terça-feira, agosto 11, 2020

Futebol & portugalidade

Pequena lição sobre o infantilismo simbólico gerado pelo pós-modernismo. Algo fora de tempo, por certo, mas esclarecedora: antecipando a fase final da Liga dos Campeões em Lisboa, o jornal francês L'Équipe encena uma galeria de jogadores das equipas participantes "duplicando" as figuras do Padrão dos Descobrimentos, em Belém. Já não são "descobridores", mas "conquistadores"... Perverso realismo que, agora, internamente, surge promovido como vitória da portugalidade. Quem disse que o futebol não é a linguagem dominante?

segunda-feira, agosto 10, 2020

"Sunset Boulevard"
— os deuses fazem 70 anos

O cartaz original de Sunset Boulevard apresenta a mais primitiva matéria simbólica do cinema — a película perfurada — enredada num nó. Assim era: o filme de Billy Wilder com uma estrela decadente interpretada por Gloria Swanson, contracenando com a personagem fúnebre de William Holden, corresponde a um momento de dramática transfiguração da história de Hollywood — "A Hollywood Story", sublinha o mesmo cartaz —, contemplando a decomposição da sua própria história mitológica. Daí o título português, longe do original, mas por uma vez não atraiçoando o seu espírito: Crepúsculo dos Deuses.
Sunset Boulevard teve a sua estreia no dia 10 de Agosto de 1950 — faz hoje 50 anos.
Em Abril de 1951, em França, surgiria o nº1 da revista Cahiers do Cinéma — na capa está o mesmo filme.

domingo, agosto 09, 2020

Miles, 5 de Novembro de 1971

Cerca de um ano depois de The Lost Quintet, de novo com chancela de Sleepy Night Records, aí está The Lost Septet: o álbum duplo de Miles Davis é uma preciosidade escutada apenas uma vez, quando da sua realização e transmissão radiofónica. Aconteceu no dia 5 de Novembro de 1971, em território austríaco, na Wiener Konzerthaus. Nele encontramos um testemunho exemplar da época de todas as fusões, rock'n'roll & electrónicas, de algum modo definida a partir de In a Silent Way (1969) — recorde-se que o emblemático Live-Evil seria editado poucos dias mais tarde, a 17 de Novembro. Eis a colecção de notáveis...

* Miles Davis (trompete)
* Gary Bartz (saxofones, soprano e alto)
* Keith Jarrett (piano eléctrico, orgão)
* Michael Henderson (baixo eléctrico)
* Ndugu Leon Chancler (bateria)
* Charles Don Alias (percussão)
* James Mtume Foreman (percussão)

... e o tema Honky Tonk.

sexta-feira, agosto 07, 2020

Elise LeGrow
— uma sala vazia, cheia com uma canção

Tempos de pandemia. Ou seja: imaginem esta sala vazia. Aliás, não é necessário: Elise LeGrow encheu o Roy Thomson Hall, em Toronto, com a sua mais recente canção, Evan, talvez o prelúdio para um segundo álbum — não havia um único espectador e, no entanto, não faltou o esplendor da música, o requinte da voz e a sofisticação da pose.

quarta-feira, agosto 05, 2020

A música de Téchiné

Poderíamos, talvez, dizer que O Adeus à Noite é, no mercado português, um dos filmes maiores destes tempos de pandemia. Mas não precisamos de criar rótulos só... porque sim... Aliás, a mais recente longa-metragem de André Téchiné foi revelada há mais de um ano, no Festival de Berlim, em Fevereiro de 2019, tendo estreado em França poucas semanas depois, em Abril. É a oitava colaboração do cineasta com Catherine Deneuve, desta vez a interpretar a proprietária de uma escola de equitação que suspeita que o seu neto quer militar nas fileiras do Estado Islâmico... Há em Téchiné uma musicalidade dos afectos e suas contradições que, como sempre, encontra um eco exemplar na banda sonora. Para já, fiquemo-nos pelo tema-título da música, composta por Alexis Rault.

terça-feira, agosto 04, 2020

Roger Waters
— uma memória de "The Final Cut"

Memória recuperada em tempos de pandemia: do mais maldito álbum dos Pink Floyd — The Final Cut, o último com Roger Waters —, eis Two Suns in the Sunset. A gravação é do próprio Waters, em tempos de reclusão, austero e didáctico, muito bem acompanhado por Dave Kilminster (guitarra), Joey Waronker (bateria), Lucius-Jess Wolfe e Holly Laessig (vozes), Gus Seyffert (baixo), Jonathan Wilson (guitarra), Jon Carin (piano e teclas), Bo Koster (Hammond) e Ian Ritchie (saxofone).

In my rear view mirror the sun is going down
Sinking behind bridges in the road
And I think of all the good things
That we have left undone
And I suffer premonitions
Confirm suspicions
Of the holocaust to come.

The wire that holds the cork
That keeps the anger in
Gives way
And suddenly it's day again.
The sun is in the east
Even though the day is done.
Two suns in the sunset
Could be the human race is run.

Like the moment when the brakes lock
And you slide towards the big truck
"Oh no!"
"Daddy, Daddy!"
You stretch the frozen moments with your fear.
And you'll never hear their voices
And you'll never see their faces
You have no recourse to the law anymore.

And as the windshield melts
My tears evaporate
Leaving only charcoal to defend.
Finally I understand the feelings of the few.
Ashes and diamonds
Foe and friend
We were all equal in the end.

A IMAGEM: Johanna Jaskowska, 2020

JOHANNA JASKOWSKA
"Augmented senses"
Vogue Italia, Junho 2020

segunda-feira, agosto 03, 2020

Na morte de Olivia De Havilland

[Trailer de E Tudo o Vento Levou]
A. Um pouco por todo o lado, a notícia da morte de Olivia De Havilland, a 26 de Julho, contava 104 anos [obituário: NYT], foi comentada como o desaparecimento da derradeira glória da idade de ouro de Hollywood. Assim é, de facto — a classificação é tanto mais respeitável quanto envolve uma admiração genuinamente cinéfila.

B. Em todo o caso, valerá a pena acrescentar que aquilo que desapareceu, mais do que as estrelas dessa época realmente dourada, foi Hollywood como comunidade, indústria e comércio em que a star ocupava um lugar central. O triunfo de uma nova iconografia da fama — simbolizada pelo imaginário dos "efeitos especiais" imposto pelos estúdios Marvel — relegou os actores e actrizes para a condição de figurantes humanos na feira dos heróis digitais.

C. Há excepções como Charlize Theron ou Tom Cruise, embora cada um deles "obrigado" a cumprir outros protocolos profissionais — o recente "blockbuster" de Theron, A Velha Guarda, produzido pela Netflix, é mesmo um objecto de embaraçosa mediocridade. São excepções que confirmam a regra: uma entidade (Hollywood) que cedeu as rédeas da sua criatividade aos tecnocratas do marketing para quem um filme não é uma narrativa, nem sequer uma forma específica de espectáculo, apenas um produto.