segunda-feira, setembro 26, 2016

Pixies, opus 6

Ao longo de três décadas, os veteranos Pixies editaram "apenas" cinco álbuns de estúdio (o nº 5, Indie Cindy, surgiu em 2014). Agora, está a chegar o sexto: Head Carrier já tem um teledisco de estranhas e envolventes colagens, Tenement Song; além do mais, durante alguns dias pode ser escutado na íntegra, no site da NPR.

The drumsticks were his treasure trove
Found in the ashes of The Coconut Grove

Hey, man, can you give me something?
Hey, man, did you give me something?
Hey, man, nothing comes from nothing
Hey, man, something came from somewhere

Hey, man, it's a tenement song
It's just there on the tip of your tongue
Let's play on a tenement song
On and on and on

(Tenement song)
(Tenement song)
Tall bottle and one more smoke
(Tenement song)
She lived through the fire but the piano got broke
(Tenement song)

Hey, man, can you give me something?
Hey, man, did you give me something?

Hey, man, it's a tenement song
...

"Quarry" — memórias do Vietname

As memórias traumáticas da guerra do Vietname estão na base da brilhante série Quarry — esta crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (23 Setembro), com o título 'Memórias do Vietname'.

Quando deparamos com uma série tão brilhante como Quarry (TV Séries), é inevitável começar por recordar que a sua perturbante memória da guerra do Vietname possui profundas raízes cinematográficas. Trata-se de encenar o dramático regresso de um soldado, expondo uma deriva individual marcada e, de alguma maneira, agravada por uma densa rede de preconceitos sociais. Conhecemos tal contexto através de filmes tão importantes como Os Visitantes (1972), de Elia Kazan, O Regresso dos Heróis (1978), de Hal Ashby, ou O Caçador (1978), de Michael Cimino — são também histórias sobre a decomposição do imaginário clássico dos filmes de guerra.
Quarry inspira-se na série homónima de romances de Max Allan Collins, centrada na personagem de Mac Conway, um soldado dos Marines que, ao regressar da guerra, é arrastado para uma rede de assassinos profissionais. Concebida por Graham Gordy e Michael D. Fuller, para o canal Cinemax, a série distingue-se, antes do mais, pelo seu obsessivo realismo. Dos cenários degradados de Memphis à intensidade muito física dos corpos, Quarry contraria qualquer visão banalmente “descritiva” de factos e personagens — uma parede com a tinta gasta pelo tempo, tanto quanto o suor num rosto angustiado, podem ser entidades que, no ecrã, adquirem uma inusitada vibração emocional.
A realização de Greg Yaitanes, responsável pelos oito episódios desta primeira temporada [trailer], manipula todos esses elementos como peças de um puzzle que tem tanto de íntimo (as memórias traumáticas) como de social (a silenciosa demonização dos que estiveram na guerra). É, além do mais, uma realização que sabe valorizar o trabalho dos actores, com destaque para os magníficos Logan Marshall-Green e Jodi Balfour (respectivamente, Mac e a sua namorada). Ou como a saga cinematográfica do Vietname se prolonga no espaço televisivo.

domingo, setembro 25, 2016

Snowden, Stone, política & tecnologia

Oliver Stone encena a saga de Edward Snowden num filme de fascinante complexidade — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Setembro), com o título 'Como “purificar” as relações entre política e tecnologia?'.

Para o melhor ou para o pior, Edward Snowden inscreveu o seu nome na história política do século XXI. Ao divulgar, em 2013, dados de segurança interna dos EUA e, em particular, dos mecanismos de vigilância da National Security Agency (NSA), o ex-funcionário da CIA transformou-se em pólo necessariamente polémico de uma questão do nosso mundo global: o cruzamento do exercício do poder com a integração das novas tecnologias de detecção de mensagens. O filme de Oliver Stone, Snowden, aponta ao núcleo crítico de tal discussão.
Em boa verdade, mesmo que o discurso de Stone siga noutra direcção, o seu filme está longe de ser um mero panfleto. Há nele uma respiração dramática que evoca os modelos clássicos do cinema liberal de Hollywood. Isto sem esquecer que a palavra (“liberal”) corre sempre o risco de suscitar muitos equívocos, quanto mais não seja porque o que está em jogo não é uma simples posição política, muito menos partidária. É, isso sim, a tensão que se estabelece entre a acção de um indivíduo e o contexto institucional que o enquadra.
Nesta perspectiva, Snowden pode ser considerado um descendente directo de “thrillers” das décadas de 60/70, assinados por cineastas como John Frankenheimer, Alan J. Pakula ou Sydney Pollack (recorde-se o caso exemplar de Três Dias do Condor, de Pollack, em que Robert Redford interpretava um funcionário da CIA perseguido pela própria instituição).
Por mais desconcertante que isso possa parecer, este retrato de Edward Snowden acaba por ser uma variação sobre o mesmo paradoxo existencial que Stone já encenara em títulos como JFK (1991) ou Nixon (1995). No primeiro caso, da investigação sobre o assassinato de John F. Kennedy emergia a figura do procurador Jim Garrison (Kevin Costner), protagonizando um processo que se vai diluindo na encruzilhada de muitos testemunhos e outros tantos silêncios; no segundo, a revelação dos abusos de poder de Richard Nixon (Anthony Hopkins) acabava por lhe conferir uma perturbante emoção trágica.
Cada espectador reagirá de modo diferente (e com toda a legitimidade) às decisões que levaram Edward Snowden a revelar os documentos que revelou. Seja como for, em defesa do trabalho cinematográfico que temos à nossa frente, importa sublinhar a ambivalência dramática que se instala: no limite, Snowden é uma peça solitária de um aparato global que transfigurou todas as relações humanas. Ele que entrou na CIA “para ajudar o seu país”, é, afinal, um filho pródigo de uma paternidade ambivalente, no filme representada pelas personagens do seu austero chefe (Rhys Ifans) e de um sarcástico veterano (Nicolas Cage).
Num plano estritamente ideológico (se é que a fascinante complexidade do filme permite tal separação), podemos questionar Stone pela quase ausência de algum contraponto histórico (que começa, obviamente, na herança do 11 de Setembro). A saber: porque é que a história de Snowden quase não refere a conjuntura geopolítica em que se processa a sua odisseia? O certo é que esse “silêncio” faz parte da visão do mundo do próprio Snowden que, ingenuamente ou não, parece acreditar numa espécie de utópica “purificação” das relações entre política e tecnologia.
Evitando reduzir o mundo a uma dicotomia de “bons” e “maus”, o filme de Stone acaba por possuir o valor radical de uma crónica sobre as contradições do nosso tempo. A notável interpretação de Joseph Gordon-Levitt é um espelho cristalino da saga de Snowden. Em boa verdade, ele queria apenas ser ouvido — o filme confirma que o conseguiu.

sábado, setembro 24, 2016

Os corpos de Ishi

Notável portfolio do fotógrafo Ishi para a edição nº 5 da revista Narcisse — ou o vestuário, não exactamente como um adorno do corpo, antes como a invenção de novas formas para a revelação de outros corpos. Talvez pudéssemos colocar como legenda um velho aviso de Bruce Springsteen: you can look, but you better not touch...

"Taxi Driver" & "Rocky"

Assinalando os seus 40 anos, Taxi Driver está de regresso ao mercado português — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 de Setembro), com o título 'Quando Rocky Balboa ganhou a Travis Bickle'.

Mesmo simpatizando com Sylvester Stallone e a sua personagem do pugilista Rocky, os cinéfilos não esquecem as insólitas opções dos Oscars referentes à produção de 1976. Assim, não foi Taxi Driver que ganhou na categoria de melhor filme, mas sim... Rocky! A saga mitológica de Rocky Balboa sobrepôs-se à tragédia do motorista Travis Bickle, com todos os candidatos de Taxi Driver a serem derrotados: Robert De Niro, nomeado para melhor actor, foi superado por Peter Finch, em Escândalo na TV, de Sidney Lumet (Oscar atribuído a título póstumo); nas actrizes secundárias, onde surgia Jodie Foster, a vencedora foi Beatrice Straight, também em Escândalo na TV; enfim, na música, Bernard Herrmann tinha duas nomeações — por Taxi Driver e Obsessão, de Brian De Palma —, mas o Oscar ficou com Jerry Goldsmith, compositor de O Génio do Mal, de Richard Donner.
Perguntará o leitor: então, e o próprio Scorsese, não ganhou nada?... Assim é: não só não ganhou como nem sequer estava nomeado (esperou ainda mais quatro anos pela sua primeira nomeação para melhor realizador, com Touro Enraivecido). Há outra maneira de dizer isto: o cinema americano atravessava um período de dramáticas transformações, com todos os seus padrões industriais e comerciais a serem questionados.
Nesta perspectiva, não deixa de ser curioso lembrar que 1976 é um ano “entalado” entre dois momentos decisivos na reconversão da produção e, em particular, do seu marketing: em 1975, assistira-se ao mega-sucesso de Tubarão, de Steven Spielberg, inaugurando a idade dos modernos “blockbusters”; em 1977, iria surgir A Guerra das Estrelas, de George Lucas, consagrando um estilo de aventura que, em boa verdade, com resultados melhores ou piores, tem prevalecido até ao presente.
Nas salas, no top dos grandes sucessos do ano (liderado por Rocky), surgiam dois “remakes”, apostando na recuperação de referências clássicas: Nasce uma Estrela, como Barbra Streisand, e King Kong, com a estreante Jessica Lange. Ao mesmo tempo, as memórias ainda muito próximas do caso Watergate (que ditara o fim da presidência de Richard Nixon) eram tema de Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, com Dustin Hoffman e Robert Redford.
Era um tempo contraditório e fascinante em que, por exemplo, um dos génios do classicismo de Hollywood, Elia Kazan, encerrava a sua filmografia com O Grande Magnate, adaptado de F. Scott Fitzgerald — e com um actor principal chamado... Robert De Niro! Aliás, não era o único: Alfred Hitchcock dirigia o brilhante e muito esquecido Intriga em Família que ficaria também como o seu título final (em Itália, Luchino Visconti concluía também a sua actividade com O Intruso).
Assistia-se ao fim de uma era, com todos os símbolos lendários de Hollywood a viver os últimos capítulos das respectivas carreiras: foi também em 1976, por exemplo, que John Wayne rodou o seu derradeiro filme, O Atirador, um “western” amargo e nostálgico realizado por Don Siegel. Na prática, o reconhecimento de alguns dos mais ousados criadores da época começou em paragens europeias. Assim, Taxi Driver veio a Cannes e arrebatou a Palma de Ouro do festival — ironicamente ou não, o presidente do júri era um americano: o dramaturgo Tennessee Williams.

Stones em Cuba — uma noite de glória

Tal como tinha sido anunciado, foi apenas uma noite: o filme Havana Moon, sobre o concerto dos Rolling Stones em Cuba passou no dia 23 de Setembro em cerca de mil salas de cinema de todo o mundo (três delas, da UCI, em Portugal: Lisboa, Porto e Amadora). Digamos, para simplificar, que foi uma noite inesquecível: a banda viveu, de facto, momentos mágicos de comunhão com os espectadores cubanos e a realização de Paul Dugdale é um prodígio de sensibilidade, montagem e inigualável sofisticação técnica — enquanto não chega o DVD, aqui fica a canção Out of Control

sexta-feira, setembro 23, 2016

Angelina Jolie & Brad Pitt

I. Em boa verdade, há um padrão informativo (?) que importa desmontar — uma vez mais, de tal modo esse padrão corresponde a uma vacuidade jornalística que, hoje em dia, tem um poder realmente transversal, global e globalizante.

II. Tudo começou com Mr. & Mrs. Smith (2005), o filme que Angelina Jolie e Brad Pitt rodaram antes de se constituirem como casal — formalmente, casaram-se em 2014 e, como é sabido, estão em processo de divórcio. Ou seja, o padrão é este: as notícias sobre o par são sempre notícias dos outros. Há mesmo grandes "relatórios" noticiosos que se organizam como citações de algo que, algures, foi publicado — veja-se o exemplo sintomático de PopSugar (escusado será sublinhar que o simples título do site é um sinal inequívoco da sua assumida ligeireza).

III. Agora, com a revelação do divórcio Jolie/Pitt [BBC], rapidamente se instalou uma vertigem de informações, insinuações e acusações que, na prática, ninguém assume como suas. Podemos supor, claro, que tais informações, insinuações e acusações transportam algo de factualmente consistente. Mas não é a dicotomia verdade/mentira que aqui se discute — é, isso sim, a redução do trabalho jornalístico a um diz-que-diz em que, em última instância, já ninguém pode (ou quer) ser responsabilizado pelo que quer que seja.

IV. E não deixa de ser cruelmente irónico que tudo isto aconteça com o filme Junto ao Mar [título original: By the Sea] em pano de fundo. Realizado por Jolie, com Jolie/Pitt como par central, coloca em cena um casal a tentar salvar o seu casamento... Alguns paralelismos (?) foram sugeridos, mas mesmo essa sugestão, eventualmente legítima, não passa de uma manobra de diversão. Porquê? Porque quase ninguém viu o filme (sobretudo os jornalistas que fazem notícias a partir do que talvez tenha sido dito por alguém que disse que alguém terá dito...). Junto ao Mar foi um imenso falhanço comercial nos EUA e, na maior parte dos mercados, incluindo o português, apenas surgiu num tímido lançamento em DVD — que seja um filme brilhante, eis o que, desgraçadamente, não tem peso nesta conjuntura.

V. Vão, por isso, agravar-se as notícias mais ou menos irónicas ou sensacionalistas que começarão (já começaram, aliás) a acusar os respectivos protagonistas de serem perversos manipuladores dos media. Não nos finjamos ingénuos: no mundo em que vivemos, todos sabemos que personalidades públicas como Angelina Jolie ou Brad Pitt cuidam de forma muito profissional (discutível ou não) da sua imagem pública. Mas se a questão é a sua "utilização" dos meios de comunicação, porque é que aqueles que os acusam de abuso de imagem não param, imediatamente, de tratar a respectiva vida privada como um teatro de guerra? E em nome de quê nos convocam para acedermos de forma automática, automaticamente irresponsável, a essa vida privada?

A China de Jia Zhang-ke (2/2)

SE AS MONTANHAS SE AFASTAM
Zaho Tao
Com a estreia de Se as Montanhas se Afastam, reencontramos o olhar rigoroso de Jia Zhang-ke sobre o seu país — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Setembro), com o título 'Descobrindo a China através do melodrama'.

[ 1 ]

No Festival de Cannes de 2015, cuja selecção oficial acolheu Se as Montanhas se Afastam, o realizador explicou que os seus filmes partem sempre de paisagens e ambientes que ele gosta de ir registando com uma câmara. É a partir das respectivas imagens que vai elaborando as suas personagens e inventando as respectivas histórias, como quem pergunta se as montanhas podem, ou não, mudar de lugar e conferir novas significações a essas mesmas histórias. Numa declaração eivada de objectividade e poesia, Jia Zhang-ke sugeriu mesmo que uma tradução possível do título original do seu filme (Shan he Gu Ren) seria “Os velhos amigos são como a montanha e o rio”.
Quando Se as Montanhas se Afastam chega ao seu capítulo de 2025, para mais em cenários australianos (os dois primeiros decorrem na China), dir-se-ia que experimentamos uma breve e desconcertante sugestão de ficção científica — afinal, para todos os efeitos, o filme parece propor um desenlace “futurista”. Assim é, sem dúvida: trata-se de questionar como poderão evoluir as relações, afinal tão frágeis, entre as gerações. Seja como for, por calculado paradoxo, experimentamos também a sensação de que o tempo cristalizou. No fundo, aquele futuro é tão só outra maneira de dizer as dúvidas, dores e perplexidades do presente.
Jia Zhang-ke pertence à chamada “6ª Geração” do cinema chinês, sendo a “5ª” (Zhang Yimou, Chen Kaige, etc.) a que, para além da sua subtileza histórica e crítica, colocou a China no mapa mundial do cinema. Há nele uma lógica de trabalho que, integrando sempre alguns sinais de natureza documental, não o impede de ser um brilhante e imaginativo contador de histórias. Os seus filmes constituem um reflexo de uma geração (actualmente entre os 40 e 50 anos) que recebeu a pesada herança da Revolução Cultural maoísta, ao mesmo tempo que tem assistido ao vertiginoso e contraditório desenvolvimento das grandes metrópoles. Na sua filmografia encontramos, por exemplo, uma abordagem da sua cidade, Fenyang, nos tempos conturbados da Revolução Cultural (Plataforma, 2000), ou uma crónica profundamente desencantada sobre o crescimento urbano (24 City, 2008).

O mundo em miniatura

Provavelmente, o seu filme com uma carga simbólica mais forte, e também mais subtil, será O Mundo (2004), rodado no Beijing World Park, de Pequim. No seu centro está uma mulher (de novo Zhao Tao) que participa em performances num parque de diversões que se distingue por exibir requintadas miniaturas de muitos lugares e monumentos emblemáticos dos mais diversos países. É um lugar marcado por rotinas sem grandes perspectivas, especialmente concebido para atrair turistas; ao mesmo tempo, a coexistência de miniaturas de referências universais (Torre Eiffel, pirâmides do Egipto, etc.) transforma aquele “mundo” numa espécie de sonho acordado em que, de forma mais ou menos consciente, todos formulam a hipótese de uma existência alternativa.
Agora, Se as Montanhas se Afastam acaba por funcionar como um capítulo mais desse esforço, de uma só vez emocional e intelectual, para descortinar nos conflitos das gerações algo que harmonize o presente ou, pelo menos, salve o futuro. Nesta perspectiva, é um filme que possui essa capacidade sempre fascinante de ser universal (e universalmente compreensível) a partir dos sinais muito particulares de um país e uma dinâmica cultural muito distante da nossa sensibilidade ocidental. Jia Zhang-ke é alguém que reconhece os efeitos da globalização, mas nunca banalizando a imensa paisagem das infinitas diferenças humanas.

O jornalista na ONU que não sabia
quem é Marcelo Rebelo de Sousa (cont.)

* Ainda bem que a barbárie não tomou conta de todas as regras da Internet.

* Assim, depois da gaffe que cometeu face a Marcelo Rebelo de Sousa (não reconhecendo o Presidente da República Portuguesa), o jornalista francês Martin Weill, do CanalPlus, viu o respectivo video retirado do YouTube, "devido a uma reivindicação de direitos de autor apresentada por TF1 Antennes".

* É bom saber que, quando alguém se sente visado numa situação deste teor, existe uma margem de intervenção que, como aqui fica provado, lhe permite não ter de se sujeitar à divulgação de imagens pessoais que, por alguma razão, considera inadequadas.

* Regista-se, em qualquer caso, a contradição: o tipo de jornalismo que Martin Weill pratica, sempre tão apostado em explorar situações de "apanhados", recua quando as suas próprias figuras no terreno adquirem outro tipo de protagonismo.

* Vamos acreditar que Martin Weill e a sua empresa entraram numa meritória fase de reflexão sobre métodos, fronteiras e valores do jornalismo — de facto, este video (agora invisível) é irrelevante para admirarmos o seu futuro trabalho.

A audácia de pensar [citação]

>>> Para os povos como para os homens, há um momento em que se passa da infância à idade do homem ou, para falar como Kant, de um estado de menoridade em que se é complacente com o não-pensamento para a audácia de pensar por si mesmo e servir-se do seu próprio entendimento.

BERNARD HENRI-LÉVY
Grasset, 2016

quinta-feira, setembro 22, 2016

Novas aventuras dos Beatles (2/2)

Os Beatles estão de volta através de um notável documentário/ensaio de Ron Howard: este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Setembro), com o título 'Bando à parte'.

[ 1 ]

Vale a pena sublinhar a ironia implícita no título do filme de Ron Howard. The Beatles: Eight Days a Week integra uma referência a uma canção emblemática (Eight Days a Week surgiu como primeira faixa do lado 2 do LP Beatles for Sale, lançado em finais de 1964), ao mesmo tempo que consagra uma sarcástica medida do tempo: “oito dias por semana”. Aliás, tão sarcástica quanto romântica, uma vez que a letra proclama um cristalino axioma: “Eight days a week/I love you”. Na verdade, os Beatles podem ser vistos também como uma entidade que introduziu novas medidas no tempo — da criação artística, da percepção do mundo, enfim, da relação do individual com o colectivo.
À distância de meio século, alguns factos parecem querer encaixar uns nos outros como se a história das formas artísticas resultasse de uma metódica e pudica geometria, necessariamente fluida, porventura indecifrável no momento em que vivemos as coisas. Em 1964, a sensação de que o mundo podia estar à beira da auto-aniquilação nuclear estava enunciada através do humor muito negro de Stanley Kubrick, em Dr. Estranhoamor, esse filme desvairado como um concerto dos Beatles cujo subtítulo era “Como aprendi a não me preocupar e adorar a bomba”. E até mesmo a contaminação entre documentário e ficção, que hoje nos pode parecer uma evidência sem história, surgia de modo genuinamente ousado no filme português Belarmino, de Fernando Lopes. Isto sem esquecer que, ainda em 1964, Jean-Luc Godard filmava Anna Karina, Claude Brasseur e Samy Frey como frágeis herdeiros do classicismo de Hollywood. O filme passava-se em Paris e não eram os Beatles que se ouviam, mas Jean Ferrat. O certo é que se chamava Bando à Parte, expressão adequada para qualquer colectivo que saiba estar no centro do mundo.

Curtis Hanson (1945 - 2016)

Consagrado pela Academia de Hollywood graças ao argumento de L. A. Confidencial, o realizador americano Curtis Hanson faleceu no dia 20 de Setembro, na sua casa de Los Angeles, na sequência de complicações decorrentes da doença de Alzheimer — contava 71 anos.
A sua adaptação do romance L. A. Confidencial, de James Ellroy, valeu-lhe, em 1998, um Oscar de argumento (partilhado com Brian Helgeland), ficando como um momento emblemático de revivalismo do noir — o filme, que também realizou, terá sido o momento de maior impacto da sua carreira de quatro décadas; o papel de Kim Basinger foi também distinguido com uma estatueta dourada, na categoria de actriz secundária.
Wonder Boys (2000), sobre a intimidade de um professor interpretado por Michael Douglas, e 8 Mile (2002), com Eminem a assumir um papel ambiguamente auto-biográfico [trailer], serão, talvez, os seus trabalhos mais perfeitos, ambos revelando um sentido dramático especialmente empenhado numa cuidada direcção de actores. Como argumentista de filmes de outros realizadores, vale a pena destacar a sua participação em O Cão Branco (1982), de Samuel Fuller, um perturbante ensaio sobre o racismo. A partir de 1999, presidiu ao UCLA Film & Television Archive. Devido a problemas de saúde, aquele que seria o seu derradeiro filme, Realizar o Impossível (2012), sobre um grupo de surfistas, foi concluído pelo britânico Michael Apted.


>>> Obituário no New York Times.

quarta-feira, setembro 21, 2016

Leonard Cohen: 82 anos, uma nova canção

21 de Setembro de 2016 — no dia do seu 82º aniversário, Leonard Cohen divulgou a canção-título do seu 14º álbum de estúdio, You Wanted It Darker (a lançar a 21 de Outubro): uma delicada e pungente reflexão, aceitando o negrume do que já não cabe no poder das palavras.

If you are the dealer, I'm out of the game
If you are the healer, it means I'm broken and lame
If thine is the glory then mine must be the shame
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker
Hineni, hineni
I'm ready, my lord


There's a lover in the story
But the story's still the same
There's a lullaby for suffering
And a paradox to blame
But it's written in the scriptures
And it's not some idle claim
You want it darker
We kill the flame

They're lining up the prisoners
And the guards are taking aim
I struggled with some demons
They were middle class and tame
I didn't know I had permission to murder and to maim
You want it darker

Hineni, hineni
I'm ready, my lord

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the love that never came
You want it darker
We kill the flame

If you are the dealer, let me out of the game
If you are the healer, I'm broken and lame
If thine is the glory, mine must be the shame
You want it darker

Hineni, hineni
Hineni, hineni
I'm ready, my lord


>>> Site oficial de Leonard Cohen.

O jornalista na ONU que não sabia
quem é Marcelo Rebelo de Sousa

* Como se costuma dizer, a notícia é o acontecimento, não o jornalista.

* Este é um dos casos em que, desgraçadamente, o jornalista se transforma em notícia.

* A saber: na ONU, Marcelo Rebelo de Sousa foi entrevistado em directo por Martin Weill, repórter do Canal Plus (França) que terminou a breve conversa perguntando-lhe a que delegação pertencia e qual o seu cargo [SIC Notícias].

* Importa reconhecer a saudável serenidade com que o Presidente da República Portuguesa lidou com a lamentável situação [leia-se a magnífica crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias].

* Fica, em qualquer caso, uma lição pedagógica cujo incómodo não pode ser iludido. Com duas drásticas alíneas:
1. O espaço televisivo tende a promover "crianças" que não foram minimamente educadas para pensar a responsabilidade do que estão a fazer;
2. Muitas vezes, os directos deixaram de ser formas específicas de investigação ou conhecimento, para existirem como meros momentos de "agitação" mediática.

* Provavelmente, na cabeça de Martin Weill, tudo não passou de um divertimento, ligeiramente incómodo, mas sem importância — afinal de contas, se observarmos o seu Twitter, não é muito diferente das banalidades discursivas com que outros cidadãos gostam de expor publicamente as suas férias ou os encontros com os amigos... Para ele, e outros "jovens" como ele, ser jornalista é uma espécie de interminável viagem de férias pelos exotismos do planeta.

* Ainda mais chocante do que tudo isso é o coro de diversão (?) que rapidamente se instalou no estúdio do Canal Plus [video]— o locutor a brincar com a situação e o público informe a aplaudir! Na prática, vivemos sob a ditadura dos "apanhados": neste mundo fátuo, ser cidadão é participar numa exuberante cerimónia de esvaziamento de qualquer forma de responsabilização.

Lady Gaga no deserto

Será que a capacidade de, com competência e profissionalismo, gerar uma canção-hino, vibrante e dançante, nostálgica dos anos 80, é apenas o que podemos legitimamente esperar de Lady Gaga? Diria que não. Sobretudo porque se renova a sensação de que o seu imenso talento permanece sub-aproveitado na aposta (?) em aceder ao cognome de nova 'Rainha da Pop'. Não vem daí grande mal ao mundo e o single Perfect Illusion justifica, no mínimo, que aguardemos o novo álbum — Joanne (21 Out.) — com o mais sereno e respeitoso benefício da dúvida.
Para já, o teledisco da canção apresenta-a num delírio algo auto-complacente, com a iconografia do deserto a sugerir uma solidão tingida de desespero. Ilusão perfeita?

terça-feira, setembro 20, 2016

Charmian Carr (1942 - 2016)

Ficou famosa pelo seu papel de Liesl Von Trapp, a filha mais velha da família de Música no Coração: Charmian Carr faleceu no dia 17 de Setembro, em Los Angeles, devido a complicações decorrentes de uma forma rara de demência — contava 73 anos.
A sua carreira foi tão breve quanto fulgurante. Em boa verdade, quando se resume ao mega-sucesso de Música no Coração, o lendário The Sound of Music (1965), de Robert Wise, melodrama histórico & musical sobre uma família austríaca que foge da ameaça nazi: Carr interpretou Liesl, personagem de 16 anos, quando já tinha 22. Embora ainda tivesse experimentado a televisão e o musical, rapidamente desistiu, preferindo dedicar-se à família — veio a criar uma empresa de design, muito bem cotada na comunidade de Hollywood. Em 2000, publicou um livro de memórias, significativamente intitulado Forever Liesl.


>>> Canção Sixteen Going on Seventeen, do filme Música no Coração — Charmian Carr e Daniel Truhitte.


>>> Obituário no New York Times.