sábado, julho 20, 2019

A IMAGEM: Stephanie Galea, 2019

STEPHANIE GALEA
'Noiva' / Aida Blue
Vivienne Westwood, 2019

John Cassavetes & Fernando Lopes

SHADOWS (1959)
BELARMINO (1964)
Como dar a conhecer às gerações mais jovens os grandes clássicos do cinema? As possibilidades são muitas e variadas, mas vale a pena não desvalorizar o método mais primitivo. A saber: a comparação, ou melhor, o paralelismo entre filmes capazes de reflectir as transformações temáticas e estéticas de um mesmo período.
É o que acontece hoje na Cinemateca (15h30) em mais uma das suas “sessões duplas”, promovidas com a designação dos velhos tempos de Hollywood (e não só). Ou seja: “double bill”. Assim, será possível ver duas obras clássicas que correspondem a estreias fulgurantes na longa-metragem: Shadows/Sombras (1959), de John Cassavetes, e Belarmino (1964), de Fernando Lopes.
A simples junção dos filmes numa mesma sessão recorda-nos que a noção de “nova vaga” está muito longe de se aplicar apenas ao movimento que, através de Jean-Luc Godard, François Truffaut e Eric Rohmer, entre outros, transfigurou a paisagem do cinema francês, ao mesmo tempo abrindo inusitados caminhos da modernidade. De facto, esse espírito de inovação estava presente nos mais diversos contextos.
Nos EUA, Cassavetes, na altura já com uma carreira diversificada como actor (sobretudo em televisão), surgia como símbolo de um espírito de experimentação em grande parte ligado a uma sensibilidade novaiorquina em que o gosto do jazz surge como peculiar elemento definidor. Shadows é um retrato seco e desencantado desse mundo em transformação, além do mais apostando num registo realista muito marcado pela improvisação dos actores.
Belarmino entrou na história, a par de Dom Roberto (1962), de Ernesto de Sousa, e Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, como um dos títulos fundadores do Cinema Novo português. Ao fazer o retrato do pugilista Belarmino Fragoso, Fernando Lopes não se limita a cruzar a crueza do documentário com uma assumida teatralidade. A condição anímica do protagonista, celebrando a utopia perdida do seu próprio destino, adquire a intensidade de uma parábola eminentemente nacional.
Reencontrar estes dois filmes, ambos fotografados em admirável preto e branco, é sentir um pouco das convulsões de um tempo (décadas de 1950/60) que, em boa verdade, transfigurou toda a herança clássica do cinema. A modernidade que emergia procurava também novas linguagens para lidar com a teia de histórias das cidades em transformação — Shadows e Belarmino são também dois poemas, sobre Nova Iorque e Lisboa, respectivamente.

Woodstock, 50 anos
— SOUND + VISION Magazine [ 27 Julho ]

Agosto de 1969, acontecia o festival dos "Três dias de paz e amor" — passado meio século, revisitamos as memórias de Woodstock, percorrendo também um pouco da história dos grandes concertos de rock.

* FNAC, Chiado — 27 Julho (18h30).

sexta-feira, julho 19, 2019

Madonna, "Batuka", Cabo Verde

Novo capítulo na saga de Madame X: para apresentar a canção Batuka, Madonna encena-se com as Batucadeiras de Cabo Verde, numa celebração de contagiante energia musical e alegria iconográfica — o teledisco tem assinatura de Emmanuel Adjei (que já dirigira Dark Ballet) e apresenta-se com um agradecimento especial a Dino D’ Santiago.

Tarantino + Robbie + DiCaprio + Pitt

Não é todos os dias que o tempo televisivo é usado para, realmente, desenvolver uma conversa. Eis um belo exemplo: Harry Smith, da NBC, encontrou-se com Quentin Tarantino, Margot Robbie, Leonardo DiCaprio e Brad Pitt para falarem sobre Era uma Vez em Hollywood, o prodigioso filme de Tarantino que chega às salas dos EUA a 26 de Julho (Portugal: 15 de Agosto) — são 22 minutos televisivos que vale a pena conhecer, antecipando 161 minutos de grande cinema.

Tom Cruise, "Maverick"

Pete "Maverick" Mitchell, o piloto aviador interpretado por Tom Cruise em Top Gun (1986) está de volta. Não é uma novidade. Em boa verdade, a possibilidade deste regresso começou a ser referida em 2010, com Tony Scott, realizador do original, associado ao projecto. A morte de Scott, em 2012, levou a um impasse que só seria oficialmente superado quando o próprio Cruise, em 2017, confirmou o relançamento da sua personagem e o título da nova produção: Top Gun: Maverick.
Há outra maneira de dizer tudo isto: independentemente dos percalços humanos ou técnicos que determinado projecto possa enfrentar, há produções que passaram a ser mediaticamente geridas como um longo folhetim de notícias em que o mais banal detalhe tende a ser promovido como uma revelação quase mística. Serão filmes "bons" ou "maus" (não é isso que está em causa), mas a sua sistemática visibilidade reduz o resto do mercado a uma paisagem informe em que não reparamos, ou não nos deixam reparar.
Julho de 2019, dia 18 — novo capítulo na história de Top Gun: Maverick: no cenário promocional da Comic Con, em San Diego, Cruise surgiu para apresentar o primeiro trailer do filme. Curiosamente, o evento aconteceu poucos dias depois da data (12 Julho) que chegou a ser agendada para a estreia. Na prática, falta quase um ano para o lançamento: 26 de Junho de 2020. Entretanto, como podemos ver, reina a sedução da velocidade.

quinta-feira, julho 18, 2019

A marginalização de Winnie the Pooh

Ewan McGregor em boa companhia: o filme Christopher Robin
reinventa o universo do ursinho Winnie the Pooh, criado pelo escritor inglês A. A. Milne
Reinventando as personagens dos livros de A. A. Milne, o filme Christopher Robin é uma das mais belas fábulas cinematográficas dos últimos anos: não passou nas salas portuguesas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Julho), com o título 'Winnie the Pooh e o sentido da vida'.

É provável que o leitor se recorde de uma notícia surgida há cerca de um ano (nos primeiros dias de Agosto de 2018), dando conta da proibição do filme Christopher Robin na China. Porque é que uma história do lendário ursinho Winnie the Pooh seria um objecto interdito aos espectadores chineses? Pois bem, porque as autoridades entenderam que a sua eventual exibição pública iria reforçar o frequente tratamento caricatural de Xi Jinping, Presidente da República Popular da China, com o aspecto de... Winnie the Pooh!
Acontece que Christopher Robin também não teve estreia nas salas portuguesas... O seu lançamento chegou a estar marcado para Outubro do ano passado, mas nunca se consumou. Admitindo algum erro da minha memória (poderia ter estado distraído e não me ter apercebido da respectiva estreia), consultei os dados oficiais do Instituto do Cinema e do Audiovisual e o título do filme não consta, de facto, do “box office” de 2018. Há poucos dias descobri-o, acidentalmente, num canal do cabo.
Peço que não me interpretem mal: não há nenhuma equivalência, prática ou simbólica, entre o gesto da censura chinesa e a indiferença com que o filme foi tratado em contexto português. O que, entenda-se, também não nos impede de tentar compreender as determinações dessa indiferença.
Sobre o filme enquanto objecto específico de cinema, direi que Christopher Robin me parece uma das mais belas fábulas cinematográficas dos últimos anos, reinventando com delicada sensibilidade o universo cativante dos livros de A. A. Milne (1882-1956), ilustrados por E. H. Shepard (1879-1976). E não como mera homenagem a uma das obras-primas da literatura infantil de raiz europeia: a proposta narrativa é tanto mais sugestiva quanto o filme desloca o seu universo original — Christopher Robin em criança, convivendo com Pooh, Piglet, Tigger, etc. — para um futuro em que o protagonista reencontra os bonequinhos da sua infância, vivendo uma aventura que o leva a questionar os próprios fundamentos morais e profissionais da sua vida adulta.
Não estamos, entenda-se, perante um objecto marginal, quer em termos de produção, quer na dinâmica do mercado. Christopher Robin tem chancela da Disney (proprietária dos direitos de adaptação dos livros de Milne) e conta com Ewan McGregor como intérprete da personagem central, um actor muito popular desde os tempos de Trainspotting (1996) que, entre muitos outros sucessos, participou em três episódios da saga Star Wars, assumindo a figura de Obi-Wan Kenobi.
Enfim, também não se trata de procurar qualquer caução “autoral” para sublinhar as singularidades do filme. Ainda assim, vale a pena lembrar que o seu realizador, Marc Forster, está longe de ser um profissional alheio ao chamado cinema de “grande público”. Na sua filmografia encontramos títulos tão singulares como o drama Monster’s Ball (2001), que valeu um Oscar de melhor actriz a Halle Berry, a par de fenómenos de bilheteira como 007: Quantum of Solace (2008), ou WWZ: Guerra Mundial (2013), protagonizados por Daniel Craig e Brad Pitt, respectivamente.
O que está em jogo excede, aliás, o “esquecimento” a que este filme foi sujeito. A marginalização de um produto deste teor (e uso a designação “produto” porque na gíria da distribuição/exibição a palavra tende a obliterar a designação de “filme”) é um sinal sintomático do triunfo de uma outra cultura cinematográfica que já não se reconhece nas fábulas de Milne nem no filme de Forster, privilegiando uma noção de infância que parece destinada a fundir-se com o imaginário bélico de super-heróis e afins.
Em boa verdade, creio que esse processo começou com os medíocres filmes de “Harry Potter”. Através de um elaborado sistema promocional, tais filmes conseguiram impor a ideia banal segundo a qual a dimensão fantástica do cinema nasce obrigatoriamente de uma conjugação de “bruxaria” e “efeitos especiais”. Perante a violência simbólica dessa visão, a imagem de Ewan McGregor sentado num tronco de árvore ao lado de Pooh é coisa de imensa fragilidade. Aliás, quem se lembraria de discutir o sentido da vida com um ursinho de peluche? Chinesices.

Coca-Cola — ter ou não ter rótulo

Não tenhamos ilusões: a apropriação de um discurso transfigurador pela publicidade significa, quase sempre, que esse discurso foi esvaziado de alguma(s) da(s) sua(s) componente(s) de origem. Observem-se as formas correntes e "festivas" de representação dos hippies e compare-se com a angústia sem solução que atravessa um filme como Easy Rider (1969)...
Eis um recente exemplo desse fenómeno de calculada apropriação, tanto mais perturbante quanto mais sedutor: a Coca-Cola está a promover a sua variante de dieta (Diet Coke) através de um conceito de resistência aos rótulos. Mais concretamente: uma nova embalagem do produto apresenta-se sem rótulo.


Que está em jogo? Através da apresentação de várias personagens que podem ser alvo de classificações redutoras (de género, de origem geográfica, de raízes culturais), diz a Coca-Cola que se trata de não vivermos limitados "pelos rótulos que outros nos colocam", de modo a que cada um possa encontrar um território "seguro e aberto".
A pergunta poderia ser: qual a relação entre a liberdade de alguém com uma determinada orientação sexual (seja ela qual for) e uma lata de Diet Coke [*] a que foi retirada a respectiva identificação escrita?
Em boa verdade, a pertinência filosófica de tal relação fica por esclarecer. Saudemos apenas a perversa inteligência semiológica dos autores do marketing da Coca Cola: através do esvaziamento teatral dos rótulos, conseguiram criar um novo rótulo! Que outra explicação pode haver para o facto de a própria escrita da palavra unlabeled [=sem rótulo] se apresentar como um novo ícone com a sua marca registada [TM=trademark]? É a Coca Cola que o diz...

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* NOTA: o autor deste post é consumidor de Diet Coke.

quarta-feira, julho 17, 2019

As pedras e o arco [citação]

>>> Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? — pergunta Kublai Kan.
— A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra — responde Marco, — mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: — Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.

in As Cidades Invisíveis
Editorial Teorema, 1993

Elvis por Baz Luhrmann

Baz Luhrmann já encontrou o seu Elvis: Austin Butler (que veremos, brevemente, em Era uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino) irá interpretar o Rei do Rock'n'Roll no filme que o cineasta australiano tem em preparação já há algum tempo. Ainda sem título, o projecto contará também com a participação de Tom Hanks no papel de Tom Parker, o Coronel que, para o melhor e para o pior, controlou todos os aspectos da carreira de Elvis Presley. Recorde-se que o filme anterior de Luhrmann, O Grande Gatsby, tem data de 2013.

terça-feira, julho 16, 2019

CURTAS 2019
— seis filmes a reter


Eis um pequeno balanço de alguns dos filmes mais interessantes vistos na 27ª edição do CURTAS Vila do Conde — estas notas integravam um texto de balanço do festival, publicado no Diário de Notícias (14 Julho).

De uma visão (incompleta) da selecção apresentada pela 27ª edição do CURTAS fica uma ideia de encruzilhada. Tal como nas longas-metragens, os “pequenos formatos” andam também à procura de novos modelos narrativos, ao mesmo tempo integrando os recursos tecnológicos que, melhor ou pior, fazem parte da vertigem virtual em que vivemos. E isto em todos os domínios, da ficção com actores aos desenhos animados, passando pelos registos documentais.
Eis uma breve galeria de seis títulos (dos mais interessantes que vi em Vila do Conde) que podem ajudar a resumir tal conjuntura:


PLEASE SPEAK CONTINUOUSLY AND DESCRIBE YOUR EXPERIENCES AS THEY COME TO YOU – Novíssima proposta de Brandon Cronenberg (filho de David Cronenberg), encenando em 9 intensos minutos a experiência de uma jovem internada numa clínica como cobaia para experiências com um revolucionário implante cerebral... O longo título faz parte do pedido que é feito à paciente (descrever espontaneamente o que vai “vendo” no seu cérebro) e serve de mote a uma fábula sobre a perda de identidade em nome do avanço tecnológico — é um prolongamento coerente e envolvente de Antiviral (2012), longa-metragem de estreia do cineasta.

THE SIX – Enigmática e belíssima animação chinesa, realizada por Xu An e Xi Chen. Num espaço a preto e branco que mais parece uma ilustração de um livro que ganha vida, assistimos às seis “acções” que o título promete, acompanhando os gestos de aproximação amorosa de um homem a uma mulher, enquadrados por duas luas em permanente transfiguração luminosa. O resultado tem qualquer coisa encantatório, devolvendo ao cinema um gosto ilusionista, de pura e descomplexada contemplação.

A STORY FROM AFRICA – Como revisitar as memórias coloniais (neste caso, de Portugal) sem ceder aos lugares-comuns históricos ou ideológicos que se foram consolidando no imaginário colectivo? O cineasta americano Billy Woodberry propõe um admirável trabalho de inventariação e decifração de fotografias de uma “campanha de pacificação” levada a cabo pelo exército português, em 1907, em Angola, no território do povo Cuamato. Construído a partir de imagens arquivadas na Fundação Mário Soares, este é um exemplo invulgar, ao mesmo tempo histórico e pedagógico, de revisitação das memórias do colonialismo português.


LES EXTRAORDINAIRES MÉSAVENTURES DE LA JEUNE FILLE DE PIERRE – Uma estátua de pedra do Louvre sai todos os dias dos seu pedestal para “conviver” com outras obras do museu, acabando por arriscar sair para a rua e sofrendo as consequências da sua ousadia... Com assinatura de Gabriel Abrantes, eis um exemplo feliz de como é possível elaborar uma fábula “à moda antiga”, genuína e contagiante, ao mesmo tempo aplicando os mais modernos efeitos especiais. O realizador parece ter superado os equívocos “simbólicos” do seu trabalho anterior (em especial a longa-metragem Diamantino), optando por um cinema que celebra o seu artifício sem nunca alienar o gosto de contar histórias, interessando-se, realmente, pela humanidade das personagens. Surpreendentemente ou não, uma dessas personagens é uma estatueta egípcia do tempo dos faraós ou, mais exactamente, um simpático hipopótamo de nome Jean-Jacques...

IN BETWEEN – São apenas 14 minutos, mas possuem o fôlego de uma história de muitas gerações: num tom de austero documentarismo, Samir Karahoda regista as histórias de várias gerações da população rural do Kosovo e, em particular, o modo como os pais se assumem como construtores de habitações para os filhos. Através desse mecanismo de herança assistimos, afinal, à renovação de um espírito comunitário alicerçado num sistema ancestral de valores.

DEMONIC – Com assinatura da australiana Pia Borg, eis um objecto tão estranho quanto fascinante. Em primeiro lugar, trata-se de recordar alguns casos de alegações de abuso através de rituais satânicos surgidos nos EUA ao longo da década de 80, recordando também o enorme aparato informativo que suscitaram, quase sempre de carácter especulativo e sensacionalista. Ao mesmo tempo, o filme aborda esses casos através de “reconstruções” com actores, e também recorrendo a cenas de animação a três dimensões, num jogo dialético sobre o modo como um sociedade vive (por vezes delirando) as manifestações do mal no seu interior. É um caso exemplar de um cinema que discute a nossa relação com a verdade e, em particular, o modo como essa relação surge marcado pelo trabalho específico dos media.

segunda-feira, julho 15, 2019

CURTAS 2019
— memórias coloniais

Memórias coloniais portuguesas... Sem antecipações ideológicas, longe de qualquer desvio nostálgico ou verniz pitoresco... Dito de outro modo: trabalhando sobre factos que são, antes de tudo o mais, fotografias. O americano Billy Woodberry debruçou-se sobre uma colecção de imagens (arquivadas na Fundação Mário Soares) que testemunham uma ocorrência capaz de questionar, em primeira ou última instância, a noção segundo a qual só a partir da década de 1960 o exército português manteve uma forte presença em África: A Story from Africa inventaria, organiza e expõe os testemunhos visuais de uma operação, na altura classificada como “campanha de pacificação”, levada a cabo pelo exército Português no território do povo Cuamato, no sul de Angola. O resultado possui a crueza de um genuíno relato jornalístico que se vai transfigurando em admirável viagem cinematográfica — da singularidade dos lugares à especificidade dos olhares, este é um filme sobre o carácter visceralmente presente de qualquer desejo de fazer história.

sábado, julho 13, 2019

CURTAS 2019
— na companhia de um hipopótamo

Difícil de descrever em formato sinopse: em Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre, Gabriel Abrantes encena as atribulações de uma estátua do Museu do Louvre que, à noite, gosta de deambular pelos corredores da sua habitação oficial na companhia da 'Vitória de Samotrácia'... Na verdade, a certa altura, seduzida pelos acontecimentos exteriores ao espaço do museu, as coisas complicam-se e a estátua, desencantada por ser reconhecida apenas como peça "decorativa", acaba por encontrar apoio espiritual num pequena peça do tempo dos faraós, um hipopótamo serenamente filósofo de nome Jean-Jacques...
Há outra maneira de dizer tudo isto: Gabriel Abrantes andava à procura de um registo narrativo em que as evidências do mundo contemporâneo não anulassem, antes exponenciassem, um gosto fantasista que não prescinde de algumas modernas formas de efeitos especiais; tal demanda tinha a sua expressão mais assumida, a meu ver resolvida de forma incerta, na longa-metragem Diamantino. Agora, para além da qualidade (notável) dos efeitos especiais, o essencial envolve a consolidação de um registo narrativo que se libertou da ironia forçada, esse vício "modernista" do nosso tempo, privilegiando a descarnada verdade da fábula — são 20 deliciosos momentos de cinema, a justificar, por si só, a visita a Vila do Conde.