quinta-feira, janeiro 19, 2017

O anti-cinema do IMDb

1. A notícia surgiu na página de entrada do site IMDb e, embora proveniente de The Wrap, tem a ver com o próprio IMDb. A saber: há uma onda de indignação visando o filme A Dog's Purpose, de Lasse Hallström. Na sua origem está um video de rodagem em que se vê um dos cães que participaram no filme, resistindo à ordem do seu treinador para entrar num tanque de águas agitadas... a ponto de a PETA ter denunciado a situação, considerando que o animal surge aterrorizado.

2. Não creio que o meu respeito pelo mundo dos cães seja incompatível com a ideia de que, neste caso específico, a PETA (instituição admirável na defesa da vida e da dignidade dos animais) confunde os seus valores com um fundamentalismo beato que não beneficia, sequer, o conhecimento e compreensão do universo animal. Aliás, embora secundarizando o facto, a notícia integra um comunicado da produtora (Amblin), reiterando o seu empenho em garantir um bom ambiente de rodagem para os animais — concluindo que o cão em causa está "feliz e de boa saúde". Em todo o caso, não me custa admitir e respeitar o facto de haver pessoas que se sintam chocadas com aqueles breves segundos de imagens (aliás, totalmente descontextualizadas). Tudo bem — mas não é isso que estas linhas discutem.

3. O que está em causa é o fulcro da notícia. A saber: terá sido por causa de tais imagens que A Dog's Purpose está a ser condenado pelos visitantes inscritos [users] do IMDb. Mais concretamente: nas classificações ao filme, uma maioria esmagadora (94%) classificou-o com nota 1 (em 10 pontos possíveis).

4. É referido que ainda falta cerca de uma semana para o filme estrear nos EUA, mas ninguém parece preocupar-se muito com isso (creio que é óbvio que também não o vi). Aliás, o site The Wrap, uma das referências mais fortes na abordagem independente de Hollywood, parece mesmo não ter problemas profissionais ou éticos para considerar que qualquer um dos heróicos votantes, apenas porque colocou lá um numerozinho, está a fazer... crítica de cinema. Numa nota de total irresponsabilidade jornalística, designam mesmo tais votantes por "críticos de cinema amadores". Como???

5. Como se isto não bastasse, a notícia "esquece-se" de identificar a impressionante dimensão desse exército de espectadores/críticos. Entre os muitos milhões de que o IMDb se gaba de ter consigo (e ninguém duvida de tal dimensão), quantos milhões estarão a gerar esta condenação de A Dog's Purpose... por mero acaso, antes mesmo de terem podido ver o filme?

6. Hélas! As tropas anti-A Dog's Purpose talvez consigam esgotar duas ou três sessões de um grande multiplex... De facto, temos de louvar o rigor aritmético do IMDb. A meio da tarde deste dia 19, ficamos a saber que os votantes neste filme são 1497... E que, entre eles, 1408 acharam por bem avaliar um filme que não viram com a nota "1" (em boa verdade, de todos os 1497, ninguém conhecerá o objecto em causa).
7. A Dog's Purpose poderá ser muito "bom" ou muito "mau". Não é isso que está em causa. É, isso sim, este primarismo anti-cinema que o IMDb acolhe e glorifica. Como é possível que 1408 pessoas tenham poder para condicionar desta maneira a vida de um filme (que não viram)? A resposta é simples: estamos perante a estupidez "social" que a Internet (através de notícias como a que The Wrap achou por bem publicar) pode favorecer, concretizar e promover — é a mesma lógica que faz com que um clube de futebol esteja "em crise" porque, de repente, alguma televisão decide fazer um directo com 20 adeptos (?) aos gritos à porta do respectivo estádio...
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NOTA: entretanto, se o leitor quiser descobrir um interessante filme "médio", vale a pena seguir as pistas "científicas" do IMDb. Por hipótese, um sólido filme com média de 6,5 pontos... O que, convenhamos, não é nada mau: como decidir entre o musical Do Fundo do Coração (1981), de Francis Ford Coppola, e Os Mercenários (2010), de e com Sylvester Stallone, acompanhado por Jason Statham, Jet Li e Dolph Lundgren?... Escolha difícil, sem dúvida, embora valha a pena lembrar que houve 277.516 "críticos de cinema amadores" que votaram em Stallone & Cª.; Coppola é um desastre, claro, tendo mobilizado apenas 3.913 votantes.

Silêncio + Scorsese (1/3)

Martin Scorsese durante uma conversa sobre Silêncio,
na Escola Preparatória Fordham (Bronx, Nova Iorque)
* FOTO: jesuits.org
A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

1. Adaptando Shusaku Endo

Não é todos os dias que um filme consegue escapar às rotinas instaladas no mercado, sejam elas de natureza promocional, sejam induzidas pelo alarido mediático. Silêncio, de Martin Scorsese, é um desses filmes (estreia dia 19): um objecto obstinado e obsessivo, alheio a tendências, modas ou estilos ditados por factores exteriores ao seu próprio pensamento — aí residirá, afinal, o seu espantoso apelo universal.
Há em Silêncio uma dimensão genuinamente portuguesa que não pode deixar de nos tocar. Inspirado no romance homónimo do japonês Shushaku Endo, lançado em 1966 (editado entre nós pela Dom Quixote), o filme centra-se na odisseia de dois padres jesuítas portugueses. Enviados ao Japão na segunda metade do século XVII, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) têm por missão descobrir o paradeiro de Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) que, depois de torturado, terá renegado a sua fé. Essa sua apostasia — consumada através do pisar de uma “fumi-e” (imagem de Jesus Cristo ou de uma figura santificada) — envolve um desafio radical para a Igreja: como difundir a sua doutrina em território asiático? Mais do que isso, estamos perante uma questão subtilmente política: como lidar com o peculiar sistema de poderes e crenças da sociedade japonesa?
Para Scorsese, a adaptação do livro de Endo nunca foi uma banal tarefa de “reconstituição” histórica, muito menos a hipótese de fabricar um “blockbuster” habitado por heróis ou super-heróis. A sua relação com o romance foi mesmo vivida como uma saga introspectiva, inerente à reflexão sobre os caminhos da fé católica. De tal modo que a ideia de filmar Silêncio o acompanhou desde 1989, quando descobriu o romance, curiosamente em pleno Japão (onde se encontrava para interpretar a personagem de Vincent Van Gogh num dos episódios do filme Sonhos, de Akira Kurosawa).
A rodagem chegou a estar prevista para 2009, com os nomes de Daniel Day-Lews, Benicio Del Toro e Gael García Bernal a liderar o elenco. O certo é que Scorsese optou por concretizar Shutter Island (2010) e A Invenção de Hugo (2011), desse modo abrindo um conflito com os produtores italianos da Checci Gori Pictures, resolvido nos tribunais no começo de 2014 (através de um acordo cujos termos nunca foram divulgados). Pouco depois, foi decisiva a inclusão de Irwin Winkler na equipa de produção, ele que já estivera ligado a vários títulos de Scorsese, incluindo Touro Enraivecido (1980) e Tudo Bons Rapazes (1990). O essencial da rodagem viria a decorrer entre Janeiro e Maio de 2015, em Taiwan.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Madonna, Trump & etc.

ROXANE GAY: Enquanto artista, seja em cinema, música ou na escrita, considera o seu trabalho político?
MADONNA: Completamente.

Assim começa uma conversa entre Roxane Gay, jornalista da Harper's Bazaar, e Madonna, tema central da edição em que a revista comemora os seus 150 anos de publicação. Realizada poucos dias depois da vitória de Donald Trump, a entrevista faz o ponto da situação de uma trajectória que Madonna insiste em não reconhecer como acabada ou ilegítima. Faz mesmo questão em recusar lidar com as perguntas que insinuam que, tendo em conta a sua idade (completará 59 anos no dia 16 de Agosto), seria melhor reformar-se... "Alguém pergunta a Steven Spielberg porque é que continua a fazer filmes?".
O diálogo é pontuado por um magnífico portfolio, assinado por Luigi & Iango. Além do mais, num video produzido para a edição online [reproduzido aqui em baixo], Madonna relembra as ambivalências da beleza, através de palavras de F. Scott Fitzgerald.

Maria Cabral (1941 - 2017)

O CERCO (1970)
Com a morte de Maria Cabral, desaparece um dos rostos mais singulares (e simbolicamente mais importantes) da história do cinema português — este obituário foi publicado no Diário de Notícias (17 Janeiro).

São raros os nomes de actores portugueses que se tornaram conhecidos apenas através do cinema: Maria Cabral foi um desses nomes — faleceu no sábado, dia 14, em Paris, contava 75 anos. A notícia foi divulgada pela Academia Portuguesa de Cinema, no Facebook, definindo-a como “rosto e símbolo do Novo Cinema português”.
Esse valor simbólico é indissociável de um título fulcral na história da modernidade do cinema português: O Cerco (1970), retrato amargo e doce da Lisboa da época, em que António da Cunha Telles arriscou dar o protagonismo a alguém que era, afinal, uma quase desconhecida. Aliás, a escolha de Cunha Telles — que já tinha produzido, por exemplo, Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1962) e Belarmino (Fernando Lopes, 1964) — pode também simbolizar um princípio, ao mesmo tempo estético e humano, também ele essencial para compreendermos algumas linhas de força das novas cinematografias que se afirmavam nos mais diversos contextos geográficos e culturais: tratava-se, de facto, de contrariar a lógica mais tradicional (privilegiando os intérpretes com formação teatral), optando por presenças capazes de garantir uma relação virginal com a câmara, porventura mais espontânea ou genuína.
Ainda nos anos 50, tinha apresentado programas infantis na RTP. Mais tarde, participou numa curta-metragem de João César Monteiro que não chegou a ser concluída. Numa entrevista dada à RTP, por altura do lançamento de O Cerco, Maria Cabral citava também os seus anteriores trabalhos como modelo de publicidade, dizendo mesmo: “Por estranho ou esquisito que pareça, não percebo nada de cinema do lado de trás da câmara”. Afinal, tinha gostado da experiência por causa daquilo que acontece “à frente da câmara”. Daí a eterna pergunta: num contexto em que o cinema tivesse outra consistência industrial e, sobretudo, oferecesse aos seus profissionais uma maior segurança de trabalho, a trajectória cinematográfica da actriz teria sido diferente?
Provavelmente, sim. O certo é que, na altura, Maria Cabral apenas participou em mais um filme: O Recado (1972), de José Fonseca e Costa, narrativa parabólica sobre a repressão da PIDE, marcada por um desencantado romantismo, outro momento emblemático da produção portuguesa pré-25 de Abril. Ao longo dos anos 70, optou por trabalhar em teatro, em Paris, regressando a Portugal, em 1981, com Miguel Yeco, para apresentar uma peça no AR.CO.
Em meados da década de 80, rodou ainda três filmes em anos consecutivos: Vidas (1984), de novo sob a direcção de Cunha Telles, agora expondo as clivagens geracionais no Portugal pós-25 Abril; No Man’s Land (1985), um pequeno papel numa realização de Alain Tanner, autor central do Novo Cinema suíço; e Um Adeus Português (1986), visão austera das feridas da Guerra Colonial com assinatura de João Botelho.
Nascida em Lisboa, Maria Cabral fez o liceu em Luanda e estudou Filosofia na Faculdades de Letras de Lisboa. O Cerco bastaria para lhe conferir um lugar especial na história e na iconografia do cinema português.

O piano de Sampha

Coisa séria: Sampha, músico britânico que já trabalhou com Drake, Solange ou Kanye West (na qualidade de compositor, produtor, voz convidada), vai lançar um primeiro álbum intitulado Process. As suas raízes electrónicas envolvem cruzamentos com o R&B, por vezes recompostos através da austeridade de um piano algo "metalizado" — para já, aqui fica o som eloquente de uma bela canção com um título sintomático: (No One Knows Me) Like The Piano.

terça-feira, janeiro 17, 2017

SILÊNCIO, de Martin Scorsese
> conversa na FNAC — hoje

Silêncio, de Martin Scorsese, é assunto de conversa, hoje na FNAC do Chiado, com a participação de Leonídio Ferreira (subdirector do Diário de Notícias) e Nuno Galopim, com moderação de João Lopes — hoje, dia 17, 19h00.

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Jessica Chastain, politicamente

Uma magnífica surpresa nas primeiras estreias do ano: centrado numa notável interpretação de Jessica Chastain, Miss Sloane apresenta uma visão contundente dos bastidores da política — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Janeiro), com o título 'Jessica Chastain na selva política de Washington'.

Será que o fantasma de Bette Davis (1908-1989) reencarnou em Jessica Chastain? Ao vermos Miss Sloane, a pergunta adquire um sugestivo simbolismo. A personagem de Chastain — Elizabeth Sloane, uma figura de maquiavélica inteligência dos lobbies da cena política de Washington — parece reeditar para os espectadores do século XXI esse movimento de sedução e perversidade que Davis encarnou em clássicos como Jezebel, a Insubmissa (William Wyler, 1939) ou Eva (Joseph L. Mankiewicz, 1950). No seu misto de luminosidade e negrume, a performance de Chastain envolve qualquer coisa de radical, a colocar a par dos momentos mais altos da sua carreira em títulos como A Árvore da Vida (Terrence Malick, 2011), 00:30 A Hora Negra (Kathryn Bigelow, 2012) ou Miss Julie (Liv Ullmann, 2014).
A actriz convoca-nos através de um cliché automaticamente reconhecível: a mulher poderosa no interior de uma selva dominada por personagens e valores masculinos (daí resulta, aliás, o não muito feliz subtítulo português: Uma Mulher de Armas). A pouco e pouco, faz-nos ver que qualquer dicotomia masculino/feminino será insuficiente para compreender a lógica interna daquele universo.
Que está, então, em jogo? Uma questão de perturbante actualidade. A saber: de que modo as convulsões do mundo político são realmente geridas pelos seus protagonistas, ou apenas geradas por “consultores” e “agências” peritos na criação de aparências mais ou menos maliciosas? Mais ainda: até que ponto a acção de muitos políticos se foi reduzindo à administração dessas aparências?
Se acrescentarmos que o principal assunto que mobiliza Sloane é a legislação sobre o acesso dos cidadãos a armas de fogo, poderemos entender a sua redobrada actualidade. Realizado por John Madden (assinou, em 1998, o “oscarizado” A Paixão de Shakespeare), este é, afinal, um filme apostado em reavivar uma tradição narrativa em que o poder político não passa apenas pelas imagens (ou pelas plataformas audiovisuais, como agora se diz), mas também pelo valor primordial das palavras.
Daí que seja fundamental destacar o brilhante argumento de Miss Sloane, por certo um dos melhores da produção de 2016. É seu autor um principiante, de nome Jonathan Perera, que começou por ser advogado — de origem britânica, tentou uma carreira de professor de inglês na China e na Coreia do Sul, aí descobrindo o seu gosto de escrever... para cinema.
Na sofisticada elegância com que trata os diálogos, Jonathan Perera parece ser um discípulo de Aaron Sorkin, criador da série Os Homens do Presidente (1999-2006), vencedor de um Oscar com o argumento de A Rede Social (David Fincher, 2010). Mais do que isso: na sua arte de expor as ambivalências do poder através da tragédia das palavras, Perera afirma-se como um herdeiro directo do teatro e do cinema de David Mamet. Se quisermos romancear tudo isto, ma non troppo, podemos lembrar que, para rodar o filme Wild Salomé (2011), de e com Al Pacino, Chastain teve de desistir de uma hipótese de trabalho, em televisão, com... David Mamet. E também que, por esta altura, ela está a rodar Molly’s Game, escrito e dirigido por... Aaron Sorkin.

domingo, janeiro 15, 2017

Cate Blanchett x 13

Em 2015, na Nationalgalerie (Berlim), o artista alemão Julian Rosefeldt apresentou uma obra videográfica intitulada Manifesto. Nos ecrãs da instalação, uma mesma actriz, Cate Blanchett, lia extractos de alguns dos mais marcantes manifestos da história da política e das artes — Karl Marx, Tristan Tzara, Alexander Rodtschenko, Guy Debord, André Breton, etc.
Agora, Manifesto é o título de um filme montado, precisamente, a partir dos videos da instalação — com metódica exuberância, o trailer anuncia-nos uma Cate Blanchett repartida por nada mais nada menos que 13 personagens. A estreia ocorrerá no Festival de Sundance (19/29 Jan.).

Debussy... em San Francisco



Profundo admirador de Claude Debussy (1862-1918), o maestro norte-americano Michael Tilson Thomas – que é atualmente o diretor artístico da San Francisco Symphony, orquestra que, além das gravações de Beethoven e Mahler, tem vindo a criar através da sua SFS Media uma das mais estimulantes discografias recentes com registos da música para orquestra do século XX – dedica um dos melhores discos deste ano a um conjunto de obras orquestrais do compositor francês.

Já com importantes edições dedicadas a Debussy em Le martyre de St. Sebastien (gravado pela Sony Classical em 1993 com a London Symphony Orchestra) e um trio de sonatas registadas em conjunto com elementos da Boston Symphony Orchestra (editado pela Deutsche Grammophon em 2007), neste seu novo disco com a San Francisco Symphony aborda obras compostas entre 1905 e 1913 (posteriores portanto às mais “emblemáticas”, e mais vezes gravadas, Prélude à l’après-midi d’un faune, de 1894, ou La Mer, de 1904 ), entre as quais sublinha a riqueza e complexidade do trabalho para diversos instrumentos que estas peças convocam, mostrando a gravação como a orquestra tão bem depois as executa.

O tríptico Images (que corresponde a um conjunto de peças que surgiram num intervalo de tempo entre 1905 e 1912), o bailado Jeux (estreado em 1913 com uma coreografia de Nijinsky) e La Plus Que Lente (versão orquestrada de uma peça para piano estrada de 1910) fazem o alinhamento de um disco que confirma no maestro e na orquestra uma referência do nosso tempo que não se esgota apenas nas aclamadas abordagens a Mahler (como chegámos a ver há poucos anos na Gulbnekian), nem nos grandes compositores contemporâneos norte-americanos . E aqui vale a pela recordar que obras como West Side Story de Leonard Bernstein e Harmonielehre, de John Adams, tiveram recentemente na SFS Media, por Tilson Thomas e a San Francisco Symphony, gravações de primeiríssima linha.

sábado, janeiro 14, 2017

Pensar com Hannah Arendt

Este é um país em que o grande debate moral se organiza em torno dos... árbitros de futebol. Quem sabe da existência de um filme sobre Hannah Arendt — este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Janeiro), com o título 'Ainda sabemos parar para pensar?'.

A estreia do documentário Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt, realizado pela cineasta israelita Ada Ushpiz, é um pequeno grande acontecimento a que vale a pena regressar para além da missão rotineira de fazer a sua “crítica”. Porquê? Porque se trata de um filme empenhado em informar sobre o pensamento plural de Arendt, nunca abdicando de o inscrever no seu multifacetado contexto histórico e intelectual. Mas também porque através dele podemos detectar os eventuais equívocos do muito propalado retorno dos documentários ao circuito comercial do cinema (sendo eu um entusiasta desse retorno, devo admitir que posso ser também um dos mais directamente atingidos por tais equívocos).
Aqui está, de facto, um filme carregado de ideias e problemas que apelam à discussão. Por ele circulam assuntos que marcaram toda a existência, pública e privada, de Arendt — desde a célebre e sempre polémica noção de “banalidade do mal”, enunciada a partir do julgamento do nazi Adolf Eichmann em Jersusalém, até à questão moral e política da coexistência do Estado de Israel com os seus vizinhos árabes, passando pelo seu envolvimento com Martin Heidegger.
E a pergunta que emerge é esta: porque é que um filme como este não surge na linha da frente das discussões mais mediatizadas? Não é uma pergunta idealista. É apenas uma pergunta suscitada por dicotomias impossíveis de ignorar. Exemplo? Apenas um: o país real não discute Hannah Arendt (a maior parte dos cidadãos ignora mesmo a existência deste filme), mas esse mesmo país está (e vai continuar a estar) ocupado pelos debates morais, conceptuais e não sei que mais sobre... a arbitragem no futebol.
Não caricaturemos. E, sobretudo, evitemos ceder à ilusão pueril de que a discussão de um pensamento tão e rico e complexo como o de Arendt pode ser assunto global, igualmente partilhado por todos os cidadãos. O que aqui tento identificar é de outra natureza, está antes deste filme. A saber: a crescente impotência de muitos objectos cinematográficos gerarem a troca de ideias cujo desejo está, afinal, inscrito na sua própria gestação.
A própria Arendt reconhecia que a dificuldade de um pensamento não estava tanto na sua transmissão, mas na convocação do outro (e este outro era, para ela, qualquer cidadão, independentemente da sua formação académica ou condição social) como um ser humano capaz de pensar. “Parar para pensar”, dizia ela. Ou será que, distraídos do cinema, passámos a confundir a velocidade televisiva com o próprio pensamento?

sexta-feira, janeiro 13, 2017

O rock segundo Donald Trump

Assim vai o mundo. Os 3 Doors Down, banda de Escatawpa, Mississippi, estavam condenados a ser apenas a "enésima" variação sobre um modelo de hard rock que nem consegue imitar os Guns N'Roses, ignorando mesmo os Deep Purple e tudo o que possa ser memória do género. Já foram mesmo citados como recorrentes candidatos a "pior banda do mundo" — exemplo aqui em baixo com In the Dark, do seu mais recente álbum, Us And The Night (observe-se, além do mais, a sensibilidade rastejante com que é grotescamente encenada a dicotomia masculino/feminino).
Agora, os 3 Doors Down deram entrada na história mais geral da cultura política deste nosso atribulado século XXI: de acordo com as mais recentes notícias [Rolling Stone], estarão no concerto de celebração da tomada de posse de Donald Trump, a par, por exemplo, dos cantores country Toby Keith e Lee Greenwood, e do actor Jon Voight (?). Isto depois de o Presidente eleito se ter confrontado com recusas de Elton John, KISS e Celine Dion... Para já, ficamos com uma certeza: durante quatro anos, a Casa Branca vai empenhar-se em alhear-se das dinâmicas da cultura pop.

"Night and Day" [canções]

RINGO STARR
Night and Day
Sentimental Journey (1970)