segunda-feira, janeiro 23, 2017

A aventura digital de Bonobo

O DJ Bonobo (nome artístico do inglês Simon Green) acaba de lançar o seu sexto álbum de estúdio, Migration, em tudo e por tudo fiel a um gosto de muitas contaminações entre electrónicas e trip hop, aqui e ali temperadas por uma suave nostalgia soul. Se outras razões não houvesse, o álbum mereceria alguma atenção por causa do prodigioso teledisco do tema No Reason. Dirigido por Oscar Hudson, trata-se de uma fascinante aplicação de recursos de manipulação/articulação de imagens capaz de nos provar que o digital não alterou apenas a figuração do espaço — no limite, é sempre a percepção da figura humana que está em causa.

Trump vs. democracia [citação]

>>> Em primeiro lugar, e para evitar qualquer mal entendido, sinto-me horrorizado por Trump — é uma catástrofe. Mas o que não devemos esquecer é que ele é o resultado de um determinado processo. E para resumir uma longa história, esse processo é a desintegração e o falhanço do establishment da esquerda democrática. Por isso, se lutarmos agora contra Trump, estaremos a lidar com aquilo que em medicina se chama sensação sintomática — toma-se um comprimido para combater a dor. Mas para curar a doença é preciso que algo aconteça nos partidos democráticos.

SLAVOJ ZIZEK
BBC
17 Janeiro 2017

De que falamos
quando falamos de quincôncios?

Grégoire Leprince-Ringuet
É a primeira revelação de 2017: chama-se Grégoire Leprince-Ringuet e estreou-se na longa-metragem com O Bosque dos Quincôncios — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Janeiro), com o título 'Um cineasta fascinado pela poesia dos quincôncios'.

Quincôncios. Palavra bizarra. Ou, pelo menos, desconhecida da maioria dos cidadãos. E, no entanto, trata-se de uma palavra que designa algo muito objectivo que, de uma maneira ou de outra, todos conhecemos ou podemos reconhecer: quincôncio é um modo peculiar de plantar as árvores, dispondo quatro delas nos vértices de um quadrado e a quinta no centro desse mesmo quadrado. O Bosque dos Quincôncios é um filme que começa, justamente, numa zona em que as árvores estão dispostas dessa maneira: o bosque da cena de abertura serve de cenário a um diálogo que parece selar a irrevogável separação de Paul (Grégoire Leprince-Ringuet) e Ondine (Amandine Truffy).
A seguir, no metro, Paul vê Camille (Pauline Caupenne), uma desconhecida, e cede ao impulso de a seguir nos labirintos da noite de Paris. De forma inusitada, aparentemente indecifrável, começamos a ouvir na banda sonora a Marcha Eslava, Op. 31, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Comentário musical algo excêntrico? Talvez. O certo é que Paul descobre Camille num teatro, integrando um grupo que dança, freneticamente, ao som de Tchaikovsky. Num misto de surpresa e encantamento, Paul começa a dançar com Camille...
Esta descrição pouco elaborada garante, pelo menos, que estamos perante um filme que está longe de ser convencional ou previsível. Aquilo que começa como uma variação sobre um modelo tradicional da comédia romântica — A ama B, B abandona A, A encontra C —, vai-se transfigurando num exercício ironicamente teatralizado e subtilmente poético. Aliás, convém esclarecer que a evocação da poesia não envolve qualquer especulação (interpretativa ou crítica). Acontece que Grégoire Leprince-Ringuet, intérprete de Paul, também argumentista e realizador de O Bosque dos Quincôncios, escreveu o seu filme em verso, apelando a uma ambivalência em que a carnalidade das emoções não é repelida, antes parece sair reforçada, pelo artifício da palavra.
Nascido em Paris, em 1987, Leprince-Ringuet foi membro do coro infantil da Ópera de Paris, tendo-se estreado no cinema sob a direcção de André Téchiné, em Os Fugitivos (2003). Vimo-lo também, por exemplo, em As Canções de Amor (2007), de Christophe Honoré, ou Mistérios de Lisboa (2011), de Raul Ruiz.
Produzido pelo português Paulo Branco (através da sua empresa francesa Alfama Films), O Bosque dos Quincôncios é a primeira grande e fascinante revelação de 2017. O simples facto de se tratar de um filme construído a partir da sensualidade da palavra seria suficiente para o demarcar de muito cinema contemporâneo formatado pela ostentação gratuita da imagem. Ao mesmo tempo, o gosto surreal de Leprince-Ringuet, alicerçado no aparente naturalismo do quotidiano, remete-nos para uma riquíssima tradição francesa que passa pela referência tutelar de Jean Cocteau e, claro, pelas muitas variações “teatrais” de Jacques Rivette. Afinal de contas, a geometria dos quincôncios duplica os labirintos do amor.

Como "traduzir" Trump?

Libération (22 Jan. 2017)
O artigo de Daniel Schneidermann intitula-se: 'Trump : comment le traduire, le traiter, le titrer, etc.' [Trump: como traduzi-lo, tratá-lo, titulá-lo, etc.]. Ou seja: o jornalista do Libération recorda que o cliché segundo o qual vivemos num "mundo de imagens" pode e deve ser questionado nos seus limites. Mais exactamente, trata-se de confrontar o jornalismo com uma verdade interior tantas vezes menosprezada na selva dos links e da informação "instantânea": uma imagem vive sempre através da palavra.
A inquietação em torno da figura de Donald Trump leva-o mesmo a classificá-lo como "a monstruosidade Trump". Para logo a seguir introduzir uma dúvida metódica em relação à expressão utilizada: "Eis algo que nos descansa. Faz bem. E faz bem também, por certo, a alguns leitores. Mas irá desqualificar o que se segue aos olhos de outros leitores. Exercendo alguma contenção, poderia ter escrito apenas 'Trump'".
Grande e delicada questão, como são todas as questões de linguagem — tantas vezes menosprezadas por tantos jornalistas. Ou ainda: como lidar com o poder da oratória de Trump? Desqualificá-lo como medíocre ou manipulador corre o risco de se reduzir a um gesto "purificador" de boas intenções. A saber:

>>> Será necessário conservar toda a "oralidade"? Deixar em suspenso as frases não concluídas, as digressões, as repetições, deixar em estado informe o cozinhado verbal? Nada mais fácil do que destruir um entrevistado conservando na transcrição a sua oralidade bruta. Da oralidade à escrita, a passagem é sempre uma catástrofe. Nesse momento, o jornalista é todo poderoso. Conservando ou suprimindo um simples "euh", ele pode fazer passar o entrevistado por um génio ou um idiota. É uma das nossas pequenas armas secretas, de que nunca falamos.

Os "factos alternativos" de Trump

Trump, 2017 + Obama, 2009
FOTO: DN
Em tempos de tantas imagens, as mais variadas especulações seriam, talvez, inevitáveis perante a comparação de duas fotografias das multidões que acompanharam as tomadas de posse de Barack Obama (2009) e Donald Trump (2017).
Importa lembrar que todos os indicadores de Washington (incluindo o número de utilizadores do Metro nos dias dessas tomadas de posse) apontam para que o número daqueles que acompanharam Trump tenha sido à volta de um terço dos que estiveram presentes na cerimónia de posse de Obama (cerca de 1,8 milhões).
Dito isto, podemos reconhecer que a realidade está longe de se poder dizer, representar ou pensar apenas através da aritmética e que, por isso mesmo, seria possível enquadrar os números em causa (e o que se vê nas duas imagens) de formas muito diversas — desde que tais formas soubessem respeitar a complexidade dos factos e, em particular, a inteligência de cada um.
Mas não. Pelo menos da parte do novo Presidente dos EUA. Assim, Sean Spicer, o secretário para a imprensa escolhido por Trump, veio proclamar aos jornalistas que cobrem o dia a dia da Casa Branca que "esta foi a maior audiência que alguma vez assistiu a uma tomada de posse, ponto final" — a sua mentira seria "confirmada" pelo próprio Trump, na visita que fez à CIA, insurgindo-se também, uma vez mais, contra os media.
* * * * *
Tudo isto conduziu a uma situação televisiva que, para o melhor ou para o pior, vai entrar para a história da política no século XXI. Assim, na NBC, em diálogo com Chuck Todd (Meet the Press), Kellyanne Conway, conselheira de Trump, esclareceu que Spicer não mentiu — estava apenas a apresentar "factos alternativos".
Veja-se o respectivo registo.


Compreendemos, assim, que para a administração Trump o Big Brother, de Orwell, não é uma metáfora da repressão, mas um modo de conceber e habitar o mundo — e tendo em conta a conotação que a designação adquiriu através da "reality TV" (a que Trump também pertence), podemos deduzir que este estilo de discurso não é um desvio, mas a afirmação de uma filosofia. De quê? De imposição de uma "alternativa" sem qualquer fundamento cognitivo e, por isso mesmo, no limite, de esvaziamento do próprio conceito de realidade.
Leia-se a acutilante análise de Dean Obeidallah, incluindo um video do modo como tudo isso foi desmontado num painel da CNN — como escreve Obeidallah, em termos simples, "factos alternativos são mentiras".

Memórias íntimas de Hollywood

Carrie Fisher e Debbie Reynolds
Falecidas em dois dias consecutivos, Debbie Reynolds e Carrie Fisher, mãe e filha, são as figuras centrais do documentário Bright Lights — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Janeiro), com o título 'Isto não é o "Big Brother"'.

Quem viu o documentário Bright Lights: Com Carrie Fisher e Debbie Reynolds (a passar no canal TV Séries) não poderá deixar de recordar o passado recente: Carrie, a filha, faleceu a 27 de Dezembro, na sequência de um ataque cardíaco ocorrido numa viagem de avião; Debbie, a mãe, de saúde muito frágil, apenas resistiu mais um dia — tinham, respectivamente, 60 e 84 anos.
Claro que o documentário realizado por Alexis Bloom e Fisher Stevens é anterior a tudo isso. Apresentado no Festival de Cannes, em Maio do ano passado, estava agendado para emissão nos canais da HBO no próximo mês de Março — na sequência da morte das duas actrizes, a estação decidiu antecipar a sua difusão global (em Portugal, estamos a vê-lo em paralelo com os EUA).
Seja como for, não é possível abstrair do trágico desaparecimento das duas protagonistas. Afinal de contas, elas foram símbolos modelares de duas vertentes do imaginário de Hollywood: Debbie Reynolds, através de comédias românticas e musicais como Serenata à Chuva (1952), encarnou a utopia feliz do entertainment clássico; interpretando a Princesa Leia, na saga A Guerra das Estrelas, Carrie Fisher foi uma bandeira, ainda romântica, das novas superproduções juvenis. Ao mesmo tempo, como o documentário nos mostra, a relação mãe/filha, mesmo na mais radiosa exposição mediática, foi sempre assombrada pelos mais variados dramas privados.
Daí o efeito paradoxal, francamente perturbante, de Bright Lights. Há momentos em que experimentamos a sensação incómoda de estarmos a ser confrontados com situações que pertencem à mais estrita privacidade (por exemplo, a conversa de Carrie com o pai, Eddie Fisher, em meados de 2010, poucos meses antes do seu falecimento). Ao mesmo tempo, tudo o que vemos envolve a disponibilidade das duas protagonistas para evocar as muitas atribulações da sua existência — desde a candura dos filmes de família até aos espectáculos finais da mãe, já com evidentes limitações físicas, passando pela toxicodependência da filha.
Bright Lights surge como um objecto de fronteira entre dois imaginários, apesar de tudo, bem diferentes. Por um lado, pressentimos a obscenidade da “reality TV”, instrumentalizando tudo e todos para, em última instância, esvaziar qualquer compaixão humana; por outro lado, não podemos deixar de admirar e respeitar a coragem de duas mulheres que enfrentam os factos e consequências das suas histórias pessoais. Importa escolher sempre essa coragem contra a cobardia moral do Big Brother e seus derivados.

domingo, janeiro 22, 2017

A IMAGEM: Patrick Chappatte, 2017

PATRICK CHAPPATTE
"... Que Deus nos ajude!!"
The New York Times, 20 Jan. 2017

Quando a realidade ultrapassa a ficção


Ainda é cedo para criar um olhar mais amplo e crítico sobre a sexta temporada de Homeland (que arrancou esta semana na Fox), série que representa uma das mais interessantes criações do panorama atual da ficção criada para o pequeno ecrã tendo conseguido, época após época, solidificar e aprofundar tramas em torno das suas personagens principais sem ao mesmo tempo descuidar a construção de um sólido arco narrativo a cada ano, por ele passando sempre ecos dos focos de instabilidade do mapa político mundial contemporâneo.

Sabíamos já que a ação seria devolvida a solo americano depois de algum tempo vivido entre o médio oriente e, na última temporada, a cidade de Berlim. O que não sabia a equipa de argumentistas, de casting e de realização, quando estavam a escrever, escolher elenco e a filmar os episódios da sexta temporada, era que, contra o que se previa, a Casa Branca recebe em 2017 não uma mulher, mas sim Donald Trump. E o cunho de atualidade que a ideia de termos, também aqui, uma mulher como presidente-eleita, em tempo de espera pela tomada de posse, traduziu afinal um daqueles momentos em que a realidade acabou por ultrapassar a ficção. Mas a figura de Elisabeth Keane, uma senadora de Nova Iorque (olhem só a coincidência com Hillary Clinton) que foi eleita para a presidência parece ser mesmo assim uma das peças mais interessantes das novas que este primeiro episódio colocou em jogo. É desde logo um golpe certeiro a escolha da atriz Elisabeth Marvel para o papel... Basta que nos lembremos da terceira e quarta temporadas de House of Cards para recordarmos como ali vestiu brilhantemente o papel de Heather Dunbar, que disputava com Frank Underwood a nomeação pelos democratas. Ou seja, a ressonância desses ecos presidenciáveis acaba por estar na nossa memória recente e vê-la, agora, presidente-eleita (mesmo com uma outra personagem numa outra série) acaba por carregar essa herança de familiaridade. Mesmo assim, mais do que a escolha da atriz, o mais interessante a acompanhar nesta presidente-eleita parece ser o modo como, e aqui ao contrário do que seria de supor em Hillary, ela parece não seguir muitas das opções habitualmente em cena nas questões de política internacional. Tem assim uma pitada de, eventualmente, Sanders ou até Trump, embora com devidas distâncias. Veremos como evolui nas cenas dos próximos capítulos. E que implicações tem o novo tabuleiro de xadrez político nas relações internas na CIA, que terão expressão aqui através das figuras de Dar Adal (F. Murray Abraham) e de Saul Berenson (Mandy Patinkin).

O outro foco interessante a seguir tem a ver com sinais de islamofobia que habitam a detenção de um jovem negro muçulmano, filho de emigrantes mas já cidadão americano e que, apesar de ter uma consciência crítica, até ver parece mais ser uma voz de protesto do que uma eventual ameaça terrorista. Também aqui há que ver o que os próximos episódios nos dizem. É precisamente em volta deste jovem que reencontramos a figura (central) de Carrie Mathison (Claire Danes), que regressou aos EUA e trabalha num centro que procura zelar pela integração social de muçulmanos residentes na área de Nova Iorque.

Ela estará certamente no epicentro da trama, devendo a evolução da narrativa juntar a dimensão política nacional (em vésperas de tomada de posse) e uma eventual ameaça de segurança (ou o receio de que ela possa existir, ainda não sabemos) à continuação de uma atenção pela dimensão mais pessoal do seu quotidiano, quer pelo facto de estar ela a educar a filha, quer na órbita de Peter Quinn (Rupert Friend), que recupera num hospital das sequelas da violência a que foi sujeito em Berlim e cujo relacionamento com a protagonista gerou os momentos de mais intenso jogo de emoções no relativamente tranquilo episódio de estreia da sexta temporada... Mas não me cheira que a coisa se mantenha calma daqui em diante... Para já, começou bem.

A sexta temporada de "Homeland" é exibida às quartas-feiras, pelas 22.10 na Fox.

sábado, janeiro 21, 2017

"Animals", 40 anos

A célebre capa com a Battersea Power Station, central eléctrica de Londres (desactivada em 1983), e um... porco voador: Animals, 10º álbum de estúdio dos Pink Floyd, editado entre Wish You Were Here (1975) e The Wall (1979), é uma celebração musical que envolve porcos, cães e ovelhas — na prática, uma parábola existencial, muito humana, em que, por exemplo, nas duas partes do tema Pigs on the Wing [audio], se canta assim:

If you didn't care what happened to me,
And I didn't care for you,
We would zig zag our way through the boredom and pain
Occasionally glancing up through the rain.
Wondering which of the buggars to blame
And watching for pigs on the wing.

You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me.
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.

Enfim, uma obra de admirável austeridade, quase sempre secundarizada quando se revisitam as memórias dos Pink Floyd e que, mais do que nunca, até pelo seu simbolismo político, importa voltar a escutar — Animals foi editado no dia 21 de Janeiro de 1977, faz hoje 40 anos.

Silêncio + Scorsese (2/3)

Adam Driver e Andrew Garfield
A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

[ 1 ]

2. "Porquê eu?"

Silêncio vem encerrar aquilo que, a partir de agora, poderemos designar como a “trilogia religiosa” do seu autor, sendo A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997) os dois primeiros momentos. O que os liga é o reconhecimento de uma trágica e comovente desproporção simbólica. Tal como os padres de Silêncio, Jesus e o Dalai Lama, figuras nucleares desses dois filmes, experimentam a vertigem de serem convocados para uma missão propriamente sagrada — a assunção de uma verdade que transcende os dados da existência comum — que lhes suscita uma dúvida radical: serão eles capazes de satisfazer os desígnios da divindade que servem?
Há uma outra maneira de dizer isto: o trabalho dos portadores das palavras da fé não pode deixar de lidar com a vida comum, regressando à terra, às tensões sociais, às convulsões da política. Ou ainda: os protagonistas da missão divina vão ter de reconhecer os limites inerentes à sua condição humana. Um pouco como o Jesus de A Última Tentação de Cristo que, a certa altura, se vira para o Céu, proclamando uma incontornável angústia: “Porquê eu?”.
Escusado será dizer que Scorsese não perde de vista o paradoxo formal e filosófico que assim se instala: por um lado, a expansão da fé remete sempre, por definição, para qualquer “coisa” que está para além do visível; por outro lado, o cinema é essa arte “primitiva” que ambiciona confrontar-se com o invisível, imaginando-o, ou melhor, revertendo-o para o mundo das imagens. Será preciso recordar que Georges Méliès, pioneiro absoluto do poder encantatório das imagens, era exuberantemente homenageado em A Invenção de Hugo?
Daí o peculiar suspense que se vai instalando no desenvolvimento de Silêncio. É verdade que a fé dos protagonistas está para além das imagens (“fumie”) que ilustram a sua crença. Mas não é menos verdade que aquilo que as autoridades japonesas lhes exigem envolve a negação do valor simbólico dessas imagens (literalmente espezinhadas). Mais do que isso: eles vão ter de escolher entre esse acto de conspurcação das imagens e a morte — a morte dos seus irmãos de fé ou a sua própria morte.

A canção de protesto na era Trump (1)



O título não deixa dúvidas de que se trata de um alerta sobre os poderes que os mecanismos democráticos dão a quem vota. Canta-se "I give you power / I can take it Away"... A canção tem precisamente por título I Give You Power e junta Mavis Staples aos Arcade Fire. Surgiu na véspera da tomada de posse. Mas lança o tom pelo qual muitos músicos vão dar voz a estes tempos que vivemos.

Em tempo de transição...


Esta semana ficará registada na história. A tomada de posse de Donald Trump não é apenas a de um novo presidente dos EUA. Porque pode ser o início de uma era em que tudo pode ficar diferente da ordem que conhecemos desde o fim da II Guerra Mundial...Este é também um tempo de balanço ao que foram os oito anos de administração de Obama. E não faltam por isso bons trabalhos de jornalismo que façam contas a todo este passado recente e olhem em frente.

A Time, na sua edição desta semana, tem a Casa Branca na capa e, como tema principal, uma análise sobre o que a chegada de Trump pode significar para a ordem mundial. Os artigos mais longos são contudo dedicados à Casa Branca. Sim... Afinal é “quem” está na capa da revista! Um dos textos recorda a chegada, ali, de Obama, há oito anos. Num outro algumas das figuras da administração cessante falam da vida quotidiana naquele lugar e dão dicas a quem chega, num verdadeiro “guia de sobrevivência”. E há depois um artigo assinado pelas filhas gémeas de George W. Bush no qual acolhem a chegada das duas filhas dos Obama ao “clube” dos ex-primeiros filhos...

Para complementar esta visão que tem ainda bem presente a vida de Obama na Casa Branca, a Rolling Stone, na edição de 15 de dezembro apresentava uma entrevista de balanço com o presidente que agora se despede, feita por Jann S. Wenner. E junta, curiosamente, uma outra, de antecipação sobre o que aí vem, com Bernie Sanders.

"House of Cards" regressa a 30 de Maio

Não, não é nenhuma imagem gerada pelo pessimismo de um qualquer observador da América de Donald Trump... Acontece que, num gesto típico das inter-acções que a globalização mediática favorece, a Netflix decidiu anunciar a data de estreia — 30 de Maio — da quinta temporada de House of Cards no mesmo dia em que foi empossado o 45º Presidente dos EUA. Eis 35 segundos de apoteótica perversão informativa.

Ser ou não ser Trump [citação]

>>> O Presidente Trump falou de solidariedade, da necessidade de curar as nossas divisões, e do modo como fará da América um lugar "onde não haverá lugar para o preconceito". O certo é que o Sr. Trump fez mais do que ninguém para gerar o rancor e as divisões que agora promete curar. Para sarar as nossas feridas políticas, seria preciso que Trump se tornasse no que não é.

PETER WEHNER
'A América de fantasia de Donald Trump'
in The New York Times, 20 Jan. 2017

sexta-feira, janeiro 20, 2017

A IMAGEM: Nigel Parry, 2015

NIGEL PARRY [ CNN ]
Donald Trump
2015

A IMAGEM: Pete Souza, 2009

PETE SOUZA
Barack Obama (primeira tomada de posse)
20 Janeiro 2009

A IMAGEM: Yousuf Karsh, 1993

YOUSUF KARSH
Bill e Hillary Clinton
1993

A IMAGEM: Richard Avedon, 1976

RICHARD AVEDON
Ronald Reagan
1976

A IMAGEM: Norman Rockwell, 1968

NORMAN ROCKWELL
Richard Nixon
1968

A IMAGEM: Aaron Shikler, 1970

AARON SHIKLER
John F. Kennedy
(retrato oficial na Casa Branca)
1970

A IMAGEM: Jordan Awan, 2015

JORDAN AWAN
— ilustração para um artigo de Eric Metaxas,
The New Yorker, 03-09-2015

quinta-feira, janeiro 19, 2017

O anti-cinema do IMDb

1. A notícia surgiu na página de entrada do site IMDb e, embora proveniente de The Wrap, tem a ver com o próprio IMDb. A saber: há uma onda de indignação visando o filme A Dog's Purpose, de Lasse Hallström. Na sua origem está um video de rodagem em que se vê um dos cães que participaram no filme, resistindo à ordem do seu treinador para entrar num tanque de águas agitadas... a ponto de a PETA ter denunciado a situação, considerando que o animal surge aterrorizado.

2. Não creio que o meu respeito pelo mundo dos cães seja incompatível com a ideia de que, neste caso específico, a PETA (instituição admirável na defesa da vida e da dignidade dos animais) confunde os seus valores com um fundamentalismo beato que não beneficia, sequer, o conhecimento e compreensão do universo animal. Aliás, embora secundarizando o facto, a notícia integra um comunicado da produtora (Amblin), reiterando o seu empenho em garantir um bom ambiente de rodagem para os animais — concluindo que o cão em causa está "feliz e de boa saúde". Em todo o caso, não me custa admitir e respeitar o facto de haver pessoas que se sintam chocadas com aqueles breves segundos de imagens (aliás, totalmente descontextualizadas). Tudo bem — mas não é isso que estas linhas discutem.

3. O que está em causa é o fulcro da notícia. A saber: terá sido por causa de tais imagens que A Dog's Purpose está a ser condenado pelos visitantes inscritos [users] do IMDb. Mais concretamente: nas classificações ao filme, uma maioria esmagadora (94%) classificou-o com nota 1 (em 10 pontos possíveis).

4. É referido que ainda falta cerca de uma semana para o filme estrear nos EUA, mas ninguém parece preocupar-se muito com isso (creio que é óbvio que também não o vi). Aliás, o site The Wrap, uma das referências mais fortes na abordagem independente de Hollywood, parece mesmo não ter problemas profissionais ou éticos para considerar que qualquer um dos heróicos votantes, apenas porque colocou lá um numerozinho, está a fazer... crítica de cinema. Numa nota de total irresponsabilidade jornalística, designam mesmo tais votantes por "críticos de cinema amadores". Como???

5. Como se isto não bastasse, a notícia "esquece-se" de identificar a impressionante dimensão desse exército de espectadores/críticos. Entre os muitos milhões de que o IMDb se gaba de ter consigo (e ninguém duvida de tal dimensão), quantos milhões estarão a gerar esta condenação de A Dog's Purpose... por mero acaso, antes mesmo de terem podido ver o filme?

6. Hélas! As tropas anti-A Dog's Purpose talvez consigam esgotar duas ou três sessões de um grande multiplex... De facto, temos de louvar o rigor aritmético do IMDb. A meio da tarde deste dia 19, ficamos a saber que os votantes neste filme são 1497... E que, entre eles, 1408 acharam por bem avaliar um filme que não viram com a nota "1" (em boa verdade, de todos os 1497, ninguém conhecerá o objecto em causa).
7. A Dog's Purpose poderá ser muito "bom" ou muito "mau". Não é isso que está em causa. É, isso sim, este primarismo anti-cinema que o IMDb acolhe e glorifica. Como é possível que 1408 pessoas tenham poder para condicionar desta maneira a vida de um filme (que não viram)? A resposta é simples: estamos perante a estupidez "social" que a Internet (através de notícias como a que The Wrap achou por bem publicar) pode favorecer, concretizar e promover — é a mesma lógica que faz com que um clube de futebol esteja "em crise" porque, de repente, alguma televisão decide fazer um directo com 20 adeptos (?) aos gritos à porta do respectivo estádio...
_____

NOTA: entretanto, se o leitor quiser descobrir um interessante filme "médio", vale a pena seguir as pistas "científicas" do IMDb. Por hipótese, um sólido filme com média de 6,5 pontos... O que, convenhamos, não é nada mau: como decidir entre o musical Do Fundo do Coração (1981), de Francis Ford Coppola, e Os Mercenários (2010), de e com Sylvester Stallone, acompanhado por Jason Statham, Jet Li e Dolph Lundgren?... Escolha difícil, sem dúvida, embora valha a pena lembrar que houve 277.516 "críticos de cinema amadores" que votaram em Stallone & Cª.; Coppola é um desastre, claro, tendo mobilizado apenas 3.913 votantes.

Silêncio + Scorsese (1/3)

Martin Scorsese durante uma conversa sobre Silêncio,
na Escola Preparatória Fordham (Bronx, Nova Iorque)
* FOTO: jesuits.org
A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

1. Adaptando Shusaku Endo

Não é todos os dias que um filme consegue escapar às rotinas instaladas no mercado, sejam elas de natureza promocional, sejam induzidas pelo alarido mediático. Silêncio, de Martin Scorsese, é um desses filmes (estreia dia 19): um objecto obstinado e obsessivo, alheio a tendências, modas ou estilos ditados por factores exteriores ao seu próprio pensamento — aí residirá, afinal, o seu espantoso apelo universal.
Há em Silêncio uma dimensão genuinamente portuguesa que não pode deixar de nos tocar. Inspirado no romance homónimo do japonês Shushaku Endo, lançado em 1966 (editado entre nós pela Dom Quixote), o filme centra-se na odisseia de dois padres jesuítas portugueses. Enviados ao Japão na segunda metade do século XVII, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) têm por missão descobrir o paradeiro de Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) que, depois de torturado, terá renegado a sua fé. Essa sua apostasia — consumada através do pisar de uma “fumi-e” (imagem de Jesus Cristo ou de uma figura santificada) — envolve um desafio radical para a Igreja: como difundir a sua doutrina em território asiático? Mais do que isso, estamos perante uma questão subtilmente política: como lidar com o peculiar sistema de poderes e crenças da sociedade japonesa?
Para Scorsese, a adaptação do livro de Endo nunca foi uma banal tarefa de “reconstituição” histórica, muito menos a hipótese de fabricar um “blockbuster” habitado por heróis ou super-heróis. A sua relação com o romance foi mesmo vivida como uma saga introspectiva, inerente à reflexão sobre os caminhos da fé católica. De tal modo que a ideia de filmar Silêncio o acompanhou desde 1989, quando descobriu o romance, curiosamente em pleno Japão (onde se encontrava para interpretar a personagem de Vincent Van Gogh num dos episódios do filme Sonhos, de Akira Kurosawa).
A rodagem chegou a estar prevista para 2009, com os nomes de Daniel Day-Lews, Benicio Del Toro e Gael García Bernal a liderar o elenco. O certo é que Scorsese optou por concretizar Shutter Island (2010) e A Invenção de Hugo (2011), desse modo abrindo um conflito com os produtores italianos da Checci Gori Pictures, resolvido nos tribunais no começo de 2014 (através de um acordo cujos termos nunca foram divulgados). Pouco depois, foi decisiva a inclusão de Irwin Winkler na equipa de produção, ele que já estivera ligado a vários títulos de Scorsese, incluindo Touro Enraivecido (1980) e Tudo Bons Rapazes (1990). O essencial da rodagem viria a decorrer entre Janeiro e Maio de 2015, em Taiwan.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Madonna, Trump & etc.

ROXANE GAY: Enquanto artista, seja em cinema, música ou na escrita, considera o seu trabalho político?
MADONNA: Completamente.

Assim começa uma conversa entre Roxane Gay, jornalista da Harper's Bazaar, e Madonna, tema central da edição em que a revista comemora os seus 150 anos de publicação. Realizada poucos dias depois da vitória de Donald Trump, a entrevista faz o ponto da situação de uma trajectória que Madonna insiste em não reconhecer como acabada ou ilegítima. Faz mesmo questão em recusar lidar com as perguntas que insinuam que, tendo em conta a sua idade (completará 59 anos no dia 16 de Agosto), seria melhor reformar-se... "Alguém pergunta a Steven Spielberg porque é que continua a fazer filmes?".
O diálogo é pontuado por um magnífico portfolio, assinado por Luigi & Iango. Além do mais, num video produzido para a edição online [reproduzido aqui em baixo], Madonna relembra as ambivalências da beleza, através de palavras de F. Scott Fitzgerald.

Maria Cabral (1941 - 2017)

O CERCO (1970)
Com a morte de Maria Cabral, desaparece um dos rostos mais singulares (e simbolicamente mais importantes) da história do cinema português — este obituário foi publicado no Diário de Notícias (17 Janeiro).

São raros os nomes de actores portugueses que se tornaram conhecidos apenas através do cinema: Maria Cabral foi um desses nomes — faleceu no sábado, dia 14, em Paris, contava 75 anos. A notícia foi divulgada pela Academia Portuguesa de Cinema, no Facebook, definindo-a como “rosto e símbolo do Novo Cinema português”.
Esse valor simbólico é indissociável de um título fulcral na história da modernidade do cinema português: O Cerco (1970), retrato amargo e doce da Lisboa da época, em que António da Cunha Telles arriscou dar o protagonismo a alguém que era, afinal, uma quase desconhecida. Aliás, a escolha de Cunha Telles — que já tinha produzido, por exemplo, Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1962) e Belarmino (Fernando Lopes, 1964) — pode também simbolizar um princípio, ao mesmo tempo estético e humano, também ele essencial para compreendermos algumas linhas de força das novas cinematografias que se afirmavam nos mais diversos contextos geográficos e culturais: tratava-se, de facto, de contrariar a lógica mais tradicional (privilegiando os intérpretes com formação teatral), optando por presenças capazes de garantir uma relação virginal com a câmara, porventura mais espontânea ou genuína.
Ainda nos anos 50, tinha apresentado programas infantis na RTP. Mais tarde, participou numa curta-metragem de João César Monteiro que não chegou a ser concluída. Numa entrevista dada à RTP, por altura do lançamento de O Cerco, Maria Cabral citava também os seus anteriores trabalhos como modelo de publicidade, dizendo mesmo: “Por estranho ou esquisito que pareça, não percebo nada de cinema do lado de trás da câmara”. Afinal, tinha gostado da experiência por causa daquilo que acontece “à frente da câmara”. Daí a eterna pergunta: num contexto em que o cinema tivesse outra consistência industrial e, sobretudo, oferecesse aos seus profissionais uma maior segurança de trabalho, a trajectória cinematográfica da actriz teria sido diferente?
Provavelmente, sim. O certo é que, na altura, Maria Cabral apenas participou em mais um filme: O Recado (1972), de José Fonseca e Costa, narrativa parabólica sobre a repressão da PIDE, marcada por um desencantado romantismo, outro momento emblemático da produção portuguesa pré-25 de Abril. Ao longo dos anos 70, optou por trabalhar em teatro, em Paris, regressando a Portugal, em 1981, com Miguel Yeco, para apresentar uma peça no AR.CO.
Em meados da década de 80, rodou ainda três filmes em anos consecutivos: Vidas (1984), de novo sob a direcção de Cunha Telles, agora expondo as clivagens geracionais no Portugal pós-25 Abril; No Man’s Land (1985), um pequeno papel numa realização de Alain Tanner, autor central do Novo Cinema suíço; e Um Adeus Português (1986), visão austera das feridas da Guerra Colonial com assinatura de João Botelho.
Nascida em Lisboa, Maria Cabral fez o liceu em Luanda e estudou Filosofia na Faculdades de Letras de Lisboa. O Cerco bastaria para lhe conferir um lugar especial na história e na iconografia do cinema português.

O piano de Sampha

Coisa séria: Sampha, músico britânico que já trabalhou com Drake, Solange ou Kanye West (na qualidade de compositor, produtor, voz convidada), vai lançar um primeiro álbum intitulado Process. As suas raízes electrónicas envolvem cruzamentos com o R&B, por vezes recompostos através da austeridade de um piano algo "metalizado" — para já, aqui fica o som eloquente de uma bela canção com um título sintomático: (No One Knows Me) Like The Piano.

terça-feira, janeiro 17, 2017

SILÊNCIO, de Martin Scorsese
> conversa na FNAC — hoje

Silêncio, de Martin Scorsese, é assunto de conversa, hoje na FNAC do Chiado, com a participação de Leonídio Ferreira (subdirector do Diário de Notícias) e Nuno Galopim, com moderação de João Lopes — hoje, dia 17, 19h00.