terça-feira, junho 28, 2022

Infância: que políticas?

Sintoma (neste caso vindo de França): o jornal Libération analisa a situação das creches, apontando a falta de instituições com as condições mínimas exigidas e a deficiente formação de alguns educadores. Para lá dos casos de excepção, a regra é perturbante: vivemos tempos de muitos discursos piedosos e simplistas de "protecção" das crianças, mas escasseiam as políticas que tenham alguma noção ágil, inteligente e, sobretudo, não paternalista da infância.

domingo, junho 26, 2022

Tess Parks, canto e dança

Eis uma pequena pérola vinda do Canadá. Assina: Tess Parks, nascida em Toronto, em 1992. Publicou o primeiro álbum, Blood Hot, em 2013, tendo depois mantido uma colaboração regular com o produtor e multi-instrumentalista Anton Newcombe, líder da banda The Brian Jonestown Massacre, com quem aliás lançou Tess Parks & Anton Newcombe (2018). Personagem de um rock de grande liberdade criativa, reminescente de alguma nostalgia psicadélica, Parks apresenta agora And Those Who Were Seen Dancing, uma dezena de canções de invulgar precisão musical e poética — eis Happy Birthday Forever (teledisco feito, segundo algumas fontes, com imagens das aulas de bailado da própria cantora).

BOWIE / ZIGGY / FNAC

Da sessão SOUND + VISION da FNAC, no sábado, dia 25, aqui ficam algumas memórias soltas da nossa revisitação de Ziggy Stardust a propósito do seu 50º aniversário.

>>> David Bowie, Changes (1971; lyric video, 2018).
 

>>> Duran Duran, Five Years (2021).
 

>>> Choir! Choir! Choir!, Heroes (2019).
 

sábado, junho 25, 2022

Regina Spektor, Opus 8

Nascida em Moscovo, em 1980, a americana Regina Spektor continua a construir uma obra alheada de modas efémeras e experimentações equívocas. Home, Before and After, o seu oitavo álbum de estúdio, aí está para confirmar a serena fidelidade a padrões criativos muito pessoais, algures entre um barroquismo contido e uma suave contaminação por elementos folk — tudo tratado através de uma voz, não propriamente invulgar, mas que sabe preservar as singularidades de um peculiar gosto narrativo.
Eis o tema de abertura do álbum — Becoming All Alone —, primeiro no lyric video correspondente ao registo agora editado, depois, apenas com piano, em The Late Show, com Stephen Colbert.
São dois belos exemplos das novas aventuras musicais e poéticas de Spektor.





Ziggy Stardust, 50 anos
— SOUND + VISION [FNAC, hoje]

O álbum Ziggy Stardust and the Spiders from Mars surgiu em 1972, faz agora 50 anos — na próxima sessão SOUND + VISION, na FNAC, revisitamos imagens e sons daquela que continua a ser a personagem mais lendária de David Bowie e um dos ícones da história do rock.

>>> FNAC, Chiado — hoje, 25 junho (17h00).

sexta-feira, junho 24, 2022

Ziggy Stardust, 50 anos [11/11]

Foi a 16 de junho de 1972 que surgiu The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, álbum em que David Bowie inventava a sua personagem mais mítica, redefinindo a carreira e, mais do que isso, abrindo um capítulo do rock consagrado às possibilidades de permanente discussão da identidade artística, pública e privada. São 11 canções, aqui metodicamente recordadas — esta é a décima primeira, Rock'n'Roll Suicide.

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Time takes a cigarette, puts it in your mouth
You pull on your finger, then another finger, then your cigarette
The wall-to-wall is calling, it lingers, then you forget
Ohhh, you're a rock 'n' roll suicide

You're too old to lose it, too young to choose it
And the clock waits so patiently on your song
You walk past a cafe but you don't eat when you've lived too long
Oh, no, no, no, you're a rock 'n' roll suicide

Chev brakes are snarling as you stumble across the road
But the day breaks instead so you hurry home
Don't let the sun blast your shadow
Don't let the milk float ride your mind
They're so natural - religiously unkind

Oh no love! you're not alone
You're watching yourself but you're too unfair
You got your head all tangled up but if I could only make you care
Oh no love! you're not alone
No matter what or who you've been
No matter when or where you've seen
All the knives seem to lacerate your brain
I've had my share, I'll help you with the pain
You're not alone
Just turn on with me and you're not alone
Let's turn on with me and you're not alone
Let's turn on and be not alone
Gimme your hands cause you're wonderful
Gimme your hands cause you're wonderful
Oh gimme your hands.




>>> A canção tal como foi interpretada no espectáculo final de Ziggy Stardust, a 3 de julho de 1973, no Hammersmith Odeon (Londres). As imagens pertencem ao filme que regista esse espectáculo, Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de D. A. Pennebaker (lançado em 1979).


>>> Tóquio, 1990.
 

EUA: o fim do direito constitucional ao aborto

supremecourt.gov

Eis o discurso de Joe Biden [24 junho, 17h00], reagindo à decisão do Supremo Tribunal dos EUA, revertendo a decisão do caso Roe v. Wade (1973), pondo fim ao direito constitucional ao aborto. Segundo o presidente norte-americano, "o Supremo Tribunal retirou expressamente um direito constitucional ao povo americano — não o limitaram, simplesmente retiraram-no."

terça-feira, junho 21, 2022

Beyoncé — nova canção, novo álbum

A nova canção de Beyoncé intitula-se Break My Soul e serve de anúncio de um álbum, Renaissance, com lançamento marcado para 29 de julho — eis o lyric video. Segundo artigo da British Vogue, o novo registo está marcado por um "exuberante retro-futurismo".

Ziggy Stardust, 50 anos [10/11]

Foi a 16 de junho de 1972 que surgiu The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, álbum em que David Bowie inventava a sua personagem mais mítica, redefinindo a carreira e, mais do que isso, abrindo um capítulo do rock consagrado às possibilidades de permanente discussão da identidade artística, pública e privada. São 11 canções, aqui metodicamente recordadas — esta é a décima, Suffragette City.

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Hey man, oh leave me alone you know
Hey man, oh Henry, get off the phone, I gotta
Hey man, I gotta straighten my face
This mellow thighed chick just put my spine out of place
Hey man, my schooldays insane
Hey man, my work's down the drain
Hey man, well she's a total blam-blam
She said she had to squeeze it but she then she

Oh don't lean on me man, 'cause you can't afford the ticket
I'm back on Suffragette City
Oh don't lean on me man
'Cause you ain't got time to check it
You know my Suffragette City
Is outta sight she's all right

Hey man, oh Henry, don't be unkind, go away
Hey man, I can't take you this time, no way
Hey man, droogie don't crash here
There's only room for one and here she comes, here she comes

Oh don't lean on me man, 'cause you can't afford the ticket
I'm back on Suffragette City
Oh don't lean on me man
'Cause you ain't got time to check it
You know my Suffragette City
Is outta sight she's all right

Oh hit me

Oh don't lean on me man, 'cause you can't afford the ticket
...

segunda-feira, junho 20, 2022

Pomme: nova canção

A francesa Pomme tem uma nova canção, Nelly, recordando o destino trágico da escritora canadiana Nelly Arcan (1973-2009): um misto de confessionalismo e teatralidade, sustentado por um admirável teledisco — a canção integrará o terceiro álbum de Pomme, Consolation, agendado para 26 de agosto.
 

Ziggy Stardust, 50 anos [9/11]

Foi a 16 de junho de 1972 que surgiu The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, álbum em que David Bowie inventava a sua personagem mais mítica, redefinindo a carreira e, mais do que isso, abrindo um capítulo do rock consagrado às possibilidades de permanente discussão da identidade artística, pública e privada. São 11 canções, aqui metodicamente recordadas — esta é a nona, Ziggy Stardust.

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Ziggy played guitar
Jamming good with Weird and Gilly
And the Spiders from Mars
He played it left hand
But made it too far
Became the special man
Then we were Ziggy's band

Ziggy really sang
Screwed-up eyes and screwed-down hairdo
Like some cat from Japan
He could lick 'em by smiling
He could leave 'em to hang
They came on so loaded, man
Well-hung and snow-white tan

So where were the spiders
While the fly tried to break our bones?
With just the beer light to guide us
So we bitched about his fans
And should we crush his sweet hands?

Ziggy played for time
Jiving us that we were voodoo
The kids were just crass
He was the nazz
With God-given ass
He took it all too far
But, boy, could he play guitar


Making love with his ego
Ziggy sucked up into his mind, ah
Like a leper messiah
When the kids had killed the man
I had to break up the band



>>> A canção tal como foi interpretada no espectáculo final de Ziggy Stardust, a 3 de julho de 1973, no Hammersmith Odeon (Londres). As imagens pertencem ao filme que regista esse espectáculo, Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de D. A. Pennebaker (lançado em 1979).

Vieirarpad
— elogio da pintura e dos seus bichos

Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes:
escrever, pintar, filmar

Tendo como base a correspondência entre Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, no período 1932-1961, o documentário Vieirarpad, realizado por João Mário Grilo, convoca-nos para uma viagem fascinante na intimidade da pintura — este texto foi publicado no Diário de Notícias (2 junho).

O lançamento do documentário Vieirarpad, de João Mário Grilo, acontece num contexto em que a dinâmica do mercado cinematográfico passou a estar marcada por desequilíbrios brutais que os agentes políticos e culturais nem sempre têm mostrado disponibilidade para reconhecer. Exemplo esclarecedor: de acordo com o portal Sapo, o filme surgirá, para já, em nove salas do país; entretanto, consultando os números oficiais do Instituto do Cinema e do Audiovisual, ficamos a saber que, na semana passada, Top Gun: Maverick foi lançado em 147 ecrãs.
Há um misto de desinformação e má fé que levará a concluir (?) que o crítico está a sugerir que Vieirarpad deveria ter o mesmo enquadramento comercial da mais recente aventura de Tom Cruise. Enfim, não é fácil (do meu ponto de vista, é quase impossível) desmontar o simplismo argumentativo que, há muitas décadas, alimenta estes debates de coisa nenhuma, por vezes ampliados pelo vício mediático das falsas polémicas.
Simplificando (até porque simplicidade não é o mesmo que simplismo), lembremos apenas que os valores culturais dominantes — de que o marketing ligado aos grandes estúdios americanos é um instrumento poderosíssimo — tendem a secundarizar um objecto como Vieirarpad e a sua belíssima ousadia criativa. Nada disto, entenda-se, contraria o facto de o crítico continuar a reconhecer a admirável criatividade do cinema “made in USA”, incluindo alguns títulos de Tom Cruise… mas como diria Billy Wilder: “Isso é outra história!”

Palavras íntimas

O fascínio de Vieirarpad começa no seu título. Resulta, como é óbvio, da conjugação de Vieira e Arpad, ou seja, Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) e Arpad Szenes (1897-1985). Na origem do projecto está uma exposição intitulada “Escrita Íntima” (2014), acompanhada de um livro com o mesmo título, reunindo a correspondência entre os dois artistas trocada no período 1932-1961. Produzido por Fernando Centeio (ZulFilmes), integra depoimentos, entre outros, de Marina Bairrão Ruivo, directora do Museu Arpad Szènes-Vieira da Silva, da museóloga Raquel Henriques da Silva e do galerista Jean-François Jaeger.
A fusão dos nomes consagrada no título envolve uma poética amorosa que está para além (talvez aquém) das cumplicidades estéticas — sem esquecer que cada um dos pintores foi frequentemente retratado pelo outro (sobretudo Vieira por Arpad). Dito de outro modo: sendo uma metódica redescoberta do trabalho dos dois artistas, Vieirarpad é também uma viagem através das palavras que trocaram nesse outro universo de radical intimidade que pode ser a escrita.
Lidas por Luís Lucas, Suzana Borges e Fernanda Lapa, as cartas de Vieirarpad renascem, assim, como pontuações biográficas que estão para lá de qualquer noção académica de testemunho de uma vida comum (o que, entenda-se, já não seria pouco). Através da via epistolar, Vieira e Arpad vão preenchendo o espaço e, num certo sentido, recriando o tempo das suas separações: as cartas desenham novas paisagens afectivas capazes de acolher os gestos amorosos feitos de palavras mais fortes que qualquer distância.
Há em tudo isso a carinhosa animalidade de quem inventa com o outro — e para o outro — o pudico jardim de uma nova zoologia. O tratamento de “bicho” e “bichinho” vai pontuando as cartas como matéria de uma gramática que se liberta de qualquer sistema corrente de linguagem e comunicação. Ponto importante na revisitação de tais memórias é a recuperação de alguns extractos de outro magnífico documentário sobre Vieira e Arpad: Ma Femme Chamada Bicho (1978), de José Álvaro Morais.

A paixão da arte

Sendo um objecto relativamente solitário no actual panorama da distribuição/exibição cinematográfica, o filme de João Mário Grilo tem boa companhia na história do cinema português. Para nos ficarmos pela referência tutelar de Manoel de Oliveira, recordemos as suas curtas-metragens O Pintor e a Cidade (1956) e As Pinturas do Meu Irmão Júlio (1965), respectivamente sobre os trabalhos de António Cruz e Júlio/Saúl Dias, irmão de José Régio.
Sabemos, aliás, que as relações de cinema e pintura são inúmeras e multifacetadas — da dimensão épica de Andrei Rublev (1966), de Andrei Tarkovsky, à biografia anti-romântica de Francis Bacon em Love Is the Devil (1998), de John Maybury, passando pelo esplendor de A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956), de Vincente Minnelli, a especulação filosófica de Paixão (1982), de Jean-Luc Godard, ou a perturbante vibração sensorial de Van Gogh (1991), de Maurice Pialat. São, sobretudo, relações capazes de convocar o olhar do espectador para algo mais do que a mera confirmação do lugar histórico ou do valor simbólico de determinado pintor.
Escusado será dizer que na delicada depuração narrativa de Vieirarpad acompanhamos uma relação com a pintura em que o trabalho artístico, muito mais do que suporte de uma qualquer “mensagem”, decorre de um entendimento específico da vida, da arte de viver. Como escreve Arpad: “Não te deixes dominar por nenhuma paixão política, a nossa é a arte.”