Segunda-feira, Maio 20, 2013

Cannes por telemóvel (6)


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Vivemos num tempo que tudo pode ser ecrã. Em Cannes, tudo é potencial painel publicitário. Velha vocação das coisas urbanas, sem dúvida, mas que neste contexto adquire o tom de artifício de paradoxal naturalidade, inerente à condição mítica do festival e da sua cidade. Assim, numa parede de uma das transversais da Croisette, um cartaz de The Lone Ranger, com Johnny Depp, consagra a vocação espectacular da paisagem — devemos, talvez, reconverter os conceitos aprendidos e falar de hiper-irrealismo.

Cannes 2013: folk


[ solidões ]  [ sexo ]  [ China ]  [ Ophüls ]  [ crianças ]

Que é preciso para fazer um grande filme sobre a música folk? Digamos que o mais básico: alguém que saiba cantá-la — e Oscar Isaac, podem crer, é brilhante (além de ser um notável actor, o que, convenhamos, não é indiferente). Mas há mais: é preciso uma grande personagem de um... gato! Não dá para explicar. Em todo o caso, evocando o estado da música em 1961 — tendo por cenário privilegiado o desencantado romantismo de Greenwich Village —, os irmãos Coen conseguem um filme prodigioso sobre os enigmas da construção/desconstrução de uma identidade. Chama-se Inside Llewyn Davis e, venha o que vier, fica como um dos momentos de excelência de Cannes 2013. Quanto à melhor interpretação felina, posso garantir de fonte segura, o júri já tomou a sua decisão.

Patty Griffin: memórias e catarse

O nome de Patty Griffin é uma referência nobre de uma música popular americana que nunca alienou as suas raízes folk. Acaba de lançar um álbum (o seu sétimo de estúdio) cuja génese está ligada ao período final da vida do seu pai — daí que os temas de American Kid possuam uma misto de desencanto e valor catártico, desembocando numa depurada melancolia. Robert Plant ajudou-a em algumas das canções, incluindo este belíssimo dueto, Ohio.

Domingo, Maio 19, 2013

Cannes 2013: crianças


[ solidões ]  [ sexo ]  [ China ]  [ Ophüls ]

Não há muitos cineastas capazes de filmar crianças como o japonês Hirokazu Kore-eda (lembremos O Meu Maior Desejo, estreado em 2012 nas salas portugueas). Agora, com Tal Pai, Tal Filho, o realizador parte de uma história perturbante: duas crianças foram trocadas no hospital, à nascença, sendo o engano descoberto sete anos depois... O resultado nada tem a ver com o pitoresco ofensivo das ficções "telenovelescas", sempre apostadas em reduzir a infância a um viciado teatro de marionetas. Vemos essa coisa rara que é a solidão das crianças e também a atribulada construção de uma ordem entre adultos e crianças. Não se pode ser mais político.

Cannes por telemóvel (5)


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A luz de Cannes não é uma luz típica de um lugar à beira-mar (há uma luz "típica" de determinados lugares?). Não é, pelo menos, uma luz estável, oscilando entre o brilho incerto do Mediterrâneo e o negrume das nuvens sempre prometidas (este ano trazendo mesmo muita chuva). No cruzamento do Boulevard Carnot com o caminho para Antibes, o cair da noite combina o azul que ainda persiste no céu com o ziguezague permanente dos faróis dos automóveis, desenhando uma paisagem de austera ficção científica. Como num filme, claro.

Sábado, Maio 18, 2013

Jools Holland, música e televisão

Jools Holland é uma presença regular do canal iConcerts, mostrando o valor que a música pode ter em televisão — esta crónica foi publicada no Diário de Notícias (17 Maio), com o título 'Jools Holland e os outros'.

1. O programa da BBC, Later... with Jools Holland, é um caso exemplar de abertura à diversidade musical – ainda recentemente, lá pudemos ver, por exemplo, Radiohead e Ana Moura. Para além da sua metódica atenção a todo o espectro da música popular, Holland distingue-se pelo sóbrio entusiasmo das suas apresentações e também pela capacidade de, com alguns dos convidados, manter conversas em que o tom coloquial nunca favorece o pitoresco ou a banal exaltação da “fama”. No nosso contexto televisivo, Later... é também um caso modelar de um canal, iConcerts, apostado em valorizar as singularidades das performances ao vivo. Até certo ponto, a programação do iConcerts compensa o esvaziamento prático e simbólico da MTV, cada vez mais destruída pela cedência à mediocridade dos “reality shows”.

2. Com o prolongamento numa segunda temporada, poderia recear-se que Smash (TV Séries) sofresse os efeitos perversos de uma estratégia que não soubesse acautelar as suas especificidades. O certo é que a série criada por Theresa Rebeck (que conta com Steven Spielberg como um dos produtores executivos) vai continuando a narrar a odisseia de um musical sobre Marilyn Monroe, na Broadway, num tom que, sem abdicar das atribulações de uma elaborada teia melodramática, se mantém fiel ao seu elemento natural: a música. Num dos episódios, pudemos mesmo deparar com Liza Minnelli que, na qualidade de “guest star”, veio ajudar a lembrar que a energia de Smash se enraíza numa tradição riquíssima, indissociável do património musical de Hollywood.

3. Bósnia, Eslováquia, Portugal e Turquia assumiram uma heróica “resistência” à edição de 2013 do Festival da Canção da Eurovisão (cuja final se disputa este sábado): todos eles decidiram não participar. Efeitos práticos de tal retirada? Zero. Porquê? Porque estar ou não estar tende a confundir-se na mesma indiferença: estas festas “globais” reflectem uma triste falta de imaginação e fazem pela dinâmica da cultura popular europeia o mesmo que os mais empenhados discursos voluntaristas. Ou seja: nada, zero.

Cannes 2013: Ophüls


[ solidões ]  [ sexo ]  [ China ]

Chama-se Léon, é o cão de Marcel Ophüls e tem direito a presença discreta, mas esencial, nas deambulações do seu dono por esse delicioso filme autobiográfico que é Un Voyageur (Quinzena dos Realizadores). Por onde viagem Marcel? Pois bem, pelas memórias da família e, em particular, pelo trabalho do pai, Max Ophüls (1902-1957), cineasta de génio romanesco, autor de obras admiráveis como Carta de uma Desconhecida  (1948) ou Lola Montès (1955). Sendo Marcel um distinto documentarista, sempre empenhado na reavaliação crítica das matérias filmadas — recorde-se Le Chagrin et la Pitié (1969), sobre o período de ocupação da França pelos nazis —, não admira que esta quase autobiografia seja também um fresco histórico sobre momentos cinematograficamente exemplares, quer na Europa, quer em Hollywood. Tudo tratado com o humor certeiro de um narrador comandado por uma céptica joie de vivre.

Nas palavras de F. Scott Fitzgerald

F. SCOTT FITZGERALD (1896-1940)
O impacto do filme de Baz Luhrmann é indissociável de um muito peculiar e feliz entendimento do poder das palavras: daí que faça todo o sentido regressar à escrita sublime de F. Scott Fitzgerald — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Maio), com o título 'Sob o signo da escrita de Fitzgerald'.

Quando Nick Carraway (Tobey Maguire) começa a escrever as suas memórias de Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), o filme de Baz Luhrmann aplica os recursos das três dimensões para um efeito, no mínimo, pouco comum. Assim, como que tocadas por um poder imonderável, as palavras que Carraway vai dactilografando adquirem uma autonomia e uma espessura que as transformam em entidades “esvoaçantes” no espaço do ecrã. Não é um mero efeito de “desenho animado”: em boa verdade, sentimos que o 3D pode existir como um novo território para o exercício da escrita e da sua ambígua materialidade.
Não é banal o desafio que assim se propõe. Desde logo porque Luhrmann, em vez de se acomodar em qualquer “ilustração” académica do texto de F. Scott Fitzgerald, encara-o justamente como uma possibilidade de abertura a novas formas de escrita e entendimento do factor humano. Depois, porque o filme relança a angustiada interrogação simbólica do romance (como pertencemos ao nosso tempo?) como coisa muito nossa, distante de qualquer nostalgia mais ou menos revivalista.
Provavelmente, na trajectória de Luhrmann, O Grande Gatsby vai ficar como o momento de eleição em que, finalmente num novo equilíbrio entre estratégia narrativa e meios de produção (recorde-se o desastre do anterior Austrália, lançado em 2008), ele consegue a proeza de fabricar um objecto cinematográfico que respeita a energia literária que o faz nascer, ao mesmo tempo celebrando uma contagiante dimensão operática. No coração de tão singular evento está Leonardo DiCaprio que aqui encontra, também ele, um momento definidor: o de figura icónica do “Sonho Americano”, para sempre preso no desespero de quem não pode apagar a fragilidade infantil que, afinal, lhe confere uma radical intensidade trágica.

Sexta-feira, Maio 17, 2013

Cannes 2013: China


[ solidões ]  [ sexo ]

Zhao Tao, a faca, o sangue e aquele olhar vidrado que revelam o seu acto desesperado — poderia ser um momento típico de um vulgar filme de "artes marciais"; mas não: estamos perante um objecto de perturbante intensidade com o qual Jia Zhang-ke (Plataforma, O Mundo, 24 City) prolonga a sua visão crítica da história da China nas últimas décadas, desde as convulsões da Revolução Cultural maoísta. A estrutura em quatro histórias gera um efeito-"Magnólia" através do qual o realizador expõe a sua visão muito céptica de um país enredado nos equívocos e desequilíbrios do seu acelerado desenvolvimento económico. O título inglês — A Touch of Sin (à letra: "Um Toque de Pecado") — talvez queira sublinhar o facto de por aqui passar um caudal subterrâneo de culpas que tende a impossibilitar as mais rudimentares relações humanas.

Cannes por telemóvel (4)


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Robert De Niro sorri em pose irónica de "Taxi Driver" — é um dos cartoons expostos na zona de imprensa do Palácio dos Festivais, no átrio em frente da sala de conferências, numa iniciativa com chancela da organização de defesa e promoção da diversidade cultural Cartooning for Peace, concebida pelo desenhador Plantu, com o apoio da ONU. Com obras de autores de todo o mundo, constitui um espelho bizarro, terno e cruel, das figuras e mitos do universo cinematográfico.

David Bowie, os santos e o diabo

Marion Cotillard, The Next Day (2013)
A revelação do teledisco de The Next Day constituiu mais um pequeno grande acontecimento na trajectória pública do álbum homónimo de David Bowie — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Maio), com o título 'Todas as máscaras de David Bowie'.

David Bowie continua a construir uma espantosa obra visual que, há várias décadas, permanece indissociável da sofisticada elaboração do seu percurso musical. A par de Madonna, ele tem sabido viver neste mundo saturado de imagens, não se limitando a encarar a sua iconografia como mero suporte de “promoção”, antes trabalhando-a como elemento vital de uma identidade artística, pessoal e intransmissível. Temos, agora, mais um admirável exemplo no teledisco de The Next Day (tema que dá o título ao seu 24º álbum de originais, lançado a 8 de Março), resultante de nova colaboração com Floria Sigismondi, realizadora italiana que, também do novo álbum, já assinara The Stars (Are Out Tonight).
O menos que se pode dizer de The Next Day é que a sua contagiante vibração nasce do reconhecimento da continuada energia da iconografia cristã. Podemos resumi-lo como um ritual protagonizado por três personagens indissociáveis dessa iconografia: um padre, interpretado por Gary Oldman, que chega a uma espécie de cabaret frequentado por várias figuras mais ou menos reconhecíveis (um bispo, uma “Joana D’Arc”, etc.); com ele vai a mulher que Marion Cotillard assume numa espantosa ambiguidade, por assim dizer a meio caminho entre a fúria pecaminosa e uma virginal claridade; enfim, há um profeta que canta The Next Day e que é, obviamente, o próprio Bowie.
Vale a pena lembrar que a canção existe, ela própria, como uma espécie de parábola moral sobre os disfarces de um tempo de perversos jogos de espelhos. Há mesmo um verso que refere os protagonistas de tais jogos, dizendo: “Eles conseguem trabalhar com o diabo ao mesmo tempo que se vestem como santos...” Dito de outro modo: o cenário assumidamente teatral de The Next Day é tão só um palco irónico de um mundo de muitas máscaras em que as aparências podem ter tanto poder quanto a realidade que ocultam ou secundarizam.

Madonna, Like a Prayer (1989)
Um pouco à maneira do clássico Like a Prayer (Madonna, 1989, realizado por Mary Lambert), outro teledisco seduzido pela iconografia cristã, The Next Day aposta também na integração de um imaginário que, no limite, o obriga a reavaliar o desenho das fronteiras entre o carnal e o espiritual. Aliás, quando a personagem de Marion Cotillard começa a sangrar das chagas nas mãos, a imagem não pode deixar de evocar um efeito semelhante nas mãos de Madonna, em Like a Prayer.
Escusado será dizer que The Next Day será tudo o que se quiser, menos um objecto consensual. Nos EUA, Bill Donohue, da Liga Católica para os Direitos Civis e Religiosos, já deu a conhecer o seu protesto e o próprio YouTube retirou o teledisco durante algumas horas para, depois, o voltar a integrar [videos: The Next Day + Like a Prayer]. Em boa verdade, não se pode esperar que grandes criadores como David Bowie assumam a sua arte como um domínio formatado pelos valores de outros: as suas máscaras fazem parte de uma intransigente verdade artística.




>>> David Bowie + Madonna.

Quinta-feira, Maio 16, 2013

Cannes por telemóvel (3)


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Na praia Macé, mais ou menos a meio caminho entre o Palácio dos Festivais e o Hotel Carlton, está montado todo o aparato necessário para as sessões noturnas, ao ar livre. Este ano, porém, a tradição de "um" dia de chuva em cada festival ameaça prolongar-se pelo menos por todo o primeiro fim de semana do certame... Daí a nostalgia irremediavelmente "felliniana" do cenário do "Cinéma de la Plage": a estrutura que suporta o ecrã exibe-se, descarnada, carente da grandeza mitológica do cinema.

Cannes 2013: sexo


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Lembremos Catherine Deneuve na obra prima de Luis Buñuel, Belle de Jour (1967). E perguntemos: será possível refazer esse filme nos nossos dias, por assim dizer substituindo a dimensão onírica, romanesca e agreste pelas relações voláteis, friamente impessoais, de um mundo de telemóveis e Internet? A resposta aí está: chama-se Jeune & Jolie, tem assinatura de François Ozon e pode muito bem valer a Marine Vacth um merecido título de descendente simbólica de Deneuve. Aliás, a pose de Vacth utilizada no cartaz evoca uma outra, de Deneuve, com assinatura de Buñuel [ver imagens em baixo]. Ozon filma-a como uma jovem de 17 anos que se prostitui, num misto de solidão familiar e errância moral que, em última instância, expõe a muito contemporânea cegueira mútua das gerações — ou como a circulação do sexo se revela sempre insuficiente para dar conta da vastidão do país do desejo. Tudo isto com um suplemento narrativo cuja pertinência importa não menosprezar: Ozon organiza o seu filme como um ciclo de quatro estações, cada uma sinalizada por uma canção de Françoise Hardy.

1967
2013

Michael Haneke e os espectadores

No dia 9 de Maio, Michael Haneke foi galardoado com o Prémio Príncipe das Astúrias (Artes), uma das mais prestigiadas distinções culturais atribuídas em Espanha — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Maio), com o título 'À procura de novos espectadores'.

É sempre delicado encarar um prémio artístico, seja ele qual for, como justificação para grandes generalizações “sociais”. A expressão artística, sendo genuína, distingue-se precisamente pela capacidade de perturbar e dividir. E não será o prestigiado Prémio Príncipe das Astúrias que irá transformar a obra de Michael Haneke em coisa universal, susceptível de comover os programadores de televisão, a ponto de os fazer trocar a mediocridade de reality shows e afins pela perturbação de filmes como Amor, O Laço Branco ou A Pianista...
Ainda assim, importa sublinhar o facto de a obra de Haneke, para além da filigrana dos seus temas e personagens, se distinguir também por um discreto reconhecimento de todos os espectadores que têm visto os seus filmes. Não, não estou a falar da obscenidade dos “consensos” deduzidos das audiências televisivas. Não se trata de ceder à demagogia que, todos os dias, tenta fazer passar a ideia de que os valores e as incidências do consumo de imagens (e sons) se podem quantificar de forma neutra e inquestionável. Trata-se, isso sim, de lembrar que quem arriscar entrar no universo intimista do cinema de Haneke nunca sai com indiferença. Os seus filmes possuem a capacidade rara de nos devolver ao mais radical da nossa identidade. A saber: as tensões e contradições da dimensão humana, impossíveis de compreender (ou apenas de descrever) através da exaltação da “felicidade” que comanda o patético imaginário dos “famosos”.
Esperemos, por isso, que esta distinção aumente as audiências do trabalho de Haneke. Na certeza de que alguns dos que, agora, o vão descobrir não aceitarão que o seu cinema recuse a generalizada infantilização das formas dominantes de ficção e espectáculo. Ser espectador nunca foi simples.

Cannes por telemóvel (2)


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Quando perguntei se tinham Gitanes, a resposta da senhora do balcão de tabaco de um café do Boulevard Carnot soava a evidência profissional temperada com a surpresa pela pergunta tão obviamente estrangeira: "Mais oui!" Não me atrevi a explicar-lhe que este é um sabor que já não se encontra à venda em Portugal... Em qualquer caso, simpaticamente, ofereceu-me os fósforos. E fiquei também a saber que, na língua francesa, até mesmo o carácter letal da mercadoria — "Fumar mata" —, possui um charme discreto. Burguês, como diria o espanhol.

Malick: cinco fotogramas (3)

Podemos percorrer os fotogramas de To the Wonder/A Essência do Amor, de Terrence Malick, como um mapa carnal e simbólico — a mise en scène está nos detalhes.

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Os bisontes de To the Wonder não são uma curiosidade de nostalgia mais ou menos rural. Do mesmo modo que não se trata de filmar uma cena com Rachel McAdams e Ben Affleck explorando uma qualquer mais-valia "paisagística". Esta é mesmo uma daquelas situações que o senso comum cinematográfico tende a descartar como mera "transição", ignorando que o trabalho narrativo consiste em dar a ver o que se impõe por ser tão claramente visto. Dito de outro modo: o verdadeiro "tema" da cena é a própria coabitação de actores/personagens e bisontes — há nela um testemunho de vida e um irrecusável efeito de verdade, em tudo e por tudo inerente ao cinema. A certa altura, a câmara de Malick aposta em registar o olhar insondável de um dos animais, mas sem que o filme se atreva a figurar o respectivo plano "subjectivo" — afinal de contas, os seres humanos são muito eficazes a dizimar bisontes, mas nada sabem sobre os respectivos modos de estar.

Entre a solidão da noite

Regressamos hoje ao projeto Melody's Echo Chamber de Melodie Prochet para descobrir o novo teledisco criado para acompanhar mais um tema do seu álbum editado há alguns meses. Aqui ficam as imagens que agora acompanham Some Time Alone. A realização é de Grant Singer.

Discos Pe(r)didos:
Re-Flex, The Politics Of Dancing

Re-Flex 
“The Politics Of Dancing” 
EMI Records 
(1983) 

Há discos novos que por vezes nos fazem lembrar outros, mais antigos, que eventualmente andem por aí esquecidos. E há poucos dias, ao escutar o novo álbum dos franceses Phoenix, dei por mim a lembrar-me dos Re-Flex (e atenção que se trata de nenhuma banda nascida do eventual impacte de The Reflex, um dos singles de maior sucesso na discografia dos Duran Duran, lançado em 1984). Banda britânica nascida na primeira metade dos anos 80 sob evidente entusiasmo pela exploração dos novos sintetizadoes e demais outros instrumentos explorando tecnologias electrónicas (nomeadamente as baterias sintetizadas). Com o vocalista John Baxter e o guitarrista e teclista Paul Fishman como principais timoneiros, contando com uma sucessão de bateristas na primeira etapa da sua carreira (entre os quais se contaram elementos dos Level 42), os Re-Flex cedo encontraram o interesse da EMI Records, que os juntou em estúdio com John Punter (que tinha já trabalhado com os Roxy Music ou Japan), assim nascendo o alinhamento de um primeiro álbum que veria a luz do dia em 1983. Dominado pela presença dos sintetizadores, por uma percussão cheia e insistente e uma vocalização nos antípodas da coisa discreta, The Politics Of Dancing gerou alguns breves casos de atenção através de singles como Hitline, Praying To The Beat ou o próprio tema-título, revelando o melhor das suas propostas em diálogos entre teclas e percussão electrónica em temas como Hurt ou Keep In Touch, o reverso da medalha habitando momentos mais inconsequentes como os que escutamos em Jungle. Liricamente estamos em terreno minimalista de ideias, acrescente-se. Esgotado nesses fugazes focos de interesse na época (e, convenhamos, com uma imagem uns furos abaixo do que se começava exigir a quem queria entrar na era do teledisco), o álbum rapidamente caiu no esquecimento, até porque o seu sucessor, gravado com o título de trabalho Humanication, com lançamento agendado para 1985, acabou retirado do mapa de edições pela editora, apesar de ter chegado a ser lançado o seu single de apresentação How Much Longer (o disco seria finalmente editado em 2010). Longe de representar um marco na história da pop dos oitentas ou sequer um paradigma maior na relação da escrita de canções com os sintetizadotres, os Re-Flex (que se reativariam no novo milénio) são contudo um nome a ter eventualmente em conta pela assinatura sónica que, de facto os distinguia na época e que, pelos vistos, poderá ter ecos 30 anos depois...

5 dias 5 discos
Os 30 anos dos The Smiths (4)


Não é fácil escolher “um” entre tantos singles como os que fazem a discografia dos The Smiths. Mas a ter de fazê-lo, apontaria para este. Editado em 1987 como o terceiro dos três que sairiam do alinhamento de Strangeways Here We Come, Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me é uma canção de uma dimensão musical e dramática que confirma o quão o grupo havia evoluído desde os seus primeiros discos, poucos anos antes. A abertura ao piano (o som destacando um trabalho cénico com o eco que estabelece um clima) e a canção que arranca algum tempo depois desenham uma das mais belas das canções do grupo, toldada por um sentido de melancolia que a voz depois protagoniza.

 

A edição em single apresenta uma versão encurtada da canção, pelo que convém escutá-la ou no máxi-single (como este vídeo mostra) ou no álbum.

Duran Duran e David Lynch: filme em Cannes

Pensado originalmente como um momento para transmissão online – integrado na mesma série com expressão anual que há poucas semanas uniu os Vampire Weekend a Steve Buscemi – o concerto Unstaged dos Duran Duran vai ter agora segunda vida em cinema. Foi ontem revelada em Cannes a aquisição, pela Arclight Films de Duran Duran Unstaged, filme de David Lynch aprsentado com o subtítulo “a filmic feast for the senses”. Recordando a ideia recentemente revelada por Nick Rhodes em entrevista que aqui reproduzimos, os Duran Duran esperam agora assegurar uma estreia em sala para o filme, ao que se seguirá a sua distribuição em formatos de home video.

David Lynch já descreveu as suas ideias nesta experiência como tentativas de permear imagens entre a presença em palco dos Duran Duran. “um mundo de experimentação e alguns acidentes felizes”, explicou em palavras que o comunicado da Arclight Films agora apresenta. Entre o que foi visto na transmissão online de há dois anos e aquilo que agora chegará aos ecrãs houve um processo de pós-produção cujos resultados serão vistos na estreia do filme que decorrerá numa sessão do mercado do filme, a decorrer em Cannes.

Cannes 2013: solidões

Genial DiCaprio! A sua composição de Jay Gatsby possui esse misto de brilho e opacidade que distingue as personagens habitadas pela pulsão da tragédia. É uma questão de fidelidade ao romance de F. Scott Fitzgerald — por uma vez, faz sentido dizer que o filme respeita o espírito do livro —, mas também o resultado de um processo de dramatização que lhe confere uma intensidade eminentemente presente. Ao filmar O Grande Gatsby, Baz Luhrmann encena um espectacular jogo de espelhos que nasce de uma bizarra fragilidade do ser, em tudo e por tudo próxima da sensibilidade errática dos nossos dias: Leonardo DiCaprio é o anti-herói dessa suprema solidão.

Lawrence / O'Toole

A reposição de Lawrence da Arábia (1962), de David Lean, representa o reencontro com um dos modelos mais admiráveis das "superproduções" de há meio século — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Maio), com o título 'Elogio do cinema e da perfeição'.

Ver ou rever Peter O’Toole a interpretar a personagem, complexa e fascinante, de T. E. Lawrence é deparar com um valor humano (também humanista) para o qual as gerações mais jovens têm sido metodicamente deseducadas. Que valor é esse? Pois bem, o actor, esse bicho de muitas e inusitadas transfigurações que, de facto, não depende da agitação mais ou feérica dos “efeitos especiais”.
Repare-se: não se trata de lançar qualquer suspeição generalizada sobre as virtudes emocionais dos espectadores mais jovens. Como não se pretende duvidar da importância que a evolução tecnológica sempre teve em momentos decisivos da história do cinema. Trata-se, isso sim, de sublinhar que o cinema de David Lean está muito longe de ser uma mera acumulação de cenários grandiosos e milhares de figurantes: Lawrence da Arábia é mesmo a depurada consagração de uma visão do mundo que nasce dos valores mais enigmáticos da dimensão humana, observando-os com a paciência metódica de um genuíno mestre.
Daí que a reposição de Lawrence da Arábia em nova e esplendorosa cópia digital (eis as maravilhas da tecnologia!) não possa deixar de envolver factores que, em muitos aspectos, a aproximam da singularidade de uma estreia. Assim, creio que não será arriscado dizer que a esmagadora maioria dos espectadores com menos de 30 anos (precisamente os que, garantem as estatísticas, mais frequentam as salas escuras) nunca viu a obra-prima de Lean num grande ecrã. E, também aqui, não se pretende demonizar as delícias próprias do DVD ou do Blu-ray... Acontece que, desta vez, faz sentido dizer que Lawrence da Arábia pode ser visto e revisto como foi desejado, pensado e fabricado. Sabendo nós que Lean foi um obsessivo perfeccionista, esta é também a melhor maneira de o homenagear.