quinta-feira, abril 27, 2017

5 fotogramas de Jonathan Demme [1]

Talvez que aquilo que distingue um cineasta de um mero "gravador" de imagens seja o entendimento do ecrã, não como uma janela de amostragem, antes uma tela de escrita. A fusão do trabalho pictórico com a elaboração narrativa define, afinal, a sua condição clássica de artesão. E pensamos em Hitchcock, claro. Neste caso, em O Último Abraço (1979), as referências ao mestre (Psico & etc.) eram assumidas, muito em particular, na composição de alguns fulgurantes grandes planos — o oleado das capas dos visitantes das cataratas do Niagara desenha com o rosto humano um ícone de depurada inquietação.

Jonathan Demme (1944 - 2017)

É um dos nomes maiores da história moderna do cinema americano: o realizador Jonathan Demme faleceu no dia 26 de Abril, em Nova Iorque, vitimado por um cancro no esófago — contava 73 anos.
Tal como Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese, Demme começou a trabalhar sob a égide do produtor Roger Corman. Alguns títulos de pequena produção, como Crazy Mama (1975), versão paródica dos tradicionais filmes de gangsters, permitiram-lhe adquirir um know how que seria decisivo para a sua futura inserção máquina de produção de Hollywood. Tal inserção consolidou-se através de duas comédias mais ou menos negras que, além do mais, ilustram a sua capacidade de construir invulgares personagens femininas: Selvagem e Perigosa (1986) e Viúva... Mas Não Muito (1988), com Melanie Griffith e Michelle Pfeiffer, respectivamente.
A sua consagração ocorreria através de dois títulos que já pertencem ao mais universal imaginário cinéfilo: O Silêncio dos Inocentes: (1991), adaptação do romance de Thomas Harris com os prodigiosos Anthony Hopkins e e Jodie Foster, e Filadélfia (1993), obra pioneira na abordagem dos temas sociais e morais relacionados com a sida, centrada numa fabulosa composição de Tom Hanks.
Sempre ligado ao universo musical, tendo colaborado várias vezes com Neil Young, por exemplo em Heart of Gold (2006), é dele uma das referências nucleares na história dos "filmes-concertos": chama-se Stop Meaking Sense (1984) e evoca de modo exuberante três noites dos Talking Heads no Pantages Theater, em Nova Iorque.
Nas últimas duas décadas, o impacto comercial dos seus filmes foi diminuindo, mas não a sua criatividade e arrojo. Na fase final da sua filmografia encontramos, por exemplo, O Candidato da Verdade (2008), um extraordinário thriller político que adapta e actualiza a história de O Enviado da Manchúria (John Frankenheimer, 1962), ou O Casamento de Rachel (2008), brilhantíssima reinvenção das matrizes clássicas da comédia/drama familiar, com Anne Hathaway no melhor papel da sua carreira.
Ricki e os Flash (2015), com Meryl Streep, retrato terno e cruel de uma veterana cantora rock, ficaria como o derradeiro título de ficção de uma filmografia que nunca se fixou em qualquer género ou temática, afinal mantendo-se disponível para uma diversidade típica, justamente, da "série B" em que Demme se formou. Se a palavra artesão ainda pode ajudar a definir tal agilidade criativa, ele foi, nas últimas décadas da produção made in USA, um dos mais genuínos.

>>> Obituário no New York Times.

quarta-feira, abril 26, 2017

Jessica Chastain no Zoo (2/2)

Jessica Chastain protagoniza um drama da Segunda Guerra Mundial cujo cenário principal é o Jardim Zoológico de Varsóvia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Abril), com o título 'Crianças e animais'.

[ 1 ]

Numa entrevista a propósito do seu trabalho com animais em O Jardim da Esperança, Jessica Chastain arriscava um paralelismo artístico, dando conta do seu gosto em trabalhar com outros seres “difíceis” como são as crianças. Não era uma curiosidade mais ou menos pitoresca. Nem significava, muito menos, qualquer menosprezo pela exigência profissional de uma carreira, sendo ela, além do mais, uma das mais admiráveis actrizes reveladas nos últimos anos (desde que a descobrimos, em 2011, em Coriolano, uma ousada versão de Shakespeare, protagonizada e dirigida por Ralph Fiennes). Acontece que contracenar com crianças pode envolver a revelação de um desconcertante desprendimento face aos poderes de fixação da câmara.
Não falo, como é óbvio, dos mecanismos de tipificação que encontramos em linguagens muito poderosas (e estereotipadas) como são as telenovelas ou, de um modo geral, a publicidade — muitas vezes, temos mesmo a sensação que, em tais universos, as crianças só têm direito a ser figuradas como inevitavelmente patetas, desagradáveis e destruidoras ou, então, exibindo a complexidade de argumentação de uma tese universitária.
Falo antes de uma espécie de desprendimento físico e emocional que se pode manifestar face à câmara de filmar — aliás, em boa verdade, como se a câmara não estivesse lá. Não é um tema específico do cinema que está em jogo. No limite, trata-se mesmo de uma questão com fundas raízes sociais que envolve, em particular, a capacidade (ou a impotência) para figurar o mundo infantil e juvenil. Aquilo que Chastain evoca não é o carácter “ligeiro” das personagens de crianças, antes o facto de a sua identidade instável envolver um desafio radical à compreensão do próprio factor humano — lidar com isso, dentro ou fora dos filmes, nunca é simples.

Doença social [citação]

>>> Ninguém sabe o que eu sei e aquilo que vi. Só eu posso contar a minha história. Quem quer que o tente é um charlatão e um louco — procurando gratificação instantânea sem fazer o seu trabalho. Isto é uma doença da nossa sociedade.

MADONNA
[comentando o facto de existir
um projecto para um filme sobre a sua vida]

CANNES — o júri oficial

O Festival de Cannes anunciou a constituição do júri oficial que terá como missão principal atribuir a Palma de Ouro da sua edição nº 70 (17-28 Maio). Assim, o presidente Pedro Almodóvar (cujo nome já era conhecido) terá a companhia de quatro homens e quatro mulheres de várias áreas criativas e geográficas. Eis os nove magníficos:

Pedro ALMODÓVAR – presidente
(realizador, argumentista, produtor – Espanha)

Maren ADE (realizadora, argumentista, produtora – Alemanha)
Jessica CHASTAIN (actriz, produtora – EUA)
FAN Bingbing (actriz, produtora – China)
Agnès JAOUI (actriz, argumentista, realizadora – França)
PARK Chan-wook (realizador, argumentista, produtor – Coreia do Sul)
Will SMITH (actor, produtor, músico – EUA)
Paolo SORRENTINO (realizadora, argumentista – Itália)
Gabriel YARED (compositor – França)

terça-feira, abril 25, 2017

"So Sad" [canções]

GEORGE HARRISON
So Sad
Dark Horse (1974)


"Just Like a Woman" [canções]

BOB DYLAN / THE BAND
Just Like a Woman
Before the Flood (1974)


"Will You Love me Tomorrow?" [canções]

LINDA RONSTADT
Will You Love me Tomorrow?
Different Drum (1974)


Ella 100


Não faltam cognomes e grandes expressões para a referir sem ter sequer de mencionar o seu nome... First Lady of Song (ou seja, Primeira Dama da Canção) e Rainha do Jazz são dois dos mais comuns. Ella Fizgerald foi, de facto, uma das figuras maiores da história da música do século XX e é voz de absoluta referência no jazz.

Nascida em Newport News, na Virginia, a 25 de abril de 1917 e conhecendo depois um conturbado início de juventude, começou a viver bem cedo uma relação com a música ao cantar na igreja da sua congregação, numa altura em que os seus gostos começavam já a apontar para as figuras emergentes do jazz. Depois da morte da mãe a família mudou-se para Nova Iorque e aí começou por cantar na rua, estreando-se em palco em novembro de 1934 numa noite para cantores amadores no mítico Apollo Theatre. Na verdade ia apresentar-se com um número de dança (já que a ideia de ser bailarina estava entre os seus desejos), mas ao reparar noutras artistas que ali se iam mostrar optou antes por cantar. E ganhou o primeiro prémio: 25 dólares. E com ele ganhou também primeiros contratos, antes de começar a viver quilómetros de estradas, por várias cidades norte-americanas, acompanhando primeiro a Orquestra de Chick Webb e, ganhando maior visibilidade ainda ao atuar na mítica sala Savoy Ballroom (no Harlem, em Nova Iorque).

Depois de ter gravado cerca de 150 canções com a banda que fora rebatizada em 1939 como Ella and Her Famous Orchestra após a morte de Chick Webb, iniciou em 1942 uma carreira a solo que a começou por ligar à Decca, onde já antes gravara pela sua banda. Norman Granz, que produzia os espetáculos Jazz at The Philharmonic, tornou-se pouco depois o seu manager, acompanhando-a num tempo em que a mudança de rumos que a música tomava, perante o fim da era das big bands, caminhos que permitiram a Ella Fitzgerald ousar novos desafios e desenvolver a sua forma de cantar. E do esforço continuado dessa demanda surgiu a plena confirmação de um talento que, quando Granz fundou a editora Verve Records, a tomou como figura de proa do catálogo. E convenhamos que Ella respondeu a rigor, criando depois de 1955 alguns dos títulos maiores não só da sua discografia como da história do jazz vocal. Depois de 1963, após a venda da Verve à MGM e de problemas na renegociação do seu contrato, a obra de Ella Fitzgerald progrediu entre várias editoras como a Atlantic, Capitol e Reprise, até que em 1972 se reencontrou com Granz na Pablo Records, que ele então criou. Durante este percurso cantou ao lado de grandes nomes como os de Louis Armstrong, Oscar Peterson, Count Basie ou Duke Ellington.

Ao trabalho nos discos (e nos palcos) a obra de Ella Fitzgerald junta ainda incursões pelo cinema e pela televisão. Entre os papéis que desempenhou conta-se o de uma cantora de jazz em Pete Kelly’s Blues, de Jack Webb (1955) no qual contracenava com Janet Leigh e Peggy Lee. Sofrendo de diabetes há muitos anos, Ella Fitzgerald morreu em sua casa, em Beverly Hills, em 1996, com 79 anos. Os seus arquivos estão hoje integrados no National Museum of American History (da Smithsonian, em Washington, DC) e os originais dos arranjos das suas canções estão depositados na Biblioteca do Congresso. Os livros de culinária que tinham em casa (e parece que eram mesmo muitos) foram doados a uma das bibliotecas da Universidade de Harvard.

25 ABRIL — como nós éramos...

I. Poucas semanas antes do dia 25 de Abril de 1974, estreava-se em Lisboa, no cinema Mundial, o filme The Way We Were (1973), de Sydney Pollack, com Barbra Streisand e Robert Redford a viverem uma história de amor nos tempos do maccartismo.

II. A sessão da estreia (o hábito das ante-estreias não existia) foi atravessada por uma perturbação muito particular. A certa altura, na cena decisiva em que Streisand e Redford, sozinhos no cenário do refeitório da universidade, discutem o contexto político que estão a viver, as legendas começaram a faltar... Na prática, a comissão de censura tinha cortado a cena (por certo, por nela se falar de "vermelhos" e "conservadores"), mas alguém se esquecera de a suprimir na cópia para exibição: a cena não tinha sido legendada, mas as suas imagens (e sons!) continuavam . Durante a projecção e, depois, no final, a sala foi invadida por uma sensação de ambíguo silêncio, sensação de algum modo intensificada pelo facto de um dos convidados da sessão ser Ramiro Valadão, então presidente da RTP.

III. Lembro-me muitas vezes desta situação como sintomática de algumas vivências pré-25 de Abril. Talvez porque há nela qualquer coisa de anedótico que contraria a visão maniqueísta do "antes" e do "depois" com que, ainda hoje, tantas vezes, parecemos contentar-nos — e que, distraidamente ou não, passamos aos mais novos.

IV. Claro que há uma diferença essencial entre um tempo de censura instituída e um outro em que essa censura desaparece. Não é isso que está em causa. Como não está em causa que vivíamos uma época dilacerada, antes de tudo o mais, por uma Guerra Colonial que afectava tudo e todos, a começar pelos mais jovens que iam (ou podiam ser enviados) para os combates em África.

V. O que se regista é tão só o facto de uma simples projecção de um filme envolver uma dimensão social que, hoje em dia, a redução dessa mesma instância a fenómenos em "rede" parece ignorar. É errado descrever o Estado Novo — e, em particular, a chamada "primavera marcelista" em que ocorreu o episódio evocado — como uma paisagem de total negrume em que nada acontecia, a não ser um confronto entre o "poder" e o "povo"... Afinal, o tecido social era uma encruzilhada de muitos acontecimentos microscópicos que importa conhecer para além (ou aquém) de qualquer simplificação "ideológica" — a sessão do cinema Mundial, apesar dessa sua dimensão microscópica, constitui matéria reveladora de tal encruzilhada. Ou ainda: a ditadura em que vivíamos não pode ser reduzida a meia dúzia de clichés mediáticos, de "direita" e de "esquerda", com que hoje, por indiferença ou estúpido liberalismo, nos contentamos — como se diz no filme, é tudo mais complicado do que parece ou do que queremos acreditar.

segunda-feira, abril 24, 2017

Patrick Leonard reinventa La Isla Bonita

Foi o derradeiro single do álbum True Blue (1986), tendo surgido em Fevereiro de 1987, portanto, há cerca de 30 anos: La Isla Bonita tornou-se um dos emblemas mais universais do universo pop de Madonna, em particular através da sua integração de sonoridades de ritmos latinos, espanhóis e cubanos — o respectivo teledisco [video], assinado por Mary Lambert, é a ilustração exemplar disso mesmo.
Por estes dias, Patrick Leonard, um dos produtores do álbum, compagnon de route de Madonna, decidiu reinventar a canção, transformando-a num longo e belíssimo lamento romântico — eis La Isla Bonita, 2017. 



A IMAGEM: Le Monde, 24 Abril 2017

MACRON-LE PEN: AS DUAS FRANÇAS
Le Monde
24 Abril 2017

Violência sem palavras

Uma verdadeira revelação (ainda que com três anos de atraso...): um filme da Ucrânia sobre uma escola para surdos-mudos — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (20 Abril).

Premiado na Semana da Crítica, na edição de 2014 do Festival de Cannes, A Tribo é um filme de origem ucraniana capaz de desafiar qualquer tentativa de descrição. Desde logo, pela carga de violência, da agressão física à prostituição, que marca todas as relações que descobrimos no interior de uma escola. Depois, pelo facto de tal escola ser destinada apenas a alunos surdos-mudos, numa perturbação dramática tanto mais envolvente quanto acontece, literalmente, sem palavras.
Podia ser uma narrativa encalhada numa fácil mensagem “simbólica”, mas é tão só a crónica realista de um mundo de muitos corredores, agressões e angústias em que são testados os próprios limites da natureza humana. Se ainda há filmes completamente exteriores aos padrões dominantes do mercado, este é, seguramente, um desses filmes.

Kraftwerk... ao vivo... em 3D...
e agora em nossas casas



A digressão 3-D que os Kraftwerk têm estado a apresentar pelo mundo fora, e que inclui tanto um espetáculo em regime best of (como o que apresentaram entre nós) ou a apresentação dos seus oito álbuns editados entre 1974 e 2003 em concertos individuais, está na origem de 3-D The Catalogue, uma nova edição que surgirá a 26 de maio em vários formatos e representa, depois de Minimum/Maximum, mais uma edição ao vivo na discografia do grupo alemão.

Um dos lançamentos é um Bly-ray com quatro discos que inclui a apresentação ao vivo dos oito álbuns – Autobahn (1974), Radio-Activity (1975), Trans Europe Express (1976), The Man-Machine (1978), Computer World (1981), Tecnho Pop (1986), The Mix (1991) e Tour de France: Soundtracks (2003) – em imagens de alta definição 3D (mas que é também compatível para visionamento em 2D). O Blu-ray junta ainda as projeções e filmes usados durante os concertos.

Há uma edição DeLuxe que acrescenta um livro de 228 páginas com fotografias tiradas durante a digressão. Em áudio há depois versões de 3-D Catalogue numa caixa com 9 LP em vinil e uma outra com 8 CD.

Novas edições:
The Gift, Altar


É mais frequente vermos momentos de grande entusiasmo e renovação nas obras veteranas de artistas a solo do que nas de bandas com já uns longos anos de vida. De resto, é mais habitual vermos até os melhores discos de bandas nascerem entre as suas primeiras criações, quando muito aparecendo no quadro de alguma maturidade alcançada, ou seja, dentro de uma década de trabalhos. Mas há exceções, uma das mais notáveis tendo sido assinada pelos U2 (com primeiro single editado em 1979) quando, depois de na reta final da digressão Love Town – que surgiu depois de Rattle & Hum – terem avisado que se iam afastar por um pouco para sonhar tudo novamente, surgiram animados por novas demandas que começaram a expor na sua contribuição para Red Hot + Blue (numa versão magnífica de Night & Day) e depois aprofundaram não apenas entre os álbuns Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), como também no ainda mais exploratório Original Soundracks – Vol 1., disco assinado como Passengers, na verdade um coletivo que integrava não só os quatro elementos dos U2 mas também Brian Eno e que ali juntava ainda mais algumas contribuições, entre elas a de Howie B... Estes dois últimos nomes cruzaram-se já com a história de um outro quarteto. Chamam-se The Gift, e se em Howie B tiveram em 2001 (no álbum Film) o parceiro para levar a um outro patamar de definição a visão pop exuberante que antes tinham já materializado no hoje já mítico Vinyl (de 1998), em Brian Eno encontraram o parceiro para, tal como os U2 desejaram, poderem sonhar tudo uma outra vez.

Convenhamos que não deixariam de procurar novos rumos depois dos contrastes do díptico Explode (2011) / Primavera (2012) caso não se tivesse cruzado pelo seu caminho o músico que tem no seu currículo parcerias maiores não apenas com os U2 mas também David Bowie, Talking Heads, David Byrne (em dois magníficos álbuns assinados a meias) ou John Cale (e Wrong Way Up é mesmo um dos melhores discos da história da canção pop). Toda a obra dos The Gift sempre se fez de uma saudável sensação de inquietude não satisfeita, pelo que a cada disco foram sempre procurando rotas e destinos diferentes, mantendo firme a personalidade da composição de Nuno Gonçalves, a muito particular assinatura vocal de Sónia Tavares e todo um modus operandi que, se em 1998 deu que falar quando o “faça-você-mesmo” se revelou política de trabalho possível entre nós num plano com claras ambições (nacionais e internacionais), ainda hoje garante nas mãos dos quatro elementos do grupo a condução dos seus destinos.

É claro que trabalhar com Brian Eno fez a diferença. E aqui vale a pena notar que este não é um episódio “do acaso”, já que ao longo da sua discografia o grupo sempre procurou entre os (seus) colaboradores de sonho aqueles com quem quis trabalhar. E tal como Howie B foi seu parceiro em 2001 ou Ken Nelson (que trabalhou com os Gomez, Kings of Convenience e Coldplay) a eles se juntou para o álbum de 2011, para Altar Brian Eno foi sonho concretizado através de uma série de sessões de trabalho nas quais a parceria ganhou fôlego e coesão, mais adiante entrando em cena Flood (que curiosamente trabalhou com os U2 em Pop, ou seja, logo após os discos acima referidos), que foi o responsável pelas misturas. Trabalhando em conjunto com os The Gift, integrando-se entre o coletivo alargado – o que apresentam em palco – Brian Eno começou por escutar, comentar e acabou a agir não apenas como produtor mas como um corpo criativo na composição, na escrita, tocando (ouvimo-lo num festivo solo para teclas em Clinic Hope) e cantando (não só em Love Without Violins, mas também nos coros, notando-se clara a sua assinatura em What If...). A sua presença ajudou a definir um caminho para o entendimento entre o coletivo, lançando desafios segundo o seu método habitual, logo aí propondo um cenário de trabalho que, mesmo sob uma matéria prima familiar (as canções) acabou por abrir novas possibilidades. E essas tanto se materializaram na condução desafiante para levar a canção a formas diferentes (como em Love Without Violins, naquele contaste entre um incrível arranque tenso e obsessivamente repetitivo e um final libertador e luminoso), a aceitar referências novas (como os ecos africanos em Malifest que evocam o festim de acontecimentos sob ecos da música africana partilhados com os Talking Heads) ou toda uma nova paleta de cores nos timbres, que vincam afinidades aqui e ali com Bowie (o que não é nada estranho a uma banda que já fez uma versão de Absolute Beginers) ou até mesmo com os discos (pop) a solo de Eno.

A produção é atenta e cuidada, assegurando a mistura a visibilidade aos detalhes, facto ao qual contribui também uma maior contenção nos acontecimentos cénicos face a algumas gravações anteriores. As melodias e a voz asseguram depois a continuidade num disco que não é de todo uma rutura, mas antes um modo de reencontrar viço e entusiasmo, o que é coisa rara em bandas com mais de vinte anos vividos. Esse fulgor reencontrado resultou naquele que é, claramente, o melhor conjunto de canções que os The Gift alguma vez levaram a disco. E se Love Without Violins, Clinic Hope ou o irresistível Big Fish serviram de perfeitos cartões de visita, há no alinhamento ainda uma mão-cheia de singles potenciais, do festivo Malifest aos mais melancólicos Vitral (que é talvez aquela em que é mais evidente a presença de Brian Eno) ou Hymn To Her. Agora é a vez de, como manda a letra da canção, ser “peixe grande”... E há mar por aí à espera não só destas canções mas das que virão a seguir. Porque quando se sonha tudo de novo não se esgotam logo ali as ideias.

Sire Records, 50 anos

Apenas alguns nomes (por ordem alfabética): Depeche Mode, Dinosaur Jr, Lou Reed, Madonna, The Pretenders, Talking Heads, The Smiths... Qual o lugar em que se cruzam? Pois bem, chama-se Sire Records, foi fundada por Seymour Stein e Richard Gottehrer, e constitui uma referência fulcral na história da edição discográfica do último meio século, dando visibilidade aos criadores mais marginais e, ao mesmo tempo, marcando presença nas linhas da frente do mercado musical.
50 anos, justamente, é o número redondo que a Sire está a comemorar através de uma edição em vinyl, com o sugestivo título Just Say 50, lançada por ocasião do Record Store Day — são quatro LP com 46 registos de outros tantos artistas, lançados entre 1969 e 1995.

>>> Três temas incluídos em Just Say 50:
>>> Blitzkrieg Bop (1976), primeiro single dos Ramones, depois incluído no seu primeiro álbum, Ramones (1976);
>>> The Walk (1983), single de The Cure, depois incluído na colectânea Japanese Whispers (1983);
>>> Come Together (1990), single de Primal Scream, do álbum Screamadelica (1991).






>>> Notícia no site 'All about Madonna'.

domingo, abril 23, 2017

David Lynch — imagens e sons

Nos últimos anos, uma zona significativa do trabalho de David Lynch tem passado pela divulgação das técnicas de meditação transcendental. Mais especificamente, a sua fundação tem desenvolvido diversas actividades no sentido de ajudar grupos de risco, incluindo pessoas sem abrigo, refugiados de países africanos e veteranos do exército dos EUA. Recentemente, a fundação lançou uma campanha visando a reintegração desses veteranos — este pequeno video de divulgação constitui, além do mais, uma pequena grande lição sobre as relações entre imagens e sons.

sábado, abril 22, 2017

Jessica Chastain no Zoo (1/2)

Jessica Chastain protagoniza um drama da Segunda Guerra Mundial cujo cenário principal é o Jardim Zoológico de Varsóvia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Abril), com o título 'A guerra vista através de um Jardim Zoológico'.

Nos últimos anos, pelo menos desde a produção alemã Lore (2012), dirigida pela australiana Cate Shortland, temos assistido ao aparecimento de vários (e muito interessantes) filmes apostados em reencenar a Segunda Guerra Mundial e, em particular, as memórias do Holocausto muito para além das regras dramáticas e simbólicas do tradicional “filme de guerra”. Um desses filmes, O Filho de Saul (2015), do húngaro Lászlo Nemes, arrebatou mesmo o Oscar de melhor filme estrangeiro. Baseado no livro homónimo da americana Diane Ackerman (entre nós publicado pela Editorial Presença), O Jardim da Esperança é mais um significativo exemplo da mesma tendência.
Tal como o extraordinário Paraíso, do russo Andrei Konchalovsky (lançado há uma semana nas salas portuguesas), somos confrontados com episódios muito particulares da política de extermínio dos judeus pelos nazis. No caso de Paraíso, tratava-se de construir uma teia situações e testemunhos elaborada a partir de três personagens fictícias. Em O Jardim da Esperança, deparamos com a experiência dramática do casal Jan e Antonina Zabinski, tratadores do Jardim Zoológico de Varsóvia — a invasão das tropas de Hitler, iniciada a 1 de Setembro de 1939, iria confrontá-los com a necessidade de reconstrução do seu jardim e, mais do que isso, com a urgência de defender as vidas de muitos judeus (escondendo-os nas caves do jardim) que tentavam escapar aos comboios destinados aos campos de concentração.
Estamos, neste caso, perante personagens verídicas. Aliás, o trabalho de Ackerman baseia-se, em grande parte, nas memórias da mulher do tratador do Jardim Zoológico (facto reflectido no título original do livro e do filme: The Zookeeper’s Wife). Interpretada pela brilhante Jessica Chastain, Antonina emerge como símbolo da decomposição brutal de todo um sistema de valores. Para ela, o seu jardim existia como a materialização prática, quase romântica, de um ideal de convivência com a pluralidade fascinante do mundo animal. Mais do que isso: através da relação íntima com os animais (veja-se, logo no começo, a cena em torno do pequeno elefante que acaba de nascer), o Zoo define-se como um espaço de genuína afirmação dos valores clássicos do humanismo.
Niki Caro, a realizadora neozelandesa de O Jardim da Esperança, não é estranha a este tipo de universos. Na sua filmografia, destaca-se A Domadora de Baleias (2002), um drama em tom de fábula marcado pelo património lendário do povo Maori, da Polinésia. Distinguido com vários prémios internacionais, chegou mesmo aos Oscars, tendo valido à jovem australiana Keisha Castle-Hughes (na altura com 12 anos) uma nomeação na categoria de melhor actriz.
Coproduzido pelo Reino Unido e EUA (com distribuição internacional da Focus Features americana), O Jardim da Esperança foi rodado na República Checa e constitui um típico exemplo daquilo que, hoje em dia, é um modelo corrente de produção independente. O seu orçamento de 20 milhões de dólares (18,7 milhões de euros), ainda que elevado para os padrões europeus, é francamente baixo quando comparado com os valores médios de Hollywood. Actualmente a estrear em vários países europeus, as suas receitas de 10 milhões de dólares no mercado americano (EUA e Canadá) dão-lhe o primeiro lugar na lista dos mais rentáveis filmes independentes de 2017.

sexta-feira, abril 21, 2017

Novo filme de Errol Morris

Autor de títulos centrais na história moderna do documentarismo como The Thin Blue Line (1988) ou The Fog of War (2003), o americano Errol Morris tem um novo filme. Chama-se The B-Side e tem como temas a personalidade de Elsa Dorfman e os seus célebres retratos em formatos gigantes Polaroid — com estreia americana agendada para 2 de Junho, eis o respectivo trailer.

Iggy Pop, 70 anos

Iggy Pop nasceu a 21 de Abril de 1947 em Muskegon, Michigan — faz hoje 70 anos.
Para assinalar a data, a Rolling Stone entrevistou-o por telefone, emergindo como tema fulcral da conversa o recente envolvimento de Iggy Pop com o trio de jazz de Jamie Saft, interpretando três canções do seu novo álbum, Loneliness Road. Vale a pena ler a entrevista e aí escutar o tema título e Everyday.