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domingo, dezembro 08, 2019

No labirinto de Stanley Kubrick

A obra-prima de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados, está de volta em cópia restaurada: 20 anos depois, é também uma redescoberta fascinante do casal Tom Cruise/Nicole Kidman — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Dezembro).

Muitos espectadores terão o filme final de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados, em DVD ou Blu-ray. E não há dúvida que este é um daqueles casos em não podemos deixar de sublinhar a impecável qualidade das respectivas edições. Seja como for, nada pode substituir a vibração, a intensidade e o mistério de De Olhos Bem Fechados no ecrã de uma sala escura. Pois bem, a boa notícia é que a obra-prima de Kubrick está de volta numa reposição em cópia restaurada (que se anuncia, para já, para Lisboa, Porto, Coimbra e Braga).
Assinala-se, assim, uma efeméride. Foi há 20 anos que surgiu o filme que, como titulava a revista Time na sua edição de 5 de Julho de 1999, nos revelava o então casal Tom Cruise/Nicole Kidman para além de todas as imagens conhecidas. Assim mesmo: “Cruise & Kidman como nunca os viram”.


E não era caso para menos. Ao transpor para o presente a trama de uma novela de Arthur Schnitzler publicada em 1926 (Traumnovelle), Kubrick não se limitava a fazer uma “transposição” da Viena do princípio do século para a Nova Iorque da década de 1990. A história de traição e fidelidade vivida pelo Dr. William Harford e a sua mulher Alice (Cruise & Kidman) é, afinal, um eterno conto moral sobre os labirintos do desejo humano.


Filmado em Inglaterra, onde Kubrick viveu desde a rodagem do seu Lolita (1962), De Olhos Bem Fechados é também uma ilustração extrema do invulgar poder de produção do seu autor. De facto, o perfeccionismo do cineasta fez com que a rodagem se estendesse por mais de um ano e meio (entre novembro de 1996 e junho de 1998), além do mais obrigando os protagonistas a alterarem diversos compromissos com outras rodagens. Isto sem esquecer que os trabalhos de cenografia envolveram minuciosas reproduções de algumas ruas de Greenwich Village nos estúdios de Pinewood, nos arredores de Londres.
O processo de conclusão do filme [título original: Eyes Wide Shut] acabaria por desembocar num perturbante desenlace. De facto, foi no dia 1 de Março de 1999 que Kubrick organizou a primeira projecção da montagem final de De Olhos Bem Fechados, convocando o casal de protagonistas e os dirigentes da Warner (estúdio produtor); seis dias mais tarde, sofreu um ataque cardíaco e morreu durante o sono — contava 70 anos.
Há em De Olhos Bem Fechados qualquer coisa de bailado trágico sobre o amor, a sua radiosa possibilidade ou tão só a sua impossibilidade. E a palavra “bailado” está longe de ser banalmente metafórica, já que, tal como em outros momentos emblemáticos da filmografia “kubrickiana”, este é um filme em que a música desempenha um fundamental papel de enquadramento dramático. Entre as composições mais célebres que se escutam em De Olhos Bem Fechados está a Valsa nº 2 da Suite para Orquestra de Variedades composta por Dmitri Shostakovich em 1938 (vulgarizada pela designação de Suite para Orquestra de Jazz). Isto sem esquecer que Baby Did a Bad Bad Thing, canção de Chris Isaak (do álbum Forever Blue, 1995), ficou como emblema erótico do próprio filme.

terça-feira, dezembro 03, 2019

For ever Kubrick

A 1 de Março de 1999, Stanley Kubrick mostrava a montagem final da sua obra-prima De Olhos Bem Fechados ao seu par de protagonistas, Nicole Kidman/Tom Cruise, e aos executivos da Warner Bros.; faleceu menos de uma semana mais tarde, a 7 de Março, vítima de ataque cardíaco durante o sono. Foi há 20 anos e a efeméride justifica uma fundamental reposição em cópia restaurada. Para quem viu, qualquer revisão será uma renovada revelação; para quem não conhece, digamos, para simplificar, que nunca viu nada assim.

sábado, maio 11, 2019

Kubrick & Napoleão

Já existia como álbum gigante. Agora disponível em edição mais "pequena" (com os mesmos conteúdos) o livro da editora Taschen sobre o Napoleão, de Stanley Kubrick, continua a ser um fenómeno editorial e cinéfilo. Trata-se, afinal, de evocar esse projecto gigantesco que Kubrick desenvolveu depois do impacto de 2001: Odisseia no Espaço (1968), uma verdadeira odisseia de investigação e pré-produção que, afinal, nunca chegou à fase de... produção.
O título do livro é eloquente, celebrando, paradoxalmente, o filme que nunca existiu: Stanley Kubrick’s “Napoleon” — The Greatest Movie Never Made. Desde o estudo detalhado da ascensão e queda de Napoleão até à escolha de cenários e à fabricação de uniformes para os figurantes-soldados, esta antologia de textos e imagens (com coordenação de Alison Castle) apresenta-se como um caso modelar de abordagem histórica de um capítulo fulcral da história do cinema. E tanto mais quanto, já há vários anos, Steven Spielberg deu conta da sua vontade de concretizar, em formato de série televisiva, o argumento deixado por Kubrick...

quinta-feira, março 07, 2019

20 anos de solidão

Tom Cruise, Nicole Kidman e Stanley Kubrick
— rodagem de De Olhos Bem Fechados
A montagem final de De Olhos Bem Fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidman, foi mostrada aos executivos da Warner Bros. a 1 de Março de 1999. Sete dias mais tarde, portanto a 7 de Março, surgiu a notícia da morte de Stanley Kubrick — faz hoje 20 anos.

Danny Lloyd e Stanley Kubrick
— rodagem de Shining (1980)
Auto-retrato [década de 40]

sexta-feira, dezembro 07, 2018

"2001" regressa em Blu-ray e 4K

As comemorações dos 50 anos de “2001: Odisseia no Espaço” ainda não terminaram — agora, a obra-prima de Stanley Kubrick surge em edição Blu-ray, com três discos, incluindo uma versão com definição 4K.

Na lista de efemérides cinematográficas de 2018, o cinquentenário de 2001: Odisseia no Espaço terá sido um dos momentos mais emblemáticos. E não só porque a obra-prima de Stanley Kubrick (1928-1999) superou, e continua a superar, os padrões correntes da ficção científica. Na verdade, este é um filme que exponencia o valor espectacular do cinema, desafiando o seu espectador para além dos padrões correntes de percepção e pensamento.
Escusado será lembrar que 2001 foi concebido para ser visto num ecrã gigante (quem tem a memória da sua estreia, não poderá deixar de o associar à grandeza das salas com projecção de 70mm). Seja como for, isso não nos deve impedir de reconhecer que os formatos caseiros nos estão a oferecer edições cada vez mais sofisticadas para acedermos aos grandes clássicos. Pois bem, aí está a novíssima proposta com chancela Warner Bros.: 2001 passou a existir numa edição em Blu-ray, com três discos, um dos quais com o filme restaurado em versão com definição 4K.


A versão em 4K ficará para a história, por certo, como um objecto pioneiro na divulgação de um formato que, de acordo com os especialistas, não demorará muitos anos a generalizar-se nas (nossas) formas de consumo. Para além da transcrição normal do filme em Blu-ray (“restaurado e remisturado em 5.1”), o terceiro disco da edição contém várias curtas-metragens (cerca de três horas no total) de preciosos extras.
Em boa verdade, não são revelações, tendo integrado já outras edições em DVD ou Blu-ray. Ainda assim, a sua reunião permite compreender melhor a absoluta singularidade de 2001 quando surgiu no ano de 1968.
A invenção e ousadia dos efeitos especiais constituem, como é óbvio, os sinais mais imediatos dessa singularidade — por alguma razão, os profissionais reconhecem que, no campo da evolução técnica, os dois momentos marcantes da década de 60 são Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock (sobretudo pela integração de sons gerados por processos electrónicos), e 2001. Mas para além das proezas técnicas o filme de Kubrick acaba por ser um exercício de reflexão sobre a própria aliança entre o Homem e a Máquina — com a inesquecível e temível personagem do computador HAL 9000 —, tema que, na perspectiva de Kubrick, instala a hipótese de formulação de um conceito de divindade.
O destaque vai necessariamente para 2001: A Criação de um Mito, documentário do Channel 4 produzido, precisamente, no ano a que o título se refere. Nele encontramos ainda o escritor Arthur C. Clarke (falecido em 2008), comentando em tom de contagiante ironia a sua colaboração com Kubrick na elaboração do argumento, a par do actor Keir Dullea e várias personalidades fundamentais da ficha técnica do filme, incluindo Douglas Trumbull (efeitos especiais) e Ray Lovejoy (montagem). Atenção ainda a um filmezinho breve, mas muito sugestivo, sobre os primórdios de Kubrick como fotógrafo e a sua colaboração com a revista Look.

Stanley Kubrick como fotógrafo da Look

segunda-feira, setembro 24, 2018

A sociedade do Google

Keir Dullea
2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)
Afinal, quando acedemos a toda a “informação do mundo”, que tipo de conhecimento estamos a construir através do Google? Larry Page será um herdeiro dos enciclopedistas do século XVIII? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Agosto), com o título 'O algoritmo da felicidade'.

Últimos dias do mês de Agosto do glorioso ano de 2018. Consulto o Google Play e verifico que posso escolher entre cinco áreas temáticas: aplicações, filmes, música, livros e dispositivos. Nunca o utilizei, não tendo sequer fornecido ao sistema qualquer informação sobre eventuais formas de pagamento dos respectivos conteúdos. Em todo o caso, ao visitar a área dos filmes, depois de duas zonas identificadas por expressões inglesas — “Top Selling Movies” e “New Releases” —, deparo com uma oferta em português: “Recomendados para Si” [link actual].
Apesar do meu distanciamento, o Google Play tem alguma ideia sobre quem eu sou. Ou, pelo menos, sobre os filmes que quero ver. O título que encabeça a lista de “recomendações” não podia ser mais eloquente: Rampage – Fora de Controlo, “acção e aventura” em que Dwayne Johnson enfrenta George, o gorila gigante que era seu amigo, mas que se tornou violento devido a experiências genéticas...
A lista prossegue mais ou menos no mesmo tom (com banais notas informativas, umas em inglês, outras num pavoroso português com sotaque brasileiro), mas há que reconhecer-lhe uma festiva diversidade. Assim, o Google Play recomenda-me A Forma da Água, a par, por exemplo, de As Cinquenta Sombras Livre (aliás, Cinquenta Tons de Liberdade), neste caso prometendo um fascinante desenlace: “(...) novas ameaças podem atingir um final feliz, antes mesmo que ele comece.” Não sei se percebi, mas não é essa questão.
Em que cultura mediática nos obrigam a viver? Como é possível que o prazer cinéfilo tenha sido reduzido a este deprimente caos informativo? Com o seu aparato global de hardware e software, entidades como o Google estão longe de existir apenas como instrumentos de “pesquisa”. Em boa verdade, a sua acção não pode ser dissociada da definição de um novo modelo de pessoa e, em particular, da actividade cognitiva.
Como é que o Google me define como indivíduo? Ou será que é suposto não perguntar e seguir em frente? Devo entregar-me como um sonâmbulo à abundância da oferta, aceitar a boa vontade do sistema de busca, gastar 3,99 € no aluguer do filme e ficar a saber se Dwayne Johnson consegue reconquistar o coração do seu bem amado gorila?...

“Acessível e útil”

Evitemos o alarido tão típico da Net: não se trata de reduzir o Google a uma qualquer dicotomia “pró/contra”. Seria como demonizar as maravilhas existenciais que o automóvel nos concedeu ao longo de mais de um século — afinal, sabemos que não podemos omitir o automóvel das nossas ansiosas reflexões sobre a poluição do planeta.
Na sua universalidade, omnipresença e omnipotência, o Google existe como expressão contemporânea do desejo de conhecimento enciclopédico. Relembremos as palavras de um dos seus fundadores, Larry Page: “No essencial, o nosso objectivo é organizar a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e útil” (peço desculpa pela perversão, mas todas as citações foram obtidas através do... Google).
Eis uma afirmação que, até pela sinceridade do seu tom panfletário, suscita uma dúvida básica. Isto é, sobre as bases de onde partimos: até que ponto, ou de que modo, a mera acumulação de informação é geradora de conhecimento?
Fazemos, por exemplo, uma pesquisa sobre um dos registos emblemáticos dos Beatles, “White Album” (à beira de completar 50 anos), e o computador diz-nos que gastou 0,42 segundos para encontrar 2.100 milhões de resultados... Depois de tão vertiginosa experiência, que sabemos — e como sabemos — sobre o álbum em questão? O romantismo de While My Guitar Gently Weeps passou a integrar a nossa visão multifacetada do amor entre os humanos? Será que reconhecemos a estrutura agreste de Happiness Is a Warm Gun como mais ousada do que muitas experiências do hip hop do século XXI? Sabemos, ao menos, que em 2015 o tema Revolution foi recriado numa versão absolutamente genial para o genérico final do filme de animação dos Mínimos?...
Para Page, tais perguntas serão irrelevantes. O paradoxo tecnológico em que se coloca envolve um conceito instrumental do próprio trabalho humano: “Sempre acreditei que a tecnologia deve fazer o trabalho difícil — descoberta, organização, comunicação —, de modo que os utilizadores possam fazer aquilo que os torna mais felizes: viver e amar, em vez de arranjar confusões com computadores irritantes! Isso significa que os nossos produtos trabalham sem se dar por eles.”
Sem se dar por eles? Convenhamos que é modéstia a mais para um sistema de busca que regista 3.500 milhões de pesquisas diárias... O que está em causa não é “tudo o que o Google me permite fazer”. Trata-se, isso sim, de colocar uma pergunta técnica e existencial: “Como sou através do Google?” Ou ainda: “No mundo global, colectivizado e generalista do Google, que significa dizer eu?”

Que sistema social?

Será Larry Page um herdeiro dos enciclopedistas do século XVIII e, em particular, do seu racionalismo e espírito de tolerância?
Digamos que há nele uma mesma vontade, ética e política, de partilha de saber e engrandecimento dos outros: “O homem mais feliz é aquele que dá felicidade ao maior número de outros homens”, escreveu Denis Diderot (1713-1784), resumindo a vocação da obra monumental — Encyclopédie, ou Dictionnaire Raisoné des Sciences, des Arts et des Métiers (35 volumes, 1751-1772) — cuja organização coordenou com Jean le Rond d’Alembert. Com uma diferença que está longe de ser secundária. Para Diderot e, de um modo geral, para os mestres do Iluminismo, há (ainda) uma natureza que se perfila como pano de fundo dos gestos humanos e da sua dimensão moral: “Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros.” No caso de Page, a sensualidade multifacetada da natureza deu lugar à gélida precisão dos algoritmos.
Denis Diderot
A sua lei é: não comandar ninguém, celebrando o algoritmo como a comovente encarnação da neutralidade cognitiva. Para além do determinismo redentor do seu apelido (page=página), foi também Page que criou o principal algoritmo aplicado nas pesquisas Google (PageRank), determinando a importância das páginas disponíveis na Net e, por fim, hierarquizando-as para, de alguma maneira, consumarem o milagre de corresponder às nossas pesquisas. Se Dwayne Johnson e o seu gorila gigante me aparecem como hipótese de consumo, isso significa apenas que o algoritmo se preocupa com a minha felicidade — mesmo que isso me deixe indiferente, eventualmente indignado, como é que eu dialogo com as boas intenções de um algoritmo?
Que sistema social estamos a construir através deste saber informático e informatizado? A pergunta justifica-se tanto mais quanto há, pelo menos, duas gerações que interiorizaram a “ideia” de que o conhecimento se define apenas pelo número de clicks a que nos obriga — sendo essa obrigação apresentada como expressão de uma natureza inquestionável.
Dir-se-ia que à clássica concepção vertical do saber, com entidades e categorias hierarquizadas, sucedeu um mundo virtual de monótona horizontalidade: tudo está disponível no mesmo plano, no mesmo território homogéneo, enorme planície de links regidos por algoritmos. Já não é ficção científica — tornou-se modelo social.
Na minha memória, reaparece uma imagem com 50 anos (trinta anos anterior ao nascimento do Google). É o rosto do astronauta interpretado por Keir Dullea em 2001: Odisseia na Espaço, de Stanley Kubrick. Face ao sadismo do computador HAL 9000 — disposto a sacrificar as vidas humanas para consumar os objectivos do seu programa —, o pânico do adulto cruza-se, nos olhos de Dullea, com a magoada nostalgia da infância.
Para que conste: posso rever o filme de Kubrick no Google Play por 2,99 €, menos um euro que o gorila de Dwayne Johnson. Enfim, não me posso queixar: a democracia digital oferece a inteligência a preço de saldo.

* * * * *

>>> 'Is Google Making Us Stupid?': ensaio de Nicholas Carr (The Atlantic, Julho/Agosto 2008).
>>> 'Silicon Valley has designed algorithms to reflect your biases, not disrupt them': ensaio de Ramesh Srinivasan (QUARTZ, 27 Fevereiro 2017).
>>> 'How language shapes the way we think': apresentação de Lera Boroditsky (TED Talks, Novembro 2017).

quinta-feira, julho 26, 2018

Kubrick — 90 anos

É apenas uma data, é verdade: Stanley Kubrick nasceu no dia 26 de Julho de 1928 — faria hoje 90 anos (faleceu a 7 de Março de 1999, pouco tempo depois de ter concluído a montagem de De Olhos Bem Fechados). Seja como for, a efeméride é apelativa, quanto mais não seja porque este é também o ano em comemoramos os 50 anos de 2001: Odisseia no Espaço, por certo o seu filme mais famoso, problematizando as relações homem/máquina com uma acutilância a que o presente — o nosso presente — emprestou ainda maior pertinência filosófica. Dir-se-ia que, se é verdade que o século XX foi um tempo de dramática discussão dos limites da dimensão humana, então 2001 é, continua a ser, o filme capaz de nos confrontar com a réstea de utopia que tais limites parecem já não saber integrar.

>>> Documentário sobre a herança de 2001 (produzido pela Warner, em 2007), incluindo na edição do filme em Blu-ray.

sábado, abril 07, 2018

Regresso ao futuro de "2001"

A comemorar meio século de existência, 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, concilia o poder visionário com a revolução tecnológica — eis cinco alíneas para recordarmos o seu fulgor criativo.

* Um computador demasiado inteligente
O olho de HAL 9000, um computador por vezes demasiado inteligente, ficou como um dos símbolos mais universais do filme. Todos os seus elementos, desde o painel de pequenos ecrãs até ao interior do “corpo”, foram trabalhados de modo a emprestar-lhe as características de uma verdadeira personagem. Muito se especulou sobre o facto de as iniciais HAL corresponderem, no alfabeto, às letras anteriores à sigla IBM; segundo Arthur C. Clarke, tratou-se de uma coincidência, uma vez que HAL provém da expressão “Heuristic Algorithmic Computer”.

* A criação de cenários virtuais
Muito antes da idade digital, Kubrick foi pioneiro na aplicação de cenários virtuais, nomeadamente na sequência da “Alvorada do Homem”, na abertura do filme. A utilização de uma nova tecnologia de projecção frontal (muito mais sofisticada que a clássica retro-projecção ou “transparência”) permitiu que as cenas com os macacos fossem rodadas em estúdio, utilizando como fundo paisagens registadas no continente africano.

* As possibilidades de um estúdio gigante
A rodagem decorreu no pavilhão H dos Shepperton Studios, a cerca de 25km do centro de Londres, num estúdio com 37m de comprimento e 18m de largura. A cena da cratera lunar, com o monólito, foi a primeira a ser rodada. Foi aí que Kubrick instalou a roda gigante encomendada à empresa de engenharia Vickers-Armstrong: acoplada à câmara, o seu mecanismo permitia rodar o cenário de modo a criar a ilusão de que as personagens se moviam num espaço de gravidade zero (a velocidade de rotação era ligeiramente inferior a 5Km/h).

* As novas imagens psicadélicas
Da pintura à música rock, o psicadelismo era uma componente visceral dos anos 60. Isso mesmo se reflecte na viagem final do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea) através dos vertiginosos cenários cujas luzes se reflectem no seu capacete. Para os produzir, Douglas Trumbull, director de efeitos visuais, utilizou uma infinidade de materiais, desde quadros da Op Art a registos microscópicos, passando por paisagens do Monument Valley, no Colorado, e montanhas da Escócia.

* Os veículos espaciais do futuro
Da nave Discovery One, a caminho de Júpiter, às cápsulas individuais dos astronautas, os veículos espaciais foram concebidos em estreita colaboração com a NASA. Conforme as necessidades de cada cena, utilizaram-se elementos em tamanho real ou miniaturas cujas imagens eram tecnicamente tratadas para inserção em determinado espaço (alguns satélites tinham apenas 60cm de comprimento).

segunda-feira, abril 02, 2018

"2001" em 2018

Este cartaz de 2001: Odisseia na Espaço resume um dos momentos mais emblemáticos do filme, ligando o osso primitivo dos macacos, instrumento prático e símbolo de poder, com a sofisticada nave a caminho de Júpiter [video]. Um prodígio de montagem que condensa o ziguezague conceptual da obra-prima de Stanley Kubrick — estreou-se a 2 de Abril de 1968, faz hoje 50 anos.


>>> Memórias da rodagem de 2001 [The Guardian].

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

De 2001 a 2018: notícias do futuro

Os ecrãs do futuro vão ser cada vez maiores. Aliás, esse futuro já é presente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Fevereiro), com o título 'Um mundo feito de ecrãs'.

Lembram-se de 2001: Odisseia no Espaço? Acredito que sim. O filme de Stanley Kubrick completa este ano meio século de existência, sendo um daqueles objectos há muito inscrito, não apenas na arqueologia cinéfila, mas também no imaginário colectivo — atrevo-me mesmo a supor que os leitores que nunca tiveram oportunidade de ver o filme sabem do que estamos a falar.
Há dias, lembrei-me desta imagem do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea) no seu posto de comando, enfrentando os problemas trágicos, afinal muito humanos, colocados pelo hiper-inteligente computador que responde pelo nome Hal 9000... e não quero retirar o prazer da descoberta a quem não conhece o filme. Dir-se-ia que Bowman continua a ser uma personagem dos nossos dias, de tal modo está assombrado pelos muitos ecrãs que o rodeiam. Pode dizer-se, aliás, que a nave Discovery One, a caminho de Júpiter, existe como uma imensa galeria de ecrãs, aplicados desde a gestão técnica até à escolha das refeições.
A imagem surgiu por associação a notícias recentes, ligadas às novidades reveladas, em Janeiro, no Consumer Electronics Show, um misto de exposição e feira, em Las Vegas, dedicado aos objectos electrónicos do nosso dia a dia. Das suas novidades, parece poder extrair-se uma conclusão muito básica: os ecrãs caseiros de televisão, agora contaminados pelas funções tradicionais de um computador, vão ser cada vez maiores.
Surpresa? Nenhuma, como é óbvio — o aumento das medidas dos ecrãs há muito que faz parte da oferta regular do mercado. Seja como for, não deixa de ser interessante citar o estado dessa oferta. Por exemplo, os ecrãs com mais de 1,4 metros de diagonal passaram a constituir um terço das vendas da Samsung contra apenas 20% há um ano, enquanto a marca chinesa Hisense apresentou em Las Vegas um ecrã de 3,8 metros de diagonal (definido como um produto híbrido entre televisor e retroprojector).
Eis um curioso problema arquitectónico e, claro, financeiro: a concepção do espaço caseiro vai estar cada vez mais ligada aos ecrãs que lá queremos ou podemos colocar. Em todo o caso, a conjuntura leva-nos também a reconhecer que assim se vai agravar uma pergunta cândida que, há várias décadas, assombra a indústria cinematográfica: com a crescente sofisticação das condições privadas de acesso às imagens (e sons), como mobilizar os cidadãos para as salas de cinema? Em jogo está algo mais do que a evolução tecnológica — trata-se de saber se o cinema pode acabar como experiência colectiva e, nessa medida, social.

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Cannes vai celebrar os 50 anos de "2001"?

Foi hoje, 25 de Janeiro, que o Festival de Cannes enviou os seus votos de Bom Ano... Atraso? Não é grave — evitemos tais formalismos, obviamente agradecendo a simpatia.
O que é interessante referir é o facto de o clip associado à mensagem nos mostrar a Palma do certame a vogar no éter das imagens ao som do Danúbio Azul... Todos os cinéfilos terão identificado, de imediato, a citação do bailado das naves de 2001: Odisseia no Espaço (1968). Tendo em conta que o clássico de Stanley Kubrick celebra este ano os seus gloriosos 50 anos, será que vamos ter um festival marcado pela evocação simbólica do filme? Já agora: em cópia restaurada, de 4K, na sala grande do Palais? Em qualquer caso, aqui fica uma modesta sugestão para um cartaz associado à comemoração.

domingo, janeiro 21, 2018

2001 & Stanley Kubrick
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

Este é o ano em que 2001: Odisseia no Espaço faz 50 anos — Nuno Galopim e João Lopes propõem uma revisitação desse clássico da ficção científica, ao mesmo tempo evocando a filmografia de Stanley Kubrick.

* FNAC: Chiado, hoje, 21 Janeiro (18h30)

quinta-feira, julho 27, 2017

O Dr. Estranhoamor no tempo de Trump

Peter Sellers, Dr. Strangelove
Vale a pena pensar os filmes a partir do contexto em que foram feitos, pensando também como falam para o nosso presente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (23 Julho).

No nosso dia a dia mediático, não poucas vezes, somos levados a reduzir o exercício do poder político a um conjunto de peripécias anedóticas protagonizadas pelos grandes líderes. Observe-se o caso óbvio de Donald Trump: gastamos (ou somos levados a gastar) mais tempo com as suas diatribes públicas do que a pensar as questões radicais que a sua performance arrasta. Por exemplo: que acontece na dinâmica dos próprios valores democráticos quando elegemos (os americanos, neste caso, mas a questão é universal) uma personalidade com o perfil de Trump?
Há muitas formas de linguagem que nos podem ajudar a lidar com tal conjuntura. Do meu ponto de vista, o cinema continua a ser uma das mais ricas — e também das menos socialmente aplicadas. Nada disto decorre de qualquer pretensão de “intelectualizar” a relação com os filmes. Trata-se tão só de discutir a visão mercantilista e lúdica (de um ludismo mercantil, convém esclarecer) que passou a dominar o mercado audiovisual, bloqueando o simples prazer de mantermos uma relação viva com a infinita pluralidade do cinema e da sua história de mais de um século.
Donald Trump
Dr. Estranhoamor (1964), o lendário Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, pode ser um magnífico exemplo de tais virtudes cinematográficas — e tanto mais quanto acaba de reaparecer numa edição em Blu-ray (integra, aliás, um notável conjunto de uma dezena de clássicos lançado pela distribuidora Pris). Produzido em contexto de Guerra Fria, trata-se de uma sátira delirante, contundente e intemporal, sobre a utilização bélica da energia nuclear (no original, o título completo é “Dr. Estranhoamor ou: Como Eu Aprendi a Deixar de me Preocupar e a Adorar a Bomba”).
Para a história, o filme ficou também como uma extraordinária proeza de Peter Sellers, interpretando três personagens emblemáticas: Lionel Mandrake, um exuberante oficial britânico, Merkin Muffley, o hesitante Presidente dos EUA, e a figura central, Dr. Strangelove, ex-nazi e entusiasta da utilização da bomba atómica.
Entenda-se: a actualidade do filme não decorre de qualquer “comparação” maniqueísta, por exemplo fazendo equivaler a loucura atómica de Strangelove e os desastres democráticos de Trump. O que Kubrick coloca em cena é algo que, infelizmente, permanece actualíssimo. A saber: a diluição dos valores da democracia, a par da concentração de um imenso poder político (e militar!) nas mãos de alguns poucos cidadãos. Na sua vertigem burlesca, Dr. Estranhoamor é também um objecto de perturbante realismo [trailer].

sábado, janeiro 07, 2017

2016, um filme — "Barry Lyndon"

J. L.: O facto comercial tem sido sublinhado pela crítica que não confunde o jornalismo com uma mera câmara de eco das parangonas do último "blockbuster". A saber: é mesmo verdade que as reposições de filmes voltaram a ser um acontecimento regular do mercado cinematográfico, criando pontes para uma relação mais disponível, e também mais inteligente, com a pluralidade das memórias cinéfilas. Nesse aspecto, Barry Lyndon (1975) não foi, obviamente, um facto isolado em 2016. Em todo o caso, o reencontro com o prodigioso filme de Stanley Kubrick teve um significado especial, quanto mais não seja porque a sua riqueza visual — direcção fotográfica do grande John Alcott — foi pensada e fabricada para ser descoberta no território singular de uma sala escura. Desligar o computador e ir ao cinema, eis a questão.

N. G.: Depois de Horizontes de Glória e Spartacus, a ideia de fazer um novo filme de “época” não era para Kubrick uma novidade em si. Mas a procura de uma dimensão maior na amplitude dos retratos e na magnificência dos olhares entrava na ordem do dia quando, depois de 2001: Odisseia no Espaço, tomou a vida de Napoleão como objetivo do filme seguinte, desenvolvendo um trabalho de investigação intenso e minucioso que lhe punha nas mãos já um guião, uma escolha de décors e um vasto leque de imagens com guarda-roupa e objetos de época quando, perante o fracasso de um outro filme contemporâneo sobre a batalha de Waterloo, fez o estúdio vacilar e retirar o entusiasmo (e o dinheiro) que seria fundamental investir. Em seu lugar Kubrick fez A Laranja Mecânica (1972), baseada no texto homónimo de Anthony Burgess. Por essa altura já havia pensado em adaptar ao cinema um romance de William Makepeace Thackery, escritor do século XIX com frequentes olhares satíricos sobre a sociedade do seu tempo. Optaria por partir então de The Luck of Barry Lyndon, um livro seu com ação centrada em meados do século XVIII, acompanhando as atribuladas etapas de vida de um irlandês com espírito resoluto e alma de aventureiro que tudo teve e tudo depois perdeu. Se o trabalho de investigação para o arquivado biopic sobre Napoleão (do qual uma edição da Taschen nos disponibilizou recentemente o vasto material escrito e visual recolhido por Kubrick) foi meio caminho andado nesse departamento, já a rodagem propriamente dita abraçou a dimensão exuberante que o filme traduz, sublinhando o perfecionismo com que o cinema do realizador já então radicado no Reino Unido encarava cada novo desafio. Não ficámos a perder... E este ano tivemos a oportunidade de o constar em sala. Foi bom. Foi muito bom!

quarta-feira, agosto 24, 2016

DJ Shadow — parábola política

The Mountain Will Fall, quinto álbum de DJ Shadow, tem um novo e desconcertante teledisco, dirigido por Sam Pilling. O tema Nobody Speak, feito em colaboração com Run the Jewels, é encenado como uma parábola política sobre um (des)entendimento de líderes, num cenário que podemos associar a um certo visual das Nações Unidas, mas também, perversamente, à dantesca sala de reuniões do clássico Dr. Strangelove (1964), de Stanley Kubrick — é um belo exemplo de como as palavras do rap podem associar-se a imagens que desafiam a representação automática, automaticamente televisiva, da paisagem política.

Picture this
I'm a bag of dicks
Put me to your lips
I am sick
I will punch a baby bear in his shit
Give me lip
I'ma send you to the yard, get a stick, make a switch
I can end a conversation real quick

I am crack
I ain't lying kick a lion in his crack
I'm the shit, I will fall off in your crib, take a shit
Pinch your momma on the booty, kick your dog, fuck your bitch
Fat boy dressed up like he's Santa and took pictures with your kids

We the best
We will cut a frowny face in your chest, little wench
I'm unmentionably fresh, I'm a mensch, get correct
I will walk into a court while erect, screaming "Yes!
I am guilty motherfuckers, I am death."

Hey, you wanna hear a good joke?

Nobody speak, nobody get choked

Get running
Start pumping your bunions, I'm coming
I'm the dumbest, who flamethrow your function to Funyons
Flame your crew quicker than Trump fucks his youngest
Now face the flame fuckers your fame and fate's done with

I rob Charlie Brown, Peppermint Patty, Linus and Lucy
Put coke in the doobie roll woolies to smoke with Snoopy
I still remain that dick grabbing slacker that spit a loogie
Cause the tolda of the toolie'll murder you friggin' Moolies
Fuck outta here, yeah

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak

Only facts I will shoot a
Baby duck if it quacks, with a Ruger
Top billin', come cops and villainous shots is blocked, shipped out, and bought, and you're feeling it
El-P killing it, Killer Mike killing shit

What more can I say? We top dealing it
Valiant without villiany
Viciously file victory
Burn towns and villages
Burning looting and pillaging

Murderers try to hurt us we curse them and all their children
I just want the bread and bologna bundles to tuck away
I don't work for free, I am barely giving a fuck away

So tell baby Johnny and Mommy to get the fuck away
Heyyo here's a gun son now run get it to gutterway
Live to shoot another day

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak
Nobody speak, nobody get choked


DR. STRANGELOVE (1964)

sexta-feira, agosto 19, 2016

"Barry Lyndon" continua...

Quem disse que o mercado se mede apenas pelo ruído dos "blockbusters"?... Reposto por um período limitado, Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, viu a sua exibição prolongada por mais uma semana, de modo a corresponder à procura dos espectadores — em Lisboa, no cinema Ideal.

sexta-feira, agosto 12, 2016

Nos bastidores de "Barry Lyndon"

Ainda em exibição no cinema Ideal, a reposição de Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, é um dos grandes acontecimentos, não apenas do Verão, mas de todo o ano cinematográfico. Acompanhando o seu relançamento no mercado do Reino Unido, o British Film Institute divulgou algumas imagens preciosas dos bastidores da respectiva rodagem — um portfolio que vale a pena descobrir.

quinta-feira, julho 28, 2016

Kubrick — à luz das velas

É um acontecimento central no mercado de Verão: a reposição de Barry Lyndon permite-nos (re)descobrir o génio de Stanley Kubrick e, em particular, a sua obsessiva criação de imagens — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Julho), com o título 'O séc. XVIII filmado com lentes da NASA'.

Ao lançar-se no projecto de Barry Lyndon, Stanley Kubrick quis que o seu século XVIII fosse tão realista quanto possível. Tal desejo criativo não tinha nada de óbvio — afinal, numa adaptação do romance picaresco de William Makepeace Thackeray, de que realismo cinematográfico se poderia tratar?
O realizador estabeleceu duas regras de trabalho com o director de fotografia John Alcott (1931-1986): por um lado, recriar modos de composição e iluminação da pintura da época, em particular de William Hogarth (profundamente admirado por Thackeray); por outro lado, forçar até ao limite a não utilização de luz artificial para “compensar” os problemas decorrentes dos espaços menos iluminados.
Alcott conhecia bem o grau de exigência de Kubrick, tendo trabalhado na qualidade de operador em 2001: Odisseia no Espaço (1968), fotografado pelo mestre britânico Geoffrey Unsworth (1914-1978), e assinando depois a fotografia de Laranja Mecânica (1971); a sua derradeira colaboração ocorreria em Shining (1980). Em qualquer caso, a rodagem de Barry Lyndon envolveu um dos desafios mais extremos (para não dizer extremistas) com que Alcott alguma vez deparou. Assim, nas cenas de interiores, em particular os jogos de cartas, Kubrick insistiu em filmar apenas com a luz das velas, evitando a iluminação global e uniformizante das tradicionais “reconstituições” de época.
A solução encontrada entrou para a história da fotografia em cinema — e é bem reveladora da atenção com que o realizador sempre acompanhou a evolução das técnicas de imagem. Kubrick sabia que a companhia alemã Zeiss tinha desenvolvido lentes especiais para a NASA, visando as condições específicas em que os astronautas iriam fotografar a Lua: a sua grande abertura de diafragma permitia obter uma excelente definição sem perda de profundidade de campo. Graças a algumas adaptações, tais lentes foram decisivas para o inconfundível look de Barry Lyndon (valendo a Alcott o Oscar de melhor fotografia referente a 1975).
Não será exagerado considerar que, de uma maneira ou de outra, os filmes de Kubrick envolveram sempre singulares desafios fotográficos, desde o retrato a preto e branco dos combates da Primeira Guerra Mundial em Paths of Glory (1957), até à reconstrução de algumas ruas de Nova Iorque nos estúdios de Pinewood, nos arredores de Londres, para o filme final De Olhos Bem Fechados (1999). Se é verdade que, como sugeria Hitchcock, o cinema é a arte de construir uma visão do mundo, poucos foram tão radicais como Kubrick na concretização dessa tarefa.

segunda-feira, setembro 29, 2014

Para ler '2001' em 1500 exemplares

Uma das mais atraentes (mas algo inacessíveis) edições em livro deste ano é uma caixa metálica, com quatro volumes, que conta ao mais pequeno detalhe como surgiu o clássico filme 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Limitada a 1500 exemplares (todos eles autografados por Christiane Kubrick), esta edição especial do livro The Making of Stanley Kubrick’s '2oo1: A Space Odyssey', de Piers Bizoni, esteve à venda (para encomenda) ao preço de 750 euros e está já esgotada.

A caixa inclui quatro livros. O primeiro apresenta fotogramas do filme. O segundo mergulha nos bastidores da produção e inclui novas entrevistas com atores, designers e especialistas em efeitos visuais. O terceiro volume é um facsimile do guião. E o quarto apresenta, em versão também facsimilada, as notas de produção.


Podem ler aqui sobre a edição e ver algumas imagens.

segunda-feira, março 17, 2014

Nos bastidores do cinema de Kubrick

Vivian Kubrick
Ela é um dos rostos mais inesquecíveis de 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Uma ainda muito pequena Vivian Kubrick interpretava então o papel da filha do Dr. Floyd num telefonema com vídeo que este fazia de uma estação orbital para a Terra. Compositora e também cineasta (colaborou na banda sonora de Full Metal Jacket e rodou um documentário sobre os bastidores de Shining), Vivian Kubrick tem apresentado no Twitter algumas fotos tiradas na rodagem de filmes do seu pai. Esta, por exemplo, mostra-a no plateau onde era rodado A Laranja Mecânica.

Podem ver esta e outras imagens aqui.