sábado, março 26, 2011

Tim Walker: fotografia & pintura

A Baroness James de Rothschild pintada por Ingres em 1848,
fotografada por Tim Walker em 2011
São muitas as relações da fotografia de moda com o universo da pintura. No limite, os quadros podem ser materializados como elementos da cenografia fotográfica. É essa a proposta de Tim Walker, disponível nas páginas da revista W. Ou como a história das imagens se confunde com a história dos olhares que as reencontram, delas se apropriando para novas aventuras visuais.

Sigue Sigue Sputnik, 1986


Foi há precisamente 25 anos. Em Março de 1986 os Sigue Sigue Sputnik, um dos casos nascidos de um dos maiores hypes mediáticos nos oitentas, chegava finalmente aos discos, através do single Love Missile F1-11. Nascidos de uma primeira ideia do ex-Generation X Tony James, os Sigue Sigue Sputnik chamaram atenções ainda antes de conhecidas as canções, a sua imagem extravagante e as frases bombásticas dos seus slogans (um deles anunciando a 5ª geração do rock’n’roll) cativaram olhares. E quando em Março de 1986 entra em cena o single de estreia, produzido por Giorgio Moroder, o fenómeno ganha expressão nas vendas (na verdade não se repetindo nunca mais). Aqui fica hoje a memória do teledisco de Love Missile F1-11, o single de estreia dos Sigue Sigue Sputnik.



Sigue Sigue Sputnik
‘Love Missile F1-11’, 1986

Para (re)descobrir Lyapunov


Mais uma gravação Orquestra Filarmónica Russa dedicada a obras de Sergey Lyapunov, sob direcção de Dmitry Yablonsky. Num mesmo disco o seu Concerto para Violino op. 61 e a Sinfonia nº 1, Op 12.

Lyapunov (1859-1924) foi um dos nomes de uma segunda geração de compositores nacionalistas russos. Filho de um astrónomo e matemático, começou por aprender música com a mãe, a sua educação levando-o mais tarde ao conservatório de Moscovo onde teve, entre os professores, Taveyev e Tchaikovsky. Trabalhou na capela Imperial, deu aulas de música, mas depois da revolução de 1917 deixaria o país, mudando-se para Paris. Muito ligado a Balakirev (o “líder” do movimento nacionalista russo), Lyapunov não conseguiu afastar a sua música da frequente supervisão deste, após a sua morte tendo, como recorda o texto que acompanha o disco, “gozado de um pouco de liberdade”. Por este disco encontramos duas obras que datam de períodos distintos na vida do compositor. De 1887, a primeira das suas duas sinfonias segue pelos caminhos do romantismo tardio russo. Datado de 1915, mas revisto em 1921, o Concerto para Violino reflecte já um trilho que não corresponde ao que Balakiev teria visto como ideal. Para a gravação deste último, que abre o alinhamento do disco, colaborou com a orquestra o violinista Maxim Fedotov.

Ao vivo...

Discografia Kraftwerk - 42
'Minimum / Maximum'(álbum ao vivo), 2005




Em 2005, na sequência da extensa digressão mundial do ano anterior, os Kraftwerk editararam o álbum ao vivo Minimum / Maximum. O disco, que junta excertos da gravação de concertos em várias cidades, apresenta o tema novo Planet Of Visions, uma versão de uma remistura de Expo 2000. O disco foi lançado em formato de CD duplo (e vinil quádruplo), estando as mesmas gravações igualmente editadas em DVD. Segundo regras da etapa histórica da vida do grupo, o disco surgiu em versões diferentes entre o mercado alemão e o circuito internacional, algumas das canções surgindo na língua-mãe do grupo na sua edição local.

sexta-feira, março 25, 2011

7 ideias para a classe política (3)

PIERRE BONNARD
A Sobremesa, 1940
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3. Reconhecer que a arte existe.
Quase todos os políticos são muito rápidos a dar os parabéns a Manoel de Oliveira quando ganha um prémio no estrangeiro. Em boa verdade, nenhum se pronunciou quando era "moda" insultá-lo e difamar a sua obra (e tiveram algumas décadas para o fazer...). Acontece que a maior parte dos políticos vê a arte como um instrumento do seu mundo, não como um gesto que pode discutir a coerência de qualquer mundo. Não se espera que nenhum político venha apresentar uma tese sobre A Rede Social, de David Fincher (mesmo se passou a ser chique citar o Facebook...). Em todo o caso, num país em que (também há várias décadas) a cultura dominante se encena no formato da telenovela, não lhes ficaria mal um esforço no sentido de fazer passar algum discurso construtivo sobre as singularidades e os prazeres da arte. Ser bom português é um pouco mais do que gravar um soundbyte a apoiar a selecção nacional de futebol.

Helena de Tróia, aliás, Elizabeth Taylor

1956
"Se alguma vez existiu uma verdadeira Helena de Tróia — uma mulher cuja beleza podia fazer mover as fronteiras políticas ou lançar os tais milhares de navios —, foi Elizabeth Taylor". É com estas palavras que Sarah Ball apresenta uma memória de alguns dos mais emblemáticos retratos da actriz, falecida no dia 23. Está tudo nas páginas da Vanity Fair.

1967

Agora só as vozes...


E eis que surge mais um teledisco criado para as canções de Let England Shake, o mais recente álbum de PJ Harvey. Uma vez mais com realização de Seamus Murphy, este é The Colour Of The Earth. O teledisco surge contudo com banda sonora diferente da versão do álbum, os músicos surgindo aqui numa leitura a capella da canção.

Podem ver o teledisco aqui.

'Toy' de David Bowie surge na Internet

Chegou à Internet um dos mais falados “álbuns perdidos”. Em concreto Toy, o disco que David Bowie criou depois de hours... e que viva essencialmente da revisitação de canções suas originalmente criadas em finais da década de 60. Recusado pela editora, o disco acabaria por ser arquivado, apenas um pequeno número de faixas surgindo depois entre o alinhamento do álbum Hethen (2001) e lados B de singles dessa etapa da sua carreira. O disco surgiu na Internet esta semana, não se sabendo se agora poderá ou não vir a ter uma eventual edição.

Reedições
Marc Almond,
Mother Fist and her Five Young Daughters


Marc Almond
“Mother Fist and Her Five Young Daughers”

Genepol Records

4 / 5


Sucessor natural de Stories of Johnny (1985) e do EP de versões A Woman’s Story (editado em 1986), o terceiro álbum a solo de Marc Almond representa o momento em que o músico atinge finalmente a conquista definitiva de uma linguagem muito pessoal. Editado em 1987, Mother Fist and Her Five Young Daughters deixa cada vez mais distantes os ecos dos dias festivos vividos nos Soft Cell em inícios dos oitentas, as frestas de luminosidade morando mesmo assim em raras canções pop como Melancholy Rose ou Ruby Red curiosamente, dois dos singles extraídos do alinhamento do disco. O tutano do álbum segue contudo por outras vielas, essencialmente buscando referências entre o cabaret, as tradições do teatro musical, a torch song... Histórias do lado errado da noite, das vivências de personagens que a luz do dia raras vezes ilumina, habitam entre canções como Mr Sad, There Is a Bed ou The Sea Says, por onde o lirismo teatral de Marc Almond aprofunda demandas encetadas timidamente nos Soft Cell, aprofundadas em experiências com o colectivo Marc and The Mambas e depois mais trabalhadas, a solo, com os Willing Sinners. O som do disco deve, de resto, muito à vastidão de horizontes possível dado o leque de parceiros que faziam essa banda que então acompanhava Marc Almond, a presença-chave de Annie Hogan e os arranjos de Billy McGee garantindo a Mother Fist as cores que fazem desta uma das melhores colecções de canções da sua discografia.

Olhares sussurrados


Não são precisas muitas palavras para contar uma história. De resto, Yusuf é de poucas palavras. Com seis anos de idade, o pequeno protagonista de Mel, filme do turco Semih Kaplanoglu (que venceu o Urso de Ouro em Berlim e acaba de estrear entre nós), raramente fala, o pai sendo o único que vai para lá do seu pequeno universo de silêncios, o filho sussurrando-lhe aos ouvidos os sonhos que teve, as perguntas que coloca, as observações que faz... Como Yusuf, o filme de Semih Kaplanoglu não levanta a voz, sussurrando-nos antes, essencialmente pelo olhar (sob espantosos enquadramentos e magnífica direcção de fotografia), momentos do dia a dia do mundo ao redor do seu espaço familiar. E, tomando Yusuf como referência, o filme olha o mundo dos grandes de baixo, com curiosidade, observando, raramente agindo.

Mel é a terceira parte de uma trilogia que conta uma história de vida. Precisamente a de Yusuf. Mas, ao contrário do que um Truffaut propôs nos filmes em que seguiu a vida de Antoine Doinel, ou Satyajit Ray no tríptico que criou em torno de Apu, entre Egg (2007), Milk (2008) e, agora, Mel, seguimos os caminhos do protagonista rumando cada vez mais atrás no tempo. Recuamos aqui aos dias da escola, quando o pequeno se vê confrontado com uma gaguez incontrolável sempre que chega a sua vez de ler nas aulas, em casa, junto ao pai, a voz seguindo com outra confiança as mesmas palavras...

Mel é mais um filme de sensações que de grandes arcos narrativos. De pensamentos não necessariamente verbalizados. De afectos... Há um contexto. O da vida familiar de um apicultor, dias passados entre a floresta, subindo a altas árvores e o espaço tranquilo de uma casa que vemos, sempre, pelo olhar do filho. Há um texto, que acompanha, sem a necessidade de um “era uma vez”, um tempo em a ausência do pai ensurdece mais ainda o mundo calado do pequeno Yusuf. E há, no fim, uma das melhores experiências de cinema que temos visto chegar aos ecrãs nos últimos anos.



Imagens do trailer de Mel.