segunda-feira, março 27, 2017

Que cultura? Que Europa?

A manchete refere a cultura como a matéria esquecida da campanha. A frase de introdução do artigo é perturbante:

>>> Numa eleição presidencial esmagada pelos negócios, as questões culturais, apesar de presentes nos programas, são varridas dos debates — uma incoerência num país em plena depressão identitária.

Dir-se-ia um desabafo amargo justificado pelo deserto cultural português. Mas não: são palavras e pensamentos, desencanto e cepticismo que nos chegam de França [Libération, 27 Março], em vésperas de eleger um novo Presidente.
Que o estrangeirismo da coisa não nos aquiete — uma Europa que não pensa a sua dinâmica cultural é, obviamente, um corpo cego em movimento que abandona a cultura nas mãos (e na crueldade) dos que não querem ser solidários e europeus. Como diz o título do editorial, numa amarga ironia cinematográfica, é uma Europa que deixa a cultura fora de campo.

3 x Scarlett Johansson (1)

A chegada de Ghost in the Shell é pretexto para uma breve deambulação por alguns dos títulos marcantes na carreira de Scarlett Johansson — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Março), com o título 'De musa de Woody Allen a estrela dos filmes da Marvel'.

A história, a tradição e a própria moral do espectáculo ensinam-nos que os méritos de uma estrela de cinema não são um reflexo imediato dos números da sua contabilidade pessoal. Seja como for, o mais básico pragmatismo lembra-nos também que a dimensão de uma “star”, sobretudo no interior da máquina do cinema americano, não é estranho ao significado de tais números.
Scarlett Johansson, por exemplo: o seu nome surge em terceiro do lugar na lista das actrizes mais bem pagas ao longo do ano de 2016, editada pela revista Forbes, com um rendimento global de 25 milhões de dólares (cerca de 23,2 milhões de euros). Apenas superada por Jennifer Lawrence e Melissa McCarthy (em 1º e 2º, respectivamente), terá recebido 17,5 milhões por um único filme — Ghost in the Shell, adaptação de uma “manga” japonesa que estreia na próxima quinta-feira —, resultando outra importante fatia do seu rendimento de um contrato publicitário com a casa Dolce & Gabbana.
As aventuras mais ou menos fantásticas, inspiradas ou não na BD, tornaram-se mesmo uma marca forte da sua recente filmografia. Vimo-la, por exemplo, no “thriller” futurista Lucy (2014), dirigido pelo francês Luc Besson, ou ainda, desde Homem de Ferro 2 (2010), a assumir a personagem de Natasha Romanoff/Viúva Negra em várias aventuras de super-heróis com chancela da Marvel. Repetirá o papel em Avengers: Infinity War, agendado para 2018.
Ironicamente, nos primeiros tempos da sua carreira, parecia ser um banal fenómeno infantil, mais ou menos ligado à tradição iconográfica dos estúdios Disney. Em 1995, aos 11 anos de idade (nasceu a 22 de Novembro de 1984, em Nova Iorque), surgiu, por exemplo, no policial Causa Justa, no papel de filha do casal interpretado por Sean Connery e Kate Capshaw; dois anos mais tarde, integrava o elenco de Sozinho em Casa-3. Foi Robert Redford, na tripla qualidade de produtor, realizador e actor, que lhe ofereceu um primeiro papel consistente em O Encantador de Cavalos (1998), filme nostálgico dos grandes melodramas clássicos.

domingo, março 26, 2017

"A verdade morreu?"

A pergunta colocada pela revista Time (edição com data de 3 de Abril) não podia ser mais actual e perturbante. De facto, os célebres "factos alternativos", consagrados pela expressão já lendária de Kellyanne Conway e sustentados pelo exercício do poder por Donald Trump, não são meras imprecisões, acidentais ou perversas. Estamos perante uma reconfiguração da circulação da informação em que os valores mais nobres do jornalismo — e de todas as relações sociais — tendem a ser fagocitados por uma voragem política que, em última instância, visa a destruição das estruturas tradicionais da própria política.
É sobre isso que fala o fundamental artigo de Michael Scherer, sintomaticamente intitulado 'Será que o Presidente Trump consegue lidar com a verdade?'. No seu editorial, Nancy Gibbs, interroga-se mesmo sobre o modelo de relação que se estabeleceu (ou cortou) entre Trump e os americanos:

>>> Como cidadãos, é vital que sejamos capazes de acreditar no nosso Presidente; é também vital que saibamos aquilo em que ele acredita, e porquê. Este Presidente transformou uma coisa e outra num dramático desafio.

Futebol e árbitros [citação]

>>> Se virmos bem, para se ser campeão em Portugal não basta só termos o melhor treinador, os melhores jogadores e jogarmos o melhor futebol! Com esta pressão toda que por aí anda, com os vergonhosos debates televisivos que por aí se multiplicam, o factor decisivo é o árbitro.
(...) Condicionar o trabalho dos árbitros é aberrante. Há os bons e menos bons. O problema, no momento, é que estão a ser lançados ainda muito jovens para os jogos das equipas grandes. Se os mais experientes estão sujeitos a erro, que dizer destes? Vão ter uma formação distorcida… Mas, no geral, as coisas não são já como antigamente. Se pudesse falar, e eu estive no centro do furacão tantas e tantas vezes, contava histórias inimagináveis. Não tenho asas nas costas, ninguém as tem, mas houve uma altura em que tive vergonha de andar no futebol.

MANUEL JOSÉ
A BOLA, 26 Março 2017

sábado, março 25, 2017

A IMAGEM: Frauke Fischer, 2016

FRAUKE FISCHER
Barbara Magazine
2016

Eusébio — nem lenda, nem história

Eusébio - História de uma Lenda, filme de Filipe Ascensão, reduz as memórias do futebol a uma pobre antologia televisiva — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (9 Março).

De que “lenda” se trata? Em boa verdade, de uma “canonização” da figura de Eusébio que, além de humanamente simplista, surge sustentada por breves depoimentos banalmente hagiográficos dos seus pares (Cristiano Ronaldo, Figo, Rui Costa, etc.). E que “história” se conta? Apenas uma colagem de registos de golos e mais golos que nem sequer cumpre os requisitos básicos de um rotineiro programa televisivo, sem informação precisa sobre cada jogo citado (com as mesmas imagens dos espectadores no começo da televisão em Portugal a servirem para “ilustrar” qualquer jogo).
O resultado é uma antologia de lugares-comuns sobre Eusébio, sustentada por uma música pomposa e redundante, incapaz até de avançar com qualquer sugestão de análise sobre as diferenças entre o futebol dos anos 60 e o que se pratica no presente.

sexta-feira, março 24, 2017

Zombies dançantes

Notícias de Los Angeles: OWSLA é o nome de uma editora que se dedica, em especial, à música de dança e ao hip hop, com derivações mais ou menos experimentais. HOWSLA serve de título a uma antologia da editora, com lançamento agendado para 5 de Maio. O seu cartão de visita é o tema I Want You, do DJ escocês Chris Lake, em teledisco com assinatura NORTON.
Digamos, para simplificar, que já há algum tempo não víamos um clip tão radical, e também tão sobriamente elegante, na encenação da proximidade da morte através da música — se os fantasmas de The Walking Dead dançassem, o resultado seria este.

quinta-feira, março 23, 2017

A IMAGEM: Super Bock, 2017

SUPER BOCK
Gastámos tudo em copos
22 Março 2017

Copos, mulheres, a Europa e as palavras

Jeroen Dijsselbloem e Jean-Claude Juncker
I. Leio nas notícias uma frase que, creio, importa reter. Tem a ver com as palavras proferidas por Jeroen Dijsselbloem, presidente do Europgrupo, considerando que os países do sul pedem ajuda depois de terem gasto "todo o dinheiro em copos e mulheres". Assim, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, comentou a reacção do primeiro-ministro português, esclarecendo: "Relativamente às declarações que o presidente do Eurogrupo fez, e tendo em conta que o primeiro-ministro português, o meu amigo António (Costa), acaba de nos convidar a pedir ao senhor Dijsselbloem que se demita, gostaria de dizer numa frase que acredito que aquilo que o senhor Dijsselbloem parece ter dito não reflecte o que ele pensa no fundo".

II. Pasmo perante o silêncio ensurdecedor com que foi recebida esta explicação (?) de Juncker. Vivemos num ambiente "social" em que, por exemplo, se um modesto crítico de cinema se atreve a lembrar que os mecanismos de montagem do cinema de Alfred Hitchcock (em particular a aplicação do chamado "plano subjectivo") envolvem uma filosofia do espectáculo enraizada na interrogação crítica da moral do próprio espectador, tanto basta para que seja insultado na praça pública como um troglodita que só quer "complicar" aquilo que toda a gente "percebe"... Ao mesmo tempo, depois de Dijsselbloem nos reduzir a bêbedos e machistas, Juncker vem informar-nos que se trata apenas de uma avaliação errada da candura intrínseca da sua linguagem — e ninguém diz nada...

III. Decididamente, um dos problemas de fundo da Europa é a sua linguagem institucional — entenda-se: a consistência do seu discurso cultural, sendo a cultura não a ópera a passar no horário nobre das televisões, mas sim o sistema de valores que nos unem ou podem unir. É certo que a Europa é uma ideia admirável cuja defesa implica que não cedamos aos demagogos, de direitas e esquerdas, que apelam a uma espécie de exílio utópico do país. Em qualquer caso, será que tal visão implica que tenhamos chegado ao ponto em que, além de suportarmos a frivolidade irresponsável de alguns actores da cena política, tenhamos que decifrar aquilo que, no fundo, eles pensam? É muito simples resumir o problema: através daquilo que parece ter dito ou daquilo que pensa, Jeroen Dijsselbloem não pertence a nenhuma Europa em que possamos cultivar a difícil arte do diálogo — mesmo que Jean-Claude Juncker nos queira transformar em semiólogos do intolerável.
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* NOTA - Quando Portugal integrou a Europa [1985], houve quem fosse rotulado de perigoso "intelectual" por lembrar duas dúvidas de fundo, inerentes à dinâmica global das instituições europeias. Por mera pedagogia, vale a pena recordar tais dúvidas. A saber: primeiro, uma união económica é essencial, mas não basta, para consolidar uma união política; depois, nenhuma união económico-política se organiza, enriquece e diversifica sem pensar o espaço cultural e os laços que nele, ou através dele, se podem estabelecer.

À espera do terceiro álbum dos San Fermin

Os magníficos San Fermin, banda novaiorquina do multifacetado Ellis Ludwig-Leone, têm um novo álbum, Belong, com lançamento marcado para 7 de Abril. Será o terceiro, depois de San Fermin (2013) e Jackrabbit (2015) — eis a canção-título em formato lyric video.

quarta-feira, março 22, 2017

Ecrãs [citação]

>>> Pela minha parte, escolhi proteger-me o mais possível. Nem tenho de me forçar a isso, detesto tudo o que abole a fronteira entre o público e o privado. É assim mesmo, está na minha natureza, direi mesmo: é a minha norma. Sinto-me aterrorizada pelas redes sociais e os rumores que propagam. Detesto a exposição íntima. Nunca abri a minha porta, para uma reportagem, às câmaras de televisão. Não faço tweets, mostro tanto menos as minhas fotografias de família ou de férias no Facebook quanto não tenho conta no Facebook, e limito ao estrito mínimo as minhas trocas informáticas. O que há de odioso no mail, é que é intrusivo e exige uma resposta imediata. Como se eu passasse os meus dias em frente de um ecrã! O meu trabalho consiste em estar num ecrã, não em frente.

CATHERINE DENEUVE
"Dieu sait que j'adore tourner, mais..."
L'Obs, 19 Março 2017

Basebol em Boston

É bem verdade que o basebol é um desporto distante dos nossos hábitos — e até, para muitos de nós, do mais básico conhecimento. O que, entenda-se, não impede que o seu visual nos seduza de forma muito particular. Um bom exemplo desse poder de sedução poderá ser o portfolio de Stan Grossfeld, do jornal The Boston Globe, dedicado aos treinos da equipa dos Red Sox — ao todo, são 19 imagens, disponíveis no blog fotográfico do jornal, 'The Big Picture'.

terça-feira, março 21, 2017

Bill Evans inédito

Bill Evans (piano), Eddie Gomez (contrabaixo) e Eliot Zigmund (bateria): em todo o seu esplendor, reencontramos The Bill Evans Trio no recentíssimo lançamento de um concerto nunca editado. O álbum chama-se A Monday Evening e foi gravado a 15 de Novembro de 1976, no Union Theater, em Madison, Wisconsin — eis Time Remembered.


>>> Site oficial de Bill Evans.

Dois cineastas no MAAT

Cinema conjugado em forma de exposição, ou a saga contemporânea dos ecrãs: este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Março), com o título 'Dois cineastas resistentes'.

Apichatpong Weerasethakul e Joaquim Sapinho. Um tailandês, um português. Dois cineastas uniram-se para criar a exposição “Liquid Skin”, patente na Sala das Caldeiras do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), até 24 de Abril. Aliás, a simples designação de “exposição” é discutível, no sentido em que o fascínio da arte passa sempre pela capacidade de desafiar as regras comuns da nossa percepção.
O aproveitamento da imponente estrutura das caldeiras, seus recantos, escadas e tubagens expressionistas, apela à noção de “instalação”, embora transcendendo-a. Mas os materiais específicos da exposição são, em última instância, de natureza cinematográfica. Dito de outro modo: os cineastas arquitectaram uma cena audiovisual (e a palavra cena deve ser pronunciada com todo o seu sabor teatral) em que fragmentos de filmes desenham um mapa de singular intimidade.
São filmes, de facto, eminentemente pessoais (no caso de Sapinho, há mesmo imagens de um projecto em desenvolvimento sobre memórias da sua família). São filmes que se oferecem ao visitante/espectador como capítulo incompletos de um ensaio sobre a própria dificuldade, de uma só vez logística e poética, de dar a ver o que pertence aos domínios mais pudicos do viver em comum.
Tudo isto envolve um calculado modo de expor, numa dramaturgia de contagiantes paradoxos. Assim, as imagens de Sapinho combinam a sensação de privacidade com o minimalismo das dimensões, projectando-se nas próprias matérias metálicas do cenário; por sua vez, Apichatpong faz-nos sentir mais pequenos que as próprias imagens, reforçando a pergunta que circula por todo aquele espaço de mágica transparência: o que é ser (continuar a ser) um espectador?
A pergunta não pode ser reduzida a um mero questionamento interior. Importa mesmo lidar com a sua raiz mais funda — entenda-se: social —, por certo para além de qualquer perfil histórico ou psicológico do próprio espectador. Dito de outro modo: “Liquid Skin” é também produto deste tempo de delirante proliferação de imagens. O ecrã deixou de ser a marca sagrada do cinema. Para mal dos nossos pecados, desde os omnipresentes telemóveis até às fachadas dos edifícios, tudo pode ser ecrã.
Apichatpong e Sapinho colocam-se numa posição de resistência. A saber: se tudo pode ser ecrã, então cada um de nós deve obrigar-se a não desvalorizar a singularidade do seu olhar, a verdade do seu corpo. São resistentes em nome da arte? Talvez. Acontece que esta é também uma forma nobre de fazer política.

Natalie Portman + James Blake

O terceiro álbum de estúdio de James Blake, The Colour in Anything, tem um novo teledisco, protagonizado por Natalie Portman. Poucos dias antes do nascimento do seu segundo filho, Portman foi filmada por Anna Rose Holmer, numa encenação do tema My Willing Heart — ou como a mais genuína intimidade envolve uma delicada arte do corpo e do espírito, nada tendo a ver com o horror quotidiano da reality TV.

Quem é Sonia Braga?

Aquarius é um filme brasileiro, centrado numa mulher que resiste a uma empresa de imobiliário, com uma tocante dimensão universal — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Março), com o título 'A música de Sonia Braga'.

Não há cidadão português, maior e vacinado, que não saiba dizer que as telenovelas começaram em Portugal com Gabriela. Quatro décadas depois, a memória persiste e é evocada com naturalidade e automatismo, acrescentando-se sempre que a personagem saída do romance de Jorge Amado transformou a respectiva intérprete, Sónia Braga, num fenómeno ímpar de popularidade dos dois lados do Atlântico.
Caímos em 2017 e, perante a estreia do filme brasileiro Aquarius, protagonizado pela mesma actriz, podemos perguntar porque é que tão mítica memória não está a gerar um fenómeno mediático de gigantescas dimensões, capaz de desafiar a omnipresença das guerras entre Benfica, Sporting e F. C. Porto... A resposta é simples e todos a conhecem (mesmo se muitos se esforçam por recalcá-la): a telenovela não passa de um registo formatado, concebido para consumo automático e repetitivo, alheio a qualquer consciência crítica da televisão (e ainda menos do cinema). Dito de outro modo: a telenovela não gera estrelas, mas apenas “famosos” (a palavra tornou-se, aliás, um instrumento ideológico de celebração da futilidade).
É pena. Desde logo porque, no papel de uma mulher que não quer abdicar da sua casa no Recife, resistindo à especulação imobiliária que atinge a zona em que vive, Sónia Braga é brilhante, expondo desencanto e alegria com igual transparência — creio mesmo que o facto de interpretar alguém que dedicou grande parte da sua vida profissional à crítica de música não funcionará como trunfo mediático para o mundo em que vivemos... Isto sem esquecer que o filme escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho nos faz lembrar uma verdade pouco popular em Portugal. A saber: no domínio das narrativas audiovisuais, o Brasil não é habitado apenas por autores de telenovelas.