sábado, junho 23, 2018

8 mulheres à procura de um filme

Belo e sugestivo cartaz... E o resto? Ocean's 8 tenta repetir Ocean's 11, agora em tom feminino: as referências são boas, mas falta o cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Junho), com o título 'Foi você que disse Billy Wilder?'.

Face à monótona colagem de anedotas, disfarçada de filme de aventuras mais ou menos policiais, que encontramos em Ocean’s 8, talvez seja inevitável reconhecer que o filme irá dar entrada numa certa história “sociológica” destes nossos tempos conturbados. Daqui a muitas décadas, os investigadores talvez o venham a reconhecer (e celebrar) como exemplo de uma revalorização de temáticas femininas, indissociável de todo um processo de denúncia de desigualdades no interior do sistema de Hollywood.
Será que tais investigadores formularão a mais básica questão de linguagem? A saber: em que é que a figuração, por actrizes, de estereótipos de espectáculo tradicionalmente masculinos engrandece os valores femininos, eventualmente feministas?
Convenhamos que o espaço mental para tal discussão quase não existe. Porque a simples chamada de atenção para a necessidade de pensar as linguagens que usamos (homens, mulheres ou extraterrestres) está condenada a atrair uma qualquer gritaria “social”, denunciando aquilo que seria uma tentativa de branqueamento dos crimes de que são acusados Harvey Weinstein e alguns outros homens de Hollywood.
Como? O drama é terrível. Por um lado, Ocean’s 8 nem sequer consegue retomar o humor de Steven Soderbergh na série iniciada com Ocean’s Eleven (2001), que desmontava com contagiante alegria muitos lugares-comuns machistas e até, pequeno detalhe, fabricando uma personagem de radiosa independência e inteligência interpretada por Julia Roberts. Por outro lado, na análise do frente a frente masculino/feminino, suas maravilhas e equívocos, um filme como Quanto Mais Quente Melhor (1959) supera todos os espectáculos politicamente esquálidos que hoje se fabricam. Em boa verdade, já estivemos mais longe de Billy Wilder ser inscrito em alguma lista negra...

>>> Trailer de Quanto Mais Quente Melhor.

sexta-feira, junho 22, 2018

A IMAGEM: Ziga Mihelcic, 2018

ZIGA MIHELCIC
Jessica Chastain
Vogue Arabia, 2018

* Bergman + Bernstein
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [dia 24]


Cinema e música cruzam-se nas celebrações do centenário de Ingmar Bergman e Leonard Bernstein, ambos nascidos em 1918 — propomos uma viagem, com imagens e sons, pelas suas obras fascinantes.

* FNAC (Chiado) — 24 Junho, 18h30

St. Vincent, + fast

Segundo a própria St. Vincent, a sua canção Slow Disco nasceu para viver "muitas vidas diferentes". De tal modo que até já criou uma versão "acelerada", adequadamente intitulada Fast Slow Disco. É essa versão que surge, agora, em ambiente de clube gay de Nova Iorque, num teledisco de contagiante energia — realização de Zev Deans.

quinta-feira, junho 21, 2018

Imagens e sons do século XXI

"Eu não vejo televisão" — eis uma afirmação corrente que importa discutir. Eduardo Cintra Torres parte dessas palavras supostamente evidentes para mostrar e demonstrar como, através delas e, sobretudo, para além delas, podemos aceder a um universo multifacetado em que, em última instância, se discute a nossa própria condição de espectadores. Com componentes que passam por questões tão marcantes, e também tão universais, como:
— as novas condições de consumo dos conteúdos televisivos (Internet, boxes, etc.), já não dependentes da obrigação de seguir as emissões em directo;
— a própria fragilização do conceito de "canais generalistas";
— a permanente e multifacetada contaminação de muitas formas de ficção, não poucas vezes relativizando a "distância" entre televisão e cinema.
Na sua brevidade, Televisão do século XXI (Universidade Católica Editora) propõe uma síntese tão incisiva quanto pedagógica sobre aquilo que é, hoje em dia, o audiovisual. Porventura levando-nos a reconhecer que a própria palavra "audiovisual" se tornou inadequada — ou, pelo menos, insuficiente — para lidarmos com as paisagens imensas, tão globais quanto particulares, tão presentes quanto futuristas, de imagens e sons. 

quarta-feira, junho 20, 2018

"Last Exit Before Brexit"

O escritor e filósofo francês Bernard-Henri Lévy encara o Brexit como um desastre anunciado (ainda que não consumado...), não apenas para a identidade nacional do Reino Unido, mas para a coesão cultural, económica e política da Europa. Para dar conta da sua visão, escreveu uma peça de teatro, Last Exit Before Brexit, um monólogo que ele próprio tem interpretado, nomeadamente em Londres, no palco do Cadogan Hall. Por altura dessa performance, Lévy foi convidado de Christiane Amanpour, nos estúdios londrinos da CNN — da Europa aos EUA, passando por Macron e Trump, uma conversa fascinante.

Lichtenstein no Colombo

1. Em matéria de dinâmica cultural, o cliché dominante — amplamente sustentado pelos partidos políticos, direitas e esquerdas confundidas — esgota-se num piedoso voluntarismo. A saber: essa dinâmica resultaria apenas da acção de acontecimentos específicos e circuitos especializados. Tal cliché é incapaz, por exemplo, de pensar uma evidência (com mais de 40 anos...) do contexto português: como discutir os problemas culturais e financeiros (é a mesma coisa) do cinema português omitindo qualquer referência ao poder normativo das telenovelas?

2. A evocação de tais questões vem a propósito deste curioso e desconcertante testemunho cultural. Assim, através da principal chamada de capa do jornal Destak, ficamos a saber que um conjunto de obras de Roy Lichtenstein (1923-1997), figura emblemática da Pop Art, está disponível no Centro Comercial Colombo (até 23 de Setembro).

3. Sinais destes tempos de muitos cruzamentos: um artista consagrado pelos compêndios culturais está exposto num centro comercial. Mais do que isso: o acontecimento surge divulgado, não através de uma qualquer publicação ou circuito "especializado", mas sim nas páginas de um jornal gratuito. Evitemos, por isso, a facilidade televisiva dos "prós" e "contras" (ou, como no futebol, a procura de um "culpado" para cada golo marcado). Digamos apenas que o mundo em que vivemos é feito destas contaminações — e também que é legítimo supormos que Lichtenstein seria o último a queixar-se.

>>> Site oficial da Fundação Roy Lichtenstein.

APV na Cinemateca

[ Cinemateca Portuguesa ]
A filmografia de António-Pedro Vasconcelos é acontecimento central, na Cinemateca, até finais de Julho — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Junho), com o título 'Elogio do velho Cinema Novo'.

Mais do que nunca, importa lidar com a herança do Cinema Novo português para além de qualquer facilidade nostálgica. Revelada nas décadas de 1960/70, a geração de cineastas que emulou a ousadia criativa da Nova Vaga francesa deixou um legado cuja energia não se dissipou. Mais do que isso, a sua memória estética e ideológica enriquece o debate actual sobre as encruzilhadas do cinema. Prova muito real dessa energia: a filmografia de António-Pedro Vasconcelos (n. 1939), actualmente em retrospectiva na Cinemateca (até final de Julho).
Percorrer essa filmografia será tanto mais estimulante quanto o trabalho de APV há muito se libertou de qualquer dependência simbólica das suas raízes artísticas. Aliás, como realizador e polemista, ele tem sido uma personalidade muito interveniente na questão (contemporânea, por excelência) das relações narrativas e financeiras entre cinema e televisão.
É bem provável que a maioria dos espectadores associe o seu nome ao fenómeno que foi o filme O Lugar do Morto (1984), um “thriller” de sucesso protagonizado por Ana Zanatti e Pedro Oliveira. Sempre me pareceu redutora a visão do filme como um exemplo de conciliação entre “qualidade” e impacto “comercial” (acabando por atrair os fundamentalismos mais conflituosos). De facto, tal visão minimiza algo de essencial no gosto narrativo de APV. A saber: a procura de um romanesco em grande parte ligado a lições de mestres de Hollywood, capaz de conciliar o apelo romântico com a atenção crítica à evolução dos usos e costumes sociais. Exemplo mais próximo é, a meu ver, a subtileza emocional e acutilância crítica do seu Call Girl (2007).
Curiosamente, tal gosto tem levado APV a experimentar singulares relações com as convulsões da história colectiva. O exemplo mais sugestivo será Adeus, Até ao Meu Regresso (1974), incontornável memória da nossa Guerra Colonial e, em particular, como o título indica, das “mensagens de Natal” dos soldados difundidas pela televisão do Estado. Mas importa não esquecer, num registo bem diverso, Aqui d’El Rei! (1991), por certo o mais ambicioso projecto de produção de APV, mini-série televisiva (que também teve uma versão para cinema) sobre a expedição de Mouzinho de Albuquerque a Moçambique, em finais do século XIX, para capturar Gungunhana [video, arquivo RTP].
No seu ziguezague temático e criativo, a obra de APV nunca abdicou de questionar os valores do ser (ou não ser) português. Nessa medida, cumpre os desígnios do Cinema Novo, transfigurando-os para as convulsões do tempo presente.

terça-feira, junho 19, 2018

Martin Bregman (1926 - 2018)

Produtor americano muito ligado à carreira de Al Pacino, Martin Bregman faleceu no dia 16 de Junho, em Nova Iorque, vítima de hemorragia cerebral — contava 92 anos.
Depois de ter trabalhado no sector imobiliário, começou a representar diversos actores, incluindo Al Pacino, Barbra Streisand e Bette Midler. Foi com Serpico (1973), de Sidney Lumet, baseado numa personagem verídica da polícia de Nova Iorque, que Bregman se estreou como produtor, oferecendo o papel principal a Pacino — Bregman descobrira-o, poucos anos antes, numa produção off-Broadway, tendo-lhe conseguido o seu primeiro papel importante em cinema no filme Pânico em Needle Park (1971), de Jerry Schatzberg.
Com uma relação especial com Pacino e Lumet, produziu também Um Dia de Cão (1975), exemplo maior de um realismo à flor da pele, indissociável das convulsões sociais e simbólicas da década de 70 [trailer]. Scarface (1983), de Brian De Palma, Perigosa Sedução (1989), de Harold Becker, e Perseguido pelo Passado (1993), de novo de De Palma, todos eles com Pacino, são outros momentos marcantes da sua filmografia. Com Um Dia de Cão obteve a sua única nomeação para um Oscar (melhor filme).


>>> Obituário no New York Times.

segunda-feira, junho 18, 2018

Beyoncé + Jay-Z

Demonstração de poder, sem dúvida. Poder mediático e figurativo, numa palavra, simbólico: Beyoncé e Jay-Z encenam-se no Museu do Louvre a cantar APESHIT. Não há visitantes, apenas os figurantes/bailarinos da sua teatralidade. Talvez seja essa a forma limite, perversamente utópica, de poder contemporâneo — obrigar os consumidores a desertar.
A canção, escrita e produzida com Pharrell Williams, é o cartão de visita de um álbum surpresa: Everything Is Love. Com assinatura conjugal: The Carters.

Eva, aliás, Isabelle Huppert

Eva é mais um encontro magnífico entre Isabelle Huppert e o realizador Benoît Jacquot — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Junho), com o título 'Entre masculino e feminino'.

Há poucas semanas, o site IndieWire dava notícia de um “estudo” empenhado em provar uma bizarra correspondência: os filmes da saga Star Wars que dão mais tempo às personagens femininas seriam os que tinham obtido maiores receitas nas salas dos EUA. A demonstração era involuntariamente ridícula, já que a simples relativização da inflação permite perceber que o primeiro título, lançado em 1977 e considerado o de menor “exposição” feminina é, de longe, o que vendeu mais bilhetes. Mas o mais grave decorria da grosseira aritmética proposta: a figuração do feminino seria sancionada pelos movimentos do dinheiro.
Isto para dizer que Eva, o novo e magnífico filme de Benoît Jacquot, nunca encaixará em qualquer cálculo do género. Ainda bem, digo eu. Em primeiro lugar, porque ainda há filmes que é possível descobrir sem sermos agredidos por uma visão economicista do cinema que reduz toda e qualquer forma de criatividade a contas de “milhões” (ou proezas de “efeitos especiais”). Depois, porque a personagem interpretada por Isabelle Huppert resiste a ser reduzida a qualquer padrão dramático pueril e purificador.
Conhecemos o pano de fundo mediático sobre os abusos cometidos por alguns homens contra algumas mulheres — e nada pode minimizar a importância da identificação dos crimes cometidos e da sua exemplar punição. Em todo o caso, o que quase todos os militantismos ignoram é o facto de ficções como Eva, centrada no fascínio de um homem (Gaspard Ulliel) por uma prostituta (Huppert), funcionarem como espelho amargo de um logro partilhado por masculino e feminino. A saber: Jacquot, autor de filmes belíssimos como As Asas da Pomba (1981), Adolphe (2002) ou Adeus, Minha Rainha (2012), continua a ser um observador terno e cruel do desejo e suas ilusões, do desejo como ilusão.

domingo, junho 17, 2018

A IMAGEM: Steven Klein, 2018

STEVEN KLEIN
Ace
2018

Mensagens televisivas [citação]

>>> Que misteriosa energia imperscrutável faz com que quando se quer utilizar a televisão para fazer passar uma mensagem, a única coisa que passa é, finalmente, a própria televisão?

La Démocratie Virtuelle

Bruno de Carvalho não está
num filme de Manoel de Oliveira...

I. Cada vez que vejo Bruno de Carvalho na televisão, numa conferência de imprensa, não penso em futebol. Penso nas vozes, ora indignadas, ora chocarreiras, dos que dizem que os filmes de Manoel de Oliveira são feitos de longos planos fixos de 10 minutos (antes do digital, era a duração máxima de uma bobine de película...), alguns deles garantindo tal "verdade" ao mesmo tempo que proclamam que nunca viram tais filmes.

II. Onde estão essas vozes para comentar os longos planos fixos (10, 15, 20 minutos...) que são difundidos nos pequenos ecrãs quando Bruno de Carvalho dá uma conferência de imprensa? Aliás, ele está longe de ser o único protagonista de tal fenómeno. Qualquer personalidade do mundo do futebol parece ter o direito (automático, indiscutível, irrevogável) de ocupar esses ecrãs ao longo de infinitas horas, não poucas vezes interpretando os tais planos fixos.

III. Como espectador, confesso que já nem compreendo o que se diz e repete, repete, repete... como assunto futebolístico. Mas uma coisa é certa: se os ecrãs privilegiam tais matérias, isso decorre do facto de a elas atribuírem o valor de uma ideia de futebol.

IV. Que ideia é essa? Em boa verdade, é uma ideia cultural, poderosa como mais nenhuma outra. Ou não é verdade que, através do futebol, somos todos os dias confrontados com os méritos da vocação, os meandros da justiça e os valores da portugalidade?

V. No limite, o futebol tornou-se mesmo o único discurso cultural que tem à sua disposição todo o espaço audiovisual — entenda-se: social — para circular como princípio compulsivo da nossa identidade colectiva. O que, bem entendido, não nos garante que haja muitos novos espectadores, disponíveis e sem preconceitos, para ver, realmente ver, os filmes de Manoel de Oliveira.