sexta-feira, julho 01, 2016

Rihanna em IMAX

Dirigido por Floria Sigismondi, o teledisco da canção Sledgehammer, de Rihanna, está longe de ser um primor de invenção — a sua multiplicação de efeitos visuais mais ou menos "luminosos" e acelerados decorre mesmo de uma vulgar estética publicitária, mais típica de anúncios de shampoo ou refrigerantes.
Seja como for, este é um objecto que vai ficar na história: Sledgehammer —  da banda sonora do filme Star Trek: Além do Universo (estreia: 25 Setembro) — é o primeiro teledisco filmado, integralmente, com câmaras IMAX, desse modo integrando recursos que têm vindo a ser experimentados em alguns filmes ditos de grande espectáculo. O espectáculo será grande, por certo, mas as potencialidades de definição das novas câmaras [ALEXA65] merecem um pouco mais de imaginação e labor criativo.

"Portugal - Polónia" — teatro de revista

1º acto — É uma festa nacional...

2º acto — Também temos direito a ter sorte...

3º acto — O país está feliz...


>>> "Portugal - Islândia"
>>> "Portugal - Áustria".
>>> "Portugal - Hungria".
>>> "Portugal - Croácia".

quinta-feira, junho 30, 2016

Tom Hanks + Clint Eastwood

O novo filme de Clint Eastwood chama-se Sully, tem Tom Hanks como actor principal e centra-se na personagem do capitão Chesley 'Sully' Sullenberger, piloto do avião que fez uma aterragem de emergência no rio Hudson, a 15 de Janeiro de 2009 — já há cartaz e trailer [estreia em Portugal: 8 de Setembro].

quarta-feira, junho 29, 2016

Aprender a ver com Álvaro Siza

AS ASAS DO DESEJO (1987)
Um trabalho sobre Álvaro Siza, da autoria de Cândida Pinto, com produção de Manuela Durão, mostra como é possível fazer televisão de modo exigente e inventivo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Junho).

Para onde vai o documentarismo contemporâneo? Será que, tendo em conta a presença que conquistou nos circuitos cinematográficos, vive uma etapa de reconversão e reinvenção? Ou estará antes confinado a modelos televisivos que, melhor ou pior, vão tendo um lugar mais ou menos discreto no pequeno ecrã? São perguntas que vale a pena enfrentar para além de qualquer fronteira estável e definitiva — dois documentários sobre o arquitecto Álvaro Siza, recentemente difundidos pela SIC Notícias, relançam a questão.
Devo mesmo acrescentar que já há algum tempo não deparava, assim, com uma ideia antiga, porventura fora de moda, mas que continua a fascinar-me. A saber: a televisão não tem de ser uma colagem de fragmentos breves e acelerados que transformam o mundo num turbilhão de telediscos (com o devido respeito pelo que é genuíno na história dos telediscos). Mais do que isso: a televisão pode existir muito para além da reprodução incessante dos mesmos dispositivos mecanicistas, supostamente universais (o repórter que fala para a câmara, a voz off que descreve tudo de forma redundante como os comentadores dos jogos de futebol, etc.).


Que está, então, em jogo? Cândida Pinto (autoria) e Madalena Durão (produção) fizeram dois documentários, de pouco mais de 35 minutos cada um, construídos a partir de trabalhos de Álvaro Siza: num deles, Bonjour Tristesse, tomamos conhecimento de um edifício emblemático de Berlim concebido pelo arquitecto em meados da década de 80 (o título provém de um graffiti que alguém inscreveu na fachada); no outro, Vizinhos, recorda-se um projecto de habitação social da segunda metade dos anos 90, na Giudecca, em Veneza (não concluído na época, relançado graças à escolha dessa ilha para receber o pavilhão português na Bienal deste ano).
Os dois pequenos filmes envolvem importantes contribuições — cito, por exemplo, o trabalho de imagem (Rodrigo Lobo) e montagem (Marco Carrasqueira) — cuja sofisticação e rigor estão muito para além dos padrões correntes em todos os canais portugueses de televisão. Em todo o caso, seria simplista reduzir os seus valores a qualquer virtuosismo “tecnicista”. Nada disso. O que aqui mais conta é, justamente, a arte de ver e dar a ver, levando-nos a observar os objectos arquitectónicos como elementos viscerais de todas as vivências humanas. Como, a certa altura, diz Álvaro Siza, mergulhando no “encantamento absoluto” de Veneza, “o arquitecto aprende vendo” — por isso, é também alguém que “tem de aprender a ver”.
Face a Veneza e Berlim, a perversão cinéfila fez-me pensar em imagens de Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti, e As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. Porque o cinema é “superior” à televisão? Não, apenas porque a televisão só ganha (e ganhamos todos nós) se souber inscrever-se numa história estética e ética que começou, há mais de um século, com a aventura cinematográfica.
MORTE EM VENEZA (1971)

SOUND + VISION Magazine
— hoje, especial PINK FLOYD

É hoje a sessão do SOUND + VISION Magazine dedicada à saga imensa dos Pink Floyd, a pretexto dos 50 anos da banda e da reedição em vinyl dos seus 15 álbuns de estúdio — FNAC/Chiado, 29 Junho, 18h30.

Michael Herr (1940 - 2016)

Autor do livro Dispatches (1977), sobre a guerra do Vietname, foi um colaborador de Francis Ford Coppola e Stanley Kubrick: o jornalista americano Michael Herr faleceu no dia 23 de Junho num hospital próximo de sua casa, em Delaware County, Nova Iorque — contava 76 anos.
Reconhecido como um dos títulos mais importantes na vasta bibliografia sobre o envolvimento americano no Vietname, Dispatches colocou Herr na galeria de notáveis autores (Truman Capote, Norman Mailer, etc.) que exploraram o cruzamento da investigação jornalística com a escrita literária. Colaborou na escrita dos argumentos de Apocalypse Now (1979), de Coppola, e Full Metal Jacket/Nascido para Matar (1987), de Kubrick. Este último voltou a convidá-lo para a escrita de De Olhos Bem Fechados (1999): a sua recusa deixou-lhe uma memória amarga e doce que serviu de ponto de partida ao livro Kubrick (2000). No documentário First Kill (2001), de Coco Schrijber, Herr recorda a sua experiência da guerra e, em particular, o trabalho jornalístico em contexto bélico.

>>> Um extracto do filme First Kill, com Michael Herr; genérico final de Full Metal Jacket (com a canção Paint It Black, dos Rolling Stones).




>>> Obituário no New York Times.
>>> Análise de Dispatches, em The Guardian.
>>> Evocação de Michael Herr na NPR.

terça-feira, junho 28, 2016

Amor, musas e cinema

O espanhol José Luis Guerin continua a percorrer os caminhos sedutores da "ficção documental" — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (23 Junho).

Onde acaba o documentário e começa a ficção? Velha questão cinematográfica e cinéfila que a história dos filmes vai retomando e, por assim dizer, reinventando. O espanhol José Luis Guerín gosta de a reformular num misto de precisão realista e distanciação irónica (lembremos o magnífico Comboio de Sombras, lançado em 1997). Agora, com A Academia das Musas, Guerín coloca em cena o quotidiano de um professor de filologia da Universidade de Barcelona que discute com as suas alunas as relações do amor com a linguagem (foi a literatura que inventou o amor, diz-se a certa altura...), envolvendo-nos num turbilhão de factos e emoções, palavras escritas ou faladas, que desemboca num conto moral sobre o masculino e o feminino: será que o papel amoroso, sexual e simbólico das mulheres foi, historicamente, a maior parte das vezes, dito e escrito por homens?
Eis um filme fascinante que nos ajuda a compreender a futilidade dos mais recentes super-heróis: aqui, o verdadeiro efeito especial é o desejo de conhecer e a vontade de compreender. E a sua velocidade é vertiginosa.

"Os Últimos Dias do Rei"
— hoje na FNAC

* Twickenham, 1932. Um jornalista vindo de Lisboa apresenta-se em Fulwell Park, a residência de D. Manuel II, que há 22 anos vive no exílio, em Inglaterra. Apresenta-se ao monarca para o entrevistar e com o projeto de uma biografia nas mãos. O rei recebe-o mas, embora visivelmente exausto, percorre memórias dia após dia, discute o presente com o visitante. Morre, contudo, inesperadamente, antes do trabalho concluído e nem a entrevista nem o livro chegam a ser publicados...

É este o ponto de partida do primeiro romance de Nuno Galopim, Os Últimos Dias do Rei: a sua apresentação realiza-se hoje, dia 28, às 18h30, na FNAC do Chiado — a obra será apresentada por António José Teixeira.

segunda-feira, junho 27, 2016

À procura da Pixar

Para onde vai a Pixar? Ou o que é a Pixar enquanto empresa dos estúdios Disney? São questões que se renovam e ampliam face a À Procura de Dory — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (23 Junho).

A afirmação da Pixar em 1995, com Toy Story (primeira longa-metragem de animação totalmente digital), foi um acontecimento tanto mais significativo quanto abriu uma nova perspectiva sobre os desenhos animados — afinal, os estúdios Disney tinham um concorrente à altura. Resumindo esta história exemplar, lembremos apenas que, em 2006, a Pixar foi comprada pela... Disney (num negócio astronómico de mais de 6,5 mil milhões de euros).
Dez anos depois, face a À Procura de Dory, a pergunta é incontornável: será que a Pixar chegou a um impasse? De facto, a continuação de À Procura de Nemo (2003) é um parente pobre do original, enraizado num erro crasso de definição dramática: a personagem de Dory, com a sua perda de memória de curto prazo, era um bom contraste (comic relief) no contexto do primeiro filme, mas não possui densidade para sustentar o protagonismo que agora lhe é conferido. De tal modo que deparamos com um desenho animado em que a maioria dos gags não são visuais, antes dependem de diálogos pouco imaginativos e repetitivos.

Ver + ouvir:
Mutual Benefit, Lost Dreamers


Um dos singles extraídos do álbum Skip a Sinking Stone, editado há poucas semanas, tem agora um teledisco. Ficam as imagens. E também a proposta de descoberta de um dos mais belos álbuns deste trimestre.

Pink Floyd a 33 rpm:
'A Saucerful of Secrets' (1968)


Criado numa sucessão de sessões de gravação entre agosto de 1967 e maio de 1968, o segundo álbum dos Pink Floyd assistiu ao processo de progressivo afastamento e definitiva separação entre o grupo e aquele que fora até aí o seu principal compositor. O caráter errático e imprevisível do seu comportamento fora já assinalado quando tinham trabalhado no álbum de estreia, acentuando-se os problemas quando, depois de terminado o disco, chegara a hora de regressar à estrada. É então que entra em cena um outro elemento cuja presença reforçaria a caracterização deste como um disco de transição. Antigo colega de Syd Barrett nos tempos de escola, David Gilmour começou por ser chamado para, em palco, compensar as falhas e até mesmo as faltas do vocalista (e também guitarrista).

Com uma formação alargada a cinco chegaram a entrar em estúdio, crendo-se que Set The Controls For The Heart of The Sun, um dos temas mais marcantes do alinhamento deste segundo álbum, possa representar um raro momento gravado a contar com a presença dos cinco elementos que o grupo então juntava. Cedo ficou claro que a presença em estúdio de Gilmour era favorável ao bom curso dos trabalhos. E nasceu então a ideia de, tal como acontecera com os Beach Boys algum tempo antes, os Pink Floyd manterem Syd Barrett como o seu compositor, atribuindo-lhe tarefas criativas, chamando-o eventualmente a estúdio, mas deixando a estrada entregue aos outro quatro... Isto apesar dos resultados desapontantes do single Apples and Oranges, editado ainda em 1967, depois do álbum de estreia, mas em nada sendo capaz de repetir os resultados dos anteriores Arnold Layne e See Emily Play.

E os trabalhos foram avançando, surgindo, ainda em finais de 1967, uma versão de Juggerband Blues, canção de Syd Barrett que tinha já alguns meses (e chegara até a ser ponderada como eventual terceiro single), que contou em estúdio com a presença da banda do Exército da Salvação a quem, reza a mitologia (questionável, acrescento) que Barrett terá dito para que tocassem o que bem entendessem. Esse seria contudo o único tema assinado e cantado por Syd Barrett a figurar no alinhamento do segundo álbum do grupo. Porque, quando em 1968 retomam os trabalhos em estúdio, já a separação (cada vez mais inevitável) com o antigo vocalista e compositor havia ocorrido. Se em Piper at the Gates of Dawn o alinhamento revelava um claro protagonista da escrita de Syd Barrett, convocando a participação de outros elementos da banda em apenas três temas, no segundo disco, ao qual chamaram A Saucerful of Secrets, as composições refletem uma representação mais democrática dos músicos, definindo um espaço de colaboração e contribuição alargada que definiria o modo de trabalhar do grupo até à etapa em que Roger Waters chama a si a condução dos destinos criativos e, depois, uma outra em que David Gilmour toma um papel igualmente protagonista nesse departamento.

Tal como no plano humano (entre o afastamento de Syd Barrett e a chegada de David Gilmour) também na definição do rumo estético este é um disco de transição. Let There Be Light (que representou a primeira ocasião em que um single do grupo surgia no alinhamento de um álbum, já que o anterior It Would Be So Nice acabou fora do LP) e Remember A Day (que data dos tempos de A Saucerful of Screts) asseguram, logo a abrir o alinhamento, ligações à paleta pop/rock psicadélica pela qual o grupo continuava a trilhar alguns dos seus passos. Cabe depois à visão desafiante (mas bem arrumada) de temas mais longos e distantes do formato clássico da canção, como Set The Controls For The Heart of The Sun ou o longo tema-título (com uma reta final para coro e órgão que quase antecipa o que fariam em Atom Heart Mother) o lançamento das ideias para caminhos experimentais, todavia diferentes dos que haviam antes definido a trip de Interstellar Overdrive e outros momentos caleidoscópicos do álbum de estreia. See-Saw, que conta com a presença instrumental de Barrett, e foi algo injustamente descrita (internamente) como a canção mais aborrecida de sempre (o que não é verdade) traduz, com maior nitidez ainda, uma noção de ponte entre os ecos do que eram os Pink Floyd de 1967 e ideias que ajudariam a definir a noção do som “progressivo” do seu futuro pouco mais adiante. Por seu lado Corporal Clegg assinala a primeira manifestação de uma demanda temática que Roger Waters desenvolveria depois em vários outros episódios e que eventualmente o conduziria a The Wall e The Final Cut.

Em 1968 o álbum - que mostra a primeira capa da banda criada por Storm Thorgserson - dividiu opiniões e acendeu críticas que notavam o afastamento do principal autor do mais elogiado percurso anterior do grupo. Mas agora, 48 anos depois, o reencontro com A Sacucerful of Secrets recorda não apenas o momento difícil que a vida do grupo viveu entre 1967 e 68, como, na verdade, nos dá um deslumbrante quadro de grandes canções, instrumentais... e visões.

Para ler: algumas revelações
sobre "Rogue One: a Star Wars Story"


Um especial da Entertainment Weekly apresentou uma série de revelações sobre o filme Rogue One, o primeiro do universo Star Wars a nascer além do espaço natural da saga.

O Guardian sistematizou as novidades. Podem ler aqui.

Uma comédia sexual para o séc. XXI

Rebecca Miller continua a fazer filmes a meio caminho entre comédia e drama, reavivando uma tradição que resiste às leis dominantes do mercado — este texto foi publicado no Diário de Notícias (23 Junho), com o título 'À procura da comédia romântica'.

Dominado pelo ruído promocional dos “blockbusters”, o Verão cinematográfico “inventou” ao longo das últimas décadas as suas próprias vítimas: os pequenos filmes, de produção mais ou menos independente, chegam numa desamparada nudez comercial, à procura de espectadores que, provavelmente, nem sequer tomaram conhecimento da sua existência...
Maggie Tem um Plano é um desses filmes. Haveria alguns trunfos promocionais no facto de a sua argumentista/realizadora, Rebecca Miller, ser filha do dramaturgo Arthur Miller (1915-2005) e casada com o actor Daniel Day-Lewis (que, aliás, dirigiu no filme A Balada de Jack e Rose, de 2005). Ainda assim, como é óbvio, seria injusto reduzi-la ao peso simbólico da sua história familiar. Sem necessidade de cauções seja de quem for, ela tem apostado em revitalizar a herança clássica do drama e comédia de Hollywood (“comedy-drama”, como os americanos gostam de dizer), através de títulos como Velocidade Pessoal (2002) ou As Vidas Privadas de Pippa Lee (2009).
Rebecca Miller
Em Maggie Tem um Plano, a personagem central é uma jovem novaiorquina que vive obcecada pelo controle da sua existência. Mobiliza, então, um ex-colega com quem mantém uma relação mais ou menos distante para o seu projecto de auto-inseminação — Maggie quer ser uma mãe solteira, sem implicar nenhum homem nas responsabilidades da sua decisão... A vontade de controlar todos os detalhes do seu projecto não corre exactamente como previsto, impelindo Maggie para uma saga de descoberta e auto-descoberta em que a gravidade dos temas nunca exclui um desconcertante humor.
Estamos, afinal, perante variações sobre a tradicional comédia romântica, de que Uma Noite Aconteceu (1934), de Frank Capra, com Clark Gable e Claudette Colbert, poderá ser a obra-prima de referência. Neste nosso século XXI, Rebecca Miller lida com um contexto bem diferente em que, além do mais, as alusões sexuais não têm o perverso simbolismo do cinema de Capra. Seja como for, o seu trabalho conserva a nostalgia desse cinema apostado em brincar com os prós e contras das relações entre homens e mulheres. Daí a importância dos intérpretes, também eles convocados para um exercício clássico com as nuances da palavra e do silêncio — no papel central de Maggie, Greta Gerwig é mesmo uma daquelas actrizes cuja subtileza e contrastes lhe conferem uma contagiante ironia “fora de moda”.

domingo, junho 26, 2016

"Blockbusters", grau zero

Não um filme-catástrofe, mas uma catástrofe de filme: a sequela de O Dia da Independência é um triste e aparatoso desastre — este texto foi publicado no Diário de Notícias (23 Junho), com o título 'O impasse criativo dos “blockbusters”'.

Será que ainda há alguma réstea de imaginação nos “blockbusters” de Verão? Convenhamos que perante a calamitosa mediocridade de O Dia da Independência: Nova Ameaça a resposta só pode ser negativa. Dir-se-ia que já não há sequer o gosto de criar personagens que dêem alguma hipótese criativa a um respeitável leque de actores (Jeff Goldblum, Bill Pullman, Sela Ward, Judd Hirsch, Charlotte Gainsbourg, etc.). Tudo se passa como se o filme tivesse sido entregue ao departamento de efeitos especiais, de tal modo parece haver mesmo quem acredite que a destruição digital de uma grande cidade em 10 segundos constitui um automático clímax dramático...
Não é simples abordar estas questões, até porque existe o preconceito fortíssimo segundo a qual a crítica menospreza, por princípio, os “blockbusters”. Qual crítica? A mesma que, em 1975, quando a idade dos “blockbusters” começou com o admirável Tubarão, de Steven Spielberg, era insultada na praça pública por se interessar pelas manifestações do “imperialismo americano”?
Mesmo não esquecendo que, ao longo das décadas, tem havido filmes admiráveis que partem dos pressupostos artísticos e comerciais que definem os chamados “blockbusters” de Verão, O Dia da Independência: Nova Ameaça ilustra a trágica degradação de todo um conceito de espectáculo. A começar pela noção de sequela.

A banalidade digital

Estamos, assim, perante a continuação de Dia da Independência (1996), também produzido e realizado por Roland Emmerich. Nesse caso, tratava-se de encenar uma invasão de “aliens” que punha em causa a sobrevivência do planeta Terra — os resultados eram visualmente exuberantes, distinguindo-se por uma mistura de dramatismo e humor que, apesar dos grandiosos meios de produção, fazia lembrar o espírito dos pequenos filmes de “série B” dos anos 50. Agora, o esquematismo das situações parece decorrer apenas da preocupação de criar “números” de espectáculo que se bastam a si próprios, nunca conseguindo superar a estética (?) repetitiva do mais banal jogo de vídeo.
Um dos aspectos mais desconcertantes de produções deste género é a incapacidade para fazer valer os próprios recursos técnicos que têm ao seu dispor (165 milhões de dólares de orçamento não é coisa banal...). O digital passou a ser uma solução, simplista e preguiçosa, para fabricar pequenos “eventos” visuais totalmente estranhos à presença física dos actores — em muitas cenas, temos mesmo a sensação de que os actores são apenas filmados em planos aproximados, de modo a que as suas imagens possam ser “alternadas” com as constantes destruições de cenários digitais, para mais através de uma aplicação banal do 3D.
Bem sabemos que, desde os tempos gloriosos de E Tudo o Vento Levou (1939) até ao requinte de títulos como Missão Impossível: Nação Secreta (2015), o grande espectáculo é indissociável de vistosos aparatos técnicos e cenográficos. Não é isso que está em causa. O que se discute é a redução do espectáculo, precisamente, a uma colagem de explosões e ruídos que talvez dessem para sustentar um spot publicitário de breves segundos... Este é, aliás, um daqueles filmes que parece estar todo “explicado” no respectivo trailer.

Harry Rabinowitz (1916 - 2016)

Lendário maestro britânico de cinema e televisão, nascido na África do Sul, Harry Rabinowitz faleceu em Lacoste, França, no dia 22 de Junho — a 26 de Março, completara 100 anos.
Manteve uma longa relação com a BBC, de meados da década de 50 até finais dos anos 60, tendo dirigido a BBC Revue Orchestra (1953–60), por duas vezes (1964 e 1966) assumindo as funções de maestro da representação do Reino Unido no Festival da Eurovisão; mais tarde, trabalhou na London Weekend Television (1968-1977). Embora tenha assinado algumas composições, sobretudo para produções televisivas, foi como condutor de orquestra que Rabinowitz adquiriu um estatuto de grande prestígio. Colaborou, nomeadamente, com Anthony Minghella (1954-2008), tendo dirigido as partituras de O Paciente Inglês (1996) — aqui em baixo: o tema As Far as Florence —, O Talentoso Mr. Ripley (1999) e Cold Mountain (2003). Na sua filmografia de mais de uma centena de títulos, incluem-se colaborações com Hugh Hudson (Momentos de Glória, 1981), Paul Verhoeven (Robocop, 1987) e James Ivory (Os Despojos do Dia, 1993)


>>> Obituário na BBC.

sábado, junho 25, 2016

"Portugal - Croácia" — fado menor

1º acto — Não jogaram 11,  jogaram 11 milhões...

2º acto — Somos muito bons a sofrer...

3º acto — O Brexit nunca existiu...


>>> "Portugal - Islândia"
>>> "Portugal - Áustria".
>>> "Portugal - Hungria".

Paul Cox (1940 - 2016)

FOTO: Senses of Cinema
Australiano, nascido na Holanda, foi um dos nomes mais internacionais da produção cinematográfica da Austrália, sobretudo ao longo das décadas de 80/90: Paul Cox faleceu a 18 de Junho, em Melbourne, vítima de cancro — contava 76 anos.
Também com um trabalho significativo no domínio da fotografia, Cox impôs-se como retratista de muitas formas de intimidade, nomeadamente através de títulos como O Homem das Flores (1983) e A Minha Primeira Mulher (1984); em A História de uma Mulher (1991) encenou os últimos dias do combate de uma mulher com uma doença cancerígena — a actriz principal, Sheila Florance, estava de alguma maneira a assumir uma postura autobiográfica, uma vez que tinha uma situação clínica idêntica. Uma parte significativa da obra de Cox é de natureza documental: Vincent: The Life and Death of Vincent van Gogh (1987) será, nesse domínio, o seu filme mais conhecido.

>>> Obituário no New York Times.

O que é o Brexit?

MICHAEL KOUNTOURIS
Virtual Brexit
22 Junho 2016
De que falamos quando falamos de Europa?... E, afinal de contas, quando dizemos, repetimos e repetimos a palavra "Brexit", será que estamos todos a falar do mesmo?...
Seguramente que não, quanto mais não seja porque os dias seguintes nos fazem sentir, mais do que nunca, que não há nenhuma argamassa (europeia, justamente) que nos faça dizer o mesmo pelas mesmas palavras. Este extraordinário cartoon do grego Michael Kontouris (publicado na véspera do referendo no Reino Unido) condensa os nossos silêncios, receios e perplexidades — e se vogássemos todos num mar virtual de ideias? Ou numa galáxia de ideias virtuais?
Mais do que nunca, importa olhar o espaço televisivo e perguntar também que Europa vemos e, sobretudo, que Europa construímos através dos discursos, imagens e sons dominantes no pequeno ecrã e na sua plural e perversa ubiquidade — esta crónica foi publicada no Diário de Notícias (25 Junho), com o título 'A Europa mental'.

União Europeia
Por vezes, as coisas mais evidentes são também as que menos vemos. Porque recusamos olhá-las? Não necessariamente. Antes porque as olhamos como dados adquiridos, ilusoriamente transparentes, no pressuposto de que compreendemos automaticamente o que são, o que significam, como nos afectam ou transformam.
Assim a Europa, por exemplo. Dir-se-ia que, por vezes (muitas vezes?), a Europa a que dizemos pertencer já nem sequer nos convoca como coisa nítida. É apenas uma coisa, precisamente — uma coisa cujos sentidos, significações ou ambiguidades já não nos tocam, muito menos mobilizam.
Veja-se televisão. E pense-se um pouco na sua presença nas nossas vidas. Observe-se o labirinto de questões suscitado pelas relações futuras entre Reino Unido e União Europeia. Contemplem-se as imagens de refugiados que já se tornaram uma espécie de rotina amarga, sempre tão longe no ecrã, tão perto na perturbação. Enfim, não nos esqueçamos das convulsões desportivas e urbanas do Europeu de futebol, empolando até à histeria mais gritada (literalmente, sem metáfora...) as noções de patriotismo.
Reino Unido. Refugiados. Futebol. Que linha temática podemos desenhar para ligar estes elementos obsessivos das nossas notícias? Pois bem, todos eles nos falam da nossa Europa, do modo como a percebemos e imaginamos. Ou ignoramos.
Televisivamente, nada disso parece acontecer como evento realmente palpável. São fogachos que circulam, breves clips que alimentam uma ilusão de realismo logo diluída no poder imenso, ritmado e abrangente, das mensagens publicitárias. Na melhor das hipóteses, a Europa mental que construímos através das mensagens televisivas confunde-se, precisamente, com um clímax, breve e ilusório, de natureza publicitária. Desapareceu o sentimento de sagrado, excepto na religião do futebol que, por certo, nos libertará. De quê? Ninguém sabe.

Kyle Craft: a comédia dos sexos

FOTO: Sarah Cass
Admirável revelação do primeiro semestre de 2016, com chancela da Sub Pop, Kyle Craft já tem um teledisco: Eye of a Hurricane é uma insólita comédia dos sexos, filmada com a ligeireza de quem experimenta a fragilidade feliz da sua imagem — a realização é do próprio Craft, em colaboração com Tyler Bertram.

Well you sleep in late but she's up and out the window
Said nothing's gonna carry you to get where the wind blows
Sometimes, she wakes up in the middle of the night cries acid rain
She tried, to ride the fence of falling in love and going insane

Oh, she took you, you were terrified
You're locked in man, your hands were tied
She leaned in just to crush your heart
She plays it cool till the music starts then she's wild
She goes wild

Her mother was a demon but her daddy was the devil
She fed scraps to a six headed hound at the table
Then you charmed and I was blown away the skin in the skies of a mortal man
And darling I, I know I can't take the fire but I can take your hand

Then she burned you
And whispered: Come back when my daddy's gone
We'll kiss down in the catacombs
You knew then that you had to go
Her kiss was sweet her curse was cold and you tried
Yeah you tried
And you still try

Oh, she took you, you were terrified
You're locked in man, you're in her sights
She leaned in when the music stopped
She hit the street when the curtain dropped, you went wild
You went wild