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sexta-feira, maio 03, 2013

Fotogramas de Hitchcock (10/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* THE BIRDS (1963) – Tippi Hedren está a olhar para esta mão. E nós com ela. O grande plano pode ser essa arte imensa, pictórica e conceptual, de revelar a instabilidade visceral de qualquer harmonia com selo divino. O pássaro veio do céu e picou a mulher na cabeça: o grande plano condensa tudo isso, unindo a pequenez do detalhe com a pulsão cósmica do medo. Olhar é perigoso, mas queremos sempre ver mais.

domingo, abril 21, 2013

Fotogramas de Hitchcock (9/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* THE WRONG MAN (1956) – Face à condenação injusta da personagem do marido, Vera Miles representa o mais descarnado drama com que um ser humano pode ser confrontado: o de não saber como expor a verdade à cegueira institucional do universo humano. Ansiedade? Medo? Revolta? Tudo isso. Mas sobretudo a passagem para um estado outro, cujo ponto de fuga é a loucura, onde já nenhuma ordem humana é possível. Ou como um fotograma, apenas um, pode bastar para definir o génio de um cineasta.

terça-feira, abril 16, 2013

Fotogramas de Hitchcock (8/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* THE TROUBLE WITH HARRY (1955) – O humor “hitchcockiano” é, em si mesmo, um tratado de inteligência. Harry, o senhor das meias divertidas, está morto... Mas isso não passa de um pormenor, já que, para preservar a harmonia natural (?), os vivos o vão utilizar, literalmente, como um boneco. Dito de outro modo: não há ordem social sem recalcamento.

domingo, abril 14, 2013

Fotogramas de Hitchcock (7/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* I CONFESS (1953) – Saber e não saber. Dizer ou não dizer. Marcado pelo dever de silêncio, o padre interpretado por Montgomery Clift está no coração da dicotomia inocência/culpa do universo “hitchcockiano”. Daí a sua sublime intensidade: ele possui a beleza imaculada da divindade, mas não é deus. A dimensão humana é também o resgate dessa fraqueza.

sexta-feira, abril 12, 2013

Fotogramas de Hitchcock (6/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* ROPE (1948) – O filme começa assim. O que quer dizer que vamos saber, desde o seu dramático arranque, o ABC do crime: “quem, como, onde”. Portanto, o suspense não é a descoberta dos culpados, mas o assombramento, ao mesmo tempo dramático e moral, que nasce de um saber que, de princípio, apenas partilhamos com os culpados. Em boa verdade, com Hitchcock, ser inocente não é coisa fácil.

quarta-feira, abril 10, 2013

Fotogramas de Hitchcock (5/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* SHADOW OF A DOUBT (1943) – O simples facto de o olhar de Joseph Cotten fugir à contenção do quadro é suficiente para pressentirmos nele algo de inquietante. Como é óbvio, Teresa Wright e Patricia Collinge, na sua comunidade mãe/filha, ainda não suspeitam de nada. O espectador é aquele que oscila entre a ameaça dele e a distracção delas – o suspense é isso.

domingo, abril 07, 2013

Fotogramas de Hitchcock (4/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* SUSPICION (1941) – Ah, o plano de pormenor!... Ver o fragmento como algo que permite compreender a dinâmica do todo? Sim, sem dúvida. Ao mesmo tempo, porém, quanto mais contemplamos a singularidade do pormenor, mais sentimos que o espaço, em vez de se restringir, se dilata para uma dimensão puramente mental. Ver é seleccionar, mas também refazer todas as coordenadas materiais e imateriais.

sábado, abril 06, 2013

Fotogramas de Hitchcock (3/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* THE LADY VANISHES (1938) – O ecrã não é, para Hitchcock, uma forma de mostrar o mundo. Aliás, num certo sentido, mostrá-lo é tarefa impossível: o que existe é o infinito cruzamento de olhares que, em nome de uma solidariedade tácita, nos faz partilhar a ilusão social de que conhecemos o mundo. Assim é a imagem: um aparato com um ponto de fuga em que, visível ou não, sabemos que há sempre alguém a olhar para alguma coisa.

quarta-feira, abril 03, 2013

Fotogramas de Hitchcock (2/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

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* YOUNG AND INNOCENT (1937)Hélas! As mulheres de Hitchcock são sempre fascinantes. E quando não o são, há todo um cruel subtexto que as desqualifica, fazendo-as existir como personagens “masculinas”. Esta é a sereníssima Nova Pilbeam. O seu rosto equilibrado, mas inquieto, regular, mas enigmático, é uma encenação dentro da encenação. Se formos crentes, diremos que os olhos expõem a alma.

segunda-feira, abril 01, 2013

Fotogramas de Hitchcock (1/10)

Proposta de leitura e fruição: revisitar Alfred Hitchcock a partir dos seus fotogramas — este texto foi publicado no nº6 da revista Metropolis; os fotogramas citados estão disponíveis em The Alfred Hitchcock Wiki.

Há um método (nada científico, hélas!) para avaliar a densidade de uma obra artística. Consiste em decompô-la em fragmentos cada vez mais finos e observar o resultado. O mestre, se o houver, é aquele que, em cada parcela do seu labor, inscreve sempre qualquer coisa que remete para a pluralidade do todo. Ou melhor: tudo se passa como se o fragmento fosse, não um detalhe ínfimo desse todo, mas uma espécie de condensação formal e filosófica dos temas, tensões e narrativas que circulam pela paisagem global.
Cinematograficamente, o fotograma pode ser esse fragmento revelador. O fotograma hitchcockiano, por exemplo: não um resto do movimento, mas uma insólita e fascinante paragem onde podemos ler, compreender e questionar um olhar a trabalhar. E um pensamento sempre envolvido com esse olhar.
Dir-se-ia que, ao vermos o filme, nos apetece parar perante tão abundante energia e riqueza formal. O filme é, justamente, o acontecimento que rejeita esse nosso desejo de paragem, arrastando-nos para um turbilhão de perplexidade, medo e inconfessável gratificação. Proibido pestanejar.
* THE RING (1927) – A imagem da autoridade não é, em Hitchcock, uma mera expressão da ordem (seja ela qual for). Desde os tempos do mudo, a figura emblemática do polícia arrasta uma dupla ansiedade: será ele o agente de uma estabilidade ideal ou a prova incauta de que o mundo não sabe sair da sua desordem primordial? Cinema trágico, sem dúvida, mesmo quando habitado pelo humor.

quarta-feira, agosto 08, 2012

'Metropolis', agosto de 2012


Está já online o número 0,5 (sim, zero vírgula cinco, uma vez que o número um oficial só chega em setembro) da revista de cinema Metropolis, onde escrevem os dois autores deste blogue. Na capa surge em destaque o filme que encerra a trilogia Batman assinada por Christopher Nolan. Entre as páginas desta edição há ainda, entre muitos outros assuntos, artigos sobre o Festival de Vila do Conde e da mais recente edição do festival de Karlovy Vary (na República Checa), o realizador Bruno Dumond, a memória de David Griffith, o filme The Future de Miranda July, as séries Girls e Newsroom ou a edição comemorativa dos 50 anos da banda sonora de West Side Story. Tudo isto mais as habituais críticas de novos filmes, edições em DVD e Blu-Ray, livros e discos e a análise das bilheteiras de cinema.

Podem ler aqui a 'Metropolis' de agosto de 2012.