sexta-feira, abril 03, 2020

Paul Simon — "The Boxer", 2020

Na edição original, era a primeira faixa do lado B do álbum Bridge over Troubled Water (1970): The Boxer ficou como uma das canções lendárias da dupla Simon and Garfunkel. Agora, em tempos de reclusão, Paul Simon decidiu interpretá-la com uma dedicatória para os "companheiros novaiorquinos" — será, por certo, a sua gravação tecnicamente mais imperfeita, mas é também uma das mais tocantes.

O corpo e o vírus
— Bertolucci, Kubrick e os outros

O Último Tango em Paris + De Olhos Bem Fechados
Numa conjuntura social dominada pelo covid-19, todos os domínios das relações humanas estão abertos a novas formas de ver e pensar. Incluindo a representação da sexualidade na história do cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Março).

Há dias, Sanjay Gupta, neuro-cirurgião, comentador de temas de medicina e saúde pública na CNN, foi convidado de Stephen Colbert em “The Late Show” (CBS). O covid-19 foi tema único de conversa, tanto mais presente e premente quanto o programa tem sido gravado sem a tradicional audiência, apenas com alguns elementos da equipa de Colbert dispersos pela plateia do lendário Ed Sullivan Theater, na Broadway.
A certa altura, com aquela ironia televisiva que sabe manter uma relação viva com a actualidade social, Colbert questionou o seu convidado sobre a possibilidade de as pessoas continuarem a ter encontros amorosos [video]. Gupta começou por responder com o mais primitivo didactismo: “Creio que depende de quanto gostamos da outra pessoa.” Colbert insistiu: e se for um “encontro às cegas” (“blind date”)? Depois de uma ligeira pausa, sorriso nos lábios, Gupta rematou: “Não, encontros às cegas não.” E fez questão em sublinhar que aquilo que está em jogo excede os prós e contras de qualquer romantismo, nostálgico ou não: considerando que muitas acções humanas envolvem um cálculo entre “risco e gratificação”, referiu também que estamos a viver um “tempo diferente” em que sabemos da possibilidade de “o meu comportamento afectar dramaticamente a saúde do outro.”


Por automática associação lexical, lembrei-me da comédia que Blake Edwards realizou em 1987, cujo título original é, precisamente, Blind Date (entre nós, Encontro Inesquecível). Nela se encena a burlesca relação de Bruce Willis e Kim Basinger, ele um homem de negócios que pede ao irmão que lhe sugira uma companhia feminina para um importante jantar de negócios, ela uma jovem tímida com um segredo não muito adequado ao formalismo da situação: uma pequena quantidade de álcool transforma-a num ser tão exuberante quanto descontrolado…
Bernardo Bertolucci
Algumas sensibilidades contemporâneas verão num filme de tão ancestral dramaturgia uma indesculpável ofensa ao mundo feminino. Em boa verdade, creio que Edwards, autor do clássico Boneca de Luxo (1961), com Audrey Hepburn, sempre foi um militante adversário da estupidez machista. Mas não é essa a questão que aqui prevalece. Trata-se de perguntar como é que o cinema tem lidado com esta estranheza do corpo — e do seu potencial efeito sobre o corpo do outro — com que agora somos historicamente confrontados.
A questão é sexual, não tenhamos dúvidas, ao mesmo tempo que nos permite compreender que seria disparatado reduzi-la à sexualidade como região autónoma no mapa da nossa condição humana. A conjuntura do covid-19, desafiando o nosso sistema de relações mais íntimas — muito para lá da sexualidade, mas incluindo-a —, pertence a um tempo em que qualquer ideia libertária, eventualmente integrando um discurso de direita ou de esquerda, se afigura vazia, inoperante e, no limite, desligada da contundência da realidade circundante.
Stanley Kubrick
Talvez que O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, tenha sido uma espécie de derradeira cortina sobre esse teatro sexual da década de 60 em que, entre candura e tragédia, o sexo parecia confundir-se com uma colecção de êxtases desligados de qualquer conjuntura histórica. Aliás, na perturbação imensa em que o filme nos envolve, julgo que Bertolucci está a filmar menos um encontro homem/mulher e mais, muito mais, o desamparo do homem que descobre que o seu imaginário não abarca a singularidade da mulher que tem à sua frente. Mais do que um tema sexual, parece-me ser, através da sexualidade, uma confissão de desespero existencial tão admiravelmente encarnada no rosto e nos gestos de Marlon Brando.
Era, afinal, uma visão do mundo — e da sexualidade — sem vírus a contaminar tudo e todos. Do seu desencanto nasceu um outro cinema, arriscando lidar com o romantismo, já não como utopia, mas como fantasma. A sua apoteose estará no sublime De Olhos Bem Fechados (1999), de Stanley Kubrick, em que Tom Cruise e Nicole Kidman descobrem que a intimidade nasce, não da transparência, mas da estranheza do outro. Lembro-me também que Kubrick faleceu a 7 de março de 1999, seis dias depois de terminar a montagem do seu filme. E continuo a perguntar-me se já superámos a solidão que ele nos legou.

COVID-20
— um blog sobre o COVID-19

Para além das especificidades e, como é óbvio, da continuidade do SOUND+VISION, permito-me apresentar uma derivação pessoal, também em forma de blog — chama-se COVID-20.

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quinta-feira, abril 02, 2020

Art Blakey & The Jazz Messengers
— um álbum inédito

Com muitas e variadas formações, The Jazz Messengers foi um ensemble que o baterista Art Blakey (1919-1990) manteve desde os tempos heróicos do hard bop, em meados da década de 50, até ao final da sua vida. Agora, através da Blue Note, podemos descobrir Just Coolin', um álbum de Art Blakey & The Jazz Messengers que permaneceu inédito; na altura, Blakey tocava com Lee Morgan (trompete), Hank Mobley (saxofone), Bobby Timmons (piano) e Jymie Merritt (contrabaixo) — eis a luminosa memória de Quick Trick, uma composição de Timmons.

quarta-feira, abril 01, 2020

Bolero de Ravel — uma versão virtual

Maurice Ravel
Foi em 1928 que o lendário Bolero, de Maurice Ravel (1875-1937), teve a sua première. Quase um século depois, os membros da Orquestra Nacional de França acharam por bem demonstrar que nem mesmo o estado de confinamento pode rasurar o apelo da lenda e a sedução das notas musicais — e aí está esta magnífica performance, por obra e graça das nossas conexões virtuais.

Ty Segall oferece EP para download

Poeta não alinhado do rock mais primitivo (ou mais futurista, se for esse o caso), o californiano Ty Segall (n. 1987) é um admirador militante do novaiorquino Harry Nilsson (1941-1994). E não apenas porque uma canção de Nilsson, Everybody's Talkin', ficou ligada a O Cowboy da Meia-Noite (1969), de John Schlesinger, título fundamental na reconversão crítica de Hollywood, já lá vai meio século; sobretudo porque Segall reconhece nele a lhaneza de um rock cuja respiração tradicional não exclui os riscos da experimentação nem procura justificações que estejam para lá das suas posses.
De tal modo que, em tempos de reclusão, decidiu gravar um tributo ao seu ídolo, um EP intitulado Segall Smeagol, com temas de Nilsson Schmilsson (1971), talvez o maior sucesso da discografia do homenageado. A proposta envolve uma recriação de seis temas, incluindo os sucessos Coconut e Jump into the Fire, tudo com uma capa que cita a pose de Nilsson no seu álbum — pode escutar-se aqui em baixo.
Mais ainda: Segall Smeagol está disponível para download gratuito no site da Bandcamp.

terça-feira, março 31, 2020

A IMAGEM: Brian Bowen Smith, 2006

BRIAN BOWEN SMITH
Carolyn Murphy
2006

"Western Stars" — o filme

Aos 70 anos, Bruce Springsteen apostou em recriar o seu álbum Western Stars através de um belo concerto que funciona também como uma viagem introspectiva e confessional: o resultado é um filme já disponível em DVD e Blu-ray — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Março).

Nestes tempos tão singulares e dramáticos, o filme Western Stars, de e com Bruce Springsteen, não chegou às salas portuguesas. Mas não por causa da conjuntura pandémica que estamos a viver: a sua edição directa em DVD (e também Blu-ray, aliás numa transcrição de imaculada qualidade) já estava prevista, não se repetindo, assim, o que aconteceu no mercado dos EUA, onde o filme cumpriu uma breve passagem pelo circuito tradicional de exibição (em outubro/novembro de 2019).
Estamos perante um objecto cujo propósito esquemático — registar as canções de um novo álbum — não deixa de ser formalmente sedutor, além de comercialmente atípico. Springsteen apostou em revisitar os temas de Western Stars (o seu 19º álbum de estúdio, lançado em junho do ano passado), num registo que não corresponde à convencional abordagem de um “making of”: por um lado, descobrimo-lo num concerto de características muito especiais, recriando as 13 canções do álbum (desembocando na evocação final de Like a Rhinestone Cowboy, tema clássico de Glen Campbell); por outro lado, há nesta cândida deambulação a vontade explícita de desenhar um esboço auto-biográfico, em particular percorrendo algumas memórias do seu prolongado período de depressão. O facto de Springsteen assinar a realização do filme (partilhada com Thom Zimny, velho amigo e colaborador) é, afinal, um sintoma claro da sua postura confessional.


“Passei 35 anos a tentar aprender como me libertar das componentes destrutivas da minha pessoa”, confessa o autor de Born in the USA, acrescentando: “E ainda tenho dias em que luto com isso.” Pontuando as imagens do filme, tais palavras são, afinal, um eco da singela dimensão confessional que, porventura com alguma surpresa, tínhamos descoberto no livro auto-biográfico Born to Run (edição portuguesa: Elsinore, 2016). Através das histórias que as suas canções têm contado, muitas vezes encenando personagens à procura da sua própria identidade, Springsteen encenava também as angústias e o desejo de redenção do seu destino.
Western Stars é um reflexo vivo de tudo isso, uma verdadeira reinvenção identitária, sustentada por uma magnífica performance ao vivo. Nesta perspectiva, parece existir um efeito de continuidade entre esta experiência cinematográfica e o espectáculo “Springsteen on Broadway”, também ele de características auto-biográficas, que esteve em cena no Walker Kerr Theatre, Nova Iorque, em 2017/18, vindo a ser distinguido com um prémio Tony (o respectivo registo está disponível num álbum homónimo, lançado em finais de 2018).
Tudo se passa no celeiro da quinta de Springsteen, no estado de New Jersey, próximo da cidadezinha de Long Branch, onde ele nasceu há pouco mais de 70 anos (a 23 de setembro de 1949). Em boa verdade, trata-se de um celeiro, também ele atípico, transfigurado em requintada sala de concertos, com uma particularidade que o proprietário destaca com orgulho: a muito bem conservada estrutura de madeira favorece uma sonoridade de rara pureza e envolvimento.
Com o acompanhamento de uma orquestra de 30 elementos (predominam os violinos, tão essenciais ao belo som “sinfónico” do álbum Western Stars), Springsteen lidera um brilhante conjunto de músicos — incluindo a sua mulher, Patti Scialfa, ela própria uma talentosa intérprete de country-rock —, capazes de proporcionar um evento de sofisticada competência profissional sem alienar a sua vibração intimista. O ziguezague entre canções e extractos de filmes de família (incluindo um delicioso momento burlesco na companhia de Scialfa, por certo da época do seu casamento, em 1991) transforma Western Stars num pessoalíssimo bloco-notas, partilhado com o espectador. Fica uma sensação amarga e doce: o filme merecia ser visto no grande ecrã de uma sala escura (até pelas qualidades da direcção fotográfica, assinada por Joe DeSalvo), mas não se pode ter tudo.

segunda-feira, março 30, 2020

Michael Stipe, em quarentena

Michael Stipe mantém-se em actividade... Depois de Drive to the Ocean, aí está mais uma canção, para a sua/nossa quarentena: chama-se No Time for Love Like Now, arrisca na sedução romântica, convoca o pragmatismo realista, e foi feita com a colaboração do guitarrista e teclista Aaron Dessner (The National).

There’s no time for dancing
There’s no time for undecideds
No time for love like now

Krzysztof Penderecki (1933 - 2020)

[Wikipedia]
Criador marcante na história da música da segunda metade do século XX, o compositor e maestro polaco Krzysztof Penderecki faleceu no dia 29 de Março, em Cracóvia, na sequência de doença prolongada — contava 86 anos.
Obras como Trenodia às Vítimas de Hiroshima, para 52 instrumentos de cordas, a oratória Paixão Segundo São Lucas (1965) ou a Sinfonia nº 3 (1988-1995), composta para comemorar centenário da Münchner Philharmoniker, podem exemplificar o risco experimental do seu trabalho, retomando uma herança plural que passa por compositores como Webern ou Stravinsky. Curiosamente, o cinema contribuiu também para a divulgação da sua obra, a partir do momento em que William Friedkin integrou vários fragmentos de obras de Penderecki em O Exorcista (1973); Stanley Kubrick, em Shining (1980), David Lynch em Um Coração Selvagem (1990) e Inland Empire (2006), ou Peter Weir, em Sem Medo de Viver (1993), foram outros realizadores que usaram extractos das suas composições.
A fundamental dimensão política do seu trabalho encontrou uma concretização muito especial em Lacrimosa (1980), encomenda do sindicato Solidariedade de homenagem às vítimas da revolta nos estaleiros de Gdansk, em 1970. Lacrimosa seria objecto de vários desenvolvimentos, o último dos quais em 2005, com um derradeiro andamento em memória de João Paulo II — a obra passou a designar-se Requiem Polaco.

>>> Polymorphia (1961), banda sonora de O Exorcista.


>>> O Despertar de Jacob (1974), banda sonora de Shining.


>>> Penderecki dirige a Orquestra de Câmara da Coreia, interpretando o seu Concerto para Violino nº 2 'Metamorphosen' (1992-95); violino: Juyoung Baek — Seul, 18 Dezembro 2013.


>>> Obituário no jornal The Guardian.
>>> Site oficial de Krzysztof Penderecki.
>>> Krzysztof Penderecki na NPR.

domingo, março 29, 2020

Mécia de Sena (1920 - 2020)

[FOTO: Fernando Lemos, 1949 — FCG]
Escritora, professora, investigadora, foi também a admirável gestora e divulgadora da obra do seu marido, Jorge de Sena (1919-1978): Mécia de Sena faleceu no dia 28 de Março, em Los Angeles — completara 100 anos a 16 de Março.
Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo também o curso do Conservatório de Música do Porto. Foi professora do ensino secundário e, depois do casamento, em 1949, "colaboradora literária" de Jorge de Sena. A morte prematura do marido fez dela a principal guardiã do respectivo espólio, inclusive das cartas trocadas por ambos durante o exílio brasileiro do escritor [Correspondência Jorge de Sena e Mécia de Sena (Brasil, 1959-1965), de Maria Otília Pereira Lage, ed. Afrontamento]. Nas suas palavras cristalinas, a vida do casal fundamentou-se na rejeição do "caminho mais fácil", nessa medida gerando "uma confiança e uma identificação que dificilmente poderão ter paralelo".

>>> Início de uma entrevista de Jorge de Sena, registada na Universidade da Califórnia (Santa Barbara), no dia 4 de Maio de 1978 — Sena faleceu um mês mais tarde.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

Distância social [Audi]

O anúncio da Audi tem assinatura da NRG Brands, agência de publicidade da Bulgária — eis um exemplo de serena sabedoria na promoção da ideia de distância social, recriando e, por assim dizer, "corrigindo" um emblema de reconhecimento internacional. Mais simples não seria possível. E mais pedagógico também não.

>>> Outro anúncio da Audi, neste caso em filme, realizado pela NRG Brands em 2017.

sábado, março 28, 2020

Gerhard Richter — uma exposição

GERHARD RICHTER
Auto-retrato, 1996
Os 150 anos do MET (Metropolitan Museum of Art), de Nova Iorque, estão a ser comemorados com diversas exposições que têm agora, mais do que nunca, uma importante vida virtual. É o caso da retrospectiva do alemão Gerhard Richter (n. 1932), até 5 de Julho, com o belo título 'Painting after all' — qualquer coisa como "afinal é sempre pintura". Assim é, de facto: da abstracção à reconversão pictórica de representações fotográficas, Richter é um admirável criador e crítico das imagens como entidades que expõem as fronteiras do visível, tanto quanto nos podem confrontar com o que permanece ausente das representações correntes do mundo. Ou até mesmo com o que, historicamente, resistiu ao testemunho das imagens — há vários trabalhos que envolvem ecos do Holocausto e, mais especificamente, de Auschwitz-Birkenau.
Para descobrir no site do MET. Aqui em baixo, um breve video de apresentação da exposição.

Roland Barthes, aqui e agora

Na sequência de um acidente, Roland Barthes faleceu no dia 26 de março de 1980, fez ontem 40 anos. A obra do autor de O Prazer do Texto, Fragmentos de um Discurso Amoroso e A Câmara Clara não perdeu actualidade nem sedução — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Março).

Roland Barthes faleceu no dia 26 de março de 1980 — faz hoje 40 anos. Nesse mesmo ano, lançara aquele que continua a ser, por certo, um dos seus livros mais lidos, não só pelo grande público, mas também em contextos de estudo da fotografia e do cinema: chama-se A Câmara Clara e nele o autor discute as transparências e mistérios da imagem fotográfica, quer convocando os grandes mestres (Nadar, Cartier-Bresson, Mapplethorpe, etc.), quer citando registos da sua história familiar, em particular uma fotografia emblemática da sua mãe.
A notícia da sua morte foi um choque. Nascido a 12 de novembro de 1915, em Cherburgo, Barthes era um nome central no pensamento europeu e, além do mais, uma personalidade muito activa nos domínios da escrita e do ensino, na altura integrando o corpo docente do Collège de France, em Paris. Foi, aliás, a caminho das suas aulas, no dia 25 de fevereiro desse ano, que foi atropelado por um camião, num acidente que se revelaria fatal.
Barthes desempenhou um papel fundamental na revolução dos estudos semiológicos da década de 60, tendo publicado os seus Ensaios Críticos e Elementos de Semiologia, respectivamente em 1964 e 1965. A agilidade do seu pensamento, combinando o rigor analítico com o risco filosófico, teve uma influência tanto maior quanto a sua escrita nunca se confinou aos mais clássicos domínios de investigação (a começar pela literatura), abrindo espaços de reflexão sobre os objectos, comportamentos e valores da chamada “sociedade de consumo”.
Dois livros podem ilustrar essa sua atenção às vibrações específicas da nossa vida social, desmontando ideias feitas (sobretudo mal feitas) que circulam a propósito de tudo aquilo que, precipitadamente, consideramos “banal” ou “indiferente”. Um deles, Sistema da Moda (1967), tem a estrutura de uma tese universitária e desmonta o discurso (da moda, precisamente) sobre o que vestimos, o que escolhemos vestir ou nos é dito que devemos vestir. O outro é, ainda hoje, o título mais popular da sua vasta bibliografia: Mitologias (1957) observa com precisão semiológica, e também um delicioso e contagiante humor, os mais variados temas do imaginário social, da publicidade dos produtos de limpeza à iconografia da Volta à França em Bicicleta, passando pelos lugares-comuns dos discursos populistas da época.
Escusado será dizer que, hoje em dia, a obra de Barthes será tudo o que se quiser menos um objecto esquecido num qualquer recanto de curiosidades museológicas. Para além dos muitos estudos, análises e releituras que continua a suscitar, a sua vida foi tratada numa monumental biografia assinada por Tiphaine Samoyault (Roland Barthes, ed. Seuil, 2015).
À excepção desta biografia, a maior parte dos seus livros estão disponíveis no mercado português (com chancela das Edições 70). Eis mais três hipóteses de descoberta ou redescoberta:
[Seuil]
— O PRAZER DO TEXTO (1973): é um dos seus trabalhos mais breves (cerca de uma centena de páginas) e também um dos mais influentes. Trata-se de perguntar como se escreve e, mais do que isso, como lemos aquilo que se escreve. O seu título envolve a tensão entre as linguagens que aprendemos e a possibilidade de protagonizarmos, descobrirmos e inventarmos outras linguagens. No admirável prefácio da primeira edição portuguesa (escrito a 14 de maio de 1974), Eduardo Prado Coelho definia tal tensão a partir de duas frentes: “a guerra das linguagens e a paz dos textos”.
— FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO (1977): Barthes parte da “extrema solidão” do discurso amoroso, convoca autores como Balzac, Goethe e Freud, propondo uma originalíssima digressão através dos sobressaltos da paixão. Entre os seus fragmentos e alíneas encontramos, por exemplo, “carta”, “ciúme”, “eu amo-te”, “obsceno” e “verdade”.
— LIÇÃO (1978): texto breve, por excelência, não mais que quatro dezenas de páginas sublimes. Nas palavras da lição inaugural da disciplina de Semiologia Literária do Collège de France (proferida a 7 de janeiro de 1977), Barthes fala da aventura de ensinar, da transmissão do saber e dessa revelação visceral, profundamente sensual, que faz com que o saber se transfigure em sabor.

>>> Roland Barthes por Philippe Sollers [Tel Quel, nº 47, Outono 1971].