segunda-feira, junho 25, 2018

A cidade, o arquitecto e o cinema

* COLUMBUS, de Kogonada
[ DN, 21-06-18 ]

Nome sobretudo conhecido através de ensaios videográficos sobre os mais diversos cineastas (Alfred Hitchcock, Jean-Luc Godard, Ingmar Bergman, Stanley Kubrick, David Fincher, etc.), o sul-coreano Kogonada assina aqui uma magnífica ficção centrada na odisseia intimista de um homem que viaja da Coreia até aos EUA — e, mais especificamente, à cidade de Columbus, Indiana — para visitar o seu pai, um arquitecto gravemente doente. A cidade, justamente, acaba por ser a primeira e decisiva personagem, desenhando um mapa de abstracções visuais e afectivas através dos seus deslumbrantes edifícios.
O resultado é uma delicada teia “psicológica” através da qual o cinema se afirma como conjugação das palavras e dos lugares, das imagens e da arquitectura — em resumo, um pequeno e deslumbrante ovni.

Paul McCartney: duas novas canções

Aos 76 anos (celebrados a 18 de Junho), Paul McCartney anuncia um novo álbum, o 17º da conta pessoal: chama-se Egypt Station e estará nas lojas a 7 de Setembro. O primeiro single contém um poderoso tema rock, Come On to Me, e uma balada de sedutor primitivismo, I Don't Know — para já, temos os respectivos lyric videos.




>>> Site oficial de Paul McCartney.

domingo, junho 24, 2018

A IMAGEM: Elliott Erwitt, 1950

ELLIOTT ERWITT
Pensilvânia, Pittsburgh
1950

* Bergman + Bernstein
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]


Cinema e música cruzam-se nas celebrações do centenário de Ingmar Bergman e Leonard Bernstein, ambos nascidos em 1918 — propomos uma viagem, com imagens e sons, pelas suas obras fascinantes.

* FNAC (Chiado) — hoje, 24 Junho, 18h30

Parábola sexual, comédia romântica (1/2)

Com Amor, Simon é aquilo que se poderia chamar uma parábola sexual que não abdica de ser uma comédia romântica — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Junho), com o título 'Hollywood propõe retrato de jovem gay em tom de comédia'.

Quando é que tudo começou? Talvez com o advento da MTV, no começo da década de 1980. Ou antes, na viragem para os turbulentos anos 60, com Elvis Presley a ensinar-nos que os corpos também têm ritmos próprios, inventando razões que a razão desconhece... Uma coisa é certa: fomos assistindo à metódica consolidação de uma cultura juvenil que, agora, neste nosso não demasiado sereno século XXI, existe, de uma só vez, como universo de muitas introspecções, caldeirão de valores sociais e... mercado global.
Evitemos, por isso, os esquematismos de horário nobre — estamos perante uma paisagem imensa (feita de música, jogos, telemóveis, filmes, livros, etc.) que resiste a generalizações fáceis. Reparemos apenas na tocante singularidade narrativa, cúmplice de uma discreta inteligência dramática, de um filme como Com Amor, Simon. Afinal, mesmo em tempos de muitas e salutares abordagens das complexidades da vida sexual, não é todos os dias que deparamos com o retrato de um jovem homossexual que não quer “sair do armário”.
Realizado por Greg Berlanti, o filme conserva uma componente essencial do romance de Becky Albertalli em que se baseia, editado entre nós como O Coração de Simon Contra o Mundo, agora relançado com o título do filme (Porto Editora): Simon, interpretado por Nick Robinson, é um estudante de liceu da cidade de Atlanta, Georgia, que nunca revelou à família ou aos colegas o facto de ser homossexual. O único “lugar” em que se assume é o mundo virtual: ao saber da existência de um misterioso “Blue” que, na Internet, se apresenta como homossexual, Simon cria uma identidade fictícia (“Jacques”) e começa a corresponder-se, por e-mail, com “Blue”...

Comédia romântica

Com Amor, Simon surge num contexto cultural e de consumo (e uma coisa envolve sempre a outra) em que vamos deparando com muitas e contrastadas narrativas apostadas em discutir as formas mais tradicionais de abordagem dos comportamentos sexuais. E não deixa de ser curioso referir que a autora do romance, actualmente com 35 anos (a primeira edição do livro surgiu em 2015), seja formada em psicologia, tendo trabalhado como terapista até 2012 — em qualquer caso, Albertalli faz questão em sublinhar o carácter confidencial dos tratamentos que conduziu, recusando qualquer paralelismo entre os seus pacientes e as personagens do livro e do filme.
Na introdução a uma entrevista com Albertalli publicada em The Hollywood Reporter, o jornalista Michael Waters arrisca mesmo afirmar que Com Amor, Simon vai entrar na história como “o primeiro filme sobre um romance gay e adolescente produzido por um grande estúdio de Hollywood”. Talvez. Ainda assim, em tal descrição, a pedra de toque não será exactamente a condição “gay e adolescente” do protagonista, mas sim o facto de estarmos perante um “romance”.
Assim é: para além de qualquer universo militante ou político em que o possamos inscrever, Com Amor, Simon é... uma comédia romântica. E talvez seja essa a sua fundamental lição cinematográfica e humana: a de que o cinema de Hollywood, mesmo nos seus registos (ditos) mais ligeiros, continua a ser capaz de nos envolver nos destinos de personagens “como todos nós”, seja qual for o seu sexo, orientação sexual ou cor da pele.

sábado, junho 23, 2018

Jorge Jesus não foi para a Coreia

FRANCIS BACON
Cabeça de Homem
1960
A. Uma das mais curiosas observações que algumas pessoas têm feito publicamente sobre Bruno de Carvalho tem a ver com aquilo que será a sua incapacidade para lidar com o mundo à sua volta: "Bruno de Carvalho nega a própria realidade..."

B. Discutir as convulsões do Sporting (ou qualquer outro tema dito futebolístico) não tem a ver, nem de longe nem de perto, com estas breves linhas. Vale a pena, isso sim, perguntar porque é que aqueles que evocam a pertinência daquilo a que chamam realidade não reconhecem a pergunta/espelho que atraem. A saber: como é que esta realidade gerou a personagem pública de Bruno de Carvalho?

C. Consequências práticas: há longos meses, depois das investigações em torno do Benfica (como, noutro contexto, em torno do F. C. Porto), a crise no Sporting foi promovida a questão nacional, sendo tratada como uma catástrofe iminente da nossa identidade como povo e nação. O futebol passou mesmo a ser apresentado como a nossa única razão de existir — e para existir. Hoje, por exemplo, lemos que as duas Coreias se mostram disponíveis para reuniões no sentido de reunificar as famílias separadas pela guerra de 1950-53 — o certo é que neste nosso cantinho (que se quer) europeu, a notícia mais transversal do dia é a assembleia geral do Sporting... Aliás, não: o grande destaque é a partida de Jorge Jesus para a Arábia Saudita. Pois.

8 mulheres à procura de um filme

Belo e sugestivo cartaz... E o resto? Ocean's 8 tenta repetir Ocean's 11, agora em tom feminino: as referências são boas, mas falta o cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Junho), com o título 'Foi você que disse Billy Wilder?'.

Face à monótona colagem de anedotas, disfarçada de filme de aventuras mais ou menos policiais, que encontramos em Ocean’s 8, talvez seja inevitável reconhecer que o filme irá dar entrada numa certa história “sociológica” destes nossos tempos conturbados. Daqui a muitas décadas, os investigadores talvez o venham a reconhecer (e celebrar) como exemplo de uma revalorização de temáticas femininas, indissociável de todo um processo de denúncia de desigualdades no interior do sistema de Hollywood.
Será que tais investigadores formularão a mais básica questão de linguagem? A saber: em que é que a figuração, por actrizes, de estereótipos de espectáculo tradicionalmente masculinos engrandece os valores femininos, eventualmente feministas?
Convenhamos que o espaço mental para tal discussão quase não existe. Porque a simples chamada de atenção para a necessidade de pensar as linguagens que usamos (homens, mulheres ou extraterrestres) está condenada a atrair uma qualquer gritaria “social”, denunciando aquilo que seria uma tentativa de branqueamento dos crimes de que são acusados Harvey Weinstein e alguns outros homens de Hollywood.
Como? O drama é terrível. Por um lado, Ocean’s 8 nem sequer consegue retomar o humor de Steven Soderbergh na série iniciada com Ocean’s Eleven (2001), que desmontava com contagiante alegria muitos lugares-comuns machistas e até, pequeno detalhe, fabricando uma personagem de radiosa independência e inteligência interpretada por Julia Roberts. Por outro lado, na análise do frente a frente masculino/feminino, suas maravilhas e equívocos, um filme como Quanto Mais Quente Melhor (1959) supera todos os espectáculos politicamente esquálidos que hoje se fabricam. Em boa verdade, já estivemos mais longe de Billy Wilder ser inscrito em alguma lista negra...

>>> Trailer de Quanto Mais Quente Melhor.

sexta-feira, junho 22, 2018

A IMAGEM: Ziga Mihelcic, 2018

ZIGA MIHELCIC
Jessica Chastain
Vogue Arabia, 2018

St. Vincent, + fast

Segundo a própria St. Vincent, a sua canção Slow Disco nasceu para viver "muitas vidas diferentes". De tal modo que até já criou uma versão "acelerada", adequadamente intitulada Fast Slow Disco. É essa versão que surge, agora, em ambiente de clube gay de Nova Iorque, num teledisco de contagiante energia — realização de Zev Deans.

quinta-feira, junho 21, 2018

Imagens e sons do século XXI

"Eu não vejo televisão" — eis uma afirmação corrente que importa discutir. Eduardo Cintra Torres parte dessas palavras supostamente evidentes para mostrar e demonstrar como, através delas e, sobretudo, para além delas, podemos aceder a um universo multifacetado em que, em última instância, se discute a nossa própria condição de espectadores. Com componentes que passam por questões tão marcantes, e também tão universais, como:
— as novas condições de consumo dos conteúdos televisivos (Internet, boxes, etc.), já não dependentes da obrigação de seguir as emissões em directo;
— a própria fragilização do conceito de "canais generalistas";
— a permanente e multifacetada contaminação de muitas formas de ficção, não poucas vezes relativizando a "distância" entre televisão e cinema.
Na sua brevidade, Televisão do século XXI (Universidade Católica Editora) propõe uma síntese tão incisiva quanto pedagógica sobre aquilo que é, hoje em dia, o audiovisual. Porventura levando-nos a reconhecer que a própria palavra "audiovisual" se tornou inadequada — ou, pelo menos, insuficiente — para lidarmos com as paisagens imensas, tão globais quanto particulares, tão presentes quanto futuristas, de imagens e sons. 

quarta-feira, junho 20, 2018

"Last Exit Before Brexit"

O escritor e filósofo francês Bernard-Henri Lévy encara o Brexit como um desastre anunciado (ainda que não consumado...), não apenas para a identidade nacional do Reino Unido, mas para a coesão cultural, económica e política da Europa. Para dar conta da sua visão, escreveu uma peça de teatro, Last Exit Before Brexit, um monólogo que ele próprio tem interpretado, nomeadamente em Londres, no palco do Cadogan Hall. Por altura dessa performance, Lévy foi convidado de Christiane Amanpour, nos estúdios londrinos da CNN — da Europa aos EUA, passando por Macron e Trump, uma conversa fascinante.

Lichtenstein no Colombo

1. Em matéria de dinâmica cultural, o cliché dominante — amplamente sustentado pelos partidos políticos, direitas e esquerdas confundidas — esgota-se num piedoso voluntarismo. A saber: essa dinâmica resultaria apenas da acção de acontecimentos específicos e circuitos especializados. Tal cliché é incapaz, por exemplo, de pensar uma evidência (com mais de 40 anos...) do contexto português: como discutir os problemas culturais e financeiros (é a mesma coisa) do cinema português omitindo qualquer referência ao poder normativo das telenovelas?

2. A evocação de tais questões vem a propósito deste curioso e desconcertante testemunho cultural. Assim, através da principal chamada de capa do jornal Destak, ficamos a saber que um conjunto de obras de Roy Lichtenstein (1923-1997), figura emblemática da Pop Art, está disponível no Centro Comercial Colombo (até 23 de Setembro).

3. Sinais destes tempos de muitos cruzamentos: um artista consagrado pelos compêndios culturais está exposto num centro comercial. Mais do que isso: o acontecimento surge divulgado, não através de uma qualquer publicação ou circuito "especializado", mas sim nas páginas de um jornal gratuito. Evitemos, por isso, a facilidade televisiva dos "prós" e "contras" (ou, como no futebol, a procura de um "culpado" para cada golo marcado). Digamos apenas que o mundo em que vivemos é feito destas contaminações — e também que é legítimo supormos que Lichtenstein seria o último a queixar-se.

>>> Site oficial da Fundação Roy Lichtenstein.

APV na Cinemateca

[ Cinemateca Portuguesa ]
A filmografia de António-Pedro Vasconcelos é acontecimento central, na Cinemateca, até finais de Julho — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Junho), com o título 'Elogio do velho Cinema Novo'.

Mais do que nunca, importa lidar com a herança do Cinema Novo português para além de qualquer facilidade nostálgica. Revelada nas décadas de 1960/70, a geração de cineastas que emulou a ousadia criativa da Nova Vaga francesa deixou um legado cuja energia não se dissipou. Mais do que isso, a sua memória estética e ideológica enriquece o debate actual sobre as encruzilhadas do cinema. Prova muito real dessa energia: a filmografia de António-Pedro Vasconcelos (n. 1939), actualmente em retrospectiva na Cinemateca (até final de Julho).
Percorrer essa filmografia será tanto mais estimulante quanto o trabalho de APV há muito se libertou de qualquer dependência simbólica das suas raízes artísticas. Aliás, como realizador e polemista, ele tem sido uma personalidade muito interveniente na questão (contemporânea, por excelência) das relações narrativas e financeiras entre cinema e televisão.
É bem provável que a maioria dos espectadores associe o seu nome ao fenómeno que foi o filme O Lugar do Morto (1984), um “thriller” de sucesso protagonizado por Ana Zanatti e Pedro Oliveira. Sempre me pareceu redutora a visão do filme como um exemplo de conciliação entre “qualidade” e impacto “comercial” (acabando por atrair os fundamentalismos mais conflituosos). De facto, tal visão minimiza algo de essencial no gosto narrativo de APV. A saber: a procura de um romanesco em grande parte ligado a lições de mestres de Hollywood, capaz de conciliar o apelo romântico com a atenção crítica à evolução dos usos e costumes sociais. Exemplo mais próximo é, a meu ver, a subtileza emocional e acutilância crítica do seu Call Girl (2007).
Curiosamente, tal gosto tem levado APV a experimentar singulares relações com as convulsões da história colectiva. O exemplo mais sugestivo será Adeus, Até ao Meu Regresso (1974), incontornável memória da nossa Guerra Colonial e, em particular, como o título indica, das “mensagens de Natal” dos soldados difundidas pela televisão do Estado. Mas importa não esquecer, num registo bem diverso, Aqui d’El Rei! (1991), por certo o mais ambicioso projecto de produção de APV, mini-série televisiva (que também teve uma versão para cinema) sobre a expedição de Mouzinho de Albuquerque a Moçambique, em finais do século XIX, para capturar Gungunhana [video, arquivo RTP].
No seu ziguezague temático e criativo, a obra de APV nunca abdicou de questionar os valores do ser (ou não ser) português. Nessa medida, cumpre os desígnios do Cinema Novo, transfigurando-os para as convulsões do tempo presente.

terça-feira, junho 19, 2018

Martin Bregman (1926 - 2018)

Produtor americano muito ligado à carreira de Al Pacino, Martin Bregman faleceu no dia 16 de Junho, em Nova Iorque, vítima de hemorragia cerebral — contava 92 anos.
Depois de ter trabalhado no sector imobiliário, começou a representar diversos actores, incluindo Al Pacino, Barbra Streisand e Bette Midler. Foi com Serpico (1973), de Sidney Lumet, baseado numa personagem verídica da polícia de Nova Iorque, que Bregman se estreou como produtor, oferecendo o papel principal a Pacino — Bregman descobrira-o, poucos anos antes, numa produção off-Broadway, tendo-lhe conseguido o seu primeiro papel importante em cinema no filme Pânico em Needle Park (1971), de Jerry Schatzberg.
Com uma relação especial com Pacino e Lumet, produziu também Um Dia de Cão (1975), exemplo maior de um realismo à flor da pele, indissociável das convulsões sociais e simbólicas da década de 70 [trailer]. Scarface (1983), de Brian De Palma, Perigosa Sedução (1989), de Harold Becker, e Perseguido pelo Passado (1993), de novo de De Palma, todos eles com Pacino, são outros momentos marcantes da sua filmografia. Com Um Dia de Cão obteve a sua única nomeação para um Oscar (melhor filme).


>>> Obituário no New York Times.