segunda-feira, maio 29, 2017

CANNES: matéria e ilusão

FOTO: JL
A matéria de que se faz o cinema integra a ilusão como valor fundamental. De tal modo que a sua proliferação no quotidiano parece contaminar tudo com a promessa de um tempo outro em que todos seríamos personagens de um universo alternativo — uma montra da rue d'Antibes pode ser, assim, o mapa de uma galáxia de espelhos e reflexos.
[ SOUND + VISION / METROPOLIS ]

domingo, maio 28, 2017

Filme sueco vence Cannes

[ FESTIVAL DE CANNES ]
Assim vai o mundo: Ruben Östlund, realizador de The Square, achou por bem comemorar a sua Palma de Ouro pedindo ao público do Grande Auditório Lumière que... berrasse com ele!
Infelizmente para nós, o seu filme não passa de uma bem intencionada comédia de costumes sobre a "crise", conseguindo disfarçar os limites da sua visão através de alguma contenção formal e, em particular, de um leque de talentosos actores.
O júri da edição nº 70 de Cannes, presidido por Pedro Almodóvar, não só cometeu a proeza de deixar de fora do seu palmarés o objecto mais radical do certame — Happy End, de Michael Haneke —, como acabou por produzir uma lista de coisas dispersas que reflecte mal a pluralidade da selecção oficial (das menos estimulantes dos últimos anos, importa também acrescentar).
Para a história, foi assim:

Palma de Ouro
THE SQUARE, de Ruben Östlund

Prémio do 70º Aniversário
Nicole Kidman

Grande Prémio
120 BATTEMENTS PARA MINUTE, de Robin Campillo

Prémio de realização
Sofia Coppola, por THE BEGUILED

Prémio de interpretação masculina
Joaquin Phoenix, por YOU WERE NEVER REALLY HERE

Prémio de interpretação feminina
Diane Kruger, por IN THE FADE

Prémio do Júri
LOVELESS, de Andrey Zvyagintsev

Prémio de argumento (ex-aequo)
Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou, por THE KILLING OF THE SACRED DEER
Lynne Ramsay, por YOU WERE NEVER REALLY HERE

>>> Palmarés no site oficial do festival.

SOUND + VISION na FNAC [dia 31]
— Eurovisão + Cannes


A Europa em dois festivais: o da Eurovisão da Canção (ganho por Portugal!) e o de cinema de Cannes — de regresso à FNAC, propomos uma viagem através de dois momentos marcantes da actualidade cultural e mediática.

* FNAC Chiado — 31 Maio, 18h30.

Gregg Allman (1947 - 2017)

Co-fundador de The Allman Brothers Band, teve uma carreira sempre ligada ao rock e às sonoridades do Sul dos EUA: Gregg Allman faleceu no dia 27 de Maio, na sua casa de Richmond Hill, Georgia, vítima de cancro no fígado.
Nascido em Nashville, Tennessee, Allman consagrou, com o irmão Duane Allmann (1946-1971), um estilo capaz de cruzar blues e rock, country e uma constante disponibilidade para as jam sessions — nesta perspectiva, podem considerar-se discípulos muito directos de Jerry Garcia e dos Grateful Dead. O seu primeiro disco a solo, Laid Back, surgiu em 1973; o derradeiro, Southern Blood, tinha lançamento previsto para o ano corrente. Este é um registo recente de um concerto em Macon, Georgia, interpretando Midnight Rider — a canção pertence a Idlewild South (1970), segundo álbum de The Allman Brothers Band.


>>> Obituário no New York Times.

Uma clarinetista no universo
de Philip Glass


Em 2008 a australiana era ainda para muitos (sobretudo deste lado do mundo) uma ilustre desconhecida quando se apresentou em disco num álbum que juntava uma versão para saxofone solista do Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra de Philip Glass, completando o alinhamento do disco com The Protecting Veil de John Tavener e Where The Bee Dances de Michael Nyman. O talento que ali demonstrava, conciliando um sentido de precisão com as marcas pessoais de uma interpretação que parecia coisa feita sem esforço, natural como a respiração, cativou atenções e desde logo dela fez uma das autoras de uma das mais significativas abordagens à obra de Glass exterior à discografia oficial do compositor cuja obra teve o saxofone como presença determinante sobretudo na obra composta para o ensemble na sua fase minimalista.

É curiosamente de peças de uma etapa em que um sentido mais lírico tomou a alma da composição de Glass que Amy Dickson colhe as peças que chama a um disco que dedica, na íntegra, ao compositor. Editado pela Sony Classical, Glass junta à gravação já célebre do Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra uma breve incursão pela música criada para o filme As Horas de Stephen Daldry – em Morning Phases e Escape – em momentos nos quais o saxofone partilha o protagonismo com o piano. O disco abre com uma leitura (magnífica) de uma versão para saxofone da Sonata para Violino e Piano, retomando ali – mas numa obra que reflete outras demandas de liberdade na música de Glass – um modelo de trabalho semelhante ao aplicado na gravação de 2008, afinal, a peça que abriu (e bem) todo este conjunto de abordagens.

Brian Eno juntou-se aos The Gift
para cantar “Love Without Violins”



O produtor e músico Brian Eno juntou-se em palco aos The Gift durante o concerto que a banda deu esta semana na sala londrina Bush Hall para ali cantar em conjunto com Sónia Tavares o tema Love Without Violins, que foi o single de apresentação do recentemente editado Altar.

A digressão internacional de apresentação do disco, depois das passagens pelo The Great Escape em Brighton e o Bush Hall de Londres dirige-se para a Maschinenhaus em Berlim, onde atuam a 30 de maio. Os The Gift estarão depois em Nova Iorque a 24 de junho. Este concerto está incluído na programação do Summer Stage, em pleno Central Park.

CANNES: próximo da loucura

Segundo a lei francesa, 12 dias é a duração máxima durante a qual um indivíduo pode ser internado sem consentimento num hospital psiquiátrico; passado esse período, numa sala de audiências do próprio hospital, tendo em conta os relatórios médicos, um juiz tem de avaliar se o internamento do paciente deve ou não ser prolongado. Raymond Depardon, fotógrafo da Magnum (lembremos as suas espantosas imagens dos conflitos no Líbano) e notável documentarista, filma, justamente, essas audiências. Na sua brevidade de menos de hora e meia, o seu filme, intitulado apenas 12 Dias, é um pequeno prodígio de uma verdade eminentemente física que, em última instância, nos aproxima da loucura e dos seus sobressaltos — sem atitudes panfletárias nem moralistas, eis um dos objectos mais singulares de todo o festival.

[ SOUND + VISION / METROPOLIS ]

sábado, maio 27, 2017

Na morte de José Manuel Castello Lopes

Gérard Castello Lopes e José Manuel Castello Lopes
[FOTO: Cinemateca]
Com a morte de José Manuel Castello Lopes, no dia 25 de maio, aos 86 anos de idade, desapareceu uma figura central na história da distribuição/exibição cinematográfica em Portugal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Maio), com o título 'Os caminhos da cinefilia'.

Conheci José Manuel Castello Lopes em 1972, quando a sua distribuidora inaugurou o cinema Londres com Morrer de Amar, um drama de André Cayatte protagonizado por Annie Girardot. Na altura, Filmes Castello Lopes era a marca dominante da distribuição/exibição, não só pela sua dimensão nacional, mas também pela vitalidade do seu catálogo.
Desde clássicos como E Tudo o Vento Levou e O Feiticeiro de Oz (ambos de 1939), até algumas das grandes referências das “novas vagas”, incluindo O Acossado (1959), de Jean-Luc Godard, e Blow Up (1966), de Michelangelo Antonioni, a empresa dispunha de um catálogo de enorme diversidade. Isto para além de nele se incluírem alguns dos fenómenos mais espectaculares da década de 60, como Cleópatra (1963) ou Música no Coração (1966). Quando se dá a explosão dos blockbusters americanos, a sua posição seria reforçada pelo facto de, em 1977, como detentora dos direitos dos filmes da 20th Century Fox, a Castello Lopes distribuir A Guerra das Estrelas (numa altura em que o marketing ainda não tinha imposto a “obrigação” de apenas usar a expressão Star Wars).
Com o seu irmão, o admirável fotógrafo Gérard Castello Lopes (1925-2011), José Manuel Castello Lopes conduziu, assim, os destinos de uma empresa ligada ao conhecimento cinematográfico e à formação cinéfila de várias gerações de espectadores. Dele não posso fazer qualquer retrato próximo, muito menos íntimo, mas permito-me recordá-lo como um genuíno conhecedor de cinema e também um sarcástico provocador dos críticos que “destruíam” os seus filmes... O humor com que o dizia, olhos nos olhos do seu interlocutor, é uma memória saborosa que vale a pena conservar, lembrando que o trabalho para dar a ver a pluralidade interna do cinema é sempre um valor insubstituível.

CANNES: Twin Peaks, 2017

O agente Dale Cooper, aliás, Kyle MacLachlan envelheceu — parecendo que não, passaram-se 25 anos desde a estreia de Twin Peaks. Agora, a apresentação da nova temporada de 2017 (dois episódios em sessão especial da selecção oficial) veio confrontar-nos com um desconcertante paradoxo: o tempo passou, mas a lógica interna de Twin Peaks permanece gloriosamente idêntica. Que é como quem diz: uma máquina ficcional capaz de desafiar qualquer modelo corrente de verosimilhança televisiva, em boa verdade abrindo para as glórias oníricas do cinematógrafo. Porquê cinematógrafo? Porque David Lynch nos volta a enredar na verdade mais primitiva do acto cinematográfico — não reproduzir o mundo, antes celebrar a impossibilidade de qualquer reprodução. Sejamos sinceros: tudo é ficção.

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sexta-feira, maio 26, 2017

CANNES: cubismo

FOTO: JL
Diane Kruger num dos ecrãs do Palácio dos Festivais (durante uma entrevista sobre Aus dem Nichts, de Fatih Akin). A sala grande (Lumière) fica para a esquerda da vidraça; o ecrã está colocado na varanda da sala de imprensa; em cima, a dança de Claudia Cardinale tutela a manhã, ainda nublada, de Cannes. Talvez que o festival seja também (seja mesmo sobretudo) esta paisagem cubista em que a sobrecarga de informações visuais gera um acontecimento, antes mesmo de celebrar os filmes (porventura, em alguns casos, ignorando-os). O certo é que Cannes consegue preservar este sentimento de que o cinema pertence a uma paisagem específica, insubstituível, em que o maravilhamento ainda é possível. Será mesmo um sentimento? Ou uma ideologia? Poderá a cinefilia ser a derradeira ideologia a acreditar na inocência?

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CANNES: Darya Zhovner

A star is born... diz a velha máxima herdada dos clássicos de Hollywood. Em todo o caso, fiquemo-nos pela dimensão mais básica: assistir ao nascimento de um actor ou actriz pode ser um deslumbrante evento. Cannes não tem sido alheio a tal dinâmica — é mesmo um cenário ideal para que tal aconteça. Registemos, por isso, o nome de Darya Zhovner, ainda ausente das listas de IMDb, Wikipedia e afins... No filme russo Tesnota (Closeness, na versão inglesa), ela é uma inigualável aparição, capaz de expor as convulsões de uma personagem que tudo quer fazer, incluindo desafiar os limites do amor, para libertar o irmão, raptado na zona norte do Cáucaso, em 1998. Retratando com surpreendente minúcia e intensidade a vida da comunidade judaica dessa zona, o filme possui uma radical dimensão trágica, revelando também um outro nome que convém colocar nas nossas agendas cinéfilas — cineasta russo, estreante nas longas-metragens, chama-se Kantemir Balagov.

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quinta-feira, maio 25, 2017

A IMAGEM: Jacopo Raule, 24-05-2017

JACOPO RAULE
Jessica Chastain em Cannes
W, 24-05-2017

CANNES: reencontro com Sharunas Bartas

Grande filme do lituano Sharunas Bartas na Quinzena dos Realizadores: Frost narra a odisseia de um par de jovens lituanos que, numa missão humanitária à Ucrânia, vão encontrar um universo de amarga decomposição das relações humanas e, enfim, das convicções políticas. Revelado entre nós no começo dos anos 90, pelo Fantasporto, Bartas continua a ser um exemplo modelar de um olhar cuja densidade política, justamente, passa por uma minuciosa caracterização das personagens e, muito em particular, pelas palavras que as aproximam ou afastam — enfim, este é um dos casos que gostaríamos de ter visto a concorrer para a Palma de Ouro...

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quarta-feira, maio 24, 2017

Lana Del Rey em Hollywood

O novo álbum de Lana Del Rey, Lust for Life, continua com data de lançamento por esclarecer... Mas há mais um teledisco, precisamente do tema-título, com colaboração de Abel Makkonen Tesfaye, aliás, The Weeknd — uma breve e fascinante deambulação romântica pelas letras, literalmente, de Hollywood nas colinas de Los Angeles.

CANNES: um filme maior

Chama-se L'Atelier e centra-se, precisamente, num atelier de leitura, no Verão, na zona de La Ciotat. Nas mãos de um cineasta banal, seria, talvez, uma crónica em que poderíamos reconhecer modelos correntes de caracterização "social" e "política". Esses modelos estão lá, sem dúvida — até porque o núcleo da intriga é a relação da professora de espírito liberal, parisiense, com um aluno que frequenta personagens ligadas à extrema-direita... O certo é que Laurent Cantet (Palma de Ouro em 2008, com A Turma) filma tudo isso com a precisão formal e a abertura de espírito de quem entende o cinema como um admirável instrumento de observação e interrogação do mundo à nossa volta. Fora dos prémios princípios (está na secção "Un Certain Regard"), L'Atelier é, muito simplesmente, um dos filmes maiores de Cannes/2017.

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