terça-feira, outubro 27, 2020

Miley Cyrus "vs" Pearl Jam

Sem ofensa — e se Miley Cyrus fosse, antes de tudo o mais, uma invulgar intérprete de "covers"? Seja qual for a resposta, importa escutar as suas recriações nas chamadas Backyard Sessions da MTV (com o canal da música, pelo menos por alguns momentos, a distanciar-se dos horrores da "reality TV" e do divertimento acéfalo). Eis uma esclarecedora ilustração do seu poder de transfiguração face às canções de outros: Just Breathe, tema do álbum Backspacer (2009), dos Pearl Jam, até agora "impossível" de imaginar de outro modo que não fosse na voz de Eddie Vedder.

sexta-feira, outubro 23, 2020

Mulheres, homens e porcos

Mathilde van Gheluwe
Libération, 22-10-2020


Alguma sensibilidade feminista (transversal entre mulheres e homens) gosta de sustentar o seu discurso através de uma equivalência simbólica entre porcos e homens. A mensagem é: os homens que assediam e agridem mulheres comportam-se como porcos.
Eis um exemplo inequívoco: para ilustrar um artigo sobre violências sexuais no mundo dos restaurantes, o jornal francês Libération publica um desenho em que, numa cozinha, uma mulher isolada é agressivamente contemplada por alguns homens/porcos. Curioso impensado: para denunciar o horror dos desmandos machistas, há um jornalismo "purificador" que dispensa qualquer reflexão sobre as formas de representação da Natureza.
Seria interessante promover um inocente exercício de especulação filosófica, perguntando ao mesmo discurso feminista como interpretaria uma qualquer situação social em que, em nome de um discurso igualmente "purificador", deparássemos com a possível representação de personagens femininas em figuras de porcas.
E, já agora, pensando em opiniões de outra área de militância, seria igualmente interessante escutar algum tipo de reflexão dos vegetarianos.
Enfim, seria, sobretudo, pertinente que cada um se dispusesse a pensar a responsabilidade inerente a qualquer linguagem.

domingo, outubro 18, 2020

Thurston Moore: um ensaio

62 anos. A idade faz parte do bilhete de identidade da música? Talvez não. O certo é que, alheio à teimosia do calendário, Thurston Moore continua a ser o mais brilhante herdeiro dos Sonic Youth... Ah, pois. O seu novíssimo álbum, By the Fire, tem tudo o que tal património celebra e transporta, serenamente servido em avalanches de reinvenção — electricidade, poesia, uma desencantada arte da contemplação.
Em Londres, Moore abriu as portas de um ensaio com os seus músicos à revista Rolling Stone. Resultado: três variações/digressões em torno de temas de By the Fire: Hashish, Siren e Locomotives. Na companhia de James Sedward (guitarra), Deb Googe (baixo) e Jem Doulton (bateria).

sexta-feira, outubro 16, 2020

Nova Iorque na Antena 3

Nova Iorque, Nova Iorque, imagens e sons, cinema e música, imaginário e imaginação, história e mitologia — tudo isso está no especial da Antena 3 assinado pelo Nuno: chama-se "Da noite para o dia", contando com participações de Isilda Sanches, Rui Miguel Abreu e do autor deste post. Em tom de complemento audiovisual (escutando, está explicado...), atrevo-me a acrescentar um objecto, novaiorquino, hélas!, que poderia ter como subtítulo: 'À procura da perfeição'.

Bebel Gilberto na NPR

Samba em cenário caseiro. Que é como quem diz: em mais uma edição dos novos 'Tiny Desk (Home) Concerts', impostos pela pandemia, Bebel Gilberto é a convidada da NPR. Deambulando por guitarra, teclados e percussão, com alguma vocalização, Chico Brown fornece o acompanhamento adequado para uma sessão minimalista com Cliché e Na Cara, temas do novo álbum Agora, concluindo com a evocação de Aganjú.
 

quinta-feira, outubro 15, 2020

Aventuras de Julião
no país das fotografias

Ao longo de mais de meio século, a trajectória criativa de Julião Sarmento passa pelas mais variadas formas de expressão, incluindo a fotografia. Novo exemplo: o livro Café Bissau, com imagens obtidas no período 1964-2017 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Outubro). 

Artista plástico, diz a Wikipedia. Evitemos o pecado da soberba, menosprezando essa paisagem informativa, literalmente sem fronteiras, em que vamos fazendo e desfazendo os limites do nosso conhecimento. Ainda assim, a expressão “artista plástico” aplicada a alguém como Julião Sarmento arrasta uma ironia, voluntária ou não, que envolve, precisamente, a ambígua “plasticidade” daquilo que a sua obra fascinante — desenhos, pinturas, colagens, instalações, filmes, etc. — nos dá a ver há mais de meio século. 
Isto porque Julião é um daqueles artistas (raros, convenhamos) cujo universo está longe de se esgotar na noção clássica segundo a qual as formas do seu labor “plástico” nos abrem as portas de uma visão, a sua visão, do mundo à nossa volta. Sim, claro que sim, tudo isso lá está. Mas não basta: há nele a utopia discreta, avessa a qualquer teoria fechada, de quem não pretende “reproduzir” o mundo. Qual o programa de trabalho, então? Ocupar esse mesmo mundo através da criação de um mundo alternativo, devorador do primeiro. 
É brutalmente simples. O que, bem entendido, só pode atrair as resistências correntes, muito na moda, segundo a qual o artista é aquele que cria a sua arte para nos convocar para vivermos “num mundo melhor”. Nada disso: o mundo melhor é a própria arte. Veja-se o maravilho Café Bissau, novíssimo livro de fotografias (edições Pierre von Kleist, Lisboa, 2020). 
Que está representado nas fotografias de Julião Sarmento? Pois bem, nada que ele nos diga. Porventura porque nada nos quer dizer, a não ser que a liberdade da palavra nos pertence. Dito de outro modo: não há identificações de “lugares”, “personagens” ou “histórias”. Não há legendas. Apenas uma austera cronologia: “Todas as fotografias deste livro foram tiradas entre 1964 e 2017”. 
Se quisermos ser académicos (a ordem envolve sabores que vale sempre a pena experimentar), diremos que as fotografias nos remetem para variantes mais ou menos codificadas: “paisagens”, “nus”, “animais”, etc. O certo é que por cada classificação que possamos apor a cada uma das imagens, não podemos deixar de sentir a sua insuficiência. Porquê? Porque o ângulo aberto de uma paisagem pode conter uma sensualidade que talvez só tivéssemos associado ao fragmento de um corpo. Porque uma fachada de muitos incidentes gráficos (por exemplo, do Café Bissau que dá o título ao livro) se transfigura em monumento apócrifo. Ou ainda porque a pose ensonada de um tigre parece conter as chaves de um enigma que nós, incautos humanos, nem sequer sabemos formular. 
As fotografias de Julião são a expressão de um universo pessoal riquíssimo, sempre disponível para a pluralidade do olhar e do pensamento. Ao mesmo tempo, há nelas a serenidade de objectos que também nos pertencem (ou podem pertencer), já que através delas experimentamos a aventurosa singularidade do nosso próprio olhar — saber que o meu olhar não se esgota no olhar do fotógrafo, eis um belo princípio estético. Podemos, talvez, aplicá-lo recuperando o voto do mestre japonês Kenji Mizoguchi, lembrando a importância de “lavar os olhos” entre dois olhares, de uma imagem para outra. Humildemente, experimentemos. 

segunda-feira, outubro 12, 2020

The Kills, "Little Bastards"

Lados B + raridades. Com um título programático: Little Bastards. Ou seja: The Kills estão de volta com uma colecção de coisas que ficaram pelo caminho. A edição chega a 11 de Dezembro, para já anunciada através de Raise Me (Demo) — preparem as fanfarras.


PS — a capa evoca a obra-prima dos Rolling Stones, Exile on Main St. (1972), até mesmo no local de inserção do nome da banda e do título, mas não parece que alguém se vá queixar.