segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Matt Damon & Zhang Yimou (2/2)

A Grande Muralha é o filme de uma nova encruzilhada do cinema: Hollywood e a China aliam-se para o mercado global — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Fevereiro), com o título 'A herança de Méliès'.

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Em 1967, num tempo marcado pelas tensões ideológicas que explodiriam no turbilhão de Maio 68, o italiano Marco Bellocchio realizou um célebre filme em que os conflitos geracionais se cruzavam com as clivagens políticas. Atento à contaminação de tais conflitos por palavras de ordem provenientes da linguagem maoísta, o filme tinha um sugestivo título: La Cina È Vicina (A China Está Próxima). Meio século mais tarde, o misto de inquietação e sedução que tais palavras arrastavam transfigurou-se num espectacular drama económico.
O filme A Grande Muralha aí está, como expressão muito directa das suas componentes: trata-se de encontrar modos de convivência entre Hollywood e a sofisticada máquina de produção da China (que sempre existiu muito para além dos clichés dos filmes de “kung fu” provenientes de Hong Kong).
Retomando a lógica criativa dos seus filmes visualmente mais exuberantes — com inevitável destaque para o assombroso O Segredo dos Punhais Voadores (2004) —, Zhang Yimou assina um objecto de desconcertante fascínio. Não se trata, de facto, de reproduzir a lógica de muitas aventuras de super-heróis em que a confusão narrativa serve apenas de pretexto para experimentar as últimas novidades do departamento de efeitos especiais. Ao narrar a saga de Matt Damon nos cenários da Grande Muralha, Zhang Yimou procura uma espécie de simplicidade primordial, em muitos aspectos próxima da linguagem do cinema mudo (mesmo se estamos perante um notável trabalho de montagem sonora). Dir-se-ia que ele se assume como herdeiro directo do primitivismo de Georges Méliès (1861-1938) e dos poderes encantatórios da imagem cinematográfica. É uma opção tão arriscada quanto sedutora, impossível de reduzir à linguagem tecnocrática de qualquer acordo de produção.

domingo, fevereiro 19, 2017

Lana Del Rey — nova canção

O último álbum de Lana Del Rey, Honeymoon, surgiu em Setembro de 2015. O próximo... sabemos que envolverá outra atitude: "Fiz os meus primeiros quatro álbuns para mim, este é para os meus fãs." Nada contra — para já, a primeira canção divulgada, Love, promete a mais austera fidelidade ao mais clássico romantismo.

Look at you kids with your vintage music
Comin' through satellites while cruisin'
You're part of the past, but now you're the future
Signals crossing can get confusing


A IMAGEM: Chan Lowe, 2017

CHAN LOWE
U.S. News
18-02-2017

Curta portuguesa ganha Urso de Ouro

Uma curta-metragem portuguesa — Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante — foi distinguida com o Urso de Ouro da respectiva categoria na 67ª edição do Festival de Berlim. Outra curta portuguesa — Os Humores Artificiais, de Gabriel Abrantes — ganhou o direito a concorrer aos Prémios do Cinema Europeu referentes a 2017.
Na categoria de longas, o vencedor do certame foi On Body and Soul, de Ildikó Enyedi (Hungria) — no site oficial do certame, encontramos a lista completa de prémios.

sábado, fevereiro 18, 2017

A música de Terrence Malick

O novo filme de Terrence Malick, Song to Song, vai ser revelado a 10 de Março, no festival South by Southwest, na cidade de Austin, Texas. E não é por acaso: com um elenco que inclui Michael Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara e Natalie Portman, anuncia-se como uma teia romanesca tendo por pano de fundo, justamente, a cena musical de Austin — ainda sem data portuguesa, já temos cartaz e trailer.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Matt Damon & Zhang Yimou (1/2)

A Grande Muralha é o filme de uma nova encruzilhada do cinema: Hollywood e a China aliam-se para o mercado global — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Fevereiro), com o título 'Matt Damon foi à China para defender Hollywood'.

Será que faz sentido definir um filme como A Grande Muralha como um dos mais ambiciosos trunfos da produção chinesa para conquistar os mercados internacionais? Como podemos, então, interpretar o facto de a sua estrela ser... Matt Damon? Além do mais, se este é um fresco histórico sobre os tempos atribulados do Imperador Renzong, na primeira metade do século XI, como explicar que os inimigos sejam milhares de monstros verdes que mais parecem saídos de um sequela de Alien?
Provavelmente, as respostas a tais interrogações podem organizar-se em torno de duas afirmações tão transparentes quanto complexas. Primeiro que tudo: A Grande Muralha é um dos mais gigantescos projectos já concretizados em contexto chinês — o seu orçamento de 150 milhões de dólares é o maior de sempre para uma rodagem na China —, embora resulte de um acordo de produção entre o China Film Group (a maior entidade estatal no domínio cinematográfico) e a Legendary Entertainment, companhia sediada em Burbank, centro vital da produção de Hollywood. Depois, esta não é uma história da Grande Muralha — uma das maiores construções da humanidade, com mais de 8000 mil quilómetros de comprimento durante a dinastia Ming (séculos XIV/XVII) —, mas sim uma abordagem lendária, assumidamente artificiosa, das suas memórias.
Em boa verdade, o que está em jogo é menos a expansão da produção chinesa no resto do mundo e mais, muito mais, a consolidação e intensificação da presença de Hollywood no mercado chinês. Interpretando um aventureiro que procura essa preciosa e mítica pólvora que poderá vender noutras paragens, Matt Damon (acompanhado por Pedro Pascal, actor chileno popularizado pela série A Guerra dos Tronos) é, afinal, o enviado simbólico de uma produção americana que não pode prescindir dos rendimentos gerados pelo país que está à beira de se tornar o maior mercado cinematográfico do mundo. Qual? A China, precisamente, esse país onde, ao longo de 2015, surgiram, em média, 22 salas... por dia!
Que seja um veterano como Zhang Yimou (nascido na cidade de Xi’an, em 1950) a assinar a realização de tão ambicioso projecto, eis o que está longe de ser um pormenor secundário. De facto, desde a sua revelação como um dos principais autores da chamada “Quinta Geração” (com o filme Milho Vermelho, 1987), ele tem sido um dos que mais e melhor tem feito a ponte com conceitos de espectáculo de raiz ocidental — o que, aliás, lhe tem valido ser alvo dos mais diversos ataques e preconceitos.
Será que o filme conseguirá reforçar os laços industriais e comerciais entre os dois países? É cedo para tirar conclusões... Uma coisa é certa: a exuberância visual (e sonora!) de A Grande Muralha ilustra as singularidades da globalização em que vivemos — este é um filme cuja pátria é o espectáculo e os prazeres da sua mitologia.

A IMAGEM: Ben Toms, 2016

BEN TOMS
Fei Fei Sun
Vogue / China (Dez. 2016)

Trump, política e stress

"Não há nada para ver aqui", garante Donald Trump na capa da revista Time (data: 27 Fev./6 Março; ilustração: Tim O'Brien), fazendo pose numa Casa Branca assolada por um tempestade interior. Não é uma simples caricatura. Ou melhor, não é uma caricatura simples — é mesmo uma reflexão, ao mesmo tempo pedagógica e angustiada, sobre o "caos" que tem marcado as primeiras semanas da presidência Trump.
De tal modo que Nancy Gibbs, editora principal da Time, considera mesmo que aquilo que está a acontecer envolve um stress que vai produzindo desgaste na resistência anímica dos cidadãos e na consistência prática das instituições — veja-se e ouça-se a sua breve, mas eloquente, entrevista no programa Morning Joe (MSNBC).

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

World Press Photo — as imagens e o mal

FOTO: Burhan Ozbilici
Ankara, Turquia (19 Dez. 2016)
O fotógrafo turco Burhan Ozbilici venceu o prémio de fotografia do ano, atribuído pelo World Press Photo, com a imagem do polícia Mevlüt Mert Altintaş pouco depois de matar Andrei Karlov, embaixador da Rússia na Turquia, protestando contra o envolvimento russo na guerra civil na Síria — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Fevereiro), com o título 'O mal está feito'.

A fotografia do assassino do embaixador Andrey Karlov perturba-nos pela sua primordial quietude (já nos esquecemos que nem todas as imagens são “em movimento”), contrariando a preguiça de pensamento gerada pela monótona repetição de imagens do nosso dia a dia televisivo.
A televisão inventou mesmo uma expressão — “em tempo real” — que tem contribuído para a nossa indiferença pelas imagens. Deleitamo-nos nesse infantilismo cognitivo: se o tempo daquilo que nos é mostrado “coincide” com o tempo daquilo que está a ser vivido, então a imagem torna-se descartável. Celebramos a coincidência “temporal” e tratamos a representação que nos chega como natural e inimputável. Por alguma razão, o tique mais frequente dos repórteres televisivos consiste em virarem-se para trás e apontar: acreditam que o seu dedo indicador identifica uma verdade insofismável, sem rugas nem ambiguidades — “Se eu estou a apontar para lá, só pode ser verdade”.
A fotografia de Burhan Ozbilici pertence a outra linguagem. A sua “mensagem” é desarmante, já que o fotógrafo apenas pode acrescentar: “Eu estava lá”. Ou como diria Roland Barthes: “Isto aconteceu”. O tempo não é real, precisamente porque já aconteceu. Dessa distância, entre um real que já é passado e a sua dramática inscrição no nosso presente, nasce a mais arriscada forma de conhecer o mundo através das imagens: o realismo.
Muitas formas de informação televisiva tentam mascarar os nosso medos, alimentando a ilusão pueril de que qualquer imagem tende para um destino gratificante, separando, como que por magia, a “justiça” e a “injustiça” daquilo que nos é dado ver. Face a fotografias como a de Ozbilici, só podemos confirmar que o mal existe — nestes tempos difíceis, a tragédia visual ensina-nos a amar a humanidade que nos resta.

"X Offender" [canções]

BLONDIE
X Offender
Blondie (1976)


Foi você que disse Blondie?...

... exactamente! Debbie Harry y sus muchachos vão lançar, em Maio, Pollinator, 11º álbum de estúdio dos Blondie (três anos depois de Ghosts of Download). A acreditar no primeiro single, Fun, dir-se-ia que as memórias gloriosas dos anos 70/80 estão mais vivas do que nunca...

John Adams, 70 anos

JOHN ADAMS
[FOTO: Chris Bannion]
Figura fundamental do minimalismo americano, John Adams é um daqueles compositores que nos ajuda a compreender a passagem dos clássicos para os modernos e, desse modo, a singular e, por assim dizer, paradoxal presença dos primeiros nos segundos.
Entre os trabalhos mais célebres da sua imensa obra (piano, orquestra, música coral, etc.) inclui-se a ópera Nixon in China (1987), sobre a visita de Richard Nixon à China, em 1972, e On the Transmigration of Souls (2002), lembrando os que morreram nos atentados de 11 de Setembro de 2001 (Pulitzer de Música em 2003). Recorde-se que, em 2009, várias das suas composições foram escolhidas por Luca Guadagnino para integrar a banda sonora do seu filme Eu Sou o Amor.
Adams nasceu em Worcester, Massachusetts, no dia 15 de Fevereiro de 1947 — faz hoje 70 anos. Em jeito de parabéns, escutemos a sua peça Short Ride in a Fast Machine, de 1986, numa interpretação da San Francisco Symphony, sob a direcção de Michael Tilson Thomas.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Donald Trump está na televisão

Jack O'Connell e George Clooney
MONEY MONSTER
Como falar de Donald Trump sem pensar na sua dimensão televisiva? Eis uma pergunta que os membros da classe política não enfrentam — esta crónica foi publicada no Diário de Notícias (12 Fevereiro).

Pergunto-me se o leitor terá visto Money Monster, filme realizado por Jodie Foster, com George Clooney, Julia Roberts e Jack O’Connell nos papéis principais (estreado em Maio de 2016 e, entretanto, já disponível em DVD). De facto, apesar dos nomes envolvidos, passou mais ou menos despercebido. Nem mesmo a sua abordagem do populismo televisivo suscitou especial atenção.
Recordo a sua linha básica: Clooney interpreta o apresentador de um programa (“Money Monster”) que, em tom de espectáculo ligeiro, analisa os mercados financeiros, sugerindo aos espectadores os bons investimentos... Até que um dia, um jovem cuja vida ficou destruída por um desses investimentos entra no estúdio, em directo, com uma arma na mão...
Terá prevalecido um juízo de valor negativo sobre a realização de Foster, tida como ligeira e até irresponsável. Estou longe de concordar com tal ponto de vista — penso mesmo que, além de uma extraordinária actriz, ela é também uma cineasta de fina inteligência —, mas não é essa a questão. Acontece que as nossas sociedades raras vezes mostram alguma disponibilidade para pensar o papel (social, justamente) dos dispositivos televisivos.
Veja-se, ou melhor, escute-se o silêncio ensurdecedor com que se tem passado ao lado da dimensão televisiva do “fenómeno Trump”. Nem mesmo o facto de Donald Trump ter consolidado a sua imagem pública através de um “reality show” (14 temporadas de The Apprentice, na NBC) parece motivar os analistas no sentido de, pelo menos, nomear o poder da “caixa que mudou o mundo”.
Claro que qualquer sugestão nesse sentido tende a ser automaticamente atacada por um outro discurso (igualmente populista) segundo o qual os “intelectuais” tendem a demonizar a televisão. Essa é, aliás, uma maneira cínica de recalcar os contrastes que estão em jogo: por um lado, é no espaço televisivo que encontramos alguns dos fenómenos mais fascinantes do audiovisual contemporâneo; por outro lado, importa saber se isso nos dispensa de pensar a degradação humana e humanista que ocupa horas e horas dos nossos ecrãs (exemplo quotidiano: a visão obscena da sexualidade promovida pelo Big Brother e seus derivados).
O problema é suficientemente complexo para evitarmos cair na ingenuidade de supor que Trump “sem televisão” seria um detalhe insignificante. O problema começa no facto de a dimensão televisiva de uma figura pública poder ser uma componente essencial de poder. Estranhamente, os membros da classe política (direitas e esquerdas) têm medo de lidar com tudo isto.

Beyoncé, a Rainha Mãe

Adele ganhou o Grammy de álbum do ano com o seu 25. E, num gesto pouco comum, fez saber que, segundo ela, era Beyoncé "que devia ter ganho" (com o prodigioso Lemonade). Saudemos a sua lucidez e celebremos a performance de Beyoncé, em pose de Rainha Mãe [eis o seu discurso, ao receber o prémio de melhor "álbum urbano"].


>>> Nomeados e vencedores — Grammys.

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Jackie & Jacqueline

Prodigioso filme: muito para além do cliché "político" ou da convenção "psicológica", Pablo Larraín filma Jacqueline Kennedy nos labirintos da história — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Fevereiro), com o título 'Natalie Portman brilhante como Jacqueline Kennedy'.

Curioso paradoxo: o filme Jackie, sobre Jacqueline Kennedy, figura mítica do imaginário político e social “made in USA”, foi realizado por um cineasta chileno, Pablo Larraín. Tal não o impede de ser um caso raro de subtileza psicológica e inteligência crítica, muito para além das convenções correntes do modelo biográfico.
A proeza é tanto mais fascinante quanto não se trata de fazer um retrato “descritivo” daquela que foi a Primeira Dama dos EUA, precisamente até ao assassinato do marido, John Fitzgerald Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, na cidade de Dallas. Tudo se concentra nos dias seguintes à tragédia, num turbilhão de acontecimentos em que Jackie é compelida a lidar com questões que vão desde as exigências de funcionamento da Casa Branca até aos preparativos do funeral do marido, passando pelo acompanhamento dos filhos, Caroline (que fez seis anos a 27 de Novembro de 1963) e John Jr. (três anos completados a 25 de Novembro, dia do funeral do pai).
JFK
Dois vectores narrativos são essenciais na odisseia para a qual Larraín nos convoca: uma entrevista com um jornalista que ela própria convoca para dar conta da sua visão da herança do marido e a evocação do modo como a imagem pública de Jackie foi gerada, em grande parte, através de uma apurada utilização, pioneira na época, dos meios televisivos. Ambos colocam em jogo um dos temas nucleares do filme. A saber: a tensão entre a imagem pública de uma mulher que conquistara os corações da maior parte dos americanos (numa sedução que sempre se prolongou além-fronteiras) e os bastidores da vida privada e da cena política no cenário, também ele mítico, da Casa Branca.
Particularmente impressionante é o modo como o filme recupera a célebre emissão de televisão (CBS, 14 de Fevereiro de 1962) em que a Primeira Dama deu a conhecer aos americanos as transformações que, sob a sua supervisão, tinham sido operadas na Casa Branca. Desde logo, por razões técnicas: através de um delicado trabalho de manipulação técnica, a intérprete de Jackie, Natalie Portman (por certo naquela que é a mais brilhante composição da sua carreira, nomeada para um Oscar), surge “inserida” nas imagens originais, numa espécie de realismo digital que, afinal, nos coloca em contacto com as matérias originais da própria história televisiva. Depois, porque através de tais matérias compreendemos que, nesse arranque da década de 60, muito mais do que porta-voz do marido, Jackie foi uma das protagonistas de toda uma complexa reconversão mediática e simbólica das mulheres no espaço público.

Puzzle de memórias

LIFE [6 Dez. 1963]
Não se julgue, porém, que o filme aposta numa banal estética de “reconstituição”. O prodigioso ziguezague da sua montagem é, aliás, revelador: não se trata de “colar” de modo mais ou menos cronológico os factos vividos naqueles dias trágicos, mas sim de construir um puzzle de memórias objectivas e vivências subjectivas que, em última análise, desafiam as certezas da história comum.
Nessa perspectiva, o diálogo com o jornalista, interpretado por Billy Crudup, é fundamental. Embora o filme não o explicite, trata-se de uma personagem inspirada em Theodore H. White, jornalista que, de facto, entrevistou Jacqueline Kennedy para a revista Life (o seu trabalho, intitulado “Pelo Presidente Kennedy – Um Epílogo”, seria publicado na edição de 6 de Dezembro de 1963).
O frente a frente tem qualquer coisa de insolitamente teatral: por um lado, ambos sabem que a existência de Jackie como heroína frágil de um mundo de felicidade absoluta (“Camelot”) é uma ficção que contaminou todos os recantos da realidade; por outro lado, o assombramento da morte do Presidente confere ao seu diálogo a perturbante e comovente dimensão de um subtil trabalho de luto.
A nitidez fria da morte — entenda-se: a necessidade de lidar com os seus efeitos humanos e simbólicos — circula por todos os gestos, palavras e silêncios de Jackie. É um sentimento que, em boa verdade, já tínhamos experimentado em relação aos trabalhos anteriores de Larraín, em particular a sua trilogia — Tony Manero (2008), Post Mortem (2010) e Não (2012) — sobre a ditadura de Augusto Pinochet.
Daí a importância, discreta mas fundamental, da personagem do padre que escuta as confissões magoadas de Jackie, em particular sobre as dificuldades inerentes ao facto de se ter “tornado uma Kennedy”. Tomando como referência o jesuíta Richard McSorley, companheiro espiritual da família Kennedy, tal personagem acolhe a angústia de uma mulher que, no carácter de excepção do seu destino, procura um sentido para o absurdo que a existência lhe oferece. Ao fazer-lhe ver que, provavelmente, estamos condenados a não encontrar esse sentido, o padre emerge, paradoxalmente, como a voz de uma radical serenidade. Que o seu intérprete seja o recentemente falecido John Hurt, eis um dado que nos ajuda a reconhecer que não há diferenças entre o cinema e a vida.

Al Jarreau (1940 - 2017)

Personalidade emblemática da música popular americana, vencedor de sete Grammys, Al Jarreau faleceu no dia 12 de Fevereiro, em Los Angeles, poucos dias depois de ter anunciado a sua retirada — contava 76 anos.
Figura incontornável do jazz vocal, as componentes jazzísticas serão, apesar de tudo, insuficientes para dar conta da versatilidade do seu estilo e, em particular, do peso das marcas do R&B e da pop em muitas das suas performances. Iniciou a carreira em meados da década de 60, tendo ganho um primeiro Grammy pelo álbum Look to the Rainbow (1978). Breakin' Away (1981), que inclui o tema We're in This Love Together, foi um dos seus maiores sucessos; Jarreau (1983) e L Is for Lover (1986) são outros registos marcantes da sua trajectória.
A canção-tema da séria televisiva Moonlighting (1985-89) constitui, por certo, a sua referência mais universal. Quase até final, manteve uma enorme actividade nos palcos; num dos seus derradeiro álbuns, My Old Friend: Celebrating George Duke, prestou homenagem ao pianista George Duke.

>>> Teledisco de We're in This Love Together e genérico da série Moonlighting.




>>> Obituário no New York Times.
>>> Site oficial de Al Jarreau.