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quinta-feira, dezembro 05, 2019

Lautréamont lido por Sollers

FOTO: Franck Ferville
PHILIPPE SOLLERS
Lógica do francês — assim se intitula um filme de G.K. Galabov e Sophie Zhang em que Philippe Sollers define, percorre e celebra a língua francesa como paisagem e instrumento de um desejo de lógica que se materializa através da concisão da matemática. Daí o ziguezague poético, poeticamente inquietante, que nos é proposto: Sollers lê Lautréamont (1846-1970), ao mesmo tempo que as imagens (e os sons) evocam J. Robert Oppenheimer (1904-1967) e a bomba atómica.
Para ver e escutar, porventura também em ziguezague com a leitura do mais recente romance de Sollers, Le Nouveau.

segunda-feira, julho 22, 2019

A mão direita de Philippe Sollers

O Novo, diz ele. Entenda-se: um barco chamado 'Le Nouveau', comandado por Henri (1850-1930), bisavô do autor. Mas também o novo, não apenas como contraponto dialéctico do velho, antes equivocamente consagrado como bandeira desta nova idade digital em que a relação com a escrita é cada vez mais ténue, para não dizer repelida. Ou como resume o próprio Sollers: "O novo é, assim, o desaparecimento da leitura, logo do treino desse músculo que é a memória."
Breve e fascinante, imenso como um continente à espera de ser descoberto, Le Nouveau oscila entre os labirintos da memória familiar e a formulação de uma estratégia de (sobre)vivência que redescobre em Shakespeare o seu guia, porventura a nossa derradeira utopia. Começa a ler-se como um diário confessional, vai-se impondo como bíblia de uma nova religião que não abdica do labor ancestral da escrita.

>>> Deixo os meus mortos tranquilos e dedico-me inteiramente ao deus que alegra a minha juventude. O seu altar é uma folha de papel branco, o seu óleo sagrado a tinta azul, a sua cerimónia clandestina o sopro. Confio na minha mão direita, ela conhece a sua navegação.

[pág. 108]

>>> Philippe Sollers / Le Nouveau / roman, um film de G.K. Galabov e Sophie Zhang.

quinta-feira, março 21, 2019

Elogio das singularidades [citação]

>>> A vida humana não adquire a sua significação plena a não ser através das singularidades, e as singularidades foram muito postas de parte pelas concepções colectivistas do mundo. Logo que ouço "juntos, todos juntos", desconfio. Não há todos, apenas há singularidades. Mas são sempre arrumadas em categorias: a arte moderna, a filosofia... Não, precisamos do singular, é isso que salva a vida.

PHILIPPE SOLLERS
entrevista sobre o novo romance Le Nouveau
Gallimard, 2019

domingo, dezembro 30, 2018

3 livros de 2018

* JOGOS DE RAIVA, de Rodrigo Guedes de Carvalho (Dom Quixote)

>>> Não há um de nós que, por uma vez que seja, não amaldiçoe o seu destino. Só que o destino é tudo o que temos, mesmo que acreditemos que poderemos mudá-lo. Não se chama destino por acaso.
(pág. 240)

O poder do destino começa, afinal, do facto de se chamar... destino. Assim é a prosa de Rodrigo Guedes de Carvalho, continuando um admirável labor realista que não se esgota nos sinais do quotidiano, longe disso, porque existe, no essencial, como realismo da linguagem.
Encontramos em Jogos de Raiva (o título envolve uma calculada ironia cinéfila) o prolongamento exemplar de experiências que tiveram um desenvolvimento importante no anterior O Pianista de Hotel, expondo as conexões reais, imaginadas ou imaginárias entre elementos de um pequeno colectivo atravessado pelos laços, ilusões e símbolos de uma ideia primitiva de família. Certamente não por acaso há, aqui, alguém que escreve um romance que funciona, de uma só vez, como reflexo simbólico e espelho deformante do próprio romance que estamos a ler. Dito de outro modo: o trabalho literário existe como actividade sistematicamente impelida para questionar os seus poderes e limites, sobretudo num mundo em que, "socialmente" e em "rede", cedemos todos os dias à instrumentalização obscena ou mediática (muitas vezes obscena e mediática) da magia primordial da palavra — essa palavra que o cinema já expôs [Dreyer] na sua dimensão sagrada.
Tudo isto se desenvolve através de uma dramaturgia de durações e lugares cruzados, cada um deles alimentando a ambiguidade que o aproxima do seu contrário. É um método capaz de reconhecer a fragilidade em que passou a existir a tarefa prospectiva do escritor, por oposição à rotina instrumental do escrevente (para utilizarmos a oposição definida por Roland Barthes). Em última instância, é uma via para lidarmos com a complexidade do nosso tempo — português e universal.

*

* CENTRE, de Philippe Sollers (Gallimard)

No interior de uma obra imensa e fascinante, os mais recentes romances de Philippe Sollers podem ler-se também como zonas mais ou menos autónomas de um bloco-notas dedicado às maravilhas e monstruosidades do nosso viver: da celebração do poder invencível da palavra até ao reconhecimento da mediocridade triunfante da sociedade "virtual" — leia-se a rede que se desenha através de L' Éclaircie, Médium, Mouvement e Beauté. De novo através de uma festiva brevidade — apenas 128 páginas, há algo da vertigem punk na escrita de Sollers —, Centre é mais um romance exemplar dessa dialéctica vivida entre o esvaziamento do social e o sagrado da relação amorosa. Com uma ambígua sugestão autobiográfica: Sollers é casado com a psicanalista Julia Kristeva, ela própria uma notável romancista (leia-se o prodigioso L'Horloge Enchantée), sendo o escritor/narrador de Centre casado com Nora, psicanalista de profissão... Nada a ver, entenda-se, com a pornografia confessional que nos rodeia — este é um objecto do mais radical pudor.

*

* CAOS E RITMO, de José Gil (Relógio D'Água)

Esta é a escrita do corpo e das suas propriedades: porque um corpo possui essa capacidade de "emitir forças (partículas intensivas) que um outro corpo recebe e acolhe como suas" (pág. 26). José Gil percorre um leque de mundividências, dos estudos da criança por Françoise Dolto às propostas de Antonin Artaud em O Teatro e o seu Duplo, passando pela feitiçaria interior à tragédia de Macbeth. Na procura de quê? Trata-se de iluminar essas paisagens tão próximas, por vezes tão dificilmente pensáveis, em que o corpo se faz ideia, ou melhor, em que protagonizamos um renascimento alheio a qualquer formatação religiosa, embora realmente espiritual — porque, no dizer de Artaud, "as ideias não são senão os vazios do corpo." Eis um livro que se pode definir através da classificação tradicional de ensaio filosófico, mas que, no limite, se vai construindo como uma deambulação romanesca por um património de ideias com duas frentes: numa delas, continuamos a lutar por saber o que acontece quando aplicamos a palavra "eu"; na outra, porventura distante, mas complementar, revemo-nos no espaço de uma Europa problemática, assombrada pela sedução do seu equilíbrio instável: utopia ou distopia?

terça-feira, dezembro 04, 2018

Sollers — nas margens, quer dizer, no centro

Homem sempre interessado pelos labirintos da beleza, o francês Philippe Sollers situa-se, por isso mesmo, nas margens de qualquer sistema que trabalhe para a formatação do real.
Coisa frequente, coisa monstruosa do nosso mundo contemporâneo: desde aqueles que alimentam as deprimentes polémicas futebolísticas até aos que naturalizaram os horrores da Reality TV, passando pelos arautos de todas as purificações sexuais, os formatos impuseram-se como a única ideia de redenção de um universo que não consegue pensar para além de 20 ou 30 palavras (eventualmente 140 caracteres, o que vem a dar no mesmo).
O seu génio é tanto mais repelido pelo exército dos "formatadores" (se a palavra não existe, precisamos de a inventar) quanto a marginalidade de Sollers o impele para o centro. Centre, justamente, aí está, obra maior na produção literária de 2018 em que a personagem de um escritor fascinado por Freud e Lacan, expõe, através de palavras precisas e desejos impregnados pela escrita, a sua relação amorosa com Nora, psicanalista.
Sabemos que Sollers é casado com Julia Kristeva, ensaíasta, romancista e, avant tout, psicanalista... Evitemos, porém, os jogos florais autobiográficos, outro formato em voga: cronista medíocre ou profissional do comentário político, sem esquecer as mais bizarras encarnações de bloggers e youtubers, são muitos os que se afadigam no domínio da desvergonha autobiográfica, pueril e anedótica, alimentada pela estupidez "social" em rede.
Para Sollers, o centro é, de uma só vez, o lugar a partir do qual o amor se define, pulverizando a geometria do mundo, e o domínio do impensável humano — porque a urgência de pensar as relações humanas pode levar-nos a coabitar com uma transcendência que pertence apenas ao labor da escrita ou, como diria um mestre querido de Sollers, ao prazer do texto.
Enfim, este é um livro de um humor radical, prolongando a série de romances fragmentários com que Sollers vai inventariando a obscenidade do mundo, pressentindo, apesar de tudo, uma alegria que insiste em assumir-se como centro do pensamento. Et pour cause.

>>> Na era do Espectáculo mundializado, a "pós-verdade" impõe-se. Aliás, tudo se tornou "pós". Pós-moderno, pós-sexual, pós-religioso, pós-político, pós-climático. Um "pós" e uma "pós" já não têm muito a dizer um ao outro, permanecem dobrados sobre os seus smartphones, em contacto constante com outros "pós". Os "pós-ovócitos" estão no mercado, do mesmo modo que os "pós-espermatozóides" tornados cada vez mais raros. O "pós-útero" está em marcha. Assim vai o "pós",  já ultrapassado, na ciber-guerra, pelo "hiper-pós". Já não há posteridade, já não há póstumo, nada a não ser posturas postiças sem futuro.

PHILIPPE SOLLERS
in Centre, pág. 98

domingo, março 18, 2018

A música de Sollers

O romance de Philippe Sollers, Beauté, publicado em 2017 (entretanto, o autor já lançou Centre) é, de uma só vez, uma música íntima e uma deambulação pela musicalidade utópica do mundo. A partir da relação com Lisa, "jovem pianista grega excepcional", o autor organiza uma deambulação romanesca e filosófica, com algo de perverso método jornalístico, sobre a beleza perdida do mundo. Ou melhor, sobre o enfraquecimento da ideia de beleza na histeria deste mundo de espectáculo, reality-TV e hiperligações.
Sollers acrescenta assim mais uma peça fascinante ao mapa de romances com que vai redesenhando um desejo de escrita que não vacila perante a formatação quotidiana dos seres, gestos e relações — recorde-se o anterior, igulamente magnífico, Mouvement. Como intransigente moralista — entenda-se: pensador empenhado em discutir as condições de formulação de alguma moral —, não abdica de continuar a descrever a apropriação da nossa existência pelos sistemas de encenação social que já marcaram a ferro e fogo o século XX. A começar pelo nazismo — para ler, celebrando o poder não alinhado da palavra.

>>> Aquele que compreendeu melhor o devir-cinema universal foi Hitler. Basta abrir uma televisão, e deslizar de um canal para outro, para constatar que ele está lá, sem interrupção, com a emergência de arquivos inéditos por longo tempo interditos, que contemplamos agora colorizados. De tal modo estamos habituados a ver as mesmas imagens dos campos de exterminação, a preto e branco, com os seus amontoados de cadáveres esqueléticos e deportados meio mortos, que somos surpreendidos por esta súbita passagem para a cor. É o mesmo estúpido que vocifera, braço estendido, perante as massas em êxtase (muitas mulheres em transe), mas, em vez de aparecer como anjo das trevas com a sua braçadeira de cruz gamada, ei-lo arranjado, descontraído, quase espontâneo, e a sua fiel companheira, Eva Braun, loura e arredondada, desportiva, querida, amando o seu monstro empertigado como se ele fosse a sua boneca. 
[pág. 99]

sexta-feira, março 16, 2018

Má literatura [citação]

>>> A má literatura é profundamente surda, daí o entusiasmo que suscita na surdez geral do marketing.

PHILIPPE SOLLERS
Entrevista a Emmanuelle de Boysson
Putsch, 5 Março 2018

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Nome próprio [citação]


>>> É muito bom ser-se um nome próprio que tem mais confiança numa nota escrita do que no seu corpo. Não é fácil explicar isso às pessoas que estão persuadidas que o seu corpo, quer dizer antropomorficamente a imagem do seu corpo no espelho, é o lugar de onde viria aquilo que dizem, logo aquilo que escrevem. É aliás por essa razão que aquilo que escrevem tem tão pouco interesse.

PHILIPPE SOLLERS
Le Cherche Midi, 2008

sexta-feira, julho 22, 2016

O movimento segundo Sollers

Tempos difíceis. Tempos de angustiado humor. Philippe Sollers continua a escrever livros magníficos sobre a sua/nossa sociedade submetida ao "império dos simulacros" (é assim que ele designa a televisão), feita de muitas relações de indivíduos que já não vêem o movimento — e que, desse modo, perderam a singularidade que, justamente, os individualizava.

>>> Pascal, matemático místico, escreveu coisas deste género:
"Quero mostrar-vos uma coisa infinita e indivisível: é um ponto que se move por todo o lado a uma velocidade infinita, porque está em todos os lugares e está, por inteiro, em cada lugar."
Será que o leitor vê este movimento? Não? tanto pior.
[pág. 41]

Mouvement (ed. Gallimard, 2016) é esse romance construído sob o signo de Hegel (La vérité est le mouvement d'elle-même en elle-même — eis a citação de abertura) em que a observação mais íntima convive com aqueles que arriscaram pensar os limites, todos os limites. Tudo assombrado (o assombramento é, aqui, uma coisa feliz) pela presença imensa, incansável e sem cansaço, silenciosa e convulsiva, desses objectos de todos os futuros que são os livros.

>>> (...) os verdadeiros livros, radicalmente acordados, dormem de punhos cerrados, é a sua força. Estes blocos de sono são de uma lucidez incrível. Sei onde encontrá-los e como lhes falar.
[pág. 59]

Os livros de Sollers dos últimos anos (no limite, talvez toda a sua obra) podem ser percorridos como capítulos abertos, mas formalmente delimitados, de uma intransigência de viver e escrever que envolve sempre a defesa da irredutibilidade da própria escrita. Ele vive, afinal, essa memória magoada de um tempo em que escrever era uma arte de viver, não uma mensagem cifrada de telemóvel — vale a pena referir que, na gíria adoptada na língua francesa, um SMS é um texto [têxtô]. Em causa está a administração literária da solidão, esse admirável mecanismo de reconhecimento do outro.

>>> Ela não dorme se não recebeu o seu texto. Bruscamente, inventa um encontro profissional importante: texto. Dir-se-ia que é o seu ADN que a convoca, está pronta a sacrificar tudo por um virtuoso do texto. Já não lê mais nada a não ser as suas mensagens, os livros são demasiado longos e demasiado difíceis, baralham-se perante os seus olhos. A televisão, a rádio, o telefone vocal são desertos de aborrecimento. Tão convincente como a cocaína: o texto flash.
[pág. 138]  

segunda-feira, novembro 09, 2015

Mistério [citação]

>>> "Cogito, ergo sum", eis um outro mistério. De onde vem o pensamento? Porque é tão rápido? Deus contém a Natureza, ou será que é o contrário? Não há dúvida: respiro, sou, penso, sinto, durmo, sonho. Todos os fenómenos participam numa grande Missa cifrada, e transformo-me subitamente em memória. Um dia, leio esta fórmula de Mallarmé: "Ele consegue avançar porque vai em direcção ao mistério." Será que eu avanço? Parece.

PHILIPPE SOLLERS
Éd. Gallimard, Paris, 2015

terça-feira, junho 03, 2014

Phillipe Sollers no meio do tempo

Médium ou, como o próprio autor esclarece, "pessoa susceptível de, em determinadas circunstâncias, entrar em contacto com os espíritos (do latim medius, no meio)". No novo livro de Philippe Sollers, tudo é ou pode ser mediação — e a sua resistência.
Prolongando a lógica fragmentária de exercícios anteriores, como L'Éclaircie ou Portraits de Femmes, o autor fala de uma mulher como medium de outra, de um desejo de escrita como marca de uma obstinada intransigência cultural, de Veneza como duplo de Paris, ou o contrário — enfim, de Veneza, sempre Veneza, como medium de Veneza, a ponto de "o narrador ser um medium que descobre a sua própria capacidade de mediação em função das respostas que recebe".
Philippe Sollers
Tudo isso leva-o a ocupar o meio do próprio tempo, não a nostalgia do passado, não a ilusão profética do futuro, aí onde a consciência das memórias funciona também como arte de desmascarar as imposturas da ideologia mediática que, através das vivências "em tempo real", nos enreda numa inércia feita de euforias programadas e, pior um pouco, obrigatórias.
Daí também as personalidades que Sollers convoca para ocuparem a posição de medium literário, funcionando como inspiração e observadores transcendentais da sua própria escrita: Saint Simon (1675-1755), que viveu em Versalhes, "então o centro do mundo" (por assim dizer, medium de todas as formas de poder e saber); e o Conde de Lautréamont, aliás, Isidore Ducasse (1846-1870), autor dos lendários Cantos de Maldoror. Em particular através de Ducasse, Sollers revê, sob a serena concordância das águas de Veneza [video de G. K. Galabov e Sophie Zhang], a tragédia contemporânea do Diabo dominante e de um Deus humanamente iludido, condenado a assumir-se como Diabo para lidar com os horrores do mundo que deserdou.
Livro simples e sublime, conciliando a leveza da crónica e a contundência da epopeia, Médium procura, no limite do vazio contemporâneo, a possibilidade de renovação do voto de Pascal: "Quem tiver encontrado o segredo de se alegrar com o bem sem recusar o mal contrário, terá encontrado o equilíbrio. É o movimento perpétuo".

quinta-feira, outubro 17, 2013

Sollers, entre as mulheres

No incontornável O Segundo Sexo (1949), Simone de Beauvoir escreveu um dos axiomas nucleares de todas as filosofias feministas: "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher" (On ne naît pas femme: on le devient.). Digamos que, tal como Beauvoir, Philippe Sollers é um animal com elaborados instintos de marcação de território. Daí que no seu novo livro, Portraits de Femmes, ele comece por propor um genial roubo conceptual: "Ninguém nasce homem, torna-se homem" (On ne naît pas homme, on le devient).
Em boa verdade, tal como em Beauvoir, com a sua recusa de qualquer determinismo biológico, físico ou económico, a citação de Sollers carece de um pouco mais de fôlego. Pelo menos tendo em conta o seguinte: "Ninguém nasce homem, torna-se homem, a maior parte do tempo à sua própria custa. É um longo caminho perigoso que, a maior parte das vezes, não conduz a lado nenhum."
Génio múltiplo de Sollers, fazendo destes retratos de mulheres (obviamente evocando o momento simbólico, ironicamente "escandaloso", de Femmes, publicado há trinta anos) um misto elegante de afirmação de identidade e irrisão de tudo que a palavra não possa recobrir — sem esquecer que recobrir, intensificando o acto de cobrir, envolve os riscos muito humanos da linguagem, quer dizer, do labor paciente e exigente de colocar palavras sobre as coisas.
Tudo isto, enfim, apenas faz sentido, quer dizer, só entra na guerra dos sentidos e da significação pelo lado da mãe, primeira mulher do livro. E da língua mãe. Citação:

>>> O francês tornou-se uma língua morta? Toda a gente diz mais ou menos que sim, o que pode querer dizer que não haveria outra autoridade que não fosse a autoridade muda dos mercados financeiros. Mas não, eu estou vivo e todos estes retratos de mulher respiram.

sexta-feira, junho 15, 2012

Sollers, Manet, Picasso

L' Éclaircie. Que é como quem diz: uma aberta (no tempo). Talvez uma iluminação (nos pensamentos). Porventura um fogacho (nas rotinas do quotidiano). Em todo o caso, é de amor que se trata. Amor da irmã do narrador que reaparece ciclicamente, dir-se-ia para satisfazer uma compulsão narrativa incestuosa. Amor da mulher que com ele partilha, secretamente, a nitidez de uma entrega que os outros ignoram. Anne e Lucie.
Philippe Sollers continua a escrever livros maravilhosos e desarmantes, desafiando as zonas obscuras de todos os desejos e, ao mesmo tempo, confundindo a aventura das suas personagens com uma dissertação elaboradíssima sobre aqueles que renegaram as fronteiras aprendidas da arte. Manet e Picasso, neste caso, senhores de um tempo em que adorar um cedro, como o narrador/Sollers (C'est immédiat : je ne peux pas voir un cèdre, dans un jardin ou débordant d'un mur sur la rue, sans penser qu'une grande bénédiction émane de lui et s'étend sur le monde.) era já uma filosofia de vida.
Em conjuntura de generalizada degenerescência pornográfica da palavra ("em tempo real", como diriam os ingénuos pivots de televisão), L'Éclaircie confunde-se com a afirmação irredutível da escrita e das suas obstinadas singularidades. Há um humor refinado em tudo isso. Ou, se preferirem, um prudente cepticismo face à grandeza utópica do ser humano.