quarta-feira, agosto 24, 2016

DJ Shadow — parábola política

The Mountain Will Fall, quinto álbum de DJ Shadow, tem um novo e desconcertante teledisco, dirigido por Sam Pilling. O tema Nobody Speak, feito em colaboração com Run the Jewels, é encenado como uma parábola política sobre um (des)entendimento de líderes, num cenário que podemos associar a um certo visual das Nações Unidas, mas também, perversamente, à dantesca sala de reuniões do clássico Dr. Strangelove (1964), de Stanley Kubrick — é um belo exemplo de como as palavras do rap podem associar-se a imagens que desafiam a representação automática, automaticamente televisiva, da paisagem política.

Picture this
I'm a bag of dicks
Put me to your lips
I am sick
I will punch a baby bear in his shit
Give me lip
I'ma send you to the yard, get a stick, make a switch
I can end a conversation real quick

I am crack
I ain't lying kick a lion in his crack
I'm the shit, I will fall off in your crib, take a shit
Pinch your momma on the booty, kick your dog, fuck your bitch
Fat boy dressed up like he's Santa and took pictures with your kids

We the best
We will cut a frowny face in your chest, little wench
I'm unmentionably fresh, I'm a mensch, get correct
I will walk into a court while erect, screaming "Yes!
I am guilty motherfuckers, I am death."


Hey, you wanna hear a good joke?

Nobody speak, nobody get choked

Get running
Start pumping your bunions, I'm coming
I'm the dumbest, who flamethrow your function to Funyons
Flame your crew quicker than Trump fucks his youngest
Now face the flame fuckers your fame and fate's done with

I rob Charlie Brown, Peppermint Patty, Linus and Lucy
Put coke in the doobie roll woolies to smoke with Snoopy
I still remain that dick grabbing slacker that spit a loogie
Cause the tolda of the toolie'll murder you friggin' Moolies
Fuck outta here, yeah

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak

Only facts I will shoot a
Baby duck if it quacks, with a Ruger
Top billin', come cops and villainous shots is blocked, shipped out, and bought, and you're feeling it
El-P killing it, Killer Mike killing shit

What more can I say? We top dealing it
Valiant without villiany
Viciously file victory
Burn towns and villages
Burning looting and pillaging

Murderers try to hurt us we curse them and all their children
I just want the bread and bologna bundles to tuck away
I don't work for free, I am barely giving a fuck away

So tell baby Johnny and Mommy to get the fuck away
Heyyo here's a gun son now run get it to gutterway
Live to shoot another day

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak
Nobody speak, nobody get choked


DR. STRANGELOVE (1964)

"A vingança da vagina" [L'Obs]

Vale a pena ler o dossier proposto pela revista francesa L'Obs (herdeira de Le Nouvel Observateur), na sua edição de 11/17 Agosto, sobre as representações do sexo feminino: é a "história de um tabu", como se diz na capa, alimentado por discursos prisioneiros de lógicas masculinas; e é também "a vingança da vagina", de acordo com o título do artigo principal, assinado por Cécile Deffontaines. A abordagem é especialmente sugestiva, sobretudo porque não se apresenta prisioneira das pulsões imagéticas — o sexo (feminino ou não) é também o modo como o dizemos e escrevemos; esta é também, é mesmo sobretudo, uma história de palavras.
Em qualquer caso, sublinhe-se a singularidade da capa da revista, mostrando (literalmente) que a história que se conta não pode ser reduzida aos seus efeitos contemporâneos: nela encontramos uma reprodução do célebre quadro A Origem do Mundo, produzido por Gustave Courbet há exactamente 150 anos e exposto em Paris, no Museu d'Orsay.
Para além da saudável ironia que contamina esta abordagem das questões muito sérias que envolvem o ver & dizer das imagens do(s) sexo(s), há também em tudo isto um humor amargo, amargamente involuntário. Assim, num divertido artigo intitulado '"Pussy" rap', Fabrice Pliskin propõe uma sugestiva antologia do modo como, entre outras, Rihanna, Missy Elliott ou Azealia Banks, integram a sua vagina naquilo que dizem e cantam... Assim é. Mas talvez valha também a pena lembrar que, há mais de um quarto de século, quando uma tal Madonna (nomeadamente fotografada pelo grande Herb Ritts) punha a mão "onde não devia", meio mundo protestava contra os gestos gratuitos de uma estrela mimada... Encore un effort... 

A ORIGEM DO MUNDO (1866), de Gustave Courbet
Museu d'Orsay
Interview (Junho 1990)
FOTO: Herb Ritts

"I Can't See Why" [canções]

BAXTER
I Can't See Why
Baxter (1998)


"Cartas da Guerra" em português (1/3)

Acontecimento maior na história recente do cinema português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, baseado em D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto/Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, tem estreia marcada para 1 de Setembro.

Subitamente, somos confrontados com uma questão esquecida: como é que se fala o português nos filmes portugueses?
A questão não é teórica, muito menos abstracta, mas eminentemente social. Afinal de contas, em Love on Top e, de um modo geral, nos espaços da "reality TV", somos todos os dias agredidos pela metódica decomposição do falar português, e até da simples arte de falar — importa reagir a essa violência normalizada.
As cartas escritas pelo autor são terreno de uma intimidade em filigrana, como lembram Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes no prefácio do livro: "As cartas deste livro foram escritas por um homem de 28 anos na privacidade da sua relação com a mulher, isolado de tudo e todos durante dois anos de guerra colonial em Angola, sem pensar que algum dia viriam a ser lidas por mais alguém. Não vamos aqui descrever o que são essas cartas: cada pessoa irá lê-las de forma diferente, seguramente distinta da nossa. Mas qualquer que seja a abordagem, literária, biográfica, documento de guerra ou história de amor, sabemos que é extraordinária em todos esses aspectos." O cinema é, por isso, aquilo que chega no futuro do livro, refazendo-o, pela sua magia narrativa, para o nosso presente — este é, afinal, um filme que nos faz sentir que as palavras que alguém legou acontecem também como matéria viva daquele que lê ou vê.

terça-feira, agosto 23, 2016

Donald Trump por Kyle Craft

Tradução tosca, mas esclarecedora: "Se o muro for para cima e o país vier para baixo..."
Kyle Craft é um herdeiro da mais nobre tradição política da canção made in USA, integrando o património folk, derivando para o rock, enfim, preservando um genuíno espírito pop. Tinhamo-lo descoberto através do álbum Dolls of Highland, celebração festiva de um discípulo aplicado de Dylan e Bowie (Craft dixit). Agora, lançou um single que visa directamente o discurso do candidato Donald Trump e a sua delirante estratégia de construir um "muro" para purificar (?) a América — vale a pena escutar Before the Wall, letra e música.

If the wall it goes up and the country comes down
And it’s too tall to get in too late to get out
And the beaches have barbed wire across every shore
Would you lay down your gun then you won’t need it no more

If the wall it goes up would the thing ever fall
Will it stand there forever long after we’re gone
As a tombstone for freedom in a world that went wrong
As a remind of just how far we haven’t come

If the wall it goes up will the temperature drop
Will the oil rigs that litter this land get pulled up
Will we find some wild new way to save where we’re at
Would you do it? No, I doubt it where’s the money in that?’

If the wall it goes up and you’re stuck here inside
And caught with skin color some lawmen don’t like
Will they beat you with the same bars they throw you behind
If it was you would you resist, give in, or just hide?

If the wall it goes up and there’s no need to leave
Could I get all I want from the number on the screen?
If I dial 1-800 will you bring it to me
Straight to my couch the American dream

If the wall it goes up and your Jesus comes back
And he knocks on the door will you stand to attack
If he don’t have his papers and he don’t have much cash
Would you take him in, jail him, or just send him back?

If the wall it gets built will I get rich like you?
Can I buy me a fake wife and a ghostwriter too?
And a Rolls Royce to drive down each broke avenue
Smiling fat on my high horse through a ghetto so gloom

If the wall it goes up around the idiot king
And a new Joan of Arc rises against his name
Will you stand there beside her, burn her at the stake
Or glance at it there on the news the next day?

If the wall it gets built like the walls built before
Will we be forced to take sides in a new civil war?
Where it’s East vs West vs South vs North
Versus people with money versus people so poor

If the wall it goes up do you think it could stop
The bombs coming in from countries you pissed off
With your big mouth blowing up like the 4th of July
Shut it Donald, shut it please man we don’t want to die

But, if the wall it stays down and the people stay free
And it’s not quite as bad as you said it would be
What if I let you be you and you let me be me
It’s a song before the wall for all us to sing
It’s a song before the wall for all us to sing

Diferentes imagens [citação]

>>> Para muitas pessoas, a televisão e o cinema são a única via para compreenderem as pessoas que não são como elas. É importante para o mundo vermos diferentes imagens uns dos outros, de modo a podermos desenvolver empatia e compreensão.

MICHELLE OBAMA
'Entrevista com Michelle Obama', por Ted Johnson
in Variety, 23 Agosto 2016

A IMAGEM: Erwin Olaf, 2011

ERWIN OLAF
Keyhole 3
2011

segunda-feira, agosto 22, 2016

Guia para The Dead Weather [7]

[ 1: Hang You from the Heavens + Are 'Friends' Electric? ]
[ 2: Treat Me Like Your Mother + You Just Can't Win ]
[ 3: Will There Be Enough Water? ]

[ 4: I Cut Like a Buffalo + A Child of a Few Hours Is Burning to Death ]
[ 5: Bone House + Will There be Enough Water? ]
[ 6: Blue Bood Blues + Die By the Drop ]


O terceiro álbum, Dodge and Burn, surgiu a 25 de Setembro de 2015, tendo tido uma montra especial com o single de I Feel Love (Every Million Miles): a energia de sempre, porventura com uma Alison Mosshart ainda mais essencial na teatralização do seu som — ei-los em The Late Show, apresentados por Stephen Colbert.


>>> Site oficial de The Dead Weather.

A tragédia de "Love on Top" (2/3)

"Fábio é expulso pelos portugueses"
A tragédia televisiva contemporânea tem a sua expressão mais eloquente nos horrores quotidianos de Love on Top — aí, cada ser humano, espectador incluído, é (des)educado para ser boçal.

[ 1 ]

Quem expulsou Fábio? Os "portugueses", diz a legenda.
No domínio essencial do simbólico, há dois regimes chantagistas a funcionar em Love on Top. O primeiro envolve, claro, o interior da casa: as personagens são apresentadas e representadas como expressão única e unívoca do factor humano — tudo o que somos pode suscitar algum paralelo com algum ou alguns dos concorrentes. O segundo promove uma violenta homogeneização: do lado de cá, não estão os "espectadores", eventualmente uma "audiência", mas sim os "portugueses".
Repare-se que não se trata de discutir pueris contabilidades: mesmo que todos os habitantes do país estivessem ao mesmo tempo a olhar para a mesma emissão, nada disso poderia ocultar os horrores da reality TV — se a história colectiva consagrasse automaticamente os "números" (quaisquer "números") como prova de legitimidade e razão, viveríamos em pleno fascismo. Trata-se, isso sim, de sublinhar como a ideologia do programa encena o colectivo social, não como um espaço de muitas diferenças e contradições, mas sim um rebanho a que se pertence, mesmo sem dar por isso — quem está a olhar são sempre os "portugueses".

Toots Thielemans (1922 - 2016)

Nome fundamental na história da harmónica, o belga Toots Thielemans faleceu a 22 de Agosto, durante o sono, num hospital de Bruxelas — contava 94 anos.
A guitarra e o assobio são também marcas especiais de Thielemans, mas é a infinita versatilidade e delicadeza da sua harmónica que melhor define a sua identidade artística, em particular no universo do jazz. Ao longo de mais de seis décadas de carreira (retirou-se em 2014), deixou uma discografia de várias dezenas de álbuns, envolvendo colaborações com Miles Davis, Benny Goodman, Quincy Jones, Elis Regina e Paul Simon, entre muitos outros. No cinema, participou em diversas bandas sonoras, incluindo O Cowboy da Meia Noite (John Schlesinger, 1969), Asfalto Quente (Steven Spielberg, 1974) e Jean de Florette (Claude Berri, 1986). Em 2009, nos EUA, foi consagrado como Jazz Master, título atribuído pelo National Endowment for the Arts.

>>> Interpretando o tema de O Cowboy da Meia-Noite, num concerto de 2012.


>>> Obituário no New York Times.
>>> Site oficial de Toots Thielemans.

As bases de Trump [citação]

JOE KLEIN / Time
>>> Provavelmente, será preciso um milagre para que Trump se relance o suficiente para ganhar a presidência. Mas uma derrota em Novembro não será o fim desta história. No meio da agitação de Trump, o New York Times publicou um video [inserido aqui em baixo] sobre a faixa mais básica dos seus apoiantes, filmada ao longo do último ano pelos repórteres do jornal. Estes verdadeiros crentes apresentam-se meio loucos, desgraçados, bárbaros. Vê-los é chocante e aterrador. Trump, o candidato, é uma farsa, mas estas pessoas não são. (...) Necessitamos desesperadamente de encontrar uma maneira de falar com eles quando acabar esta campanha em forma de cataclismo.

JOE KLEIN
in 'Amid Donald Trump’s Stumbles, an America-First Rebellion That Is Just Beginning'
Time, 11 Agosto 2016

Desenhos animados em milhões de dólares

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (1937)
Os desenhos animados, tanto quanto (ou mais que) os filmes de super-heróis, movimentam hoje enormes fortunas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 de Agosto), com o título 'Desenhos animados rendem milhões'.

Se quisermos resumir a importância da animação na história recente da indústria cinematográfica, podemos dizer que os desenhos animados passaram a ser um dos factores decisivos do box office (nos EUA e, em boa verdade, no mundo todo). Veja-se o exemplo de Frozen (2013), que arrecadou nada mais nada menos que 1.287 milhões de dólares nos ecrãs de todo o mundo. A produção dos estúdios Disney lidera um lote de quatro títulos que conseguiram superar a margem dos mil milhões — seguem-se Mínimos (2015), da Illumination/Universal, Toy Story 3 (2010), da Pixar, e Zootrópolis (2016), também da Disney; depois, há mais 35 títulos que conseguiram acumular mais de 500 milhões de receitas.
A esmagadora maioria dos filmes que integram esta lista foi produzida através dos mais modernos recursos do desenho digital (no sexto lugar, O Rei Leão, de 1994, é uma das honrosas excepções). Quer isto dizer que tais recursos foram decisivos na reconversão artística e no relançamento comercial das figurinhas animadas, alargando o mercado a muitas derivações de merchandising, desde os tradicionais livros e brinquedos até aos jogos de video. O respectivo volume de negócios atinge os mais altos valores do universo global do entertainment. É o caso da série A Idade do Gelo, dos estúdios Blue Sky, da 20th Century Fox: mesmo deixando de lado as suas muitas ramificações (curtas-metragens, programas de televisão, jogos de video e até um espectáculo de palco), os seus cinco filmes já conseguiram uma receita bruta superior a 3.000 milhões de dólares.
Podemos perguntar qual o lugar dos clássicos nesta história de muitos cifrões. Por exemplo, qual o comportamento financeiro de Branca de Neve e os Sete Anões, a primeira longa-metragem de animação, lançada por Walt Disney na época natalícia de 1937? Pois bem, é o filme que fecha o Top 50 dos filmes de desenhos animados, com uma respeitável receita de 418 milhões de dólares.
Em todo o caso, vale a pena não esquecer a inflação, tendo em conta, antes de tudo o mais, as alterações do preço unitário dos bilhetes de cinema. Pois bem, feitas essas contas para o mercado americano (que conserva estatísticas apuradas de tal evolução), Branca de Neve e os Sete Anões não é apenas o mais rentável filme de animação — é também o nº10 na lista dos mais rentáveis de sempre (liderada por E Tudo o Vento Levou, de 1939). À Procura de Dory (2016), o desenho animado recordista em números absolutos, surge em 82º lugar! Conclusão: vamos menos ao cinema que os nossos avós.

domingo, agosto 21, 2016

Lana del Rey na primeira pessoa

Lana del Rey tem um teledisco que ela própria dirigiu: Honeymoon, canção-título do seu excelente álbum de 2015, apresenta-se numa espécie de home movie mais ou menos documental, mais ou menos onírico — é a demonstração exemplar de uma arte de se exprimir na primeira pessoa, desviando-se de qualquer cliché artístico ou mediático. 

"Send in the Clowns" [canções]

BARBRA STREISAND
Send in the Clowns
The Broadway Album (1985)


Jacques Demy e a sua arqueologia

PEAU D'ÂNE (1970)
Catherine Deneuve
A história dos filmes vai acumulando uma memória de lugares que importa revisitar e estudar — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Agosto), com o título 'O cinema também tem a sua arqueologia'.

Olivier Weller é um arqueólogo francês, especialista no período Neolítico. Integrando o Centro Nacional de Pesquisa Científica, tem estudado em particular a produção do sal há cerca de 6000 anos. O certo é que, nos últimos tempos, memórias pessoais e razões cinéfilas “desviaram-no” para um tempo bem mais próximo. 1970, para sermos exactos: com a sua equipa de investigadores, Weller tem estado a fazer um trabalho de campo sobre os cenários em torno do castelo de Neuville, a Oeste de Paris, na região das Yvelines (integrando Versalhes) — foi aí, precisamente no Verão de 1970, que Jacques Demy (1931-1990) rodou esse filme belíssimo que é A Princesa com Pele de Burro (Peau d’Âne), adaptando o conto clássico de Charles Perrault.
JACQUES DEMY
(1931-1990)
Depois de Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (1964) e As Donzelas de Rochefort (1967), era a terceira vez que Catherine Deneuve integrava o mundo mágico de Demy. No mesmo ano em que surgiria noutro título emblemático — Belle de Jour, de Luis Buñuel —, Deneuve interpretava a princesa que, reagindo contra um casamento imposto (e incestuoso), é ajudada por uma fada (Delphine Seyrig) a disfarçar-se (com uma pele de burro) e a sobreviver na floresta... Demy celebrava um conceito de maravilhoso que, no cinema francês, o reafirmava como discípulo de Jean Cocteau (1889-1963). E vale a pena recordar que Demy convocava Jean Marais para interpretar o seu rei, ele que já tinha sido o príncipe assombrado, encenado por Cocteau em A Bela e o Monstro (1946).
Com a investigação a decorrer desde 2013, Weller tem deparado com um terreno recheado de sinais surpreendentes, incluindo restos de lixo que não foi recolhido — como lembra um técnico citado numa reportagem do jornal Liberátion (3 Agosto), na altura as equipas de rodagem ainda não tinham o espírito ecológico dos nossos dias. Há de tudo um pouco, desde os brilhantes de um vestido até às fundações da cabana da princesa, passando pelas marcas de uma barra metálica incrustada numa árvore para que o príncipe (Jacques Perrin) pudesse espiar a sua amada. Os resultados do trabalho serão depositados na Cinemateca Francesa, estando também na base de um documentário, dirigido por Pierre-Oscar Lévy e o próprio Welles, a ser lançado em 2017.
Este é, afinal, apenas um sintoma de um modo cada vez mais importante, e mais pertinente, de (re)fazer a história do cinema — por exemplo, Peter Brosnan terminou recentemente um filme sobre as zonas da Califórnia onde, em 1923, Cecil B. DeMille rodou a sua versão muda de Os Dez Mandamentos. Para além das curiosidades mais ou menos insólitas que cada investigação possa revelar, trata-se de reconhecer a existência de uma arqueologia cinematográfica, capaz de nos fazer perceber a complexidade criativa da relação de um filme com o terreno que “ocupa”. Em tempos de muitas ilusões digitais, é salutar regressarmos às matérias do real.

>>> Reportagem sobre a rodagem de Peau d'Âne [arquivo: INA].

sábado, agosto 20, 2016

O regresso de Frank Ocean

Frank Ocean assinou um dos grandes álbuns de 2012, Channel Orange, prova muito real das transfigurações sempre possíveis na paisagem de uma sensibilidade hip hop que se mantém fiel às raízes do R&B. Há dias, sem aviso prévio, lançou Endless, álbum visual que, além do mais, parece confirmar a actualidade artística e comercial deste formato (pouco tempo depois de Beyoncé nos ter dado o seu prodigioso Lemonade). Tudo isto enquanto se renovavam as expectativas em torno de um novo álbum, cujo título inicialmente divulgado (Boys Don't Cry) foi, entretanto, abandonado por Ocean.
Agora, surge Nikes, primeira e admirável canção desse segundo álbum por vir — a letra foi divulgada, assim mesmo, no Twitter de Ocean; o teledisco é um fascinante labirinto de referências sociais e culturais, capaz de confirmar que há cada vez mais hipóteses de narrativa nos formatos "paralelos" que, com maior ou menor felicidade, o mercado vai gerando.


THESE BITCHES WANT NIKES. THEY LOOKING FOR A CHECK. I TELL EM IT AIN’T LIKELY. SAID SHE NEED A RING LIKE CARMELO. MUST BE ON THAT WHITE LIKE OTHELLO. ALL YOU WANT IS NIKES. BUT THE REAL ONES. JUST LIKE YOU. JUST LIKE ME. I DON’T PLAY, I DONT MAKE TIME. BUT IF YOU NEED DICK I GOT YOU AND I YAM FROM THE LINE. POUR UP FOR A$AP. RIP PIMP C. RIP TRAYVON, THAT NIGGA LOOK JUST LIKE ME. WOOO, FUCCKKINN BUZZINNN WOOOO. THAT MY LIL COUSIN, HE GOT A LIL TRADE. HIS GIRL KEEP THE SCALES, A LIL MERMAID. WE OUT BY THE POOL SOME LIL MERMAIDS. ME AND THEM GEL, LIKE TWIGS WIT DEM BANGS. NOW THAT’S A REAL MERMAID. YOU BEEN HOLDING YOUR BREATH. WEIGHTED DOWN. PUNK MADRE, PUNK PAPA. HE DON’T CARE FOR ME, BUT HE CARES FOR ME. AND THAT’S GOOD ENOUGH. WE DON’T TALK MUCH OR NOTHING. BUT WHEN WE TALKING BOUT SOMETHING, WE HAVE GOOD DISCUSSION. I MET HIS FRIENDS LAST WEEK. FEELS LIKE THEY’RE UP TO SOMETHING. THAT’S GOOD FOR US. WE’LL LET YOU GUYS PROPHESY. WE’LL LET YOU GUYS PROPHESY. WE GON SEE THE FUTURE FIRST. WE’LL LET YOU GUYS PROPHESY. WE GON SEE THE FUTURE FIRST. LIVING SO THE LAST NIGHT, FEELS LIKE A PAST LIFE. SPEAKING OF THE DON’T KNOW WHAT GOT INTO PEOPLE, DEVIL BE POSSESSING HOMIES DEMONS TRY TO BODY JUMP. WHY YOU THINK I’M IN THIS BITCH WEARING A FUCKING YARMULKE. ACID ON ME LIKE THE RAIN. WEED CRUMBLES INTO GLITTER. RAIN. GLITTER. WE LAID OUT ON THIS WET FLOOR. AWAY TURF, NO ASTRO. MESMERIZED HOW THE STROBES GLOW, LOOK AT ALL THE PEOPLE FEET DANCE. I KNOW THAT YOUR NIGGA CAME WITCHA. BUT HE AIN’T WITCHA. WE ONLY HUMAN AND IT’S HUMID IN THESE BALMAINS. I MEAN MY BALLS STICKING TO MY JEANS. WE BREATHING PHEROMONES, AMBER ROSE. SIPPING PINK GOLD LEMONADES. FEELING. I MAY BE YOUNGER, BUT I’LL LOOK AFTER YOU. WE’RE NOT IN LOVE BUT I’LL , MAKE LOVE TO YOU. WHEN YOU’RE NOT HERE, I’LL SAVE SOME FOR YOU. I’M NOT HIM, BUT I’LL MEAN SOMETHING TO YOU. I’LL MEAN SOMETHING TO YOU.

A IMAGEM: Jamie Nelson, 2013

JAMIE NELSON
Emoji Girl
2013

Tubarões & etc. (4/4)

Com Águas Perigosas encontramos o que tem faltado à temporada de Verão: um espectáculo que conhece as leis narrativas do modelo de thriller que aplica — este texto faz parte de um dossier do Diário de Notícias (10 Agosto) e foi publicado com o título 'Na solidão dos mares'.

[ 1 ]  [ 2 ]  [ 3 ]

Para Steven Spielberg, Tubarão (1975) foi um decisivo objecto de viragem, envolvendo não apenas a gestão da sua criatividade pessoal, mas também o seu poder de decisão no interior da grande máquina de Hollywood. Ainda assim, como depois veio a declarar, foi a primeira e última vez que fez um filme passado na água. Compelido a lidar com o mau funcionamento do tubarão mecânico (estava-se longe das proeza digitais da actualidade), enfrentando as dificuldades muito práticas de rodagem em pleno oceano, achou por bem encerrar o capítulo marinho da sua carreira.
O certo é que, como o próprio Spielberg já reconheceu, a ameaça das imagens do mar em Tubarão envolve uma simbologia da solidão que, na sua história pessoal, remete para o trauma da separação dos pais (com um novo e decisivo capítulo, cinco anos mais tarde, em E.T., o Extraterrestre). Este tipo de componentes em filmes de grande sucesso é quase sempre descartado em nome da sua condição de objectos “comerciais”. Claro que são raros os blockbusters capazes de exibir o brilhantismo de Tubarão (temos assistido mesmo a uma degradação de padrões induzida pela guerra comercial entre os impérios da BD, Marvel e DC Comics). Em qualquer caso, seria interessante voltarmos a mostrar alguma disponibilidade para lidar com a dimensão mais espectacular do cinema (americano ou não) para além da rejeição, automática e preconceituosa, dos seus valores narrativos.
É também por isso que um filme como Águas Perigosas possui um fascínio muito primitivo. As suas imagens do mar (mesmo que geradas por recursos digitais) nada têm a ver com qualquer visão “metafísica” da prática do surf pelos “famosos” — são apenas cenários depurados de um medo primordial, para o qual, com ou sem tubarões, as palavras sempre faltam.

sexta-feira, agosto 19, 2016

"Nos Teus Braços" [canções]

CUCA ROSETA
Nos Teus Braços
Cuca Roseta (2011)


"Barry Lyndon" continua...

Quem disse que o mercado se mede apenas pelo ruído dos "blockbusters"?... Reposto por um período limitado, Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, viu a sua exibição prolongada por mais uma semana, de modo a corresponder à procura dos espectadores — em Lisboa, no cinema Ideal.

A tragédia de "Love on Top" (1/3)

«Eras a melhor namorada do mundo se me fizesses uma tosta mista»
A tragédia televisiva contemporânea tem a sua expressão mais eloquente nos horrores quotidianos de Love on Top — aí, cada ser humano, espectador incluído, é (des)educado para ser boçal.

Desde os primeiros tempos de Big Brother, a cama — esta é mesmo a única palavra fetiche que aqui circula: cama — surge apresentada como uma espécie de altar em que, em última instância, se revela a totalidade de cada indivíduo — e a história ensina-nos como todos os discursos que visam alguma totalidade favorecem o oposto de qualquer humanismo.
Há uma maneira mais crua de dizer isto, obviamente procurada pelo dispositivo do programa: homem ou mulher, cada um está compelido a ser atleta de uma estúpida olimpíada sexual — a performance sexual, mais ou menos quantificada em "posições" ou "parceiros", é mesmo tratada como principal elemento definidor de identidade.
Em novas variações, nomeadamente em Love on Top, a cama foi-se transfigurando num espaço tribal onde desembocam todas as transcendências, incluindo, como neste exemplo, a possibilidade de fazer uma "tosta mista" — feridos por uma tristeza avassaladora e patética, todos se esforçam por exibir uma máscara de felicidade.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Os fotogramas de Hitchcock

Ingrid Bergman / UNDER CAPRICORN (1949)
Reduzir cada filme de Alfred Hitchcock (1899-1980) a alguns fotogramas? Não é, obviamente, possível... Mesmo que sejam 1000 fotogramas! Em todo o caso, é essa a interessante aposta do site 1000 Frames of Hitchcock. Porquê interessante? Porque cada enquadramento do autor de Notorious (1946), The Wrong Man (1956) ou Frenzy (1972) nunca é um elemento banalmente pictórico, muito menos pitoresco, integrando e ecoando todas as componentes dramáticas e simbólicas da narrativa em que está inscrito.
Num tempo em que os "filmes de telemóvel", agitados e vazios (Jason Bourne, Esquadrão Suicida, Star Trek: Além do Universo, etc.), menosprezam a nobre arte da composição do espaço, olhar para a visão de Hitchcock é gratificante — visão ou visões, se assim preferirem.
Ruth Roman / STRANGERS ON A TRAIN (1953)
Tippi Hedren / MARNIE (1964)

Robert Redford — 80 anos

Nasceu a 18 de Agosto de 1936, em Santa Monica, California — Robert Redford faz hoje 80 anos.
É um daqueles casos em que a persistência do lugar-comum — "jovem" + "sedutor" + "galã" — tende a ocultar a diversidade e, sobretudo, a riqueza criativa de uma trajectória profissional sem equivalente. Ele é a estrela de grandes fenómenos das décadas de 60/70, como o western crítico Dois Homens e um Destino (1969), de George Roy Hill, ou o melodrama O Nosso Amor de Ontem (1973), de Sydney Pollack; ou ainda de África Minha (1985), também de Pollack (cineasta que o dirigiu em sete filmes). Mas é também o actor que arriscou em filmes politicamente tão ousados como O Vale do Fugitivo (1969), outro western apostado em rever a herança clássica, dirigido por Abraham Polonsky, cineasta que estivera na "lista negra" do maccartismo, ou Os Homens do Presidente (1976), o retrato do Caso Watergate assinado por Alan J. Pakula. Isto sem esquecer a sua notável obra pessoal como realizador, integrando títulos tão brilhantes como Gente Vulgar (1980), sobre a decomposição do tradicional imaginário familiar, Quiz Show (1994), evocando um escândalo televisivo dos anos 50, ou A Conspiradora (2010), uma subtil releitura do contexto social e político em que Abraham Lincoln foi assassinado.
Sendo Redford também o criador do Festival de Sundance, certame que, de modo decisivo, ajudou a relançar o conceito (e as práticas) dos espaços independentes, o mínimo que se pode dizer é que não é possível fazer a história do cinema americano do último meio século sem ter em conta a especificidade das suas contribuições — podemos vê-lo, actualmente, como o avô/narrador de A Lenda do Dragão, uma produção dos estúdios Disney.

>>> Três trailers:
— THIS PROPERTY IS CONDEMNED/A Flor à Beira do Pântano (1966), com Natalie Wood e Robert Redford: uma realização de Sydney Pollack inspirada em Tennessee Williams.
— A RIVER RUNS THROUGH IT/Duas Vidas e um Rio (1992), realizado por Redford: belíssima evocação da pesca familiar no estado de Montana, a partir de memórias do escritor Norman Maclean, é um dos primeiros papéis de Brad Pitt (nunca estreado comercialmente em Portugal).
— LIONS FOR LAMBS/Peões em Jogo (2007), uma das mais espantosas realizações de Redford, também um dos actores principais, a par de Meryl Streep e Tom Cruise: invulgar visão crítica da presença militar americana no Afeganistão, a partir de três histórias cruzadas por um brilhante argumento de Matthew Michael Carnahan.



"Not Dark Yet" [canções]

BOB DYLAN
Not Dark Yet
Time Out of Mind (1997)


Arthur Hiller (1923 - 2016)

Na cerimónia dos Oscars, em 2002
Nascido no Canadá, formado na televisão, assinou grandes sucessos de Hollywood como Love Story: Arthur Hiller faleceu no dia 17 de Agosto, em Los Angeles — contava 92 anos.
A sua experiência televisiva nos anos 50/60 — em séries como Gunsmoke, Alfred Hitchcock Presents ou Naked City — conferiu-lhe uma agilidade criativa que o tornou capaz de lidar com os géneros mais diversos, dando sempre especial atenção à direcção dos actores. Com Love Story (1970), protagonizado por Ali MacGraw e Ryan O'Neal, assinou aquele que foi um dos derradeiros fenómenos do romantismo clássico. Lançado em 1964, Herói Precisa-se (no original: The Americanization of Emily), a partir de um argumento sarcástico de Paddy Chayefsky sobre os bastidores da Marinha, é por certo o seu trabalho mais brilhante. Entre os seus títulos mais conhecidos incluem-se ainda o filme de guerra Tobruk (1967), com Rock Hudson, a comédia Por Favor Não Matem o Dentista (1979), com a dupla Peter Falk/Alan Arkin, e a comédia dramática O Palco e a Vida (1982), com Al Pacino.
O seu prestígio junto dos seus pares levou a que fosse eleito para dois cargos de grande importância na comunidade de Hollywood: presidente da Directors Guild of America (1989-1993) e presidente da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (1993-1997). Em 2002, celebrando o sentido filantrópico da sua actividade, a Academia distinguiu-o o Prémio Humanitário Jean Hersholt.

>>> Eis os trailers de Herói Precisa-se e Love Story; no final, surge o registo da entrega do Prémio Jean Hersholt, na cerimónia dos Oscars de 2002, por Ryan O'Neal e Ali MacGraw.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.