quarta-feira, dezembro 13, 2017

As imagens e o actual clima sexual

BALTHUS
Thérèse Dreaming (1938)
De que falamos quando falamos da percepção pública das imagens? Ou ainda: quando é que a vida pública das imagens bloqueia a vontade de conhecer? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Dezembro), com o título 'O actual clima sexual'.

Nestes tempos em que tudo se “globaliza”, sentimo-nos perturbados pelo que, estando longe de nós, afinal parece imiscuir-se no nosso quotidiano, baralhando evidências e certezas. Por exemplo, que está em jogo quando, dos EUA, surge uma petição contra a exposição de um quadro de Balthus (Thérèse Dreaming, 1938) nos salões do Metropolitan Museum of Art (MET)?
Sabemos que os protestos se “fundamentam” no facto de o quadro figurar uma jovem numa pose que contribui para uma visão “romântica” do voyeurismo, reduzindo as crianças a “objectos”. Os assinantes da petição (perto de 12 mil) argumentam que tal não se justifica tendo em conta “o actual clima em torno das agressões sexuais”.
REMBRANDT
Auto-retrato (1652)
Escusado será dizer que o episódio possui algum valor sintomático. E não apenas por causa do “actual clima” (refira-se que o MET recusou satisfazer a petição). Sobretudo porque as suas componentes são reveladoras de uma percepção muito frequente, porventura dominante, das imagens e da sua existência pública: em muitos circuitos de (des)informação, deixou de ter qualquer relevo o facto de haver uma história humana das imagens, das grutas de Lascaux às piscinas de David Hockney, passando pelos auto-retratos de Rembrandt — as imagens apenas existem em função dos efeitos “perniciosos” que alguém lhes possa atribuir.
Há em tudo isso uma renúncia existencial infinitamente mais perturbante que qualquer imagem. Porquê? Porque o que está em causa nada tem a ver com os jogos florais de “pureza” ou “impureza” que adquirem imediata visibilidade mediática. O que está em causa implica uma metódica desqualificação de qualquer gesto artístico, negando todas as componentes fantasmáticas da natureza humana, como se Shakespeare, Goya, Dostoyevski, Freud e Buñuel nunca tivessem existido — ou devessem ser interditos à nossa humaníssima vontade de conhecer.
Este é, afinal, o mesmo mundo em que o Big Brother e seus derivados televisivos todos os dias promovem uma visão grosseira, mecanicista e performativa da sexualidade (feminina e masculina), sem que se assista a grandes indignações da parte da classe política ou dos vigilantes dos bons costumes. No limite, podemos vir a ser forçados a renegar determinadas obras por causa das “associações” daquela mentalidade liofilizada. Alexandre Nevsky (1938), por exemplo — tendo em conta que o filme foi encomendado pelo líder comunista Josef Staline, responsável pelo genocídio de milhões de pessoas, devemos evitar qualquer contacto com a obra-prima de Sergei Eisenstein?
EISENSTEIN
Alexandre Nevsky (1938)

terça-feira, dezembro 12, 2017

"O VIH ainda anda por aí" — uma campanha

A mais recente campanha dos preservativos Masculan segue o lema "O VIH ainda anda por aí. Use preservativos para apoiar a luta global". Provém da Alemanha e foi concebida pela agência Mayd, de Hamburgo — didactismo, sofisticação, imagem e pensamento sobre a imagem.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

O Natal de Paddington

* PADDINGTON 2, de Paul King
[DN, 07-12-17]

Adaptado dos livros do inglês Michael Bond (1926-2017), o filme Paddington, lançado em 2014, era um brilhante exemplo de cinema de fábula, inteligentemente ligado ao imaginário dos “animais que falam”, além do mais testemunhando a sofisticação técnica de que os estúdios britânicos são capazes. O menos que se pode dizer da sequela é que mantém todos esses padrões, sabendo prolongar a história do ursinho Paddington, agora já perfeitamente integrado na família Brown que o acolheu e, mais do que isso, no respectivo bairro. Ben Whishaw volta a dar voz a Paddington, regressando também Sally Hawkins, Hugh Bonneville e Julie Walters. De qualquer modo, o destaque vai para o misto de exuberância e auto-ironia com que Hugh Grant interpreta o “mau da fita”, emprestando novos significados ao cor-de-rosa...

The Gift em câmara lenta

Niv Novak é um fotógrafo e artista videográfico de Melbourne que, através do projecto "Extension", se tem dedicado ao registo de imagens de alta definição, em câmara hiper-lenta, de performances de bailarinos de The Australian Ballet. Algumas dessas imagens servem de matéria ao novo e deslumbrante teledisco de The Gift, para a canção You Will Be Queen, do álbum Altar. Resultado: a certeza de que a lentidão é o mais veloz dos instrumentos criativos — nas imagens e também na música.

A aventura virtual de Spielberg

Sabíamos que Steven Spielberg tem um novo filme, The Post, que iremos encontrar, por certo, na corrida aos Oscars (4 Março 2018). Sabíamos também que esse filme surgiu no "intervalo" da longa produção de um outro, apresentado no Comic Con, em San Diego: Ready Player One, inspirado no romance de Ernest Cline. Na altura, foi divulgado o chamado "teaser trailer"; agora, surge o primeiro trailer oficial, convocando-nos para uma aventura decididamente virtual — 30 de Março nos EUA (um dia antes na maior parte dos países europeus, incluindo Portugal).

domingo, dezembro 10, 2017

Conflito [citação]

>>> Quando o Facebook finalmente admitiu que houve anúncios pagos por agentes russos em 2016, foi dito que o seu conteúdo envolvia sobretudo "mensagens sociais e políticas divisionistas". Funcionavam como amplificadores de contestação, gasolina deitada para os fogos em torno de Deus, armas, raça, direitos LGBT, imigração. E os anúncios visavam ambos os lados: o objectivo não era tanto a conversão como a promoção do conflito como um fim em si mesmo.

NANCY GIBBS
in 'How America became so divided'
in Time, 28-11-17

"O Quadrado" domina
Prémios Europeus de Cinema

Com distinções em seis categorias, incluindo melhor filme e melhor comédia de 2017, O Quadrado, de Ruben Östlund, foi o principal vencedor da 30ª edição dos prémios da Academia Europeia de Cinema — recorde-se que o filme já arrebatara a Palma de Ouro de Cannes, sendo também o candidato sueco a uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

FILME
O Quadrado, de Ruben Östlund (Suécia)

COMÉDIA
O Quadrado, de Ruben Östlund

REVELAÇÃO (Prémio FIPRESCI)
Lady Macbeth, de William Oldroyd (Reino Unido)

DOCUMENTÁRIO
Communion, de Anna Zamecka (Polónia)

FILME DE ANIMAÇÃO
A Paixão de Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman (Polónia/Reino Unido)

CURTA-METRAGEM
Timecode, de Juanjo Giménez (Espanha)

REALIZAÇÃO
Ruben Östlund, por O Quadrado

ACTRIZ
Alexandra Borbély, em Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi (Hungria)

ACTOR
Claes Bang, em O Quadrado

FOTOGRAFIA (Prémio Carlo Di Palma)
Michail Krichman, por Loveless, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)

MONTAGEM
Robin Campillo, por 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo (França)

CENOGRAFIA
Josefin Åsberg, por O Quadrado

GUARDA-ROUPA
Katarzyna Lewińska, por Spoor, de Agnieska Holland e Kasia Adamik (Polónia)

CARACTERIZAÇÃO
Leendert van Nimwegen, por Brimstone - Castigo, de Martin Koolhoven (Holanda)

MÚSICA
Evgueni e Sacha Galperine, por Loveless

SOM
Oriol Tarragó, por Sete Minutos Depois da Meia-Noite, de J. A. Bayona (Espanha)

PRÉMIO DE CARREIRA
Aleksandr Sokurov (Rússia)

FIGURA INTERNACIONAL
Julie Delpy (França)

CO-PRODUÇÃO (Prémio Eurimages)
Cedomir Kolar (França)

PRÉMIO DO PÚBLICO/filme europeu do ano
"Stefan Zweig: Adeus, Europa", de Maria Schrader (Alemanha)

Son Lux — do lado do sonho

Son Lux, alter-ego artístico do músico Ryan Lott (Denver, Colorado) vai lançar um novo álbum, quinto da sua discografia: chama-se Brighter Wounds e estará nas lojas a 9 de Fevereiro de 2018. Entretanto, somos presenteados com um primeiro single, Dream State, extraordinário exercício de montagem e remontagem sonora, num universo de superfícies ásperas, paradoxalmente capazes de acolher a transparência da voz — como o lyric video confirma, esta é uma canção em que as memórias são tanto mais verdadeiras quanto estão do lado do sonho.

"Sociologia" e cinema português

Dois filmes portugueses encenam histórias de juventude, lutando por se colarem a algo de concreto do seu/nosso tempo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Dezembro), com o título 'Filmes e espectadores portugueses'.

Para além das suas diferenças internas, o cinema português sempre suscitou uma curiosa pergunta “sociológica”: até que ponto os filmes reflectem temas e problemas do próprio tempo em que foram gerados? Com a estreia simultânea de O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, e Verão Danado, de Pedro Cabeleira, o mínimo que se pode dizer é que somos mobilizados para uma mesma evidência, absolutamente contemporânea: o consumo de drogas pela juventude.
Claro que a própria formulação temática é discutível: que realidade recobrimos, ou julgamos definir, através dessa generalização simplista que é a palavra “juventude”? Acima de tudo, importa não exigir aos filmes que se definam como um daqueles debates televisivos, mais ou menos gritados, em que não se sai de abstracções pueris, irremediavelmente equívocas. Infelizmente, o programa narrativo de qualquer um dos novos filmes não propõe nada de muito consistente.
O imaginário simbólico de O Fim da Inocência provém mesmo das matrizes correntes de alguma ficção televisiva, de natureza “novelesca” (integrando, aliás, alguns dos seus rostos mais típicos). Estamos perante uma ficção de estereótipos, em que, desde a classe social ao perfil psicológico, cada personagem é quase sempre um “tipo”, não uma pessoa.
Verão Danado tenta contrariar esse modelo através da injecção de alguma pulsação de “reportagem”, como se a acumulação redundante de cenas idênticas correspondesse a algum tipo de intensificação dramática. Dir-se-ia que se confunde a repetição “documental” de situações com a criação de uma consistente estrutura narrativa — problema tanto maior quanto o trabalho específico dos actores parece procurar apenas uma esquemática sensação de “improviso”.
Escusado será dizer que estamos perante dois filmes que importa ver e pensar. Muito para além de qualquer dicotomia fácil (“bom/mau”), os filmes existem como acontecimentos do presente que com eles partilhamos: de forma reflectida ou reflexiva, vêm inscrever-se numa dinâmica social e cultural a que todos pertencemos (Verão Danado está mesmo a conseguir um significativo impacto internacional, tendo recebido uma menção especial na secção “Cineastas do presente” do Festival de Locarno).
Dir-se-ia que O Fim da Inocência e Verão Danado existem no cruzamento de uma vontade e um bloqueio: vontade de olhar o mundo (português) à sua volta, bloqueio de projectos a que falta um conceito sólido de narrativa. No fundo, enfrentam a mesma questão: como estabelecer alguma relação com os espectadores?

sábado, dezembro 09, 2017

"Desespero global" [citação]

[FOTO: Jake Walters]
>>> O seu novo álbum chama-se Low in High School. Está preocupado com os jovens de hoje?
Sim. Com líderes mundiais como Problema Trump e Theresa May, devemos perguntar-nos se, de facto, a geração universitária tem cabeça. Este desespero global só pode esmagar os jovens... e talvez seja essa a intenção?

MORRISSEY
Entrevista a Rob Sheffield
in Rolling Stone, 08-12-17

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Björk: "a utopia é aqui"

Animal ou alien? Depois de The Gate e Blissing Me, Björk continua a convocar-nos para paisagens utópicas, translúcidas e enigmáticas, de um primitivismo que se quer também futurista. Como é sabido, o novíssimo álbum (nono da discografia) chama-se Utopia — eis é a canção-título, em teledisco assinado por Warren Du Preez e Nick Thornton Jones. Mensagem linear: "a utopia é aqui". 

Bird species never seen or heard before
The first flute carved from the first fauna

Utopia
It’s not elsewhere
Let's purify

You assigned me to protect our lantern
To be intentional about the light

Utopia
It isn't elsewhere
It’s here

My instinct has been shouting at me for years
Saying, "Let’s get out of here!"
Huge toxic tumour bulging underneath the ground here
Purify, purify, purify, purify toxicity

Abel Ferrara, um americano na Europa (2/3)

Abel Ferrara em Piazza Vittorio
Abel Ferrara regressou a Portugal para, no LEFFEST, apresentar os seus dois filmes mais recentes: Alive in France e Piazza Vittorio — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (27 Novembro), com o título '“Na Europa encontro compaixão e um sentido da cultura"'.

[ 1 ]

[Elsinor]

Há cada vez mais filmes que as pessoas vêem “streaming”.
Absolutamente.

Será que se está a perder algo da relação clássica com o cinema?
Tenho sentimentos contraditórios. Não creio que seja uma questão de perda. E é verdade que, mesmo na Internet, se pode obter uma boa qualidade de imagem. No fundo, a questão é saber como é que o trabalho artístico pode continuar — como é que os fulanos que fazem filmes podem... continuar a fazer filmes. Porque, por vezes, as pessoas andam a roubar esses filmes que custaram dinheiro. E, no entanto, a Internet podia ser um grande elo ligação dos artistas com os espectadores, numa partilha planetária.

No seu caso, como é que vê filmes?
Quando venho a festivais, tento ver filmes. Vejo-os também no meu computador e, como dou aulas, vejo muitos filmes com os meus alunos — aproveito todas as oportunidades.

Recentemente, fez algumas boas descobertas?
Sim, sem dúvida. Serão, sobretudo, filmes que pouca gente viu, coisas como uma curta de 10 minutos feita por um miúdo de 19 anos que passou, algures, num festival... E tenho alunos que são mesmo muito bons. Além do mais, não vejo televisão, pelo que não estou a seguir todas essas séries que agora se fazem. Na verdade, o que faço mais é ler — faça-me perguntas sobre livros.

O que é que anda a ler?
Solzhenitsyn. Svetlana Alexievich — o livro dela sobre Chernobyl é qualquer coisa de poderoso.

E o seu novo filme, Piazza Vittorio, como é que o apresentaria?
É um documentário sobre a zona de Roma em que vivo: a Piazza Vittorio, perto de Santa Maria Maggiore, onde, em 1948, Vittorio De Sica filmou Ladrões de Bicicletas. É uma zona multi-étnica, um pouco à maneira de Nova Iorque, com muitos emigrantes, especialmente agora, vindos de África e da Europa de Leste, muitos deles vítimas de guerras terríveis. Digamos que tento fazer um pouco aquilo que faz Svetlana Alexievich: dar a palavra às pessoas, deixá-las falar.

[Vittorio De Sica]
Quer isso dizer também que decidiu viver na Europa?
Vim cá fazer um filme, encontrei Christina, tivemos um bebé (tenho uma menina com dois anos e meio) — a minha escolha é a Europa. Não compreendo o que está a acontecer nos EUA, especialmente em Nova Iorque, a “cidade que nunca dorme”, etc. Talvez tenha chegado ao meu limite, talvez precisasse de alguma mudança. É certo que ainda o mês passado estive lá a filmar... O ar tornou-se insuportável, a comida é péssima, os preços estão completamente fora de controle, a cidade foi entregue aos ricos, é uma espécie de recreio para os que querem roubar dinheiro ao mundo todo — está tudo bem se se tiver uma carrada de dinheiro, mas não é essa a minha cena.

Será que a “sua” Nova Iorque já não existe?
Nova Iorque muda todos os dias. Além do mais, eu sou do Bronx, que é outra Nova Iorque...

E o que é que encontra de tão especial na Europa?
Encontro compaixão, um sentido da cultura... As coisas aqui têm dois ou três mil anos; o meu país tem uma história de 300 ou 400 anos, está ainda a descobrir o que é ou pode ser. Aqui, não é a procura do lucro que comanda: encontro respeito pela vida, pelos lugares, de umas pessoas pelas outras. Em última instância, tem a ver com o modo como se coloca luz numa sala — quem iluminou esta sala fê-lo respeitando as pessoas que se vão aqui sentar.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Que está a acontecer aos U2?

Subitamente, Bono aparece de megafone no Saturday Night Live [video], liderando os U2 em American Soul, uma das novas canções da banda — e tudo aquilo parece, não apenas musicalmente débil, mas inapelavelmente falso... Que está a acontecer aos U2? Porque é que toda a expectativa positiva em relação ao novo álbum, Songs of Experience, se desfaz perante a académica "revisão da matéria dada" que nos é proposta?
Dir-se-ia que cada uma das canções do álbum, da balada à celebração épica, não consegue aguentar a comparação com outros temas que, ao longo das décadas, os U2 assinaram. Na sua ambição de hino de estádio (“You! Are! Rock’n’roll!”) não é America Soul uma triste variação da energia musical de Where the Streets Have No Name, além do mais com uma imaginação poética claramente menor? E a singeleza de Summer of Love não está a anos-luz da vibração interior de digressões intimistas como One ou The Fly?
É bem verdade que Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. não podem andar toda a vida a tentar refazer Achtung Baby (1991). Aliás, não é esse o problema e ninguém irá proclamar que, de repente, o colectivo perdeu talento e know how. O problema é que, depois da longa e insólita gestação que se seguiu a Songs of Innocence (2014), Songs of Experience parece esgotar-se num grito de desespero: "Reparem que ainda somos os U2..." Não era preciso avisarem-nos — só esperamos que o sejam mesmo, em vez de imitarem aquilo que o marketing definiu como a sua imagem de marca.


>>> Site oficial dos U2.

A "democracia" do IMDb



A "democracia" do IMDb é um contínuo método de apagamento da memória. Em nome da "abertura" que transforma qualquer cidadão em "historiador" do cinema (aliás, repetindo o método — ou a falta de método — que marca muitos espaços informativos online), milhões de cidadãos são todos os instantes confrontados com uma hierarquização numérica dos filmes que ignora tudo o que possa ser contexto, linguagem ou narrativa.
Exemplo com que deparei recentemente: enquanto muitos "blockbusters" recentes são consagrados com médias (?) acima dos 7,5 pontos, há preciosidades esmagadas por classificações abaixo, por vezes muito abaixo, de tal valor — Homem de Ferro (2008) segue alegremente com 7,9, enquanto o clássico Cheyenne Autumn/O Grande Combate (1964), de John Ford, fica pelos 6,8...
Se recordarmos que Cheyenne Autumn é, não apenas um título nuclear na vaga de "westerns" críticos da década de 60, mas uma obra indispensável para compreender as convulsões que marcam o fim do período clássico de Hollywood, corremos o risco de ofender as "maiorias" que o IMDb promove — a não ser que o conhecimento tenha passado a ser uma mera questão de acumulação aritmética.
Dir-se-á: Homem de Ferro recebeu votos de 763.694 visitantes do IMDb, enquanto o filme de Ford só interessou 4117 espectadores... et pour cause.