quinta-feira, novembro 15, 2018

Os pequenos ecrãs e os grandes filmes

Keir Dullea
2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)
A difusão das imagens cinematográficas vive tempos atribulados: como encontrar equilíbrios entre as salas escuras e as plataformas de streaming? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Novembro).

Este é o ano em que se comemora meio século de um dos clássicos absolutos do grande ecrã: 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. E é também o ano em que a questão da difusão cinematográfica através de pequenos ecrãs — incluindo o computador e o telemóvel — adquiriu contornos de inevitabilidade técnica e financeira, numa palavra, cultural.
Sabemos, há mais de uma década, que a economia global do cinema foi mudando de forma radical, a ponto de o mapa das suas fontes de rendimento envolver uma verdade muito básica: para a esmagadora maioria dos títulos, mais de metade das receitas acontece, não através das salas, mas... depois das salas.
Ora, essa evidência estrutural — que determina todos os vectores industriais e comerciais, da produção à difusão — também se transfigurou. Em vez de ser encarada como motor de uma dialéctica em que tudo coexiste (entenda-se: todos os circuitos de distribuição e exibição), em muitos casos passou a ser vivida como uma guerra de mútuas exclusões. Nos exemplos mais drásticos, salas escuras e plataformas de streaming vivem de costas voltadas, com alguns dos agentes envolvidos a encarar o “outro” apenas como factor de bloqueio. Consequência prática: alguns dos títulos mais importantes do presente não passam nas salas.
Alfred Hitchcock
O problema está longe de ser simples — e escusado será sublinhar que estas linhas não passam de uma muito esquemática inventariação de dados. E está longe de ser um problema meramente moral. Desde logo, porque não é possível pensar do mesmo modo a vida comercial de um “blockbuster” de super-heróis e, por exemplo, o exercício político que é Fahrenheit 11/9, o novo filme de Michael Moore centrado em Donald Trump. Ou, se for caso disso, o lançamento de uma cópia restaurada de um clássico de Alfred Hitchcock ou Ingmar Bergman. Além do mais, é óbvio (ou talvez não seja...) que a reflexão sobre estas questões não pode ser idêntica para os EUA e para um pequeno e vulnerável mercado periférico como o português.
Importaria, talvez, valorizar um factor que, estranhamente, tende a ser instrumentalizado. A saber: o conhecimento — e reconhecimento — do próprio público. Por respeito das singularidades dos espectadores (e do seu poder de compra), importa pensar o público não como uma massa amorfa de consumidores, mas sim um colectivo de muitos contrastes, grupos e nichos.
Se caminharmos para uma nova cultura audiovisual em que os circuitos virtuais sejam tratados como um fim em si mesmo, não demorará muito tempo a desaparecer todo o lastro cinéfilo que envolve memórias e mitologias, numa palavra, história.
Podemos até alimentar uma utopia tecnocrática e formar espectadores que, no limite, sejam levados a acreditar que a grandiosidade física de 2001: Odisseia no Espaço foi fabricada para “encaixar” no seu telemóvel, ou mesmo no tímido rectângulo do seu computador pessoal... Mas quando surgir uma geração que já não conheça — nem reconheça — qualquer ligação dos filmes aos grandes ecrãs das salas escuras, o cinema definhará, desaparecendo como curiosidade académica de museu.

quarta-feira, novembro 14, 2018

Stan Lee (1922 - 2018)

Figura central na história da banda desenhada, o nova-iorquino Stan Lee faleceu no dia 12 de Novembro, em Los Angeles, no Cedars-Sinai Medical Center — contava 95 anos.
De seu nome verdadeiro Stanley Martin Lieber, distinguiu-se como escritor, editor e director da Marvel Comics. Em colaboração com desenhadores como Jack Kirby e Steve Ditko, Lee esteve ligado à criação e desenvolvimento de personagens como Homem Aranha, Hulk, Doctor Strange, Fantastic Four e X-Men. Em anos recentes, contribuiu para o alargamento da estratégia industrial da Marvel, em particular através de uma crescente presença na produção de Hollywood — a sua figura simbólica adquiriu mesmo o valor de assinatura mitológica em muitos títulos com chancela Marvel Studios. Em 2008, o Presidente George W. Bush atribuiu-lhe a National Medal of Arts.

>>> Entrevista ao New York Times, em 2015 + memória de Stan Lee em video da Marvel.




>>> Obituário em The Washington Post.

segunda-feira, novembro 12, 2018

Douglas Rain (1928 - 2018)

Prestigiado actor teatral canadiano, ficou famoso pela sua participação em 2001: Odisseia no Espaço (1968): Douglas Rain faleceu de causas naturais no dia 11 de Novembro, no St. Marys Memorial Hospital, em St. Marys, Ontario.
O essencial da sua carreira teve lugar no teatro, em particular representando textos shakespeareanos, tendo sido, aliás, um dos fundadores do Stratford Festival, em Ontario. O certo é que a sua fama ficou para sempre ligada ao filme de Stanley Kubrick, uma vez que Rain deu voz a Hal 9000, o computador hiper-inteligente de 2001 que decide tomar conta da missão a Júpiter, mesmo que isso implique a morte dos respectivos astronautas, interpretados por Keir Dullea e Gary Lockwood.
Kubrick procurava uma voz capaz de gerar uma sensação ambígua de neutralidade e poder, tendo recusado várias hipóteses de actores com sotaque "demasiado" britânico. Na verdade, o realizador americano conhecia a voz de Rain já há alguns anos, uma vez que é dele a locução de Universe, um pequeno filme produzido em 1960 pelo National Film Board of Canada que terá sido uma referência importante na concepção de 2001. Segundo o testemunho de Dullea numa entrevista, Rain considerava-se objecto de um reconhecimento absurdo, tendo dito qualquer coisa como: "Fiz Shakespeare e os clássicos ao longo de 50 anos e toda a gente me quer falar apenas de um filme em que trabalhei dois dias."
Curiosamente, Rain viria a emprestar a sua voz a outro computador maligno, na comédia Sleeper/O Herói do Ano 2000 (1973), de e com Woody Allen. Em 2010 - O Ano do Contacto (1984), uma sequela de 2001, dirigida por Peter Hyams, retomaria o papel de Hal.

>>> Universe (1960) + cena de 2001: Odisseia no Espaço, com Keir Dullea.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

sábado, novembro 10, 2018

Memórias do Queen Elizabeth 2

BRUCE DAVIDSON
1996
Foi há dez anos que um dos mais lendários paquetes do mundo, o Queen Elizabeth 2 (ou apenas QE2) fez a sua derradeira viagem — mais exactamente, a gigantesca embarcação deixou o porto de Southampton a 11 de Novembro de 2008, para chegar ao Dubai no dia 26 do mesmo mês. Assinalando a data, a agência Magnum propõe uma breve memória histórica dessa cidade flutuante que, no total da sua existência, deu a volta ao mundo 25 vezes, transportando cerca de 2,5 milhões de passageiros — vale a pena descobrir o respectivo portfolio.

PETER MARLOW
1978

quinta-feira, novembro 08, 2018

Redescobrindo Orson Welles

A preservação, descoberta e conclusão de O Outro Lado do Vento, de Orson Welles, é uma odisseia que vai ficar nos anais da cinefilia: este filme datado de 2018 conta uma história cuja rodagem aconteceu no início da década de 70 — eis um video da Netflix sobre esse processo que, em última instância, nos trouxe um prodigioso objecto de cinema, transparente e enigmático, tocado por uma paradoxal modernidade.