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sábado, agosto 15, 2026
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domingo, janeiro 11, 2026
Slavoj Zizek
e os pássaros que não sobreviveram
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| Michael Caine, O Terceiro Passo (2006) — citado por Zizek |
Para falar de ciência, política e progresso, o filósofo esloveno Slavoj Zizek gosta de citar cenas de filmes. Assim volta a acontecer num novo livro de ensaios com um título que se quer dialético: Contra o Progresso — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 dezembro).
Provavelmente, Slavoj Zizek está tão confuso como cada um de nós, cidadãos comuns, vogando nestes dias turbulentos. Talvez que a sua auto-designação de “comunista conservador” seja apenas uma piada de “stand-up” para confundir ainda mais as nossas frágeis certezas. Ou então uma brincadeira secreta para reforçar o gosto narcisista que o filósofo esloveno cultiva com uma gargalhada silenciosa. Enfim, entre portas e travessas, como diria o povo, tudo isso ecoa numa nova antologia de ensaios, Contra o Progresso (ed. Objetiva/Penguin, tradução de Gonçalo Neves), livro tão transparente quanto intrigante, numa palavra, fascinante.
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| [ Penguin ] |
Zizek é um bom cinéfilo. Gosta de percorrer os filmes como objectos que, ao contrário das ilusões fabricadas pela estupidez televisiva, não reproduzem o mundo, antes nos alertam para a dificuldade de o compreender — recorde-se, a propósito, a coleção de análises e especulações que propõe no filme O Guia de Cinema do Depravado (2006), realizado por Sophie Fiennes. Não admira, por isso, que o primeiro ensaio (“O progresso e as suas vicissitudes”) abra com uma citação de um filme — nada mais nada menos que The Prestige/O Terceiro Passo (2006), de Christopher Nolan, recordando o truque de magia que Michael Caine ensina a Hugh Jackman.
Que acontece, então? Num espectáculo de ilusionismo, vemos “um passarinho que desaparece numa gaiola”. Não desaparece apenas: o mágico “achata” a gaiola sobre a mesa, suscitando o choro de um gaiato, “perturbado por o pássaro ter sido morto”. Mas o número não terminou, já que, “delicadamente”, o mágico faz aparecer “um pássaro vivo na mão”. O certo é que “o rapaz não fica convencido, insistindo que deve ser outro pássaro”. A primeira conclusão é cruel: “Terminado o espectáculo, vemos o mágico sozinho a deitar um pássaro esmagado no lixo, onde se encontram outras aves mortas.” A segunda conclusão, diz Zizek, envolve “a premissa básica de uma noção dialética de progresso.” Como? “Quando surge um novo grau superior, tem de haver um pássaro esmagado algures.”
Correndo o risco de um resumo algo precipitado, convém dizer que, algumas páginas mais à frente, o autor confronta-nos com a tragédia a que vamos assistindo cada vez com menos ironia. A saber: “O pássaro morto esmagado é a própria política.” De acordo com a sua relação com o mundo das aves, o leitor dirá se, ao enunciar tão drástico axioma, Zizek está a ser perversamente “comunista” ou delirantemente “conservador”...
Resumindo ainda mais, poderemos acrescentar que estar “contra o progresso” não é uma palavra de ordem unívoca ou abstracta. Trata-se de contrariar “o pior que pode acontecer”. Que é como quem diz: evitar que “opositores da autêntica melhoria definam o que se considera progresso.” Zizek refere, a propósito, o pensamento do filósofo japonês Kohei Saito e a “sua contribuição inovadora para o ecomarxismo”. Através deste programa: “A única maneira de, actualmente, se alcançar o verdadeiro progresso é problematizar a própria noção de progresso que domina não apenas a nossa ideologia, mas a nossa vida real.”
Ciência & política
Pelo caminho, Zizek vai expondo os equívocos de alguns clichés políticos. Em rigor, não para propor o maniqueísmo dos seus contrários (o que apenas serviria para gerar mais clichés), antes alertando-nos para o que poderemos, justamente, chamar dialética. As alterações climatéricas, por exemplo: “Mesmo que culpemos a civilização científico-tecnológica pelo aquecimento global, precisamos da mesma ciência não só para definir a extensão da ameaça, como, antes do mais, para percebê-la.”
Citando outro filme que, aliás, lhe suscita diversas resistências — Guerra Civil (2024), de Alex Garland —, Zizek é levado a considerar “a perspectiva de uma guerra civil que assombra a vida pública norte-americana na última década.” Não apenas pelos sinais mais óbvios da cena política, antes em nome do angustiado reconhecimento da decomposição dos laços comunitários. Em causa está, afinal, a “crescente desintegração de uma substância social partilhada.”
Que substância é essa? A que nos devolve sempre à complexidade partilhada da “vida material” (para aplicarmos uma expressão cara a Marguerite Duras). Aliás, ao convocar a frondosa herança de Freud e Lacan, Zizek recorda-nos que as lições dos Mestres, mesmo quando erram, enriquecem os discípulos. Assim saibamos cuidar dos nossos pássaros.
domingo, janeiro 03, 2021
Alguns sobressaltos políticos
— memória de "Safe", de Todd Haynes
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| Julianne Moore, Safe (1995) |
Na longa metragem Safe/Seguro, de Todd Haynes, Julianne Moore interpreta uma dona de casa dos subúrbios de Los Angeles especialmente sensível a todos os produtos químicos; de grande actualidade simbólica, o filme tem data de 1995 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 dezembro).
Não será necessário possuir um conhecimento especializado, ainda menos enciclopédico, da história do cinema para reconhecer que, em todas as épocas, encontramos filmes que nos confrontam, por vezes de forma premonitória, com as mais diversas convulsões sociais, ideológicas e morais. Esta semana, por exemplo, chegaram às salas portuguesas dois títulos exemplares dessa dimensão visceralmente política, em tudo e por tudo alheia ao cliché do “filme político” (segundo o qual o cinema só faz política quando filma algum “militante” de uma “causa” a proferir um exaltado discurso de “propaganda”…).
American Utopia, objecto político, por excelência, é mesmo um filme musical. Entenda-se: uma celebração da música e dos seus poderes de encantamento e pensamento (uma coisa pressupõe e envolve a outra). Trata-se do sofisticado registo de um concerto de David Byrne, tendo por base as canções do seu álbum homónimo, maravilhosa reflexão sobre o ser (ou não ser) americano. A realização é de Spike Lee, cineasta em nada estranho aos poderes narrativos da música, com colaborações regulares com o compositor Terence Blanchard e até com um belo filme, Mo’ Better Blues (1990), sobre um trompetista de jazz, interpretado por Denzel Washington.
O caso de O Mal Não Existe é bem diferente, quanto mais não seja porque se apresenta enquadrado por factos políticos muito concretos: o seu autor, o iraniano Mohammad Rasoulof, foi condenado por “propaganda contra o sistema” e proibido de filmar pelas autoridades do seu país. O certo é que tem conseguido continuar a trabalhar, sendo O Mal Não Existe um admirável libelo contra a pena de morte no Irão — foi também o grande vencedor (Urso de Ouro) do Festival de Berlim realizado em fevereiro.
O menosprezo corrente, mediaticamente muito poderoso, pela vocação social do cinema sugere que “tais” filmes não passam de divagações inconsequentes de, e para, “intelectuais”. Tal sugestão é apenas um pormenor no interior de um aparato de comunicação que tende a reduzir o cinema a um “entretenimento” pueril, alheio a qualquer forma de entendimento do mundo — como se os filmes dos estúdios Marvel (incluindo os mais brilhantes) fossem placebos ideológicos…
No recentíssimo A Pandemia que Abalou o Mundo (ed. Relógio D’Água, 2020), livro com tanto de discutível como de fascinante, Slavoj Zizek chama a atenção para o carácter orgânico das vidas humanas — dos vírus à forma de organização da economia —, sublinhando o valor primordial da solidariedade: “Um lugar-comum agora em circulação é que, uma vez que estamos todos nesta crise, devemos esquecer a política e limitar-nos a trabalhar em uníssono para nos salvarmos. Esta ideia é falsa: é agora que precisamos de verdadeira política — as decisões sobre solidariedade são eminentemente políticas.”
Quem sou face ao outro? Como é que os gestos pessoais determinam o funcionamento do colectivo? Se recuarmos um quarto de século, podemos encontrar estas perguntas no filme Safe (1995), de Todd Haynes, subtil retrato do medo face às possibilidades de contaminação do corpo (entre nós lançado como Seguro).
A sua actualidade é perturbante. A segurança a que o título alude decorre da crescente vulnerabilidade de Carol White (notável Julianne Moore), dona de casa dos subúrbios de Los Angeles, sempre ameaçada pelos mais diversos produtos químicos. De tal modo que um qualquer sobressalto — por exemplo, nessa cena incrível, num cabeleireiro, em que Carol começa a deitar sangue pelo nariz — adquire a energia de um pesadelo vivido em tom realista.
A entrada de Carol numa espécie de retiro para pessoas com o mesmo tipo de sintomas ou alergias surge, assim, marcada por uma inquietante ambivalência: por um lado, a clausura parece garantir a adequada distância (segura, precisamente) em relação aos perigos da vida em sociedade; por outro lado, a lógica de “purificação” da sua nova existência, para mais num ambiente que tem qualquer coisa de seita religiosa, põe em causa a própria viabilidade do conceito de sociedade. Enfim, vale a pena não esquecer que o cinema é uma nobre arte humana, não uma colecção descartável de monstros ruidosos fabricados por meios digitais.
domingo, abril 07, 2019
Populismo vs. politicamente correcto [citação]
>>> O populismo e o politicamente correcto são (...) duas formas complementares de mentira que correspondem à clássica distinção entre histeria e neurose obsessiva: um histérico diz a verdade disfarçada de mentira (o que é dito não é literalmente verdade, mas a mentira exprime através de uma forma falsa uma queixa autêntica), enquanto que aquilo que o neurótico obsessivo proclama é literalmente verdade, mas é uma verdade que serve uma mentira.
(Penguin, 2018)
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Trump
segunda-feira, janeiro 23, 2017
Trump vs. democracia [citação]
>>> Em primeiro lugar, e para evitar qualquer mal entendido, sinto-me horrorizado por Trump — é uma catástrofe. Mas o que não devemos esquecer é que ele é o resultado de um determinado processo. E para resumir uma longa história, esse processo é a desintegração e o falhanço do establishment da esquerda democrática. Por isso, se lutarmos agora contra Trump, estaremos a lidar com aquilo que em medicina se chama sensação sintomática — toma-se um comprimido para combater a dor. Mas para curar a doença é preciso que algo aconteça nos partidos democráticos.
SLAVOJ ZIZEK
BBC
17 Janeiro 2017
domingo, junho 07, 2015
Reabilitar o Estado [citação]
>>> Gosto da fórmula de [Alain] Badiou que diz que devemos começar com a censura dos nossos sonhos. Quando abandonamos o nosso mundo para imaginar outro ficamos prisioneiros. Isto pode pôr um homem de esquerda aos gritos, mas acho que devemos ir até ao fim: reabilitar o Estado! Creio que, para enfrentar os nossos problemas, teremos cada vez mais necessidade de uma grande formação social. Diz-se que o Estado perde poder, mas não é verdade. O capitalismo de hoje depende cada vez mais dos regulamentos do Estado. Quando Hegel diz que o Estado é a existência visível de Deus, é capaz de ser verdade! O problema da esquerda é que sonha à distância em vez de se reapropriar do Estado.
SLAVOJ ZIZEK
Entrevista a Robert Maggiori e Anastasia Vécrin
Libération, 5 Junho 2015
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segunda-feira, dezembro 01, 2014
Zizek, perversidade e cinema
A colaboração entre a cineasta Sophie Fiennes e Slavoj Zizek gerou, agora, uma reflexão sobre o funcionamento da(s) ideologia(s) — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Novembro), com o título 'As aventuras do perverso Zizek no país do cinema'.
De acordo com os padrões correntes de comunicação em frente a uma câmara, o filósofo esloveno Slavoj Zizek é, por certo, a antítese da sedução. Desde logo, porque o seu inglês, embora correcto é ágil, se apresenta marcado por um sotaque ansioso e agreste; depois, porque a assumida ligeireza da sua imagem convoca tanto o estereótipo do psicanalista delirante como a caricatura do professor distraído... E, no entanto, vê-lo (e ouvi-lo!) a falar durante cerca de duas horas no filme de Sophie Fiennes, O Guia de Ideologia do Depravado (estreia 27 Nov.; DVD nas lojas a 5 Dez.), é uma experiência de invulgar perplexidade e fascínio.
Dizer que estamos perante um documentário sobre o pensamento cinematográfico de Zizek, sendo correcto, é também francamente insuficiente. Isto porque os muitos filmes que ele cita — incluindo Breve Encontro (David Lean, 1945), Música no Coração (Robert Wise, 1965), Zabriskie Point (Michelangelo Antonioni, 1970), Nascido para Matar (Stanley Kubrick, 1987) ou Eles Vivem (John Carpenter, 1988) — não surgem como momentos de um qualquer padrão histórico, mas sim como sistemas de ideias que, por assim dizer, Zizek observa, decompõe e recompõe para sustentar o seu discurso sobre a ideologia.
Porque é esse, de facto, o tema nuclear de O Guia de Ideologia do Depravado: o modo como nos descobrimos a viver e pensar no interior de sistemas ideológicos, sistemas tanto mais fortes quanto criam uma ilusão de naturalidade (das imagens, por exemplo) e transparência (das histórias contadas através de imagens).
Nesta perspectiva, importa referir que o título português “desvia” a lógica do original (falhando mesmo a sua dimensão paródica). Não é um “depravado” que se coloca em cena, mas um “perverso” — ele ousa pensar que é possível resistir à normalização da ideologia mesmo quando se pensa a partir dela (ironia a sublinhar: Zizek vai falando em cenários que imitam os ambientes dos próprios filmes citados). Assim, sendo o original The Pervert’s Guide to Ideology, o título correcto seria “O Guia do Perverso para a Ideologia”.
Estamos perante um filme que prolonga a colaboração de Fiennes e Zizek, iniciada em 2006 com O Guia de Cinema do Depravado (The Pervert’s Guide to Cinema). Mesmo quando as associações ou implicações propostas por Zizek nos suscitam dúvidas, somos enredados num pensamento de infinita (e festiva!) agilidade que nos convoca para o prazer do cinema como linguagem que nos aproxima do Absoluto, mas mantendo-nos paradoxalmente ligados à crueza da matéria. Podemos, a esse propósito, citar o próprio Zizek, no seu recente livrinho Event – Philosophy in Transit (Penguin, 2014): “O Absoluto rapidamente se decompõe, desliza facilmente pelos nossos dedos, tem de ser tratado com o mesmo cuidado com que tratamos uma borboleta”.
quarta-feira, agosto 27, 2008
Televisão / cultura / futebol
Há um velho estilo insultuoso de lidar com a crítica de televisão que diz, literalmente, que os críticos queriam era que só se passasse "bailado e ópera"... Porquê insultuoso? Porque para além de nunca ninguém ter escrito tal disparate, insulta-se o próprio conceito de crítica — ou seja, a vontade de pensar o que acontece à nossa volta (o pensamento, como é óbvio, pode ser desinteressante, mesmo medíocre, mas essa vontade é eminentemente respeitável em qualquer cidadão, crítico ou não).Nem que seja por defesa irónica, apetece dizer que chegámos a um ponto em que as televisões programam futebol e... futebol. De facto, a avalancha futebolística a que estamos a assistir favorece o triunfo de uma cultura do esquecimento. Esquecimento de quê? De tudo o que não goza da mesma evidência, desde as coisas mais óbvias (o cinema) às mais remotas (os torneios de bilhar às três tabelas, o ensino do violino ou os livros de Slavoj Zizek).
... Mas eu até gosto de futebol — diz-se, normalmente, nestas ocasiões. Mas não é isso que está em causa (mesmo gostando eu, muito, de futebol). O que está em causa é o afunilamento da nossa cultura audiovisual. Cultura? Sim, claro. Sendo a cultura a vida dos valores, não há nada mais cultural do que a televisão e as suas escolhas. Hoje em dia, o mais forte poder cultural não está nos ministérios nem nas instituições ditas culturais — está nas televisões. E programar é um acto cultural, por excelência.
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