domingo, Novembro 23, 2014

Marine Vacth de frente para a luz

O fotógrafo francês Arnaud Pyvka é autor de uma obra que se distingue por um "erro" fascinante: regra geral, ele fotografa os seus protagonistas aplicando-lhes um flash de frente, um pouco à maneira do amador menos informado que não pressente que, desse modo, poderá desfigurar desagradavelmente os seus eleitos... Enfim, nada é assim tão linear ou automático, e até mesmo a lei estética aparentemente mais sólida pode ser discutida. Uma prova eloquente da sofisticação do trabalho de Pyvka é o seu recente portfolio, encomendado pela revista Air France Madame — Marine Vacth, a notável protagonista de Jovem e Bela, de François Ozon, enfrenta a luz, literalmente, emergindo como personagem tão próxima quanto diáfana de uma nostalgia que é, de uma só vez, fotográfica e cinematográfica.

Beyoncé ou a arte dos fragmentos

Não é fácil: encenar o ritmo contagiante de uma performance musical, fragmentando obsessivamente as imagens, mas sem perder a consistência narrativa e a lógica do espectáculo. É o que consegue Beyoncé no teledisco de uma nova canção, 7/11, num misto de precisão e euforia — Blue Ivy Carter, a filha de Beyoncé e Jay-Z, aparece aos 58 segundos.

sábado, Novembro 22, 2014

"Hunger Games" ou a ideia de franchise

O novo episódio de Hunger Games (A Revolta - Parte 1) arrasta a pergunta mais fria: que fazer com uma franchise cinematográfica? Ou ainda: como escapar à lógica do marketing mais alheado do gosto do cinema? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Novembro), com o título 'O impasse de uma "franchise"'.

A continuação da saga futurista Hunger Games confirma que o conceito de franchise passou a dominar zonas importantes da produção cinematográfica — e também, logicamente, dos mercados. Na prática, vamos assistindo ao empobrecimento da noção clássica de “série” (ou serial). A “série” apresentava-se organizada a partir de uma linha narrativa consistente, determinante em todos os elementos factuais ou simbólicos. A franchise é, sobretudo, uma ideia de marketing — e convenhamos que os profissionais do marketing nem sempre se têm distinguido por gostos genuinamente cinéfilos (Steven Soderbergh acha mesmo que muitos deles, além de não terem o hábito de ver filmes, não gostam de cinema).
Que aconteceu, então, com Hunger Games? Algo que também já afectou (com resultados calamitosos) Harry Potter ou Twilight: a tentativa de prolongar a duração comercial da saga, dilatando para dois filmes aquilo que, inicialmente, estaria vocacionado para ser apenas um (A Revolta – Parte 2 está agendado para Novembro de 2015).
O resultado faz perder intensidade à premissa fundadora — os jogos entre jovens, encenados como um espectáculo cruel de reality TV —, reduzindo quase tudo a um confronto maniqueísta entre os “rebeldes” e o “Capitólio”. Claro que reencontramos algum excelente trabalho cenográfico, em particular na figuração dos destroços da guerra. No papel de Katniss Everdeen, Jennifer Lawrence volta também a mostrar os seus recursos dramáticos, não faltando alguns notáveis actores em papéis secundários, como Julianne Moore ou Philip Seymour Hoffman (num dos seus derradeiros trabalhos). Ainda assim, permanece uma sensação de impasse num cinema que, no plano artístico, ganharia em ser menos controlado pelos gabinetes dos executivos.

Nick Cave: memórias de 1978



Foi assim que Nick Cave se estreou em disco. Antes de mudar de nome para The Birthday Party, o grupo que lhe deu primeiros episódios de visibilidade surgiu originalmente num par de singles e um primeiro álbum editados sob o nome The Boys Next Door.

Este foi o primeiro single. Uma versão de These Boots Are Made For Walkin' um clássico de Lee Hazelwood que ganhou voz através da célebre primeira versão gravada por Nancy Sinatra. Em clima new wave, mas a anunciar alguma (saudável) inquietude, era assim NIck Cave, em 1978.


Hoje à noite no Espaço Nimas

A propósito de Nick Cave posso acrescentar aqui que estarei mais logo, pelas 21.45, juntamente com a Rita Redshoes, a apresentar a sessão da noite do filme Nick Cave: 20.000 Dias na Terra, no Espaço Nimas, em Lisboa.


Em conversa: Arto Lindsay ( 1 / 2 )

Foto: LEFFEST
Este ano Arto Lindsay lançou o álbum “Encyclopaedia of Arto”, uma antologia em formato de disco duplo que atravessa várias etapas da sua obra, junta um inédito e gravações ao vivo. O lançamento do disco foi acompanhado por uma digressão, cuja última data teve lugar em Lisboa. Em conversa que fiz para o catálogo do LEFFEST, o músico passa em revista memórias e ensaia algumas reflexões sobre o que pode ser a música do século XXI.

Se a sua família não tivesse ido para o Brasil nos anos 50 a sua música alguma vez teria tomado o sentido em que cresceu?
Eu acho que teria sido completamente diferente. Eu ouvi essa música [a do Brasil] quando estava a descobrir o que era a música como portadora de ideias e sensações e não uma mera diversão. Aquilo para mim chegava de uma maneira natural, não achava que fosse uma rutura. Achava aquilo radical... Para mim a música era assim.

Com que idade chegou ao Brasil?
Cheguei com três anos e fui embora aos 17. Cresci lá. 

E essa é a fase em que se forma o gosto...
Sim, e a minha mãe tocava piano muito bem. Gostava de Nat King Cole, de Debussy, de várias coisas boas. E quando ela chegou ao Brasil ficou fã de Dorival Caymmi. Lembro-me de ouvir João Gilberto em casa. O meu pai gostava de música americana de raiz. Gostava de blues, dessas coisas assim. Eu ouvia a música deles e também a que se tocava nas ruas. Eu cresci numa cidade bem pequena no interior de Pernambuco e a rádio tocava nos altifalantes em dias de feira. Então ouvia forró, Luiz Gonzaga e todas essas coisas assim. 

Tomou algum contacto nessa altura com a cultura juvenil que ia emergindo nos EUA e Reino Unido?
Íamos de vez em quando aos Estados Unidos e eu ouvia Beatles, Rolling Stones, coisas que passavam na rádio. E depois trazia de volta esses discos para Brasil. 

Ao regressar aos EUA foi-lhe fácil integrar-se no panorama de uma Nova Iorque que, então, vibrava em acontecimentos na área da música e outras artes?
Até no Brasil, antes de voltar, já ouvia de tudo. Jimi Hendrix, a música da Califórnia dos anos 60. Tudo isso chegava até mim. Quando fui para os EUA era uma continuação daquilo. Estava aqui a lembrar-me de outras coisa ainda... Uma das coisas que me marcaram foram os filmes do Straub, como a Crónica da Ana Madalena Bach... Assim como as peças iniciais do Robert Wilson. Todos esses trabalhos tinham uma duração muito longa. Então lembro-me dessa experiência de compreender que existia uma maneira diferente de ter a experiência do tempo. Quando fui para Nova Iorque eu absorvia tudo. Conheci música através de muitos concertos. Mas também comprava muitos discos. Jazz, música contemporânea, música de vários lugares do mundo. A gente comprava os discos, roubava os discos... Mas os discos eram muito baratos. Não tínhamos muito dinheiro mas gastávamos muito em discos. E cinema e peças... Nos primeiros anos em Nova Iorque absorvi muita coisa. 

O seu trabalho e de outros músicos naquela altura procurou ir além do punk. Havia um gosto por experimentar. 
Toda a gente achava que não valia a pena fazer as coisas se não fosse novo. Isso era subentendido. Isso veio de muitos lugares, até a música popular do brasil era muito inovadora. A função da arte em geral era entendida como sendo necessariamente inovadora, havia a ideia da vanguarda. Valorizávamos coisas que eram difíceis de achar e de compreender. E que nos testavam de alguma forma... Isso foi desaparecendo depois na cultura em geral mas havia a ideia de que você se compromete com a obra de arte e se mede por uma obra de arte. 

Havia na vossa música de então uma vontade de ir contra o que estava estabelecido?
Nos anos 70 em Nova Iorque a cultura popular geral era bastante pobre. Havia coisas a acontecer no cinema, na literatura, na arte em geral... Mas a cultura popular era muito pobre. Nós vivíamos fascinados pelos anos 30 e por diálogos criativos subtis... Gostávamos muito da soul music, de algumas coisas, mas o rock’n’roll em geral era muito pobre. Mas não pensávamos bem em ir contra. Pensávamos mais em ir além de... Não nos interessávamos pelas coisas que estavam a rolar, mas também não as rejeitávamos. Não era uma batalha contra isso. Muitas pessoas interpretaram o nosso movimento, o nosso momento ali, como sendo antagónico ao que estava a rolar. Mas não era. Era um desejo de ir além. De uma identificação com a arte mais difícil.

Quando regressa ao Brasil leva uma vivência musical diferente. Como viveu o reencontro com aquelas músicas entre as quais tinha crescido?
Eram uma coisa familiar. Aprendi muito sobre a cultura brasileira depois de deixar o Brasil. Comecei a escutar obsessivamente o João Gilberto, com saudade. E aprendi muita coisa. Fiquei amigo de poetas e artistas de Nova Iorque. Dividi um apartamento com o poeta baiano Waly Salomão, um contemporâneo amigo dos tropicalistas. Conheci e fiquei amigo do Hélio Oiticica. E com eles conheci o Julio Bressane, um cineasta muito interessante. Estas pessoas fizeram-me aprender muito sobre o Brasil fora do Brasil. Foi o Bressane quem me indicou o Cartola... Então quando voltei para o Brasil, de alguma forma eu era um classicista. E quando comecei a produzir discos uma das minhas preferências estilísticas era a simplificação... Quando comecei a produzir a música era muito dominada pelos sintetizadores, as primeiras caixas de ritmos. Eu achava aquilo muito mal feito. Eu simplifiquei. Juntava violões e percussões, com sons mais contemporâneos... Por aí...

(continua)

sexta-feira, Novembro 21, 2014

Ken Takakura (1931 - 2014)

Actor muito popular do cinema japonês, também com diversas incursões na produção de Hollywood, Ken Takakura faleceu no dia 10 de Novembro — contava 83 anos.
Sobretudo ao longo dos anos 50/60/70, em filmes dramáticos (como Abashiri Prison, produção de 1965 dirigida por Teruo Ishii), Takakura impôs-se junto das audiências nipónicas como símbolo de um heroísmo capaz de superar os traumas da Segunda Guerra Mundial. A sua popularidade em filmes de guerra ou policiais viria a valer-lhe o epíteto de "Clint Eastwood japonês", tanto mais que, a partir de Assim Nasce um Herói/Too Late the Hero (1970), de Robert Aldrich, começou a surgir em algumas produções americanas. Nesse trajecto, dois momentos são decisivos na internacionalização do nome de Takakura: Yakuza (1974), de Sydney Pollack, e Chuva Negra [trailer], de Ridley Scott.


Em qualquer caso, manteve sempre uma intensa actividade na indústria do seu país, tendo a sua filmografia há muito superado uma centena de títulos. Mais recentemente, surgiu em Caminho Solitário (2005), coprodução China/Japão dirigida por Zhang Yimou. Várias vezes premiado pela Academia Japonesa de Cinema, recebeu na cerimónia de 2014, realizada a 7 de Março, uma distinção honorária.
[obrigado a Daniel Carrapa]
>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

5 x Mike Nichols (1)

Perante a notícia da morte de Mike Nichols, não pudemos deixar de celebrar a sua invulgar agilidade e inteligência como director de actores: de Elizabeth Taylor a Philip Seymour Hoffman, passando por  Meryl Streep, Harrison Ford ou Julia Roberts, foram muitos os que conseguiram algumas das suas mais admiráveis interpretações em filmes por ele realizados. Por isso mesmo, mais do que nunca, importa recordar que as suas competências nesse domínio são indissociáveis do facto de Nichols ter começado por ser... actor (o que não invalida, como é óbvio, que a história do cinema esteja cheia de autores que, sem nunca terem representado, possuem idênticas capacidades).
Em parceria com Elaine May, Nichols foi mesmo um caso sério de popularidade na transição dos anos 50 para as muitas atribulações dos sixties. Na rádio, através do disco, em palco ou na televisão, May/Nichols impuseram um modelo de subtil humor em que o impecável sentido da palavra e do timing se combinava com uma atenção tão sarcástica quanto didáctica à evolução de usos e costumes — o seu LP An Evening with Mike Nichols and Elaine May (1961) foi distinguido com o Grammy de melhor álbum de comédia. Eis o sketch 'Mother and Son', notável exemplo televisivo do seu talento. 

'Duran Duran Unstaged' estreia
em sala a 5 de dezembro


O filme-concerto Duran Duran Unstaged, realizado por David Lynch, vai ter uma breve carreira em sala entre nós. Depois de ter conhecido primeiras exibições entre nós integrado na programação da edição deste ano do LEFFEST, o filme vai chegar a uma sala lisboeta (falta confirmar qual) entre os dias 5 e 6 de dezembro.

A 5 de dezembro o filme será também exibido no Porto, no quadro da programação do novo festival Porto / Post / Doc.

No dia 6 o filme surgirá ainda nos videoclubes portugueses e terá edição em DVD.

Podem ver aqui o trailer do filme.

ver + ouvir:
Les Sins, Why (feat. Nate Salman)



Chaz Bundick é nome que conhecemos através do projecto Toro Y Moi. Agora apresenta-se como Les Sins neste tema em que conta ainda com Nate Salman. Coisa para sonhar com dias quentes, que agora (por estas latitudes) estão em pousio...

Reedições:
Tears For Fears

“Songs From The Big Chair” 
(Deluxe Edition)
Mercury / Universal
5 / 5

Editado em 1983 The Hurting assinalou não apenas o momento da estreia em álbum dos Tears For Fears mas também um dos momentos mais altos de uma forma de pensar a canção pop que caracterizou alguma da produção britânica de inícios dos anos 80, conciliando os anseios de modernidade (e alguma esperança) que a chegada das electrónicas a um novo patamar de familiaridade haviam sugerido, ao mesmo tempo não ignorando as angústias e tensões de vidas urbanas onde a cor muitas vezes acabava a medir forças, nem sempre vencendo, com a carga das sombras que faziam as verdades do quotidiano. Longe de um certo hedonismo escapista que conheceu então paradigma nos Duran Duran os Tears For Fears procuravam, num espaço estético com algumas afinidades, caminhos diferentes. Caminhos que os levariam a aprofundar, depois de traduzir ecos do mundo ao seu redor nesse álbum de 1983, olhares interiores para, no que pode ser entendido como uma nova expressão das técnicas “primal scream” (que com o álbum de 1970 de Lennon e a Plastic Ono Band fizera escola na canção popular). E depois de The Way We Are, um single (ainda em 1983) que deixava claro que procuravam outros olhares – sem que se tenha de facto indicado o caminho para um segundo álbum – encontraram após Mothers’s Talk (já em 1984) uma relação com técnicas da psicoterapia e um desejo em trazer o dentro para fora (gritando, se fosse preciso – e eis que surgiu Shout), definindo assim rumos que os conduziram a um álbum que instrumentalmente se afastou do predomínio partilhado com as electrónicas de The Hurting, ensaiando uma ideia de pop sofisticada que acabaria por definir um paradigma do som em meados dos anos 80. Com o título Songs From The Big Chair o segundo álbum dos Tears For Fears é um espaço de ensaio de ideias onde canções que conquistaram multidões partilham o alinhamento com episódios de ensaio de ambição maior, por vezes quase sugerindo o que poderia ser uma ideia de prog pop (há mesmo uma suite no lado B do disco, traduzindo o seu espaço narrativo algo que lembra também a lógica do álbum conceptual). O sucesso global de Shout ou Everybody Wants To Rule The World (hinos pop do seu tempo) ofuscou por vezes a memória de um álbum que tem na verdade momentos igualmente inesquecíveis em Head Over Heels, The Working Hour ou o belíssimo e cenicamente muito elaborado Listen, que encerra o alinhamento. O carácter mais experimental que haviam sugerido em The Way You Are (single não incluído no álbum, mas recuperado – com todo o sentido – nesta edição especial) não dominou a escrita do álbum, mas manteve abertas outras possibilidades que bem exploraram nos vários lados B editados na altura, todos eles agora reunidos no final do CD1 desta reedição. A caminho de celebrar os seus 30 anos de vida, o álbum de maior impacte na obra dos Tears For Fears regressa assim num lançamento que junta ainda como extras as versões alternativas que na altura surgiram em formatos de 45 rotações. Há ainda uma versão super-deluxe, com as versões máxi, sessões gravadas para rádios, maquetes e registos ao vivo da época. Um clássico desta dimensão merece ser assim devidamente evocado.

Win Butler vai editar disco a solo

Com o título Policy surgirá a 10 de março de 2015, via Merge Records, um álbum a solo de Win Butler, vocalista dos Arcade Fire. A notícia foi avançada através do Twitter oficial do grupo canadiano e, para além da capa do álbum, título e data de lançamento, não avança muito mais.

O site Pitchfork apresenta aqui links para algumas atuações a solo do músico.

Para ouvir: à descoberta do Tonik Ensemble



Há já algum tempo que não olhava com atenção para as latitudes da Islândia. Em hora de reencontro com esses terrenos vale a pena escutar o projeto de Anton Kaldal Ágústsson. Chama-se Tonik Ensemble e aqui fica um belo cartão de visita.

Para ler (e também para ver e ouvir):
Patti Smith em conversa com David Lynch

Um encontro entre Patti Smith e David Lynch na BBC, onde se fala de Blue Velvet, de Twin Peaks ou do coletivo Pussy Riot. Esta conversa representou um segmento do programa Newsnight.

Podem ler aqui notícia no NME, com link para a BBC.

Kim Hiorthøy ou a serenidade obsessiva

O músico norueguês Kim Hiorthøy, também designer e escritor, é uma espécie de segredo bem guardado algures nas paisagens escandinavas, distante de qualquer agitação mediática, quase sempre trabalhando para as editoras Rune Grammofon, Smalltown Supersound e Smalltown Superjazz.
Ciclicamente, os trabalhos musicais de Hiorthøy (a par de algumas notáveis capas de CDs, para si ou outros intérpretes) vão surgindo como etapas de uma pesquisa, tão serena quanto obsessiva, em que sentimos um compromisso fascinante entre as heranças românticas do séc. XIX e as derivas mais experimentais de algum jazz contemporâneo. O seu novo álbum, Dogs [apreciação no AllMusic], porventura contrariando a secura agreste de alguns registos anteriores, possui a virtude complementar de uma depuração formal em que o piano emerge como protagonista de uma paisagem de emoções tão delicadas quanto envolventes. Para escutar, eis dois dos seus temas: Det Oläskiga Rummet e The Woods.



quinta-feira, Novembro 20, 2014

Malkovich por Malkovich (2/2)

Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer
LIGAÇÕES PERIGOSAS (1988), de Stephen Frears
John Malkovich passou pelo Lisbon & Estoril Film Festival em três registos: através das memórias do Steppenwolf Theatre, numa exposição de fotografias de Sandro Miller e protagonizando o filme Variações de Casanova. Como ele gosta de dizer, é um actor que se sente bem na sua “personalidade dividida” — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (17 Novembro).

[ 1 ]

E não sentiu que, ao filmar este Casanova, estava a refazer algo do seu trabalho no Steppenwolf Theatre?
É um pouco como com as fotografias: estamos sempre a refazer o nosso trabalho — o que temos para dar é aquilo que somos. Em todo o caso, Steppenwolf é uma coisa muito específica...
Faz sentido dizer que se trata de uma comunidade artística, talvez uma família?
Digamos que não anda longe disso. E com uma visão muito particular. Por exemplo, a peça Coyote Ugly [Lynn Seifert], que dirigi em 1985: não seria possível ver nada parecido em nenhuma parte do mundo — é uma espécie de agressão, de invasão.
Invasão de quê?
De tudo. Dos olhos do espectador. Dos ouvidos. Dos sentidos. Da moral. É uma peça sobre uma mãe que tem relações sexuais com o filho. E um pai que tem relações sexuais com a filha que, no fim, acaba por ser a filha do seu filho... Digamos que se trata de uma história muito improvável de se ver onde quer que seja, pelo menos para além da ópera. Talvez que, no fundo, Steppenwolf exista como uma espécie de ópera...
Levando o espectador a perguntar: “Onde é que eu estou?”.
Sim. E com grandes emoções!
E em que filmes sentiu o mesmo?
Nenhum. O cinema é outro tipo de animal.
O teatro é emocionalmente mais forte?
Não, não colocaria as coisas dessa maneira. A única interpretação que consegui num filme mais ou menos parecida com uma interpretação no teatro foi em Color Me Kubrick/Identidade Kubrick [2005]: fazia um gay inglês, dono de uma agência de viagens falida, que viajava pela Inglaterra dizendo que era Stanley Kubrick — e as pessoas acreditavam-no.
Talvez pudesse dizer o mesmo da sua composição em Um Lugar no Coração [Robert Benton, 1984].
Não, de maneira nenhuma, até porque nessa altura, e durante muitos anos, não compreendi o que significa ser actor no interior de um filme. Porque, realmente, não é possível mudar o que quer que seja ou decidir que se vai refazer por completo a cena do dia anterior. Ora, no teatro, isso está a acontecer constantemente — de repente, podemos dizer que vou fazer isto ou aquilo numa cadeira de rodas ou, afinal, que a personagem que interpretamos é canhota... Nada disso é possível em cinema. Durante a rodagem de Ligações Perigosas, Mike Fox, um grande director de fotografia inglês (que foi assistente em Lawrence da Arábia), resumiu-me a situação, dizendo-me: “Johnny, se não está dentro do enquadramento, não existe...” O teatro é outro planeta — não há enquadramento.
Aceita, então, que digamos que é um homem de teatro, mais do que de cinema?
Sim e não. Venho do teatro. Adoro o teatro. Mas aprendi também a amar o cinema e tive mestres com quem nem todos tiveram a oportunidade de trabalhar: Manoel de Oliveira [p. ex.: O Convento], Raúl Ruiz, Bernardo Bertolucci, Michelangelo Antonioni, Stephen Frears, Steven Spielberg, Volker Schlöndorff... Acontece que as interpretações que consigo num palco não são possíveis num filme onde, afinal, o “momento mágico” não existe.
Acredita mesmo que não?
Não existe. Como poderia existir? Estamos a parar de dez em dez segundos... Limitamo-nos a fingir que acontece.
Mas o público sente muitos desses momentos.
O público sim, mas não o actor ou o realizador: estão condenados a inventar tudo a partir de nada. E não digo isto como uma queixa, apenas reconhecendo a singularidade de cada processo.
Sente-se, então, mais livre num palco?
Não é uma questão de liberdade.
Qual é, então, a palavra certa?
Claro que o actor é mais livre no teatro: movimenta-se mais à vontade, faz a montagem da interpretação à medida que avança. Acontece que, no cinema, a liberdade não é exactamente o critério decisivo.
Qual é o critério decisivo?
O que uma determinada imagem me diz — esse é o critério. De tal modo que para ganhar um Oscar, não é importante saber representar. Basta conseguir parecer aquele que, supostamente, se está a representar.
E voltamos ao fingimento.
Talvez, será uma maneira de colocar a questão. Tudo é artifício — num filme mais do que em qualquer outro contexto. Face a uma excelente interpretação, é provável que aqueles segundos que vemos sejam os únicos aproveitáveis de horas e horas de filmagens. Enfim, tenho a certeza que Jack Nicholson é fantástico em Chinatown, Al Pacino grandioso em O Padrinho, Robert Duvall sempre extraordinário... E gosto muito de Bruno Ganz, Marcello Mastroianni, William Hurt ou Bill Murray. Mas só sei aquilo que vejo. Numa peça, é diferente, porque sei que o actor está ali, não me pode mentir.

Para ouvir: Duran Duran
revelam versão longa
de 'A View To A Kill' 29 anos depois



Editado em 1985, A View To A Kill foi o derradeiro single da formação "clássica" dos Duran Duran (na sua primeira vida discográfica, entre 1981 e 85). A canção, que serviu na altura a banda sonora do filme da série 007 com o mesmo título da canção - e que entre nós teve estreia como 007: Alvo em Movimento - surgiu apenas no formato de sete polegadas, sem um máxi-single com versão longa, algo que o grupo fazia regularmente desde o seu primeiro single, Planet Earth (1981). Note-se que até mesmo Save a Prayer, sem versão "longa", teve direito a máxi-single, a novidade surgindo aí na versão "extended" do tema que surgia no lado B, Hold Back The Rain.

O facto de não ter sido editada não significa que não tivesse sido criada uma versão longa para A View To a Kill. E foi-o, de facto. Steve Thompson apresentou então ao grupo, em Paris, uma proposta que acabou rejeitada, conforma John Taylor, o baixista do grupo, revelou em recentes declarações ao site oficial da banda. Confessou então que nos últimos tempos não estava satisfeito com as versões máxi e que preferia manter pura a leitura para pouco mais de três minutos que o grupo havia criado. Acrescentou ainda que lamenta hoje ter tomado essa decisão.

A verdade é que, poucas semanas após a "confissão" de John Taylor, a remistura criada para o máxi que nunca existiu saltou finalmente do arquivo onde então fora fechada. A remistura surgiu agora num site dedicado a James Bond, através do SoundCloud. E podem ouvi-la aqui.


Mike Nichols (1931 - 2014)

J. L.: Na história de Hollywood, é um dos criadores que pode simbolizar de forma mais eloquente as relações frutuosas entre cinema e teatro, cinema e televisão — o realizador Mike Nichols faleceu no dia 19 de Novembro, contava 83 anos.
Muitas vezes citado pelas invulgares distinções que acumulou — é dos poucos criadores premiados nos Oscars (melhor realização por A Primeira Noite, de 1967), Emmys, Grammys e prémios Tony —, Nichols foi, antes de tudo o mais, um hiper-dotado director de actores. Numa entrevista dada no ano 2000 à revista The New Yorker, Dustin Hoffman disse mesmo que a sua escolha para protagonizar A Primeira Noite terá sido, da parte de Nichols, uma das "mais corajosas" opções de casting tomadas ao longo do séc. XX — na altura quase com 30 anos, Hoffman interpretava um jovem de 21 anos que mantinha relações com a mulher (Anne Bancroft) do melhor amigo do seu pai, vindo depois a apaixonar-se pela sua filha (Katharine Ross). O filme valeu a Nichols um Oscar de realização.
São muitos os exemplos de notáveis interpretações nos filmes de Nichols, a começar pelo quarteto — Elizabeth Taylor, Richard Burton, Sandy Dennis e George Segal — do seu primeiro trabalho como realizador, Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966), segundo a peça de Edward Albee; mesmo sem chegar ao título de melhor do ano, o filme acabaria por arrebatar cinco estatuetas douradas, sendo uma para Taylor (melhor actriz) e outra para Dennis (actriz secundária). Inesquecíveis são também, por exemplo, as composições de Jack Nicholson e Ann-Margret em Iniciação Carnal (1971), Meryl Streep e Cher em Reacção em Cadeia (1983), Shirley MacLaine e de novo Meryl Streep em Recordações de Hollywood (1991), ou Harrison Ford e Annette Bening em O Regresso de Henry (1991).
O nome de Nichols é também indissociável de um momento marcante na história moderna da televisão: a série Anjos na América (2003), produzida pela HBO, adaptava com raro fulgor e sentido crítico a peça de Tony Kushner sobre a descoberta da sida e as convulsões morais da década de 80, de novo envolvendo um elenco em estado de graça, incluindo, entre outros, Al Pacino, Meryl Streep e Emma Thompson. Sendo um objecto televisivo de excelência, a sua concepção eminentemente cinematográfica levava mesmo Nichols a assinar no genérico como a film by [video].


Nos últimos anos, Nichols dirigiu dois filmes magníficos: Perto Demais (2004), adaptação da peça de Patrick Marber, com o quarteto Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen; e Jogos de Poder (2007), sobre o envolvimento de um congressista texano nos bastidores do Afeganistão, com argumento de Aaron Sorkin e, nos papéis principais, Tom Hanks, Julia Roberts e Philip Seymour Hoffman. Além do mais, Nichols foi sempre um homem do teatro, já premiado com um Tony (Descalços no Parque, 1964) antes mesmo de começar a trabalhar no cinema — em 2012, dirigira uma nova encenação de Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, com Philip Seymour Hoffman, Andrew Garfield e Linda Emond, trabalho que lhe valeu o nono Tony da sua carreira.

>>> Obituário de Mike Nichols: BBC + New York Times + Variety.

Ver + ouvir:
Angel Olsen, Windows



Novo teledisco para o tema que encerra o alinhamento de um álbum que mora entre a lista dos melhores que 2014 nos deu a escutar. A realização é de Rick Alverson.

Novas edições:
TV on the Radio

“Seeds”
Harvest
4 / 5

Através dos seus discos, dos nomes que chamaram à sua órbita de atenções (como por exemplo David Bowie, que chegou a colaborar no segundo álbum da banda) e dos muitos com quem foram colaborando (sobretudo Dave Sitek, como produtor), os TV on The Radio são há muito reconhecidos como uma referência, o seu nome sugerindo desde logo uma noção de contemporaneidade, ecletismo e desafio, ao mesmo tempo que começa a ganhar aquele estatuto de “escola”, tantas que começam a ser as descendências que geram ou das quais se mostram ser importante veículo de comunicação. Há três anos que não os ouvíamos. E há uma razão para o explicar: a morte do baixista Gerard Smith em 2011 (vítima de um cancro no pulmão) gerou um silêncio que só agora se rompe neste instante em que Seeds germina e floresce. Talvez não seja um disco tão capaz de confrontar o mundo ao seu redor como o marcante Return To Cookie Mountain (2006) ou tão firme na vontade de aprofundar a demarcação de uma linguagem como Dear Science (2008), mas é claramente um sinal de vida de uma banda que, já com 15 anos de vida, continua a ser capaz de criar uma música que deixa longe os patamares da indiferença a que chegaram entretanto as obras de tantos outros seus contemporâneos que, há uma década, chamaram as atenções do mudo indie de regresso a Nova Iorque (em particular a Brooklyn). Seeds é um disco de contrastes. Por um lado é animado por uma vitalidade pop que se afirma em pérolas irresistíveis como Happy Idiot ou Careful You, instantes onde luminosidade e desencanto partilham espaço comum como tantas vezes aconteceu em terreno new wave. Esses instantes que afirmam uma vontade em continuar a caminhada, sem contudo esquecer a dor que habita a alma mais profunda de um disco que nasce depois de uma perda sentida, são instantes num alinhamento versátil onde há sinais de heranças várias, do R&B que Adebimpe inevitavelmente cita quando canta ou a rugosidade primordial do punk do East Village que Lazerray evoca. Seeds semeia uma nova etapa na vida dos TV on The Radio. Talvez sem o arrojo de outros discos. Mas com igual capacidade em fazer grandes canções. Estão de volta, portanto. E com um belo disco.

Jimmy Ruffin (1936-2014)


Morreu, aos 78 anos, uma das vozes da “família” Motown. Jimmy Ruffin nunca teve a dimensão dos maiores ícones do R&B do seu tempo, mas foi nome que cativou admiradores desde finais dos anos 60, a sua obra tendo cruzado gerações a ponto de, nos anos 80, ter sido chamado a colaborar em discos de bandas britânicas como os Style Council ou Heaven 17.

Preterido em favor do irmão mais novo numa altura em que havia uma vaga a preencher no line up dos Temptations, a Jimmy Ruffin não restou senão continuar a. viver uma carreira a solo que já condizia há algum tempo, até então sem sucesso. Gravava então na Soul, uma etiqueta subsidiaria da Tamla Motown. E foi com esse selo que, em 1966, chamou a si uma canção originalmente escrita para os The Spinners, transformando-a num êxito que transcendeu em muito os espaços da tabela de R&B, afirmando-se entre o Top 10 norte-americano e britânico, colocando assim o seu nome no mapa. A canção What Becomes of The Broken Hearted, ficou desde então registada na história pessoal de Jimmy Ruffin e, mesmo não sendo um dos clássicos maiores da soul de então, é peça importante na construção do seu percurso. A ela podemos juntar outros títulos como, por exemplo, I'll Say Forever My Love (1968), Farewell is a Lonely Sound (1970) ou It's Wonderful To Be Loved By You (1970).

A sua obra fez-se essencialmente a solo e, depois de uma etapa inicial menos visível na Soul, somou aí primeiros êxitos e teve, mais tarde, “upgrade” para o selo principal da Motown. Viveu o seu período discograficamente mais fértil entre 1966 e 1974, conhecendo um breve ressurgimento em 1980 numa canção escrita por elementos dos Bee Gees, pouco depois surgindo em Soul Deep dos Style Council (1984) ou The Foolish Thing To Do dos Heaven 17 (1986), na segunda metade dos anos 80 tendo ainda gravado duetos com vozes da soul como Ruby Turner ou Brenda Hollaway. 

Nos últimos anos tinha estado a preparar um álbum que chegou a ter lançamento pensado para 2013 mas que acabou por ficar por concluir.


Podem ver aqui imagens de uma atuação televisiva nos anos 60, ao som de What Becomes of The Broken Hearted.

Aqui podem ler o obituário publicado no New York Times
E aqui o obituário da Rolling Stone

Para ouvir: nova canção dos Faith No More

Os Faith No More reuniram-se recentemente e estão a completar um álbum que deverão editar em abril de 2015. O disco será precedido por uma outra edição especial pensada para assinalar a edição do ano que vem do Record Store Day. O tema Motherfucker, um inédito agora gravado, deverá surgir nesse disco.

Podem aqui ouvir o tema, via Rolling Stone.

Para ler: a importância de ter uma boa
primeira frase num livro
(como explica William Gibson)

Um dos escritores mais importantes da ficção científica de finais do século XX, William Gibson continua a escrever e apresenta agora o novo The Peripheral. A Rolling Stone falou com ele e, nesta entrevista, o escritor explica quão importante para um livro é ter uma boa primeira frase.

Podem ler aqui a entrevista.

quarta-feira, Novembro 19, 2014

As crianças de Bergman

Bertil Guve, FANNY E ALEXANDRE (1982)
Como é que, maioritariamente, a televisão contemporânea representa as crianças?... Digamos que, para nos consolarmos, devemos evocar o génio de Bergman — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Novembro), com o título 'As crianças muito vivas de Ingmar Bergman'.

Ao longo dos tempos, as mais poderosas linguagens televisivas impuseram modelos de representação das crianças que oscilam entre duas formas de grosseria: em alguns casos, a infância é tratada como uma paisagem que se esgota em disparates mais ou menos pitorescos; noutros, os mais novos não existem, quer no plano social, quer no espaço familiar, a não ser como vítimas potenciais de todas as entidades malignas deste mundo e do outro.
Essas perversas formas de infantilização têm vindo a ser transferidas para o espaço dos adultos — na prática, vemos (e ouvimos!) o modo condescendente e paternalista com que algumas personalidades televisivas se dirigem a nós, espectadores adultos, e não podemos deixar de pensar que, na melhor das hipóteses, nos consideram tristíssimos patetas alegres.
É uma questão de ética da comunicação, sem dúvida — o modo como transmitimos o que quer que seja envolve sempre alguma forma de representação do nosso interlocutor. Mas é também uma questão fulcral do mundo contemporâneo das imagens em que, de uma maneira ou de outra, por razões (sociais e simbólicas) muito diversificadas, “infância” e “juventude” são categorias sistematicamente investidas pelos circuitos de informação, jornalísticos ou não, que nos envolvem.
Os mais disponíveis para lidar com estas questões terão (re)descoberto no lançamento de 17 filmes do mestre sueco Ingmar Bergman — primeiro em sala e, actualmente, em sucessivas edições em DVD — uma visão tão contagiante quanto actual. Na verdade, sendo um dos cineastas que mais longe conduziu a discussão moderna do poder figurativo das imagens, seu alcance e limites, Bergman teve sempre a infância presente no seu cinema, quanto mais não seja através de um tema contundente e doloroso: a infinita dificuldade de ser (ou não ser) adulto.
O exemplo de Fanny e Alexandre (1982) constitui uma referência modelar. O próprio Bergman reconhecia que esta saga de uma família do começo do séc. XX, centrada em dois irmãos — interpretados pelos maravilhosos Bertil Guve (Alexandre) e Pernilla Allwin (Fanny) —, era qualquer coisa de tão sentido e tão íntimo que, mesmo lidando com personagens de ficção, constituía um dos objectos mais genuinamente autobiográficos da sua filmografia.
Fanny e Alexandre envolve, assim, um dos mais clássicos temas infantis: a descoberta, entre desencanto e medo, das falsidades sustentadas pelas relações dos adultos. Em todo o caso, importa acrescentar que, encenado por Bergman, esse não é um tema que desemboque em qualquer determinismo moralista. E por uma razão de peso: é que, para todos os humanos, independentemente da respectiva idade ou geração, o ponto de fuga temático é sempre a nitidez indizível da morte. Que Fanny e Alexandre sejam personagens sem nada de fúnebre, mas com uma contagiante energia vital, eis o que atesta o génio intemporal de Bergman.

Ride reunidos para digressão mundial


Nome central da "cena" shoegazer e uma das mais interessantes bandas indie britânicas entre finais dos oitentas e a primeira metade dos noventas, os Ride vão juntar-se para dar concertos. Foi já anunciada uma série de atuações que passam por salas míticas como a Roundhouse (Londres), Olympia (Paris) ou Paradiso (Amesterdão), mas que não fecha porta a festivais, estando já confirmada a sua presença no Primavera Sound de Barcelona.

Por enquanto não há datas anunciadas para Portugal e estão "apenas" marcadas nove atuações, pelos dois lados do Atlântico, entre finais de maio e inícios de junho de 2015.

Ver + ouvir:
Belle & Sebastian, The Party Line



Com um álbum de regresso anunciado para inícios de 2015, vamos começando a descobrir o que nos vão dar de novo os Belle & Sebastian. Este é o seu novo single.

Gritos que ninguém parecia ouvir


Eram como gritos mudos, porque ninguém parecia que os ouvia. Ou simplesmente ignorava. Quando em 1981 surge nas páginas de um jornal a notícia de um “cancro gay” que matara 41 pessoas e, em 1982, os diagnósticos e mortes em cada vez maior número davam conta de uma epidemia alarmante, as primeiras movimentações de luta contra a doença e de tentativa de alerta dos poderes públicos para a necessidade de apoiar projetos de investigação vieram da parte de grupos de ativistas que, se por um lado, viam amigos e entes queridos a sucumbir ao seu redor, por outro enfrentavam um mutismo e aparente indiferença oficial que, na verdade, durou anos. Larry Kramer, que depois de integrar um desses primeiros grupos de apoio a doentes e de luta contra a doença acabaria por fundar mais tarde o mais incisivo Act Up, estava lá. A sua história e dos que o rodeavam contou-a numa peça de teatro que, recentemente, conheceu espantosa adaptação homónima a telefilme via HBO, com um elenco onde se destacam as figuras de Julia Roberts e Mark Ruffalo, sob realização de Ryan Murphy e argumento adaptado pelo próprio Kramer.

Num arco narrativo que se estende entre 1981 e 1984, antes portanto da mais mediatizada morte de Rock Hudson e da primeira menção da palavra “sida” num discurso de Reagan (então Presidente), Um Coração Normal é ao mesmo tempo uma história que respira uma trágica dimensão humana mas transporta na medula a carga política de uma batalha de nervos e força, travada contra o silêncio de políticos e, numa dada etapa, dos próprios media.

Apesar da grande visibilidade que o cinema deu à história da doença, o espaço da ficção televisiva foi na verdade o primeiro a olhá-la de frente no histórico An Early Frost, de John Erman, transmitido pela NBC pouco mais de um mês após a morte de Rock Hudson (e que me lembro de ver, algum tempo depois, na TV portuguesa). A história da representação da sida no pequeno ecrã tem contudo na HBO uma das suas mais importantes fontes de produção, incluindo títulos como E a Banda Continua a Tocar, de Roger Spottiswood (1993) ou o magnífico Anjos na América, minissérie (baseada na peça de teatro com o mesmo título de Tony Kushner) na verdade apresentada nos próprios créditos como “um filme” de Mike Nichols. Um Coração Normal é assim mais um episódio numa história que não pode deixar de continuar a ser contada.

Uma visita à exposição de David Bowie
hoje às 19.00 num ecrã de cinema


Hoje, pelas 19.00 horas, vamos poder "visitar" a exposição David Bowie Is, num ecrã de cinema. Na verdade são dois ecrãs. Um nos Cinemas UCI do El Corte Inglés (Lisboa), outro nas salas da mesma exibidora, mas no Arrábida Shopping (Gaia).

O filme David Bowie Is Happening Now é uma visita guiada à exposição que esteve patente há cerca de ano e meio no Victoria & Albert Museum, em Londres e que, neste momento, pode ser vista (ao vivo) em Chicago.

Na sessão de Lisboa o filme terá apresentação a cargo dos dois autores deste blogue.

Novas edições:
Bryan Ferry

“Avonmore”
BMG
2 / 5

Apesar de algumas fugas, a muitos dos discos que Bryan Ferry lançou a solo após o final da segunda etapa de vida dos Roxy Music não são senão herdeiros diretos de uma pop elegante e sofisticada que então criou no belíssimo Avalon (1982), aquele que – apesar das reuniões para novas vidas em palco – ficou registado como o derradeiro álbum de originais do grupo. Com aventuras mais “excêntricas” (porque fora desse foco, não por serem coisa bizarra, entenda-se) num álbum em que visitava memórias antigas de canções de outros tempos (As Time Goes By, de 1999), num outro (algo inconsequente) em que rumava ainda mais atrás, aos dias do jazz dos anos 20, explorando as sonoridades de então (The Jazz Age, de 2012) ou num disco unicamente feito de versões de canções de Bob Dylan (Dylanesque, de 2007), o seu percurso recente a solo não é por isso um espaço onde se espere a surpresa (convenhamos que não é condição necessária para que se façam novos discos). Houve momentos magníficos, sendo de apontar Boys and Girls (1985) ou Frantic (de 2002, onde piscou olho a referências mais antigas, partilhando mesmo um tema com Brian Eno) como títulos a juntar aos melhores que lançou em nome próprio. Avonmore, contudo, não mora nesse patamar. Mais que herdeiro de Avalon, o alinhamento deste seu novo traduz uma colagem preguiçosa não só a modelos já vistos e revistos (a presença de Rhett Davis na produção garante exatidão nessa “afinidade”) como a própria composição não parece muito disposta a ir para além de um certo automatismo. Reconhecem-se as qualidades interpretativas de uma voz única e o rigor instrumental de quem domina as linguagens que aqui novamente convoca e que não escondem a presença de um naipe de convidados de luxo entre os quais estão Nile Rodgers, Regina Spektor, Johnny Marr, Mark Knopfler ou Maceo Parker. Mas não brilha. E traduz aquela sensação de coisa inconsequente que obras recentes de veteranos como Cohen, Bowie ou Dylan não têm deixado alastrar.

Para ouvir: Marissa Nadler revisita Eliott Smith



Uma versão de Pitseleh, original de Eliott Smith, surge em Before July, disco onde surgem maquetes e temas inéditos registados nas sessões que geraram o álbum July, de Marissa Nadler.

Para ler: 'soap opera' britânica vai ter
personagem com VIH

Numa população em que o número de infeções tem aumentado entre os mais jovens, o Channel 4 espera alertar consciências através de uma soap opera (uma telenovela, em português) na qual surgirá uma personagem infetada com o VIH.

Podem ler aqui a notícia, publicada pelo Guardian.
E aqui uma outra abordagem, via Attitude.

David Bowie, aliás, David Bowie

A visita guiada à exposição David Bowie Is poderá ser vista hoje nos cinemas UCI (e temos alguns convites para oferecer). O menos que se poderá dizer é que seremos, por certo, confrontados com o poder de transfiguração de um criador que, ao dizer/mostrar aquilo que é, nunca deixa de sublinhar que qualquer mecanismo de exposição pública envolve alguma forma de teatralidade — sem esquecer que o teatro não é o contrário da verdade, mas a metódica sistematização da sua distante perfeição.
Aqui fica, por isso, um dos mais esclarecedores telediscos de Bowie celebrando os jogos de espelhos como inerentes à sua persona artística — Miracle Goodnight vem do álbum Black Tie White Noise (1993) e foi filmado por Matthew Rolston.

terça-feira, Novembro 18, 2014

Malkovich por Malkovich (1/2)

Variações de Casanova
John Malkovich passou pelo Lisbon & Estoril Film Festival em três registos: através das memórias do Steppenwolf Theatre, numa exposição de fotografias de Sandro Miller e protagonizando o filme Variações de Casanova. Como ele gosta de dizer, é um actor que se sente bem na sua “personalidade dividida” — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (17 Novembro).

Quando olhamos para as fotografias de Sandro Miller em que “copia” algumas imagens célebres (de Marilyn, Hitchcock, Che Guevara, etc.), deparamos com uma difícil exposição pessoal — foi, no fundo, um trabalho de representação?
Fazer qualquer coisa interessante é sempre difícil... E quase sempre falhamos. A complexidade do projecto decorria de uma espécie de linha de fronteira, um pouco à maneira da representação num filme, mas mais pura. Por exemplo, consigo ser exactamente como as gémeas de Diane Arbus porque, num certo sentido, tenho a mesma idade emocional e talvez, quem sabe, a mesma personalidade dividida. Mas a parecença não era a questão fundamental. Sempre ouvi dizer que a câmara não mente — é para isso que serve, creio eu. Por isso, para mim, este era um projecto sobre os poderes da própria câmara.
Podemos dizer: aqui está John Malkovich a imitar estas pessoas, mas vêmo-lo, ao mesmo tempo, apresentando-se como... John Malkovich.
Isso não sei. Talvez fosse importante colocar a questão ao próprio Sandro — afinal de contas, eu só faço aquilo que faço, nunca me inscrevo, eu próprio, em nada. Ao mesmo tempo, é evidente, sou... eu próprio — e isso é tudo o que tenho para dar.
Malkovich / Bette Davis
Que foto envolveu o desafio mais difícil?
Bette Davis foi mesmo difícil, até porque o original de Victor Skrebneski é magnífico. Os seus olhos são enormes — não ficaria surpreendido se me dissessem que são o dobro dos meus. Era uma pequenina mulher. Lembro-me, de ter viajado, sentado a seu lado, num voo de Paris para Londres — era pequenina e, ao mesmo tempo, uma figura impressionante.
O filme realizado por Michael Sturminger, Variações de Casanova, é também sobre o fingimento, a verdade e a mentira...
Tudo começou por uma ópera que fiz com o Michael e Martin Haselböck [director musical da Orquestra da Academia de Viena]: intitulava-se The Infernal Comedy e era sobre o austríaco Jack Unterweger, jornalista, romancista, poeta, dramaturgo e... “serial killer”. Foi depois que surgiu a ideia de fazer uma nova ópera, tendo como ponto de partida a História da Minha Vida, de Giacomo Casanova. Dito isto, devo também dizer que Casanova não me interessava, até começar a ler coisas sobre ele.
Como vê este Casanova: alguém que vem de um passado distante ou uma personagem moderna?
Não me sinto qualificado para dizer o que é moderno ou não. Em boa verdade, não sei muito sobre o mundo moderno — e não tenho a certeza se quero saber. Casanova é uma figura histórica muito interessante que o filme sujeita, de forma inédita, a uma verdadeira reconversão de imagem.
Que imagem é essa?
Uma imagem que começa no facto de a palavra “Casanova” se ter transformado numa espécie de insulto, para mais usada por pessoas que, de facto, nada sabem sobre Casanova. Como se Casanova fosse Valmont [personagem de Ligações Perigosas, interpretada por Malkovich no filme de 1988, dirigido por Stephen Frears]. Ora, Casanova não tem nada a ver com Valmont (que, aliás, nunca existiu), como nada tem a ver com o Marquês de Sade ou Lord Rochester — isto para nomearmos os mais célebres libertinos. Tal como Michael Sturminger o encena, Casanova é um romântico.
Histoire de Ma Vie
É alguém que experimenta a dor através do seu desejo.
Sem dúvida. Ele descreve-se como uma vítima dos seus sentidos — e acho que o era. Claro que tinha um mau temperamento, mas muito pouco da malícia que tradicionalmente lhe é atribuída. Muitas vezes, nas relações com as mulheres, o abandonado era Casanova.
Talvez Casanova não seja mesmo nada moderno, até porque no nosso mundo o prazer é muitas vezes apresentado como coisa linear, supostamente fácil.
A minha percepção das actuais relações entre homens e mulheres é que serão muito diferentes, menos idealizadas, menos importantes... Mas não tenho a certeza — é apenas uma percepção que pode não ter qualquer fundamento. O certo é que, para Casanova, qualquer relação era incrivelmente importante.
Digamos que apostava a sua alma.
E, normalmente, perdia. O grande amor de Casanova foi uma mulher chamada Henriette. Não temos a certeza se se chamava assim, ou até se realmente existiu. Seja como for, quando o abandona, Henriette escreve no vidro de uma janela, usando o diamante do seu anel: “Também irás esquecer Henriette”.

Vhils faz um filme para os U2

Com o título Films of Innocence surgirá em dezembro uma coleção de filmes criados para as canções do mais recente álbum dos U2. Segundo podemos ler no iTunes, onde o filme está já em pré-vendas (a 9.99 euros), Films of Innocence nasceu da vontade de estabelecer contrapontos entre as canções e as visões de 11artistas urbanos que tiveram plena liberdade para criar as imagens. Entre os nomes chamados a colaborar está Vhils, que de resto assina também a "capa" do filme, na verdade uma leitura sua da imagem recentemente apresentada na versão em suporte físico de Songs Of Innocence.

Através do iTunes podem ver já o trailer deste filme.

Podem ler aqui uma notícia sobre esta colaboração na edição online do jornal Público.

Ver + ouvir:
The Very Best, Hear Me



Depois de uma colaboração inesquecível com Ezra Koenig em Warm Heat of Africa, os The Very Best voltam a assinar uma parceria com um elemento dos Vampire Weekend. E desta vez apresentam-se ao lado de Chris Baio.

Passatempo: aqui há bilhetes para ver
a exposição de David Bowie no cinema


Os Cinemas UCI em Lisboa (El Corte Inglés) e Gaia (Arrábida Shopping) apresentam amanhã, às 19.00, num visionamento único, o filme David Bowie is Happening Now, uma visita guiada à exposição 'David Bowie is', que esteve patente em 2013 no Victoria & Albert Museum, em Londres, e neste momento passa por Chicago. A sessão em Lisboa será apresentada pelos autores deste blogue.

Temos dez convites para oferecer para ambas as sessões. Para tal basta que nos contactem via email - sound--vision@hotmail. com - e nos digam não só se querem ver o filme em Lisboa ou Gaia, mas também qual é o vosso álbum preferido de David Bowie (e se quiserem, explicam porquê)...

Giorgio Moroder diz que os 74
são agora os novos 24...
(e assim regressa aos discos)

O produtor Giorgio Moroder, um dos "pais" do disco (fação eletrónica) e autor de uma mão cheia de parcerias históricas junto de nomes como os de Donna Summer, Blondie, David Bowie, Japan, Freddie Mercury, Philip Oakey ou Limahl, está de regresso aos discos com aquele que será o seu primeiro álbum de originais a solo editado em 30 anos.



Foi em 1985 que pela última vez o vimos neste formato em Innovisions, álbum que lançou no mesmo ano em que editava um outro LP, esse em parceria com Phil Oakey, vocalista dos Human League.

Em 74 is the New 24 deixa claro que, na música de dança, a idade que surge no BI não é questão a merecer preocupações. E ao lado de figuras como Britney Spears, Kylie Minogue, Charlie XCX ou Sia, que convidou a colaborar no disco, regressa em 2015.

Novas edições:
New Build

“Pour it On"
Sunday Best
3 / 5

A pulverização de descendências dos Hot Chip (que já vinha de trás) está a ganhar particular visibilidade, sobretudo na sequência da edição do menos nutritivo In Our Heads, de 2012. E depois de novos discos de Alexis Taylor e do projeto The 2 Bears (onde milita Joe Goddard) cabe a Al Doyle e Felix Martin um segundo episódio da aventura em paralelo na qual se lançaram em 2011 sob o nome New Build. Depois de dois singles lançaram em 2012 o discreto (e pouco interessante) álbum de estreia Yesterday Was Lived and Lost. Agora, dois anos depois, mostram em Pour it On uma ideia mais focada e luminosa, curiosamente representando, entre todas as experiências nascidas dos Hot Chip a que mais se aproxima da casa-mãe de todos. Sem a angulosidade indie (escola suave) que haviam procurado ensaiar no álbum de estreia, este segundo disco dos New Build é um claro espaço de afirmação de um desejo de fazer uma pop luminosa e dançável, talhada pelas electrónicas e ciente de que há toda uma cultura escutada na música de dança a residir na sua medula. De certa maneira promove-se aqui uma relação com a canção pop tal e qual escutámos nos melhores momentos da obra dos Hot Chip, o único senão sendo o facto de, apesar da coerência que une o alinhamento, nunca aqui surge um daqueles instantes como os que, com One Life Stand, Ready For The Floor ou I Feel Better, inscreveram episódios maiores na história da pop pós-milénio.

Para ouvir: um tema 'bónus' de Perfume Genius



Mike Hadreas partilhou via Sound Cloud este tema que se serve como bónus em algumas versões do álbum Too Bright, editado este ano.

Para ler: poderá um jogo vídeo
salvar a cultura inuit?

Um artigo publicado pela New Yorker coloca esta questão... O jogo tem por título 'Never Alone' e visita os espaços da cultura inuit, a mesma que o cinema já olhou com atenção em filmes como o documentário histórico Nanook of the North ou a ficção mais recente Atanarjuat. Poderá este jovo vídeo ajudar a salvar esta milenar cultura norte-americana?

Podem ler aqui o artigo.

segunda-feira, Novembro 17, 2014

Ver + ouvir:
David Bowie, Sue (or in a Season of Crime)


O Sound + Vision dedica esta semana (uma vez mais, é verdade, mas nunca é demais) atenção especial a David Bowie, assinalando a chegada de uma antologia que celebra os seus 50 anos de vida discográfica.

Começamos assim por visitar aquele que é o teledisco que acompanha o novo single. Seguem-se posts sobre a nova antologia, uma sessão especial esta tarde na Fnac Chiado e a notícia de um filme-visita à exposição que o Victoria & Albert Museum teve patente em 2013. E atenção que amanhã teremos convites para oferecer para as exibições únicas deste filme em Lisboa e Gaia. Fiquem atentos ao Sound + Vision.

Os 50 anos de carreira de Bowie
hoje no Sound + Vision Magazine
às 18.30 na Fnac Chiado


Hoje o Sound + Vision Magazine está de volta à Fnac Chiado com uma sessão especial que assinala os 50 anos de carreira discográfica de David Bowie. Entre telediscos, sons e imagens, evoca-se um dos ícones maiores da música do nosso tempo.

Além deste percurso haverá espaço para falar dos novos discos, filmes e livros. Assim como haverá um espaço para evocar a figura de François Truffaut.

Novas edições:
David Bowie

“Nothing Has Changed”
Parlophone / Warner Music
5 / 5

Com uma obra em disco quase invisível até à chegada de Space Oddity (em 1969) – e feitas as contas até então tinha já lançado um álbum e nove singles – David Bowie é, na verdade, um veterano a assinalar em 2014 os 50 anos de carreira discográfica. Se com os The Kon-Rads, a sua primeira banda (formada em 1962) não chegou a fazer discos, a sua estreia chegou em 1964 com Liza Jane, o único single que editou como Davie Jones & The King Bees, primeiro de uma série de experiências efémeras que o mostravam em terreno mod, os primeiros sinais de busca de uma visão mais pessoal chegando com um belíssimo (mas ainda hoje relativamente ignorado) álbum de estreia editado em 1967, na verdade cabendo apenas a Space Oddity o papel de o devidamente apresentar a uma mais vasta plateia, cabendo depois à “fase” Ziggy, entre 1972 e 73, a sua elevação a um estatuto icónico de dimensão global que, entre sucessivas mudanças e visões, o afirmaria como um dos mais importantes autores do nosso tempo. Há pouco mais de ano e meio, e após uma década de ausência, que se seguiu a uma urgência clínica, Bowie regressou, para surpresa de todos, com um álbum pungente, capaz de estabelecer pontes com etapas várias da sua obra, reafirmando uma relação com as linguagens do rock que nem sempre dominaram a sua música. Se a surpresa em 2013 foi a existência de um disco – no qual nos apresentava em Where Are We Now? uma das suas melhores canções de sempre – um ano depois a novidade está no rumo no qual lança um novo single que assim se serve como o mais apetitoso de um breve conjunto de temas inéditos que agora inclui numa antologia que, como até aqui nunca acontecera, junta elementos da era pré-Space Oddity a muita da história que se seguiu. Lançado também em formato de single, Sue (or in a Season of Crime) é uma peça desafiante de sete minutos de duração, votada a transgredir o formato clássico da canção pop/rock, aliando o poder da presença (sublime) da orquestra de jazz de Maria Schneider para colocar Bowie num espaço novo e distinto, restando-nos ficar a pensar se esta será a porta para a entrada num outro mundo de sons e formas, como o foi para Scott Walker o álbum Tilt, de 1995 (depois de, é verdade, algumas sugestões já ensaiadas em Climate of Hunter, de 1984). Se a dúvida fica no ar (com uma canção em tudo brilhante), ao resto do alinhamento de Nothing Has Changed – título extraído da letra de Sunday (do álbum Heathen, de 2001) – cabe a abertura de mais algumas frestas sobre o álbum “perdido” Toy, gravado em 2000 mas até aqui nunca editado, juntando depois um percurso que recua aos tempos de Liza Jane, You've Got a Habbit of Leaving ou Can’t help Thinking About Me (alguns dos singles pré-1969), de um longo percurso, dos seus álbuns de estúdio ficando apenas de fora o registo de estreia David Bowie (de 1967) e a etapa entre 1989 e 1992 na qual militou nos Tin Machine. O alinhamento junta vários singles nascidos fora do alinhamento de álbuns (sobretudo nas colheitas dos oitentas), e opta inteligentemente por apresentar as versões editadas nos singles sempre que possível, alargando assim o panorama para lá do que está já representado na discografia em álbum, entre estas escolhas surgindo assim importantes colaborações pontuais com nomes como os de Mick Jagger, Pat Metheney, Nine Inch Nails, Pet Shop Boys ou os Queen. A mais abrangente das antologias de Bowie até este momento poderá ser apenas o início de uma abordagem mais sistemática a uma obra vasta e marcante. Se seguir (e devia fazê-lo) os passos de uns Beatles ou Abba, podem seguir-se caixas com integrais de singles em suporte digital e vinil. O que não impede que, como sucedeu já com álbuns como David Bowie (1967), The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars (1972), Aladdin Sane (1973), Diamond Dogs (1974), Station to Station (1976), Black Tie White Noise (1993), Hours (1999), Heathen (2001), Reality (2003) e The Next Day (2013), surjam reedições, com extras, dos restantes títulos da sua obra. Há ainda muito a fazer, está visto. 

PS. Podíamos aqui falar também do artwork do disco. Mas fica para um próximo post, OK?

Quer "visitar" a exposição sobre Bowie
numa sala de cinema?
(fique atento, por aqui...)


Esta quarta-feira os cinemas UCI em Lisboa e Vila Nova de Gaia vão apresentar, pelas 19.00, em sessões únicas, o filme 'David Bowie is Happening', documentário que faz uma visita guiada à exposição que esteve patente em 2013 no Victoria & Albert Museum, em Londres. A sessão em Lisboa terá apresentação a cargo dos dois autores deste blogue.

O Sound + Vision vai ter amanhã vários bilhetes para oferecer. Fiquem atentos...

E aqui podem ler a reportagem que então escrevi quando visitei a exposição (que neste momento está patente em Chicago).


Comunicação, música e imagem
no espaço mediático

Falar de música e imagens conhecendo a atualidade mas também a sua história. Como se apresentam nos vários media? Que desafios colocam as novas plataformas online? Como se faz uma reportagem e uma crítica que se distingam de tantas outras? No final da ação os formandos deverão ter um conhecimento alargado sobre o que está a acontecer no presente nas áreas da música e seu relacionamento com as imagens. Saberão distinguir como agir tanto em media tradicionais como em novos espaços online. E construir textos que saibam ser diferentes de possíveis concorrências.

Estes são os objetivos de um curso que vou apresentar regularmente no centro de formação Palavras Ditas, em Lisboa. É um curso de 25 horas, em regime pós-laboral, com aulas duas vezes por semana. 

Podem ver aqui informação detalhada sobre este curso. 

Para ler: 'Do They Know It's Christmas'
em nova versão para lutar contra o ébola

O Guardian acompanhou a gravação de uma nova versão do tema Do They Know It's Christmas?, com vozes de várias gerações. Esta nova versão vai juntar fundos para campanhas de luta contra o ébola. Hé 30 anos, a versão original do tema lançou uma nova era de solidariedade através da música.

Podem ler aqui o texto.

LEFFEST: memórias de 1934


[ Garrel ] [ Ferrara, 1 ] [ Malkovich ] [ Ferrara, 2 ] [ Lynch/Alberola ] [ Dumont ] [ Ullmann ] [ Petzold ]
[ Jacquot ]


* SADIE McKEE, de Clarence Brown

Será a mais insólita das evidências: um dos melhores filmes vistos na oitava edição do LEFFEST tem data de produção de 1934! Sadie McKee, de Clarence Brown — protagonizado pela admirável Joan Crawford, e incluindo no seu elenco nomes como Gene Raymond e Franchot Tone — surgiu como uma escolha que Wes Anderson. Na sua apresentação, o realizador de Grand Budapest Hotel sublinhou o facto de se tratar de um filme pré-código — entenda-se: anterior aos efeitos normativos do Código Hays, posto a funcionar por Hollywood precisamente por volta de 1934 —, nessa medida encenando modos de relação, sobretudo entre homens e mulheres, que os grandes estúdios passariam a tratar em função de matrizes morais muito mais fechadas (que, por sua vez, como é sabido, deram origem às mais perversas formas de desmontagem interna).
Seja como for, o que mais surpreende não é tanto o pragmatismo dos perfis psicológicos das personagens — cada uma delas distante de qualquer fixidez dramática ou moral —, mas a extrema agilidade do argumento de John Meehan, escrito a partir de uma história de Viña Delmar [que surge, em destaque, no trailer original], elaborando uma estrutura de eventos que escapam a qualquer modelo de determinismo. Assim, por um lado, é verdade que vogamos no interior de um cinema em fase de consolidação dos seus sofisticados mecanismos de estúdio; ao mesmo tempo, por outro lado, há em Sadie McKee uma densidade humana que faz de cada ser (homem ou mulher) uma paisagem sempre em aberto, sempre em processo de fascinante descoberta e também, afinal, auto-descoberta.