terça-feira, Setembro 02, 2014

Ver + ouvir:
Broken Bells, Control



Mais um single extraído do segundo álbum dos Broken Bells, o projeto que juntou uma vez mais James Mercer (dos The Shins) a Danger Mouse (Gnarls Barkley). Aqui fica o teledisco.

Novas edições:
Blonde Redhead

“Barragán”
Asawa Kuru
4 / 5

O sabor do desafio e da descoberta impede que o tédio arrume a evolução de carreiras e discografias na estafada (e atulhada) prateleira do “já ouvimos isto”. Nascidos em Nova Iorque nos novenas, os Blonde Redhead não são de todo praticantes desta ideia. E ao longo de uma obra que já vai para além dos 20 anos de discos, apesar do álbum de estreia datar apenas de 1995, têm ensaiado caminhos, sonoridades mas também formas que deixam as fundações shoegazer da sua identidade apenas como uma entre as muitas possibilidades às quais a sua música se dedicou. É verdade que a sua música ganhou particular sabor com a arrumação mais pop que começou a manifestar-se pontualmente em Melody of Certain Damaged Demons (2000), ganhando forma maior em Misery is A Buttefly (2004) e, sobretudo, no brilhante 23 (2007), os seus dois primeiros discos para a 4AD. Em 2010 Penny Sparkle (ainda para a 4AD) experimentou um mais profundo labor nas electrónicas, num alinhamento todavia menos luminoso e, convenhamos, sem o cardápio de canções de 23. Quatro anos depois regressam em Barragán - nome de célebre arquiteto mexicano, Luís Barragán – um álbum que volta a evidenciar sinais de uma saudável inquietude criativa. É um disco que exige atenção e regressos ao seu alinhamento, feito de um corpo de canções com formas nem sempre nítidas e arrumadas numa ordem melódica que não procura agarrar-se às orelhas de quem escuta. Há todavia, e como aconteceu já em várias etapas da vida do grupo, uma atenção particular pela criação de cenografias e texturas, que servem assim de terreno onde a arquitetura da escrita lança edifícios de formas delicadas e frágeis que pedem que se descubram aos poucos. Apesar da diversidade instrumental, as guitarras, baixo e voz são os protagonistas em composições que, por vezes, quase sugerem curiosidade pela complexidade formal característica dos espaços do progressivo. De resto, com evidente tempero krautrock, o longo Mind To Be Head é mesmo o coração de um alinhamento que dá conta da vontade do grupo nova iorquino em não voltar a pisar chão pelo qual antes já andou.

Para ver (e ouvir, claro): 25 versões
que os Arcade Fire tocaram em palco

A Rolling Stone reuniu num único post 25 das canções que os Arcade Fire já apresentaram durante a Reflektor Tour. O grupo tem apresentado um tema diferente em cada cidade, normalmente escolhidas em função de um qualquer relacionamento local (Lisboa não foi contemplada). Em Minneapolis apresentaram Controversy, de Prince. Em Detroit tocaram Uptight (Everything's Alright) de Stevie Wonder. No Coachella cantaram Heart of Glass dos Blondie. E em Atlanta ouviu-se Radio Free Europe dos R.E.M..

Quando em Lisboa falei com Richard Reed Parry, o músico disse que não faria sentido juntar este material em disco. Não concordo. É precisamente para juntar estes momentos que só ganham vida em palco que vale a pena ouvir discos ao vivo. Reencontar álbuns com palminhas é simplesmente entediante. Pode ser que reconsiderem...

Fica aqui o catálogo das versões,

Ciclo dedicado a Joaquim Pinto e Nuno Leonel
começa hoje na Cinemateca


Numa altura em que chega finalmente às salas o magnífico E Agora? Lembra-me, o cinema de Joaquim Pinto e Nuno Leonel pode ser revisitado na Cinemateca Portuguesa num ciclo que começa hoje com a exibição dos dois filmes de estreia de ambos.

A sessão, na Sala Dr Félix Ribeiro às 21.30, vai recordar Uma Pedra no Bolso (na imagem), a primeira longa-metragem de ficção de Joaquim Pinto. De 1987, o filme, segundo se lê no site da Cinemateca, "conta uma história de iniciação e embate com a idade adulta: em férias na estalagem de uma tia à beira mar, Miguel encontra Luísa, o pescador João e o Dr. Fernando, três personagens que marcarão a entrada da sua primeira pedra no bolso". Foi filmado sem quaisquer subsídios e contando com uma muito pequena equipa.

Antes de Uma Pedra no Bolso é exibida, na mesma sessão, a curta-metragem Santa Maria, de Nuno Lenonel, filme de 1991. Apresentado no Festival de Berlim, foi o primeiro filme português em Dolby Stereo.

Numa outra sessão, às 19.00, na mesma sala, são apresentados os filmes Surfavela (1996), Com Cuspe e Jeito se Bota no Cu do Sujeito (1997), Entrevista com Yvonne Bezerra de Mello (1997) e Porca Miséria (2007), todos eles assinados pelos dois realizadores.

O ciclo decorre até dia 6 na Cinemateca Portuguesa.
Podem ver a programação completa aqui.

Para ouvir: novas canções de Prince

Prince regressa aos discos no final deste mês com a edição em simultâneo dos álbuns Art Official Age e Plectumelectrum, este último um projeto mais partilhado com o coletivo 3rdeyegirl com quem tem trabalhado nos últimos tempos. A Pitchfork disponibilizou dois temas que o músico lançou via Soundcloud.

Podem ouvir aqui.

Para ler: na rodagem de '1001 Noites',
o novo filme de Miguel Gomes

O New York Times assistiu, em Lisboa, ao último dia da rodagem na cidade do filme 1001 Noites, a longa-metragem de Miguel Gomes que será assim a sucessora de Tabu (2012).

Podem ler aqui.

"Sin City": BD + cinema (2/2)

Frank Miller + Robert Rodriguez + Mickey Rourke
Frank Miller volta a adaptar o seu universo de Sin City ao cinema, de novo com a colaboração de Robert Rodriguez na realização — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Agosto), com o título 'Foi você que disse Ava Gardner?'.

[ 1 ]

Há toda uma imprensa cinematográfica que nos EUA (e não só...) vive dependente de um imaginário “económico” que se esgota nos milhões ganhos ou perdidos pelos filmes... Viu-se o ano passado, quando a magnífica realização de Gore Verbinski, O Mascarilha, com Johnny Depp, se tornou num dos maiores desastres financeiros dos estúdios Disney. Dir-se-ia que a maior parte dos jornalistas eram chorosos herdeiros do criador do rato Mickey, de tal modo tratavam o falhanço do filme como uma incómoda discrepância entre o investimento e os ganhos... Na prática, ignoravam um dado fulcral: ao convocar sofisticadas heranças de Hollywood, O Mascarilha passou ao lado dos hábitos de milhões de espectadores jovens, (des)educados para ver nos filmes de aventuras pouco mais que uma colagem de “efeitos especiais”...
O caso de Sin City: Mulher Fatal, de Frank Miller/Robert Rodriguez, é de novo sintomático. Assim, a sua má performance nas bilheteiras americanas tem estado a ser “explicada” por factores que vão desde o tempo de espera (nove anos) em relação ao primeiro Sin City até às limitações do marketing... Tudo isso faz sentido, como é óbvio. Mas importa não esquecer que, mais do que nunca, o universo de Miller integra componentes — da utilização das vozes off até às cruéis ambivalências da misoginia das suas personagens — enraizadas num gosto cinéfilo pela herança do filme “noir” e pelo carisma de actores como Humphrey Bogart ou Ava Gardner (será preciso sublinhar que a personagem de Eva Green se chama Ava?). Infelizmente, o filme perde muito da sua energia na colagem algo simplista de várias histórias, mas é um facto que, mesmo com resultados medianos, Sin City: Mulher Fatal é um sintoma do que poderia ser uma outra concepção dos actuais parâmetros do cinema de aventuras.

segunda-feira, Setembro 01, 2014

Ryan Adams = Ryan Adams

Já tínhamos um cartão de visita do 14º álbum de estúdio de Ryan Adams, com o tema Gimme Something Good, incluindo teledisco com... "Elvira"! Agora, podemos escutar todo o alinhamento na NPR. Ou como cantor e compositor se mantém fiel ao seu gosto "alternativo", sem deixar de ser serenamente clássico — para evitar confusões, o álbum chama-se... Ryan Adams. Aqui fica também o tema My Wrecking Ball, em registo para The Tonight Show, com Jimmy Fallon.

O "futebolês" televisivo

LUCIAN FREUD
Natureza morta com livro
1992
O "futebolês" televisivo tornou-se uma lenga-lenga que ameaça destruir a mais básica dignidade da língua portuguesa. E não parece haver muita gente que, nas próprias televisões, se interesse por tal tragédia — esta crónica de televisão foi publicada na revista "Notícias TV", do Diário de Notícias (29 Agosto), com o título 'Palavras ilusórias'.

1. Nada a fazer: repórteres, jornalistas e comentadores (sobretudo da área do futebol) continuam a aplicar os verbos no infinito como se esse fosse um padrão obrigatório da língua portuguesa. A virose de frases que começam por expressões como “dizer que” ou “lembrar que” reflecte um ambiente de indiferença que favorece e promove a agressão do nosso património linguístico. Não se trata de penalizar os normalíssimos erros de construção discursiva que podem afectar o falar televisivo. O que se regista, com espanto, é o facto de um disparate gramatical tão fácil de corrigir ter chegado ao ponto de funcionar como imagem de marca de “ligeireza” de comunicação e “à vontade” perante o espectador. Afinal, é ou não verdade que editores e directores estão lá para, com sensatez e pedagogia, ajudarem a corrigir estes erros, evitando a sua transformação em regra compulsiva? Ser triste.

2. Já conhecíamos a generalização futebolística do “tu” como tradução (?) do “you” da língua inglesa. Assim, para alguns jogadores, treinadores e comentadores, passou a ser chique transformar um sujeito indefinido numa alusão directa a uma pessoa. Já não se diz, por exemplo, que “quando se joga com três defesas, há que ter cuidados especiais”. Nada disso: agora está na moda dizer “quando tu jogas com três defesas”... Será que não és capaz de pensar um bocadinho, um brevíssimo instante, naquilo que estás a dizer?

3. Entretanto, com a pacatez da irresponsabilidade, surgiu mais uma invenção futebolística para consolidar as nossas misérias falantes. Assim, cada vez que um jogador ou treinador de língua espanhola utiliza a palavra “ilusión” (por exemplo: “ilusión de ganar”), há sempre um ansioso repórter, ou mesmo um solícito jornalista, que nos informa que o dito jogador ou treinador tem a “ilusão de ganhar”... ignorando que a palavra “ilusión” pode, em determinados contextos, significar “expectativa”, “ter esperança” ou “ter vontade”. Não pensar? Tens a ilusão de que estás a pensar?

Ver + ouvir: Teleman,
23 Floors Up



Um dos singles extraídos do álbum Breakfast, dos Teleman. O disco fez por estes lados as honras de ser banda sonora obrigatória em agosto e é um dos grandes títulos pop deste verão.

Novas edições:
The New Pornographers

“Brill Bruisers”
Matador / Popstock
4 / 5

Por decididamente marcante que tenha sido, há dez anos, o álbum de estreia dos Arcade Fire, não podemos ignorar que havia já antes uma saudável agitação indie no Canadá. E entre os nomes que então desenhavam ideias com pujança e personalidade contam-se os New Pornographers que, de certa forma, nasceram desde logo segundo o modelo do “supergrupo”. Não que os seus elementos fossem já grades vedetas, mas todos eles tinham já carreiras próprias, ali tendo encontrado um patamar como no qual têm vindo, disco após disco, a construir uma obra que reforça um gosto por um trabalho cénico intenso na construção de canções. Nomes como os de Neeko Case, Dan Bejar (a alma do projeto Destroyer) ou Carl. Newman são apenas algumas das vozes que cruzam ideias, escrita e canto na hora de trabalhar como New Pornographers. E, quatro anos depois de um disco no qual contaram com uma série de presenças de vulto – como Annie Clark (St. Vincent), Zach Condon (Beirut) ou Will Sheff (Okkervil River) – eis que regressam, sem “convidados” de luxo, para aquele que talvez seja o mais sólido dos seus discos e a sua melhor coleção de canções de sempre. Bill Bruisers é não apenas um álbum que contraria aquela noção de que só a tristeza e a dor alimentam a criatividade – aliás é, confessamente, um disco de efusiva manifestação de dias de alegria – como mostra, num quadro que aceita a partilha de várias vozes no microfone e a presença na escrita dos protagonismos de Newman (mais vezes presente) e Bejar, um alinhamento que define um saboroso corpo uno. Eletrónicas e guitarras unem-se a uma percussão bem definida em canções com sabor a hino que, mesmo chegando em fim de verão, não deixarão que o frio se instale por perto.

Livros e mais livros em Óbidos


Há livrarias a merecer a nossa atenção quando se passa por Óbidos. E ambas moram no mapa de uma série de iniciativas que estão a dar novo fôlego à vida cultural local, numa iniciativa que tem ao leme a Ler Devagar.

Uma dessas livrarias habita um grande espaço na Rua Direita, a artéria central que cruza Óbidos de fio a pavio, unindo a porta principal da muralha ao largo em frente à alcáçova (onde hoje há uma pousada). A livraria é conhecida como ‘Mercado Biológico’, nome que se explica pelo facto de, num dos seus espaços haver uma mesa com venda de fruta da região. A mesa acaba por dar o mote ao resto da livraria, já que os livros se encontram a forrar toda a sala, mas dentro de caixas de fruta que, empilhadas como favos de uma colmeia, fazem assim de prateleira. A seleção é feita de livros usados, não apenas em português. Vale a pena passar pelas secções de História e Arte. Há algum vinil (oferta pouco estimulante) e CD (sobretudo de jazz e clássica, com algumas boas sugestões). Não faltam os livrinhos RTP... Estará essa coleção a tornar-se um clássico ‘retro’?... Ah, e bons preços.


Continuando pela mesma rua adiante, o espaço da antiga igreja encostada à porta que faz acesso ao terreiro por detrás da alcáçova (que acolhe inúmeros eventos) encontramos outra boa ideia. A Livraria de Santiago ocupa agora o interior desta igreja, com uma belíssima solução de arquitetura de interiores a desenhar percursos e aumentar o espaço de exposição de livros. Vale a pena passar com atenção pelas prateleiras, que a oferta é variada e interessante. A secção dedicada ao património e arquitetura faz inveja a muitas livrarias de Lisboa.

PS. Com a cidade de Lisboa tão “na moda”, como pode uma zona como o Príncipe Real, tão cheia de lojas ‘gourmet’ (das comidas aos trapinhos) continuar sem uma livraria (além da carrinha da Tell a Story, entenda-se)?...

Para ouvir: Remistura inédita
dos Smashing Pumpkins

Uma remistura inédita assinada por Puff Daddy para o tema Ava Adore, dos Smashing Pumpkins, é uma das muitas faixas a descobrir numa edição especial do álbum Adore, que inclui sete discos (entre CD e DVD) que terá lançamento a 22 de setembro.

Podem ouvir aqui, via Pitchfork.

Para ler: o negócio da música está vivo

O mercado discográfico perdeu 85% de valor. Há menos concertos, mais festivais, cachets muitas vezes reduzidos. Mas os músicos acreditam que tudo pode mudar. Um olhar sobre o mercado da música em Portugal publicado na edição desta semana do suplemento Dinheiro Vivo.

O texto é assinado por mim e conta com declarações de Pedro Abrunhosa, John Gonçalves (The Gift), David Fonseca, João Pedro Coimbra (Mesa), Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), Rodrigo Leão, Diogo Clemente, João Branco Kyron, Tiago Palma (A&R nacional da editora Universal), Jwana Godinho (da promotora Música no Coração) e Jorge Dias (da loja Louie Louie). 

Podem ler aqui.


Ty Segall reinventa Ty Segall

Como é que alguém que se define a partir da herança punk, ao mesmo tempo que sabe integrar uma ambígua fidelidade aos clássicos, se inscreve na cena da música dita alternativa?... Pois bem, reinventando-se como alternativa a si próprio: Ty Segall é esse poço de energia que, através do álbum Manipulator, se afirma como personalidade marcante de uma sensibilidade em que as arestas mais agressivas do som garage se podem aproximar da herança mais lírica dos Beatles. Impossível? Aqui ficam mais algumas sugestões de (re)descoberta de Ty Garrett Segall, nascido a 8 de Junho de 1987, em Santa Clara County, California.

>>> Wave Goodbye, do álbum Slaughterhouse> (2012), da Ty Segall Band.


>>> Performance acústica na rádio KEXP, de Seattle, a 4 de Agosto de 2013.


>>> Video promocional do álbum Manipulator.

domingo, Agosto 31, 2014

"Sin City": BD + cinema (1/2)

Frank Miller volta a adaptar o seu universo de Sin City ao cinema, de novo com a colaboração de Robert Rodriguez na realização — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Agosto), com o título 'Frank Miller reinventa o seu mundo assombrado'.

Para o melhor e para o pior, as aventuras cinematográficas do Verão têm sido, ao longo dos últimos anos, dominadas por figuras de super-heróis e aventuras mais ou menos galácticas. Frank Miller é uma das excepções, já que continua a fazer um cinema cujas raízes estão nas suas próprias bandas desenhadas, obsessivamente concebidas a preto e branco: Sin City: Mulher Fatal aí está a confirmar a sua fidelidade a um universo em que as memórias nostálgicas dos clássicos filmes “noir”, dominados por figuras como Humphrey Bogart ou James Cagney, se transformam agora num assombramento de violência física e cepticismo moral.
O título é revelador. Há uma “mulher fatal”, Ava Lord (interpretada pela francesa Eva Green), que teve uma relação com Dwight McCarthy (Josh Brolin), figura da noite que, na sua actividade de detective privado, tenta vencer os fantasmas da sua dependência do álcool. Agora casada com o magnate Damian Lord (Martin Csokas), Ava vai reeentrar na vida de Dwight, obrigando-o a enfrentar uma série de situações em que a simples possibilidade de sobrevivência é cada vez mais ténue...
Frank Miller
A história de Ava/Dwight é apenas uma das linhas narrativas do filme, já que Miller concebeu Sin City: Mulher Fatal como uma encruzilhada de várias histórias que, de uma maneira ou de outra, passam sempre pelo bar onde dança Nancy Callahan (Jessica Alba). Daí um puzzle de personagens que inclui o inquietante Marv (Mickey Rourke), um marginal de força descomunal, Johnny (Joseph Gordon Levitt), um jogador de cartas que desafia o poder do senador Roarke (Powers Booth), e ainda Gail (Rosario Dawson), líder de uma pequeno tribo feminina que funciona como vigilante das noites da grande metrópole. Em pequenos papéis, surgem ainda Bruce Willis e Lady Gaga.
Tudo isto é encenado como um universo em que o artifício dos ambientes se combina com a angústia existencial das personagens. Dominam as componentes emblemáticas da BD de Miller, a começar pelo muito contrastado preto e branco — devedor dos ambientes expressionistas dos policiais das décadas de 1930/40 —, apenas aqui e ali contaminado pela emergência de alguma cor (por exemplo, os lábios vermelhos da personagem de Eva Green).
Sin City: Mulher Fatal é a segunda adaptação desta série de livros de Miller. Tal como na primeira, Sin City: Cidade do Pecado (2005), ele partilha a realização com Robert Rodriguez, cineasta revelado com o lendário El Mariachi (1992), símbolo da mais austera produção independente, que depois dirigiu, por exemplo, Aberto Até de Madrugada (1996) e Planeta Terror (2007). A solo, entre os dois filmes, Miller dirigiu The Spirit (2008), filme algo semelhante no tratamento visual, embora baseado numa obra de Will Eisner.

O último dia do Museu do Brinquedo
na sua casa em Sintra


Fecha hoje as portas o Museu do Brinquedo, que durante anos a fio habitou um espaço no centro de Sintra, a dois passos do Palácio da Vila. O museu tem uma vasta coleção que cruza os tempos, juntando algumas peças made in Portugal a muitos outros brinquedos de outras paragens. Carrinhos, comboios, aviões, peluches, bonecas, soldadinhos, jogos, casinhas de brincar... São cerca de 60 mil peças reunidas ao longo de 50 anos pelo colecionador João Arbués Moreira. Peças que procuram nova casa. E com Lisboa na rota das atenções do turismo, não haverá lugar que dê nova casa a estes brinquedos?... E ao que parece já há ideias em discussão, para uma eventual reabertura em 2016.


Além da nota do encerramento do museu ficam aqui imagens de um cortejo Nambam que integra a coleção. As figuras – assim como a sua designação – aludem aos primeiros tempos da relação dos portugueses com o Japão. O cortejo mostra uma série de figuras que se dirigem para a Casa da Companhia de Jesus, lideradas pelo capitão, depois dele seguindo mercadores, mas também jesuítas (vestidos de negro) e franciscanos (de castanho claro).

Nos 20 anos de 'Dummy' (parte 3)


Lançado em finais de agosto de 1994 o álbum de estreia dos Portishead é hoje um disco de absoluta referência quando se conta a história dos anos 90. Este texto é parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q. do DN, com o título "Dummy: um clássico do nosso tempo".

Barrow aprendeu, impressionou e pouco depois era convidado a colaborar em Homebrew, de Neneh Cherry. Entre os teclados começou a descobrir caminhos... As ideias foram ganhando forma contando com vários colaboradores, entre os quais Helen White (que pouco depois gravaria com os Alpha) e Beth Gibbons, que tinha conhecido num programa estatal de criação de empregos algum tempo antes. Geoff mandou-lhe um fundo instrumental, ela respondeu gravando a voz que o impressionou não apenas pelas suas qualidades tímbricas e interpretativas, mas pelas palavras que usava...

Beth (n. 1965) vinha de uma comunidade rural relativamente isolada, entre Bristol e Bath. Viu os amigos a partir para a universidade e foi ficando por ali. Teve primeiras experiências em bandas locais e trabalhou com Paul Webb (que fora baixista dos Talk Talk) no projeto .O.Rang. Não deixa de ser curiosa esta última ligação, correspondendo os últimos discos dos Talk Talk a um espaço de busca de uma certa experimentação textural que define eventuais pontos de afinidade com a música dos Portishead.

O guitarrista Adrien Utley (n. 1957) – para quem a descoberta do álbum Low End Theory dos A Tribe Called Quest havia tido um efeito de revelação – estava por ali, entre as sessões, e entrou a bordo do projeto depois de lhe ser pedida uma parte para guitarra em Sour Times. Passa então a coassinar não apenas a produção como a própria escrita.

David McDonald, que assegurou o trabalho de engenharia de som em Dummy, recorda sessões iniciais de escuta de discos em estúdio, nos quais Geoff procurava elementos que samplava (7), ali encontrando pedaços de matéria sonora para depois moldar. A evolução dos trabalhos – e a tomada de consciência de processos jurídicos que afetaram, entre outros, discos dos De La Soul ou Digable Planets – levou o grupo a levar uma série de músicos a estúdio. De algumas dessas sessões nasceriam loops próprios que usariam nas canções, ao mesmo tempo surgindo ali o que seria, depois, a banda de palco que os acompanharia nos concertos (8).

O processo de trabalho partia habitualmente de uma primeira etapa na qual, em estúdio, eram criados os sons que, depois de samplados, ordenados e alguns deles transformados em loops, definiam a base. Instrumentação adicional era acrescentada depois. E só no fim a gravação era entregue a Beth para que esta pensasse na letra e vocalização. O trabalho era ponderado e discutido coletivamente. E com um objetivo claro: fazer canções.

O carácter das canções, dominado por tons menores e ritmos suaves, traduz, segundo defende R.J. Wheaton, “não um statement artístico deliberado, mas antes uma expressão natural das influências e inclinações da banda" (9). Ou, como Utley descreveria numa entrevista, “sempre bandas sonoras, sempre tons menores, ligeiramente atonal, com mutações e pelo lado triste das coisas”. Barrow vincaria mesmo um profundo desconforto perante a música mais ligeira: “Gosto de hip hop mais assombrado. E quando estava à procura de samples estava sempre em busca de algo que tivesse um conteúdo emocional estranho, algo que desencadeasse uma emoção, um tema ou atmosfera.” (10)

O primeiro aperitivo para o álbum surgiu em junho de 1994 com Numb, single cuja capa apresentava um fotograma do filme To Kill a Dead Man, de Alexander Hemming (11), como aconteceria depois com o álbum e os restantes singles que dele seriam ainda extraídos (Sour Times e Glory Box).

No final desse ano o disco foi eleito álbum do ano em vários jornais e revistas um pouco por todo o lado. E no ano seguinte sagrou-se vencedor do Mercury Prize, a mais importante distinção da indústria discográfica britânica. Por essa altura as vendas de Dummy à escala mundial tinham atingido os 850 mil exemplares. Em 2008, quando o grupo regressa de um longo hiato com o álbum Third, esse valor tinha ascendido ao patamar dos 3,6 milhões. Dummy tinha-se transformado num clássico.

(7) in Dummy, de R.J. Wheaton (Continuum Books, 2011), pág. 70.
(8) idem, págs. 72 e 73.
(9) idem, pág. 85.
(10) ibidem
(11) O filme foi expressamente criado para acompanhar o lançamento do álbum Dummy e surge como extra no DVD Roseland NYC 1992.

Bergman x 17 (10)

O SILÊNCIO (1963)
Grande acontecimento em DVD, depois da exibição em Lisboa e Porto (e mais algumas cidades): a edição de 17 filmes de Ingmar Bergman (1918-2007), a maior parte em cópias restauradas — razões de sobra para rever algumas imagens emblemáticas da filmografia do mestre sueco.

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Encerrando a trilogia "Deus e o Homem" — depois de Em Busca da Verdade (1961) e Luz de Inverno (1963) —, apetece dizer que O Silêncio é também o filme em que a divindade, definitivamente, já não se exprime, ao mesmo tempo que os homens definem um território volátil, dramaticamente carente de sentido. Aliás, tal volatilidade deverá ser tomada à letra, numa espécie de apagamento dos géneros (mas não da pulsão sexual), já que tudo se passa a partir da experiência de duas irmãs (Ingrid Thulin e Gunnel Lindblom) a viajar num país tanto mais inquietante quanto, além dos sinais de guerra civil que parecem emergir nas suas ruas, a respectiva língua é, para elas, completamente indecifrável. A criança que as acompanha (Jörgen Lindström, na altura com 11/12 anos; surgirá em 1966 na abertura de A Máscara) existe como uma ambígua emanação carnal do desentendimento dos sexos, de tal modo que se pode dizer que Bergman lhe atribui uma função exclusivamente cinematográfica — ao deambular pelos corredores de um hotel labiríntico, povoado de figuras mais ou menos circenses, o sereno Johan comporta-se como uma câmara no interior do próprio filme, contemplando a desagregação simbólica do mundo dos adultos. Se Bergman é o cineasta da incomunicabilidade, O Silêncio é a ilustração mais radical do seu desencanto existencial.

sábado, Agosto 30, 2014

Bergman x 17 (agora em DVD)

PERSONA (1966)
Os 17 títulos de Ingmar Bergman que a Leopardo Filmes repôs em sala estão já a ser lançados no mercado do DVD — é um grande acontecimento que duplica a (re)descoberta de uma importante fatia de uma obra genial.
As edições, em vários lotes, irão prolongar-se até final do ano. Para já, surgiram Morangos Silvestres (1957), uma viagem ao labirinto da memória e do envelhecimento, e Persona/A Máscara (1966), seguramente uma das obras essenciais para compreender a modernidade cinematográfica, em particular na sua reconversão das relações entre corpo e imagem, palavra e silêncio. Sem esquecer, claro, que a vitalidade de Bergman não se esgota na época em que cada um dos seus filmes foi produzido, seduzindo-nos e questionando-nos, aqui e agora [trailers ingleses de ambos os filmes].



sexta-feira, Agosto 29, 2014

O realismo segundo Ken Loach (2/2)

Com O Salão de Jimmy, Ken Loach prolonga a saga realista do seu cinema, evocando a Irlanda entre os dois conflitos mundiais — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Agosto), com o título 'Impasses do realismo'.

[ 1 ]

Sou dos que pensam que o cinema de Ken Loach nunca ganhou em aventurar-se nas chamadas “reconstituições” históricas. O filme com que venceu o Festival de Cannes — Brisa de Mudança (2006) — parece-me mesmo um dos exemplos mais académicos da sua trajectória. Há algo de semelhante em O Salão de Jimmy, quer dizer, uma espécie de polimento “formal” que aproxima a evocação do militante comunista irlandês James Gralton (1886-1945) da lógica determinista de muitos produtos de raiz televisiva.
Claro que Loach não perdeu as suas qualidades de encenação e, pelo menos, as cenas de dança (no salão a que o título se refere) possuem a energia física e emocional que distingue um genuíno cineasta; além do mais, é sempre surpreendente observar a performance de um tão vasto lote de actores, impecáveis mesmo quando a sua função é necessariamente breve e circunstancial.
O certo é que O Salão de Jimmy nunca consegue consubstanciar aquilo que continua a ser o horizonte formal do labor de Loach: uma vibração à flor de pele que, de uma maneira ou de outra, decorre de um elaborado gosto documental. Penso, por exemplo, em O Meu Nome É Joe (1998), centrado num operário com a existência à deriva, e creio que as diferenças são sensíveis. E penso, sobretudo, na perturbante intensidade de Vida em Família (1971), um verdadeiro clássico do realismo que, agora, surge reduzido a um método apenas demonstrativo.

As criaturas da noite de Traer Scott

Americana, com trabalhos publicados em revistas como National Geographic, Life e Vogue, Traer Scott é uma notável fotógrafa de animais: cães, cavalos e, agora, criaturas da noite. A expressão serve de subtítulo ao seu novo livro, Nocturne, uma impressionante colecção de 85 retratos de quatro dezenas de espécies — dir-se-ia uma antologia dos mais discretos aristocratas, posando, num fundo negro, para a eternidade. Podemos ver alguns deles no seu site, ou na notícia publicada em FeatureShoot.

Uma canção para o verão (2014.17)


Já com o mês de agosto na sua reta final, recuperamos hoje uma das canções mais célebres da obra dos Prefab Sprout. The King Of Rock'N'Roll surgiu originalmente no alinhamento do álbum de 1988 From Langley Park To Memphis e teve depois edição em single poucas semanas após a edição do álbum.

Com produção assinada por Thomas Dolby, esta canção representou o maior sucesso do grupo no seu mercado natal (o britânico) e serviu de banda sonora a um teledisco invulgar no qual vemos o grupo em volta de uma piscina, entre sapos que servem bebidas e cachorros quentes que dançam...



O grupo sempre foi essencialmente o veículo para a apresentação das canções de Paddy MacAloon. O seu mais recente disco, Crimson/Red, foi editado em 2013.

Nos 20 anos de 'Dummy' (parte 2)

Lançado em finais de agosto de 1994 o álbum de estreia dos Portishead é hoje um disco de absoluta referência quando se conta a história dos anos 90. Este texto é parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q. do DN, com o título "Dummy: um clássico do nosso tempo".

É raro ver o álbum de estreia dos Portishead ser referido sem que se fale de Bristol, o lugar que o viu nascer. Portishead é, de resto, o nome de uma pequena povoação costeira – perto da foz do canal de Bristol – onde Geoff Barrow vivera na adolescência. “Com o seu passeio panorâmico à beira-mar, em frente à lama cinzenta e água opaca e poluída do canal, é um lugar estranho” (3), diz Phil Johnson, que chama como termo de comparação a memória de Eraserhead, de David Lynch.

Bristol é uma cidade costeira com uma história pop que passava pela memória de grupos que tinham já sabido cruzar fronteiras (como o Pop Group ou os Rip Rig + Panic) e também pela solidez local de uma cultura reggae que se deve a um relacionamento com a Jamaica que vem de outros séculos. Deste caldeirão emergiriam primeiro os coletivos Smith & Mighty e Wild Bunch, logo depois os Massive Attack e, mais adiante, Tricky, os Portishead ou Carlton. A ideia de uma eventual “cena de Bristol”, de que muito se falou nos anos 90, tem defensores e detratores. Phil Johnson explica no seu livro que “o catálogo de clubes, de lojas de roupa e de discos e bares” que encontrara em muitos guias de Bristol que surgiram na imprensa em meados dos anos 90 “tendia a não ser muito diferente do que se via em guias semelhantes para cidades como Nottingham ou Sheffield”. O livro nota contudo a realidade da presença de música africana e caribenha no código genético de uma cidade na qual “muitos dos monumentos e nomes de ruas lembram o tráfico de escravos”. Referências que, sublinha, não sugerem necessariamente que escravatura e música em Bristol tenham uma ligação inevitável, mas as ressonâncias históricas de uma coexistência de povos de várias etnias terá definido características distintivas não apenas na história da cidade – e ficaram célebres os motins de 1980 – como na sua produção artística.

O álbum de estreia dos Massive Attack, Blue Lines (1991), pode ser visto como uma peça fulcral no lançamento de algumas das grandes linhas e descendências que emergiram nos anos 90. É, de resto, o momento que nos apresenta discograficamente não apenas Tricky como Geoff Barrow (que trabalhou no estúdio durante as gravações, ainda como aprendiz). E também o instante em que a expressão “trip hop(4) entrou no vocabulário da cultura pop.

Geoff Barrow (n. 1971) tinha visto os estudos serem dificultados pela sua dislexia. E o facto de ser daltónico impediu-o de seguir uma desejada carreira como designer gráfico (5). Geoff gostava de música. Tentou bater à porta de vários estúdios em Bristol, obtendo resposta de um, que o aceitou no quadro de um programa de estágios. Foi ali que pouco tempo depois deu por si a trabalhar com os Massive Attack, que então gravavam Blue Lines. De certa forma os pontos de partida dos quais emergiria a música dos Portishead eram ali lançados: tempos lentos, batidas narcotizadas, vozes desencantadas. Geoff, ciente das suas limitações na altura, confessaria mais tarde que “a única coisa em que então era realmente bom era a fazer chá”. Mas a verdade é que estava atento. Muito atento. “Estava interessado em aprender sobre todo o espectro dos sons... E analisava o que fazia uma canção popular resultar, tentando mergulhar mais fundo na psicologia do som.” (6)

(3) in Straight Outta Bristol, de Phil Johnson Coronet, 1997), pág. 151.
(4) Trip hop – Expressão usada pela imprensa nos anos 90 para definir uma derivação eletrónica – nascida no Reino Unido e com evidente presença em Bristol – com características mais próximas da música ambiental de elementos com antecedentes no hip hop, dub, r&B e house. 
(5) in Dummy, de R.J. Wheaton (Continuum Books, 2011), pág. 37.
(6) idem, pág. 40.

Bob Dylan lança "todas" as 'Basement Tapes'


O volume 11 da 'Bootleg Series' de Bob Dylan vai apresentar, a 4 de novembro, numa caixa com seis discos, a totalidade das gravações "aproveitáveis" das míticas sessões registadas em 1967 por Bob Dylan com os elementos dos The Band. Foi a partir de uma seleção destas gravações que, em 1975, surgiria o álbum The Basement Tapes.

Além da versão em seis CD, haverá uma outra, de apenas dois discos, com uma seleção desta "integral". Será também editada uma versão em vinil triplo.

Podem consultar aqui o alinhamento completo desta edição.

Para ler: Festival de Veneza 2014
(três filmes a ter em conta)


Vale a pena acompanhar o que se vai vendo na edição deste ano do Festival de Veneza. Através do The Guardian podemos ler críticas aos filmes novos de Joshua Oppenheimer (o autor de O Acto de Matar, que regressa assim à Indonésia) e Alejandro González Iñarritu e a estreia de Guy Myhill.

Podem aqui ler sobre:
'The Look of Silence', de Joshua Oppenheimer 
'Birdman', de Alejandro González Iñarritu
'The Goob', de Guy Myhill

"Ramones - o Filme" por Scorsese

A notícia surgiu em todo o lado [Rolling Stone]: está em marcha a produção de um filme sobre os Ramones e quem o vai realizar será... Martin Scorsese! Não há pormenores, mas sabe-se que não apenas o filme, mas também um documentário e diversas edições em disco e livro, tudo está ligado ao projecto de celebração dos quarenta anos da lendária banda punk, tomando como referência a data da edição do primeiro álbum, Ramones (1976) — para já, aqui ficam memórias de I Wanna Be Sedated, do álbum Road to Ruin (1978).


>>> Site oficial dos Ramones.

quinta-feira, Agosto 28, 2014

Manoel de Oliveira — um filme em Veneza

Luís Miguel Cintra (Camões), Diogo Dória (Teixeira de Pascoaes),
Ricardo Trêpa ('Dom Quixote') e Mário Barroso (Camilo Castelo Branco)
A apresentação de O Velho do Restelo, novo filme de Manoel de Oliveira, no Festival de Veneza é um acontecimento que merece ser sublinhado — este artigo surgiu integrado num dossier de apresentação da 71ª edição do certame, publicado no Diário de Notícias (26 Agosto).

Com a passagem de O Velho do Restelo no Festival de Veneza, pode dizer-se que Manoel de Oliveira regressa a uma casa que conhece bem — e onde há muito foi reconhecido como uma personalidade central na história do cinema. A sua primeira passagem pelo certame, em 1985, com O Sapato de Cetim, correspondeu mesmo a um momento decisivo na sua projecção internacional, quer pela ambição do projecto (a adaptação da peça homónima de Paul Claudel), quer pela própria internacionalização da respectiva produção (em especial através da relação com entidades francesas).
Depois disso, Oliveira surgiu mais seis vezes no festival, com A Divina Comédia (1991), Party (1996), Palavra e Utopia (2000), Porto da Minha Infância (2001), Um Filme Falado (2003) e Espelho Mágico (2005). Com eles conseguiu várias distinções, incluindo um prémio especial do júri para A Divina Comédia e o prémio da UNESCO para Porto da Minha Infância. Em 2004, esteve também em Veneza, nesse caso para receber a sua mais prestigiada distinção honorária: um Leão de Ouro pela carreira.
O Velho do Restelo é uma curta-metragem de apenas 20 minutos, mas não se pode dizer que a sua “brevidade” a coloque numa qualquer zona secundária da filmografia de Oliveira. Aliás, ao longo das décadas, podemos citar vários exemplos do seu trabalho — por exemplo, A Caça (1964) ou o sketch que dirigiu para o filme colectivo Cada um o seu Cinema (2007) — elucidativos da agilidade, e também do sentido experimental, com que o cineasta tem explorado os pequenos formatos.
Em cena estão nada mais nada menos que quatro vultos da história da cultura e, em particular, da literatura. Um deles é uma personagem de ficção: o Dom Quixote, de Cervantes; depois temos Luís de Camões e ainda os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Até mesmo pelos actores que os interpretam — respectivamente, Ricardo Trêpa, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória e Mário Barroso —, pode dizer-se que Oliveira se move na intimidade das questões mais fundas do seu universo narrativo, em última instância questionando a identidade de Portugal e o nosso dramático “ser ou não ser”. A referência ao “Velho do Restelo” decorre, afinal, de um cepticismo que vem desde a escrita camoniana.
O sentimento intimista apresenta-se, de alguma maneira, multiplicado pelas próprias referências que Oliveira convoca, integrando fragmentos de outros filmes. A produção soviética Dom Quixote (1957), de Grigori Kozintsev, é uma dessas referências, mas as citações são, no essencial, do próprio universo de Oliveira, nomeadamente de dois títulos onde ecoavam as mesmas interrogações e perplexidades: Non ou Vão Glória de Mandar (1990) e O Dia do Desespero (1992).
O Velho do Restelo integra a selecção oficial de Veneza, numa zona extra-competição em que Oliveira estará na companhia de nomes como o americano Peter Bogdanovich (She’s Funny That Way), o israelita Amos Gitai (Tsili) e o dinamarquês Lars von Trier (de quem será apresentado o “director’s cut” de Ninfomaníaca, Vols. I e II).

Uma canção para o verão (2014.16)


Hoje é dia de evocar uma canção do alinhamento de Odelay, o álbum de 1996 que levou Beck a uma noite de triunfo nos Grammys e, assim, a um estatuto de (merecido) reconhecimento entre várias gerações de músicos e outros profissionais da música nos EUA.

O disco era uma verdadeira galeria de singles potenciais e um espelho de um sentido de modernidade que soube retratar como uma série de heranças americanas se podiam expressar a caminho da viragem do milénio. Com um belíssimo teledisco urbano, recordamos hoje Devil's Haircut, um dos singles extraídos do álbum.



Já agora vale a pena lembrar que, após uma ausência dos discos, Beck regressou este ano à atividade não apenas com o brilhante Morning Phase, mas também com a materialização física do Song Reader, lançado há poucas semanas.

Sound + Vision Magazine apresenta
os discos e os filmes da rentrée
hoje pelas 18.30 na Fnac Chiado


Hoje pelas 18.30 a Fnac Chiado acolhe mais uma edição do Sound + Vision Magazine. Este mês estará em foco a agenda de lançamentos de discos e DVDs e também o plano de estreias de cinema, abrindo assim a janela às novidades da rentrée.

Haverá ainda espaço para evocar os 20 anos do lançamento de Dummy, o álbum de estreia dos Portishead e assinalar a reabertura do Cinema Ideal, em Lisboa.

Nos 20 anos de 'Dummy' (parte 1)


Lançado em finais de agosto de 1994 o álbum de estreia dos Portishead é hoje um disco de absoluta referência quando se conta a história dos anos 90. Este texto é parte de um artigo originalmente publicado no suplemento Q. do DN, com o título "Dummy: um clássico do nosso tempo".

Todos temos memórias diferentes mesmo quando falamos de um disco comum. Mark Oliver Everett, o “E” dos Eels, recorda que quando ouviu os Portishead pela primeira vez estava a guiar e teve de encostar o carro e parar para poder escutar com atenção. Já o sueco Jay Jay Johansson passou estas canções, num leitor portátil, num serão entre amigos no campismo, e com efeitos bem diferentes entre a plateia. Uns acabarem a noite assustados e deprimidos, ao passo que ele “adorou” aquela música a cem por cento. Estes são relatos de primeiros contactos com a música dos Portishead que encontramos no volume da série 33 1/3 dedicado a Dummy, de R.J. Wheaton, livro que assinala o estatuto de “clássico” do nosso tempo que hoje atribuímos ao álbum que em 1994 nos apresentou os Portishead.

O disco marcou um tempo de mudança, acentuando a diluição de fronteiras entre os terrenos indie, os da música de dança, o hip hop e a música soul. E foi também reflexo do progressivo amadurecimento de novas gerações de não músicos ou, como descreve Phil Johnson em Straight Outa Bristol, “pessoas que não tinham estudado um instrumento nem sequer tocado em bandas, de DJ a rappers que atuavam nos seus quartos frente aos espelhos”, muitos deles tendo “aprendido as suas técnicas entre festas com sound systems ou escutando os novos sons do hip hop americano que eram acolhidos não apenas na música mas também como parte de uma nova cultura de beats, atitude, arte e dança” (1).

Tal como Pet Sounds (1966) dos Beach Boys e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) dos Beatles traduziram um ponto histórico e tornaram-se paradigmas de um avanço nas tecnologias de gravação (assinalando nesses dois casos o assumir do estúdio como, mais que apenas um espaço para gravar, uma ferramenta a explorar no processo criativo), também Dummy é um dos álbuns que representam a chegada de um novo patamar na relação das máquinas e dos sons. Uma das mais interessantes marcas da identidade da relação do disco com a tecnologia do áudio é, contudo, o assumir de ecos de marcas de vivências anteriores no corpo da música. Ou seja, os efeitos da eletricidade estática e de imperfeições que lembramos dos tempos do vinil, assim como a “sujidade” das fitas analógicas (como o hiss que lembramos do tempo das cassetes), são integrados na textura de uma música que, criada na era digital, continha assim em si as heranças de tempos que a precediam. Esta presença textural, que define sugestões de espaço e traduz uma forma de entender a nostalgia como uma força ativa da memória, toma aqui um peso tão determinante na construção de canções em que reconhecemos ainda arquiteturas rítmicas que nasceram da assimilação de ensinamentos do hip hop. A composição aceita e depura também heranças clássicas da canção e cede depois a linha da frente dos acontecimentos a uma voz desencantada e assombrada que lembra as fragilidades da humanidade que assim se expõe. A modernidade, que em Dummy conhece um dos seus marcos de afirmação na música dos anos 90, não esconde assim que há toda uma história que a precede e sem a qual este presente não seria possível. A geração espontânea, como Francesco Redi (2) já nos tinha dito no século XVII, é coisa que de facto não existe.

(1) in Straight Outta Bristol, de Phil Johnson Coronet, 1997), pág. 15
(2) Francesco Redi (1626-1697) Naturalista italiano, foi o primeiro a contestar experimentalmente a geração espontânea. É visto como o fundador da biologia experimental.

Kate Bush ao vivo: primeiras opiniões

Foto: Ken McKay/Rex Features, via Guardian 
Foi uma das notícias do ano, mas desde terça-feira é já um dos acontecimentos de 2014. O regresso aos palcos de Kate Bush apresentou um espectáculo de três horas, com intervalo, e sem canções dos quatro primeiros álbuns. Podem ler aqui algumas das primeiras opiniões.

Artigo de Alex Petridis no The Guardian para ler aqui.
Texto de Ben Ratlif, aqui, no New York Times.
E aqui o texto de Andy Gill, no The Independent.


quarta-feira, Agosto 27, 2014

Blonde Redhead — o gosto do mistério

Digamos que é tão misterioso, tão misteriosamente fascinante, como a sua capa [vale a pena fazer click na imagem e ver um pouco maior]: o nono álbum de estúdio dos novaiorquinos Blonde Redhead, de seu nome Barragán, apresenta-se como uma aventura pelas regiões primitivas de algum psicadelismo, ao mesmo tempo fiel à geometria austera de um rock de genuína liberdade poética — talvez ajude a situá-los o facto de há quase vinte anos terem tido um álbum de estreia, Blonde Redhead (1995), produzido por Steve Shelley, baterista dos Sonic Youth; além do mais, este Barragán contou com a experiência de Drew Brown que já trabalhou, entre outros, com Beck, Charlotte Gainsbourg e Radiohead.
Formados pela cantora de origem japonesa Kazu Makino e pelos gémeos Simone e Amedeo Pace, os Blonde Redhead são a prova real de que a nostalgia mais genuína é também, muito provavelmente, a mais futurista — a prova: os contrastes do delicado intimismo de The One I Love.

O realismo segundo Ken Loach (1/2)

Com O Salão de Jimmy, Ken Loach prolonga a saga realista do seu cinema, evocando a Irlanda entre os dois conflitos mundiais — este entrevista, realizada do dia 24 de Maio de 2014, em Cannes, foi publicada no Diário de Notícias (22 Agosto), com o título '“Com as tecnologias digitais as pessoas concentram-se menos”'.

Nascido em 1936, Ken Loach é um prestigiado veterano do cinema britânico. Já ganhou uma Palma de Ouro em Cannes, com Brisa de Mudança (2006), e um prémio de carreira da Academia Europeia de Cinema, em 2009. Sempre marcada por questões sociais e políticas, a sua obra tem passado por temas que vão desde a gravidez juvenil (Vida em Família, 1971) até à guerra no Iraque (Route Irish, 2010). Antes de O Salão de Jimmy, dirigiu The Spirit of 45, documentário sobre a Segunda Guerra Mundial, a estrear em Setembro.
* * * * *
Para si, evocar o passado da Irlanda é também uma maneira de falar do presente?
Sem dúvida. A marginalização das visões alternativas e das próprias pessoas que falam ou agem em favor dos pobres é algo que, infelizmente, encontramos em todos os países. Actualmente, em alguns lugares, há raparigas que colocam a sua vida em perigo apenas porque querem educação.
Quando conta uma história vivida há setenta ou oitenta anos, como acontece em O Salão de Jimmy, sente que o seu trabalho como realizador é diferente?
Não há diferença. Enfim, quando se filma o passado há mais trabalho, já que é preciso criar tudo — quando queremos filmar uma acção numa rua dos nossos dias, vamos para a rua e... filmamos. Em qualquer caso, o trabalho da câmara, a direcção de actores e modo de contar a história, tudo isso é idêntico.
E nesse contexto os seus actores têm alguma margem para improvisar?
Um pouco... mas o argumento está escrito. Digamos que, um bocadinho à maneira do jazz, por vezes alguma espontaneidade é bem-vinda.
Ken Loach
Nessa perspectiva, continua a ver os seus filmes como um desenvolvimento da tradição britânica do realismo?
Creio que sim, mesmo se me parece que se trata, antes do mais, de uma tradição com raízes literárias. A observação da vida de todos os dias é algo que vem desde a Idade Média, com Chaucer, prolongando-se por autores como Shakespeare ou Dickens — e essa é, obviamente, a cultura em que cresci.
Será que há muitas diferenças de produção em relação aos tempos em que realizou filmes como Kes (1969) ou Vida em Família (1971)?
De facto, não creio que as coisas sejam assim tão diferentes. As questões básicas, quer dizer, os elementos clássicos do drama — personagens, narrativa, conflito, resolução do conflito, consequências da acção — não mudam. Há evoluções técnicas, sem dúvida, mas são factores marginais. A essência mantém-se.
Entretanto, hoje em dia, a existência dos filmes passa também pelas mais diversas formas de difusão (salas, televisão, VOD, etc.). Como avalia essa evolução?
Para dizer a verdade, sinto que não sei muito sobre isso. Detesto ver filmes na televisão, prefiro sempre os cinemas. Na sala escura, o cinema é uma experiência colectiva que envolve uma muito maior concentração — não nos vamos levantar para fazer um chá ou atender o telefone... As tecnologias digitais fizeram com que as pessoas se concentrem menos e por períodos mais curtos. Quando vemos uma coisa num aparelho nas nossas mãos, ou mesmo no ecrã de televisão, a tentação para fazer zapping é sempre muito grande. É por isso que os filmes estão cheios de explosões e dinossauros... Digamos que quem faz esses filmes pensa que, se não lançar um dinossauro contra o espectador, ele vai mudar de canal. Enfim, por todas essas diferenças, acredito que o cinema nas salas vai sobreviver.

A IMAGEM: Richard Avedon, 1995

RICHARD AVEDON
Kristen McMenamy & Nadja Auermann (Versace)
1995

Casais homossexuais — amor e fotografia

O título do livro de Sebastien Lifshitz, The Invisibles, envolve um paradoxo feliz: por um lado, trata-se de propor uma antologia de fotografias de casais homossexuais, obtidas no período 1900-1960, quer dizer, em contextos em que, pela violência legislativa ou pela repressão moral, tais casais eram impelidos, no mínimo, a algum recato nos espaços públicos; por outro lado, fossem quais fossem as barreiras de cada um desses contextos, o certo é que se fizeram muitas fotografias marcadas por formas de genuína intensidade amorosa — o subtítulo do livro assim o diz: "Vintage Portraits of Love and Pride ".
Lifshitz, que já realizara um filme homónimo sobre a mesma temática (vencedor do César de melhor documentário, referente a 2012), começou por detectar tais fotografias em mercados de objectos antigos. A pouco e pouco, foi criando uma colecção que, em última instância, o conduziu a este livro. Trata-se, afinal, de resgatar o invisível, devolvendo-lhe a liberdade de existir perante os nossos olhares, todos os nossos olhares.

>>> Cerimónia dos Césares de 2013 (Canal +): o discurso de agradecimento de Sebastien Lifshitz.


>>> Dois artigos sobre The Invisibles: The Daily Beast + The Guardian.