quinta-feira, dezembro 18, 2014

Simão Costa, piano & etc.

O título, convenhamos, envolve um misto de sedução e resistência. Ora tomem nota, por favor: π_ANO PRE.CAU.TION PER.CU.SSION ON SHORT CIRCUIT.
Entramos num país de língua desconhecida. Ou melhor, em que sentimos a língua em processo de laboriosa e íntima fabricação: Simão Costa trata o piano como um objecto não necessariamente "pianístico", vogando numa paisagem que John Cage, et pour cause, ajudou a povoar — ou a despovoar, o que vem a dar no mesmo. O resultado faz-nos sentir as mãos do músico, tanto quanto as entranhas de computadores cúmplices da criação de harmonias agrestes e, se a palavra não ofender, paradoxalmente líricas. Aqui ficam cerca de oito minutos de um álbum fascinante, monumental, metafísico e visceral, não necessariamente por esta ordem.

As canções de 2014:
Museum of Love, The Who's Who of Who Cares



O projeto Museum of Love, que junta em duo Pat Mahoney (antigo baterista dos LCD Soundsystem) e Dennis McNany (que podemos associar ao coletivo que se apresenta sob o nome The Juan McLean) apresenta um álbum que traduz em pleno toda a alma (e já uma herança) da DFA Records e ao mesmo tempo levou os dois músicos a encontrar de um caminho num vasto terreno em que partilham gostos e entusiasmos. Aqui fica um dos temas do seu álbum editado este ano.

As imagens de 2014:
O último "regresso" dos Monty Python


Uma residência no início do verão o espaço da O2 Arena (em Londres), depois de uma conferência de imprensa muito mediatizada ainda em 2013, devolveu os Monty Python aos palcos por uma última vez. Até nós Monty Python Live (mostly) chegou através de transmissão em direto para salas de cinema e, agora, é a vez do DVD deixar a história fixada. Fica contudo a memória de um fim belo fim de vida para um dos mais importantes nomes (e escola) da história do humor.

Podem ler aqui o que escrevemos por alturas do último espetáculo desta série.

2014 segundo Carlos Conceição

Em tempo de balanço do ano, estamos a apresentar algumas listas pessoais. E hoje apresentamos os discos e escolhidos pelo Carlos Conceição, realizador de cinema cuja obra é exibida esta sábado na Cinemathéque Française, em Paris. Ao Carlos um muito obrigado pela colaboração.

1. Mercuriales (Virgil Vernier) 
2. As Maravilhas (Alice Rohrwacher) 
3. Jauja (Lisandro Alonso) 
4. The Tribe (Miroslav Slaboshpitsky) 
5. Les Fleuves M'ont Laisée Descendrte où je Voulais (Laurie Lassalle) 
6. Maps To The Stars (David Cronenberg) 
7. Stop the Pounding Heart (Roberto Menervini) 
8. Maïdan (Sergei Loznitsa)

Recomendados: 
-La Princesa de Francia (Matías Piñero) 
-Ford Buchanan (Benjamin Crotty)

Ansioso por ver: 
-Un Jeune Poète (Damien Manivel)

LIVROS, entre muitos, mas numa nota mais cinemográfica: 
- Brainquake: The Lost Novel - Samuel Fuller

MÚSICA:

1. THE SILVER GLOBE - Jane Weavere 
2. SUE (or IN A SEASON OF CRIME)/'TIS A PITY SHE WAS A WHORE - David Bowie 
3. SPRING - Teho Teardo, Blixa Bargeld 
4. SOUSED - Scott Walker, Sun O))) 
5. ONLY LOVERS LEFT ALIVE ost - Vários 
6. TRUE LOVE KILLS THE FAIRYTALE - The Casket Girls 
7. MORNING PHASE - Beck

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Pedro Costa redescobre Jacob Riis (3/3)

O novo e prodigioso filme de Pedro Costa, Cavalo Dinheiro, abre com uma fascinante pontuação, visual e simbólica, através de algumas fotografias de Jacob Riis — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Dezembro), com o título 'Fotos de Jacob Riis redescobertas no novo filme de Pedro Costa'.

[ 1 ]  [ 2 ]

Portugal. Um momento da rodagem de Cavalo Dinheiro [foto: Marta Mateus] — no cenário assombrado de um elevador, Ventura confronta-se e confronta-nos com factos e fantasmas da nossa história: o cinema de Pedro Costa começa no bairro das Fontainhas e projecta-se num universo imenso, quase surreal.

As canções de 2014:
Perfume Genius, Queen



O single que nos apresentou o álbum Too Bright deixava logo claro que algo tinha mudado. A memória do cantor tímido, de olho esmurrado (nas fotos promocionais, claro) de há alguns anos - não muitos - dava lugar a um olhar desafiante. E com uma canção a sublinhar a mudança. Queen não só é uma das canções do ano como abriu a porta à confirmação de que em Mike Hadreas temos um dos grandes escritores de canções do nosso tempo.

As imagens de 2014:
'Uivo', ou a memória de António Sérgio


Cinco anos depois de nos ter deixado, António Sérgio (a figura, a obra e o legado que deixou) teve retrato em Uivo, filme de Edu Matracas que juntou imagens e depoimentos de muitos que com ele trabalharam ou com ele muito aprenderam para contar a história de uma das figuras de referência da rádio e da história da divulgação musical em Portugal.

Em sessões itinerantes o filme tem andado pelo país. Ao mesmo tempo foi lançado um livro, que fixa essas e outras memórias, trazendo o DVD com o filme como extra. Coisas para não esquecer. E lembrar "em alto e bom som", como ele mesmo nos dizia nos tempos do Som da Frente.

2014 segundo Jorge Lopes

Em tempo de balanço do ano, estamos a apresentar algumas listas pessoais. E hoje apresentamos os discos e escolhidos pelo Jorge Lopes, jornalista da Time Out. Ao Jorge um muito obrigado pela colaboração.

2014 teve bastantes álbuns afáveis mas deu uma certa razão ao crescente coro grego que questiona o predomínio narrativo do objecto-conjunto-de-canções quando as narrativas parecem tão forçadas e a ideia de objecto musical é apresentada como uma coisa tão obsoleta que nem parece que ainda se vendem aos (razoáveis) milhões. (E quase nem tinha valido a pena falar do vinil: nunca tão poucas rodelas de plástico comercializadas a preços das Arábias foram tão festejadas pela elite saudosista.) Em todo o caso, e globalmente, o coro grego tem razão. Foi fácil chegar a este top 10, mesmo que, no momento em que se escrevem estas linhas, falte conhecer Pink Print de Nicki Minaj, a sair em Dezembro (sim, a produção Dezembro também conta para os balanços de 2014). Tal como em 2013, um top 10 liderado por um registo country de uma mulher (Miranda Lambert). Os restantes nove estão ordenados alfabeticamente. Country, electrónica dançável (de preferência com house à vista), pop fora do sufoco anglo-americano, r&b, soul, hip-hop. A música conversa melhor, e conversa-se melhor com a música, quando ela fala para fora e não para dentro.

Platinum - Miranda Lambert
11 11 - 11 11
Loco de Amor - Juanes
Anybody Wanna Buy a Heart? - K. Michelle
The Way I'm Livin' - Lee Ann Womack
Me, I Am Mariah... The Elusive Chanteuse - Mariah Carey
1989 - Taylor Swift
Aquarius - Tinashe
Love, Marriage & Divorce - Toni Braxton & Babyface
My Krazy Life - YG

Phil Stern (1919 - 2014)

FOTO: Patch.com (a partir do YouTube)
Celebrizado pelos seus retratos de John F. Kennedy e de algumas grandes estrelas de Hollywood, o fotógrafo americano Phil Stern faleceu no dia 13 de Dezembro, em Los Angeles — contava 95 anos.
Mesmo as imagens mais icónicas de Stern — incluindo James Dean com o rosto tapado por uma camisola ou Marilyn Monroe, com ar desamparado, numa festa de caridade — conservam um sentimento de proximidade e espontaneidade que talvez não possa ser desligado da sua experiência como fotógrafo da Segunda Guerra Mundial. Ele foi, afinal, um "repórter" do glamour, de alguma maneira reflectindo o espírito de uma América ao mesmo de transformações liberais e perenidade mitológica, tão exemplarmente fixada na sua visão de Kennedy, em particular do dia da tomada de posse como Presidente dos EUA (20 Jan. 1961). Foi também fotógrafo de cena em filmes como Eles e Elas (Joseph L. Mankiewicz, 1955) e Encontros Imediatos do Terceiro Grau (Steven Spielberg, 1977), tendo assinado muitos portfolios para as revistas Life, Look e Vanity Fair. Publicou a autobiografia Phil Stern: A Life’s Work em 2003.
>>> Obituário no New York Times.

terça-feira, dezembro 16, 2014

As canções de 2014:
Owen Pallett, Song for Five and Six



Entrados na reta final do ano começamos hoje a revisitar alguns dos momentos que fizeram a história destes doze meses. Entre as grandes canções que ajudaram a escrever a banda sonora de 2014 conta-se este Song For Five and Six, de Owen Pallett, tema incluído no álbum que lançou este ano. Fica aqui a canção. E as imagens do teledisco que a acompanhou.

As imagens de 2014:
O trailer de 'Star Wars VII'


Oitenta segundos que acabam por integrar a história do que o cinema nos deu a ver em 2014. É certo que o filme só chega daqui a um ano, mas o (muito aguardado) primeiro trailer - na verdade é um teaser - do filme que reativará a saga Star Wars não só teve o impacte esperado, como gerou uma série de reflexões (e deduções) sobre o que em 2015 poderemos ver no grande ecrã. Sendo certo que um trailer não é um filme e uma dedução não é mais que isso, dos segundos de imagens que vimos podemos esperar que o filme realizado por J.J. Abrams esteja não só mais próximo da economia de elementos cénicos da trilogia original (não confundir com as versões afogadas em efeitos que infelizmente ganharam peso de cânone e são as que têm vida em suporte Blu-ray), como recupera elementos da mitologia Star Wars (do Millenium Falcon ao que parece ser a aparente presença do planeta-casa de Luke Skywaker, sem esquecer os X-Wing e TIE fighters da praxe). Além disso, o (muito discutido) light sabre (ok, sabre de luz) em forma de cruz deixa claro que J.J. Abrams não trata a memória Star Wars como santos de altar, pelo que podemos estar preparados para esta e outras novidades... Parece que vai valer a pena esperar pelo que aí possa vir.

PS. Podemos lembrar que em Super 8 J.J. Abrams apresentou um dos mais interessantes filmes de aventuras dos últimos anos e que, nos dois episódios de Star Trek que assinou mostrou como sabe dar nova vida a um velho frachise. "Preconceito" favorável por aqui, confesso.

2014 segundo Mário Rui Vieira

É já uma "tradição" do Sound + Vision este gosto em escutar as opiniões dos outros. E em tempo de balanço do ano, vamos apresentar algumas listas pessoais. Começamos hoje com os discos e filmes escolhidos pelo Mário Rui Vieira, jornalista da revista Blitz. Ao Mário um muito obrigado pela colaboração.

2014 foi, quanto a mim, um ano de revelações e de confirmação de certezas. FKA Twigs, Glass Animals e Future Islands - estes últimos apesar de já por aí andarem há uns anos só agora rebentaram nos meus ouvidos - do lado das revelações; Perfume Genius a surpreender sempre, Wild Beasts a assinar novamente um disco imaculado e Owen Pallett a conseguir finalmente conquistar-me sem reservas, do lado das confirmações. Em termos nacionais, o ano foi da Capicua (excelente álbum, concertos em todos os festivais e capelinhas) e dos Capitão Fausto, com os Dead Combo, os PAUS e os You Can’t Win, Charlie Brown a voltarem com ótimos discos também. Esperei bem até ao final do ano para assistir àquele que me deixava com maiores expectativas e não só não fiquei desiludido como conseguiu suplantá-las: Perfume Genius tem o meu álbum do ano e protagonizou o meu concerto do ano, no Vodafone Mexefest. No palco do Rock in Rio-Lisboa, Lorde apanhou-me completamente desprevenido (a banda sonora do filme de uma saga que nunca acompanhei, curada por ela, é, também, uma das surpresas deste final de ano); os Wild Beasts no palco secundário da Bela Vista provaram que se sentem em casa seja onde for, tenham quantas pessoas tiverem à frente. Beyoncé na Meo Arena, Foals no Super Bock Super Rock e Sam Smith e Interpol no Nos Alive foram outras das atuações que me encheram as medidas. Uma última referência para Chandelier, de Sia, que é, quanto a mim, a canção de 2014 (e tem também o melhor vídeo de 2014).


Os discos

1. Perfume Genius – Too Bright
2. Wild Beasts – Present Tense
3. Owen Pallett – In Conflict
4. FKA Twigs - LP15. Future Islands – Singles
6. Capicua – Sereia Louca
7. Glass Animals – Zaba
8. Sia – 1000 Forms of Fear
9. The Antlers - Familiars
10. Neneh Cherry – Blank Project


Os filmes 

1. Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson
2. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro
3. Boyhood, de Richard Linklater
4. Em Parte Incerta, de David Fincher
5. Um Coração Normal, de Ryan Murphy
6. Só os Amantes Sobrevivem, de Jim Jarmusch
7. O Filme Lego, de Phil Lord e Christopher Miller
8. Interstellar, de Christopher Nolan

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Ver + ouvir:
Panda Bear, Boys Latin



Um segundo teledisco para um tema do novo álbum de Panda Bear, que será editado, em inícios de 2015. Ficam aqui as imagens. E mais um aperitivo para um belíssimo álbum. O teledisco é realizado por Isaiah Saxon e Sean Hellfritsch da equipa Encyclopedia Pictura.

Novas edições:
The Dø

“Shake Shook Shaken”
Get Down
( 4 / 5 )

Entre a Finlândia e a França, depois de um encontro há alguns anos por ocasião de um trabalho de gravação de música para cinema, assim se tem feito a carreira da dupla The dø. Desde então Olivia Merilahti e Dan Levy têm mantido um espaço de trabalho conjunto, tendo pelo caminho assinado uma discografia que acolhe agora um terceiro álbum de estúdio. Trabalhado, como é o método habitual entre os dois, com pontos de partida encontrados em ideias talhadas e registadas em separado, mais tarde cada um confrontando o outro com as respetivas sugestões e, daí em frente, caminhando em par até ao disco final, Shake Shook Shaken traz de novo, sobretudo, não apenas uma maior arrumação das ideias, como uma focagem de rumos no sentido de procurar um caminho próprio no muito fértil terreno da pop electrónica. Houve já quem tecesse comparações a soluções que evocam os primeiros álbuns dos (suecos) The Knife, assim como a La Roux (e eu aqui acrescentaria um afinar do ângulo ao que ouvimos no seu disco de estreia). Convenhamos que são azimutes que em tudo fazem sentido perante a cativante coleção de 12 canções que fazem do terceiro álbum dos The Dø um disco com potencial para os colocar num patamar de maior visibilidade, sem que para tal tenham tido de comprometer a personalidade da identidade que os trouxera até aqui. Há um evidente investimento na composição de melodias simples, assim como um cuidado claro numa clara disposição dos elementos cénicos em jogo. Explorando em alguns momentos uma relação com linguagens herdadas e assimiladas de ensinamentos colhidos na música de dança, o disco vinca contudo uma vontade em afirmar a procura de um lugar no mapa pop atual, evidenciando canções A Mess Like This ou Lick My Wounds um desencanto que é tempero que molda sob alguma melancolia o clima dominante, mesmo em instantes eventualmente mais efusivos. E é nesse caminho, entre almas doridas e as cores de electrónicas aparentemente luminosas, que Shake Shook Shaken se revela como uma das boas surpresas que a pop electrónica deu a 2014.

Amanhã há Sound + Vision Magazine
pelas 18.30 na Fnac Chiado


Amanhã a Fnac Chiado recebe mais uma edição do Sound + Vision Magazine. Desta vez vamos passar em revista alguns momentos que fizeram a história de 2014, alguns deles tendo estado sob o foco das atenções, outros tendo passado mais longe desses patamares de mais intenso mediatismo.

Além do ano em revista, esta edição vai contar com a presença de Leonor Losa, autora do livro 'Machinas Fallantes: A Música Gravada em Portugal no Início do Século XX' (ed. Tinta da China), que conversará com os autores deste blogue sobre o livro e estas memórias mais antigas da história da música gravada entre nós.

domingo, dezembro 14, 2014

Tony Bennett e Lady Gaga em concerto

No cantinho das modernas nostalgias — o leitor decida se aquilo que prevalece é a modernidade ou o impulso nostálgico —, eis que podemos redescobrir, ao vivo, a maravilhosa aliança de Tony Bennett e Lady Gaga, já selada por essa álbum magnífico que é Cheek to Cheek. Num especial para a PBS, incluído na série 'Great Performances', a dupla deu um concerto a que chamou, muito objectivamente, Tony Bennett & Lady Gaga: Cheek to Cheek LIVE!. O resultado é uma hora de excelência, em que a frieza romântica dele se harmoniza com a subtileza dramática dela, tudo temperado pela sofisticação jazzística de ambos.
Alguns extractos do concerto estão no YouTube, disponibilizados pela PBS. Na íntegra, podemos encontrar esta notável performance de Lady Gaga em Bang Bang (My Baby Shot Me Down), um dos temas a solo.

Pedro Costa redescobre Jacob Riis (2/3)

O novo e prodigioso filme de Pedro Costa, Cavalo Dinheiro, abre com uma fascinante pontuação, visual e simbólica, através de algumas fotografias de Jacob Riis — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Dezembro), com o título 'Fotos de Jacob Riis redescobertas no novo filme de Pedro Costa'.

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Nova Iorque. As primeiras imagens de bairros degradados obtidas por Jacob Riis foram publicadas no jornal The Sun, a 12 de Fevereiro de 1888. A utilização do flash permitiu dar a ver condições de vida ignoradas por quase todos os que habitavam as zonas mais desenvolvidas, com melhores equipamentos.

5 x Mike Nichols (3)


[ 1 ]  [ 2 ]

É, por certo, uma das mais espantosas composições de Meryl Streep (e sabe Deus que na sua filmografia não faltam hipóteses de escolha...): em Silkwood (título português: Reacção em Cadeia) ela interpreta a personagem real de Karen Silkwood (1946-1974), trabalhadora de uma central de tratamento de materiais radioactivos (Kerr-McGee, no estado Oklahoma) que denunciou as falhas de segurança das respectivas instalações, vindo a falecer num misterioso acidente de automóvel. Streep e Cher — ambas nomeadas para os Oscars referentes a 1983 (actriz principal + actriz secundária) — são prodigiosas na composição de duas amigas afectadas pelo que vai acontecendo na sua fábrica [em baixo: audio de uma cena pontuada pela belíssima música de Georges Delerue]. A direcção de Mike Nichols (com um elenco que inclui ainda, entre outros, Kurt Russell, Craig T. Nelson e Diana Scarwid) consegue apresentar-nos o drama mais íntimo das personagens, lidando com um conflito profissional cujas marcas são, afinal, visceralmente corporais — é, por certo, um dos mais subvalorizados filmes da década de 80 em Hollywood.

Soldier's Heart vencem final do Termómetro


Os belgas Soldier’s Heart sagraram-se ontem vencedores da edição que assinala os 20 anos do Festival Termómetro, acolhendo a unanimidade da votação de todo o júri. A final desta edição 2014 do festival, que decorreu na zona do Cais do Sodré, entre os palcos do Tokyo e Sabotage, destacou ainda a presença dos Le Crazy Coconuts, banda de Leiria (que usa o sapateado não apenas como expressão cénica mas também como contribuição para a própria secção rítmica), que terminou em segundo lugar. Eram ainda finalistas os Getthove, Marvel Lima e Nuno & The End.

Fernando Alvim, organizador do Termómetro, recorda que, quando esta aventura começou, “não havia internet, as bandas enviam a sua participação via maquetas que chegavam inicialmente em cassetes”. Hoje as inscrições chegam por via digital. Na altura explica que criou o festival porque, “como sempre, queria descobrir pessoas e talentos”. Justifica que tem “dedicado toda a vida a essa investigação” e o que tenta fazer em tudo o que faz “é justamente criar boas condições para que isso aconteça”. E neste caso em particular do festival deixa claro que as boas condições a que alude são “as bandas terem bom som, serem bem tratadas e terem um júri qualificado para lhes dar uma opinião”. De resto, conclui: “só isso justifica que o festival tenha conseguido durar até aqui”.

O unplugged, termo que associamos às origens e história do festival – em tempos era Termómetro Unplugged – “não existe há 10 anos”, explica Fernando Alvim. Essa “obrigatoriedade” acabou quando percebeu “que não havia vantagem nenhuma nessa diferenciação”, ou seja, quando reparou “que as vantagens” recolhidas “com essa diferença eram muito menores com as desvantagens” que tinham “na limitação imposta a cada uma das formações participações”. O unplugged, lembra, “foi uma moda dos 90, agora com tanta e boa electrónica, já não faz sentido nenhum”.

E como em tempos, e basta lembrar a memória do Rock Rendez Vous, serão os festivais ainda são uma porta de entrada para novas bandas ou a coisa mudou muito? Fernando Alvim acredita que sim: “Acho que as bandas vão ao festival, não como uma qualquer competição, mas sim como uma amostra. Estarem entre os 20 selecionados é já em si, um ótimo indício. Se o vencerem ou ficarem nos lugares cimeiros é melhor ainda”. Nota ainda que “o curioso, é que nem sempre é a banda que fica em primeiro lugar, que atinge maior notoriedade, muitas vezes é quem fica em segundo e terceiro”. E é ele mesmo que depois seleciona e recorda “alguns dos nomes que mais se destacaram nestas edições”: Ornatos Violeta, Ana Bacalhau, Silence 4, B Fachada, Mazgani, Capicua, DJ Ride, Richie Campbell, Noiserv, You Can’t Win, Charlie Brown, Alex D’alva Teixeira, Rita Cardoso, Yesterday, Ninja Kore, Salto, Black Mamba, Terrakota, Quelle Dead Gazelle , Blind Zero, Sloppy Joe. Já é uma história.

Os vencedores da edição deste ano vão receber como prémio uma actuação no Festival NOS Alive, a realização de um teledisco com apoio da Restart e ainda a gravação de um EP de 4 temas com apoio do estúdio Armazém 42.

sábado, dezembro 13, 2014

Entre as imagens de Sade

Kate Winslet e Geoffrey Rush
QUILLS (2000)
Sade está de volta... Ou talvez não. No passado dia 2, passaram dois séculos sobre a sua morte — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Dezembro), com o título 'Qual a herança do Marquês de Sade?'.

Apesar da rotina banal em torno das efemérides, os duzentos anos da morte do Marquês de Sade (ocorrida a 2 de Dezembro de 1814) não geraram, entre nós, muitas evocações. Certamente não por acaso, em França, a conjuntura de pensamento é bem diferente, sendo a exposição dedicada ao autor de A Filosofia na Alcova, apresentada pelo Museu d’Orsay (até 25 de Janeiro), um dos acontecimentos mais noticiados e comentados.
Vale a pena ler a entrevista dada pela comissária da exposição, Annie Le Brun, ao jornal Le Monde, começando por justificar o título do evento — “Sade: Atacar o sol” — através da apropriação de uma frase de uma personagem de os 120 Dias de Sodoma. Le Brun tem especial cuidado em separar a escrita de Sade de uma interpretação, afinal piedosa, que o reduz a mero símbolo provocador, “ultraliberal”, face aos usos e costumes de uma determinada época: “Sade sabe como a liberdade é perigosa e o homem soberano inquietante — é um dos raros escritores, talvez o único, a expor a natureza humana a nu. (...) Os seus livros recordam-nos como é frágil o verniz da civilização e de que noite inquietante provêm os nossos desejos.”
Trata-se de resistir a qualquer apropriação de Sade que o inscreva na mais vulgar paisagem “hedonista” que, hoje em dia, é desenhada tanto pela obscenidade pitoresca (do Big Brother televisivo e seus derivados) como pela exaltação pueril das performances sexuais (que contamina muitos discursos publicitários). Trata-se também, mais do que nunca, de questionar a noção simplista segundo a qual seria possível “ilustrar” Sade, reduzindo-o a um sistema de imagens mais ou menos “explícitas”.
Algumas vezes, não muitas, o cinema tentou figurar o Divino Marquês, celebrando o essencial da sua herança. A saber: o radicalismo de uma escrita que, afinal, resiste a passar para o lado da imagem ou, como já o disse Philippe Sollers, que produz (escrevendo) imagens “irredutíveis” a qualquer imagem. Vale a pena recordar dois filmes que partilhavam o mesmo empenho em afastar Sade de qualquer determinismo biográfico: Sade (2000), do francês Benoît Jacquot, e Quills – As Penas do Desejo (2000), do americano Philip Kaufman. Para além das suas diferenças, em ambos os casos a figura do Marquês — interpretado, respectivamente, por Daniel Auteuil e Geoffrey Rush — surgia como criador de uma prosa capaz de confrontar o leitor com os equívocos herdados da concepção do homem como “bom selvagem”. Como diz Annie Le Brun: “Sade obriga-nos a olhar as suas personagens de frente, mostrando-nos que elas nos perturbam e vivem em nós”.
Por mais fora de moda que isso possa parecer (ou, justamente, por causa da sua distância em relação a qualquer moda mediática), a herança de Sade envolve uma consciência metódica da fragilidade intrínseca de qualquer imagem — escrever é também uma arte de dar a ver.

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Pedro Costa redescobre Jacob Riis (1/3)

O novo e prodigioso filme de Pedro Costa, Cavalo Dinheiro, abre com uma fascinante pontuação, visual e simbólica, através de algumas fotografias de Jacob Riis — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Dezembro), com o título 'Fotos de Jacob Riis redescobertas no novo filme de Pedro Costa'.

Para além de movimentos ou modas, a história do cinema é feita de muitos cruzamentos com outras linguagens. No caso do novo filme de Pedro Costa, Cavalo Dinheiro, deparamos com uma subtil integração de fotografias feitas há mais de um século, assinadas por Jacob Riis (1849-1914).
Cavalo Dinheiro constrói-se em torno de experiências vividas e sonhadas por Ventura, personagem emblemática do universo de Pedro Costa (que já ocupava o centro dos acontecimentos em Juventude em Marcha, lançado em 2006). Natural de Cabo Verde, habitante do bairro das Fontainhas, Ventura emerge como sinal de tenacidade e resistência face a drásticas condições de vida.
Num gesto de calculado simbolismo, Pedro Costa abre o seu filme com uma série de fotografias que Riis obteve em algumas das zonas mais degradadas de Nova Iorque. São becos na zona da Mulberry Street, uma das principais vias de Manhattan (imortalizada por Francis Ford Coppola em O Padrinho, produção de 1972), famílias pobres em interiores desconfortáveis, cenas de comércio de rua... Todos aqueles que figuram nas imagens testemunham, afinal, as agruras do crescimento da grande metrópole, levando-nos a pressentir as marcas da violência desse processo (recorde-se que alguns dos seus episódios mais sangrentos foram abordados por Martin Scorsese, em 2002, em Gangs de Nova Iorque).
Personalidade de espírito reformista, Riis desempenhou um papel fundamental na abordagem política das convulsões internas do crescimento de Nova Iorque e, em particular, na defesa dos que estavam a ser empurrados para uma vivência socialmente marginal. Nascido na cidade de Ribe, na Dinamarca, em 1849, Riis foi um dos muitos europeus que procuraram melhores condições de vida do outro lado do Atlântico, ansiando pela utopia do Sonho Americano — em boa verdade, à partida, pretendia apenas consolidar a sua experiência de carpinteiro.
Ao chegar a Nova Iorque, corria o ano de 1870, Riis descobriu-se envolvido num turbilhão social que, entre muitas tensões e contradições, iria estar na base da moderna América. É por essa altura que, na sequência da Guerra Civil (1861-65), se assiste a uma gigantesca deslocação de populações para as grandes cidades, em especial Nova Iorque — calcula-se que, depois da guerra, as áreas urbanas dos EUA tenham acolhido 24 milhões de pessoas, gerando dramáticos desequilíbrios sociais.
Depois de empregos em diversos domínios, Riis acabaria por se afirmar como profissional do jornalismo, integrando a redacção do semanário News e, mais tarde, assumindo as funções de editor de sociedade no New York Tribune. O trabalho de jornalista, na raiz do seu activismo político (foi mesmo uma figura muito próxima do Presidente Theodore Roosevelt, eleito em 1901), conduziria Riis à utilização da fotografia como elemento fulcral de conhecimento e informação.
Pioneiro na utilização do flash (técnica que se estava a consolidar precisamente na segunda metade do séc. XIX), Riis deixaria como legado fundamental o seu livro How the Other Half Lives, publicado em 1890. De acordo com o título, tratava-se de dar a ver como vivia a “outra metade” dos cidadãos — para a história, ficou como um dos primeiros clássicos do foto-jornalismo.

Ver + ouvir:
Perfume Genius, Fool



Este é já o terceiro teledisco criado para um tema do alinhamento de Too Bright, o álbum editado este ano por Perfume Genius. A realização é assinda por Charlotte Rutherford.

Novas edições:
Vários artistas

"Master Mix: Red Hot + Arthur Russell"
Yep Rock / Popstock
(4 / 5)

Tendo recuperado o dinamismo (e melhores ideias) com o volume “indie” de 2009 Dark Was The Night, a Red + Hot Organization – que desde há quase 25 anos cria campanhas de luta contra a sida artavés da música – lançou este ano dois novos discos. Num deles juntou figuras como Max Richter, Daniel Hope ou as Amina para reinventar (ou re-compor) peças de Johann Sebastian Bach. Neste novo volume, volta a aplicar esse mesmo principio, o de ter um músico como protagonista e cujo trabalho é entregue a novas visões e que, no passado, permitiu já abordagens às obras de figuras como Cole Porter, George Gershwin, Duke Ellington ou Fela Kuti. De novo há o nome na berlinda: Arthur Russell (figura que, tal como Fela Kuti, foi um entre os muitos que a doença fez desaparecer demasiado cedo). Visionário quase invisível no seu tempo e cujo reconhecimento maior só chegou postumamente – o primeiro dos discos póstumos surgiu em meados dos anos 90 na Point Music, aquela que era então a editora coordenada por Philip Glass – Arthur Russell era uma “voz” multifacetada cuja obra percorreu caminhos tão distintos quanto os da música disco, o dub, a folk e até mesmo as vanguardas experimentais. Claramente integrado na vibrante cena “alternativa” que habitava Nova Iorque nos anos 70, Arthur Russell deixou um vasto corpo de gravações que, sobretudo depois de uma antologia editada pela Soul Jazz em 2003, ganhou nova atenção (e sucessivas edições, inclusivamente de material inédito). A (saudável) dispersão da sua composição em várias frentes está agora devidamente representada num cartaz de nomes que tanto recuperam a relação de Arthur Russel com a música de dança como exploram a sua alma folkie, ao mesmo tempo havendo ainda frestas de atenção para com a faceta mais vanguardista do seu trabalho. Através de contribuições brilhantes de figuras como Sufjan Stevens, Devendra Banhart, Richard Reed Parry (num coletivo que junta as contribuições de Little Scream, Sam Amidon, Colin Stetson e Sarah Neufeld), Rubblebucket & Nitemoves ou Phosphorescent surge em Master Mix: Red Hot + Arthur Russell um dos mais apetitosos menus gourmet em travo indie que 2014 nos deu a escutar. Por outro lado Robyn, Hot Chip, Blood Orange ou os Scissor Sisters asseguram a luminosidade que, apesar de um certo travo de melancolia (inerente à voz de Arthur Russell e certamente ao facto de o violoncelo ter sido o seu instrumento primordial), podemos encontrar entre o legado mais dançável que o homenageado nos deixou. No fim, e ao lado de peças como Red Hot + Blue ou Dark Was The Night nasce aqui um dos melhores títulos da (já extensa) história em disco da Red + Hot Organization.

Para ouvir: Diplo e amigos em nova canção



Diplo, juntamente com Roatam Batmanglij (dos Vampire Weekend) e Ed Droste (dos Grizzly Bear) juntaram-se para, a partir de uma remistura de um tema de Ty Dollar $sign, criar este novo tema.

Para ler: 'Debaixo da Pele'
é o filme do ano para o 'Guardian'

O filme de ficção científica de Jonathan Glazer, protagonizado por Scarlett Johansson, foi escolhido pelo Guardian como sendo o melhor de 2014.

Podem ler aqui o texto.