segunda-feira, maio 17, 2021

Greenpeace vs. Boris Johnson

Como fazer política apenas através da saturação de imagens em que vivemos?
A pergunta, por vezes, suscita o seu contraponto dialéctico: como não o fazer?
Exemplo invulgar, de imaginação narrativa e sofisticação técnica, é o mais recente video da secção britânica do Greenpeace: um breve conto moral, de esperança transfigurada em pesadelo, com Boris Johnson como protagonista. Título: "Wasteminster: A Downing Street Disaster".
 

domingo, maio 16, 2021

The Strokes, 2006

Novidade? Não propriamente.
Efeméride? Também não, embora esta canção pertença a um álbum que está quase a fazer 20 anos.
Apenas um daqueles videos que, ciclicamente, reemergem nos arquivos dos circuitos virtuais. Ou seja: uma prodigiosa performance de Last Nite, tema de Is This It (2001), registo de estreia de The Strokes.
Cenário: uma edição de 2006 de Later... with Jools Holland (BBC). Para que a crónica seja completa, assinalem-se dois dos espectadores: Neil Hannon (Divine Comedy) e Wayne Coyne (The Flaming Lips).

O que é e como circula o dinheiro?

Operação Varsity Blues
— Matthew Modine no papel de Rick Singer

Operação Varsity Blues (Netflix) investiga um escândalo que abalou o sistema universitário dos EUA: um documentário que, insolitamente, também tem actores, com destaque para Matthew Modine — este texto foi publicado no Diário de Notícias (8 abril).

Para onde vai o cinema? Eis uma pergunta cinéfila que vamos relançando, quase sempre desembocando num impasse. Valerá a pena arriscar uma derivação: para onde vão os filmes? Alguns exemplos concretos, contraditórios e fascinantes, podem ajudar-nos a lidar com as incertezas que se deparam. Operação Varsity Blues, produzido e difundido pela Netflix, é um desses exemplos — um documentário, realizado por Chris Smith, sobre um escândalo que abalou o sistema universitário dos EUA.
Abalou? Em boa verdade, trata-se de um caso muito recente, revelado em 2019, com vários dos envolvidos ainda a ser julgados. Essa é, aliás, uma das componentes mais perturbantes do próprio filme: não uma memória mais ou menos “encerrada”, antes uma teia de factos e alegações que permanecem muito vivas no tecido social americano.
Daí o carácter híbrido do próprio objecto cinematográfico criado por Chris Smith. Por um lado, há nele a lógica de um programa televisivo (“60 Minutes”, por exemplo) que recolhe e organiza informações e testemunhos, visando o esclarecimento de uma teia de relações que pôs em causa os valores de todo um sistema de ensino; por outro lado, um pouco à maneira de certos documentários de canais temáticos (“History”, “National Geographic”, etc.), as informações disponíveis dão origem a algumas situações encenadas, com actores profissionais, “reconstituindo” acções muito específicas.

Uma narrativa híbrida

Poderia dar-se o caso de tudo isto gerar apenas um produto televisivo, eventualmente útil pela informação coligida, mas de mera rotina informativa. Ora, não sendo opostos, os resultados são bem diferentes, acabando por reflectir o carácter híbrido de alguns modelos narrativos da actualidade. Para nos ficarmos por um exemplo próximo, o fulgor de Operação Varsity Blues, em particular no cruzamento de matérias e informações de origens muito diversas, faz lembrar a notável agilidade de O Capital no Século XXI (2019), documentário de Justin Pemberton a partir da obra de Thomas Piketty, já editado em DVD (Alambique Filmes), entretanto disponibilizado também numa plataforma de streaming (Filmin).
É provável que o leitor tenha tido conhecimento deste escândalo através de notícias que destacavam, sobretudo, o envolvimento de figuras públicas como a actriz Felicity Huffman (popularizada pela série Donas de Casa Desesperadas) e Olivia Jade (vedeta “social” do YouTube, na altura com 19 anos). Em jogo estava um esquema montado para que, independentemente dos seus méritos, filhos de famílias ricas entrassem em determinadas universidades.
Rick Singer, efémero treinador de basquetebol num liceu da Califórnia, foi o cérebro de toda a “operação”. Explorando as “portas laterais” (a expressão é dele) do sistema de admissão às universidades, pôs a funcionar um esquema de surpreendente sucesso: através de doações das famílias às universidades (por vezes superiores a meio milhão de dólares), conseguia que os respectivos filhos fossem admitidos. Para lá da falsificação de testes de admissão, apresentava os candidatos como jovens dotados para determinados desportos (basquetebol, pólo aquático, remo, etc.), que, em alguns casos, nunca tinham sequer praticado.

A circulação do dinheiro

Balanço? Ao longo dos anos, várias centenas de famílias (como a de Huffman) participaram no esquema, facilitando a entrada de jovens (como Jade) em determinadas universidades. Cerca de três dezenas de pais foram julgados por terem pago mais de 25 milhões de dólares de subornos. Ainda em tribunal, Rick Singer enfrenta uma pena máxima de 65 anos.
Como alguns comentadores americanos têm sublinhado, a mediatização do processo corre o risco de favorecer uma visão que escamoteia as qualidades globais das universidades dos EUA. Até porque, convém lembrar, as doações às universidades são legais. O certo é que Operação Varsity Blues não apela a generalizações desse teor, sendo antes um retrato francamente invulgar de um fenómeno sempre difícil de explicar e explicitar. A saber: a circulação perversa do dinheiro.
A decisão de encenar algumas situações, com destaque para as conversas telefónicas de Rick Singer com os pais dos candidatos, terá resultado do facto de tais conversas terem funcionado como fulcral matéria de prova. Foram registadas pelo FBI, surgindo agora interpretadas por actores, com inevitável destaque para Matthew Modine no papel de Singer. Estamos perante uma desconcertante proeza: uma notável interpretação no interior de um filme que, em última instância, é um projecto de natureza documental.
Pormenor de saborosa ironia: o título do filme reproduz a designação oficial da operação de investigação levado a cabo pelas autoridades. Trata-se da recuperação de um outro título, Varsity Blues, comédia dramática de 1999 centrada na ascensão de uma equipa de futebol (americano), com o papel central entregue a James Van Der Beek, efémera estrela juvenil. É caso para dizer que, dentro do FBI, há quem conheça bem a história de Hollywood.

Tempo do coração, tempo de cinema

Laurence Rupp e Anja Plaschg
Die Geträumten

As cartas trocadas por Ingeborg Bachmann e Paul Celan estão “reinventadas” num espantoso filme: trata-se de avaliar como as palavras dos outros contaminam aquilo que somos — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 abril).

O livro Tempo do Coração, dedicado à correspondência entre Ingeborg Bachmann e Paul Celan, traduzido por Claudia J. Fischer e Vera San Payo de Lemos, desafia qualquer descrição (ed. Antígona). Nele se recolhem as cartas trocadas por Bachmann (1926-1973) e Celan (1920-1970), a primeira datada de 1948, a última de 1967, naquilo que talvez possamos chamar uma história de amor suspensa — ou o “suspense” de uma história de amor.
Por razões históricas, indissociavelmente familiares, Bachmann e Celan são poetas assombrados pelas memórias do Holocausto. Há na sua correspondência uma perturbante ambiguidade: a sequência das cartas gera uma continuidade, de alguma maneira uma “narrativa”, em que vamos descobrindo os sobressaltos de uma relação tão convulsiva quanto enigmática; quanto mais lemos, os muitos hiatos temporais adquirem um peso tão grande ou maior do que as palavras que realmente foram escritas. Como se se tratasse de um estudo sobre o poder do silêncio.
A 20 de agosto de 1949, Celan escrevia: “Talvez me engane, talvez estejamos a divergir precisamente no ponto em que mais desejamos encontrar-nos, talvez a culpa seja de ambos. Mas às vezes digo para mim próprio que o meu silêncio talvez seja mais compreensível do que o teu, porque é mais antiga a escuridão que me impõe.” No final, despede-se assim: “A que distância estás, Ingeborg? Diz-me para que eu saiba se vais fechar os olhos quando eu agora te beijar.” Bachmann responde-lhe a 24 de novembro (“a carta que te escrevi em agosto ainda ali está”) e quer saber se “ainda me estendes a mão e me remetes ao escuro do sonho pesado, dentro do qual quero tornar-me claridade.”
Enganamo-nos se arrumarmos este Tempo do Coração na prateleira das “paixões fatais” — isto não é literatura cor de rosa. Assim, é verdade que a escrita de Bachmann e Celan pertence a uma época ligada, por um fio trágico, aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Mas não é menos verdade que as camadas do tempo conferiram às suas cartas um valor simbólico de resistência às ilusões “comunicacionais” do nosso mundo virtual — não poucas vezes, vivemos agora num aquário de “mensagens” palavrosas e fúteis, sem sequer termos consciência do menosprezo pela escrita que, escrevendo, apenas reforçamos.
Prova fascinante do poder encantatório das palavras escritas por Bachmann e Celan é o filme Die Geträumten (“Os Sonhados”), da cineasta austríaca Ruth Beckermann, produção de 2016 que, nesse ano, integrou a programação do Doclisboa. Não creio que haja muitos objectos de cinema capazes de revisitar, assim, um universo tão íntimo e delicado sem ceder aos lugares-comuns “ilustrativos” que predominam nas abordagens correntes de “artes & artistas”.
Descobrimos, assim, dois actores — Laurence Rupp e Anja Plaschg — que lêem a correspondência de Celan e Bachmann. Não para “reconstituir” o que quer que seja, muito menos para aprisionar o fulgor nas palavras numa “significação” unilateral e definitiva. Nada disso. Vêmo-los, precisamente, como actores, num estúdio, gravando os textos das cartas. Nos dias que correm, a pressão mediática leva a que perguntemos: qual é, então, o “tema” do filme? A resposta adequada é, a meu ver, a que nasce do reconhecimento mais básico: este é um filme sobre o trabalho, ou melhor, “um” trabalho de encenação a partir de palavras que outros escreveram.
Há uma beleza, de uma só vez contida e convulsiva, no facto de a alternância das cenas (entre os momentos de gravação e as pausas para descanso) ir instalando uma dúvida metódica, propriamente poética. A saber: até que ponto as palavras dos outros vão pontuando aquilo que somos? Ou ainda: quando viajamos através dessas palavras, que parte de nós se transforma através da leitura que fazemos?
Vimos Laurence Rupp num papel secundário de Missão Impossível: Nação Secreta (2015); Anja Plaschg desenvolve, enquanto compositora, instrumentista e cantora, um magnífico projecto de música electrónica designado Soap&Skin. Pela candura e vulnerabilidade da sua presença no filme de Ruth Beckermann perpassa uma verdade primitiva do cinema: a capacidade de, no simples labor da voz, contemplar o corpo como um misto de transparência e mistério.

sexta-feira, maio 14, 2021

Maria João Abreu (1964 - 2021)

[ DN ]
Actriz de multifacetado talento, combinando método e instinto, Maria João Abreu faleceu no dia 13 de maio, no Hospital Garcia de Orta, em Almada, na sequência de complicações relacionadas com um aneurisma cerebral — contava 57 anos.
Estreou-se no teatro em 1983, aí encontrando as bases de uma versatilidade dramática e um respeito pelo texto que se reflectiria em toda a sua carreira. Mais do que isso: a sua vocação para o teatro de revista fez dela um dos derradeiros símbolos de uma tradição que, infelizmente, tem vindo a esvaziar-se, sendo os seus terrenos ocupados (e decompostos) pelo sistema normativo da telenovela.
Manteve uma actividade constante, entre o palco e o pequeno ecrã, marcando também presença no cinema, nomeadamente em títulos como António Um Rapaz de Lisboa (1999), de Jorge Silva Melo, A Falha (2001), de João Mário Grilo, Call Girl (2007),de António-Pedro Vasconcelos, Cartas da Guerra (2016), de Ivo Ferreira, ou A Mãe É que Sabe (2016), de Nuno Rocha. Entre os seus derradeiros trabalhos teatrais, incluem-se Boas Pessoas (Teatro Aberto, 2015), As Árvores Morrem de Pé (Politeama, 2016) e Fenda (Companhia de Teatro de Almada, 2019).
 
>>> Quadro de Tem a Palavra a Revista [Teatro Maria Vitória, 2000] + trailer de A Mãe é que Sabe.
 


>>> Obituário no Expresso.
>>> "Uma viagem pelos quase 40 anos de carreira da atriz Maria João Abreu" [SIC].
>>> Maria João Abreu, Instagram.

quinta-feira, maio 13, 2021

Futebol
— uma cultura da irresponsabilidade

[FOTO: Álvaro Isidoro / DN]

A. Face às imagens chocantes das celebrações futebolísticas (imagens que, na verdade, se repetem, apenas variando as preferências clubistas dos protagonistas), o sistema político-mediático tenta pensar a situação através de uma noção pueril de ordem, com "polícias", "autarcas" e "ministros" a servirem de bodes expiatórios.

B. Seria útil — mais do que isso: seria socialmente saudável — encarar de frente a conjuntura e a sua dimensão trágica. A saber: a existência, e também o imenso poder normativo, de uma cultura da gratificação imediata, da celebração histérica e da irresponsabilidade individual e colectiva.

C. Quem pode colocar na actualidade a urgência de alguma reflexão sobre tal conjuntura? A resposta é de uma candura linear: jornalistas e políticos.

quarta-feira, maio 12, 2021

"Springsteen on Broadway"
— confissões num palco

O registo do espectáculo Springsteen on Broadway não é uma mera colecção de canções: “The Boss” oferece-nos uma verdadeira performance, exemplar da arte de estar em palco — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 de abril).

Face a um filme como Springsteen on Broadway (Netflix), a primeira e deliciosa dificuldade que encontramos é a sua simples descrição. Que objecto é este, afinal?
A localização do evento, “on Broadway”, não deve ser confundida com a mitologia dos palcos recheados de adereços feéricos e esplendorosas imitações dos musicais de Hollywood (aliás, em boa verdade, foi o contrário que aconteceu: o cinema americano das décadas de 40/50 colheu o essencial da sua inspiração nos palcos dessa zona de Nova Iorque que é o centro da indústria teatral “made in USA”). O que, em qualquer caso, não exclui um dado essencial: dirigido por Thom Zimny, este é o registo de um espectáculo que Bruce Springsteen manteve no Teatro Walter Kerr, entre outubro de 2017 e dezembro de 2018, num total de 236 performances.
O que, realmente, surpreende é a extrema solidão do protagonista: são duas horas e meia (fascinantes!) de Springsteen em palco, uma guitarra, um piano, e apenas durante alguns minutos a companhia de sua mulher, Patti Scialfa. Estamos perante um exercício confessional, em muitos aspectos concebido como uma derivação teatral da autobiografia Born to Run (edição portuguesa: Elsinore, 2016).
Os títulos de algumas das canções podem ajudar. Assim, usando apenas traduções literais, lembremos que Springsteen canta coisas como “Crescer”, “A Minha Cidade Natal”, “A Terra Prometida”, “Nascido nos EUA”, “Terra de Esperança e Sonhos”, etc. Dito de outro modo: dos tempos heróicos do álbum de estreia, Greetings from Asbury Park, N. J. (1973), até registos mais recentes como The Rising (2002) ou Western Stars (2019), a obra musical daquele que conquistou o cognome de “The Boss” cruza-se, confunde-se e, de alguma maneira, reinventa-se através das suas vivências mais pessoais, por vezes mais secretas.
O que, entenda-se, não se esgota na imagem redentora do “trovador” que vem cantar alegrias e traumas do seu país. Claro que há uma dimensão de testemunho muito pessoal que sempre existiu no compositor e cantor de Born in the USA, verdadeiro hino identitário que é (também) uma desencantada evocação da guerra do Vietname. Ao mesmo tempo, Springsteen não se acomoda no estatuto de “herói” que nunca foi. Diz mesmo, num misto de objectividade e ironia: “Nunca pus os pés numa fábrica, mas só escrevo sobre isso”.
Daí a singularidade dramática deste concerto valorizado pela sóbria filmagem de Zimny. Ele é, há muitos anos, um colaborador essencial no registo de concertos e telediscos de Springsteen: os dois repartiram a assinatura da realização de Western Stars (2019), dedicado às canções do álbum homónimo (disponível nos canais TVCine). Sem ceder à tentação de se limitar a interpretar um “best of” dos seus álbuns, Springsteen afirma-se como um verdadeiro homem de palco, exemplar na arte de dizer palavras muito pensadas, afinal partilhando connosco um genuíno gosto teatral. O que ilustra uma verdade antiga: somos sempre actores da nossa própria história.

terça-feira, maio 11, 2021

Frank Zappa
* "Shut Up 'n Play Yer Guitar", 40 anos


O título Shut Up 'n Play Yer Guitar corresponde a um álbum tripartido:
— Shut Up 'n Play Yer Guitar;
— Shut Up 'n Play Yer Guitar Some More;
— Return of the Son of Shut Up 'n Play Yer Guitar.
Ou ainda: uma colecção de solos de Frank Zappa, quase todos registados ao vivo entre 1979 e 1980. O resultado é um verdadeiro épico da história da guitarra, muito para lá de qualquer noção pitoresca de versatilidade — Zappa transcende todas as fronteiras, sem nunca desistir de ir à raiz das coisas, à sua verdade intransigentemente poética.
Shut Up 'n Play Yer Guitar foi editado a 11 de maio de 1981 — faz hoje 40 anos.

>>> Why Johnny Can't Read [montagem: Mike Crisp] + Canard du Jour, com o violinista Jean-Luc Ponty.
 


domingo, maio 09, 2021

“Toca Misty para mim”
— memória de Jessica Walter

Clint Eastwood e Jessica Walter
— Play Misty for Me, 1971

A morte da actriz Jessica Walter, aos 80 anos de idade, faz-nos revisitar a sua composição em “Destinos nas Trevas”, um “thriller” sobre um caso de assédio sexual — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 março).

Jessica Walter, actriz de delicada e complexa presença dramática, faleceu no dia 24 de março, durante o sono, na sua casa de Manhattan — contava 80 anos. Os obituários escritos nos EUA identificam-na, antes de tudo o mais, como intérprete da personagem de Lucille Bluth, a mãe alcoólica da série de comédia Arrested Development/De Mal a Pior (2003-2019).
É um facto que a esmagadora maioria das suas composições pertence a produções televisivas, incluindo a voz de Malory Archer em mais de uma centena de episódios de Archer, série de animação paródica sobre o mundo dos espiões (iniciada em 2009). Seja como for, na primeira fase da carreira, surgiu em dois títulos emblemáticos da história de Hollywood, reflectindo as convulsões temáticas e narrativas dos anos 60/70, antes do triunfo da geração de Steven Spielberg e George Lucas — são eles Lilith e o seu Destino (1964), de Robert Rossen, e Destinos nas Trevas (1971), de Clint Eastwood.
Lilith e o seu Destino
(no original apenas Lilith) justifica a aplicação literal da expressão “amor louco” — nele se faz o retrato íntimo de uma pulsão amorosa assombrada pela loucura. Com Warren Beatty e Jean Seberg, é uma obra-prima à espera de ser resgatada de um generalizado esquecimento. Aliás, Rossen continua a ser um dos mais ignorados mestres da fase final do classicismo — é dele, por exemplo, The Hustler/A Vida É um Jogo (1961), saga cruel de um jogador de bilhar interpretado por Paul Newman, tendo como base o romance de Walter Tevis (o autor de Gambito de Dama).
Algo em parte semelhante se poderá dizer sobre Destinos nas Trevas, quanto mais não seja porque um persistente lugar-comum tende a situar a trajectória de Clint Eastwood como realizador apenas a partir de Imperdoável (1992), o filme que lhe valeu o primeiro triunfo nos Óscares. Na verdade, Imperdóavel foi a 16ª longa-metragem que dirigiu, tendo começado, precisamente, com Destinos nas Trevas, faz agora 50 anos. Há no filme uma ambígua actualidade temática: este é, afinal, um “thriller” centrado num caso de assédio sexual, ilusoriamente romântico na origem, a pouco e pouco marcado por uma perturbante violência.
Ele é Dave (Eastwood), apresentador de um programa noturno de rádio, atendendo pedidos telefónicos dos ouvintes; ela é Evelyn (Walter), fã do programa que frequentemente lhe pede para passar um standard do jazz, “Misty”, de Erroll Garner — tal predilecção está expressa no título original do filme, Play Misty for Me (à letra: “Toca Misty para Mim”). O envolvimento de Dave e Evelyn parece ser um namoro passageiro, mas transfigura-se por completo quando ele, face ao comportamento possessivo dela, a tenta afastar da sua vida… Em termos simples: esta é a história de um homem assediado por uma mulher.


Meio século depois, o discreto brilhantismo de Play Misty for Me correria (ou corre) o risco de ser encarado como um insulto contra “todas” as mulheres e, mais do que isso, um tratamento demagógico do “feminino”. Na leitura de muitos filmes, sobretudo nos EUA, esse tem sido mesmo um efeito colateral das componentes mais esquemáticas do movimento #MeToo.
O debate está viciado. Cinematograficamente, entenda-se. Não creio que seja preciso sublinhar a importância (social e política) das campanhas e medidas legislativas no sentido de denunciar, combater e punir todas as formas de violência masculina contra as mulheres. O que está em causa é o facto de, em paralelo, estarmos a assistir a um fundamentalismo “artístico” que reduz qualquer personagem, masculina ou feminina, de uma narrativa com claras componentes sexuais a símbolo obrigatório de “todos” os homens ou “todas” as mulheres… Pode estar em jogo Shakespeare ou Clint Eastwood, mas o efeito é o mesmo: estupidez cultural.
Jessica Walter é admirável na composição da sua Evelyn, como admirável é o trabalho de Clint Eastwood, desenvolvendo o filme como uma desmontagem das mais banais ilusões românticas. Em boa verdade, o que ele encena é algo de profundamente incómodo. A saber: o mútuo desconhecimento entre “masculino” e “feminino”: Evelyn quer mesmo matar Dave, mas é apenas uma mulher — “uma”, não todas. E Play Misty for Me, apenas um filme — “um” entre muitos.

>>> Misty, por Erroll Garner.