sexta-feira, Abril 18, 2014

Paris por Martin Parr

Membro da agência Magnum, fotógrafo militante de todos os quotidianos — e também do realismo que se transfigura em envolvente estranheza —, o inglês Martin Parr elegeu a cidade de Paris como cenário de uma nova e fascinante deambulação. O resultado é um livro, Grand Paris, a par de uma exposição na Maison Européenne de la Photographie — ou como o realismo é a arte de registar o que conhecemos, pressentindo a amplitude do nosso desconhecimento.

Patti Smith na banda sonora de "Noé"

Infelizmente, o Noé, de Darren Aronofsky, é um espectáculo incapaz de harmonizar (?) as suas intenções filosóficas com os formatos da "superprodução digital". Em todo o caso, há um lapso que importa corrigir. Assim, se é verdade que uma boa banda sonora nunca salvou um filme, não é menos verdade que há bandas sonoras que sobrevivem, como entidades autónomas, aos próprios filmes a que pertencem... Será, talvez, o caso da música composta por Clint Mansell para Noé. Uma coisa é certa: nessa banda sonora, mais precisamente no genérico final, deparamos com uma breve dádiva divina, devidamente intitulada Mercy Is — uma canção de Patti Smith, acompanhada pelo Kronos Quartet.

Ver + Ouvir:
Neneh Cherry, Blank Project



A cantora Neneh Cherry passou pelo programa de Jools Holland na BBC para apresentar um dos temas do belíssimo álbum que lançou há poucas semanas e que é, até ver, um dos melhores lançamentos de 2014.

Novas edições:
Blancmange,
Happy Families Too... The Story So Far


Blancmange
“Happy Families Too... The Story So Far”
Cherry Red Records
2 / 5

A forma de dieta de contar a história da música segundo o prisma anorético das “nostalgias” não só reduz muitas vezes carreiras a uma ou duas canções como frequentemente esquece todos aqueles que não conseguiram um lugar no panteão dos “famosos”. Os Blancmange, importante força da geração pop electrónica que fez escola no Reino Unido na primeira metade dos oitentas, são muitas vezes secundarizados ou mesmo esquecidos e, quando recordados, tantas vezes reduzidos a Don’t Tell Me ou Living on The Ceiling, os dois singles de maior sucesso da sua discografia. A verdade é que este duo britânico – e sobretudo os seus dois primeiros álbuns, Happy Families (1982) e Mange Tout (1984) – não estão aquém do que por essa altura assinavam nomes hoje mais vezes recordados como os OMD, Human League, Soft Cell, Yazoo, Heaven 17 ou Depeche Mode, todos eles com créditos reconhecidos no mesmo comprimento de onda. À prática de uma pop luminosa feita com electrónicas os Blancmange juntavam uma postura vocal mais angulosa (de evidente herança pós-punk) e um gosto pelo exotismo nos temperos (que ganharia maior visibilidade ainda no projeto West India Company que Stephen Luscombe, um dos elementos do duo, editaria depois da primeira separação, na segunda metade dos oitentas). Após um longo hiato, os Blancmange reuniram-se e editaram o (inconsequente) Blanc Burn em 2011. O regresso à atividade levou-os à estrada. E dessa vivência nasceu uma proposta de revisão das canções do álbum de estreia, segundo princípios de mais evidente minimalismo e polimento menos intenso, que agora se projetam neste Happy Families Too... The Story So Far. Originalmente apenas disponível nos concertos, este disco é assim um ponto de vista que, 30 anos depois, devolve os músicos à reflexão sobre a sua própria obra. Sem o golpe de génio dos Sparks em Plagiarism (álbum de 1997 no qual revisitavam temas do seu catálogo), este disco mostra as canções em leituras despidas da intensidade luxuriante da produção da época. Mais próximas do osso as canções traduzem assim a genética new wave dos músicos e exalam um sabor a reencontro com verdades originais. Mais um exercício de estilo que um projeto musicalmente consequente, o disco é apenas uma curiosidade, com dispensáveis novas remisturas como extra e mais um tema inédito (curiosamente o melhor instante do alinhamento). Nota para a capa, também ela uma variação interpretativa sobre a que nos trazia o disco original, em 1982.

A ato de contar uma história


O projeto nasceu de uma vontade de retratar uma realidade e de uma advertência. A realidade era a memória de esquadrões da morte que, há quatro décadas, mataram milhares de militantes e simpatizantes comunistas em Sumatra (Indonésia) sob um regime de impunidade que ainda hoje faz dos perpetradores dessas mortes figuras de tranquilo dia-a-dia. Joshua Oppenheimer soube das histórias ao caminhar por aqueles lados, as memórias do terror ainda vivendo entre os habitantes da região. Queria filmar essas memórias. Mas, advertido, optou por falar com os perpetradores e não com familiares e amigos de sobreviventes. E, para seu espanto, deram o sim ao desafio e falaram para a câmara...

Em dezembro, quando O Acto de Matar foi editado no Reino Unido o Blu-ray com este filme, que acabaria por ser eleito pela Sight + Sound como filme do ano, escrevi aqui: “O desafio lançado a esses antigos agentes de morte foi o de recriarem aquilo que aconteceu para as câmaras. Um deles, antigo vendedor de bilhetes de cinema e um auto-proclamado 'gangster' (inspirado pelos modelos que via nos filmes de Hollywod), aceita inclusivamente que se filmem as visões que lembra dos seus sonhos (mais pesadelos). Ele, que só pela suas mãos terá morto cerca de mil pessoas (estrangulando-as com arame para evitar “sujar” com sangue o local onde ocorriam as mortes), relata o que acontecia. Com ele descobrimos outros antigos líderes deste grupo, um deles hoje editor de um jornal local. Muitos destes grupos geraram um grupo paramilitar com ligações ao poder, ministros e altos funcionários surgindo nas suas reuniões e paradas. Numa momento particularmente representativo do que ali sucedeu e do modo como a violência exercida saiu impune de todo este processo, há quem comente que existe a convenção de Genebra, mas que ali há uma “convenção” de Jakarta. Fica claro que vivemos no mesmo planeta. Mas não no mesmo mundo.”

Convém recordar que o filme - que surge nas nossas salas uma semana depois do não menos impressionante A Imagem Que Falta - teve estreia entre nós na edição de 2013 do IndieLisboa. Entre as imagens acompanhamos um inesperado mergulho dos perpetradores das mortes em encenações que eles mesmos idealizam e protagonizam. Estas recriações sugerem contrastes curiosos entre um aprumado e garrido estetismo e a crueza dos atos cometidos. Curiosa é a lógica de construção narrativa operada por Oppenheimer, que coloca depois os “encenadores” (e muitas vezes atores nas suas próprias encenações) a ver os “brutos” decorrentes da rodagem, os comentários das memórias antigas somando-se ao confronto com as imagens e as sensações que desencadeiam, despertando num dos casos um regime de culpa que, mesmo assim, oficialmente, continua impune.

Há vikings em Londres! (parte 2)

Continuamos a publicação de um texto sobre a exposição ‘Vikings: Life and Legend’, patente no British Museum, que foi originalmente publicado no suplemento Q. do DN de 12 de abril com o título ‘Para acabar com a visão romântica dos vikings’.

A idade dos vikings não se explica nem esgota apenas num contexto escandinavo nem no mapa do Norte da Europa. Na introdução do catálogo que o British Museum apresenta com esta exposição, Gareth Williams (um dos seus três principais autores) observa que os vikings criaram uma rede de contactos pelos quais exerceram influências distintas junto dos diversos povos com os quais interagiam. É celebre, de resto, o exemplo da Guarda Varegue, um corpo de elite de origem viking que esteve ao serviço pessoal dos imperadores de Bizâncio entre os séculos IX e XIV. (2)
Esse mapa de trocas e contactos representa assim o primeiro módulo da exposição que, sob a designação Contacts & Exchange (contactos e trocas), dá conta da impressionante abrangência cultural e geográfica da esfera de influência viking. Os módulos seguintes, focam questões militares e a sua expansão como conquistadores, os modelos de poder (e caracterização da aristocracia que o detinha) e ainda os espaços das crenças e rituais que caracterizavam o comportamento social das comunidades escandinavas deste tempo. 

A história da palavra viking não tem um sentido único nem é precisa. No norueguês antigo, explica Gareth Williams, as palavras víkingr e viking tinham significados associados a ideias de assaltos e de pirataria. Hoje, como adverte no texto de introdução ao catálogo, a expressão é usada para referir a cultura de origem escandinava que floresceu aproximadamente entre o ano 800 e 1050. As origens da palavra são “obscuras”, diz, reparando uma possível relação com a palavra vik (baía ou recanto na costa), que ainda hoje observamos em nomes como, por exemplo, o da capital islandesa: Reykjavik. Há assim a hipótese de esta designação decorrer diretamente de piratas que usavam esses recantos para se esconder, daí saindo para atacar navios que passassem perto. O texto aponta também como possível origem uma ligação ao fjord frente a Oslo, que ainda hoje é conhecido pelo nome alternativo de viken (ou seja, a baía). O autor refere uma terceira possibilidade com uma explicação mais do foro comercial, apontando a designação latina de vicus (ou wic em inglês arcaico), designando centros de trocas nas regiões costeiras do mar do Norte, muitos deles em rios navegáveis, como Wijk bij Duurstede (Holanda), Ipswich (Reino Unido) ou até mesmo nomes antigos de cidades como Eofirwic (York) ou Lundenwic (Londres).

Não há contudo uma resposta definitiva. Gareth Williams lança mesmo hipóteses de interpretação diferentes a partir de uma possível origem a partir de uma derivação da palavra wic: “Seria o wicing original o mercado pacífico dos estudos viking posteriores a 1970” ou antes o “arquétipo do pirata” ou ainda “um estrangeiro de origem indeterminada” que visitava estes centros populacionais costeiros “para fins pacíficos ou violentos”. O autor lembra que as fronteiras entre assaltar e fazer comércio por vezes são pouco nítidas ao longo da história, como recorda por exemplo com o caso do tráfico de escravos.

A construção mais “tradicional” de uma imagem dos vikings surgiu no século XIX e passa essencialmente através de histórias de guerreiros e de incursões navais. Esta noção, explica Gareth Williams em Warefare & Military Expansion, terá as suas origens em relatos da época de origem anglo-saxónica, franca ou irlandesa, juntamente com as narrativas das sagas islandesas de finais do século XIII, contando ainda com “um elemento substancial do romantismo do século XIX”. Os estereótipos dos marinheiros violentos, com armas superiores e capazes de feitos incríveis a bordo dos seus navios, como descreve, tem na verdade um pouco de verdade e de ficção. “Os vikings nem eram invulgarmente atrozes nem universalmente bem-sucedidos em batalha” e desde os anos 1960 os historiadores interpretam as sagas de um ponto de vista mais crítico, os achados arqueológicos mais recentes tendo também contribuído para um conhecimento mais abrangente dos povos e seus comportamentos. Por isso mesmo, acrescenta o autor, o retrato exclusivamente violento dos vikings foi parcialmente derrubado por uma visão mais pacífica da sua idade dos vikings. Isto não apaga todavia a importância de aspetos militares fundamentais na caracterização das sociedades escandinavas entre os séculos IX e XI. A profusão de armas expostas no Museu Britânico evidencia, de resto, a presença clara de uma produção de objetos de ataque e defesa entre machados, espadas, arcos e flechas e escudos (um deles, particularmente raro e robusto, achado em Gokstad, na Noruega, data do século IX, é feito em madeira de pinho e tem 94 centímetros de diâmetro). O seu empunhar sublinha, naturalmente, a imagem romântica do viking guerreiro.

(2) Varegue era a designação usada pelos gregos e os eslavos de leste para referir os vikings.

Ecos de uma cultura italiana


Originalmente editado como um lado B (do single Suburbia), o tema Panninaro rapidamente se transformou numa peça de culto entre os admiradores dos Pet Shop Boys, talvez por representar um dos raros momentos de algum protagonismo vocal de Chris Lowe na discografia do duo. Panninaro acabaria por ter upgrade para single nos anos 90. Mas em 1986 o tema teria um lançamento em single exclusivo em Itália (e recorde-se que Panninaro decorre da expressão paninari, uma sub-cultura juvenil italiana) com duas remisturas. Este single é hoje uma peça disputada entre colecionadores da obra dos Pet Shop Boys.

O tema foi então acompanhado por um teledisco realizado pelos próprios Neil Tennant e Chris Lowe. Podem vê-lo aqui.

O novo filme de Clint Eastwood

Inspirado no musical homónimo da Broadway, Jersey Boys conta a história da formação do grupo The Four Seasons, referência lendária da história da música popular antes dos Beatles e... depois dos Beatles — agendado para 20 de Junho nos EUA (28 de Agosto em Portugal), é a nova realização de Clint Eastwood e tem um trailer magnífico.

Gabriel García Márquez (1927 - 2014)

Autor de Cem Anos de Solidão (1967), um dos romances de maior projecção de todo o século XX, distinguido com o Nobel da Literatura em 1982, o escritor colombiano Gabriel García Márquez faleceu na Cidade do México, a 17 de Abril, na sequência de uma infecção pulmonar — contava 87 anos.
Através dos seus títulos mais famosos, incluindo também O Outono do Patriarca (1975), O Amor nos Tempos de Cólera (1985) e O General no seu Labirinto (1989), este último uma memória romanceada do herói nacional da Colômbia, Simón Bolívar, desempenhou um papel fundamental na internacionalização, não apenas da literatura do seu país, mas também das obras de muitos autores hispano-americanos. De qualquer modo, o chamado "realismo mágico", combinando o olhar frio sobre as convulsões sociais com o apelo de uma experiência mais ou menos delirada e delirante, impôs-se como a sua imagem de marca, mesmo se o próprio a ela resistia — numa entrevista de 1988, ao New York Times, García Márquez dizia mesmo que "ninguém escolhe o seu estilo", sendo a sua escrita o resultado "do tema e do espírito do tempo", em particular tentando ecoar as condições de vida "da nossa maneira de viver, da vida nas Caraíbas".
A televisão e o cinema interessaram-se frequentemente pelos seus livros, embora, de um modo geral, com resultados muito aquém da energia peculiar da sua prosa. Os casos mais célebres de adaptações de García Márquez para o grande ecrã serão Crónica de Uma Morte Anunciada (1987), de Francesco Rosi, e O Amor nos Tempos de Cólera (2007), de Mike Newell. Evocou a sua infância e juventude em Viver para Contá-la (2002).

>>> Obituário na BBC e na CNN.




>>> Trailer de O Amor nos Tempos de Cólera (2007).


>>> Obituário no El Pais.
>>> Gabriel García Márquez no site oficial do Nobel.

quinta-feira, Abril 17, 2014

Chet Baker? Chet Faker...

Não é engano: o nome Chet Faker constitui uma humilde homenagem ao grande Chet Baker, aliás inteiramente assumida pelo seu portador. Dito de outro modo: Chet Faker é o cognome artístico do australiano Nicholas James Murphy, admirador militante do criador de Chetty's Lullaby e, como ele próprio sublinha, formado numa pedagógica mistura de jazz e Bob Dylan, com tempero dos sons Motown (dos discos da mãe) e do chill out de Ibiza (mais frequente nas prateleiras do pai).
Digamos que o resultado, patente no seu álbum de estreia — Built On Glass — integra a pluralidade e a elegância de tudo isso, devidamente administradas por uma apurada sensibilidade electrónica, além do mais servida por uma voz de sereno e invulgar dramatismo. A prova: Talk Is Cheap, num belo teledisco sobre a passagem das estações e o espírito anti-natural da mãe Natureza.

Cannes: Godard, Cronenberg, etc.

ADIEU AU LANGAGE, Jean-Luc Godard
Apetece aplicar o cliché e dizer que, de facto, a programação de Cannes envolve os suspeitos do costume... Dito de outro, a 67ª edição do maior festival de cinema do mundo (14/25 Maio) convoca uma fabulosa selecção de nomes, de Godard a Cronenberg, passando, entre outros, pelos Dardenne, Egoyan e Assayas. Eis os dezoito títulos que concorrem para a Palma de Ouro:

Olivier Assayas - SILS MARIA
Bertrand Bonello - SAINT LAURENT
Nuri Bilge Ceylan - KIS UYKUSU (SOMMEIL D'HIVER)
David Cronenberg - MAPS TO THE STARS
Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne - DEUX JOURS, UNE NUIT
Xavier Dolan - MOMMY
Atom Egoyan - CAPTIVES
Jean-Luc Godard - ADIEU AU LANGAGE
Michel Hazanavicius - THE SEARCH
Tommy Lee Jones - THE HOMESMAN
Naomi Kawase - FUTATSUME NO MADO (STILL THE WATER)
Mike Leigh - MR. TURNER
Ken Loach - JIMMY’S HALL
Bennett Miller - FOXCATCHER
Alice Rohrwacher - LE MERAVIGLIE
Abderrahmane Sissako - TIMBUKTU
Damian Szifron - RELATOS SALVAJES (WILD TALES)
Andrey Zvyagintsev - LEVIATHAN

quarta-feira, Abril 16, 2014

Ver + ouvir:
Dean Wareham, The Dancer Disappears



Não se trata exatamente de um teledisco, mas estas são imagens que a editora de Dean Wareham tem no seu canal de YouTube para acompanhar o tema que abre o álbum a solo que o músico acaba de editar entre nós.

Novas edições:
Patti Smith, Dreaming of the Prophet

Patti Smith
“Dreaming of The Prophet”
Smokin’
4 / 5

A possibilidade de editar gravações de arquivo é hoje um valor acrescentado na construção de discografias e da capacidade de comunicar velhos episódios da vida de músicos no tempo presente. Se é verdade que com a série ‘Bootleg’ de Dylan as edições conseguiram até conquistar uma rara visibilidade e até mesmo fazer números, a verdade é que muitos destes lançamentos são mais peça para saciar pequenas minorias que para impressionar tabelas de vendas. E é precisamente sob este clima de informal tranquilidade que chega aos escaparates das novidades um disco que recupera o registo de uma atuação ao vivo num pequeno clube nova-iorquino – o Bottom Line na West 4th St. em nos limites oeste do Greenwich Village - em dezembro de 1975 e que na altura teve transmissão via rádio. A noite que aqui é documentada corresponde a uma das sete que Patti Smith protagonizou naquele espaço numa altura em que editava Horses, o seu álbum de estreia (e também o primeiro álbum de uma nova geração de músicos que se preparava para fazer a revolução na música popular sob a designação punk). O alinhamento é essencialmente dominado por canções de Horses, inclui já algumas do álbum seguinte (Radio Ethiopia, que editaria em 1976) e junta versões (como Pale Blue Eyes, dos Velvet Underground) e uma série de momentos de poesia em registo spoken word. Este era o momento em que Patti Smith conquistava finalmente o seu espaço numa rádio e agora, quase 40 anos depois, é delicioso mergulho no tempo captando um momento de emergência de uma carreira. Sendo curioso verificar que, tanto tempo depois, a essência da alma que ali se mostra se mantém fiel aos princípios com os quais aqui se mostrava.

Há vikings em Londres! (parte 1)

Iniciamos hoje a publicação de um texto sobre a exposição ‘Vikings: Life and Legend’, patente no British Museum, que foi originalmente publicado no suplemento Q. do DN de 12 de abril com o título ‘Para acabar com a visão romântica dos vikings’.

Não podia ter sido mais bem escolhido caso se tratasse de um casting para um filme. Alto, robusto e de barbas claras, um funcionário do British Museum controlava as chegadas às bilheteiras daqueles que tinham feito inscrições prévias, via internet, à porta de uma nova exposição temporária sobre a idade dos vikings que, até 22 de junho, estará patente numa nova área agora inaugurada na ala Sainsbury do conjunto de edifícios que fazem a sede do museu e que assim o volta a colocar no mapa das grandes exposições mundiais, um ano depois de ali ter feito enorme sucesso uma outra dedicada ao quotidiano de Pompeia e Herculano, duas cidades romanas soterradas por uma gigantesca erupção do Vesúvio no ano 79 da nossa era.

Vikings: Life and Legend é a primeira grande exposição sobre os vikings que o British Museum apresenta em mais de 30 anos e nasce de uma parceria entre o National Museum of Denmark and the Staatliche Museen zu Berlin, em conjunto as três instituições propondo-nos um olhar sobre a idade viking (que se define num intervalo entre os séculos VIII e XI). A exposição, adverte o catálogo, não procura ser um olhar panorâmico sobre o tempo dos vikings, mas antes um reflexo do que têm sido as mais recentes descobertas arqueológicas sobre a sua presença e o seu tempo, assim como traduz o conhecimento revelado por alguns dos últimos trabalhos académicos nesta área do conhecimento. O achado recente em Weymouth (Dorset, Reino Unido) de uma vala com corpos de homens executados (1) abriu, por exemplo, novas luzes sobre os “vikings reais” (como descreve um dos press releases da exposição). O espólio achado no vale de York (com a ajuda de detetores de metais), e que corresponde ao maior achado viking desde 1840, está ali representado na íntegra, este conjunto de moedas, pulseiras e pratas sendo um exemplo da abordagem aos mais recentes trabalhos de arqueologia que a exposição traduz. Tematicamente arrumada numa sucessão de salas, a mostra tem como principais focos de atenção precisamente os achados arqueológicos, recorrendo a mapas, reconstituições e novas tecnologias ao serviço da imagem e da informação para, das peças, fazer nascer um discurso narrativo. A joia da coroa de Vikings: Life and Legend é um navio de guerra, o maior alguma vez encontrado, que domina a sala final do percurso expositivo

(1) Uma vala com 54 corpos decapitados (e 51 cabeças) foi encontrada em junho de 2009 no Ridgeway Hill em Dorset (Reino Unido), região costeira junto ao Canal da Mancha. Crê-se que sejam vikings, ali executados por anglo-saxões entre os anos 910 e 1030, depois de uma tentativa falhada de assalto por mar. Os indivíduos tinham na sua maioria idades inferiores ou à volta dos 25 anos, salvo um ou outro mais velho.

Para ouvir: Robyn + Royksopp

A sueca Robyn e os noruegueses Royksopp têm agenda comum em 2014. Não só na estrada (com uma digressão que a 13 de junho passa pelo Sonar, em Barcelona), como em disco. Juntos vão editar a 26 de maio o EP Do It Again, do qual acabam de apresentar um excerto de Monument, que será o primeiro single. 

Podem ouvir aqui.

Episódios de uma colaboração


O primeiro contacto tinha sido feito por alturas da gravação do álbum de estreia mas só se concretizou por alturas da gravação do segundo disco, em cujo alinhamento acabaria assim por entrar o tema What Have I Done To Deserve This, dueto dos Pet Shop Boys com Dusty Springfield. O entendimento entre o grupo e a cantora levou-os a continuar a colaboração, que se prolongou pela gravação de uma série de canções que seriam depois editada no álbum Reputation, do qual seriam extraídos vários singles, um deles este In Private. A canção não só é assinada como produzida pelos Pet Shop Boys.

A morte de Manuel Forjaz na TVI

O SÉTIMO SELO (Ingmar Bergman, 1957)
Porque é que o trabalho de Ingmar Bergman sobre o indizível da morte ainda hoje nos toca, perturba e interroga? Porque resiste a todas as ilusões de naturalismo, transparência e moralismo edificante. Estamos num universo visceralmente cinematográfico, bem diferente da "espontaneidade" televisiva com que foi tratada a morte de Manuel Forjaz no programa "28 Minutos e 7 Segundos de Vida" (TVI). Mais do que nunca, importa discutir o modo como esse entendimento populista da televisão insiste em menorizar a complexidade do factor humano — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Abril), com o título 'A morte que está na televisão'.

Leio nos jornais que, numa das suas derradeiras intervenções no Facebook, Manuel Forjaz escreveu estas palavras: “São bastante evidentes as semelhanças entre Victor Constâncio e uma ostra, sendo a mais importante o facto de serem os dois acéfalos.” Creio, por isso, que tem havido uma menorização humana do próprio Manuel Forjaz: afinal, ele deixou como legado uma visão política do mundo, mas a ideologia dominante instrumentalizou-o como símbolo da morte.
Tenho noção da delicadeza do assunto, quanto mais não seja porque corro o risco de confundir a discussão das práticas jornalísticas dominantes com o espaço intocável da privacidade. Nesse aspecto, aliás, não posso ocultar a perturbação que me invade quando vejo as imagens dos filhos de Manuel Forjaz a conversar sobre o seu falecido pai num programa da TVI, com José Alberto Carvalho. Não discuto a sua legitimidade, muito menos a sua sinceridade. Mas não posso deixar de perguntar: quatro décadas passadas sobre a herança humanista do 25 de Abril, que aconteceu para que, não apenas estes dois jovens, mas muitos cidadãos, assumam a sua vida privada como um facto necessariamente “social”? E em “rede”? Seja como for, no contexto breve destas linhas, o que tento focar é outra dimensão do problema. A saber: que aconteceu no jornalismo — sobretudo no jornalismo do espaço televisivo — para que até a própria morte seja invadida pela banalidade filosófica que, todos os dias, sustenta e promove o imaginário da imprensa “cor-de-rosa”?
Tento fixar-me naquilo com que, apesar de tudo, consigo lidar: as imagens e a nitidez da sua presença. Que faz com que haja jornalistas como José Alberto Carvalho a renegar todos os dias a necessidade de respeitar a complexidade do real? Que faz com que já quase não existam seres vivos na informação televisiva, mas apenas “símbolos” drasticamente redutores? No contexto da linguagem do pequeno ecrã, empurrar Manuel Forjaz para a condição de bandeira da “luta contra o cancro” é tão simplista como promover os concorrentes de A Casa dos Segredos a cruzados da “libertação sexual” — mas é isso que está a acontecer.
Há muitos anos, pouco depois do arranque das televisões privadas, participei num debate público com José Alberto Carvalho em que este modelo de jornalismo era já assunto de profundas discordâncias. Sugerindo que havia alguma má vontade face à “evolução” desse jornalismo, lembro-me do seu desabafo: “Mas porque é que é sempre a SIC que está em causa?...” De facto, ontem como hoje, não se trata de demonizar empresas. Não é, portanto, a TVI que está em causa. É, isso sim, a ideologia populista de um jornalismo que José Alberto Carvalho representa com evidente felicidade e pureza de espírito. O seu modo de estar e fazer televisão envolve, afinal, um imenso poder cultural — estas palavras são apenas para lembrar que ainda há minorias.

terça-feira, Abril 15, 2014

Cannes: o cartaz

"O seu olhar por cima dos óculos escuros torna-nos cúmplices de uma promessa de alegria cinematográfica mundial..." — são palavras de Hervé Chigioni, criador do cartaz oficial da 67ª edição do Festival de Cannes, descrevendo a pose de Marcello Mastroianni. A imagem é extraída de uma cena de Oito e Meio (1960), de Federico Fellini, e constituirá, por certo, o símbolo nuclear do certame que vai decorrer de 14 a 25 Maio.

Ver + ouvir:
Eels, Mistakes Of My Youth



Os Eels têm um novo álbum de estúdio a lançar na próxima semana. Aqui fica um dos temas do novo The Cautionary Tales of Mark Oliver Everett, em formato de teledisco.

Reedições:
Cindy Lauper, She's So Unusual

Cindy Lauper
“She's So Unusual – A 30th Aniversary Celebration”
Sony Music
3 / 5 

Foi com surpresa que a descobrimos em 1983 ao som de uma canção que, em pouco tempo, se afirmaria como um verdadeiro hino pop no feminino. Editado em 1983, o single Girls Just Want To Have Fun (um rebuçado pop com guitarras e eletrónicas em doses generosas e sob evidente protagonismo da acentuada voz girlie da cantora, acompanhado por um teledisco literalmente em sintonia com o clima que a canção sugeria) fazia de Cindy Lauper uma estrela em três tempos, como que ajustando contas com o que eram então já seis anos de tentativas de lançamento de uma carreira e que tinham passado já por um primeiro single em nome próprio em 1977 – com uma versão de You Make Loving Fun dos Fleetwood Mac – e um álbum pelos Blue Angel, banda pela qual militou na alvorada dos oitentas. She's So Unusual, o álbum que editaria também em 1983 acentuaria a mudança de “sorte” a que Girls Just Want To Have Fun a votara. É um álbum pop do seu tempo e do seu lugar. Sob evidentes marcas das tradições pop/rock e rhythm'n'blues norte-americanas, mas também atento à emergência das eletrónicas (então ainda com mais evidente expressão deste lado do Atlântico), o disco explora não apenas a personalidade mas também a versatilidade de Cindy Lauper, ora pelos terrenos de maior melancolia de um Time After Time ora pelo espaço mais festivo de She Bop (onde cruzou heranças rockabilly com novas sonoridades) ou experimentando caminhos eletrónicos para uma linguística pop de apelo clássico em All Through The Night, chamando ainda ao alinhamento uma versão de When You Were Mine. Este foi todavia um momento único na discografia de Cindy Lauper, e o álbum que se seguiu, True Colors (1986) em nada repetia o fulgor deste primeiro que, globalmente, atingiu os 22 milhões de unidades vendidas. Depois de uma digressão comemorativa em 2013, na qual a cantora regressou ao alinhamento do disco, a celebração dos 30 anos de She's So Unusual faz-se agora com uma reedição do álbum que junta extras. A versão 'standard' acrescenta novas (e dispensáveis) remisturas. A versão deluxe é mais interessante na seleção de faixas adicionais, com maquetes e registos de ensaios que nos permitem dar um mergulho pelo processo criativo por detrás de algumas destas canções.

PS. Este texto foi originalmente publicado na edição online do DN

40 anos em 40 singles

Integrado na série de edições que assinalam os 40 anos da vitória eurovisiva de Waterloo (e também o início da carreira dos Abba com esse nome) uma nova caixa antológica deverá em breve ver a luz do dia. Depois de ter lançado uma caixa com os álbuns (e extras) e uma outra com miniaturas de singles em CD, agora chega uma outra, com 40 singles da sua obra reeditados em vinil. Aqui fica o alinhamento completo desta caixa que tem lançamento agendado para o dia 5 de maio (preço na amazon a 165,99 libras):

1. People Need Love / Merry-Go-Round
2. He Is Your Brother / Santa Rosa
3. Ring Ring (versão sueca) / Åh, vilka tider
4. Ring Ring (versão inglesa) / She’s My Kind of Girl
5. Love Isn’t Easy (But It Sure Is Hard Enough) / I Am Just A Girl
6. Ring Ring (versão alemã) / Wer Im Wartesaal der Liebe steht
7. Waterloo (versão sueca) / Honey, Honey (versão sueca)
8. Waterloo (versão inglesa) / Watch Out
9. Waterloo (versão alemã) / Watch Out
10. Waterloo (versão francesa) / Gonna Sing You My Lovesong
11. Honey, Honey / King Kong Song
12. Honey, Honey / Ring Ring (remix)
13. So Long / I’ve Been Waiting For You
14. I Do, I Do, I Do, I Do, I Do / Rock me
15. SOS / Man In The Middle
16. Mamma Mia / Intermezzo No.1
17. Fernando / Hey, Hey Helen
18. Dancing Queen / That’s Me
19. Money, Money, Money / Crazy World
20. Knowing Me, Knowing You / Happy Hawaii
21. The Name Of The Game / I Wonder (Departure)
22. Take A Chance On Me / I’m A Marionette
23. Eagle / Thank You For The Music
24. Summer Night City / Medley: Pick A Bale of Cotton – On Top Of Old Smokey – Midnight Special
25. Chiquitita / Lovelight
26. Chiquitita (versão espanhola) / Lovelight
27. Does Your Mother Know / Kisses of Fire
28. Voulez-Vous / Angeleyes
29. Estoy Soñando (versão espanhola de I Have A Dream)/ Does Your Mother Know
30. Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight) / The King Has Lost His Crown
31. I Have A Dream / Take A Chance On Me (live)
32. The Winner Takes It All / Elaine
33. Super Trouper / The Piper
34. Happy New Year / Andante, Andante
35. Lay All Your Love On Me / On And On And On
36. One Of Us / Should I Laugh Or Cry
37. Head Over Heels / The Visitors
38. When All Is Said And Done / Soldiers
39. The Day Before You Came / Cassandra
40. Under Attack / You Owe Me One

Para ouvir:
Owen Palett + Daphni, Julia



Owen Pallett e Daphni (ou sejak, Dan Snaith dos projetos Caribou e Manitoba) uniram esforços num single editado a meias. Este é um dos temas que ali podemos ouvir.

Pet Shop Boys... na televisão

A primeira edição em formato vídeo na obra dos Pet Shop Boys apresentou-se em 1986 sob o título Television. Ali se juntavam os telediscos dos quatro singles extraídos do álbum de estreia (com as duas versões de Opportunities) mais uma série de excertos de atuações televisivas que o grupo apresentara em estações alemãs, japonesas, holandesas, norte-americanas e britânicas. Com este alinhamento Television nunca teve edição em DVD.

segunda-feira, Abril 14, 2014

"Gone Girl": o cartaz

Apesar das informações em rodapé, não é exactamente uma imagem de um noticiário da Fox News... mas o primeiro cartaz do novo filme de David Fincher: Gone Girl. E o menos que se pode dizer é que, na sua contida frieza, se revela visceralmente cúmplice do espírito do romance de Gillian Flynn. Com Ben Affleck e Rosamund Pike — estreia americana a 3 de Outubro.

Ver + ouvir:
Lana del Rey, West Coast



Lana del Rey acaba de apresentar aquele que é o seu novo single. Estas imagens não representam um teledisco mas acompanham o tema que surgirá no alinhamento de um novo álbum. Diferente do que se esperava, não?... Não é lá muito entusiasmante... Mas talvez ainda cedo para tecer mais considerações.

Novas edições:
Clã, Corrente

Clã 
“Corrente” 
ed. Autor / Parlophone 
4 / 5 

Pelo que nos contaram nas entrevistas que acompanharam o lançamento do seu sétimo álbum de estúdio os Clã debateram internamente a ideia de voltar aos discos tal e qual até aqui os conhecíamos (ou seja, antes do advento de uma nova forma de consumir música que se expressa tanto nos comportamentos do mercado da música gravada no nosso tempo como pela mudança de hábitos que o digital trouxe a este universo). Chegaram à conclusão que valia a pena continuar a fazer discos. E ainda bem que assim o entenderam, representando Corrente mais um seguro episódio numa das mais notáveis discografias que a cultura pop made in Portugal tem conhecido. Três anos depois de um Disco Voador que os fez experimentar outros caminhos (e sobretudo outros públicos), Corrente surge assim como o natural sucessor de Cintura (2007) e do maravilhoso Rosa Carne (disco de 2004 animado por uma lógica temática mais focada, poderemos dizer concetual?), a obra-prima da discografia dos Clã até este momento. Trata-se acima de tudo de um disco de natural reencontro com o tutano da alma central que tem caracterizado a obra de um grupo de vistas musicais sempre largas e desde cedo aberto ao diálogo com vários letristas. Assim, e a habituais colaboradores como Sérgio Godinho, Arnaldo Antunes ou Carlos Tê, entre outros, juntam agora as presenças de Samuel Úria e Nuno Prata, alargando um mapa de referências que, pela música (e, convenhamos, o poder tremendo da voz interpretativa de Manuela Azevedo), não perde nunca um sentido de corpo uno e coerente. Corrente pode não representar um momento ímpar como o que os Clã nos deram no disco de há dez anos. Mas assinala um reencontro bem nutritivo com o rumo central da sua obra. E assim vale a pena continuar, já que o melhor da pop que se faz entre nós continua a passar por aqui.

PS. Este texto foi publicado na edição online do DN

Clássicos da Eurovisão:
Domenico Modugno (1958)


A um mês da edição 2014 do Festival da Eurovisão vale a pena lembrar que nem sempre o concurso foi coisa de anorética dieta de ideias. É certo que raramente lançou novas ideias musicais e convém ter em conta que sempre foi um espaço para a canção ligeira (e nada de errado com isso!)... Mas houve tempos em que não só juntava nomes de relevo como também canções com pés e cabeça capazes de ajudar a contar a história do ano pop(ular) em curso para além da noite do desfile de concorrentes e dos votos logo a seguir. É bem verdade que o crescimento da fatia pop/rock no grande mercado discográfico a partir dos anos 60 foi afastando gradualmente o certame do gume das atenções dos compradores de discos, até que em meados dos oitentas o divórcio se tornou demasiado evidente e o desinteresse de quem canta, edita e divulga música mergulhou o Eurofestival numa espiral descendente que, salvo em pontuais momentos, não mais mostrou capacidade de inscrever as canções na agenda dos acontecimentos do ano. A chegada dos países de Leste nos noventas revitalizou entusiasmos no lado de lá da Europa, ao mesmo tempo que na euro-zona eurovisiva tradicional o concurso, mesmo mantendo um apelo televisivo popular, começava a gerar um fenómeno de culto. Há por isso uma história musical e também sociológica do fenómeno eurovisivo por fazer.

Não é essa a ideia que aqui lançamos. Mas vamos recordar algumas canções que aqui nasceram. Talvez mais antigas que mais recentes. Mas que mostram como por este concurso passaram alguns momentos que vale a pena não deixar de inscrever na história da canção popular.

Começamos com uma viagem a 1958. Era o terceiro ano em que se realizava o Festival da Eurovisão. E, sem a presença do Reino Unido, este foi, juntamente com o concurso de 1956, um dos dois em que não se escutou qualquer canção em língua inglesa. A vitória sorriu ao francês André Claveau, com Dors Mon Amour. Mas a canção que fez carreira global depois do concurso foi a representante da Itália. Cantada por Domenico Modugno (e vencedora em San Remo), Nel Blu Dipinto Di Blu, depois universalmente conhecida como Volare, tornou-se de resto no primeiro êxito maior com berço eurovisivo.

A canção ganhou outras vidas depois da versão original, sendo gravada por inúmeras outras vozes. David Bowie assinou em 1986 uma das versões para a banda sonora do filme Absolute Beginers, de Julian Temple.

Podem recordar aqui o momento em que Domenico Modugno apresentou a canção, em 1958.

Para ouvir:
Blondie, segundo os Arcade Fire

Os Arcade Fire continuam a surpreender as plateias que os vão visitando no decurso da corrente digressão. As surpresas chegam habitualmente na forma de versões que incorporam no alinhamento dos concertos. Há dias, em Hosuton (Texas) apresentaram uma leitura de Heart of Glass, dos Blondie.

Podem ver (e ouvir) aqui, através do Radio.com.




Um single quase "esquecido"

Além de DJ Culture, os Pet Shop Boys lançaram em 1991 um segundo single inédito originalmente aprensentado no alinhamento do 'best of' Discography que então apresentaram. Was It Worth It? Foi editado a 45 rotações em dezembro de 1991 contando com Miserabilism no lado B (este sendo um dos seus melhores B sides da sua obra e tema que justificava até uma troca de lugares com o tema central do single). Apesar de ter resultados aceitáveis, foi o primeiro single do grupo, desde o sucesso obtido em 1986, a não chegar ao Top 20 no Reino Unido.

domingo, Abril 13, 2014

A versão digital de Noé

Darren Aronofsky está longe de conseguir reavivar o espírito do clássico filme bíblico: o seu Noé tem mais a ver com as rotinas televisivas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Abril), com o título 'A nova Arca digital'.

As notícias que chegam dos EUA, sobre a “polémica” em torno do filme Noé, de Darren Aronofsky, não podem deixar de suscitar uma irónica surpresa. De facto, a ousadia filosófica e argumentativa do projecto é tão rica (e, sobretudo, tão pobre...) como a rotina tele-dramática com que deparámos, recentemente, em O Filho de Deus, a série com Diogo Morgado “transformada” em objecto de cinema.
Em boa verdade, se andamos à procura de alguma ousadia para lidar com o texto bíblico, criando um grande espectáculo banhado por uma sensualidade que recusa reduzi-lo a um banal caderno de encargos “demonstrativos”, basta ver a admirável herança de Cecil B. DeMille, nomeadamente através das duas versões de Os Dez Mandamentos (1923 e 1956) ou Sansão e Dalila (1949). Isto para já não falarmos do misto de energia lúdica e risco de espectáculo que encontramos em algumas superproduções dos anos 60 como O Rei dos Reis (1961), de Nicholas Ray, ou A Bíblia (1966), de John Huston.
O trabalho de Aronofsky é tanto mais limitado quanto reflecte o drama conceptual deste cinema descendente dos valores tecnológicos de O Senhor dos Anéis. Aliás, a aplicação dos efeitos digitais, para além de não garantir a simples dramatização do espaço, falha na valorização narrativa de alguns elementos tão fundamentais como os animais da Arca, reduzindo-os a figurantes banais que nem sequer têm direito a grande visibilidade.
Fica um dado sociológico e político que vale a pena sublinhar: parece haver um certo empenho de alguns sectores religiosos no sentido de relançar os temas bíblicos no espaço do cinema e, genericamente, do audiovisual. Infelizmente, através de filmes como Noé, não se faz justiça nem à riqueza dos textos bíblicos nem às mais nobres tradições de Hollywood.

Um ciclo quase concluído


Eis que surge o décimo volume de uma das mais aclamadas “integrais” (ainda em construção) da obra sinfónica de Shostakovitch. Interpretadas pela Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, sob direção do russo Vasily Petrenko, estão já gravadas e editadas em disco 14 das 15 sinfonias que o compositor assinou entre 1924 e 1971, faltando apenas lançar um registo da Sinfonia Nº 13. Esta série, que Petrenko e a orquestra de Liverpool têm vindo a editar pelo catálogo da Naxos desde 2009 acolhe agora a Sinfonia Nº 14, originalmente estreada em 1969 e dedicada a Benjamin Britten, que a dirigiria numa interpretação no Reino Unido um ano após a sua primeira apresentação (na então Leninegrado), durante a edição de 1970 do festival de Aldeburgh. Mais próxima de uma ideia de ciclo de canções que do mais “tradicional” formato de uma sinfonia, a 14ª de Shostakovich parte de 11 poemas para deles fazer nascer uma obra orquestral e vocal. As palavras são assinadas por nomes como os de Frederico Garcial Lorca. Guillaume Apolinnaire, Wilhelm Küchelbecker e Rainer Maria Rilke, entre elas surgindo retratos e reflexões sobre a morte. Em 1969 o compositor descreveu a obra como uma luta pela libertação da humanidade, assim como “um protesto contra a morte e uma chamada de atenção para que se faça uma vida honesta, decente e nobre”. Tendo em mente, originalmente, a composição de uma oratória, Shostakovich acabaria por criar a partir destes poemas uma sinfonia para vozes, cordas e percussão. Nesta nova gravação Petrenko junta a si e à orquestra as vozes de Gal James (soprano) e Alexander Vinogradov (barítono), a estes cabendo um reencontro com as tradições dos textos para russo, tal e qual se escutou na estreia da sinfonia, em 1969.