terça-feira, janeiro 03, 2017

London Grammar, 2017

Tudo começa com a voz densa e enigmática de Hannah Reid, num cenário de obscura solidão: os London Grammar abrem o ano com um belo single, retomando o sofisticado gosto pelo envolvimento orquestral. Foram uma das grandes revelações de 2013, com If You Wait, preparando o segundo álbum para 2017 — para já, eis Rooting for You.

Let winter break
Let it burn 'til I see you again
I will be here with you
Just like I told you I would
I'd love to always love you
But I'm scared of loneliness
When I'm, when I'm alone with you

I know it's hard
Only you and I
Is it all for me?
Because I know it's all for you
And I guess, I guess
It is only, you are the only thing I've ever truly known
So, I hesitate, if I can act the same for you
And my darlin', I'll be rooting for you
And my darlin', I'll be rooting for you

And where did she go?
Truth left us long ago
And I need her tonight because I'm scared of loneliness with you, baby
And I should let it go
But all that is left is my perspective, broken and so left behind again

I know it's hard
(...)

2016, um disco — "Blackstar"


N. G.: Está praticamente a passar um ano sobre a data em que este disco era anunciado como um novo disco a ser lançado no dia em que David Bowie celebraria o seu 69º aniversário. Da memória dos dois temas do single editado em 2014, no qual estabelecera uma desafiante colaboração com a orquestra de Maria Schneider às sugestões recentes do tema-título (um dos mais assombrosos dos singles de toda a obra do músico) e do assombrado Lazarus (do qual não descodificámos na altura a profundidade do seu real sentido), sabíamos que Blackstar seria um espaço de experimentação como há muito não se ouvia num disco seu. Desde 1995. Desde 1.Oustide, para sermos precisos. Mas aqui havia algo de novo em jogo. Apesar de uma vivência com o saxofone que precede todos os seus discos e de pontuais experiências em outros álbuns, nunca o jazz habitara o tutano de um disco seu. Nem nenhum parecia tão cheio de negrume como este que se anunciava. Se a 8 de janeiro, de 2016, a escuta das canções confirmou todas estas (melhores) expectativas com aquele que era até o seu melhor álbum desde o trio de discos "berlinenses" de finais dos anos 70, foi contudo dois dias depois que compreendemos a verdade aterradora que habitava todas aquelas canções. Aquele era um programa de despedida. Tão secreto, críptico e, ao mesmo tempo, arrebatador, como tudo aquilo a que nos habituou. 

J. L.: E se a morte fosse apenas uma canção?... Seja qual for a perspectiva por que encaremos o derradeiro álbum de David Bowie (ou até a sua obra global), não é possível contornar um facto tão simples quanto desarmante. A saber: com Blackstar, ele fez questão em escrever o derradeiro capítulo de uma serena autobiografia. Nada a ver com o narcisismo corrente de "famosos" & Ca. O que aqui encontramos enraíza-se numa ética e numa estética que recusam o aparato espectacular (?) com que a maioria dos circuitos mediáticos passou a lidar com a certeza da morte. Será preciso acrescentar que tudo isto envolve uma tocante celebração de vida? Rock'n'roll.

No país de Emir Kusturica (1/2)

Emir Kusturica e Monica Bellucci
Emir Kusturica continua a filmar memórias e fantasmas da história dos Balcãs — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Dezembro), com o título '“Era uma vez um país" no cinema de Kusturica'.

Nascido em Sarajevo, em 1954, o cineasta Emir Kusturica faz parte de uma geração violentamente marcada pela história atribulada dos Balcãs, em particular pelos eventos dramáticos que envolveram o fim da Jugoslávia, a guerra da Bósnia e a constituição da Bósnia-Herzegovina (na sequência do acordo de Dayton, assinado em Dezembro de 1995). Toda a sua obra, mesmo marcada por altos e baixos, pode ser vista como uma longa reflexão, polvilhada de angústia e paradoxal humor, sobre as convulsões da sua terra natal — o seu novo filme, Na Via Láctea, é mais um cristalino exemplo de tão singular trajectória.
Na origem do projecto, está a curta-metragem Our Life, realizada por Kusturica para Words with Gods (2014), um filme de episódios sobre a pluralidade das religiões (entre outros, nele colaboraram também a indiana Mira Nair, o israelita Amos Gitai e o iraniano Bahman Ghobadi). O próprio Kusturica assumia a personagem de um monge entregue a uma bizarra rotina de transporte de pedras, porventura satisfazendo alguma missão religiosa.
Em Na Via Láctea, reencontramos o monge, de novo interpretado por Kusturica, mas apenas na terceira parte do filme. Antes, ainda em tempo de guerra, ele é um “homem comum”, protagonista de uma peculiar odisseia: primeiro, cumprindo a rotina quotidiana de transportar leite numa zona montanhosa onde há frequentes tiroteios; depois, seduzido por uma mulher italiana (interpretada com calculada ironia por Monica Bellucci) que já foi cortejada por um oficial da SFOR, a força de paz multinacional liderada pela NATO...
Enfim, importa dizer que qualquer resumo que se limite a nomear as muitas “peripécias” do filme (incluindo uma delirante perseguição num campo pejado de minas onde pastam ovelhas...) passará sempre ao lado da sua respiração dramática. Porque, de facto, aquilo que Kusturica procura fazer é tudo menos um tradicional fresco histórico. O que, em qualquer caso, não exclui uma obsessão realista pelo detalhe, em particular na figuração da vida rural. Dir-se-ia que essa promessa de realismo se vai decompondo numa celebração surreal em que, desta vez, tirando partido dos efeitos digitais, o realizador combina os elementos mais insólitos, desde os voos poéticos dos amantes até à cobra gigante que... gosta do leite derramado na estrada.

Duas Palmas de Ouro

Kusturica mantém-se, afinal, fiel a si próprio. Para o confirmarmos, bastará recordar os dois filmes que já lhe valeram outras tantas Palmas de Ouro no Festival de Cannes (a par de autores como Francis Ford Coppola, Michael Haneke ou Ken Loach, ele é dos poucos que já conseguiu essa dupla consagração). Assim, O Pai Foi em Viagens de Negócios (1985) era uma observação clínica da Jugoslávia dos anos 50 e, em particular, da repressão com componentes estalinistas: a crueza dos factos surgia transfigurada e, por assim dizer, poeticamente superada pela vulnerável visão de um adolescente. Depois, Underground (1995) fazia o retrato da turbulenta amizade de dois homens, desde os tempos anteriores à Segunda Guerra Mundial até aos conflitos da década de 90, numa vertigem em que os sonhos e pesadelos conseguiam, por vezes, superar as coisas concretas, aliando vida e morte no espaço mágico do cinema — o seu subtítulo era todo um programa: Era uma Vez um País.
Para descrevermos os ritmos narrativos de Na Via Láctea, a metáfora musical é também, como sempre, irresistível. Desde logo porque sabemos que, na dupla qualidade de guitarrista e vocalista, Kusturica mantém a sua No Smoking Orchestra como uma combinação invulgar de raízes folclóricas com agressivas sonoridades rock e punk. Depois, porque a música deste filme foi composta por Stribor Kusturica, filho do realizador. Em boa verdade, todos os seus filmes questionam o que significa ter uma família e pertencer a um país.

John Berger (1926 - 2017)

Escritor, ensaísta, poeta, argumentista de cinema, foi um pensador de todas as heterodoxias: o inglês John Berger faleceu no dia 2 de Janeiro, em Paris — contava 90 anos.
Estudou em Londres, na Chelsea School of Art e na Central School of Art, começando a expor as suas pinturas em finais dos anos 40 — continuou, aliás, a pintar em todas as fases da sua vida. Desencantado com a sociedade britânica, mudou-se para França, onde viveu desde os primeiros anos da década de 60. Especialmente influenciado pelo pensamento de Walter Benjamin, em particular as suas reflexões sistematizadas em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, concebeu a série da BBC em quatro episódios Ways of Seeing, emitida em 1972, propondo uma reflexão ágil e multifacetada sobre as nossas relações com as imagens, desde a pintura clássica até à publicidade — a série daria origem a um livro homónimo, hoje com estatuto de clássico (publicado entre nós como Modos de Ver, Edições 70). No mesmo ano, o seu romance G., uma narrativa picaresca situada na Europa de finais do séc. XIX, recebeu o Booker Prize.
O seu nome ficaria indissociavelmente ligado à "nova vaga" do cinema suíço, através dos argumentos em que trabalhou para três filmes de Alain Tanner: A Salamandra (1971), O Centro do Mundo (1974) e Jonas que Terá 25 Anos no Ano 2000 (1975) — este último, em particular, uma antecipação romanesca do nosso séc. XXI, pode servir de emblema do misto de racionalismo e utopia que perpassa no seu universo.
Com mais de quatro dezenas de volumes publicados, Berger foi alguém que, no dizer de Susan Sontag, soube cruzar a "atenção ao mundo sensual" com os "imperativos da consciência" [ler retrato de Philip Maughan]. Da fotografia às formas de representação dos animais, nada foi estranho ao seu olhar, tudo lhe servindo para motivar cada leitor a encontrar o seu.

>>> Os quatro episódios da série Ways of Seeing.


>>> Obituário na New York Times.
>>> Uma vida em citações [The Guardian].

segunda-feira, janeiro 02, 2017

2016, Figura do Ano [internacional]
— BEYONCÉ

beyonce.com

N. G.: Uma carreira não de vislumbra ao cabo de um ou dois discos, por gigantesca que possa ser a expressão global que eventualmente tenham conquistado. E se por vezes há uma ânsia de encontrar "novos" ou "novas" qualquer coisa ao primeiro sinal de um sucesso maior, na verdade não há melhor sugestão senão a de conceder ao tempo... tempo. Ou seja, numa altura em que os consumos culturais (muito por consequência das vivências online) pulverizaram a velha ideia do blockbuster e tantos mega-fenómenos o são afinal coisa de uma época ou duas, às quais se sucede o silêncio (por vezes sob abrupta saída de cena), o tom prematuro com que se elegem novos ícones tem acabado, tantas vezes, em histórias afinal bem diferentes. Beyoncé é aqui um dos raros casos diferentes. E é talvez a única voz da sua geração que, disco após disco, digressão após digressão, conseguiu definir um estatuto global verdadeiramente perene. Sustentado, como se diz em discurso do "economês" político do nosso tempo. A sua é uma obra que tem sabido escutar pistas na música capazes de definirem uma linha central de acção embora aberta a outras ideias, sugestões, colaborações. E junta desde o início uma relação igualmente atenta e consistente com o trabalho no plano das imagens. Uma artista completa, sem dúvida. E que teve em Lemonade, de 2016, um exemplo evidente de uma visão que está longe de esgotada. 

J. L.: Vivemos no mundo global das "redes" e "plataformas", de tal modo que, não poucas vezes, passámos a confundir a mera proliferação de links em que nos movemos com a definição da nossa identidade (individual ou colectiva). Como David Bowie ou Madonna, Beyoncé é uma artista consciente desse labirinto criativo e informativo, tendo lançado o seu Lemonade como um objecto fascinantemente plural: um álbum que é também um video-álbum, uma celebração musical que se confunde com uma cerimónia política. Daqui a muitas décadas, quando se esbaterem as paixões mais aguerridas, e também mais voláteis, será definido como um símbolo exemplar da era Obama.

A IMAGEM: André Carrilho, 2017

ANDRÉ CARRILHO
Diário de Notícias
1 Janeiro 2017

domingo, janeiro 01, 2017

Moda & música

As relações entre o mundo da moda e todas as vertentes da música pop são mais do que uma questão meramente instrumental (quem usa o guarda-roupa de quem...). Em boa verdade, há entre os dois universos uma longa tradição de colaborações e cumplicidades em que, em última instância, cada um se pode reinventar através do outro. É isso mesmo que o livro Fashion + Music: Fashion Creatives Shaping Pop Culture, de Katie Baron, se empenha em dar a ver, evocando o trabalho de criadores como Stevie Stewart, Ariane Phillips, Jean-Paul Goode, Johnny Wujek ou Kansai Yamamoto — na passerelle surgem, entre outros, Madonna, Kylie Minogue, Lady Gaga, Grace Jones e David Bowie.

2016 — 5 fotogramas [Ivo Ferreira]

[ Sokurov ]  [ Disney ]  [ Skolimowski ]

Na sua contraditória fixidez, a intensidade do fotograma está muitas vezes ligada à especificidade do movimento (da câmara). Assim, neste caso, por exemplo: as palavras do narrador António (Miguel Nunes) — desde logo identificadas no título do filme: Cartas da Guerra — surgem através da voz de sua mulher Maria José (Margarida Vila-Nova), tudo integrado numa "descrição" visual que se apresenta neste calculado desequilíbrio. O filme faz com que o protagonista esteja constantemente a ausentar-se do centro da imagem, por vezes, como aqui acontece, coabitando com uma profundidade de campo que, paradoxalmente, amplia a sensação de claustrofobia. Dito de outro modo: para filmar memórias da Guerra Colonial (a nossa Guerra Colonial), o realizador Ivo Ferreira mostrou-nos que importa resistir à formatação "informativa" do território televisivo, reinventando as coordenadas do espaço e repensando o labirinto do tempo.

DJ Shadow e os aliens

O americano DJ Shadow tem o gosto do imponderável. Na música, nos gestos, nas encenações da música em imagens. Veja-se o teledisco de Bergschrund, tema do álbum The Mountain Will Fall (2016) em que conta com a colaboração do compositor e produtor alemão Nils Frahm... Encontros imediatos do segundo grau — a realização é de Matt Devine.