exemplo. Editado há poucas semanas, Someday World é o primeiro álbum que nasce de um esforço de colaboração entre Brian Eno e Karl Hyde (vocalista dos Underworld) e surge após duas outras belíssimas parcerias assinadas ao lado de Rick Holland. A fluência pop da escrita de Brian Eno mostra-se uma vez mais como valor acrescentado na hora em que se entrega à canção, cabendo ainda ao trabalho vocal conjunto a criação de um patamar partilhado que assim define uma identidade peculiar a este disco no quadro das demais parcerias vocais do veterano. Depois há aqui um verdadeiro festim de ideias devidamente assimiladas, sobretudo genéticas rítmicas escutadas em várias tradições e geografias (e que inevitavelmente nos evocam colaborações de Eno com Byrne e os Talking Heads em finais dos setentas e inícios dos oitentas). Ao contrário do que a presença de Hyde poderia fazer supor (e nada, de facto, como pensar que ninguém anda necessariamente de rótulo na testa), Someday World não é um exercício vocal sob arquiteturas techno (e derivados). Aqui ouve-se pop. E de fina estampa.

domingo, maio 25, 2014

Bowie como mote para uma sinfonia


Foi em 1992 que Philip Glass recebeu o primeiro pedido para que compusesse uma sinfonia. Por essa altura era já um compositor globalmente reconhecido, com uma série de óperas inclusivamente gravadas em disco, peças como Music in 12 Parts, Einstein on the Beach ou Music in Similar Motion entendidas como bases de uma nova linguagem (da qual entretanto se afastara, evoluindo), bandas sonoras de filmes como Koyaanisquatsi ou Mishima transformadas em casos de culto e álbuns como Glassworks ou Songs From Liquid Days mostrando como um compositor de finais do século XX se adaptava também aos formatos “clássicos” da música gravada. Dizia-lhe então o maestro Dennis Russel Davies (que se transformaria num dos seus maiores colaboradores) que não ia deixar que Glass fosse um “daqueles compositores de ópera que nunca fizeram uma sinfonia”. A encomenda surgiu da parte da Brooklyn Philharmonic Orchestra, e levou Glass a procurar um caminho novo para a sua música orquestral. Encontrou o mote num álbum histórico de David Bowie: Low, um disco (de 1977) criado numa parceria com Brian Eno, encontrando ali Glass métodos de pensamento semelhantes aos que reconhecia em vanguardas da composição daquele tempo. Originalmente apresentada como Low Symphony, é uma obra em três andamentos, cada qual baseado num tema do álbum (um deles, na verdade, editado como extra numa reedição de 1991). O material musical de Bowie e Eno é claro ponto de partida, mas é da visão de Glass que emerge uma abordagem orquestral que acabaria por abrir horizontes a uma série de novas experiências que depois realizou em experiências sinfónicas subsequentes. 

Originalmente gravada na altura pela orquestra que assegurou a encomenda (em edição pela Phillips), a sinfonia – que agora se apresenta como Symphony No. 1 – conhece agora a sua primeira gravação ao vivo (o disco que até aqui existia nascera de registo em estúdio, obrigando cada naipe e secção da orquestra a gravar em separado, sob um ‘clic’ de guia a garantir a precisão dos tempos). Novamente sob a batuta de Dennis Russel Davies, mas agora com a Sinfonieorchester Basel, a primeira sinfonia de Glass respira novamente numa abordagem clara e luminosa, servindo uma vez mais de importante farol para um processo de diálogo entre as esferas da música pop e as da música erudita, que há muito tem em Philip Glass um dos seus mais ecléticos representantes.

segunda-feira, outubro 07, 2013

Novas edições:
Vários Artistas / Peter Gabriel,
And I'll Scratch Yours

Vários Artistas / Peter Gabriel
“And I’ll Scratch Yours”
Real World / Universal
3 / 5

Esta é a segunda parte de um díptico que começou a ganhar forma há uns três anos e que, originalmente, deveria ter sido discograficamente concluído pouco depois do lançamento do primeiro deste par de álbuns. Com Peter Gabriel como protagonista, o par de edições centrava-se numa ideia simples: a partilha de versões. Ou seja, numa etapa Peter Gabriel gravaria canções de outros nomes. E, nesta segunda, caberia a uma série de convidados o desafio de registar versões de canções originais de Peter Gabriel. Editado em 2010, Scratch My Back, de Peter Gabriel, apresentava leituras, personalizadas, de temas como Heroes de David Bowie, The Boy In The Bubble de Paul Simon, My Body is A Cage dos Arcade Fire, Listening Wind dos Talking Heads ou Street Spirit (Fade Out) dos Radiohead, juntando ainda temas de Neil Young, Lou Reed, Regina Spektor, Elbow, Bon Iver ou Randy Newman. Agora, depois de tão bem ter coçado as costas de uma notável multidão de canções (e autores) chega a resposta, que começa logo pela forma direta como o título sugere que agora é a vez dos outros o coçarem... And I’ll Scratch Yours é de certa forma um disco-tributo à obra de Peter Gabriel. Porém, ao contrário de muitos projetos coordenados por editoras, revistas (como o foi o I’m Your Fan, dedicado a Cohen, conduzido pela Les Inrockuptibles) ou comissariadas por admiradores, esta foi coordenada pelo próprio “homenageado”. Coube de resto a Peter Gabriel a decisão de avançar pela edição deste segundo disco nesta altura do campeonato, cansado que estava de esperar pelas eventuais contribuições planeadas que não se chegaram a materializar. A ideia original era a criação de um par em que os nomes por si abordados num dos álbuns fossem os mesmos que depois avançariam sobre as suas próprias canções. Apesar de algumas diferenças pontuais, And I’ll Scratch Yours apresenta mesmo assim um corpo comum de nomes com o álbum de 2010. O alinhamento final fala todavia por si, e revela um dos mais agradáveis entre os muitos discos de versões / tributos que por aí andam. David Byrne e Arcade Fire assinam leituras espantosas, respetivamente de I Don’t Remember e Games Without Frontiers. Lou Reed faz de Solsbury Hill uma canção “sua”, o mesmo se podendo dizer da abordagem de Stephin Merritt (dos Magnetic Fields) a Not One Of Us ou a Biko, segundo Paul Simon (numa curiosa ligação, via The Boy In The Bubble que Gabriel reinterpretou, à relação com a África do Sul que o músico talhou nos dias de Graceland). O alinhamento apresenta ainda leituras pessoais de Big Time segundo Randy Newman, Blood of Eden por Regina Spektor ou de Feist, com Timber Timbre, em Don’t Give Up. Brian Eno revisita um espaço da música elétrica onde há muito não caminhava em Mother of Violence. Joseph Arthur não impressiona lá muito em Shock The Monkey. E Bon Iver e os Elbow não parecem conseguir vencer a deferência perante os originais em Come Talk To Me e Mercy Street. Mas no fim, ao cabo de 12 versões, a colheita satisfaz. Poucas vezes vemos reunido um tão nutritivo volume de versões num disco só.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Novas edições:
Roxy Music,
The Complete Studio Recordings


Roxy Music 
“The Complete Studio Recordings” 
EMI Music 
5 / 5

Entre as forças maiores nascidas do panorama pop/rock dos anos 70 os Roxy Music moram junto das que conseguiram ser, ao mesmo tempo artística e comercialmente consequentes, vários sendo os episódios da sua carreira que geraram importante descendência. Surgiram em clima glam rock, mas tal como David Bowie, os seus horizontes cruzavam outras linguagens e ambições, a vivência art school de alguns dos seus elementos tendo condicionado os desejos de não fechar a música no plano das formas existentes, um sentido de demanda plástica cedo lançando desafios que os discos tão bem registaram. Podemos delimitar quatro grandes etapas na obra dos Roxy Music. Uma primeira, entre 1972 e 73, durante a qual Brian Eno integrou a formação da banda, imprimindo uma visão de saudável inquietude que soube aliar a tecnologia disponível à busca de novas formas para entender a construção dos ambientes e das canções. Desavenças no plano empresarial ditaram o afastamento de Brian Eno, deixando a Bryan Ferry a condução clara dos destinos da banda, uma segunda etapa de procura de caminhos pós-glam desenhando-se então entre 1974 e 76. O grupo separou-se então, voltando a reunir em 1978 sob nova orientação, partilhando inicialmente algum interesse pela assimilação de elementos escutados no disco, depois afinando progressivamente um sentido de elegância e sofisticação que culminaria no álbum Avalon, de 1982. A quarta etapa é a que o grupo vive desde o reencontro em 2001, ocasionalmente reunindo-se para concertos, o sonho de um eventual novo álbum de originais parecendo cada vez menos uma possibilidade. A caixa editada neste 2012 que assinala os 40 anos sobre o início da vida da banda recorda a integral da sua obra em estúdio e, por isso, encerra as memórias gravadas entre 1972 e 82 que recordam as suas três primeiras fases de vida (a quarta, apesar de ter gerado gravações de palco, não foi ainda criativamente consequente ao ponto de nos dar temas inéditos). Cronologicamente arrumados, apresentados em miniaturizações dos álbuns originais, os álbuns contam-nos uma história que parte ao som do visionário Roxy Music (1972) e do seu sucessor natural For Your Pleasure (1973). Avança pela memória de álbuns que aferiram em volta da personalidade de Ferry uma visão pop mais clacissista e sofisticada entre Stranded (1973), Country Life (1974) e Siren (1975), assinala o reencontro com o intrigante, mas novamente desafiante Manifesto (1979) e arruma o atingir de uma linguagem mais polida em Flesh + Blood (1980) e Avalon (1982). Deixando de lado os registos ao vivo Viva! (1976) e The High Road (EP de 1983), como de resto o próprio título da caixa o sugeria (afinal, é uma integral de estúdio!), esta edição completa a história com um CD duplo onde recolhe os temas editados entre os lados A e B dos singles e máxi-singles que o grupo editou entre Virginia Plain (1972) e Take A Chance With Me (1982). Falta-lhe um bom texto histórico. Mas convenhamos que o livro Unknown Pleasures, de Paul Stump (editado em 1988), já deu conta desse mesmo recado.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Novas edições:
Brian Eno, Lux


Brian Eno 
“Lux” 
Warp Records 
4 / 5

Apesar da notoriedade de alguns recentes trabalhos vocais – nomeadamente o belíssimo Another Day On Earth (disco a solo de 2005) e das colaborações que registou em Everything That Happens Will Happen Today (com David Byrne, em 2008) ou Drums Between The Bells (com Rick Holland, em 2011) – Brian Eno na verdade nunca deixou de lado a sua antiga vontade em explorar os espaços a que, em meados dos anos 70, ensaiou pela primeira vez uma noção de “música ambiente”. Mesmo tendo editado vários discos e assinado inúmeras instalações ao longo dos últimos 25 anos, há muito que não o víamos entregue a uma lógica de composição e relacionamento com o espaço como a que, em finais de 70, lhe deu em Music For Airports (mais ainda que no “ensaio” definidor Discreet Music, de 1975) a visão de uma demanda que o tempo (e o trabalho) identificou como a marca mais influente da sua personalidade criativa. Lux, o primeiro disco integralmente criado a solo que edita desde 2005, é assim um reencontro com a matriz essencial da sua visão ambiental. Aproxima-se assim, na essência, dos princípios que experimentou em meados e finais dos anos 70 (Music For Airports tem aqui um peso genético primordial), mas na verdade segue mais de perto as aferições de ideias e moldagem de formas que nos anos 80 nos deu, não necessariamente no superlativo Apollo: Atmospheres and Soundtracks (1983), mas no ainda mais frágil e minimalista Thursday Afternoon (1985). Na origem desta música – que se escuta em quatro longos segmentos, o todo aproximando-se dos 76 minutos – está um trabalho de relacionamento com o espaço. A música foi inicialmente criada para uma intervenção numa galeria em Turim e, tal como sucedera com Music For Airports, teve audição anterior ao lançamento em disco no espaço de um aeroporto (o de Haneda, em Tóquio). Lux é feito de linhas suaves, de drones e ecos e reverberações (sobretudo das notas do piano) que se moldam entre si e sugerem uma teia de sons, ocasionalmente de outras fontes sonoras emergindo breves fraseados que logo se diluem entre o todo que não deixa de seguir o fluir do seu caminho. É música lenta para um mundo rápido. Um contraste em espaço de fuga. Não parece preocupado em inventar nada de novo. E, convenhamos, não era isso o que, por esta altura, estávamos à espera de encontrar por aqui.

sábado, setembro 29, 2012

Um ícone dos anos 70

Discografia Roxy Music - 1 
'Roxy Music' (album), 1972

Iniciamos hoje novo perscurso por uma discografia integral, revisitando desta vez a obra dos Roxy Music, que se estrearam em disco há precisamente 40 anos com um álbum ao qual chamaram, muito simplesmente, Roxy Music. Num ano em que Bowie lançava Ziggy Stardust e os T-Rex viviam já os efeitos mediáticos do álbum Eletric Warrior editado no ano anterior, os Roxy Music revelavam ser uma das mais sofisticadas e visionárias propostas do glam rock, género ao qual o grupo surge assim associado. Cruzando linhas características da música popular com ideias experimentais – a presença das eletrónicas de Brian Eno sendo aqui uma presença determinante – o álbum de estreia dos Roxy Music vive sobretudo encantado por citações cinematográficas, entre as letras e ambientes surgindo referências a filmes como Casablanca, de Michael Curtiz, ou Breve Encontro, de David Lean. Imediatamente abraçado pela crítica, e sem um single para o acompanhar (a edição original do LP, em junho de 1972, não incluia Virginia Plain, que nessa altura nem sequer estava gravada), Roxy Music fez-se um inesperado caso de successo, o tempo elegendo-o como um clássico maior da música dos anos 70. A sua memória projeta-se em inúmeras criações posteriores. A banda sonora de Velvet Goldmine (de Todd Haynes), por exemplo, revisita e reinventa algumas das suas canções. David Bowie mais tarde recriou If There Is Something, com os Tin Machine. E os Ladytron devem o seu nome à canção com o mesmo título que descobrimos no alinhamento do disco. A capa, que usa uma foto da modelo Kari-Ann Muller, tirada por Karl Stoecker, não só se tornou num ícone pop como definiu um paradigma pelo qual responderia a grande parte das posteriores capas de discos dos Roxy Music.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Brian Eno 'ambiental' em novembro

Brian Eno regressa aos discos em clima "ambient" em novembro. Lux é o seu novo álbum a solo e tem edição assegurada pela Warp. O disco apresenta uma peça dividida em 12 partes (por quatro faixas). Já está na lista dos mais esperados do ano...

domingo, janeiro 15, 2012

Um segundo episódio

Discografia Brian Eno - 62 
'Panic of Looking' (EP), 2011


O mais recente título da discografia de Brian Eno é uma sequela imediata de Drums Between The Bells. Trata-se de um EP que nasce ainda da parceria com Rick Holland e que uma vez mais segue as mesmas linhas do álbum lançado este ano, usando a voz num registo falado.

sábado, janeiro 14, 2012

Num encontro com Rick Holland

Discografia Brian Eno - 61 
'Drums Beteween The Bells' (álbum com Rick Holland), 2011


A poesia de Rick Holland mora na medula do mais recente álbum de Brian Eno. Drums Between The Bells apresenta-se como um álbum vocal, tomando as palavras como ponto de partida para a construção de ideias que não se afirmam necessariamente como canções. As vozes mantém-se fieis a um registo falado (e não cantado) e são assinadas por figuras que não são profissionais nem da música nem da declamação. Recorrendo a ideias mais instintivas que nascidas de profunda reflexão, as vozes juntam um sentido de verdade a uma música que as acolhe, em conjunto fazendo nascer um dos melhores discos recentes de Brian Eno.