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sábado, outubro 31, 2026

Mathieu Roger-Lacan — o desejo da escrita

Como chegámos a um ponto em que a agilidade da fala passou a existir através de uma assustadora decomposição da escrita? Que é feito do desejo de escrever?
Mathieu Roger-Lacan coloca essas questões de forma directa e construtiva, a propósito do seu livro Une Langue à Soi — questão francesa, questão universal (no programa Quotidien, de Yann Barthès, no canal TMC).

domingo, março 02, 2025

Julia Kristeva, "feminista atípica"

Definindo-se como uma "feminista atípica" (classificação filosófica plena de uma alegria primitiva), Julia Kristeva continua a sua esplendorosa viagem de observação e pensamento sobre as singularidades do feminino e do masculino, das possibilidades e impossibilidades do masculino/feminino.
Assim é o seu livro mais recente — Prélude à une Éthique du Féminin [Fayard, 2024] —, em que a ideia de processo resiste a qualquer esquematismo decorrente de algum estatuto. Ou como se escreve numa nota de apresentação da démarche do livro, indissociável da herança freudiana, não como "teoria" dos sexos, mas prática clínica com os seres singulares: "O feminino que o pensamento clínico de Julia Kristeva ausculta e revela é um feminino transformativo, condição e fonte da nossa capacidade de mudar, específica da psico-sexualidade humana, que se envolve com as identidades sexuais, de modo diferente da teoria do 'género'."
Certamente não por acaso, em conversa com a psicanalista e filósofa francesa Clotilde Leguil, na Livraria Mollat (Bordéus, 3 dezembro 2024), Kristeva sinaliza uma discreta, mas concisa, demarcação em relação ao pensamento de Judith Butler (autora, por exemplo, de Corpos que Contam), cuja multiplicidade fundadora tende a atrair formas de um esquemático militantismo — eis o belo diálogo Kristeva/Leguil.

sábado, novembro 26, 2022

Na companhia de Freud

Reflexão (auto-retrato), 1985

O LEFFEST celebrou o cinema, acolhendo também outras imagens, por exemplo de Freud, o pintor: com ele, reencontramos a verdade do realismo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 novembro).

Lucian Freud
Freud desceu à cidade. Eis aquele que poderia ser um título sugestivo para acolher as imagens de Lucian Freud (1922-2011) que a sua filha, Bella Freud, decidiu trazer à 16ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival. E insisto na palavra “imagens”: não apenas os quadros, mas memórias vivas do próprio pintor, num filme realizado por Jake Auerbach para a BBC — da série “Omnibus”, emitido a 20 de maio de 1988 —, documento precioso em que vemos e escutamos o próprio Freud num raro testemunho sobre o seu trabalho.
Freud sempre resistiu às formas banais (mais “mediáticas”, como agora é moda dizer-se) de exposição pública. O facto, aliás, é sublinhado logo na abertura do programa da BBC, dando conta do contexto em que o pintor aceitou ser filmado e falar um pouco do seu trabalho: foi em 1988, precisamente, por ocasião da retrospectiva que teve lugar na Hayward Gallery, em Londres.
Antes mesmo de Auerbach começar a colocar as suas perguntas, somos confrontados com uma longa, lenta e ritmada frase de Freud: a sua fala vai “colando” conjuntos precisos de palavras, dir-se-ia como quem escolhe as pinceladas certas para criar uma determinada figura ou volume. Embora consciente da dificuldade de tradução, eis uma possível versão: “Muitas pessoas mostram-se espantadas pelo facto de alguém sacrificar a possibilidade de algum conforto e daquilo que consideram uma vida agradável, vivendo antes uma vida de incerteza, talvez mesmo de solidão, dedicada àquilo que encaram como uma actividade incompreensível, com resultados que muito provavelmente nem sequer alterarão a sua situação em termos económicos — a ideia de tudo isso é, para muitas pessoas, surpreendente, sobretudo para quem não ande a tentar fazer algo do mesmo género.”
No fim destas palavras, propondo um metódico jogo de espelhos, Auerbach dá a ver um dos auto-retratos do pintor, datado de 1985. Aliás, como mais à frente o próprio Freud explicará, a noção de “auto-retrato” é, para ele, muito discutível: aquele que faz o seu retrato não se pode ver a si próprio, a não ser através de algum tipo de reflexão — o título exacto do quadro é mesmo Reflexão (auto-retrato). A ambiguidade da classificação ajuda-nos a compreender a obsessão realista da sua obra — a esse propósito, o filme cita o crítico Robert Hughes (autor de um programa clássico da BBC sobre a arte moderna, The Shock of the New, emitido em 1980), considerando que, naquele momento, Freud era “o maior pintor realista vivo”. As relações que estabeleceu com os seus modelos (não profissionais) são, nesse aspecto, esclarecedoras, já que Freud considerava mesmo que a noção corrente de “posar” é algo que, a todo o custo, procurava evitar: “Quero que aqueles que posam para mim sejam eles próprios, não quero utilizá-los para satisfazer uma ideia minha, como se se tratasse de escolher uma figura para ilustrar essa ideia. O que quero é pintar cada um deles — mesmo um gémeo igual não serviria como substituto.”
Embora este não seja um acontecimento “central” na programação do LEFFEST (afinal de contas, o festival propõe os mais recentes filmes de Cronenberg, Sokurov, Skolimowski, etc.), nele podemos reencontrar um tema hoje em dia desvalorizado pela avalanche de imagens quotidianas que consumimos sem qualquer distanciamento ou pensamento. A saber: a paixão pelo realismo e pela sua verdade — na certeza de que não há “um” realismo, mas vários realismos, cada um ligado a determinado contexto histórico e criativo.
Essa verdade tem tanto de físico como de imaterial e imponderável. Uma vez, num dos seus apontamentos, Freud escreveu: “A aura que emana de uma pessoa ou de um objecto pertence-lhes tanto como a sua carne.” A frase é citada no livro Breakfast with Lucian (Vintage Books, Londres, 2015), escrito pelo jornalista Geordie Greig a partir de conversas ao pequeno almoço durante os últimos dez anos de vida do pintor.
Inevitavelmente, Greig confrontou o amigo Lucian com a possibilidade de ter sido influenciado pelo avô, Sigmund Freud (1856-1939), fundador da psicanálise. “Nunca penso dessa maneira”, respondeu-lhe o pintor que, como Greig sublinha, considerava que “demasiada análise era paralisante”. Por isso mesmo, fiquemos por aqui, celebrando a presença de Freud entre nós, na certeza de que o neto tinha uma memória muito terna do avô: “Gostava muito da sua companhia. Nunca era aborrecido. Contava-me anedotas.”

domingo, março 28, 2021

Cinema & psicanálise — um blog

Cinema e psicanálise.
Cinema "sobre" psicanálise?
Psicanálise para "explicar" os filmes?
Talvez um pouco de uma coisa e outra, mas apenas como adendas. O essencial envolve a ideia de que cinema e psicanálise podem pensar, e pensar-se, em conjunto. Mais do que isso: dir-se-ia que no seu trabalho de muitos paralelismos e cruzamentos, encontramos as marcas cronologicamente remotas, mas simbolicamente próximas, de convulsões que marcaram a transição dos séculos XIX/XX, desafiando o ser humano a repensar de forma radical o seu lugar no mundo — e, nessa medida, a sua relação com o outro.
O blog 'Cinema & Psicanálise', de Ana Belchior Melícias & Elsa Couchinho, nasce de tais cumplicidades, do desejo de conhecer que envolvem e promovem. As autoras são psicanalistas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association, psicanalistas da Criança e do Adolescente, formadoras do Instituto de Psicanálise e apresentam uma proposta que vale a pena seguir: escrever sobre filmes celebrando a ancestral aliança entre "saber" e "sabor".

>>> Move-nos a paixão pela Psicanálise, esse espaço infinito e criativo de indagação e descoberta das motivações inconscientes. Em cada gesto. Em cada produção humana.
Na tela cinematográfica mergulhamos num plano tantas vezes próximo do onírico e emergimos sustentados pelo insight que o pensar psicanalítico permite.
Entre atmosferas, ritmos, paisagens, personagens e histórias, deixamo-nos tocar para que passem a fazer parte de nós, do nosso imaginário, enriquecendo narrativas, permitindo novas rêveries. Afinal, saber vem de sabor, assim como o pensamento advém da emocionalidade.
Este blog é um espaço intermediário, nem de cinema, nem de psicanálise, mas do diálogo e da articulação plástica entre cinema e psicanálise...

>>> Cinema & Psicanálise.