segunda-feira, maio 25, 2020

Pandemia a preto e branco

As imagens não curam pandemias. Mas é um facto que todas as situações de crise ou catástrofe geram mecanismos de transformação das imagens e da nossa relação com elas. Nestes tempos de COVID-19, um dado a assinalar é o retorno do preto e branco. Por necessidade de um realismo mais primitivo? Talvez. Em qualquer caso, sinalizando a necessidade de ver e registar para lá das regras dominantes do imaginário televisivo — exemplo a ter em conta: a primeira página da edição de 25 de Maio do Libération.

domingo, maio 24, 2020

The New York Times: os nomes

Neste tempo de saturação de imagens, muitas vezes gerando uma dramática cegueira social e simbólica, a revalorização da palavra é uma questão cultural de todos os dias. A palavra que se diz, a palavra que se escreve. Nesta perspectiva, a edição de 24 de Maio do New York Times consuma um gesto exemplar: quando os EUA se aproximam do número de 100.000 mortos por coronavírus, o jornal faz uma primeira página (com continuação no interior) em que evoca os nomes de um milhar dessas vítimas — para lá das generalizações, estão as pessoas, cada uma diferente da outra.
Há cerca de duas semanas, esta obstinada demanda da verdade — The truth is essencial — foi mais uma vez sublinhada pelo jornal através deste video.

sábado, maio 23, 2020

Maria Velho da Costa (1938 - 2020)

Figura maior da literatura portuguesa das últimas seis décadas, Maria Velho da Costa faleceu no dia 23 de Maio, em sua casa, em Lisboa — contava 81 anos.
O nome da escritora ficou para sempre associado à publicação das Novas Cartas Portuguesas (1972), com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, obra que marca os tempos finais do Estado Novo, quer pela denúncia da moral pública e privada dominante, quer pela intransigente afirmação da identidade feminina. Em qualquer caso, nessa altura Maria Velho da Costa tinha já publicado O Lugar Comum (1966) e Maina Mendes (1969), afirmando-se como singularíssima voz de um romanesco em que a relação com as zonas mais secretas do comportamento humano surge indissociável de uma paciente reinvenção gramatical e simbólica da própria arte da escrita. Livros como Cravo (1976), Casas Pardas (1977), Lucialima (1983) ou Missa in Albis (1988) são outros exemplares modelares do seu labor.
Certamente não por acaso, a luminosidade "figurativa" da sua escrita fê-la gerar relações de cumplicidade com alguns cineastas. Encontramo-la, assim ligada a títulos dirigidos por João César Monteiro (Que Farei Eu com esta Espada?, Veredas e Silvestre, respectivamente de 1975, 1978 e 1981), Alberto Seixas Santos (A Rapariga da Mão Morta e E o Tempo Passa, de 2005 e 2011) e Margarida Gil (O Anjo da Guarda e Paixão, de 1998 e 2012).
Foi presidente da direcção da Associação Portuguesa de Escritores no período 1973-78; nesse cargo, a sua acção revelou-se decisiva na organização do primeiro Congresso de Escritores Portugueses, em Maio de 1975. Entre as distinções que recebeu, inclui-se, em 2002, o Prémio Camões.

>>> Os verbos são o que são e eu não sei ser morada pela linguagem e apenas o sabor e os sons dela passando aqui como comida variável por temperos de cada dia.

in Cravo

>>> Programa da RTPN (2011), sobre a reedição de Novas Cartas Portuguesas.


>>> Fragmento de Casas Pardas, por Lia Gama, no documentário Fátima de A a Z (2009), de Margarida Gil.


>>> Trailer de E o Tempo Passa.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

"Shining", 40 anos

Quando começa o filme Shining [video], vemos o "carocha" amarelo da família Torrance a atravessar deslmubrantes paisagens, a caminho do Overlook Hotel... Bem sabemos que o cenário os irá acolher num inusitado misto de estranheza e violência. Em qualquer caso, da primeiríssima vez que vimos aquelas imagens não pudemos deixar de experimentar uma suave perturbação — como escreveu um crítico francês, toda aquela serenidade e beleza envolvente faz-nos sentir que "algo vai mal".
Assim é a obra-prima de Stanley Kubrick: uma viagem por terrenos familiares, literalmente, que nos confronta com o assombramento do ser e as convulsões da identidade humana. Dizer que a sua actualidade temática e simbólica não só não se perdeu, como se reforçou, eis uma cândida evidência. Shining teve a sua estreia no dia 23 de Maio de 1980 — faz hoje 40 anos.

COVID-20
— um blog sobre o COVID-19

Para além das especificidades e, como é óbvio, da continuidade do SOUND+VISION, permito-me apresentar uma derivação pessoal, também em forma de blog — chama-se COVID-20.

sexta-feira, maio 22, 2020

Cannes: como defender o cinema?

Thierry Frémaux
O novo filme de Spike Lee não poderá estar em Cannes porque… não haverá Festival de Cannes. Para Thierry Frémaux, delegado-geral do certame, este é um bom momento para repensar o futuro do próprio cinema — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Maio), com o título 'A política de Cannes'.

Durante e, por certo, após a pandemia, vale a pena tentar enunciar algumas ideias programáticas para defesa dos filmes. Entenda-se: não apenas medidas transitórias para lidar com os dramas gerados pelo confinamento, antes ideias que possam contribuir para esclarecer e reforçar o futuro do cinema.
Eis oito princípios possíveis: “1) Repensar os circuitos de financiamento. 2) Proteger os criadores, reforçando os direitos de autor. 3) Fazer com que as plataformas estrangeiras contribuam significativamente para o financiamento do cinema francês e europeu. 4) Negociar arduamente com os GAFA (Google + Apple + Facebook + Amazon) para que a utilização das obras seja correctamente remunerada e os impostos pagos. 5) Combater a pirataria que é um crime cultural. 6) Reinstalar programas de cinema na escola. 7) Reflectir com as televisões sobre as suas obrigações, e também os seus deveres, para que contribuam ainda mais para a produção de obras que não sejam unicamente pensadas para o horário nobre. 8) Adaptar a cronologia dos media ao século XXI, para que cinema e audiovisual coabitem no interesse de todos, sem excluir ninguém.”
A referência ao “cinema francês e europeu” permite deduzir de onde provêm tais linhas programáticas — de França, claro. Mas não de um qualquer programa político. Onde estão, afinal, os políticos europeus (incluindo os franceses, criadores de um elaborado sistema de protecção do seu cinema nacional) que tenham enunciado princípios deste teor, com a mesma clareza e convicção?
Cada leitor terá a sua resposta. Digamos apenas que a apresentação de tais princípios provém de um lugar emblemático no mundo global do cinema, envolvendo a complexidade dos seus circuitos financeiros e o esplendor do seu património mitológico. A saber: o Festival de Cannes. Mais exactamente, são palavras de Thierry Frémaux, delegado-geral do certame (também director do Instituto Lumière, em Lyon), em entrevista à revista L’Obs, publicada no dia 11 de maio.
A entrevista serviu, antes do mais, para dar uma notícia que os cinéfilos tinham pressentido como inevitável: depois de vários adiamentos, a 73ª edição dos Festival de Cannes, marcada para esta altura (12-23 maio), foi cancelada. Não haverá sequer uma “versão” online do certame, já que, segundo Frémaux, um festival serve para “estarmos juntos”, abrindo a cada filme apresentado “uma aventura no grande ecrã”.
Estranhamente (ou não…), as sugestões programáticas de Frémaux geraram um eco débil, para não dizer nulo. E, no entanto, não é todos os dias que lemos ou ouvimos alguém a resumir com tal precisão o labirinto de temas e interrogações em que, aqui e agora, os filmes existem (ou não existem…). Lembrando a especificidade artística do cinema e, por isso, a importância da defesa dos respectivos postos de trabalho, Frémaux evoca mesmo a noção de povo sem que isso se confunda com tantas e tão fúteis formas de demagogia: “Temos de dar provas de pedagogia popular para que todos se comprometam na salvaguarda daquilo que tem um preço e um valor.”
Nada disto, entenda-se também, arrasta qualquer maniqueísmo “cultural” que acabe por ceder à estupidez “política” segundo a qual se trata de salvar a “pureza” europeia da “impureza” do cinema dos EUA. Ficamos, aliás, a saber curiosas notícias sobre o novo filme de Spike Lee, Da 5 Bloods, centrado num grupo de afro-americanos, veteranos do Vietname, já com 70 anos feitos, que decidem regressar aos cenários da guerra para esclarecer algumas pontas soltas das suas próprias memórias…
Produzido pela Netflix, o filme seria uma das grandes revelações do festival deste ano (extra-concurso, uma vez que Spike Lee iria assumir a presidência do júri oficial). O que, além do mais, nos leva a supor que o diferendo Cannes/Netflix — decorrente da resistência da plataforma de streaming a estrear muitos dos seus filmes nas salas escuras e dos consequentes protestos dos exibidores franceses — poderá estar a evoluir de forma interessante, “sem excluir ninguém”.
Para já, sabemos que Da 5 Bloods estará disponível na Netflix a partir de 12 de junho. E que, mais do que nunca, a “pedagogia popular” de Cannes merece ser pensada. Com as consequências políticas que tal pensamento implica.

quinta-feira, maio 21, 2020

Roger Waters: "Mother" a preto e branco

Afinal, as tensões entre Roger Waters e David Gilmour não estão sanadas — é uma história longa, contrastada, nem sempre edificante, que desembocou agora num video de Waters, lembrando que Gilmour não é "dono" dos Pink Floyd e que ele, embora tendo saído da banda em 1985, não pode ser rasurado da sua história [notícia: Rolling Stone].
Conflitos à parte, Waters deu-nos agora uma das mais belas peças musicais deste nosso confinamento: uma versão de Mother — do álbum The Wall (1979) —, além do mais parecendo projectar os impasses emocionais da canção no nosso assombrado presente. A preto e branco.

Mother should I build the wall?
Mother should I run for President?
Mother should I trust the government?
Mother will they put me in the firing mine?


quarta-feira, maio 20, 2020

Qual a relação do TikTok
com a herança de Walt Disney?

Que pensaria Walt Disney do TikTok? Se as viagens no tempo não acontecessem apenas nos filmes, seria interessante saber como o criador do Rato Mickey encararia as formas de grosseira manipulação a que, em nome da liberdade virtual, tem sido sujeita a sua querida personagem?
Eis algumas interrogações que se justificam face a uma curiosa e, por certo, sintomática notícia das esferas de poder dos grandes conglomerados mediáticos. A saber: Kevin Mayer, responsável pelo lançamento da plataforma de streaming Disney+, abandona a companhia de Mickey, Donald e Pluto para assumir as funções de CEO do TikTok, propriedade do conglomerado chinês ByteDance — pormenores nas páginas de The Hollywood Reporter.
É difícil encarar uma notícia deste teor como um banal efeito das dinâmicas do mercado de trabalho. Desde logo, porque nas altas esferas da Disney, Mayer terá sido recentemente preterido como possível sucessor de Bob Iger, em favor de Bob Chapek; depois, porque, para a ByteDance, se trata de consolidar a sua rapidíssima afirmação no mundo dos negócios, no sentido de contrariar também as especulações que, nos EUA, apontam o TikTok como um risco para a segurança nacional.
Em qualquer caso, o mais sintomático será o facto de, pelos vistos, ter deixado de haver diferença significativa (entenda-se: do ponto de vista da gestão administrativa) entre trabalhar com um património tão rico e diversificado como o que pertence à Disney e comandar uma aplicação de telemóvel que, no essencial, vive à custa dos filmes (?) de 15 segundos que milhões de pessoas colocam online para nos dar conta da sua arte de tropeçar em obstáculos caseiros ou de aplicar desodorizante nos sovacos...
Enfim, para Mayer, por certo o menos incomodado com especulações deste género, o nome "Disney" passou a ser apenas uma referência no seu currículo de sucesso. Mas seria mesmo interessante poder ouvir a opinião de Walt Disney, ele que idealizava um mundo em que "todos os nossos sonhos se pudessem tornar realidade" — era um mundo de negócios, sem dúvida, mas é duvidoso que o criador de Pinóquio e Fantasia estivesse a pensar em futilidades de 15 segundos.

terça-feira, maio 19, 2020

"Da 5 Bloods" / Spike Lee

Memórias e fantasmas da guerra do Vietname. Seja o que for, e como for, o novo filme de Spike Lee, o respectivo trailer possui uma energia contagiante — sem esquecer o impacto do poster: Da 5 Bloods estará na Netflix a partir do dia 12 de Junho.