sábado, julho 21, 2018

Os super-heróis de Shyamalan

O novo filme de M. Night Shyamalan começou por ser anunciado como um prolongamento do seu Split/Fragmentado (2016), com James McAvoy e as suas muitas personalidades. Na verdade, será um pouco mais do que isso, completando uma trilogia iniciada com Unbreakable/O Protegido (2000), com Bruce Willis e Samuel L. Jackson. Todos eles convivem, agora, numa instituição psiquiátrica em que Sarah Paulson tenta curá-los do facto de acreditarem que são super-heróis... Ou talvez sejam — em qualquer caso, o trailer de Glass é sedutor.

Bach, isto é, jazz

Não é impunemente que se escreve: After Bach. Ou seja: de acordo com Bach, mas também depois de Bach. Brad Mehldau coloca-se na posição, por certo ambivalente e festiva, numa palavra, desafiante, de quem reconhece uma inspiração, respeitando-a e integrando-a, mas também superando qualquer hipótese de cópia ou imitação.
Por certo um dos álbuns maiores de 2018, After Bach poderá ser definido como uma reapropriação centrada e, de algum modo, potenciada por um mesmo gosto. Entenda-se: não é o músico de jazz que traz o seu programa de improvisação para "recriar" Bach. Isto porque, como recorda Timo Andres no texto de apresentação do álbum, o impulso improvisador — e a sua prática, hélas! — já está todo ele contido em Bach. Digamos que Mehldau é "apenas" um discípulo que nasceu em 1970, 220 depois da morte de Bach.
Trata-se, então, de revisitar quatro prelúdios e uma fuga de O Cravo Bem Temperado, "interrompendo-os" com diversas composições do próprio Mehldau, de acordo com Bach, depois de Bach, reencontrando a liberdade original de... Bach. Ou ainda, de novo citando Andres: "Tocar Bach é necessariamente ser capaz de manipular e reconciliar pensamentos díspares, sustentar em simultâneo opiniões contraditórias. Num mundo cada vez mais polarizado e compartimentado, estudar Bach é uma tentativa para ver algo de todos os ângulos, de todas as posições possíveis."

>>> After Bach: Rondo [audio], faixa nº 3 do álbum + concerto 'Three Pieces after Bach' na Cité de la Musique, Paris (02-04-18).



50% [citação]

>>> O crescente poder das representantes de 50% da população mundial só pode ser bom para a legitimidade e durabilidade da democracia. Mais ainda, segundo o World Bank, os países com mais altos níveis de igualdade de géneros são menos susceptíveis de envolvimento em conflitos internos ou externos. A participação das mulheres na prevenção e resolução de conflitos ajuda muitas vezes a garantir sucesso; segundo um estudo patrocinado pelas Nações Unidas, os acordos que incluam as mulheres e grupos da sociedade civil têm mais 64% de hipóteses de não falhar do que aqueles que não envolvam tais participantes.

JAMES STAVRIDIS
'Democracy Isn’t Perfect, But It Will Still Prevail'
in Time (12 Julho 2018)

sexta-feira, julho 20, 2018

* Prince + Michael Jackson
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [dia 24]

Entre a realidade e a mitologia, Prince e Michael Jackson são dois nomes fundamentais da música popular; ambos completariam 60 anos em 2018 — numa das nossas habituais sessões na FNAC, propomos uma viagem/celebração através de memórias feitas de imagens e sons.

* FNAC (Chiado) — 24 Julho, 18h30

Actores & guarda-roupa

[Sugere-se um click na imagem] É um cartaz de 2014, encomendado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, comemorando um século de história(s) do guarda-roupa em cinema. À direita, em baixo, estão identificados todos os filmes (que surgem por ordem cronológica): ou como a arte de vestir os actores é inseparável das personagens que eles são capazes de representar.

quinta-feira, julho 19, 2018

Obama sobre Mandela

>>> A história mostra-nos como as pessoas podem ser facilmente convencidas a virar as costas aos que têm um aspecto diferente ou veneram Deus de modo diferente.

BARACK OBAMA

Entre os eventos que têm assinalado o centenário do nascimento de Nelson Mandela — a 18 de Julho de 1918, em Mvezo, uma aldeia da província do Cabo, na África do Sul —, um dos mais extraordinários foi, sem dúvida, o discurso de Barack Obama, em Joanesburgo (16ª edição da chamada 'Nelson Mandela Annual Lecture').
Ao longo de uma hora e vinte minutos, o 44º Presidente dos EUA proferiu muito mais do que um discurso elegíaco. Inspirando-se na herança política e simbólica de Mandela, apresentou uma elaborada reflexão sobre o estado do mundo, reconhecendo as muitas transformações que aconteceram desde o final da Primeira Guerra Mundial até ao tempo globalizado em que vivemos, tecendo considerações analíticas capazes de integrar dados tão diversos como as formas de poder das elites económicas ou o papel contemporâneo dos meios de comunicação. Vale a pena escutar a reflexão de Obama para além dos soundbytes que circularam — eis a sua intervenção integral, em registo da SABC News.

Os pássaros dos Dirty Projectors

Bela capa! Transparente e enigmática. A banda novaiorquina Dirty Projectors, ou seja, David Longstreth & etc., continua fiel a esse misto de ludismo pop e experimentalismo vanguardista que confere às suas canções uma gravidade tecida da mais desconcertante ligeireza. Depois do álbum homónimo de 2017, aí está Lamp Lit Prose, uma saborosa colecção de canções sobre a procura da felicidade — a sério! No caso de Break-Thru, fica provado que nem todos os pássaros estão ao serviço de Hitchcock...

What's up?
How's it going?
The unreal cheekbone
She is so dreamy
That she got features on Fellini
Deadpan, unimpressed
Archimedes Palimpsest
Just hanging out all Julian Casablancas

She is an epiphany
Her electricity opens my days like she always knew
I feel like affinity, look at me, a deity
In all the ways, she's a break-thru

Under the sun, there's nothing new
But she keeps it 100 in the shade
She's a break-thru
It's cold out there
That's nothing new
But she keeps it 100 through the shade
She's a break-thru

She is so wild
Middle-earth highbrow
Her line is Pablo but her color's Fauves
What about it?
Just to review
She will a-break thru
Nobody stops her
No one can lock her down

She is an epiphany
[...]

Under the sun, there's nothing new
[...]

quarta-feira, julho 18, 2018

Trump vs. Trump

[ 17 Julho 2018 ]
1. Como lidar com as notícias sobre Donald Trump? Ou melhor: que desafios jornalísticos Trump coloca?

2. Impossível generalizar, como é óbvio. Digamos apenas que os ziguezagues (anti-)democráticos do Presidente dos EUA impõem aos jornalistas uma consciência muito aguda do seu poder real enquanto líder político, da realidade do seu poder. Creio que importa, sobretudo, resistir a transformá-lo numa caricatura condenada a um processo de auto-destruição (opção que muitos meios de comunicação adoptaram durante a sua campanha eleitoral). Nas suas óbvias e reveladoras diferenças, estas primeiras páginas de dois jornais franceses são sintomáticas desse problema (sem que, evidentemente, se pretenda reduzir o conteúdo plural — e muito rico — de cada uma das publicações ao que aqui vemos).

3. O Libération opta por uma estratégia simplista de ridicularização de Trump, parecendo até ignorar que, se é verdade que a classificação de troll (proveniente da mitologia escandinava) se generalizou como designação de uma personagem entre o estúpido e o incómodo, não é menos verdade que se aplica também a figurinhas tão bizarras quanto carinhosas do imaginário infantil. Por sua vez, no Le Monde encontramos a frieza de uma descrição que convoca os factos para propor, sem equívocos, uma leitura política das respectivas incidências — em vez de ser um "troll" que pode suscitar uma gargalhada de condenação, Trump surge como o "melhor aliado de Vladimir Putin".

4. Mesmo que isso incomode a "objectividade" televisiva que domina muitos cenários da paisagem mediática, fazer notícias não é, nunca foi, "reproduzir" o que quer que seja — fazer notícias é sustentar uma visão do mundo, ao mesmo tempo perguntando que lugar ocupamos, ou podemos ocupar, nas suas dinâmicas.

5. Mais concretamente: fazer notícias não é o mesmo que aplicar a lógica de espectáculo, entre a irrisão e o panfleto, que encontramos em alguns talk shows. Ainda assim, paradoxalmente, por vezes é nos talk shows que deparamos com uma conjugação de inteligência e subtileza capaz de contrariar e, implicitamente, criticar os formatos mais banais do jornalismo. Eis um excelente exemplo que aqui se regista, também a propósito da cimeira Trump/Putin em Helsínquia: são os comentários de Stephen Colbert em The Late Show.

"Boy Erased": a caminho dos Oscars...

Para o melhor e para o pior, os Oscars passaram a ser dominados por títulos estreados no derradeiro trimestre de cada ano. Há mesmo filmes cujas datas de lançamento são alteradas, de modo a poder garantir alguma visibilidade na chamada temporada de prémios.
Assim terá acontecido com Boy Erased (surgirá nos EUA em Novembro, depois de ter estado agendado para Setembro), uma realização do actor Joel Edgerton que adapta o livro Boy Erased: a Memoir, de Garrard Conley, sobre as suas vivências, numa pequena cidade dos EUA, quando, depois de revelar aos pais a sua homossexualidade, foi compelido a frequentar uma "terapia de conversão" para "corrigir" a sua orientação sexual.
Com Lucas Hedges no papel central (conhecemo-lo, por exemplo, de Manchester by the Sea), o elenco do filme inclui ainda Nicole Kidman e Russell Crowe, nas personagens dos pais, e o próprio Edgerton, interpretando o "terapeuta" — não será arriscado supor que Boy Erased vai ser um acontecimento no final de 2018, começo de 2019.

Trump: questões de linguagem

ED WEXLER
Cartoons em The Washington Post
Subitamente, Donald Trump dá o dito por não dito, dizendo agora que foi erradamente interpretado quando considerou — contra as investigações a decorrer no seu próprio país — que Vladimir Putin estava ilibado de qualquer suspeita sobre alguma intervenção nas eleições presidenciais americanas de 2016. Argumenta mesmo que foi mesmo um ligeiro erro de "uma" palavra [video, New York Times].
Chegámos, assim, a uma prática festiva de intermitente fake language: já não importa o que se diz, porque aquilo que se difunde é tão só a ideia obscena segundo a qual o que foi dito antes não era o que devia ter sido dito — e por aí fora, num canibalismo infinito da linguagem pela linguagem.
Vivemos, assim, marcados por um ensimesmamento incestuoso do real. Na idade da comunicação global, já não há, afinal, desejo de comunicação: apenas a vertigem de consumirmos ilusões que se alimentam da sua interminável multiplicação — por alguma razão, a agitação "social" das redes se confunde com um mercado a gerar sempre novos labirintos de coisa nenhuma. Trump é a encarnação exemplar desse dispositivo que ocupou o nosso tempo.

terça-feira, julho 17, 2018

Waxahatchee em EP

Katie Crutchfield está de volta. Ou melhor: o seu projecto Waxahatchee. Há cerca de um ano tinha lançado o magnífico Out in the Storm. Agora, anuncia para Setembro o EP Great Thunder [NPR]. A primeira canção divulgada, em teledisco dirigido por Christopher Good, intitula-se Chapel of Pines, regressa às suas raízes folk e distingue-se por uma envolvente depuração emocional.

Mississippi, I'm alone in the alley
What am I supposed to be fighting for?
If you build yourself up tall you can tell me what the future holds
Will you settle where you stand or keep it to yourself?

Will you go?
[...]

Trump & Putin: a nova (des)ordem mundial

STEVE SACK
Star Tribune, Minneapolis
7 Julho 2017
Publicado há um ano, o cartoon de Steve Sack servia de comentário sagaz à "tolerância" com que Donald Trump lidava com o líder da Rússia. Agora, na sequência da cimeira de Helsínquia, face à conferência de imprensa Trump/Putin, passámos da avaliação caricatural para a crueza de uma inquietante realidade: considerando que Putin lhe garantiu "não existir" qualquer envolvimento russo nas eleições que o levaram à presidência dos EUA, Trump conseguiu suscitar as mais veementes reacções de repúdio, incluindo de membros do Partido Republicano [John McCain] e elementos dos serviços secretos do seu país — até porque decorrem investigações fundamentadas em provas inequívocas de que aquele envolvimento, de facto, existiu.
Podemos até admitir que, mesmo pontuada pelas mais bizarras omissões, a aliança simbólica entre Trump e Putin corresponde a um projecto, porventura irracional (mas nem por isso menos efectivo), de brutal reconversão da ordem mundial e dos seus frágeis equilíbrios políticos. Como disse um analista no Channel 4, sentimo-nos deslizar para uma paisagem "orwelliana" — eis um extracto esclarecedor da emissão do canal britânico neste histórico 16 de Julho de 2018.

A voz de Deus, aliás, de Madonna

Ezekiel 25:17:
'And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my sisters. And you will know my name is the Lord when I lay my vengeance upon you.'

Humanos de todos os géneros, sensibilidades e crenças, tomem nota: Deus tem sexo e é uma mulher. Quem nos ensina a ver as coisas como elas são é Ariana Grande numa nova canção que, para evitar confusões, se chama God Is a Woman. O respectivo teledisco, dirigido por Dave Meyers, encena a sua proclamação conjugando imagens bíblicas e sugestões gospel, tudo pontuado por algumas nuances hip hop. Tudo isto sem esquecer de dar voz à divindade feminina ou, se preferirem, à mulher divina; assim, quando chegamos aos 02m 22s segundos da canção, reconhecemos a voz de Madonna — pedimos tolerância pelos nossos pecados e convertemo-nos sem hesitar.

segunda-feira, julho 16, 2018

Futebol no Museu do Louvre

Esta é uma imagem difundida pelo Museu do Louvre, felicitando a equipa francesa pela vitória no Mundial de Futebol. Leonardo da Vinci no país do Twitter? Assim parece. Seria, aliás, interessante comparar o conceito universalista do génio de Florença com a globalização pueril das mensagens de 140 caracteres — não parece que o museu tenha tal debate na sua agenda.
Em qualquer caso, registe-se o poder avassalador da nova cultura "social", tecida de futebol e links. Aguardemos, em particular, que emoções o Louvre irá partilhar com o planeta Terra quando um filme francês ganhar, por exemplo, o Festival de Cannes... Já aconteceu quatro vezes neste século, mas não me recordo quais as imagens com que o museu celebrou tais eventos. Honni soit qui mal y pense...

domingo, julho 15, 2018

O outro Mundial

SENEGAL-COLÔMBIA / Dakar, 28 Junho
[Seyllou - AFP]
O futebol dominante — entenda-se: o futebol enquanto sistema dominante de formas sociais de representação — vive de um inventário de personagens e valores profundamente limitado. E não apenas porque se fixa, invariavelmente, na celebração unívoca dos vencedores e respectivos títulos; sobretudo porque não reconhece a possibilidade de outros modos de percepção e representação.
Ora, não se trata de acrescentar maniqueísmo ao maniqueísmo, quer dizer, não se pretende construir um sistema de representação dos vencidos. Mas vale a pena lembrar que é (ou seria) mais salutar, também neste domínio, estar disponível para a pluralidade do mundo e seus cenários. É isso mesmo que encontramos no magnífico conjunto de fotografias do Mundial reunido pelo jornal The Boston Globe no seu blog 'The Big Picture' — descubra-se o portfolio.

RÚSSIA-CROÁCIA / Moscovo, 7 Julho
[Konstantin Chalabov - AFP]
RÚSSIA-ARÁBIA SAUDITA / Mogadishiu, 15 Junho
[Mohamed Abdiwahab - AFP]
RÚSSIA-ESPANHA / Moscovo, 1 Julho
[Vasily Maximov - AFP]

A IMAGEM: Richard Kalvar, 2000

RICHARD KALVAR
Magnum
Paris, Hôtel Dieu (2000)

O ritmo segundo Roger Federer

Regras para escolher uma boa raquete de ténis? E as bolas mais adequadas? Digamos que vale a pena não menosprezar a ajuda de Roger Federer — e, já agora, prestando a devida atenção ao seu talento rítmico. Assim é um recente anúncio da marca Wilson, com Federer a protagonizar aquilo que poderia ser um breve e contagiante teledisco.