sábado, abril 02, 2011

7 ideias para a classe política (7)

REMBRANDT
Auto-retrato
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7. Manter uma relação inteligente com o passado.

Uma das heranças mais paradoxais do 25 de Abril, por certo não escrita nos seus fundamentos éticos, é a bizarra banalização do passado, em especial do tempo do Estado Novo. Na prática, reduz-se a ditadura a uma espécie de hiato maligno de que saímos como quem se limita a atravessar uma fronteira linear e definitiva. Fenómeno complexo, sem dúvida, que não pode ser unilateralmente atribuído à classe política — mas de que a classe política não se pode eximir. Dito de outro modo: pertence aos políticos a possibilidade de trabalhar as nossas memórias colectivas com uma inteligência que supere qualquer sonambulismo dicotómico. Temos direito a todas as contradições dessas memórias, incluindo a que nos permite falar de felicidade e infelicidade sem dependermos de qualquer lógica simplista de "prós & contras". Mais do que isso: não é possível fazer política como quem refaz a história do seu próprio país a partir do zero — ou então, quando se tenta fazer passar tal ilusão, passamos a viver em clima de permanente impostura ontológica.

sexta-feira, abril 01, 2011

"Isto não é pornografia"

Audrey Hepburn e Fred Astaire
A Internet possui esse fascínio, por vezes assustador, de existir como uma galáxia de matérias que circulam sem centro, como se em cada momento a sua mera coexistência virtual sugerisse uma possibilidade de organização e/ou significação que, no momento seguinte, se dissipa com mais ou menos estertor.
O site This is not porn (à letra: isto não é pornografia) é um exemplo esclarecedor de tal estado de coisas. Que é como quem diz: uma colecção de fotografias mais ou menos insólitas, porventura restos de determinados portfolios, que nos revelam figuras conhecidas, por vezes estrelas do cinema ou da política, em poses pouco ou nada oficiais. São imagens sem autor identificado nem contexto explicitado: puros restos de eventos mais ou menos esquecidos.
Num aviso, o autor do site esclarece que não é detentor do copyright das fotos que reproduz, tendo apenas encontrado-as enquanto navegava na Net. Seu objectivo: "partilhá-las com mais pessoas". Esta candura diz bem de uma singularidade do nosso tempo: a de nos envolvermos em trocas infinitas que, em nome do individualismo, promovem o nosso brando anonimato. De facto, não é pornografia... mas não sabemos o que lhe chamar.

Mick Jagger, Madonna e Tony Curtis

Somos todos jogadores de futebol?


Não interessa qual o clube envolvido (porque há muitos exemplos actuais). Não tem significado particular ser no jornal A ou B (porque esta visão das coisas se tornou transversal). Em todo o caso, importa sublinhar que neste momento de crise do nosso país, podemos encontrar apoteoses futebolísticas deste género: contratos com "cláusula de rescisão de 30 milhões", transferências a rondar "os 5,3 milhões". Ao mesmo tempo, gritam-nos todos os dias que estamos para além do apocalipse, a ponto de duvidarmos se ainda respiramos... mas ninguém diz nada sobre a gloriosa economia do futebol. Porquê? Será que pensar a vida em sociedade não é tentar compreender todas as facetas do social? Ou, na falta de outros empregos, estamos todos condenados a ser jogadores de futebol?...

Dr. Oz: falando sobre o cancro


O show do Dr. Oz sabe falar de saúde e doenças sem simplificar a dimensão humana dos problemas em causa — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 de Março), com o título 'Falando sobre o cancro'.

Gerado em 2004, no show de Oprah Winfrey, o trabalho televisivo do Dr. Oz (SIC Mulher) autonomizou-se, movendo-se numa zona de comunicação que está apenas a alguns passos da fronteira onde começa a televisão estupidamente fútil e, sobretudo, violentamente demagógica. Que fronteira é essa? É aquela a partir da qual o “aconselhamento” do espectador se faz em nome da sua infantilização militante, obrigando-o a comportar-se como um ser desprovido de inteligência que se limita a contemplar os “especialistas” como sacerdotes intocáveis de uma qualquer religião mediática...
O certo é que Mehmet Oz sabe permanecer aquém dessa fronteira. Uma recente edição dedicada ao conhecimento e prevenção das mais frequentes formas de cancro pode servir de modelo. Através de uma elaborada combinação de informações didácticas, comentários de outros médicos e diversos elementos visuais, foi possível falar do cancro sem tratar a doença como um quase interdito moral, ao mesmo tempo não simplificando as suas ameaças e incidências. Acima de tudo, os participantes da audiência (desde os que colocaram perguntas até aos que trouxeram algum testemunho pessoal) foram respeitados na sua singularidade, valorizando explicitamente as suas responsabilidades pelas respectivas opções de vida. Tudo tratado para encaixar nos modelos de um “talk show” rigorosamente cronometrado? Sem dúvida. E porque não? Antes isso que o espontaneísmo grosseiro dos programas que, além de menosprezarem as especificidades de cada espectador, banalizam qualquer conceito de espectáculo.

7 ideias para a classe política (6)

CRISTÓVÃO DE MORAIS
D. Sebastião
, 1565
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6. Discutir a "juventude" (e os valores óbvios).
De acordo com os valores dominantes no espaço tele-ideológico, ser "jovem" é, hoje em dia, qualquer coisa que está a meio caminho entre a histeria consumista (telemóveis, cervejas, etc.) e a estupidez militante (dizer disparates atrás de disparates como quem finge apresentar um talk show). O desgaste produzido por tais valores diz respeito ao todo social — dito de outro modo: é eminentemente político. Ora, continuamos a ter uma classe política que se adapta a essa mediocridade simbólica, aplicando as grandes palavras, a "juventude", a "família", como se fossem chaves automáticas para uma espécie de transparência redentora da vida colectiva. Discutir tais formulações é um passo indispensável para a revalorização do próprio trabalho político e também para a responsabilização dos eleitores.

E chega o sexto filme...


E eis que chega o sexto filme de Seamus Murphy criado para as canções de Let England Shake, o álbum deste ano de PJ Harvey. Desta vez podemos ver e ouvir England.

Quem tem nuvens?

Quem viajou recentemente de avião, ou tem um bilhete em mãos para hoje ou amanhã, pode sonhar numa eventual colaboração no concerto de despedida dos LCD Soundsystem. O realizador Lance Bangs está a pedir a todos imagens de nuvens e céu vistos das janelas de aviões. As imagens podem ser enviadas para o email que acompanha este desafio (e que está disponível aqui). Recorde-se que o concerto está agendado para a noite de amanhã, no Madison Square Garden, em Nova Iorque.

Novas edições:
Ladytron, 00-10


Ladytron
“The Best Of 00-10”

Nettwerk

3 / 5


São apenas dez anos de discos. Apenas... Bem, em dez anos os fab four (ler Beatles, claro) fizeram uma obra que mudou o panorama da música popular. Mas em dez os Ladytron deixaram claro que havia mais que um par de canções para o definir de uma visão pop, capaz de recuperar ecos (e sons de teclados) de inícios dos oitentas, projectando-os numa nova realidade urbana mais assombrada e, talvez, mais descrente. É certo que nunca repetiram, no alinhamento de um álbum, a consistência da excelência dos que nos deram no soberbo 604 (originalmente lançado há precisamente dez anos). O disco dava assim voz a uma banda que nascera, em finais dos noventas Liverpool, do encontro de dois DJs, uma vocalista de berço búlgaro e uma outra teclista. Electrónicas, projectadas em cenários onde uma tela densa de texturas assombra os acontecimentos e corta a luminosidade, desenharam ao longo dos anos pequenos monumentos de uma pop intensa, mas raramente festiva, depois de 604 caminhando, sem grandes mudanças de rumo, pelos alinhamentos de Light & Magic (2002), The Witching Hour (2005) e Velocifero (2008). Esta nova antologia recorda este caminho, com canções que ilustram estas mesmas etapas, a elas juntando o mais recente single Ace of Hz e Little Black Angel, uma versão de um tema dos Death in June. Um percurso importante entre o panorama pop dos anos zero, antes de novo episódio, anunciado já num quinto álbum de originais, a lançar na rentrée.

Da Europa à América


É apenas no contexto de quem vive sob as profundas raízes e tradições de uma cultura ocidental (que entretanto ganhou expressão global) que se compreende a questão que se levanta indagando quando surgiu uma música americana... Isto porque remotas certamente serão as expressões de uma identidade autóctone entre as tribos que povoaram cedo as terras daquele a que os europeus chamariam mais tarde o "novo mundo". As primeiras gerações de povoadores europeus levariam então às Américas ecos de outras escolas musicais que acabariam por dominar os acontecimentos entre as novas comunidades durante os primeiros tempos de novas vidas nesse novo mundo... Mas o tempo acabou por vincar, também na música, a distância que um oceano separa, as novas paisagens e vivências, a comunhão de experiências entre os povos que ali se juntavam... Apontam-se então nomes como os de Charles Ives, Gerorge Gershwin, Aaron Copland, Samuel Barner, mais tarde Leonard Bernstein, como autores de importantes contributos para a definição de uma nova ideia de música americana pela qual caminham heranças de tradições europeias, a nova geografia expressando-se contudo de forma mais visível... Mas entre os primeiros ensaístas de uma noção de música americana, ou pelo menos marcada por uma experiência americana, conta-se a presença de um checo, por uma temporada, naqueles lados do Atlântico. Em período de trabalho nos EUA, e tendo entre mãos a composição de uma sinfonia que celebrasse a memória da chegada de Colombo, Dvorák escutou o mundo ao seu redor e projectou-o na partitura... Foi dos primeiros a compreender o enorme potencial da música afro-americana enquanto força maior necessária para a criação de uma “grande e nobre escola nacional”.
Tinha razão. Razão que não apenas o jazz, o rock’n’roll, a soul ou o hip hop reconhecem, a obra de compositores vários, de um Gershwin ou Bernstein a Steve Reich compreendendo tão bem esse importante espaço cultural que assim ganhou natural peso enquanto importante carga genética. Estreada em 1904, a Sinfonia Nº 9 de Dvorák, também conhecida como Do Novo Mundo, incorpora essas reflexões na construção de uma visão da América, com o ponto de vista de um visitante. O fulgor da descoberta, a força indomável da natureza, a grandiosidade dos espaços, passa por esta música, a pulsante direcção de Lawrence Foster frente a uma notável Orquestra Gulbenkian tendo-nos permitido caminhar, mesmo sem sairmos dos nossos lugares.
Foi uma noite brilhante em todos os sentidos, na primeira parte (que antecedeu, portanto, o Dvorák) tendo o pianista Arcadi Volodos (na imagem) partilhado com a Orquestra Gulbenkian uma vibrante leitura do Concerto para Piano e Orquestra Nº 2 de Johannes Brahms.

Pelas capas dos Sigue Sigue Sputnik (5)


Quarto single extraído de Dress For Excess, Rio Rocks juntava a pop ritmicamente insistente dos Sigue Sigue Sputnik às cores do samba e do Brasil. Um segundo máxi-single chamou inclusivamente a presença de uma escola de samba e de Liminha a uma remistura do tema.