sexta-feira, maio 29, 2015

A IMAGEM: Mary Ellen Mark, 1990

MARY ELLEN MARK
Amanda e a sua prima Amy (Valdese, Carolina do Norte)
1990

7 x Oliveira (6)

O QUINTO IMPÉRIO (2004)
[ Douro, Faina Fluvial ]  [ Acto da Primavera ]  [ Benilde ou a Virgem Mãe ]  [ Amor de Perdição ]
[ Viagem ao Princípio do Mundo ]


Ricardo Trêpa no papel de um desamparado D. Sebastião; Luís Miguel Cintra como um conselheiro perverso, talvez sem estatuto social para a função — de novo inspirando-se em José Régio (cerca de três décadas depois de Benilde), Manoel de Oliveira coloca em cena a amarga identidade portuguesa, dividida entre o pragmatismo da sua fragilidade e o conforto enganoso de todas as utopias. É, por certo, um objecto central na história da moderna cultura portuguesa, muito para além de qualquer lógica tele-ilustrativa das chamadas "reconstituições" históricas — fazer história envolve sempre a construção de um discurso que não esclarece milagrosamente o passado, antes refaz o presente.

Madonna, Jane Fonda & etc.

Assim vão os tempos: aos 56 anos, Madonna suscita as censuras dos puristas dos costumes que não aceitam que se possa "envelhecer", assim, nos espaços do entertainment; entretanto, Jane Fonda, no esplendor dos seus 77 anos, é um símbolo eterno do feminino... A própria, aliás, não deixa de ser sensível à paradoxal ironia: "Acho que é hilariante que, na minha idade, as pessoas me chamem um ícone da moda", desabafa ela numa interessantíssima conversa com Lynn Hirschberg, na edição de Junho/Julho da revista W, acompanhada de fotografias assinadas por Steven Meisel (fotógrafo de eleição de Madonna, hélas!, que com ela fez, por exemplo, o livro Sex). Em boa verdade, por certo de modos diferentes e a partir de trajectórias sem (quase) nada em comum, Fonda e Madonna são símbolos exemplares de uma mesma atitude individual e individualista: a não abdicação de contar a sua própria história.
Provavelmente, daqui a trinta anos, as actuais performances de Madonna serão celebradas como testemunhos incontornáveis de uma mudança essencial na percepção social do envelhecimento e também de uma reconversão simbólica do feminino (como agora acontece com as suas presenças iniciais na MTV, na altura reduzidas por quase todos a manifestações mais ou menos ridículas...). Ou como diria Jane Fonda: "Nos meus dias maus, digo para mim própria: 'Fonda, tu és resistente e nunca deixaste de tentar ser melhor.' É esse o meu mantra e salvou-me muitas, muitas vezes."
MADONNA
Foto de Mert Alas & Marcus Piggott, Vogue Paris (Fevereiro 2015)
JANE FONDA
Foto de Steven Meisel, W (Junho/Julho 2015)

Lianne La Havas, opus 2

Fiel a um requintado espírito soul, marcado por pontuações folk, a talentosa e versátil Lianne La Havas está de volta. Depois de ter sido uma das grandes revelações de 2012, com Is Your Love Big Enough?, a cantora inglesa, de ascendência grega e jamaicana, vai lançar em Julho o seu segundo álbum, intitulado Blood — eis o primeiro teledisco, Unstoppable.

quinta-feira, maio 28, 2015

Cannes 2015 [branco]

JL
As mudanças introduzidas na entrada do Grande Auditório Lumière não terão sido as mais felizes. O branco de chão e tecto cria uma espécie de cenário de ficção científica (THX 1138?) que não favorece a espera, a paragem, a deambulação ou o diálogo: passou a ser apenas um lugar de passagem. Em qualquer caso, não desapareceu a tradição das fotos dos cineastas representados na secção competitiva — Moretti, riso sereno, vigia a nossa velocidade.

Mary Ellen Mark (1940 - 2015)

Mary Ellen Mark
Fotografou grandes vedetas das artes, em particular do cinema, mas soube também ser fiel à complexidade das figuras anónimas: Mary Ellen Mark faleceu no dia 25 de Maio, em Nova Iorque, vítima de síndrome mielodisplásica — contava 75 anos.
Nascida nos subúrbios de Filadélfia, seria em Nova Iorque, em meados da década de 60, que se consolidaria a sua personalidade artística, em particular através das imagens que foi recolhendo de momentos emblemáticos da época, desde os protestos contra a guerra do Vietname até ao movimento de libertação das mulheres. Sempre atenta às singularidades de cada ser humano, fosse ele um peão do quotidano ou uma grande estrela de Hollywood, construiu uma obra admirável, de uma maneira ou de outra comandada por uma sensibilidade humanista, feita de contundência e compaixão.
Acompanhou as rodagens de diversos filmes, entre os quais Satyricon (1969), de Federico Fellini, e Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola. Assinou portfolios para revistas como a Life, Rolling Stone, The New Yorker e Vanity Fair. Entre os seus álbuns mais célebres, incluem-se Streetwise (1982), Portraits (1995) e American Odyssey (1999); o seu derradeiro livro, Tiny: Streetwise Revisited, será publicado ainda este ano, com chancela da Aperture, e reencontra os jovens sem casa de Streetwise, fotografados em Seattle no início dos anos 80. Na lista imensa de distinções que recebeu, inclui-se o Prémio Cornell Capa (2001), atribuído pelo Centro Internacional de Fotografia.

>>> Obituário no New York Times.

Jim Carrey (Hollywood, 2001)
Rat e Mike com uma pistola (Seattle, 1983)
Tiny no Halloween (Seattle, 1983)

SOUND + VISION Magazine
— hoje na FNAC

Cannes é tema forte do nosso SOUND + VISION Magazine: em revista estarão imagens e sons do maior festival de cinema do mundo — hoje, quinta-feira, 18h30, na FNAC do Chiado.

Vicente Aranda (1926 - 2015)

Porventura dos menos conhecidos autores do cinema espanhol fora do seu próprio país, foi também um dos mais versáteis e talentosos: Vicente Aranda faleceu na sua casa em Madrid no dia 25 de Maio — contava 88 anos.
A consagração com o filme Amantes (1991), com Victoria Abril, valeu-lhe o rótulo de cineasta do "sexo" e do "escândalo", francamente simplista para definir o seu trabalho e até para dar conta da variedade temática da sua filmografia. Evoluiu desde o experimentalismo das novas vagas, com Fata/Morgana (1965), até uma recriação de Carmen (2003), com Paz Vega, o último dos seus filmes que chegou às salas portuguesas. Ao longo de uma carreira de quase três dezenas de títulos, filmou também, por exemplo, os bastidores femininos da Guerra Civil espanhola, em Libertarias (1996), e a saga da rainha Joana, no começo do séc. XVI, em Joana, a Louca (2001). Amantes valeu-lhe um Goya de melhor realização.

>>> Obituário no El Pais.

O riso dos bebés

Não é todos os dias que os bebés são representados como... bebés. Sem formatações moralistas nem sermões pomposos — pequenos, irredutíveis, geniais. Para mais no contexto de uma mensagem publicitária. Eis um belíssimo exemplo de como os adultos (publicitários incluídos) também podem saber admirar a arte de rir em ponto pequeno.

quarta-feira, maio 27, 2015

Cannes 2015 [Inglewood]

Dir-se-ia que o hip hop possui uma genealogia que, ao contrário do rock, não encontrou uma correspondência de "género" no próprio cinema. Talvez porque, no hip hop, o valor da "mensagem" tende a prevalecer sobre as especificidades da performance. Excepção a ter em conta: Dope, o filme de Rick Famuyiwa que encerrou oficialmente a Quinzena dos Realizadores. Os protagonistas têm uma banda de hip hop, celebrando de forma veemente os sons da década de 90, mas o filme está para além de qualquer "transcrição" musical — é antes uma comédia, amarga e doce, sobre o crescimento numa zona difícil de Inglewood, Califórnia, tanto mais envolvente quanto elabora uma estrutura narrativa de invulgar dinâmica visual e emocional (ganhou um prémio de montagem, para Lee Haugen, no Festival de Sundance).

Primeiro candidato a Oscars?

Todas as especulações não passam disso mesmo... O certo é que começam a estar alinhadas as estreias de alguns filmes que poderão ter alguma visibilidade nas nomeações para os próximos Oscars (a atribuir no dia 28 de Fevereiro de 2016). Pawn Sacrifice, de Edward Zwick, talvez esteja nessas condições (Zwick é detentor de um Oscar, como produtor, por A Paixão de Shakespeare, melhor filme de 1998).
Pawn Sacrifice evoca o célebre confronto entre o americano Bobby Fischer e o russo Boris Spassky, na disputa do título do campeão do mundo de xadrez, em 1972, com a Guerra Fria em pano de fundo; Tobey Maguire e Liev Schreiber interpretam, respectivamente, Fischer e Spassky. O filme está agendado para 18 de Setembro nas salas dos EUA, com estreia portuguesa marcada para 15 de Outubro — eis o primeiro trailer.

terça-feira, maio 26, 2015

Cannes 2015 [Marion]

JL
Subindo o Boulevard Carnot, ao cair da noite. No silêncio que se anuncia, Marion Cotillard vigia a angústia branda da luz em nome da Casa Dior — o real é mais cinematográfico que o cinema.

A IMAGEM: Steven Klein, 2015

STEVEN KLEIN
Hilary Rhoda (p/ Eli Tahari)
2015

Cannes: Audiard, Varda e os outros

O júri de Cannes, pouco antes da cerimónia de encerramento
Foi um festival pleno de obras das mais diversas origens, diferentes e estimulantes: a 68ª edição de Cannes terminou com a vitória de Dheepan, de Jacques Audiard — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Maio), com o título 'Drama global dos refugiados ecoa na Palma de Ouro de Cannes'.

Se os prémios de um festival de cinema servem também para reflectir os pontos de vista dominantes dos seus espectadores, importa dizer que o júri da 68ª edição de Cannes, presidido pelos irmãos Joel e Ethan Coen, conseguiu uma boa síntese: a Palma de Ouro para Dheepan, do francês Jacques Audiard, distinguiu um filme cuja actualidade política e simbólica foi amplamente reconhecida. Apontado por alguns como vencedor “obrigatório”, o mestre de Taiwan, Hou Hsiao-Hsien, recebeu o prémio de realização por The Assassin, evocação operática dos conflitos de poder na China do séc. IX.
Jacques Audiard
Num contexto em que os cidadãos europeus têm sido confrontados com o complexo problema dos refugiados, Dheepan consegue chamar a atenção para um facto que importa não esquecer: esse é um drama que transcende, e muito, as zonas geográficas próximas da Europa. Audiard encena, assim, a odisseia de um ex-militar do Sri Lanka (de nome Dheepan) que, com uma família “forjada”, tenta sobreviver num bairro problemático dos arredores de Paris.
A consagração de Son of Saul, do húngaro László Nemes, com o Grande Prémio (o segundo na hierarquia do palmarés), decorre do mesmo tipo de preocupações. Muito para além das regras tradicionais do filme sobre a Segunda Guerra Mundial, Son of Saul arrisca colocar a sua acção no interior do campo de concentração de Auschwitz, propondo uma visão de perturbante realismo que, por certo, vai dar origem a um renovado debate sobre as formas cinematográficas de abordagem do Holocausto. László Nemes (n. 1977) fica também como uma das genuínas revelações deste festival, uma vez que Son of Saul é a sua primeira longa-metragem. Ao agradecer, fez questão em lembrar que o filme foi rodado (e projectado) em película de 35 mm, formulando um voto da sua geração face à generalização dos formatos digitais: “Não queremos que a película desapareça”.
Apresentada pelo actor francês Lambert Wilson (que também já desempenhara idêntica função na abertura), a cerimónia dos prémios de Cannes, transmitida em França pelo Canal +, voltou a ser uma mistura algo incoerente, de excessiva duração. Por um lado, parece ter havido a preocupação de diversificar o evento (à maneira dos Oscars?...), propondo alguns intermezzos musicais, incluindo uma interpretação de um clássico da canção popular, Just a Gigolo, pelo actor americano John C. Reilly (que surgia em dois títulos da competição: Tale of Tales e The Lobster, respectivamente de Matteo Garrone e Yorgos Lanthimos). Por outro lado, desde as divagações da abertura até alguns prolongadíssimos discursos, a cerimónia ressentiu-se de um tom demasiado palavroso — Emmanuelle Bercot, vencedora do prémio de interpretação feminina no filme Mon Roi (ex-aequo com Rooney Mara, em Carol), terá sido o caso mais extremo, oscilando o seu discurso entre o panfleto profissional e a celebração confessional.
Agnès Varda
Ainda assim, a presença de Bercot no palco do Palácio dos Festivais, a par de Vincent Lindon (melhor actor por La Loi du Marché, de Stéphane Brizé), acabou por funcionar como irónico contraponto ao desencanto de vários sectores dos meios de comunicação franceses, fustigando aquilo que consideravam a mediocridade geral da representação da França na secção competitiva. Ora, foi mesmo a França a arrebatar a Palma de Ouro, pela segunda vez nos últimos três anos (Abdellatif Kechiche venceu em 2013, com A Vida de Adèle).
A consagração do cinema francês passou também pelo momento mais tocante da cerimónia, com a atribuição de uma Palma de Ouro honorária a Agnès Varda. Na sua apresentação, Jane Birkin lembrou que ela foi a única mulher no meio dos realizadores da Nova Vaga francesa, de Jean-Luc Godard a François Truffaut, passando por Jacques Demy (marido de Varda). A realizadora comoveu-se ao referir que, na casa da família, esta palma irá ser colocada ao lado de uma outra, ganha por Demy, em 1964, com Os Chapéus de Chuva de Cherburgo.
Ponto a reter: apesar de contar com três pesos pesados na competição — Nanni Moretti (Mia Madre), Matteo Garrone (Tale of Tales) e Paolo Sorrentino (Youth) —, o cinema italiano ficou fora do palmarés. Moretti, precisamente, foi o último italiano a ganhar uma Palma de Ouro, em 2001, com O Quarto do Filho. Se há alguma cinematografia claramente perdedora nesta edição de Cannes é, sem dúvida, a italiana.

domingo, maio 24, 2015

Filme de Jacques Audiard vence em Cannes

DHEEPAN
Dheepan, do realizador francês Jacques Audiard, história de um refugiado do Sri Lanka em França, arrebatou a Palma de Ouro do 68º Festival de Cannes.
Eis o palmarés atribuído pelo júri presidido por Joel e Ethan Coen:

* Palma de Ouro
DHEEPAN, de Jacques Audiard (França)

* Grande Prémio
SAUL FIA (Son of Saul / Le fils de Saul), de László Nemes (Hungria)

* Realização
Hou Hsiao-Hsien (Taiwan), pour NIE YINNIANG (The Assassin)

* Prémio do Júri
THE LOBSTER, de Yorgos Lanthimos (Grécia)

* Actriz (ex-aequo)
Rooney Mara, em CAROL, de Todd Haynes (EUA)
Emmanuelle Bercot, em MON ROI, de Maïwenn (França)

* Actor
Vincent Lindon, em LA LOI DU MARCHÉ, de Stéphane Brizé (França)

* Argumento
Michel Franco (México), por CHRONIC, de Michel Franco

Cannes 2015 [montra]

JL
O glamour é uma pose. Que é como quem diz: uma montra. Aqui, em sentido literal. Há dois anos, nesta mesma loja da rue d'Antibes, Paul Newman e Joanne Woodward vigiavam os frágeis manequins; agora, o olhar de Ingrid Bergman parece admirar a sua austeridade em negro — porque os corpos artificiais resgatam-nos das nossas humanas imperfeições.

Ted Sarandos a caminho da China

Ted Sarandos (CANNES, 15-05-2015)
De que a modo a Netflix está a mudar a televisão, quer dizer, o cinema?... A presença de Ted Sarandos em Cannes deixou algumas pistas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Maio), com o título 'A China aqui tão perto'.

Como tem sido amplamente noticiado, sobretudo pelos meios de comunicação americanos que cobrem a industria audiovisual, Ted Sarandos, chefe de conteúdos da plataforma Netflix (filmes e séries em streaming ao serviço de mais de 30 milhões de assinantes), tem sido uma das figuras centrais do Mercado do Filme [notícia + video], a decorrer paralelamente ao Festival de Cannes.
Dando conta do empenho da Netflix em adquirir cada vez mais filmes, incluindo os respectivos direitos globais de distribuição, Sarandos confirmou que está em marcha uma nova dinâmica comercial: esta plataforma televisiva pode transformar-se num parceiro fulcral do cinema, no limite estreando alguns títulos, não nas salas, mas nos ecrãs dos seus assinantes. Alias, tal envolvimento já esta a traduzir-se em diversos contratos de produção (um deles, por exemplo, com o comediante Adam Sandler).
Com o passar dos dias, foi possível compreender que o crescimento exponencial da Netflix pode transformar ainda mais o espaço televisivo. Isto porque Sarandos deu também a conhecer o próximo alvo da sua estratégia. Ou seja: o mercado chinês.
Tal hipótese não deixa de envolver alguma ironia, uma vez que os grandes estúdios de Hollywood sempre lutaram contra enormes resistências das autoridades da China (actualmente, a presença dos seus produtos é já significativa, embora submetendo-se a regras que, de forma muito rigorosa, limitam o número de lançamentos de filmes estrangeiros). Dir-se-ia que a Netflix poderá conseguir de forma relativamente rápida aquilo que a Disney e outros estúdios americanos demoraram muito tempo a conquistar. Sarandos revelou, por exemplo, que estão a ser discutidos acordos com serviços online, incluindo circuitos de streaming que já foram controlados pelo Exército do Povo. Não tenhamos dúvidas: para compreender a evolução do mercado televisivo, tanto quanto as suas crescentes interacções com o espaço do cinema, convém estarmos atentos aos negócios da Netflix.

Cannes 2015 [memórias]

Puro encantamento! No meio da agitação de Cannes, The Little Prince, de Mark Osborne, foi, por certo, dos filmes mais mal amados. Diferenças à parte, acredito que, com o passar dos anos, se dirá também que 2015 foi o ano em que as sessões extra-competição incluíram esta adaptação do livro de Antoine de Saint-Exupéry. É um objecto fabricado com um comovente respeito pelas frondosas memórias que estão envolvidas, inclusive no processo de produção: encenando a descoberta da personagem do Principezinho a partir das experiências de uma menina à beira dos exames para entrar na Academia, o filme divide-se em dois ritmos e duas formas de animação (digital para a história contemporânea, stop-motion para a história do livro). Corresponde, afinal, a uma experiência não alinhada com os padrões dominantes da Pixar e da Disney, o que, a par das suas singularidades artísticas, lhe confere um invulgar sentido comercial de risco.

Cannes 2015 [Plage]

JL
Dir-se-ia um quadro impressionista de grupos entregues a um lazer mais ou menos colectivo e indiferenciado. E é-o, até certo ponto — sábado, dia 23, fim de tarde, pouco depois das oito e meia, os espectadores preparam-se para a derradeira sessão de 'Cinéma de la Plage' (com o filme de Bryan Singer, Os Suspeitos do Costume). Recordando títulos mais ou menos emblemáticos da dimensão popular do cinema, o festival projecta-se e projecta-nos na nostalgia de um tempo que nos escapa: sereno e silencioso, o ecrã branco parece querer protagonizar uma cena futurista.

sábado, maio 23, 2015

Cannes 2015 [Dheepan]

O filme Dheepan, de Jacques Audiard, constituiu, por certo, uma das sínteses mais felizes do festival. Mesmo se o podemos considerar inferior a outros dramas de Audiard (penso, sobretudo, em Ferrugem e Osso, que competiu em Cannes/2012), há nele a capacidade de abordagem de uma temática de perturbante actualidade — o sofrimento dos refugiados, neste caso a partir da experiência de um soldado do Sri Lanka que foge à guerra civil no seu país, rumando a França —, sem nunca perder o contacto com registos mais ou menos próximos da tradição do thriller. No papel central, Jesuthasan Anthonythasan [foto] é admirável, conseguindo ser natural sem nunca ceder às facilidades correntes do naturalismo.

A pintura segundo Frederick Wiseman

Os documentários de Frederick Wiseman resultam de um muito particular sistema de trabalho: no caso de National Gallery, o seu método revela os bastidores de uma instituição, reavaliando os modos de olhar a pintura — esta entrevista (realizada no Festival de Cannes de 2014) foi publicada no Diário de Notícias (21 Maio), com o título '“Filmar é um modo de pesquisa”'.

Quando vemos o seu filme National Gallery, sentimos uma estranha e fascinante conexão entre os rostos que estão nos quadros e os rostos dos visitantes — sentiu, de alguma maneira, que estava a fazer uma espécie de pintura para o séc. XXI?
Enfim, não poderei dizer que pensei no assunto exactamente dessa maneira, mas é um facto que pensei nas relações entre as imagens de agora e as pinturas. Mais do que isso: pensei que, realmente, passou a ser possível fazer retratos através do cinema. Claro que há relações complexas entre as pessoas que estão nas pinturas e aquelas que circulam na galeria... Lembro-me, por exemplo, daquela cena em que uma guia refere que as figuras do quadro Os Embaixadores [Holbein, 1533] fizeram pose para “tirar uma fotografia”, o que não deixa de ser uma maneira sugestiva de dizer que a fotografia não existia.

Ao entrar na National Gallery, com a sua câmara e o aparelho de registo sonoro, tinha definido alguma estratégia de filmagem?
Posso dizer que segui um caminho idêntico ao de todos os meus filmes: ando pelo espaço durante algum tempo e filmo bastante, mesmo sabendo que há muitas coisas que não vão ficar na montagem final. Não sei se isso de pode considerar uma estratégia... Antes de fazer o filme nunca tinha visitado os bastidores da National Gallery, não sabia nada sobre o seu departamento científico ou o restauro dos quadros — nessa medida, filmar é também um modo de pesquisa.

Frederick Wiseman / Cannes 2014 (FOTO: JL)
Portanto, a estrutura do filme apenas surge através da montagem.
Apenas surge no fim da montagem. Em boa verdade, nem sequer penso na estrutura antes de concluir a montagem de todas as cenas que, em princípio, vou conservar na montagem final — e isso pode demorar seis a nove meses.

Em algumas cenas, parece que utilizou duas câmaras...
De facto, não: é tudo feito com uma única câmara. A sensação de duas câmaras, se existe, resulta da montagem. Isto porque, durante a rodagem, devemos pensar em mudar de posição, tendo em conta, precisamente, a montagem. Posso mesmo dizer que aprendi a filmar através da montagem.

Sente que as pessoas filmadas de alguma maneira resistem à sua presença?
É uma velha questão, claro, saber se a câmara e os microfones mudam os comportamentos. Em função da minha experiência, terei que dizer que não. Isto porque posso passar 12 horas por dia nos lugares que filmo — se filmarmos 3 horas por dia, é imenso. Na prática, há constantes repetições de comportamento. Além do mais, não creio que as pessoas tenham a capacidade de mudar os seus comportamentos: se não querem participar, limitam-se a dizer que não ou a sair de cena. Por fim, se chego à montagem e deparo com um comportamento que me parece falso, “inventado” para a câmara, é muito simples: não o uso.

E o que acontece antes das filmagens? Como é que consegue circular por aqueles espaços?
Tenho um segredo: peço licença para filmar [riso].

Mas as equipas de televisão também pedem licença e os resultados são bem diferentes.
É que eles pedem para fazer entrevistas, e eu não faço entrevistas. Chegam com luzes, e eu não as uso. E são uma equipa de seis ou sete pessoas, enquanto no meu caso somos apenas três — muitas vezes, a terceira pessoa nem sequer está na sala em que estamos a filmar.

sexta-feira, maio 22, 2015

Cannes 2015 [assassina]

Na sua pose de elegante frieza, Shu Qi está no centro do filme de Hou Hsiao-Hsien, The Assassin. Que é como quem diz: esta é a história de uma assassina, educada para combater as forças da tirania na China do séc. IX. Filme histórico? Talvez, mas entendendo a história, não como algo que se ilustra, antes como a ilustração de uma perdição, a um tempo temática e formal. Para Hou Hsiao-Hsien, a história não é um "pano de fundo" das personagens, antes uma paisagem de coordenadas em permanente mutação, transformando o espaço e o tempo em vectores para lá de qualquer percepção realista — se o cinema pode redescobrir o seu primitivo poder encantatório, é através de filmes como The Assassin.