Depois da sua derivação mexicana, integrada no álbum Next Time (2018), Sophie Auster tem estado nos Reservoir Studios, Nova Iorque, para gravar algumas das versões que deverão surgir no seu próximo álbum — eis Cool Cat, tema dos Queen incluído no álbum Hot Space (1982) [em baixo, o som do original].
Natalie Portman em Uma História de Amor e Trevas — actriz e realizadora
Vale a pena recordar a versão cinematográfica de Uma História de Amor e Trevas, o livro autobiográfico de Amos Oz; a realização é de Natalie Portman, também intérprete principal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Dezembro).
As notícias da morte do escritor israelita Amos Oz sublinharam a importância do livro autobiográfico Uma História de Amor e Trevas, editado em 2002 (lançado no mercado português em 2007, com chancela da Asa). Por aí passam, com tocante intensidade, as memórias da mãe do escritor, Fania, que se suicidou quando ele tinha 12 anos; aí encontramos também as razões históricas e, mais do que isso, afectivas que levaram Oz a nunca abdicar da defesa de uma solução de dois estados para o conflito israelo-palestiniano.
Menos referido terá sido o facto de existir uma adaptação cinematográfica de Uma História de Amor e Trevas. Lançada em 2015 (chegou às salas portuguesas no ano seguinte), trata-se de uma coprodução entre Israel e EUA, realizada por Natalie Portman, actriz nascida em Jerusalém, com dupla nacionalidade (israelita e americana) — é ela, aliás, que assume o papel de Fania [video].
Não creio que o filme de Portman, apesar da vibração da sua composição, seja uma obra-prima. Não é um mero juízo de valor que está em causa. Ou melhor, tal como no momento do seu lançamento, creio que devemos valorizar a sua especificidade narrativa, hoje em dia menosprezada pelo imaginário dos super-heróis e da beatificação da tecnologia (sobretudo junto dos espectadores mais jovens). O filme Uma História de Amor e Trevas é, de facto, uma muito digna recuperação de um modelo de drama histórico em que a complexidade das convulsões colectivas passa sempre pelas singularidades dos destinos individuais.
Sublinhar as virtudes de tal modelo narrativo não envolve qualquer saudosismo. Em boa verdade, a cinefilia opõe-se mesmo a qualquer paralisia nostálgica, celebrando antes essa capacidade dos filmes manterem um diálogo vivo com os elementos históricos, não para os “reproduzir” (não estamos a falar de directos televisivos), antes para os encenar e reencenar como reflexo plural, por vezes contraditório, das existências individuais.
Na actual conjuntura internacional, não deixa de ser curioso referir que, entre os títulos que podem concorrer para o próximo Oscar de melhor filme estrangeiro (as nomeações serão anunciadas a 22 de Janeiro), encontramos vários casos desse cinema de metódica e apaixonada problematização das relações individual/colectivo.
O óbvio favorito ao Oscar é Roma, do mexicano Alfonso Cuarón. Mas vale a pena citar os exemplos de Guerra Fria, do polaco Pawel Pawlikowski, ou Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões, do japonês Hirokazu Kore-eda. Porque é que esses filmes não gozam dos mesmos favores do marketing que são concedidos às aventuras dos heróis da Marvel ou da DC-Comics? Eis uma questão que, sendo outra, talvez nos remeta para a mesma dúvida social (sem rede). A saber: como valorizamos as vidas vividas, não em paisagens de outras galáxias, mas neste mal amado planeta Terra?
Não há paparazzi no Dubai... Ou, pelo menos, é essa a convicção de Lindsay Lohan, que terá escolhido esse país para escapar à "vigilância" da imprensa de escândalos. E é um facto que, ao longo dos anos, a sua história de estrela infantil, com chancela Disney, se foi transformando em pesadelo moral e mediático.
Lohan, 32 anos, acredita que o seu novo programa televisivo Lindsay Lohan's Beach Club, tendo como cenário a ilha grega de Mykonos, a irá resgatar de atribulações passadas. Em declarações à revista Paper, é ela, aliás, a primeira a reconhecer os efeitos perniciosos de tais atribulações — seja como for, numa espécie de mantra existencial, proclama que "o passado ficou no passado".
Podemos permitir-nos duvidar da pertinência do novo caminho criativo de Lohan. Afinal de contas, Lindsay Lohan's Beach Club é um produto MTV e não consta que a ex-televisão da música tenha entrado num processo de autocrítica, de modo a superar as misérias de "reality TV" e coisas afins que passaram a dominar as suas emissões. Em qualquer caso, podemos também acreditar na sinceridade de Lohan, ela que passou a ser, claramente, um talento sub-aproveitado — lembremos a excepção que é o notável filme Paul Schrader, Vale do Pecado (2013), entre nós (e não só...) ingloriamente lançado apenas em DVD.
Apesar de tudo isso (ou precisamente por causa disso), registemos o requinte formal e o brilho simbólico com que a actriz surge na Paper, através das fotografias assinadas por Jeff Bark. Nas suas poses nostálgicas, assombradas pela miragem utópica de Hollywood, Lohan representa a personagem da estrela que nunca foi — ou que não a deixaram ser.
Massacrados que somos pelas paisagens dos filmes digitais, brilhantes e inverosímeis, o confronto com uma paisagem que está ali à frente da câmara, real e realista, tem qualquer coisa de bênção, resgate e purificação do olhar. O filme de Bartas é um desses objectos que nos recorda que o cinema serve para reproduzir o mundo, nesse processo inventariando as ambiguidades, utopias ou equívocos do próprio acto de reprodução. Trata-se de seguir a odisseia de um homem e uma mulher da Lituânia, personagens de uma juventude à deriva, contaminando-nos com a sua ansiedade existencial: descobrimo-los numa missão humanitária, transportando ajuda para a Ucrânia, a pouco e pouco sentindo (e nós com eles) que nenhum mapa está disponível para dar conta da decomposição geográfica e do esvaziamento simbólico que, literalmente, atravessam — será preciso lembrar que, em 2018, ninguém filmou assim a dor de ser europeu?
Inglesa, completou 21 anos no dia 11 de Junho em 2018 — este seu primeiro álbum foi lançado três dias antes. E se o rótulo de grande revelação do ano pode servir para alguma coisa, é para sublinhar o seu possível equívoco. Na verdade, escutamos Lost & Found e somos envolvidos pelo encantamento de uma voz absolutamente madura, percorrendo os meandros do R&B com uma versatilidade sem nada de ostensivo, antes ao serviço das mais discretas nuances dramáticas de cada canção. Rezam as crónicas que Jorja Smith viveu a adolescência "assombrada" por Frank (2003), o álbum de estreia de Amy Winehouse... et pour cause. Já com uma significativa videografia, ei-la na televisão americana, em The Late Show, interpretando Don't Watch Me Cry com a esplendorosa serenidade de uma veterana.