sábado, março 30, 2019

Sobre o guarda-roupa de "Dumbo"

Como vestir os actores? Esta é uma esclarecedora conversa produzida pela Vanity Fair, envolvendo Tim Burton e Colleen Atwood, responsável pelo guarda-roupa de Dumbo. Em foco está a cena da parada de entrada na Dreamland. Pontos a reter: a arte de combinar os actores com as figuras digitais e, em particular, a não abdicação de cenários materiais e figurantes humanos — sedutor e pedagógico.

Agnès Varda (1928 - 2019)

Com a morte de Agnès Varda, desaparece um dos nosso derradeiros elos directos com os tempos de glória da Nova Vaga francesa: a cineasta francesa, nascida na Bélgica, faleceu no dia 28 de Março, em Paris, vítima de cancro — contava 90 anos.
Do emblemático Duas Horas na Vida de uma Mulher (1962) ao recente Olhares Lugares (2017), co-realizado com o fotógrafo JR, o seu trabalho manteve-se num ziguezague elegante e irónico entre as virtudes do drama e do melodrama e o apelo dos registos documentais. Por vezes, tal atitude envolveu uma assumida dimensão confessional, por exemplo em Os Respigadores e a Respigadora (2000) ou As Praias de Agnès (2008).
Confessionais e intimistas são também os filmes em que lidou com as memórias do marido, Jacques Demy (1931-1990): Jacquot de Nantes (1991), refazendo os caminhos cinéfilos da infância e da juventude, e Les Demoiselles Ont Eu 25 Ans (1993), sobre a rodagem do clássico As Donzelas de Rochefort (1967). Entre os seus filmes mais belos incluem-se ainda A Felicidade (1965), sobre a (im)possibilidade de conciliação do desejo e da lei, porventura a mais esquecida obra-prima do cinema francês da década de 60, e ainda Sem Eira nem beira (1985), crónica de uma França interior e solitária centrada na personagem de uma jovem vagabunda interpretada pela sublime Sandrine Bonnaire. Sempre seduzida pelas variações formais da fotografia ou da instalação de artes plásticas, a sua obra pode simbolizar o voto da Nova Vaga refazer o cinema através do contacto com todas as artes e linguagens.

>>>Trailer de Duas Horas na Vida de uma Mulher.


>>> Trailer de A Felicidade.


>>> Extracto de Les Demoiselles Ont Eu 25 Ans.


>>>Discurso de agradecimento do Oscar honorário (11 Novembro 2017).


>>> L' Obs: 5 cenas de Agnès Varda.

>>> Obituário no jornal Le Monde.

quinta-feira, março 28, 2019

A IMAGEM: Martine Franck, 1995

MARTINE FRANCK [Magnum]
Anne Bridget Rodgers. Tory Island, Donegal. Irlanda
1995

quarta-feira, março 27, 2019

The Rolling Stones + Florence Welch

Single lançado em Junho de 1971, Wild Horses é uma das preciosidades do álbum Sticky Fingers (1971). E é também uma canção que os Rolling Stones nunca abandonaram, com o seu misto de energia e amargura a pontuar muitos concertos da banda. Eis um dos mais recentes exemplos [*] — a 22 de Maio de 2018, durante a 'No Filter Tour', em Londres, na companhia porventura inesperada, mas impecável, de Florence Welch [Florence and the Machine].

Childhood living is easy to do
The things you wanted I bought them for you
Graceless lady you know who I am
You know I can't let you slide through my hands

Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses couldn't drag me away
I watched you suffer a dull aching pain
Now you've decided to show me the same
No sweeping exit or offstage lines
Could make me feel bitter or treat you unkind
Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses couldn't drag me away

I know I've dreamed you a sin and a lie
I have my freedom but I don't have much time
Faith has been broken tears must be cried
Let's do some living after we die

Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses we'll ride them some day

_____

* Esta versão de Wild Horses integra a edição DeLuxe de um novo "best of" da banda — chama-se Honk e estará nas lojas a 19 de Abril.

terça-feira, março 26, 2019

The Gift — na companhia dos livros

Decididamente, Verão, o novo álbum de The Gift é uma aposta de sedutor e contagiante risco. Sem renegar os padrões que, em quase absoluta solidão, consagraram na música que se faz em Portugal, a banda de Alcobaça avança, agora, por caminhos de surpreendente introspecção. As canções têm vindo a aparecer (por exemplo, no YouTube) e parecem apelar a exercícios de cumplicidade que apetecerá partilhar em salas pequenas, alheias à dança... Será assim? Aqui fica o exemplo de Books.

PBX [citação]

['Capas da colecção Vampiro']
>>> Transpõem-se duplas portas de molas.
Lá dentro, há um quadro de PBX e uma secretária a que está sentada uma dessas mulheres sem idade que parece existirem em todas as repartições municipais do mundo. Nunca foram jovens e nunca serão velhas. Não têm beleza, nem encanto, nem estilo. Não precisam de agradar a ninguém. São delicadas, sem serem cortezes, inteligentes sem terem verdadeiro interesse em qualquer coisa. São aquilo em que se torna qualquer ser humano que troca a vida pela existência e a ambição pela segurança.

in Ingénua Perigosa
Colecção Vampiro, nº 164
(Tradução: Mascarenhas Barreto / Capa: Lima de Freitas)

segunda-feira, março 25, 2019

Scott Walker (1943- 2019)

Combinando a transparência da música pop com os desafios vanguardistas, foi um criador multifacetado, impossível de encerrar num rótulo definitivo: o americano Scott Walker faleceu no dia 22 de Março, contava 76 anos.
Em meados dos anos 60, foi a banda The Walker Brothers (três membros sem qualquer relação familiar) que lhe trouxe fama, sobretudo na Grã-Bretanha, onde passou a residir a partir de 1965, tendo adquirido a nacionalidade britânica em 1970. A sua carreira a solo (cruzada com a da banda), ficou marcada por um sofisticado gosto experimental, valendo-lhe a designação de barroco no interior do vasto universo pop — começou com o álbum Scott (1967), vindo a lançar em cerca de dois anos Scott 2 (1968), Scott 3 (1969), Scott 4 (1969).
Contrastada e fascinante, a sua discografia pessoal encerra com o magnífico Bish Bosch (2012), porventura ilustrando a célebre frase de Simon Hattenstone que, numa entrevista do jornal The Guardian, o definiu como um "Andy Williams reinventando-se como Stockhausen". Três filmes contêm bandas sonoras de sua autoria: Pola X (1999), de Léos Carax, A Infância de Um Líder (2015) e Vox Lux (2018), ambos de Brady Corbet. Em 2006, foi retratado no documentário Scott Walker: 30 Century Man, realizado por Stephen Kijak.

>>> Montague Terrace In Blue, do álbum Scott + We're All Alone, de Lines (1976), de The Walker Brothers + Light, do filme Pola X + teledisco de Epizootics!, de Bish Bosch.








>>> Notícia da morte de Scott Walker em comunicado da editora 4AD.
>>> Obituário na Rolling Stone.
>>> Artigo de Sasha Frere-Jones na revista The New Yorker (10-12-2012).

domingo, março 24, 2019

The Gift — nova estação

Dois anos passados sobre o lançamento de Altar, a banda de Alcobaça está de volta — aliás, nunca deixou de marcar o ritmo e a criatividade da pop made in Portugal. Dito de outro modo: está quase a surgir o novo álbum de The Gift; chama-se Verão (a sua Primavera surgiu em 2012) e tem esta canção-tema.

Nos 30 anos de "Like a Prayer"
— SOUND + VISION Magazine [ hoje ]

Foi em Março de 1989 que surgiu Like a Prayer, quarto álbum de estúdio de Madonna. No nosso habitual encontro na FNAC do Chiado propomos uma revisitação da música e das imagens da Material Girl — e também do tempo em que tudo aconteceu.

* FNAC / Chiado, hoje, 24 Março (18h30)

sábado, março 23, 2019

Finn Andrews a solo

Em ziguezague entre a Grã-Bretanha e a Nova Zelândia, a banda The Veils sempre foi identificada como um projecto fortemente marcado pela personalidade do seu líder e vocalista, Finn Andrews. Surge, assim, com toda a naturalidade o primeiro álbum de Andrews a solo, One Piece at a Time: dez canções de exemplar depuração, delicadas e intimistas, servidas por uma voz cuja aparente transparência arrasta muitas nuances dramáticas. Dois exemplos; primeiro, o som do tema-título; depois, uma performance de Spirit in the Flame, nos Lab Studios, em Auckland.



sexta-feira, março 22, 2019

A IMAGEM: Dennis Leupold, 2019

DENNIS LEUPOLD
Winnie Harlow
Remix [Primavera 2019]

Dido em versão acústica

Do seu recente álbum, Still On My Mind, Dido lançou agora uma versão acústica de Chances — eis como uma canção, sempre ao serviço da austeridade pop, se reinventa através do mais depurado minimalismo.

All I did today was wake up and watch TV
Another wasted day
But that's alright with me
When shadows turn to clouds
Good choices won't be made
Until tomorrow comes
But that's alright with me

I will stand and wait until it's morning
And I won't make it lying down
I will close my eyes, so I can't see you
And I will have all my chances again
I want all of my chances again

And as the sky turns red
The street lights coming on
I could stay up all night or go to bed
Oh, neither's right or wrong
Until tomorrow comes

I will stand and wait until it's morning
And I won't make it lying down
I will close my eyes so I can't see you
And I will have all my chances again
I want all of my chances again

Memórias de Marlen Khutsiev

Com a morte de Marlen Khutsiev despareceu uma figura fundamental na história do cinema soviético e russo: a discussão do(s) realismo(s) está no centro do seu universo criativo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Março), com o título 'Realismo social contra realismo socialista'.

Ao princípio da tarde do dia 19 de Março, surgiu a notícia da morte do cineasta Marlen Khutsiev, contava 93 anos. Tendo assinado a sua primeira longa-metragem, Spring on Zarechnaya Ulitsa, em 1956, no período de “degelo” na URSS que se seguiu às perseguições e censura do aparelho estalinista, Khutsiev viria a impor-se como um nome de fundamental importância na história do cinema soviético e russo.
Escrevo estas notas um dia mais tarde e verifico que o IMDb ainda não deu a notícia. É uma lacuna sintomática da sua filosofia informativa, ancorada numa postura de “bíblia” da cinefilia. Há longas semanas que o IMDb multiplica notícias, curiosidades ou entrevistas sobre Capitão Marvel e os “blockbusters” americanos que se anunciam para a temporada de Verão... O certo é que o desaparecimento de um criador tão importante como Khutsiev não é assunto prioritário.


Não se leia nesta observação qualquer suspeita em relação ao cinema dos EUA. Sou mesmo dos que continuam a pensar que é de Hollywood e das suas margens que continuam a surgir algumas das obras mais fascinantes da produção contemporânea. E também não se trata de recusar ao IMDb o reconhecimento da acumulação de muita informação útil. Acontece que, para além desta ausência do obituário de Khutsiev, por ele perpassa uma indiferença estrutural que, muitas vezes, nem sequer se mostra atenta à pluralidade da produção dos EUA.
A importância de Khutsiev é tanto maior quanto envolve a metódica discussão do que seja, ou possa ser, um realismo social, em contraste, precisamente, com a apertada formatação ideológica do sistema estético e narrativo que vigorou na URSS e entrou para a história com a designação de realismo socialista. Exemplo modelar do seu olhar poderá ser Chuva de Julho (1967), retrato íntimo de uma mulher que, nos seus trinta anos, reavalia a lógica (ou falta de lógica) de toda a sua existência, com uma versatilidade dramática e uma compaixão humana de fazer inveja a algumas visões “militantes” da nossa actualidade.
Aliás, as ramificações de tal sistema podem encontrar-se na produção artística de vários países do antigo Bloco de Leste. No cinema recente, tivemos uma notável abordagem desse estado de coisas na República Democrática Alemã no filme Nunca Deixes de Olhar, de Florian Henckel von Donnersmarck, um dos nomeados para o Oscar de melhor filme estrangeiro.
O que está em causa, entenda-se, é sempre, em última instância, o (des)conhecimento de criadores como Khutsiev. E se importa não demonizar a produção “made in USA”, é preciso também não contribuir para o esquematismo oposto que consiste em consagrar de forma beata tudo o que, vindo de contextos mais ou menos distantes, exibe ou pode exibir um emblema de “independente” ou “alternativo”. O que está em causa é a intransigente defesa de uma pluralidade cultural que, decididamente, mesmo com as suas virtudes informativas, o IMDb não encarna.
_____

NOTA: Em Lisboa, o cinema Monumental vai homenagear Marlen Khutsiev (1925-2019) com a exibição de Chuva de Julho em cópia digital restaurada — domingo, dia 24 (21h30).

quinta-feira, março 21, 2019

Elogio das singularidades [citação]

>>> A vida humana não adquire a sua significação plena a não ser através das singularidades, e as singularidades foram muito postas de parte pelas concepções colectivistas do mundo. Logo que ouço "juntos, todos juntos", desconfio. Não há todos, apenas há singularidades. Mas são sempre arrumadas em categorias: a arte moderna, a filosofia... Não, precisamos do singular, é isso que salva a vida.

PHILIPPE SOLLERS
entrevista sobre o novo romance Le Nouveau
Gallimard, 2019

quarta-feira, março 20, 2019

Quentin Tarantino, opus 9

Margot Robbie no papel de Sharon Tate. Leonardo DiCaprio como actor de produções não demasiado gloriosas e Brad Pitt interpretando o seu duplo. Dito de outro modo: Hollywood, 1969. É esse o contexto do muito aguardado Once Upon a Time in... Hollywood, nona longa-metragem de Quentin Tarantino que não será arriscado antecipar como um dos trunfos da programação do 72º Festival de Cannes (14-25 Maio) — a hipótese é adiantada por The Hollywood Reporter, mesmo se não há confirmação oficial da Sony Pictures. A estreia portuguesa está anunciada para 8 de Agosto — entretanto, aí está o primeiro trailer.

terça-feira, março 19, 2019

Dois automóveis numa piscina

Por vezes, a publicidade sabe evitar o tratamento paternalista do consumidor, celebrando, antes de tudo o mais, a exuberância das formas. E a mais insólita elegância. Ou como a agência inglesa BBH colocou dois automóveis Audi a dialogar numa piscina — enjoy.

segunda-feira, março 18, 2019

"Snu" / telenovela / memória / gerações

Como se prova, uma vez mais, através do filme Snu, a telenovela mantém o seu domínio imperial sobre muitas narrativas made in Portugal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Março), com o título '"Snu" e o imaginário telenovelesco'.

1. Com a estreia do filme Snu, uma realização de Patrícia Sequeira que evoca Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro, reencontramos na produção portuguesa os efeitos de um drama sem fim à vista: desde a comédia mais básica até ao melodrama com referências históricas (é o caso), o império da telenovela mantém-se todo poderoso. Triunfam, assim, três componentes de encenação que são outros tantos princípios ideológicos:
— maniqueísmo psicológico;
— naturalismo esquemático dos actores;
— confusão entre "duplicação" figurativa (cenários, guarda-roupa, etc.) e realismo.

2. Não está em causa a importância de o cinema de um país arriscar lidar com referências tão próximas da história nacional, para mais atraindo uma energia simbólica — a começar pela celebração de uma vida a dois que não se submeteu a retrógrados valores sociais e religiosos — a que todos podemos ser sensíveis. Em boa verdade, importa reconhecer que esse tipo de risco é muito pouco frequente na produção audiovisual portuguesa. Seja como for, nenhum acontecimento, tema ou memória existe como caução narrativa para o que quer que seja. Dito de outro modo: narrar é um sistema de escolhas para lidar com determinado acontecimento, tema ou memória — neste caso, uma vez mais, prevaleceu a redução de personagens e ambientes a índices mecanicistas de uma época específica. A ponto de o filme não compreender que o seu modo de integração das imagens de arquivo (por vezes, colocando no mesmo plano o actor que interpreta Sá Carneiro e imagens televisivas do próprio Sá Carneiro...) destrói, imagem a imagem, som a som, qualquer hipótese de verosimilhança dramática.

3. Enfim, tudo isto tem sido mediaticamente servido por uma ideologia (complementar) que trabalha para a mais estúpida normalização das memórias do Estado Novo. Não quero com isto dizer que o filme enquanto objecto artístico ou a sua realizadora sejam cúmplices de tal estupidez — nada disso. Acontece que, sempre que há alguma abordagem dos tempos do salazarismo e marcelismo, reaparece na comunicação social (?) essa inanidade jornalística (?) que descreve a ditadura como uma paisagem sem nuances: de um lado havia a repressão que fazia com que todos os cidadãos vivessem enjaulados em suas casas, com medo de sair à rua; do outro lado apenas existiam alguns solitários heróis (p. ex., Snu e Sá Carneiro, eventualmente Eusébio ou os cantores de protesto) que simbolizavam a possibilidade de se viver de outro modo.

4. Como chegámos a semelhante miséria histórica? Claro que mais de quatro décadas de formatação telenovelesca do espaço cultural português têm contribuído (e muito!) para que, também na memória colectiva, se instale um sistema de violentos maniqueísmos, a ponto de não ser possível pensar a ditadura a não ser como um contraste pueril entre os "maus" que proibiam e os "bons" que eram proibidos... Em boa verdade, tal modelo de contrastes passou a contaminar quase tudo, desde as discussões em torno das diferenças de géneros até aos omnipresentes conflitos do espaço futebolístico (estes, em boa verdade, promovidos à condição de compulsiva linguagem quotidiana).

5. Não é, então, verdade que Portugal viveu um tempo ditatorial que marcou os comportamentos e pensamentos de várias gerações? Não é também verdade que a ditadura desembocou no mais cruel menosprezo pela vida íntima da nação, sacrificando muitos jovens na Guerra Colonial? Claro que sim. Tudo isso é verdade, perturbantemente verdade. O que não impede que sublinhemos a diferença que existe entre a exigência de conhecer a complexidade de tais vivências e a redução de tudo o que aconteceu (e acontece) a um imaginário telenovelesco que se enraiza numa militante ignorância do factor humano.

6. A minha geração (cujos rapazes, importa não esquecer, foram os primeiros a serem libertos da obrigação "nacional" de pegarem numa G3 e irem combater para o "Ultramar") não está isenta de responsabilidades na instalação dessa visão do Estado Novo em que não houve nada a não ser censura e PIDE... Não que devamos ceder aos nostálgicos de coisa nenhuma que, de forma mais ou menos hipócrita, tentam sugerir que tais entidades de repressão não configuravam uma ditadura. Bem pelo contrário. O certo é que aquela visão de piedosa vitimização do povo português recalca tudo o resto. Será que há pessoas da minha geração que esqueceram (ou fazem por esquecer) as "guerras" entre Beatles e Rolling Stones? Ou a perturbante descoberta de Easy Rider? Ou ainda a indizível estranheza, crua e sensual, misteriosa e criativa, que pudemos pressentir nos romances de Fernando Namora?

7. A minha geração não soube, de facto, construir um legado coerente de memórias que nos faculte instrumentos para lidarmos com as alegrias e tristezas que vivemos sob ditadura — repito: alegrias e tristezas. Dir-se-ia que nem sequer soubemos (ou sabemos) passar a ideia de que, de facto, seriamente, estávamos vivos. E que não queremos que nos reduzam a figurantes passivos, sem ideias nem emoções, de um sistema ditatorial. Até porque viver em democracia renegando a pluralidade das nossas heranças históricas contribui para deixar morrer uma parte do que somos — e do que podemos ser.

domingo, março 17, 2019

Elza Soares ou o triunfo do presente

Nome mítico da cultura brasileira, Elza Soares é, agora, figura central do filme My Name Is Now, um documentário que é também uma celebração da sua contagiante energia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Março).

Como é que, tradicionalmente, o cinema retrata alguém que canta? Pois bem, através da mais simples combinação: imagens das respectivas performances, em palco ou em estúdio, e depoimentos do próprio retratado, comentando a sua história e as singularidades do seu cantar.
O mínimo que se pode dizer de My Name Is Now é que se trata de um objecto paradoxal: por um lado, o filme realizado por Elizabete Martins Campos cumpre essa agenda tradicional, celebrando as canções de Elza Soares em ziguezague entre a bossa nova e o jazz, sem ignorar a soul e o punk; por outro lado, a energia da protagonista faz com que o documentário, sem deixar de cumprir as suas funções informativas, funcione também como um ritual cúmplice do misto de transparência e mistério que define aquela que é uma verdadeira lenda da cultura brasileira.
O título é em inglês, mas não remete para qualquer “versão internacional” em que, por vezes, alguns filmes são difundidos. Nada disso. A expressão “my name is now” (à letra: “o meu nome é agora”) constitui uma espécie de axioma íntimo da própria Elza Soares, definindo a emoção, a urgência e o radicalismo da sua relação com o aqui e agora — para ela, cantar envolve o triunfo do presente, contra as agruras do passado, desafiando todas as formas de futuro.


Com mais de 80 anos de idade (as fontes informativas divergem, apontando 1930 ou 1937 como data do seu nascimento), e para além do seu lugar ímpar na história da música brasileira, Elza Soares é também uma fascinante presença cinematográfica. No sentido mais primitivo que tal presença pode envolver: há nela uma relação com a câmara de filmar que oscila entre a resistência e a entrega, a confissão mais desnudada e o teatro mais elaborado.
Por tudo isso, My Name Is Now é um filme que merece ser descoberto. A provar também uma evidência rudimentar que alguma crítica de cinema não tem deixado de sublinhar ao longo dos últimos 40 anos: as expressões mais genuínas da cultura brasileira não podem ser reduzidas ao universo formatado e repetitivo das telenovelas.

Richard Erdman (1925 - 2019)

É um daqueles secundários do cinema clássico de Hollywood que nunca foi uma estrela, mesmo se o seu talento e versatilidade marcou dezenas de filmes: o actor americano Richard Erdman faleceu no dia 16 de Março, em Los Angeles — contava 93 anos.
Começou na Warner Bros., estreando-se em A Vaidosa (1944), uma realização de Vincent Sherman com Bette Davis e Claude Rains. Surgiu em títulos como Objectivo Burma (1945), de Raoul Walsh, O Desesperado (1950), de Fred Zinnemann (filme de estreia de Marlon Brando), ou Inferno na Terra (1953), de Billy Wilder (título original: Stalag 17 — lendário drama sobre um grupo de prisioneiros americanos capturados pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial).
Na transição para a década de 60, e tal como muitos actores da sua geração, passou a trabalhar sobretudo em televisão — a sua composição mais célebre terá sido em A Kind of a Stopwatch (1963), episódio de The Twilight Zone dirigido por John Rich a partir de um argumento de Rod Serling, centrado num homem que adquire um relógio capaz de parar o tempo. Foi também ilustrador e poeta, tendo publicado uma colectânea dos seus poemas com o título The Apocalyptic Kid.

>>> Genérico de abertura de Stalag 17 + cena de A Kind of a Stopwatch.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

Inéditos de David Bowie em single

Anunciada a 8 de Janeiro, dia em que David Bowie completaria 72 anos, a edição de Spying Through A Keyhole (com o subtítulo Demos and Unreleased Songs) estará nas lojas a 5 de Abril. Trata-se de uma caixa com quatro singles (mono, 45 rpm), revelando nada mais nada menos que nove gravações inéditas, incluindo dois demos de Space Oddity e um tema até agora desconhecido, intitulado Love All Around (a ele pertence o verso que dá título à edição).
Além do mais, a edição antecipa a passagem do 50º aniversário do lançamento de Space Oddity, a 11 de Julho de 1969 — desse mesmo ano, eis o registo da canção retirado do filme promocional Love You Till Tuesday, dirigido por Malcolm J. Thomson.

sábado, março 16, 2019

Mais um single de Sophie Auster

Mais um single do novo álbum de Sophie Auster (Next Time, 12 Abril), cumprindo a promessa de um delicado intimismo romântico — chama-se Rising Sun e foi divulgado através de um registo efectuado na City Winery, em Nova Iorque.

A IMAGEM: Zoey Grossman, 2019

ZOEY GROSSMAN
Georgia May Jagger
Numero/Japão (Abril 2019)

quinta-feira, março 14, 2019

Kirin J. Callinan revisita The Waterboys

[ Instagram ]
Australiano, 33 anos: Kirin J. Callinan é muitas vezes apontado como um enfant terrible do rock que, depois de passar pela banda Mercy Arms, construiu uma carreira a solo, combinando um pouco de tudo, desde as nuances da pop até aos artifícios do glam. O seu mais recente álbum chama-se Bravado, saíu em 2017 com chancela dos Terrible Records. O próximo, ainda sem título, deverá surgir em Abril e tem, para já, um sugestivo single: nada mais nada menos que uma recriação do clássico The Whole of the Moon, referência lendária do álbum This Is the Sea (1985), de The Waterboys — com um detalhe devidamente destacado no teledisco realizado por Mickey Ratman: "gravado ao vivo". Eis o teledisco e, noblesse oblige, o original.



Augusto Cid (1941 - 2019)

FOTO: DN
É um dos nomes fundamentais na história do cartoonismo português: Augusto Cid faleceu no dia 14 de Março, após doença prolongada.
A sua obra passou por diversas publicações, incluindo A Parada da Paródia, A Mosca, Vida Mundial, O Jornal Novo e O Independente, tendo também colaborado com a estação televisiva TVI e, por fim, no semanário Sol. Através de um traço inconfundível, caricatural e sofisticado, visou, em particular, muitas formas de comportamento de alguns protagonistas da cena política. Também com uma importante obra como escultor, publicou mais de duas dezenas de livros, incluindo PREC - Processo Revolucionário Eventualmente Chocante, O Superman e Alto Cão Traste.

>>> Três cartoons de Augusto Cid e, em baixo, um video do Município de Oeiras sobre uma das suas obras escultóricas.


>>> Obituário no Notícias ao Minuto.

Glauber Rocha (1939 - 1981)
— o jogo dramático da cultura

>>> A forma do meu cinema, com todos os altos e baixos, com todos os pontos brilhantes e obscuros, com tudo o que tem de feio e de bonito é a expressão da minha personalidade. Então, eu assumo o meu ego, mas não de um ponto de vista narcisista ou individualista, mas de um ponto de vista órfico, no sentido de não tentar mudar o mundo, mas, como Orfeu, tentar criar um novo mundo audiovisual. Se eu criei condições históricas e económicas para produzir um tipo de filme segundo a minha pulsão (que é a única forma de sobreviver) tenho que assumir os riscos da incompreensão — isso para mim faz parte do jogo dramático da cultura.

GLAUBER ROCHA
— entrevista para catálogo da Cinemateca Portuguesa
Sintra, 8 de Abril de 1981

Quando entrevistei Glauber Rocha em Sintra, ninguém poderia antecipar, como é óbvio, a notícia que receberíamos cerca de quatro meses mais tarde, pouco tempo passado sobre o seu regresso ao Brasil: na sequência de uma infecção pulmonar, Glauber faleceu a 22 de Agosto de 1981, no Rio de Janeiro, contava 42 anos. A retrospectiva (integral, como ele confirmou) que a Cinemateca Portuguesa lhe dedicara em Abril ficou, assim, como memória didáctica e urgente de um criador ímpar na história do Brasil e da cultura de língua portuguesa.
Vendo ou revendo os seus filmes, podemos reconhecer que, desde a primeira longa-metragem, Barravento (1962), até ao título final, A Idade da Terra (1980), Glauber foi um incansável viajante da(s) história(s) entre identidade brasileira e uma visão cósmica do factor humano, não poucas vezes entre as verdades mais cruas da tradição e as utopias menos transparentes do progresso. Lembrá-lo é, por isso, reaprender esse jogo dramático da cultura como questão íntima e incontornável, não apenas do seu trabalho, mas também do nosso incerto presente.
Glauber nasceu no dia 14 de Março de 1939, em Vitória da Conquista, estado da Bahia — faz hoje 80 anos.

>>> A Idade da Pedra — entrevista de Luís Fernando Silva Pinto, Veneza, 1980.


>>> Enciclopédia Itaú Cultural: Glauber Rocha.

Free — meio século depois

Para falarmos do blues rock britânico, não podemos deixar de celebrar os emblemáticos Led Zeppelin. Mas importa iluminar as zonas mais ocultas das memórias históricas e não esquecer os Free. A sua discografia inicia-se também em 1969 com o álbum Tons of Sobs — foi lançado no dia 14 de Março de 1969, faz hoje 50 anos.

>>> Goin' Down Slow, Free.

terça-feira, março 12, 2019

Marvel — masculino ou feminino, tanto faz...

Capitão Marvel é o primeiro filme de super-heróis do ano. Com uma novidade: desta vez, trata-se de uma super-heroína... O resto é rotina — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Março).

Já não há surpresas no universo dos super-heróis. Agora, com a estreia de Capitão Marvel, os estúdios Marvel recuperam mais uma personagem do seu imenso baú de histórias aos quadradinhos, tentando, pelo menos, diversificar a oferta.
O certo é que impera a rotina de produção, embora com uma diferença “simbólica” que contaminou todo o marketing em torno do filme: já sujeito a diversas encarnações masculinas e femininas, o Capitão Marvel surge agora na “versão” de uma mulher, Carol Danvers — em boa verdade, por simples respeito dessa lógica figurativa, o filme deveria ter o título português “Capitã Marvel” (como acontece, aliás, no mercado brasileiro).
A questão acaba por ser meramente anedótica, já que os estúdios Marvel (desde 2015 integrando o império Disney) não não mostras de qualquer mudança de estratégia, estilo ou narrativa. Além do mais, promover a personagem de Carol como “mensageira” de uma qualquer verdade feminina será tão gratuito como considerar que Superman, se fosse cidadão eleitor, votaria Donald Trump...
Acontece que estamos perante um cinema cada vez mais formatado em que o esquematismo de personagens e situações torna os filmes intermutáveis. De tal modo que até mesmo a utilização de actores evidentemente talentosos soa a desperdício. Neste caso, a performance de Brie Larson na figura central tem qualquer coisa de patético: não tendo muito para fazer (além de olhar para os efeitos especiais que o filme vai colocando à sua volta), assistimos ao apagamento de uma intérprete que vimos brilhar, por exemplo, no filme Room/Quarto, de Lenny Abrahamson (que lhe valeu o Oscar de melhor actriz de 2015).
Há mesmo algumas situações bizarras na sua performance, em particular quando contracena com outra notável actriz, Annette Bening, aqui a interpretar a figura da “Inteligência Suprema”. Os seus encontros ocorrem numa paisagem supostamente onírica, de alguma maneira ligada às reminiscências traumáticas que assombram os sonhos de Carol... Que acontece? As bolas (planetas?) em suspensão e os raios de luz que atravessam o cenário são de tal maneira toscos que mais parecem o resultado de alguns desastrados técnicos de efeitos especiais que não sabem dominar a conjugação digital das imagens. Isto num filme que custou 150 milhões de dólares...
O facto de chegarmos aos números do orçamento como uma espécie de ponto de fuga compulsivo é significativo. Aliás, nas últimas semanas, têm proliferado as especulações dos analistas da indústria americana, prevendo as receitas para o fim de semana de abertura de Capitão Marvel, para a exibição nas salas dos EUA e para as receitas globais em todo o mundo (cerca de 65, 175 e 520 milhões, respectivamente). Uma tristeza, enfim: dir-se-ia que já não é possível falar de cinema, mas apenas de performances financeiras.
Steven Spielberg + George Lucas
Bem sabemos que um filme não é “melhor” nem “pior” por nele se investirem milhões ou tostões. O que está em causa não são os movimentos de tesouraria, mas sim os conceitos de espectáculo. Dito de outro modo: mesmo não esquecendo as honrosas excepções, o universo cinematográfico dos super-heróis está reduzido a uma linha de montagem em que as rotinas tecnológicas tendem a anular qualquer energia criativa. No masculino ou no feminino, Capitão Marvel é mais uma penosa ilustração dessa situação.
Reconhecer tal situação não é, de modo algum, uma questão que decorra de qualquer visão enraizada no universo da crítica de cinema. São várias as personalidades que têm chamado a atenção para a “normalização” da produção americana através dos gigantescos gastos em filmes de super-heróis e afins, menosprezando a herança, plural e fascinante, da arte clássica de contar histórias. Uma dessas personalidades chama-se Steven Spielberg e disse-o pela primeira vez num debate realizado no Verão de 2013, na Universidade da Califórnia, chamando a atenção para o risco de “implosão” que Hollywood está a correr. A seu lado estava um tal George Lucas.

Elza Soares — o nome, aqui e agora

Eis um verdadeiro acontecimento para descobrir nas salas escuras — um nome lendário da canção brasileira num filme que, mais do que documentar a sua arte, com ela se liga numa invulgar cumplicidade estética e afectiva: Elza Soares está no centro de My Name is Now, uma reportagem surreal, capaz de nos reconciliar com a ideia de que o cinema pode ser um exercício de realismo, não imediatista, mas transcendental.

domingo, março 10, 2019

The Chemical Brothers no planeta dos cães

Enquanto aguardamos pelo novo álbum de The Chemical Brothers (No Geography, 12 Abril), eis que chega mais uma canção. Depois de Got To Keep On, aí está We've Got To Try, tema marcado pela mesma energia criativa, transfigurado numa bela aventura canina com realização de Ninian Doff.

sábado, março 09, 2019

Para acabar com o cinema português

JÚLIO POMAR
Fernando Pessoa
1983
Para onde vai o cinema português? O contágio telenovelesco e a ausência de uma política global de produção são coordenadas de uma situação dramática — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Março).

Ver “todos” os filmes que são lançados no mercado nunca foi um princípio definidor de qualquer trabalho crítico. Por uma razão muito prática: não é possível. Nos últimos anos, tal impossibilidade foi-se transfigurando através de transformações que o próprio mercado tem imposto aos consumidores.
Dito de outro modo: a avalanche de estreias nas salas escuras (é rara a semana em que não há, pelo menos, uma dezena de novos títulos) passou a fazer parte de uma estratégia empresarial dominante que, mesmo não o confessando, privilegia a vida comercial dos filmes nas plataformas televisivas ou de “streaming”.
Por mais que tal possa chocar a mais clássica sensibilidade cinéfila (em que me reconheço), tudo isso decorre também do facto de haver filmes que nascem formatados pelas retóricas dominantes no espaço televisivo, visando, em última análise, a sua ocupação. Há-os de todas as origens. No meu caso, e nos últimos meses, tenho descoberto alguns sintomas portugueses desse estado de coisas, incluindo títulos como Perdidos (Sérgio Graciano, 2017) ou Bad Investigate (Luís Ismael, 2018).
São, a meu ver, péssimos filmes: intrigas anedóticas, direcção de actores à deriva, trabalho de imagem (e som) totalmente filiado nas rotinas telenovelescas. Ao contrário de um cliché demagógico que conheço há décadas, um juízo negativo sobre tais filmes não envolve quaisquer reticências sobre o direito a existirem. Por definição, o pensamento crítico não define, nem pode definir, uma política de produção. E mesmo que eu possa ter algumas ideias, certamente discutíveis, sobre possíveis fundamentos dessa produção, não é essa a questão central destas linhas.
Não se trata, ainda menos, de favorecer o deslizamento das estatísticas do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) para aquilo que seria a legitimação de uns filmes contra outros. Em termos estritamente pessoais, não serão os escassos 3259 espectadores portugueses de Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014) que me levarão a abdicar de o considerar um dos grandes filmes europeus produzidos neste século XXI.
Entenda-se: também não tenho qualquer empenho em negar o direito de quem quer que seja apostar em fazer filmes que secundarizam o pensamento artístico do próprio cinema, definindo como prioridade uma boa frequência nas salas portuguesas (digamos, acima dos 100 mil espectadores). Tais filmes poderão satisfazer, ou não, as ambições dos respectivos produtores e realizadores. Em qualquer caso, mesmo que exemplos como os dois títulos citados fossem esmagadores fenómenos de bilheteira, não vejo qualquer razão argumentativa (crítica, justamente) para os colocar a par de sucessos contemporâneos como Assim Nasce uma Estrela, Correio de Droga ou Green Book.
Que está, então, em jogo? Um fenómeno de esvaziamento criativo que se tem agravado nos últimos anos. A relativa facilidade com que os meios digitais permitem montar projectos de baixos orçamentos poderia ser uma via enriquecedora da diversidade de produção e da abertura a novas gerações (política que, a meu ver, o ICA deveria assumir em todas as suas consequências práticas, culturais e comerciais). O certo é que em casos como os citados aquilo que encontramos não passa de uma cumplicidade perversa entre a ausência de estratégias de produção e a colagem a modelos estereotipados que provêm das telenovelas ou das práticas mais medíocres de “stand up comedy” — em Portugal triunfou a ideia (?) segundo a qual fazer “stand up” é desbobinar anedotas obscenas narradas em tom mais ou menos anódino, sem qualquer trabalho de representação.
A actual discussão, eternamente renovada e renovável, em torno da constituição dos júris de selecção do ICA transformou-se mesmo no ponto de fuga de quase todos os debates no interior do cinema português. Em boa verdade, na origem mais remota (e, a meu ver, mais essencial) de tal discussão está um imenso vazio de reflexão sobre as prioridades das políticas culturais do país.
Daí o muito antigo logro que um texto como este pode, de modo incauto, reforçar. Não se trata, de facto, de polarizar na indigência conceptual de alguns filmes os problemas de fundo de um cinema português que, inconscientemente, parece ir gerando os vírus do seu próprio fim. Infelizmente, a questão é ainda mais dramática se nos lembrarmos que o futebol passou a ser o factor dominante de definição da nossa identidade cultural: tudo nos compele a sermos caracterizados como adeptos e, mais do que isso, militantes bélicos deste ou daquele clube; quase nada existe no sentido de nos definirmos e comportarmos como espectadores de cinema.

quinta-feira, março 07, 2019

The National, opus 8

A actriz sueca Alicia Vikander está na capa do oitavo álbum de estúdio da banda americana The National. Isto porque I Am Easy to Find será acompanhado por um filme de 24 minutos, protagonizado por Vikander e realizado por Mike Mills, o cineasta de Mulheres do Século XX (2016). O lançamento está marcado para 17 de Maio; para já, temos os sons de uma primeira canção, You Had Your Soul with You — em baixo, o trailer do álbum/filme.




>>> Site oficial de The National.

20 anos de solidão

Tom Cruise, Nicole Kidman e Stanley Kubrick
— rodagem de De Olhos Bem Fechados
A montagem final de De Olhos Bem Fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidman, foi mostrada aos executivos da Warner Bros. a 1 de Março de 1999. Sete dias mais tarde, portanto a 7 de Março, surgiu a notícia da morte de Stanley Kubrick — faz hoje 20 anos.

Danny Lloyd e Stanley Kubrick
— rodagem de Shining (1980)
Auto-retrato [década de 40]

terça-feira, março 05, 2019

A sociedade dos telemóveis

Hong Kong, estação de metro (5 Dez. 2018)
FOTO: Anthony Wallace
Lembram-se do filme Her - Uma História de Amor (2013), de Spike Jonze? Pois bem, há muito que o seu pano de fundo — uma sociedade sem comunicação entre os indivíduos, cada um fechado na relação com o seu telemóvel — deixou de ser uma história de ficção científica: a multiplicação dos telemóveis no nosso quotidiano reconfigurou esse mesmo quotidiano, transfigurando todas as relações humanas, por vezes reduzindo-as ao absurdo existencial ou ao mais cruel vazio identitário.
São sinais desse estado de coisas (e também das suas eventuais maravilhas) que encontramos no portfolio de 42 imagens organizado pelo jornal The Boston Globe, no seu blog fotográfico 'The Big Picture'. O título é revelador: A sociedade dos telemóveis.

O Papa Francisco no Vaticano (9 Jan. 2019)
FOTO: Andrew Medichini
Pequim, estação de comboios (5 Dez. 2018)
FOTO: Andy Wong
Palácio de Bellas Artes, Cidade do México
— aplicação para seguir uma exposição de pintura espanhola (Julho 2018)
FOTO: Mario Guzman
'Caravana de migrantes' carregando os seus telemóveis
— Tijuana, México (23 Nov. 2018)
FOTO: Mario Tama