domingo, agosto 28, 2016

"Drive All Night" [canções]

BRUCE SPRINGSTEEN
Drive All Night
The River (1980)


"Cartas da Guerra" em português (2/3)

Acontecimento maior na história recente do cinema português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, baseado em D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto/Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, tem estreia marcada para 1 de Setembro.

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Não podemos (sobretudo, não devemos) favorecer o miserabilismo niilista segundo o qual "nada" sabemos sobre a Guerra Colonial — incluindo o cinema, são muitos os domínios de expressão e investigação em que, nestes últimos 40 anos, se evocou/mostrou/analisou um trauma central na história moderna portuguesa. O certo é que o seu efeito traumático, precisamente, persiste: e se tudo o que fazemos ou dizemos for pouco e escasso para conter tamanha dor?
Cartas da Guerra é também um filme para lidar com esse trauma, antes do mais recusando a ilusória transparência dos testemunhos mais ou menos televisivos que confundem a evocação de "factos" com a densidade pulsional da história — aqui, a perturbação dos desejos que não cabem em palavras (e este é um filme de palavras) dá a ver, paradoxalmente, um caminho factual. Nesta perspectiva, este é também um objecto para nos ajudar a pensar o que é, ou pode ser, um realismo cinematográfico português. Tarefa imensa, filme admirável.

Futebol + árbitros + televisão

MARC CHAGALL
O Passeio
1917
Basta que um "grande" do futebol não ganhe para que o espaço televisivo entre em delírio... — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Agosto), com o título 'Futebol e fogo'.

Questão comunicacional: porque é que assim que um dos clubes “grandes” (Benfica, Sporting ou F.C. Porto) não ganha um jogo, a arbitragem reentra na grelha obsessiva das televisões? Competentes? Incompetentes? Honestos? Corruptos? Por uma espécie de maldição sazonal, os árbitros de futebol reaparecem na linha da frente, sob uma luz perversa: a discussão não seria motivada pelos seus dotes (ou falta deles), antes nasceria do facto de algum clube “pequeno” ter contrariado as previsões dominantes...
O assunto dá que pensar. Não pela sua especificidade desportiva. Antes porque, muito para além da candura dos treinadores que nunca se irritam com os árbitros quando ganham os jogos, o dispositivo televisivo parece necessitar (?) de algum conflito, potencial ou explícito, para manter aquilo que seria a sua “actualidade”.
O futebol é apenas uma das áreas em que tal acontece, por certo das mais benignas. Entre as mais dramáticas, podemos citar os fogos de Verão. Há vozes indignadas (e não estou, de modo algum, a duvidar das suas muito legítimas razões), verberando a falta de meios dos bombeiros e, sobretudo, a ausência crónica de políticas de prevenção. O certo é que, no sistema simbólico gerado pelas linguagens audiovisuais, a evidência do mal atrai um masoquismo sem rosto cujo único efeito mensurável é o de excluir qualquer hipótese nacional de auto-estima — talvez mesmo de auto-respeito.
Seria simplista e demagógico tentar compreender este estado de coisas desenhando uma fronteira entre “culpados” e “inocentes” — e não estou a excluir de tal cálculo o que se escreve (e como se escreve) sobre televisão. O certo é que, nem que seja por indiferença, somos levados a consumir diariamente doses gigantescas de niilismo. Um primeiro passo para transformar a questão? Talvez deixarem os árbitros de futebol em paz.

sábado, agosto 27, 2016

Rudy Van Gelder (1924 - 2016)

Engenheiro de som ligado a muitos clássicos da história do jazz, em especial do catálogo Blue Note, o americano Rudy Van Gelder faleceu no dia 25 de Agosto, em sua casa, que era também o seu estúdio de gravação, em Englewood Cliffs, New Jersey — contava 91 anos.
Saxophone Colossus (Sonny Rollins, 1956), Walkin’ (Miles Davis, 1957), A Love Supreme (John Coltrane, 1965), Maiden Voyage (Herbie Hancock, 1965) ou Song for My Father (Horace Silver, 1965) são apenas alguns títulos entre as centenas de álbuns a que o seu nome ficou ligado, a maior parte registados no seu estúdio. Estudioso de todas as evoluções técnicas, era reconhecido como alguém capaz de devolver ao ouvinte a dimensão mais íntima da performance do jazz — certamente não por acaso, era célebre o seu empenho em dispor os microfones tão perto quanto possível dos músicos, procurando, como ele gostava de dizer, uma sensação peculiar do "espaço".

>>> Três registos a que ficou ligado o nome de Rudy Van Gelder:
Walkin', Miles Davis (Walkin', 1957)
I Love You, John Coltrane (Lush Life, 1961)
Litha, Stan Getz (Sweet Rain, 1967)




>>> Obituário: New York Times + Downbeat.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Steven Hill (1922 - 2016)

Intérprete da personagem de Daniel Briggs na versão original da série televisiva Missão Impossível, o actor americano Steven Hill faleceu no dia 23 de Agosto, em Nova Iorque — contava 94 anos.
Integrava a elite de figuras "anónimas", mas invulgarmente talentosas, que sempre pontuaram a história do cinema americano em papéis secundários, mesmo se é verdade que as duas referências mais universais da sua filmografia são as séries Missão Impossível (1966-67) e Lei & Ordem (1990-2010). Trabalhou, entre outros, sob a direcção de John Cassavetes (Uma Criança à Espera, 1963), George Cukor (Célebres e Ricas, 1981), Sidney Lumet (Fuga sem Fim, 1988), Robert Benton (Billy Bathgate, 1991) e Sydney Pollack (A Firma, 1993). Em 1998 e 1999, foi nomeado para um Emmy de actor secundário pela sua participação em Lei & Ordem.

>>> Obituário na Variety.

Sonia Rykiel (1930 - 2016)

Personalidade incontornável na história da moda do último meio século, a francesa Sonia Rykiel faleceu no dia 25 de Agosto, em Paris, na sequência de complicações motivadas pela doença de Parkinson — contava 86 anos.
Foi ela própria que, em 2012, no livro N'oubliez pas que Je Joue, escrito com a jornalista Judith Perrignon, revelou que sofria de Parkinson. A sua marca na moda francesa e internacional começou a ser construída em 1968, quando abriu a sua primeira loja em Paris. Símbolo de um espírito rebelde e sofisticado, rive gauche, gostava de dizer que concebia as suas peças para uma mulher compelida a "enfrentar a vida", combinando os factores essenciais da "felicidade", da "ternura" e do "humor". Mantendo uma relação criativa com o mundo literário, publicou vários volumes sobre moda, contos para crianças e desenhou as ilustrações para um livro de Colette. Rykiel surgia de modo breve em Pronto a Vestir (1994), filme de Robert Altman em que a personagem interpretada por Anouk Aimée se inspirava na sua carreira.

>>> Derradeira colecção de Outono/Inverno de Sonia Rykiel (7 Março 2016).


2013 — campanha fotografada por Mert Alas e Marcus Piggott
>>> Obituário no jornal Le Monde.

À procura da comédia perdida

Refrigerantes e Canções de Amor relança uma velha ânsia de algum cinema português: reencontrar um passado (dito) radioso da comédia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Agosto).

No cinema português persiste uma ferida nostálgica que se exprime através de uma miragem que uns definem como “artística”, outros tratam como “comercial”. A saber: seria preciso reencontrar a magia das comédias mais célebres dos anos 30/40 para redescobrir uma lendária pureza original. Podemos discutir a pertinência de tal nostalgia (alguns desses filmes são francamente rudimentares) e até as suas ilusões históricas (encontramos, nesse domínio, vários aparatosos insucessos de bilheteira). Seja como for, poderá dizer-se que Refrigerantes e Canções de Amor, realizado por Luís Galvão Teles a partir de um argumento de Nuno Markl, nasce dessa nostalgia.
Apesar de tudo, há uma diferença em relação à recente trilogia formada por O Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela e A Canção de Lisboa (autoproclamada de “novos clássicos”). Aí, colavam-se lugares-comuns do mais rotinado humor televisivo, dispensando mesmo a construção de qualquer relação pertinente com as lógicas narrativas dos originais. Agora, em Refrigerantes e Canções de Amor, procura-se um tom burlesco que integre a caricatura social e um assumido anacronismo romântico.
Fica-se com a sensação de que os resultados correspondem menos a um projecto coerente e mais a uma colagem de “números” que não foram sujeitos a um verdadeiro labor de unificação narrativa. O retrato do protagonista Lucas (Ivo Canelas), autor de músicas para anúncios de refrigerantes, vai mesmo oscilando entre uma simples colecção de anedotas e um saltitar entre “géneros” (comédia, melodrama, farsa mais ou menos surreal...) que começa por tornar inglórios os esforços de alguns actores, acabando por comprometer a consistência final do projecto.
Parece haver uma tentativa de compensar tudo isso através da integração de algumas personalidades do domínio musical que, ironicamente ou não, estão mais próximas do estatuto de “estrela” que qualquer dos actores do elenco. Também aí, as inadequações prevalecem: Jorge Palma representa-se a si próprio em registo “onírico” cuja pertinência narrativa fica por esclarecer; Sérgio Godinho não chega a ter personagem minimamente definida; enfim, o brevíssimo aparecimento de David Carreira não chega sequer para ser auto-paródico.
Provavelmente, na origem, Refrigerantes e Canções de Amor visava o cruzamento de duas grandes matrizes clássicas da comédia: por um lado, o contundente retrato social em que, mesmo os sinais mais ligeiros, nos remetem para um conjuntura de vida em que nos reconhecemos; por outro lado, um delírio enraizado nas componentes realistas desse retrato, mas abrindo para domínios mais ou menos feéricos ou absurdos. Infelizmente, a fragilidade dos resultados deixa a sensação de que faltou tempo ou imaginação para atingir tais patamares criativos.

Sinatra, opus 1

Numa paisagem de tantas efemérides, há algumas que ecoam, não tanto pela eventual pompa histórico, mas mais pelo modo como nos põem em contacto com qualquer coisa que, de facto, estava a começar. Assim acontece com o primeiro álbum de estúdio de Frank Sinatra (1915-1998) — The Voice of Frank Sinatra foi editado em 1946, quer dizer, há 70 anos.
Canções como You Go to My Head, Someone to Watch Over Me [som aqui em baixo] ou I Don't Stand a Ghost of a Chance with You remetem-nos para um tempo em que, por assim dizer, na rádio e no cinema, Sinatra já tinha consolidado um estatuto que os discos só iriam ampliar — por exemplo, o trailer do filme musical Anchors Aweigh/Paixão de Marinheiro (1945) já o identifica como 'The Voice' [também aqui inserido]. A sublinhar: os arranjos são de Axel Stordahl, personalidade essencial nesta fase em que Sinatra gravava para a Columbia.



Maria Eugénia (1927 - 2016)

Personalidade efémera, mas muito popular, da história do cinema português, Maria Eugénia (nome completo: Maria Eugénia Rodrigues Branco Pinto do Amaral) faleceu no dia 25 de Agosto, em Lisboa — contava 89 anos.
Embora tenha uma filmografia que não chega à dezena de títulos (alguns deles rodados em Espanha), Maria Eugénia é, no contexto português, um caso raro de alguém que construiu uma verdadeira persona cinematográfica, capaz de transcender épocas e gerações. Para tal bastou um filme: A Menina da Rádio (1944), de Arthur Duarte — a personagem de 'Geninha', com a sua voz a experimentar as maravilhas do novo modo de difusão dos sons, valeu-lhe o epíteto de 'Menina da Rádio'. Ainda surgiu em O Leão da Estrela, de novo sob a direcção de Arthur Duarte, mas decidiu retirar-se no final dos anos 40, depois de se casar com o médio António Pinto do Amaral.

>>> Canção Sonho de Amor, no filme A Menina da Rádio.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

quinta-feira, agosto 25, 2016

"Na Cama com Madonna", 25 anos

Madonna esteve numa projecção especial de Na Cama com Madonna (título original: Truth or Dare), no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), assinalando o 25º aniversário do filme — realizado por Alek Keshishian, trata-se de um documentário histórico, historicamente inovador, sobre a 'Blond Ambition Tour' (1990). No seu Instagram, Madonna lembrou que "há tantas liberdades que damos por adquiridas e que não tínhamos nessa altura"; agradecendo a Keshishian, remata dizendo: "Mudámos a história com este filme."
A frase não tem nada de pomposo ou exagerado. Na Cama com Madonna é um exercício sobre o espectáculo e os bastidores, o ser personagem pública e viver uma vida privada, em última instância problematizando a ética e a estética do cinema no interior de tais dialécticas. Nada a ver com qualquer "antecipação" da reality TV, uma forma específica, moralmente viciada e viciosa, de manipulação e encenação — é o próprio Keshishian que faz questão em sublinhar tais diferenças, numa excelente entrevista dada a Louis Virtel, da revista Paper.
Estamos, afinal, perante uma experiência indissociável de todo um sistema de reconversão iconográfica e superação simbólica do(s) sexo(s) que Madonna protagonizou como ninguém. Num belo texto publicado no site do MoMa, Izzy Lee lembra tudo isso, chamando-lhe, não 'Rainha da Pop', mas 'Mãe da Pop'.

quarta-feira, agosto 24, 2016

DJ Shadow — parábola política

The Mountain Will Fall, quinto álbum de DJ Shadow, tem um novo e desconcertante teledisco, dirigido por Sam Pilling. O tema Nobody Speak, feito em colaboração com Run the Jewels, é encenado como uma parábola política sobre um (des)entendimento de líderes, num cenário que podemos associar a um certo visual das Nações Unidas, mas também, perversamente, à dantesca sala de reuniões do clássico Dr. Strangelove (1964), de Stanley Kubrick — é um belo exemplo de como as palavras do rap podem associar-se a imagens que desafiam a representação automática, automaticamente televisiva, da paisagem política.

Picture this
I'm a bag of dicks
Put me to your lips
I am sick
I will punch a baby bear in his shit
Give me lip
I'ma send you to the yard, get a stick, make a switch
I can end a conversation real quick

I am crack
I ain't lying kick a lion in his crack
I'm the shit, I will fall off in your crib, take a shit
Pinch your momma on the booty, kick your dog, fuck your bitch
Fat boy dressed up like he's Santa and took pictures with your kids

We the best
We will cut a frowny face in your chest, little wench
I'm unmentionably fresh, I'm a mensch, get correct
I will walk into a court while erect, screaming "Yes!
I am guilty motherfuckers, I am death."

Hey, you wanna hear a good joke?

Nobody speak, nobody get choked

Get running
Start pumping your bunions, I'm coming
I'm the dumbest, who flamethrow your function to Funyons
Flame your crew quicker than Trump fucks his youngest
Now face the flame fuckers your fame and fate's done with

I rob Charlie Brown, Peppermint Patty, Linus and Lucy
Put coke in the doobie roll woolies to smoke with Snoopy
I still remain that dick grabbing slacker that spit a loogie
Cause the tolda of the toolie'll murder you friggin' Moolies
Fuck outta here, yeah

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak

Only facts I will shoot a
Baby duck if it quacks, with a Ruger
Top billin', come cops and villainous shots is blocked, shipped out, and bought, and you're feeling it
El-P killing it, Killer Mike killing shit

What more can I say? We top dealing it
Valiant without villiany
Viciously file victory
Burn towns and villages
Burning looting and pillaging

Murderers try to hurt us we curse them and all their children
I just want the bread and bologna bundles to tuck away
I don't work for free, I am barely giving a fuck away

So tell baby Johnny and Mommy to get the fuck away
Heyyo here's a gun son now run get it to gutterway
Live to shoot another day

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak
Nobody speak, nobody get choked


DR. STRANGELOVE (1964)

"A vingança da vagina" [L'Obs]

Vale a pena ler o dossier proposto pela revista francesa L'Obs (herdeira de Le Nouvel Observateur), na sua edição de 11/17 Agosto, sobre as representações do sexo feminino: é a "história de um tabu", como se diz na capa, alimentado por discursos prisioneiros de lógicas masculinas; e é também "a vingança da vagina", de acordo com o título do artigo principal, assinado por Cécile Deffontaines. A abordagem é especialmente sugestiva, sobretudo porque não se apresenta prisioneira das pulsões imagéticas — o sexo (feminino ou não) é também o modo como o dizemos e escrevemos; esta é também, é mesmo sobretudo, uma história de palavras.
Em qualquer caso, sublinhe-se a singularidade da capa da revista, mostrando (literalmente) que a história que se conta não pode ser reduzida aos seus efeitos contemporâneos: nela encontramos uma reprodução do célebre quadro A Origem do Mundo, produzido por Gustave Courbet há exactamente 150 anos e exposto em Paris, no Museu d'Orsay.
Para além da saudável ironia que contamina esta abordagem das questões muito sérias que envolvem o ver & dizer das imagens do(s) sexo(s), há também em tudo isto um humor amargo, amargamente involuntário. Assim, num divertido artigo intitulado '"Pussy" rap', Fabrice Pliskin propõe uma sugestiva antologia do modo como, entre outras, Rihanna, Missy Elliott ou Azealia Banks, integram a sua vagina naquilo que dizem e cantam... Assim é. Mas talvez valha também a pena lembrar que, há mais de um quarto de século, quando uma tal Madonna (nomeadamente fotografada pelo grande Herb Ritts) punha a mão "onde não devia", meio mundo protestava contra os gestos gratuitos de uma estrela mimada... Encore un effort... 

A ORIGEM DO MUNDO (1866), de Gustave Courbet
Museu d'Orsay
Interview (Junho 1990)
FOTO: Herb Ritts

"I Can't See Why" [canções]

BAXTER
I Can't See Why
Baxter (1998)


"Cartas da Guerra" em português (1/3)

Acontecimento maior na história recente do cinema português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, baseado em D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto/Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, tem estreia marcada para 1 de Setembro.

Subitamente, somos confrontados com uma questão esquecida: como é que se fala o português nos filmes portugueses?
A questão não é teórica, muito menos abstracta, mas eminentemente social. Afinal de contas, em Love on Top e, de um modo geral, nos espaços da "reality TV", somos todos os dias agredidos pela metódica decomposição do falar português, e até da simples arte de falar — importa reagir a essa violência normalizada.
As cartas escritas pelo autor são terreno de uma intimidade em filigrana, como lembram Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes no prefácio do livro: "As cartas deste livro foram escritas por um homem de 28 anos na privacidade da sua relação com a mulher, isolado de tudo e todos durante dois anos de guerra colonial em Angola, sem pensar que algum dia viriam a ser lidas por mais alguém. Não vamos aqui descrever o que são essas cartas: cada pessoa irá lê-las de forma diferente, seguramente distinta da nossa. Mas qualquer que seja a abordagem, literária, biográfica, documento de guerra ou história de amor, sabemos que é extraordinária em todos esses aspectos." O cinema é, por isso, aquilo que chega no futuro do livro, refazendo-o, pela sua magia narrativa, para o nosso presente — este é, afinal, um filme que nos faz sentir que as palavras que alguém legou acontecem também como matéria viva daquele que lê ou vê.

terça-feira, agosto 23, 2016

Donald Trump por Kyle Craft

Tradução tosca, mas esclarecedora: "Se o muro for para cima e o país vier para baixo..."
Kyle Craft é um herdeiro da mais nobre tradição política da canção made in USA, integrando o património folk, derivando para o rock, enfim, preservando um genuíno espírito pop. Tinhamo-lo descoberto através do álbum Dolls of Highland, celebração festiva de um discípulo aplicado de Dylan e Bowie (Craft dixit). Agora, lançou um single que visa directamente o discurso do candidato Donald Trump e a sua delirante estratégia de construir um "muro" para purificar (?) a América — vale a pena escutar Before the Wall, letra e música.

If the wall it goes up and the country comes down
And it’s too tall to get in too late to get out
And the beaches have barbed wire across every shore
Would you lay down your gun then you won’t need it no more

If the wall it goes up would the thing ever fall
Will it stand there forever long after we’re gone
As a tombstone for freedom in a world that went wrong
As a remind of just how far we haven’t come

If the wall it goes up will the temperature drop
Will the oil rigs that litter this land get pulled up
Will we find some wild new way to save where we’re at
Would you do it? No, I doubt it where’s the money in that?’

If the wall it goes up and you’re stuck here inside
And caught with skin color some lawmen don’t like
Will they beat you with the same bars they throw you behind
If it was you would you resist, give in, or just hide?

If the wall it goes up and there’s no need to leave
Could I get all I want from the number on the screen?
If I dial 1-800 will you bring it to me
Straight to my couch the American dream

If the wall it goes up and your Jesus comes back
And he knocks on the door will you stand to attack
If he don’t have his papers and he don’t have much cash
Would you take him in, jail him, or just send him back?

If the wall it gets built will I get rich like you?
Can I buy me a fake wife and a ghostwriter too?
And a Rolls Royce to drive down each broke avenue
Smiling fat on my high horse through a ghetto so gloom

If the wall it goes up around the idiot king
And a new Joan of Arc rises against his name
Will you stand there beside her, burn her at the stake
Or glance at it there on the news the next day?

If the wall it gets built like the walls built before
Will we be forced to take sides in a new civil war?
Where it’s East vs West vs South vs North
Versus people with money versus people so poor

If the wall it goes up do you think it could stop
The bombs coming in from countries you pissed off
With your big mouth blowing up like the 4th of July
Shut it Donald, shut it please man we don’t want to die

But, if the wall it stays down and the people stay free
And it’s not quite as bad as you said it would be
What if I let you be you and you let me be me
It’s a song before the wall for all us to sing
It’s a song before the wall for all us to sing

Diferentes imagens [citação]

>>> Para muitas pessoas, a televisão e o cinema são a única via para compreenderem as pessoas que não são como elas. É importante para o mundo vermos diferentes imagens uns dos outros, de modo a podermos desenvolver empatia e compreensão.

MICHELLE OBAMA
'Entrevista com Michelle Obama', por Ted Johnson
in Variety, 23 Agosto 2016

A IMAGEM: Erwin Olaf, 2011

ERWIN OLAF
Keyhole 3
2011

segunda-feira, agosto 22, 2016

Guia para The Dead Weather [7]

[ 1: Hang You from the Heavens + Are 'Friends' Electric? ]
[ 2: Treat Me Like Your Mother + You Just Can't Win ]
[ 3: Will There Be Enough Water? ]

[ 4: I Cut Like a Buffalo + A Child of a Few Hours Is Burning to Death ]
[ 5: Bone House + Will There be Enough Water? ]
[ 6: Blue Bood Blues + Die By the Drop ]


O terceiro álbum, Dodge and Burn, surgiu a 25 de Setembro de 2015, tendo tido uma montra especial com o single de I Feel Love (Every Million Miles): a energia de sempre, porventura com uma Alison Mosshart ainda mais essencial na teatralização do seu som — ei-los em The Late Show, apresentados por Stephen Colbert.


>>> Site oficial de The Dead Weather.

A tragédia de "Love on Top" (2/3)

"Fábio é expulso pelos portugueses"
A tragédia televisiva contemporânea tem a sua expressão mais eloquente nos horrores quotidianos de Love on Top — aí, cada ser humano, espectador incluído, é (des)educado para ser boçal.

[ 1 ]

Quem expulsou Fábio? Os "portugueses", diz a legenda.
No domínio essencial do simbólico, há dois regimes chantagistas a funcionar em Love on Top. O primeiro envolve, claro, o interior da casa: as personagens são apresentadas e representadas como expressão única e unívoca do factor humano — tudo o que somos pode suscitar algum paralelo com algum ou alguns dos concorrentes. O segundo promove uma violenta homogeneização: do lado de cá, não estão os "espectadores", eventualmente uma "audiência", mas sim os "portugueses".
Repare-se que não se trata de discutir pueris contabilidades: mesmo que todos os habitantes do país estivessem ao mesmo tempo a olhar para a mesma emissão, nada disso poderia ocultar os horrores da reality TV — se a história colectiva consagrasse automaticamente os "números" (quaisquer "números") como prova de legitimidade e razão, viveríamos em pleno fascismo. Trata-se, isso sim, de sublinhar como a ideologia do programa encena o colectivo social, não como um espaço de muitas diferenças e contradições, mas sim um rebanho a que se pertence, mesmo sem dar por isso — quem está a olhar são sempre os "portugueses".

Toots Thielemans (1922 - 2016)

Nome fundamental na história da harmónica, o belga Toots Thielemans faleceu a 22 de Agosto, durante o sono, num hospital de Bruxelas — contava 94 anos.
A guitarra e o assobio são também marcas especiais de Thielemans, mas é a infinita versatilidade e delicadeza da sua harmónica que melhor define a sua identidade artística, em particular no universo do jazz. Ao longo de mais de seis décadas de carreira (retirou-se em 2014), deixou uma discografia de várias dezenas de álbuns, envolvendo colaborações com Miles Davis, Benny Goodman, Quincy Jones, Elis Regina e Paul Simon, entre muitos outros. No cinema, participou em diversas bandas sonoras, incluindo O Cowboy da Meia Noite (John Schlesinger, 1969), Asfalto Quente (Steven Spielberg, 1974) e Jean de Florette (Claude Berri, 1986). Em 2009, nos EUA, foi consagrado como Jazz Master, título atribuído pelo National Endowment for the Arts.

>>> Interpretando o tema de O Cowboy da Meia-Noite, num concerto de 2012.


>>> Obituário no New York Times.
>>> Site oficial de Toots Thielemans.

As bases de Trump [citação]

JOE KLEIN / Time
>>> Provavelmente, será preciso um milagre para que Trump se relance o suficiente para ganhar a presidência. Mas uma derrota em Novembro não será o fim desta história. No meio da agitação de Trump, o New York Times publicou um video [inserido aqui em baixo] sobre a faixa mais básica dos seus apoiantes, filmada ao longo do último ano pelos repórteres do jornal. Estes verdadeiros crentes apresentam-se meio loucos, desgraçados, bárbaros. Vê-los é chocante e aterrador. Trump, o candidato, é uma farsa, mas estas pessoas não são. (...) Necessitamos desesperadamente de encontrar uma maneira de falar com eles quando acabar esta campanha em forma de cataclismo.

JOE KLEIN
in 'Amid Donald Trump’s Stumbles, an America-First Rebellion That Is Just Beginning'
Time, 11 Agosto 2016

Desenhos animados em milhões de dólares

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (1937)
Os desenhos animados, tanto quanto (ou mais que) os filmes de super-heróis, movimentam hoje enormes fortunas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 de Agosto), com o título 'Desenhos animados rendem milhões'.

Se quisermos resumir a importância da animação na história recente da indústria cinematográfica, podemos dizer que os desenhos animados passaram a ser um dos factores decisivos do box office (nos EUA e, em boa verdade, no mundo todo). Veja-se o exemplo de Frozen (2013), que arrecadou nada mais nada menos que 1.287 milhões de dólares nos ecrãs de todo o mundo. A produção dos estúdios Disney lidera um lote de quatro títulos que conseguiram superar a margem dos mil milhões — seguem-se Mínimos (2015), da Illumination/Universal, Toy Story 3 (2010), da Pixar, e Zootrópolis (2016), também da Disney; depois, há mais 35 títulos que conseguiram acumular mais de 500 milhões de receitas.
A esmagadora maioria dos filmes que integram esta lista foi produzida através dos mais modernos recursos do desenho digital (no sexto lugar, O Rei Leão, de 1994, é uma das honrosas excepções). Quer isto dizer que tais recursos foram decisivos na reconversão artística e no relançamento comercial das figurinhas animadas, alargando o mercado a muitas derivações de merchandising, desde os tradicionais livros e brinquedos até aos jogos de video. O respectivo volume de negócios atinge os mais altos valores do universo global do entertainment. É o caso da série A Idade do Gelo, dos estúdios Blue Sky, da 20th Century Fox: mesmo deixando de lado as suas muitas ramificações (curtas-metragens, programas de televisão, jogos de video e até um espectáculo de palco), os seus cinco filmes já conseguiram uma receita bruta superior a 3.000 milhões de dólares.
Podemos perguntar qual o lugar dos clássicos nesta história de muitos cifrões. Por exemplo, qual o comportamento financeiro de Branca de Neve e os Sete Anões, a primeira longa-metragem de animação, lançada por Walt Disney na época natalícia de 1937? Pois bem, é o filme que fecha o Top 50 dos filmes de desenhos animados, com uma respeitável receita de 418 milhões de dólares.
Em todo o caso, vale a pena não esquecer a inflação, tendo em conta, antes de tudo o mais, as alterações do preço unitário dos bilhetes de cinema. Pois bem, feitas essas contas para o mercado americano (que conserva estatísticas apuradas de tal evolução), Branca de Neve e os Sete Anões não é apenas o mais rentável filme de animação — é também o nº10 na lista dos mais rentáveis de sempre (liderada por E Tudo o Vento Levou, de 1939). À Procura de Dory (2016), o desenho animado recordista em números absolutos, surge em 82º lugar! Conclusão: vamos menos ao cinema que os nossos avós.