quinta-feira, dezembro 08, 2016

"Time": Estados Desunidos da América

"É difícil rebater a ideia de que, ao longo dos acontecimentos deste ano, alguém tenha tido mais influência do que Donald Trump" — as palavras de Nancy Gibbs, chefe de redacção da Time [video], condensam os motivos que levaram a revista a eleger o Presidente eleito dos EUA (com tomada de posse agendada para 20 de Janeiro) como a 'Pessoa do Ano'. Todo o processo político e mediático que desembocou na sua eleição acabou mesmo por expor, de forma inusitada e perturbante, as clivagens da grande nação americana, a ponto de a capa da Time identificar Trump como 'Presidente dos Estados Desunidos da América'.


O notável dossier que a revista propõe — completado pela abordagem de outras figuras do ano, incluindo Hillary Clinton e Beyoncé, a par da análise de fenómenos como o recrudescimento dos populismos na Europa — inclui um magnífico portfolio, assinado pelo fotógrafo israelita Nadav Kander. Além de ser ele o autor da imagem da capa, Kander fotografou também quatro membros do círculo pessoal de Trump, essenciais na sua campanha e com papéis importantes a desempenhar na sua presidência.
STEPHEN BANNON
— futuro conselheiro da Casa Branca
KELLYANNE CONWAY
— directora de campanha
REINCE PRIEBUS
— futuro chefe de gabinete
MIKE PENCE
— Vice-Presidente eleito

"Don't Cry for Me Argentina" [canções]

MADONNA
Don't Cry for Me Argentina
Evita (1996)


Madonna & James Corden

Cantando e dançando num automóvel em movimento? Assim aconteceu: Madonna e James Corden arriscam até fazer voguing pelas ruas de Nova Iorque, numa conversa plena de humor em que, além de Vogue, ainda evocam Bitch I'm Madonna, Papa Don't Preach, Express Yourself e Ray of Light — sem esquecer um delicioso fragmento, a capella, de Don't Cry For Me Argentina.
Madonna foi a convidada do 'Carpool Karaoke', número habitual de Corden com os seus convidados, em The Late Late Show (CBS) — o resultado são alguns minutos de requintado e divertido entertainment.

Peter Doherty, trovador

A vida mediática de Peter Doherty, muitas vezes parasitada pelos dramas da sua existência privada, não tem ajudado a que o seu trabalho seja escutado apenas pelo que nele acontece. O seu segundo álbum a solo, Hamburg Demonstrations, sete anos passados sobre Grace/Wastelands, aí está como uma prova esclarecedora do seu desencantado lirismo, certamente presente nas suas experiências com formações como The Libertines ou Babyshambles, mas ainda mais depurado e genuíno quando Doherty se exprime a solo.
Doherty é um trovador do absurdo à flor da pele, seja nas relações amorosas, seja na contemplação política do mundo à sua volta. A sua música expõe-se numa desamparada nudez simbólica que envolve, além do mais, um sentido de urgência e inacabamento das performances que faz lembrar a poética dos primeiros tempos dos Beatles... Et pour cause: afinal, Hamburg Demonstrations foi gravado naquela cidade alemã, nos estúdios Clouds Hill, em assumida homenagem ao pré-histórico período alemão da banda de Lennon & McCartney. A prova: escute-se I Don't Love Anyone (But You're Not Just Anyone), observando a sua delicada, e desenhada, concretização figurativa.

I don't love anyone
But you're not just anyone
You're not just anyone, to me

Anything, mostly everything
You drop an eyelash and finger from the wish
You live this way
And oh I'll never leave
yes I will
It seemed so cold

The luck a penny brings, means everything
When you kiss and cross superstitiously

Johnny comes marching home again, hurrah
Johnny comes marching home again, hurrah
Johnny comes marching home again
With this and that and a big bass drum
And they all come marching, over the hill from war

Anything, mostly everything
You drop an eyelash and finger from the wish
You live this way
And oh you'll never leave
She never would
It's just so cold

quarta-feira, dezembro 07, 2016

A crise da escola [citação]

>>> Se o futuro está desvalorizado, isso deve-se ao facto de ter deixado de ser designado por um projecto, uma ambição colectiva, ou mesmo uma ideologia. Em termos de representação, tornou-se aleatório, enigmático, indecifrável. Deixou de marcar o presente.
Desta tacteante incerteza temporal, testemunham mil sintomas. A ruína das instituições não será o menor. Que se pense, por exemplo, na crise da escola, lugar-comum mediático, debate repetido e tema inesgotável. No essencial, tal crise corresponde, em definitivo, a uma crise de transmissão à qual o carácter ilegível do futuro não é estranho. Que transmitir? Em que perspectiva? Através de que género de projecto colectivo? Eis perguntas às quais se tornou difícil responder. Como a família, a escola sofre da incerteza do tempo e mostra-se incapaz de assumir o seu próprio poder genealógico. Deixou de conseguir inscrever o indivíduo sem pertença na continuidade de uma história. Tem dificuldade em transmitir uma herança, tanto quanto em designar um futuro. Na verdade, encontra-se subvertida pela ditadura do instante...

JEAN-CLAUDE GUILLEBAUD
Éditions du Seuil, 1998

O cinema social de Ken Loach

Ken Loach e Dave Johns: rodagem de Eu, Daniel Blake 
Ken Loach continua a ser um cineasta eminentemente social, mas onde está a sociedade para discutir os seus filmes?... — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Dezembro), com o título 'Que debate social?'.

O nome de Ken Loach está indissociavelmente ligado ao período da sociedade portuguesa que ficou conhecido como ‘Primavera marcelista’. O seu filme Vida em Família (1971), centrado numa jovem que fica grávida e os pais querem obrigar a abortar, ficou como um dos símbolos de uma relativa abertura da censura do regime do Estado Novo e, mais do que isso, gerou na imprensa um genuíno debate de ideias.
Quase meio século depois, a estreia de Eu, Daniel Blake, dificilmente dará origem a qualquer debate do mesmo teor. Dir-se-á que os mais recentes trabalhos de Loach não possuem o fulgor daquela época. Em boa verdade, partilho desse ponto de vista: Eu, Daniel Blake parece-me um filme sólido e estimulante, mas sem a riqueza de nuances de Vida em Família ou, mais tarde, Riff Raff (1991). Em qualquer caso, isso não nos impede de reconhecer que, na nossa democracia, o espaço social de debate do cinema (que é também um espaço de debate social) se restringiu de forma drástica. No limite, um filme como Eu, Daniel Blake já não consegue suscitar mecanismos de reflexão que o libertem da sua condição de objecto mais ou menos marginal, em tudo e por tudo distante dos olhares (ou até da simples informação) da maioria dos espectadores.
Não é fácil pensar estas questões, desde logo porque a mais rudimentar demagogia política tende a sugerir que se trata de branquear a ditadura. Na verdade, o que seria útil pensar é o modo como a nova cultura audiovisual, predominantemente televisiva, impôs uma visão frívola e consumista do próprio cinema. No mínimo, importa dizer que Loach se mantém fiel ao seu ideário social e cinematográfico, sendo Eu, Daniel Blake uma sóbria confirmação da sua coerência. Nós é que mudámos e não queremos, ou não sabemos, pensar a nossa mudança.

"Love Is Hell" [canções]

RYAN ADAMS
Love Is Hell
Love Is Hell (2004)


O regresso de Ryan Adams

Convenhamos que ele nunca se ausentou. O certo é que o mais recente álbum de Ryan Adams, 1989 (2015), refazendo o registo homónimo de Taylor Swift (editado um ano antes), deixou uma sensação paradoxal de sedução e bloqueio. Seja como for, importa saudar o regresso à sua verdade mais visceral de rocker, alternativo ou não, descendente do punk ou apenas poeticamente livre e experimental — é isso, pelo menos, que sentimos face a Do You Still Love Me? [audio], primeiro tema de um novo álbum, Prisoner, agora anunciado para 17 de Fevereiro [Rolling Stone]. Entretanto, o fabuloso Heartbreaker (2000), opus 1 de Adams, foi relançado em edição Deluxe.

Zemeckis + Pitt + Cotillard (2/2)

Subitamente, com assinatura de Robert Zemeckis, um grande retorno aos valores do melodrama de guerra — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Novembro), com o título 'Melodrama de guerra renasce com Brad Pitt e Marion Cotillard'.

[ 1 ]

Será, porventura, desconcertante encontrar um cineasta como Zemeckis, tido como mago dos efeitos especiais, a assinar um tão depurado melodrama de guerra. Afinal de contas, além de responsável pela trilogia Regresso ao Futuro (1985, 1989, 1990), ele é também autor de um título como Quem Tramou Roger Rabbit? (1988), marcante na evolução da manipulação das imagens.
Mas não simplifiquemos: o fôlego romanesco de Aliados não pode ser separado de um conceito de espectáculo “maior que a vida” em que, justamente, a aplicação de sofisticados recursos técnicos é também essencial no envolvimento e sedução do espectador. Para nos ficarmos por um exemplo esclarecedor, repare-se no espantoso plano de abertura do filme, com a paisagem desértica, os pés de Max a entrarem lentamente na zona superior da imagem, seguindo-se a revelação do seu pára-quedas e a elegante queda nas dunas — não tem nada a ver com naves ruidosas ou monstros ameaçadores, mas tal plano é, em si mesmo, uma extraordinária proeza de efeitos especiais.
Com Aliados, Zemeckis realizou um filme esplendorosamente fora de moda e é muito provável que esteja a ser comercialmente penalizado por isso mesmo: nos EUA, arrancou com receitas modestas, acumulando no primeiro fim de semana pouco mais de 12 milhões de dólares (média/ecrã: 4 mil), em claro contraste com a nova produção Disney, Vaiana, que facturou 56 milhões (média/ecrã: 14 mil).
Mesmo as especulações grosseiras de alguns meios de comunicação, sugerindo que Marion Cotillard poderia ter algo a ver com a recente separação de Brad Pitt e Angelina Jolie, não produziram qualquer efeito “comercial”. Aliás, com suave contundência, Cotillard respondeu a tais especulações quando entrevistada por Matt Lauer no programa televisivo “Today” (NBC): “Nunca encaro de forma pessoal as notícias que não têm a ver comigo”.
Em todo este contexto, o mais insólito, e também o mais fascinante, é o anacronismo de uma produção como Aliados. Assim, no ano de 2016, quando Hollywood se consagra através de títulos como Star Trek: Além do Universo, À Procura de Dory ou Doutor Estranho, o veterano Zemeckis mobiliza duas grandes estrelas para fazer um filme apostado em revitalizar a mais pura herança clássica. Dir-se-ia uma experiência de vanguarda.

Kate Bush: memória de memórias

Não exactamente um típico álbum ao vivo, mas uma memória de uma série de concertos, Before the Dawn, dados por Kate Bush, em 2014, no Hammersmith Apollo de Londres — chama-se também Before the Dawn e propõe uma antologia de memórias da sua trajectória criativa, em três partes (e outros tantos CD): sete canções + a suite Ninth Wave de Hounds of Love (1985) + A Sky of Honey de Aerial (2015).
Assinado por The KT Fellowship, Before the Dawn apresenta-se, assim, como a antologia sonora daquela que foi, para todos os efeitos, uma performance fortemente teatralizada. O seu cartão de visita é o tema And Dream of Sheep, com Kate Bush nos estúdios de Pinewood a encenar uma angustiada experiência aquática.

terça-feira, dezembro 06, 2016

Filme de terror + Amália Rodrigues

Lançado com grande impacto no Festival de Sundance, The Eyes of My Mother, primeira longa-metragem de Nicolas Pesce, está a ser recebido por vários críticos dos EUA como um dos mais originais filmes de terror dos últimos anos. No seu centro está a personagem de uma jovem interpretada por Kika Magalhães, uma actriz portuguesa. Mais ainda: o facto de uma outra personagem, a mãe, ter praticado cirurgia em Portugal é pretexto para a integração da voz de Amália Rodrigues na banda sonora — o trailer é elucidativo [estreia: 23 de Fevereiro de 2017].

segunda-feira, dezembro 05, 2016

A CGD na televisão & etc.

Muitos espaços e discursos televisivos funcionam a partir de uma lógica normativa de repetição, como se o mundo estivesse preso de significações anteriores a qualquer ocorrência — esta crónica foi publicada no Diário de Notícias (2 Dezembro), com o título 'Fenómenos de repetição'.

1. É, no mínimo, desconcertante o modo como muitas notícias sobre a situação na Caixa Geral de Depósitos são ilustradas através de imagens da fachada do seu edifício-sede. Não que esperássemos ver em tais notícias o Mosteiro da Batalha ou o Taj Mahal. O que surpreende é o facto de muitas formas de utilização dos recursos audiovisuais se esgotarem no mesmo dispositivo: um texto “radiofónico” sobreposto a imagens esvaziadas pela intensa repetição.

2. Repetição é, aliás, o regime noticioso dominante, sendo o futebol o tema sempre privilegiado (?), a ponto de vermos e ouvirmos dezenas de vezes os mesmos treinadores a aplicar os mesmos chavões com o mesmo ar cansado — estão cansados de quê?

3. Chegámos àquela época da temporada futebolística em que o pior dos três grandes só pode estar em “crise”, tornando-se objecto de infinitas análises — desta vez é o F. C. Porto, mas podia ser, como já foi, o Benfica ou o Sporting. Fica a ideia (?) de que, num mundo ideal, os três estariam sempre no primeiro lugar, em compulsiva igualdade pontual.

4. Em boa verdade, podemos ser levados a pensar que as altercações nos bastidores do estádio de Alvalade são mais importantes do que as escolhas de Donald Trump para o executivo que vai dirigir a partir de 20 de Janeiro de 2017 — “cuspo” e “fumo” serão códigos de armas nucleares?

5. De um momento para o outro, as convulsões políticas nos EUA quase desapareceram dos ecrãs de televisão. Na verdade, depois da eleição de Donald Trump, é agora que estão a acontecer muitas coisas que vão determinar o futuro próximo daquele país e, afinal, de todo o planeta. Neste caso, faltando o folclore das campanhas, celebrações, vencedores e vencidos, dir-se-ia que, televisivamente, o real se esvazia.

Jean-Loup Passek (1936 - 2016)

FOTO: José Carmo / DN
Crítico de cinema, escritor e programador, o francês Jean-Loup Passek faleceu no dia 4 de Dezembro, em Paris — contava 80 anos.
O nome de Passek está indissoluvelmente ligado a Portugal, uma vez que foi entre nós que decidiu depositar a sua colecção pessoal (máquinas primitivas, fotos, cartazes, etc.), para cuja salvaguarda foi criado o Museu de Cinema de Melgaço — foi nesse contexto que nasceu o festival dedicado ao documentarismo Filmes do Homem.
No passado mês de Setembro, tinha sido homenageado pela Cinemateca, através de um ciclo de filmes que, devido a problemas de saúde, já não pôde acompanhar. Divulgador e promotor cultural, a sua actividade repartiu-se por diversos registos e instituições: coordenou o monumental Dicionário Larousse de Cinema (sete edições, entre 1985 e 2014), dirigiu o Festival Internacional de La Rochelle (de 1973 a 2001), foi conselheiro de cinema do Centro Pompidou (de 1978 a 2011).

>>> Video da Alto Minho TV, apresentando o Museu de Melgaço.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

"Shine a Light" [canções]

THE ROLLING STONES
Shine a Light
Exile on Main St (1972)


Kristen Stewart ao som dos Stones

Anunciado em Outubro, com o tema Just Your Fool, aí está o prometido álbum dos Rolling Stones, revisitando a herança musical e mitológica do blues — o título é todo um programa: Blue & Lonesome.
Digamos, para simplificar, que se redesenha aqui uma ponte com os tempos heróicos de Exile on Main St (1972), mostrando que a permanência dos Stones se faz de uma fidelidade às raízes, fidelidade que, através do seu carácter genuíno, não cede a nenhum cliché revivalista. Da ficha de Exile, permanecem três nomes, Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts, agora na companhia de Ronnie Wood; já distantes desta história ficaram Mick Taylor e Bill Wyman. Entretanto, entre os convidados do novo álbum, em dois temas, está Eric Clapton.
Uma das pérolas de Blue & Lonesome chama-se Ride 'Em On Down e foi gravada em 1955 por Eddie Taylor. Na verdade, trata-se de um blues composto em 1937 por Bukka White, com o título original Shake 'Em On Down, gravado ao longo dos anos por diversos artistas, em versões com maiores ou menores transformações — uma versão dos Led Zeppelin, datada de 1970, intitula-se Hats Off to (Roy) Harper. Agora, Ride 'Em On Down surge abrilhantado pela presença de Kristen Stewart, em cenários de Los Angeles, numa deambulação exuberante, nostálgica q. b., a que não falta a geométrica elegância um Ford Mustang, modelo dos anos 60.

5 filmes de Visconti (2/2)

SENSO (1954)
Grande acontecimento na área do DVD: a edição das suas cinco primeiras longas-metragens de Luchino Visconti — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Novembro), com o título 'O drama e o melodrama segundo Luchino Visconti'.

[ 1 ]

De melodrama, justamente, é preciso falar a propósito de Belíssima, um dos momentos mais lendários na carreira de Anna Magnani (1908-1973). Na altura, ela era já uma figura nuclear do imaginário cinéfilo italiano, em especial através de Roma, Cidade Aberta. Senhora de uma energia plena de contrastes emocionais, dir-se-ia uma diva da ópera, exuberante e excessiva, mas sempre fiel à verdade mais íntima das personagens do povo.
Em Belíssima, Magnani interpreta uma mulher empenhada em lançar a filha no mundo dos filmes, para tal levando-a aos estúdios da Cinecittà para fazer um teste. Para além da ironia crítica face à produção italiana da época, o filme mantém uma perturbante actualidade pelo modo como expõe a contaminação do espectáculo pelas ilusões da fama e riqueza.
O filme seguinte, Sentimento, tendo por pano de fundo a unificação da Itália (e, em particular, a guerra com a Áustria, em 1866), ilustra uma certa “imagem de marca” de Visconti. A saber: a capacidade de combinar o fresco histórico com as subtilezas melodramáticas ligadas à constituição de um par — neste caso, os míticos Alida Valli e Farley Granger.
O quinto título desta edição, Noites Brancas, menos divulgado, pode constituir uma revelação para muitos espectadores. Com Maria Schell e Marcello Mastroianni, trata-se da adaptação de um conto de Dostoievski (que estaria também na base de Quatro Noites de um Sonhador, realizado pelo francês Robert Bresson em 1971). Acima de tudo, ilustra uma visão do ser humano, por certo marcado pela história colectiva, mas sempre em confronto com uma solidão radical, porventura sem solução. Nessa perspectiva, talvez se possa dizer que Visconti foi um céptico em que a sofisticação formal coabita com o desencanto moral.

domingo, dezembro 04, 2016

A IMAGEM: Patrick Chappatte, 2016

PATRICK CHAPPATTE
'O paraíso comunista'
2016

Saturday Night Live: os "tweets" de Trump

No programa Saturday Night Live (NBC), a caricatura de Donald Trump por Alec Baldwin tornou-se um acontecimento regular e, em boa verdade, nacional — uma espécie de salutar virose made in USA. Eis o exemplo mais recente, centrado na utilização obsessiva do Twitter pelo presidente eleito dos EUA.

"Lord Let It Rain on Me" [canções]

SPIRITUALIZED
Lord Let It Rain on Me
Amazing Grace (2003)


Laura Marling, sempre feminina

FOTO: Hollie Fernando
A inglesa Laura Marling vai lançar o seu sexto álbum de estúdio, Semper Femina, em Março de 2017. Pela primeira amostra, mantendo um tom de intimidade conjugado no feminino, como o título sublinha, aberto a todos os circuitos, ambiguidades e revelações de todos os desejos: assim é o primeiro single, Soothing, e o respectivo teledisco — para Marling, é também a sua estreia na realização.

sábado, dezembro 03, 2016

Zemeckis + Pitt + Cotillard (1/2)

Marion Cotillard, Brad Pitt e Robert Zemeckis
Subitamente, com assinatura de Robert Zemeckis, um grande retorno aos valores do melodrama de guerra — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Novembro), com o título 'Melodrama de guerra renasce com Brad Pitt e Marion Cotillard'.

Será que neste nosso admirável mundo global até mesmo um filme como Casablanca, realizado por Michael Curtiz em 1942, já começou a ser desconhecido da maior parte dos espectadores? A pergunta não é banalmente nostálgica, mas visceralmente cultural. A saber: será que até mesmo a nobreza clássica de Hollywood está a ser esmagada por uma noção de cinema popular que se esgota em Harry Potter e seus companheiros mais ou menos monstruosos? Vem isto a propósito de alguém, Robert Zemeckis, que arrisca, precisamente, fazer um filme como Aliados [Allied], evocando e invocando a grande tradição do melodrama de guerra de que Casablanca continua a ser, apesar de tudo, o símbolo mais universal.
Para evitar confusões, Zemeckis situa mesmo a primeira parte do seu filme em... Casablanca! Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não passam de uma memória inacessível, mas o seu simbolismo romântico surge revisitado por um novo par, Brad Pitt e Marion Cotillard, vivendo também uma aventura em que a frieza dos jogos de espionagem se combina com as intensidades do impulso amoroso.
Digamos, para simplificar, que se trata da história de um par assombrado. Max Vatan (Pitt) é um oficial canadiano que recebe a missão de assassinar o embaixador alemão em Casablanca, para tal contando com a colaboração de Marianne Beauséjour (Cotillard), das fileiras da Resistência francesa. Missão cumprida, apaixonam-se e vão viver para Londres até que, um dia, já casados e com uma filha, ainda sem se vislumbrar o fim da guerra, Max é informado pelos serviços britânicos de que há suspeitas de Marianne ser uma espia alemã...
No seu esquematismo, este resumo limita-se a corresponder à imagem promocional de Aliados (as peripécias referidas coincidem com as que estão no respectivo trailer). Como qualquer sinopse do género, pouco ou nada nos diz sobre a riqueza dramática do filme. Convém referir, a esse propósito, que Zemeckis contou com a colaboração essencial de um argumentista tão talentoso como o inglês Steven Knight que escreveu, por exemplo, Estranhos de Passagem (Stephen Frears, 2002) ou Promessas Perigosas (David Cronenberg, 2007), tendo também realizado o magnífico Locke (2013), em que Tom Hardy interpretava uma personagem solitária, ao telefone, a conduzir o seu automóvel [entrevista: 1 + 2].
Aliados pode definir-se como uma odisseia sobre as formas de coexistência de verdade e mentira, do desejo e das suas máscaras. Isso é particularmente importante logo no capítulo inicial, em Casablanca, com Max e Marianne a encenarem a relação romântica das suas personagens fictícias (observem-se as cenas no terraço, à noite, em que sabem que a vizinhança espreita os seus beijos e abraços). Tal encenação confunde-se já com a sua própria história de amor, ilustrando essa íntima crueldade que alguém definiu dizendo que “o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”.

O quadro de Nuno Espírito Santo

FOTO: Fábio Poço / DN
A. Há qualquer coisa de comovente vulnerabilidade na postura mediática do treinador do F. C. Porto. Por duas vezes, primeiro na sequência da vitória sobre o Arouca, depois antecipando o jogo com o Sp. Braga, Nuno Espírito Santo achou por bem recorrer a um já célebre quadro para explicar os seus conceitos de jogo. Da última vez, começou mesmo por dizer: "Eu sei que isto vai ser motivo de brincadeira, crítica e análise..."

B. Não tenhamos dúvidas que, como Nuno Espírito Santo refere, se trata, para ele, de uma "coisa séria". Mais do que isso: que ele o faz por cristalina convicção. Acontece que as leis figurativas do ecrã televisivo nem sempre são muito simpáticas com as convicções... O que desconcerta é o facto de ele não se aperceber que está a entrar em terreno mediaticamente pantanoso — entenda-se: automaticamente sujeito a um processo de caricatura televisiva.

C. Porquê? Desde logo porque Nuno Espírito Santo não preparou aquilo que faz no seu quadro: falta aos seus gatafunhos o mais básico valor da transparência informativa. Mas também porque o espaço televisivo há muito formatou as intervenções a que atribuiu valor professoral, a começar pelos discursos dos comentadores do futebol. Podem esses comentadores gastar horas infinitas a insultarem-se de modo absolutamente degradante — os sistemas de linguagem televisiva não reagem, não interrogam, não se questionam sobre a pertinência social e ética daquilo que transmitem. Pelo contrário, um treinador de futebol a rabiscar um quadro está condenado a ser, malgré lui, um incauto "apanhado".

"A Fine Romance" [canções]

SAMMY DAVIS, JR. & CARMEN McRAE
A Fine Romance
Boy Meets Girl (1957)


sexta-feira, dezembro 02, 2016

A IMAGEM: Irving Penn, 1950

IRVING PENN
Lisa Fonssagrives
Vogue, 1950

O Natal de Irina Shayk

1. No começo do mês de Dezembro do ano da graça de 2016, a cerca de três semanas do Natal, esta é, seguramente, a imagem mais presente no nosso quotidiano.

2. Eventualmente, o espectador de rua (que todos somos) poderá ser impelido a ler ou reler A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamin, tentando compreender como a questão da repetição potencialmente infinita das imagens transcendeu o espaço tradicional daquilo a que aprendemos a chamar “arte” — a ocupação selvagem do quotidiano, no limite, por uma única imagem, passou a ser a primeira e decisiva arma bélica da publicidade e dessa sua derivação corporativa que é o marketing.

3. Outra hipótese, por certo menos exigente, e incomparavelmente mais deprimente, será procurar a explicação do que está a acontecer na tristeza jornalística da imprensa “cor-de-rosa” — corremos o risco de ficar a saber que a protagonista do anúncio “esbanja ousadia”.

4. Claro que não é simples pensar tudo isto. Quando a “ousadia” se mede pelos centímetros de pele nua (seja de quem for, mas é quase sempre uma mulher), o mínimo que se pode dizer é que a cultura dominante instrumentalizou a singularidade do corpo, reduzindo-o a “gadget” de uma visão do mundo em que a nudez foi estupidamente eleita como signo máximo (porventura único) de “ousadia”, “sensualidade” e, last but not least, de uma compulsiva identidade feminina.

5. Uma coisa é certa: para a população portuguesa em geral, o Pai Natal de 2016 confunde-se com a pose incauta, ma non troppo, de Irina Shayk — sendo a condição de "ex-namorada de Cristiano Ronaldo" uma espécie de título honoris causa que, para alguns discursos jornalísticos do nosso tempo, envolve a pertença a uma incontestada e incontestável aristocracia mediática.

6. Como falar desta conjuntura escapando à ditadura comunicacional segundo a qual a nudez existe como revelador de uma transcendência que, em última instância, visa a anulação simbólica de qualquer discurso que tente pensar a pluralidade dos seus contextos? Ou ainda: como combater a ignorância histórica e estética segundo a qual o nu é uma forma de representação sempre igual, sempre "ousada", condenando-nos a uma "sensualidade" unilateral e unívoca?

7. Escusado será dizer que importa resistir ao moralismo reinante segundo o qual é obrigatório distinguir os nus “puros” dos nus “impuros”. Neste caso, optando pelo mais prudente minimalismo filosófico, trata-se, isso sim, de reconhecer que todos aqueles que exaltarem a pureza bíblica da quadra — em particular tentando transmitir os respectivos valores às suas crianças — depararão com um problema suplementar, patrocinado pelos intelectuais do marketing. A saber: como enquadrar a exuberância visual da lingerie nos valores ancestrais do nosso comovente espírito natalício?

5 filmes de Visconti (1/2)

OBSESSÃO (1943)
Grande acontecimento na área do DVD: a edição das suas cinco primeiras longas-metragens de Luchino Visconti — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Novembro), com o título 'O drama e o melodrama segundo Luchino Visconti'.

O mínimo que se pode dizer da herança cinematográfica de Luchino Visconti (1906-1976) é que não é possível fazer a história da modernidade no cinema europeu sem passar pela sua obra. Daí o significado e a importância do regresso de alguns dos seus títulos fundamentais ao mercado do DVD. Trata-se, em boa verdade, do capítulo fundador da sua obra, mais exactamente das suas primeiras cinco longas-metragens: Obsessão (1943), A Terra Treme (1948), Belíssima (1951), Sentimento (1954) e Noites Brancas (1957).
Ver ou rever tão invulgar e sedutor quinteto de filmes envolve uma importante reafirmação da paradoxal importância histórica do seu trabalho. A saber: Visconti foi, obviamente, um nome indissociável das glórias do neo-realismo italiano, a par de Roberto Rossellini (1906-1977) ou Vittorio De Sica (1901-1974); afinal de contas, ao assinar A Terra Treme, saga de uma família de pescadores numa pequena povoação da Sicília, a sua visão não pode ser separada dos valores temáticos e estéticos que conduziram os neo-realistas a construir um corpo de ficções, sempre tocadas por componentes documentais, sobre o sofrimento do povo italiano. Ao mesmo tempo, porém, tal experiência narrativa constitui, não a regra, mas a excepção na trajectória criativa de Visconti.
O ziguezague inicial da sua filmografia é revelador. Assim, é óbvio que A Terra Treme mantém uma relação de cumplicidade com títulos emblemáticos do neo-realismo como Roma, Cidade Aberta (Rossellini, 1945) ou Ladrões de Bicicletas (De Sica, 1948). O certo é que Visconti começara antes, com Obsessão, nada mais nada menos que uma adaptação do romance O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, de James M. Cain, que viria a ser filmado nos EUA, em 1946, por Tay Garnett, com Lana Turner e John Garfield nos papéis principais (a primeira adaptação do romance ocorrera em França, em 1939, numa realização de Pierre Chenal, com o título Le Dernier Tournant).
Esta “antecipação” romanesca de Visconti sempre gerou uma paradoxal contextualização histórica. Assim, é verdade que Obsessão surge muitas vezes citado como um título fundador do neo-realismo, em especial pela sua austeridade visual e dramática, sublinhada pela delicadeza emocional do par central — Clara Calamai e Massimo Girotti —, muito distante de qualquer conceito clássico de glamour. Mas não é menos verdade que o olhar de Visconti está longe de se satisfazer com a frieza dessa dimensão, procurando antes uma vibração melodramática que, afinal, irá pontuar alguns dos momentos fulcrais da sua evolução.