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quinta-feira, julho 30, 2026

As redes sociais segundo Bruxelas

Matthew Broderick em Jogos de Guerra (1983)

Proteger a saúde física e mental dos europeus? Eis um programa que não pode ignorar as questões básicas de educação — este texto foi pubvlicado no Diário de Notícias (17 julho).

No portal oficial da Comissão Europeia, leio um texto de Bruxelas publicado a semana passada (10 de julho). Com um título motivador: “Comissão considera, a título preliminar, que a concepção geradora de dependência do Instagram e do Facebook viola o Regulamento dos Serviços Digitais”. Em causa está o facto de a Meta (proprietária do Facebook e de várias outras plataformas, incluindo o Instagram e o WhatsApp) não ter acautelado os efeitos “sociais” das suas “redes”.
Escusado será dizer que não se trata de julgar quem usa, ou não usa, tais dispositivos. O texto surge acompanhado por uma eloquente citação de Henna Virkkunen (vice-presidente executiva da Comissão responsável pela Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia). A saber: “A proteção da saúde física e mental dos europeus deve ser uma prioridade para as plataformas de redes sociais. O Regulamento dos Serviços Digitais prevê um quadro claro para responsabilizar as plataformas pela concepção geradora de dependência e pelos efeitos dos seus serviços. Estamos totalmente empenhados em fazer cumprir a nossa legislação na Europa.”
As boas intenções do texto não podem deixar de suscitar algumas memórias paradoxais sobre o entendimento político do “fenómeno” Facebook & afins. Importa não esquecer que a expressão ”redes sociais”, generalizada a partir da mudança de século, resulta de um roubo simbólico que nunca foi devidamente encarado no território, político por excelência, da educação. No sentido mais genuíno, redes sociais foram durante séculos entidades como a família de cada cidadão, o espaço profissional dos que partilham uma determinada forma de trabalho, porventura a instituição religiosa a que alguns possam pertencer. Como e, sobretudo, em nome de quê passámos a usar, automaticamente, sem reflexão, o adjectivo “social” para descrever e, mais do que isso, legitimar como um progresso civilizacional o facto de pertencermos a uma “rede” digital? Que “social” é esse em que podemos ser “amigos”, sem rituais de apresentação nem partilha de ideias, de um faroleiro da Noruega ou um pastor da Mongólia? Como é que semelhante infantilismo existencial foi vendido (e acolhido, Santo Deus!) como o êxtase da transparência humana?
O Facebook foi lançado em 2004. Quer isto dizer que 22 anos depois temos um documento (“a título preliminar”) que nos alerta para gravíssimos problemas que foram contaminando a nossa vida, pública e privada, perante um obsceno vazio de pensamento político. Claro que tem havido figuras políticas e vários governos a dar mostras de preocupações, e a promover medidas, para contrariar o esvaziamento social promovido pelas ditas redes. O certo é que o voluntarismo burocrático — fiscalizar & sancionar —, mais do que tardio, decorre de um total alheamento das questões educacionais que estavam em jogo.
A maioria dos políticos gosta de aparecer em consagrações de artistas, mas dá muito pouca atenção ao modo como alguns desses artistas vão observando, por vezes de modo profético, as convulsões do mundo. No campo do cinema, nem sequer estou a pensar apenas na obra-prima de David Fincher, A Rede Social (2010), escrita por Aaron Sorkin, sobre o nascimento do Facebook, não como um modelo de comunicação, mas uma estratégia de negócio. Penso, em particular, no premonitório Jogos de Guerra, realizado por John Badham em 1983 (um ano antes do nascimento de Mark Zuckerberg). Em contagiante tom de “thriller”, aí se demonstrava que a generalização dos computadores, em particular no quotidiano dos adolescentes, anunciava novos comportamentos, diferentes valores sociais, enfim, também uma nova linguagem. Porquê? Porque, como escreveu Ludwig Wittgenstein há mais de um século, “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” — eis uma ideia interessante para partilhar com os amigos.

sábado, abril 18, 2026

Falar [citação]

>>> ... falar é produzir um produto que vai ser oferecido num mercado...

Antenne 2
02/12/1982

segunda-feira, abril 13, 2026

A herança de Camus,
ou somos todos estrangeiros

O Estrangeiro: Benjamin Voisin, memórias de 1942

Eis o que podemos classificar como um verdadeiro ovni cinematográfico: François Ozon arrisca filmar uma nova versão de O Estrangeiro, de Albert Camus, relançando-o no imaginário do século XXI — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 março).

Se há filmes que nos surpreendem, mobilizam e, por fim, encantam através da sua solidão temática e expressiva, O Estrangeiro, de François Ozon (a partir de hoje nas salas), será, por certo, um desses filmes. Adaptado do romance de Albert Camus (1913-1960), há nele a obsessão, e também a obstinação, de um verdadeiro ovni cultural. Não pede desculpa, não procura justificações para repor na nossa actualidade os impasses existenciais e as dúvidas filosóficas que circulam por um livro lançado em 1942 (disponível numa edição de Livros do Brasil, com tradução de António Quadros).
Qualquer retrato da personagem central, Mersault, o homem cuja mãe morreu e que vai ser julgado por ter morto outro homem, depara-se com uma barreira descritiva. A saber: a sua existência de negação, ou melhor, de resistência a qualquer possível envolvimento com as regras sociais. Não que ele seja um rebelde político, antes um ser que transporta — e, de alguma maneira, suporta — o absurdo que Camus reconhece na condição humana. Num célebre artigo de 1943, publicado na revista Cahiers du Sud, Jean-Paul Sartre assim o disse: “(...) compreendemos perfeitamente o título do romance de Camus. O estrangeiro que ele quer retratar é justamente um desses terríveis inocentes que escandalizam uma sociedade porque não aceitam as regras do seu jogo. Ele vive entre estrangeiros, mas também para eles é um estrangeiro.”
A composição de Benjamin Voisin na personagem de Mersault será a primeira e fundamental componente dramática que faz com que o filme funcione como um metódico exercício de convivência com todo esse absurdo. Depois de ter trabalhado sob a direção de Ozon em Verão de 85 (2020), Voisin encarna o misto de sedução e mistério que faz de Mersault uma entidade alheada de qualquer compromisso social. Tal alheamento vai também esvaziando a sua relação amorosa com Marie (Rebecca Marder), instalando um cansaço afectivo em que até a própria sexualidade esgotou a ilusão efémera do prazer.
Depois, convém não esquecer que a acção de O Estrangeiro tem lugar na Argélia francesa (a independência ocorreu em 1962) e que o homem morto por Mersault é um árabe — aliás, ao contrário de Camus, que demora alguns capítulos a partilhar essa informação com o leitor, logo na abertura Ozon faz-nos saber que Mersault está preso e vai ser julgado. A ambiência colonial não tem, por isso, nada de nostálgico, mas também não está sujeita a qualquer codificação ideológica. Tudo acontece num equilíbrio instável, entre bonomia e violência, mascarado de pacto social.
Na ausência de laços consistentes com os outros, Mersault é um sintoma perverso da desordem desse mundo de que se quer excluir. Filmado por Ozon, o colonialismo alimenta-se da ilusão de uma ordem pacificadora que nega a própria vertigem suicida que circula pelas suas entranhas. Sem esquecer, claro, que também em 1942 Camus abria O Mito de Sísifo (Livros do Brasil, tradução de Urbano Tavares Rodrigues) com a frase que, para o melhor e para o pior, tende a resumir a perturbação nuclear da sua obra: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.”

Passado / presente

Em termos dramáticos, O Estrangeiro de Ozon não está muito distante da versão que Luchino Visconti filmou em 1967, com Marcello Mastroianni e Anna Karina. Não é uma questão de cópia, antes uma exigência de fidelidade ao espírito de Camus, mesmo se a palavra “espírito” parece inadequada para tudo o que vemos e ouvimos. Observe-se, a esse propósito, a crueza verbal do confronto com a personagem do padre e a revolta de Mersault perante a promessa de um “além” redentor. É, talvez, a única situação em que sentimos que a sua acção se confunde com o seu pensamento — o que, por fim, resume a sua tragédia.
Que tudo isto seja filmado em luminosas imagens a preto e branco, eis o que empresta ao filme a densidade de um objecto ancestral cuja vibração o tempo não anulou. Daí a “mensagem” austera de O Estrangeiro: contemplamos as feridas de um tempo que passou, mas a melodia existencial que dele emana pertence ao nosso presente.

sábado, fevereiro 07, 2026

Inteligência Artificial, ou uma história antiga

[ Pascaline ]

De que falamos quando falamos de Inteligência Artificial? Independentemente dos futuros, redentores ou demoníacos, para que a IA nos convoca, falamos (devemos falar) de uma história longa, não linear, impossível de conhecer através dos determinismos que pululam no território mediático em que, de uma maneira ou de outra, circulamos. Lembremos, por isso, o génio de Blaise Pascal (1623-1662).

Em 1642, Blaise Pascal tinha 19 anos e preocupava-se com o labor intenso e cansativo do pai enquanto responsável pelos tribunais fiscais (“Cours des Aides”) da cidade de Rouen, na Normandia — as contas que o seu trabalho exigia eram demoradas e complexas, podendo atrair erros que, mesmo por mera distração, viciavam de modo comprometedor a contabilidade oficial. Para ajudar o pai, Pascal criou um dispositivo mecânico, uma espécie de caixa metálica com um sistema de rodas dentadas, de nome Pascaline, que entrou para a história como uma dupla revolução: foi um objecto pioneiro na história das máquinas de calcular e, em boa verdade, ilustra uma genuína aplicação de Inteligência Artificial (IA), como tal surgindo inscrito nas “timelines” da sua história. Para nos recordar, assim, uma verdade rudimentar: as questões que enfrentamos, em particular as que cruzam “arte” e “ciência”, não nasceram quando demos conta da sua existência.
 
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* Este fragmento pertence a um texto publicado na edição nº 5 da revista gray-film, dirigida por José Machado. É uma publicação de acesso gratuito, disponível na plataforma Issuu.