terça-feira, maio 03, 2016

CANNES 2016 * — filmes em competição (8)

Na história de Cannes ao longo deste século XXI, o romeno Cristian Mungiu terá sido uma das mais fulgurantes revelações: em 2007, com o desencantado realismo de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias , arrebatou a Palma de Ouro. Regressou em 2012, com Para Lá das Colinas, distinguido com o prémio de argumento. Agora, está de volta à Côte d'Azur com o drama familiar Bacalaureat [trailer em versão original].


segunda-feira, maio 02, 2016

SkyArts — cor e fantasia

Ainda há quem faça televisão sem ter medo da palavra arte... Derivado do Artsworld, criado no ano 2000, o SkyArts possui, além do mais, uma belíssima iconografia promocional — eis três dos seus spots, verdadeiras celebrações de cor e fantasia.

SOUND + VISION Magazine
— sessão especial PRINCE [5 Maio]

A música, a imaginação e o imaginário de Prince serão temas de uma sessão especial do SOUND + VISION Magazine — dia 5 de Maio, 18h30, na FNAC do Chiado.

CANNES 2016 * — filmes em competição (7)

PERSONAL SHOPPER
Olivier Assayas
(França)
Dois anos depois de As Nuvens de Sils Maria, Olivier Assayas regressa à competição de Cannes com um filme cujo elenco volta a integrar Kristen Stewart — agora, a actriz americana interpreta uma jovem que trabalha no mundo da moda, em Paris, surgindo no seu dia a dia uma dimensão fantástica ligada ao desaparecimento do seu irmão gémeo... Uma vez mais, Assayas acumula as tarefas de realização e escrita de argumento [video: imagens da rodagem produzidas pela StormShadow].


Ver + ouvir:
Tim Hecker, Castrati Stack



Um dos temas do álbum recentemente editado por Tim Hecker no qual se estabelecem pontes entre ecos da música do século XV e visões de um presente digital. Um dos álbuns mais cativantes e intrigantes do ano... E este é um dos telediscos. Na verdade mais video art que um vídeo musical convencional.

Novas edições:
Rufus Wainwright,
Take all My Loves: 9 Shakespeare Sonets

Por muitas faltas em que incorra, a ópera Prima Donna acabou por ser um possível momento de viragem na carreira de Rufus Wainwright (e digo “possível” porque só a passagem do tempo o poderá confirmar). Rufus tinha já trabalhado com suportes orquestrais, quer no imponente díptico Want ou na visão que levou a palco uma noite célebre de Judy Garland no Carnegie Hall... Mas ao compor uma ópera aprofundou necessariamente um pensamento sobre a versatilidade cromática e tímbrica que a presença de uma orquestra implica, juntando ainda um primeiro ensaio no domínio do canto lírico (naturalmente na voz dos outros). Essas experiências, mesmo tendo ganho forma numa ópera que nasce demasiado assombrada sob o peso referencial da memória de Verdi e revela um caso mais próximo do pastiche do que de uma visão da linguagem do teatro musical do nosso tempo, ajudaram contudo a abordar este outro passo discográfico com conhecimento, segurança e... ousadia. E eis que, assim, em Take all My Lovers: 9 Shakespeare Sonets, encontramos o melhor disco de Rufus Wainwright desde que, em 2004, nos deu a ouvir as canções de Want Two.

Convém dizer desde já que esta não representa a primeira abordagem de Rufus Wainwright à obra de Shakespeare. Robert Wilson convidou-o, há uns anos, para criar música para uma produção teatral baseada nos sonetos de Shakespeare. Mais adiante, a San Francisco Symphony solicitou arranjos para cinco dos sonetos para os quais já havia composto a música. E, pelo caminho, três deles tinham já encontrado gravação na sua voz, com apenas o piano por perto, no álbum All Days Are Nights: Songs For Lulu. Com todo este corpo de experiências por base, Take all my Lovers nasceu como uma natural extensão de um trabalho continuado em volta de Shakesperare. E, com um elenco de cantores, atores, chamando novamente a cena Marius de Vries (o seu parceiro em Want), eis que nasce um disco que nem é pop nem clássica, nem álbum de canções, nem teatro musical... Mas que é tudo isso ao mesmo tempo. E nas medidas certas.

A Rufus Wainwright cabe aqui a ideia, a composição e apenas algumas das interpretações, sendo que em Take all my Loves, o fulguroso Unperfect Actor (onde a intensidade das guitarras elétricas acolhe ainda a presença das vozes de Helena Bonham Carter, Martha Wainwright e Fiora Cutler), uma nova versão de A Woman’s Face (em cujas palavras habita um interessante discurso sobre identidade de género) ou em All Dessen Müd (o Soneto 66, lido e cantado em alemão, num momento de intensa dimensão dramática partilhado com Christopher Nell e Jürgen Holtz que evoca heranças de um Kurt Weill), encontramos as suas melhores canções dos últimos tempos. À sua voz juntam-se ainda, mas como protagonistas nas respetivas canções, as de Anna Prohaska (soprano e a mais presente das vozes no alinhamento) ou Florence Welsh, e ainda, recitando, as de atores como Sian Phillips, William Shatner, Carrie Fischer ou Peter Eyre.

Nos 400 anos da sua morte, Shakespeare tem aqui uma das mais interessantes abordagens pela música que a sua obra e memória conheceram nos últimos tempos. E com este disco Rufus Wainwright parece ter encontrado um novo caminho, no qual as suas duas facetas - a pop e a clássica (aqui juntando heranças do romantismo às vivências da música de teatro que fez escola na Broadway) - convivem e dialogam em sintonia. Agora sim, a sua presença na Deutsche Grammophon traz algo de novo à história da editora da cartela amarela.

Para ler: que impacte terão Prince
e Beyoncé no serviço Tidal?

Não tem a amplitude de alcance de outros serviços, mas apresenta alguns exclusivos como trunfo. Uma boa reflexão sobre as reais potencialidades e futuro do Tidal.

Podem ler aqui.

Uma lição de Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço
De que falamos quando falamos de transcendência? Eduardo Lourenço recordou-nos as nossas crenças e desilusões — este crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (29 Abril), com o título 'Crise de transcendência'.

Na entrevista concedida por Eduardo Lourenço a Fátima Campos Ferreira, emitida no dia 25 de Abril (RTP1), ouço e registo esta frase do entrevistado: “A Europa está sem nenhum referente de ordem transcendente — de nenhuma espécie.”
Sábias palavras proferidas por alguém que nos ensinou a perscrutar a realidade para além das evidências com que nos é servida — e, tantas vezes, televisionada. Pronunciava-se Eduardo Lourenço sobre as clivagens entre o Ocidente e o mundo islâmico, numa deambulação, necessariamente breve, a pretexto da Europa que somos (ou imaginamos ser).
Num dia em que algumas evocações televisivas do 25 de Abril pareceram empenhadas em reduzir a nossa história a uma colecção de vinhetas anedóticas, as palavras de Eduardo Lourenço vieram lembrar-nos que a transcendência não se reduz a uma “filiação” religiosa, por mais genuína que possa ser a sua origem ou sentidas as suas práticas. O apelo transcendental decorre da insuficiência existencial das trocas sociais — e se os indivíduos e as colectividades se reconhecem em tal apelo é também, necessariamente, para reforçar o valor intrínseco dessas trocas.
Num tempo em que Portugal e muitos países da Europa se acomodaram à contaminação do espaço televisivo pelos horrores da “reality TV”, a possibilidade de alguma transcendência é mais urgente do que nunca. Actualmente, Love on Top (TVI) vai ao ponto de consagrar a ideia de que partilhar a performance sexual num concurso de televisão é uma grande realização pessoal... Na emissão do dia 23, Teresa Guilherme ansiava mesmo por mais agitação: “Toda a gente achava que a Casa ia ser uma pouca vergonha... E afinal os nossos concorrentes estão tão envergonhados...” Dir-se-ia que a televisão mais grosseira se propôs destruir qualquer desejo de transcendência — no limite, a exposição obscena no ecrã é promovida como único modelo de sagrado.

domingo, maio 01, 2016

CANNES 2016 * — filmes em competição (6)

AGASSI
Park Chan-Wook
(Coreia do Sul)
Por certo o mais internacional dos cineastas coreanos, Park Chan-Wook regressa a um festival que já o distinguiu duas vezes: Grande Prémio para Oldboy-Velho Amigo (2004); Prémio do Júri para Thirst-Este É o Meu Sangue (2009). Agassi (título internacional: The Handmaiden) anuncia-se como uma história policial e romântica, adaptando a um contexto coreano o romance The Fingersmith, da britânica Sarah Waters [trailer em versão original].


sábado, abril 30, 2016

À procura da "Amerika" perdida

Espantoso teledisco: Amerika, dos canadianos Wintersleep, pertencentes à cena alternativa de Halifax (Nova Escócia), traça o retrato desencantado de um presente em que, desde a degradação das cidades à voz de Donald Trump evocando as antigas "vitórias" americanas, tudo parece remeter para as memórias de um tempo perdido, porventura irrecuperável.
Assinado por Scott Cudmore, mais do que um clip de divulgação, este é um verdadeiro pequeno grande filme que, além do mais, altera a estrutura da canção encenada, convocando o espectador para uma genuína experiência narrativa, a meio caminho entre documentário e ficção — Amerika é o tema de abertura de The Great Detachment, sexto álbum de estúdio dos Wintersleep.

Manoel de Oliveira, João Botelho e nós

Manoel de Oliveira em Acto da Primavera (1963)
Foi apresentado no IndieLisboa um filme em que João Botelho evoca o seu mestre Manoel de Oliveira — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Abril), com o título 'No espelho de Manoel de Oliveira'.

De que falamos quando falamos do cinema de Manoel de Oliveira? A pergunta envolve um perverso jogo de espelhos. Como todos os grandes criadores, Oliveira é alguém que convoca a singularidade do espectador: quando dizemos “ele”, somos levados a repensar o nosso “eu”. É isso mesmo que faz João Botelho num filme belíssimo, intitulado O Cinema, Manuel de Oliveira e Eu, estreado no IndieLisboa.
Não por acaso, entre as memórias da filmografia de Oliveira convocadas por Botelho, Acto da Primavera (1963) emerge como a mais emblemática das referências. Através do seu registo da Paixão de Cristo, interpretada pelos habitantes da aldeia transmontana da Curalha, Oliveira celebrava, antes de tudo o mais, a verdade teatral das palavra. E a expressão não tem nada de arbitrário: a verdade não se apresenta, aqui, como uma entidade passiva que o cinema transcreve (nada a ver com o naturalismo pueril dos apanhados televisivos); a sua dinâmica está enraizada numa teatralidade em que, em última instância, se discutem as diferentes visões do mundo.
João Botelho
[Foto: Miguel A. Lopes]
Muito antes da actual “moda” dos documentários (com alguns filmes admiráveis, não é isso que está em causa), Acto da Primavera fazia ver o documental como uma variante do desejo de ficção que anima o ser humano, a sua incansável necessidade de contar e partilhar histórias.
Botelho conduz tal desejo a um extremo de radicalismo formal e amor cinéfilo, encenando uma história herdada do próprio Oliveira. Assim, a certa altura, através da sua voz off, recorda uma ficção melodramática sobre uma prostituta, pertencente à galeria imensa das histórias que Oliveira nunca chegou a filmar. Botelho chama-lhe “sua”, dá-lhe o título de A Rapariga das Luvas, e encena-a como se fosse um filme mudo, assumindo as leis narrativas do cinema antes do som (integrando mesmo o obrigatório acompanhamento ao piano, numa delicada interpretação de Nicholas McNair).
O resultado envolve qualquer coisa de raro e desconcertante. Aqui está um filme que começa como um documentário na primeira pessoa, transfigurando-se num ritual de imagens e sons em que o cinema desafia, nem que seja pela ironia dos contrastes formais, os seus próprios limites. Nesta perspectiva, O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu sublinha uma das frases nucleares de Botelho: “Oliveira nunca fez filmes. Fez cinema. Fez cinema contemporâneo dele e, sobretudo, cinema que anunciava o que viria depois.”
Há qualquer coisa de profilático no trabalho de Botelho. Afinal de contas, quando Oliveira faleceu, há pouco mais de um ano, parecia que os difamadores de muitas décadas se tinham transformado todos, por milagre, em adoradores do “mestre”... Para combater tão vil cinismo, importa continuar a filmar, questionando o próprio cinema, questionando a difícil arte de ser espectador. É isso que Botelho arrisca.

CANNES 2016 * — filmes em competição (5)

LOVING
Jeff Nichols
(EUA)
Inspirando-se numa história verídica, em finais da década de 50, sobre a relação entre um homem branco e uma mulher negra, Jeff Nichols está pela segunda vez na competição de Cannes (a primeira ocorreu em 2012, com Mud/Fuga) — neste video do site francês AlloCiné, extraído de uma entrevista sobre o seu filme anterior, Midnight Special (2016), Nichols explica a génese do projecto.


sexta-feira, abril 29, 2016

7 versões de canções de Prince [3]

[ 1 ]  [ 2 ]

A dimensão jazzística da obra de Prince não foi um mero adorno. Além do mais, sintomaticamente, encontrou ecos muito concretos no trabalho de alguns mestres. No caso de Thieves In the Temple, é Herbie Hancock, em luxuriante companhia — Michael Brecker (saxofones), John Scofield (guitarras), Dave Holland (baixo acústico), Jack DeJohnette (bateria) e Don Alias (percussão) —, que propõe uma primorosa versão que parece ter sido composta directamente para o seu piano. A canção pertence ao álbum Graffiti Bridge (1990), banda sonora do filme com o mesmo título; Hancock inclui a sua versão em The New Standard (1996), ao lado, por exemplo, de Mercy Street (Peter Gabriel), Norwegian Wood (Lennon, McCartney) e All Apologies (Kurt Cobain).

A IMAGEM: Mert Alas & Marcus Piggott, 2013

MERT ALAS & MARCUS PIGGOTT
Come as you are
W Magazine, 2013

Cinema russo — um passado muito presente

Organizado pela Leopardo Filmes, um ciclo dedicado ao Grande Cinema Russo está a decorrer em Lisboa [Espaço Nimas] e Porto [Teatro do Campo Alegre], testemunhando uma cronologia insólita, paradoxal e fascinante, resumida no seu subtítulo: 'Do mudo à Perestroika'. São reencontros e descobertas para nos ajudar a compreender que, mesmo com toda sua riqueza, a produção anglo-saxónica não basta para acedermos à pluralidade dos filmes e das suas histórias — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Abril), com o título 'Saudades de Tchekhov'.

Um dos efeitos mais perversos do poder do cinema americano nos mercados globais é o apagamento das suas próprias diferenças interiores. De facto, é dos EUA que continuam a surgir algumas das mais fascinantes propostas cinematográficas, plurais e contraditórias, mas o espectador médio tende a reduzir a produção americana à rotina mais ou menos ruidosa dos “blockbusters”.
Sergei Eisenstein
(1898-1948)
Algo de semelhante se poderá dizer sobre a grande tradição russa que, agora, é tema deste notável ciclo “Do mudo à Perestroika”. Uma visão maniqueísta, saturada de “política”, em grande parte induzida pelo imaginário de esquerda, descreve tal tradição como uma espécie de emanação “natural” da Revolução de Outubro. Acontece que também neste caso, mais do que nunca, importa lembrar que as relações entre contexto político e gestos artísticos nunca são lineares, muito menos maniqueístas. Em boa verdade, os filmes — lembremos o exemplo do genial Ivan, O Terrível, de Sergei Eisenstein — existem num permanente confronto dialéctico (palavra que passou a ser temida pela própria esquerda) que faz da história uma paisagem de incontornáveis, porventura insanáveis, convulsões e contradições.
E se Eisenstein ou Dziga Vertov nos ajudam a pensar a política para além dos códigos da própria cena política, há cineastas como Elem Klimov (lembremos o prodigioso Adeus a Matiora) cuja visão do tecido social vem enriquecer as reflexões contemporâneas em torno de um realismo que não se entregue ao pitoresco televisivo. Isto sem esquecer que através de outros, como Nikita Mikhalkov (Olhos Negros), reencontramos a mais nobre tradição “tchekhoviana”. Em boa verdade, a nostalgia ensina-nos que esta é uma história que começa na arte da escrita, antes ainda de haver máquinas de filmar.

quinta-feira, abril 28, 2016

"Purple Rain" por um dia
nos cinemas UCI

O filme de 1984, que teve um peso marcante na projeção de Prince para um estatuto de estrela global, vai voltar a ser exibido comercialmente entre nós na próxima semana. Purple Rain estará em exibição no dia 6 de maio nos cinemas UCI de Lisboa e Porto, em sessões às 19.00 e 21.30.
Realizado por Albert Magnoli e protagonizado por Prince, o filme apresenta alguns traços autobiográficos do músico que, aqui, fazia a sua estreia no grande ecrã. Prince interpreta a figura de "The Kid”, um jovem talentoso e problemático vocalista de uma banda de Minneapolis.

"Truman" — psicologia em tom espanhol

Javier Cámara e Ricardo Darín
Truman foi o grande vencedor dos Goya do cinema espanhol: um filme que sabe revalorizar o modelo dos retratos psicológicos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Abril), com o título 'Vencedor dos prémios Goya valoriza a subtileza psicológica'.

Se há elogio que podemos fazer à produção cinematográfica de Espanha, é em nome de uma velha tradição narrativa. De facto, independentemente das suas diferenças internas, por certo muitas delas radicais, o cinema espanhol tem sabido preservar os mecanismos clássicos do “filme psicológico”. Sem vícios saudosistas nem preconceitos modernistas — apenas porque essa é (ou pode ser) uma via sempre válida para compreender o emaranhado das relações humanas. Consagrado nos prémios Goya como melhor filme espanhol de 2015, Truman é um exemplo feliz dessa vitalidade tradicional. E tanto mais quanto o núcleo da sua história — os últimos tempos de um homem que tem plena consciência da sua doença terminal — se podia prestar às mais grosseiras manipulações “telenovelescas”.
O filme envolve-nos, antes do mais, pela ambivalência do seu registo. A figura central, Julián, convoca o seu amigo Tomás (que vive no Canadá), dando-lhe conta da crescente fragilidade da sua saúde. Dir-se-ia um luto antecipado, vivido num registo visceralmente dramático. O certo é que Julián não pede qualquer tipo de protecção, muito menos piedade: o seu objectivo principal é garantir que o seu cão — o Truman que dá título ao filme — vai poder ficar com alguém que o estime.
Tudo isto podia ser pretexto para as maiores facilidades, mas acaba por ser gerido pelo realizador Cesc Gay (também co-autor do argumento) através de um delicada teia de pequenos acontecimentos que funcionam como outros tantos momentos de revelação das emoções mais contrastadas. Daí a decisiva importância do trabalho dos actores, sobretudo o argentino Ricardo Darín e o espanhol Javier Cámara, respectivamente como Julián e Tomás: o primeiro confirmando a subtileza de um talento que já observáramos, por exemplo, em O Segredo dos Seus Olhos (2009) ou Carancho (2010); o segundo, desde Fala com Ela (2002) uma presença regular no cinema de Pedro Almodóvar, compondo uma personagem que se distingue, antes do mais, pela capacidade de escuta.
A intensidade psicológica de um filme como Truman nada tem a ver com qualquer preocupação “simbólica”. Ao contrário de muitas ficções televisivas, a existência de uma personagem que sofre de uma doença terminal não confere ao filme o estatuto de um “caso de vida” à procura de generalizações mais ou menos simplistas. Tudo depende do carácter irredutível das personagens, dos seus gestos e da especificidade das situações que vivem.
A atenção às singularidades dos comportamentos individuais envolve um princípio eminentemente realista. Nesta perspectiva, poderá dizer-se que Truman reforça a ideia segundo a qual as mais diversas cinematografias, europeias e americanas (sul-americanas, em particular), têm procurado reagir ao naturalismo simplista do espaço televisivo, revalorizando o gosto e as exigências dos registos realistas. Toda a caracterização do espaço social em que vive Julián é significativa de tal gosto. Afinal de contas, também de acordo com uma via muito tradicional, este é um cinema capaz de contar histórias de grande apelo universal a partir da cuidada observação dos mais finos particularismos.

Bruce Springsteen evoca Prince

Grande e comovente homenagem: em concerto no Barclays Center, em Brooklyn, Nova Iorque (23 Abril), Bruce Springsteen e The E Street Band evocaram Prince, numa performance em que, desde a música às luzes do palco, predominou a cor púrpura — eis o registo de Purple Rain, a abrir o espectáculo [a não perder: a magnífica crónica de Caryn Rose, no site da NPR]. Além do mais, no seu site, Bruce oferece o respectivo download.

quarta-feira, abril 27, 2016

7 versões de canções de Prince [2]

[ 1 ]

Porventura uma escolha menos óbvia no catálogo dos experimentais e electrónicos Art of Noise, Kiss surgiu transfigurado numa batida obviamente indissociável do seu novo intérprete: Tom Jones. A proeza, consagrada em single de 1988, afigura-se tanto mais admirável quanto esta era (e é) uma daquelas canções — do álbum Parade (1986) — que podem resumir o génio de composição e voz de Prince. Além do mais, a nova versão foi sustentada por um teledisco de muito simples, e também muito eficaz, energia visual.

The Kills — a caminho do álbum nº 5

Já sabíamos que o quinto álbum de estúdio de The Kills, Ash & Ice, estará disponível nos primeiros dias de Junho. Depois de Doing It to Death, aí está mais uma canção vintage de Alison Mosshart + Jamie Hince: chama-se Heart of a Dog e tem um teledisco capaz de reavivar o gosto, muito seventies, de fragmentação do ecrã.

From sea to mountain valley
From flesh to palms a’ swaying
Dreamers dreaming on
No matter what they’re saying

I need you
Don’t ask me why it is
I want strings - attached
Unnatural as it feels

I’m loyal, oh oh, I’m loyal

From starry eyes colliding
From Mars to someone crying
I’m never far away
No matter what I’m hiding

I get lost
But I always come around
It’s a strange fear
Allows me to be found
I’m loyal, oh oh, I’m loyal
I’m loyal, oh oh
I got the heart of a dog

It’s life or death why I chew through the chain
It don’t matter my love’s the same
Go so far but never long
Can’t break the spell in my heart
I’m loyal, oh oh, I’m loyal
I’m loyal, oh oh
I got the heart of a dog

From bars to beds of laying
From boots of lead to changing
I’m hooked from deep inside
Call when you’re ready cos I’m ready to ride

I’m loyal, oh oh
I’m loyal, oh oh
I got the heart of a dog

A IMAGEM: Daryl Cagle, 2016

DARYL CAGLE
Donald Trump e o circo mediático
2016

Marlon Brando por Marlon Brando (2/2)

STELLA ADLER
(1901-1992)
Listen to Me Marlon é um notável documentário em que Marlon Brando surge através de registos sonoros das suas próprias palavras — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Abril), com o título 'A alma de Stella Adler'.

[ 1 ]

A certa altura, o filme Listen to Me Marlon apresenta um registo de Stella Adler (naquilo que parece ser uma aula com algum público a assistir) em que ela resume o trabalho que se pede ao actor: “A peça não tem nada a ver com palavras. Não se representa com palavras, representa-se com a alma.”
Bem sabemos que as grandes noções metafísicas, “alma”, “felicidade”, “dignidade”, têm sido grosseiramente banalizadas pelo imaginário televisivo — no futebol, por exemplo, sempre que uma equipa portuguesa perde de forma concludente com alguma formação estrangeira, a derrota tende a ser descrita como um desastre muito “digno” (será que os vencedores foram “indignos” apenas por terem sido melhores?...).
Acontece que Adler fala a partir de um contexto criativo em que a palavra alma não é um detalhe mais ou menos frívolo para disfarçar a inanidade das ideias. A singularidade do actor que ela defendia — e de que Marlon Brando terá sido a mais radical concretização — implica uma tão radical entrega do corpo que, no limite, o seu efeito já pertence a uma outra dimensão (a que, justamente, podemos dar o nome de “alma”). Por alguma razão, quando evoca a sua participação em Revolta na Bounty (1962), Brando reconhece que aquele é o tipo de filme em que não quis voltar a aparecer: quando o actor não é convocado para desafiar os enigmas da própria personagem, apenas para a “ilustrar”, faz, literalmente, figura de corpo presente.
Quando vemos, agora, grandes actores perdidos nos clichés dos super-heróis (por exemplo: Robert Downey Jr. vestido com o fato metálico do Homem de Ferro), não podemos deixar de perguntar se os espectadores estão a ser (des)educados para já não saber como olhar Brando e os seus pares. Se assim for, então o cinema está a perder a sua alma.