quarta-feira, maio 22, 2019

Madonna nos telhados de Nova Iorque

Mais um video antecipando o lançamento de Madame X (14 Junho), pertencente a uma das canções já divulgadas: Crave, com o rapper Swae Lee, tem agora um belo teledisco assinado pelo português Nuno Xico — um regresso à paisagem mítica dos telhados de Nova Iorque, incluindo a pontuação lírica dos pombos, numa performance de pura celebração sensorial.

CANNES 2019 [Tarantino]

Estes quatro posters são de alguns dos westerns spaghetti (e não só) protagonizados por Rick Dalton ao longo da década de 60. Mais exactamente, Rick Dalton é a personagem de Leonardo DiCaprio no fabuloso Once Upon a Time... in Hollywood, de Quentin Tarantino. Ou como as memórias do cinema são revisitadas através de um dispositivo que desafia a lineariedade do tempo e a autonomia dos géneros — fabuloso de fábula, entenda-se: era uma vez...

terça-feira, maio 21, 2019

CANNES 2019 [realismo]

Ou seja (da esquerda para a direita): Debbie Honeywood, Katie Proctor, Rhys Stone e Kris Hitchen. Serena metodologia cannoise: é tempo de superarmos a estupidez mediática que só leva a consagrar (?) os actores que vestem fatos de super-heróis, quase sempre anulando os seus talentos em patéticos artefactos digitais. Há, continua a haver, e não há razão para pensar que vão desaparecer, cineastas que filmam através de um genuíno amor por aqueles que colocam em frente da câmara. O inglês Ken Loach é um deles. E o seu notável novo filme, Sorry We Missed You, mais uma expressão exemplar da sua fidelidade a um intransigente realismo dos corpos e dos lugares. Esta é a história dramática de uma família como as outras, à deriva no labirinto de uma crise económico-financeira que vai impondo a sua metódica desumanização — cinema político, of course.

segunda-feira, maio 20, 2019

CANNES 2019 [anónimo]

JL
Algures na rue d'Antibes, uma figura discreta, sensível às derivações do cinzento, exerce o seu metódico anonimato — um festival de cinema é essa paisagem em que todos os olhares são pertinentes.

The Raconteurs, opus 3

Esta será a capa de Help Us Stranger, terceiro álbum da banda The Raconteurs, uma das (re)encarnações de Jack White — sai a 21 de Junho e tem este Help Me Stranger como primeiro single.

CANNES 2019 [Cavalier]

O pai da escritora Emmanuèle Bernheim decidiu colocar termo à sua existência numa clínica, na Suíça, especializada na chamada "morte assistida" — sobre esse processo, ela escreveu o livro Tout s'est bien passé. A partir desse livro, Bernheim e o cineasta Alain Cavalier começaram a trabalhar num filme que eles próprios iriam interpretar (Bernheim no seu papel, Cavalier na personagem do pai). O certo é que uma doença súbita da escritora conduziu o projecto a um final abrupto: Être Vivant et le Savoir (à letra: 'Estar vivo e sabê-lo') é o outro filme que Cavalier fez a partir dessa experiência singularmente intimista. Deparamos com mais um exercício minimalista de um dos grandes (e quase sempre esquecido) mestres do cinema francês, deliciando-se e encantando-nos com os poderes das pequenas câmaras "amadoras" que continua a usar, prolongando o trabalho de títulos como René (2002) ou Irène (2009) — ou como o cinema, técnica & método, pode ser um terno bisturi das convulsões dos corpos e das ideias, porventura da alma.

domingo, maio 19, 2019

Madonna na Eurovisão

Se a urgência dos símbolos passou a ser uma componente incontornável das nossas sociedades mediáticas, recordemos os factos: Madonna esteve no Festival da Eurovisão e, ao fechar a sua actuação com o tema Future, na companhia de Quavo, deixou uma mensagem: "Acordem". Mais ainda: dois dos bailarinos, de braço dado, ostentavam duas bandeiras — Israel e Palestina — nas costas. O pós-concerto ficou marcado por um comunicado da European Broadcasting Union, sublinhando o carácter não-político da Eurovisão e também o facto de desconhecerem que as duas bandeiras iriam ser usadas. Fica o registo, sublinhando apenas que a primeira canção da performance se chama 'Como uma oração'. Voilà!

CANNES 2019 [como num filme]

JL
O Palácio dos Festivais não é aquilo que se possa chamar um modelo de sedução arquitectónica. Em 1982, a respectiva inauguração foi mesmo acompanhada por toda uma polémica sobre a sua estética e também a sua funcionalidade. O certo é que garante o contexto adequado a um evento como o Festival de Cannes e, mais do que isso, parece transfigurar-se enquanto imagem, por vezes refazendo-se como cenário eminentemente cinematográfico — eis a baía vista de um dos espaços reservados à imprensa.

sábado, maio 18, 2019

Madonna: reggae em tempo futuro

Not everyone is coming to the future / Not everyone is learning from the past. Madonna envolve-nos numa breve e envolvente viagem no tempo através de Future. Depois de Crave, é mais um tema de Madame X (lançamento a 14 de Junho), desta vez com a colaboração do americano Quavo, um dos três elementos do grupo de hip hop Migos — futurismo com reggae e ânsia filosófica q.b.

CANNES 2019 [História]

História. Assim mesmo, com maiúscula: H-istória. A imagem da celebração da vitória da França no Mundial de Futebol de 2018, nos Campos Elísios, conclui o pré-genérico do brilhante Os Miseráveis, de Ladj Ly — os jovens que irão estar no centro dos acontecimentos do filme diluem-se na multidão. E dá-se um momento mágico e perturbante: o título sobrepõe-se à imagem [de modo semelhante ao que aqui tentei figurar], numa alusão que está para além do banalmente descritivo; Ladj Ly convoca a memória de Vítor Hugo para nos falar de um país marcado pelas diferenças mais extremadas. A acção segue uma patrulha policial através dos recantos mais problemáticos de Montfermeil (precisamente a zona em o realizador, nascido no Mali, começou a viver aos 3 anos de idade) para nos revelar todo um sistema de convulsões económicas, raciais e simbólicas que questionam a própria noção de comunidade — tudo isto sabendo preservar uma sensação física, dir-se-ia visceralmente documental, dos corpos e dos lugares.

CANNES 2019 [Almodóvar]

Não é por acaso que este cartaz francês de Dolor Y Gloria, o filme de Pedro Almodóvar que concorre para a Palma de Ouro (que ele nunca ganhou), apresenta uma sombra de Antonio Banderas que sugere o perfil do próprio Almodóvar. Trata-se, de facto, de um retrato carregado de um confessionalismo tocante, num registo limpo e descarnado que nem sempre terá sido a opção dominante na trajectória criativa do cineasta espanhol — para mim, muito simplesmente, o melhor filme de sempre de Almodóvar.

quarta-feira, maio 15, 2019

CANNES 2019 [star system]

JL
O star system mudou de cenários. Assim, por exemplo, em Cannes: dois intérpretes lendários de James Bond, Roger Moore e Sean Connery, surgem num grande cartaz colocado na parte lateral do edifício da Câmara Municipal, isto enquanto Rooney Mara, em espaço publicitário, parece contrapor o seu mistério à transparência dos dois 007. Ou como o cinema, apesar de tudo, ainda se revela capaz de transfigurar o tecido urbano — persistente poder mitológico ou simbólico canto do cisne?

terça-feira, maio 14, 2019

A violência já não é o que era

Cartaz de Tyler Stout, concebido para o 20º aniversário de Cães Danados
Um quarto de século depois de Pulp Fiction, Quentin Tarantino vai ser, por certo, um dos nomes mais falados da 72ª edição do Festival de Cannes; entretanto, pelo caminho, fomos perdendo os nossos valores cinéfilos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Maio).

Quentin Tarantino parte para a 72ª edição do Festival de Cannes (14-25 Maio) com um curioso trunfo simbólico. Não uma “vantagem”, entenda-se — ninguém duvida da seriedade da competição do maior certame de cinema do mundo. Antes um suplemento mitológico que provém de uma rima que muitas notícias têm sublinhado.
Assim, o seu novo filme, Era uma Vez em Hollywood, evocando os bastidores da indústria cinematográfica da Califórnia no ano de 1969, será projectado na gigantesca sala Lumière do Palácio dos Festivais exactamente 25 anos depois de lá ter sido revelado o seu Pulp Fiction. Para vencer? Se a história se repetir, será a segunda Palma de Ouro para o cineasta americano que tinha sido descoberto, também em Cannes, dois anos antes, com Cães Danados.
Mas há um outro lado da questão. A saga “cannoise” de Tarantino é bem reveladora da progressiva decomposição do espaço cinéfilo. Entenda-se: do esvaziamento de um imaginário enraizado num gosto genuíno pelos filmes, pela capacidade de contarem histórias susceptíveis de desafiar as nossas crenças de espectadores e, no limite, as certezas da nossa ancestral humanidade.
Explico-me. Cães Danados passara em Cannes, em 1992, num ambiente de contraditória euforia. Por um lado, todos ou quase todos reconheceram o talento de um novo cineasta (Tarantino tinha 29 anos) capaz de convocar as matrizes clássicas, em particular do “thriller”, para construir uma narrativa de um fulgor visceralmente trágico. Ao mesmo tempo, por outro lado, circulava um misto de reticência estética e suspeita moral: não seria Cães Danados um filme “demasiado” violento?
O fenómeno repetiu-se com Pulp Fiction. Podemos agradecer a Clint Eastwood, presidente do júri oficial, a serenidade necessária e suficiente para reconhecer ao trabalho de Tarantino a energia de um verdadeiro criador: a Palma de Ouro de 1994 distinguiu um objecto capaz de celebrar o cinema como um processo de permanente reinvenção narrativa que não exclui, antes integra, um sistemático labor com as memórias de outros filmes — eis a definição mais básica de cinefilia.
A meu ver, o debate sobre o “excesso” de violência não passava da expressão de um ideologia pueril, alimentada por um profundo desconhecimento das especificidades das linguagens e, em particular, daquilo que faz uma imagem ser... uma imagem. Na base dessa ideologia está uma ideia grosseira: a de que as imagens não são entidades que integram a nossa relação com o mundo, mas apenas “objectos” automaticamente suspeitos, separáveis do resto desse mesmo mundo, que importa vigiar. Porquê? Porque não temos vontade nem pensamento e podemos ser impelidos a imitar o que nelas vemos.
Curiosa menorização da arte de ser espectador. Para tal perspectiva “purificadora”, é sempre suspeito o facto de um cineasta como Tarantino — no limite, qualquer artista — trabalhar sobre o negrume, por vezes vermelho como o sangue, que habita a nossa contraditória condição humana.
Paradoxalmente ou não, confesso a minha fraqueza. Tenho algumas saudades dos confrontos, mesmo os mais simplistas e improdutivos, gerados por filmes como Pulp Fiction. Existia uma rede social (nada a ver com o artifício da actual expressão “rede social”) de comunicações, encontros e diálogos em que se falava, realmente, de cinema. Agora, desde que uma qualquer produção da Marvel, distribuída pela Disney, consiga alguns milhões de dólares de receitas, o espaço social é automaticamente invadido por celebrações de tesouraria, prevalecendo a sensação bizarra de que os fãs dos super-heróis são todos accionistas de algum dos estúdios envolvidos.
O que assim acontece está muito para além da banal inventariação dos filmes como “melhores” ou “piores”. Estamos a assistir a uma desqualificação sistemática da própria vocação popular do cinema, substituída pelas celebrações virtuais de uma cultura imberbe que funciona em regime “clubista”: descobrir um filme passou a ser encarado como um ritual de fidelidade, mais ou menos ruidoso, a um universo pré-formatado. Nenhuma surpresa, apenas a gratificação menor de integrar um colectivo sem pátria.
Através da recusa de enfrentar a figuração trágica da violência (Tarantino, justamente, é um autor trágico), passando pela crescente infantilização do consumo do cinema, fomos alienando o gosto pela complexidade das imagens: fixamo-las, trocamo-las e apagamo-las através dos nossos telemóveis, cedendo à ilusão de que estamos a construir um admirável novo mundo visual.

CANNES 2019 [Palais]

JL
Ainda se circula com relativo à vontade em frente do Palácio dos Festivais. O novo filme de Jim Jarmusch, The Dead Don't Die, terá honras de abertura oficial da 72ª edição de Cannes (14-25 Maio), aliás com um paralelismo comercial de grande envergadura: o respectivo lançamento ocorre no mesmo dia em França, em mais de 500 salas. Que a festa do cinema comece com zombies, eis um detalhe irónico capaz de apelar aos mais perversos simbolismos...

Doris Day (1922 - 2019)

Poucas actrizes simbolizaram como ela a dimensão genuinamente popular do cinema de Hollywood: Doris Day faleceu no dia 13 de Maio, em Carmel Valley, California, depois de ter contraído uma pneumonia — contava 97 anos.
A sua filmografia pode resumir-se na condensação de uma imagem de felicidade, indissociável dos valores made in USA pós-Segunda Guerra Mundial — assumiu tal imagem com convicção e ironia, tanto no drama como ma comédia. Entre os seus títulos mais famosos, muitas vezes explorando os seus dotes de cantora, incluem-se O Amor É Coisa de Dois (1951), de Michael Curtiz, Diabruras de Jane (1953), de David Butler, e, claro, O Homem que Sabia Demais (1956), de Alfred Hitchcock, com a performance da lendária canção Whatever Will Be, da dupla Jay Livingston/Ray Evan, sempre lembrada como Que Sera, Sera — observem-se os prodígios da mise en scène hitchcockiana.


Entre os seus filmes mais famosos incluem-se ainda Negócio de Pijamas (1957), de George Abbott e Stanley Donen, que lhe valeu a sua única nomeação para um Oscar, Carícias de Luxo (1962), de Delbert Mann, e Não me Mandem Flores (1964), de Norman Jewison. No final da década de 60, abandonou o cinema, dedicando-se durante algum tempo à televisão. Publicou a auto-biografia Doris Day: Her Own Story em 1975. O seu empenho na defesa dos direitos dos animais levou-a a fundar, em 1978, a Doris Day Pet Foundation, depois chamada Doris Day Animal Foundation (DDAF).

>>> Obituário no New York Times.
>>> Site oficial de Doris Day.
>>> Site oficial da DDAF.
>>> A canção I'm Not At All in Love no filme Negócio de Pijamas.